Registro de Setembro

Imagem simulando uma janela do windows com o texto REGISTRO DE SETEMBRO dentro.

Meu início de Setembro foi ver as pessoas na bienal e ficar chupando dedo, mas fora isso foi um mês bem corriqueiro e tranquilo.

Eu meio que decidi o que vou trazer de novo aqui para o blog, porém ainda estou em fase de elaborar e escrever, para ver se consigo fazer algo consistente. Talvez leve algum tempo até ver a luz do dia, mas estou disposto a esperar e fazer com calma. Toda vez que fiz com pressa, nunca ficou bom.

Novidades da Escrita

Terra Fraturada está nos capítulos finais (acho que faltam uns 3 para acabar), mas não consegui dar muita atenção a ele. Alguns prazos de outras coisas surgiram e eu corri para conseguir entregar a tempo.

Dito isso, o avanço foi feito, ainda que devagar. Vamos ver como ficar o mês de Outubro.

Novidades de Jogos, Leituras, e etc

Li a Estrada Infinita, um livro do autor Denys Schmitt. É uma história sobre dois adolescentes que sempre passavam pela mesma estrada no final do dia, tirando desse trecho calma, paz e diversão. Os diálogos e narração são bem feitos e cheios de regionalismos, além disso, é uma história gostosa sobre amizade, crescimento e autoconhecimento. Gostei muito como o autor escreveu o relacionamento entre Joel e Artur, e como essa amizade se expande quando uma terceira integrante se junto ao grupo.

Em seguida tive contato com The Synchronized Six, de Elmen Wynn, um web serial sobre seis pessoas que passam por uma experiência de quase morte, e então acabam conectadas umas com as outras. Tem um clima muito Sense8, mas em um mundo fantástico, onde eles utilizam uma energia chamada vitae para energizar maquinários, veículos e até mesmo armas. Achei interessante, porém senti que a trama avançou muito pouco ao longo do livro. Pode ser um efeito de ter que dividir os pontos de vista entre seis personagens, e também explicar como cada um foi parar ali e como reagiu ao acontecimento. Sinto que os primeiros 50% do livro são meio arrastados, mas depois ganhou tração e ficou bom. Vou conferir futuramente os livros seguintes.

Encarcerados, de John Scalzi com tradução de Petê Rissatti, foi uma boa surpresa. Eu gosto de um sci-fi de vez em quando, e esse combinando pessoas que ficaram presas no próprio corpo e que precisam se mover com auxílio de máquina, e uma investigação policial, ficou muito bom. Gostei muito, mas achei que o desenvolvimento da personagem Vann foi meio inexistente. Não que o livro precise desenvolver todo mundo, mas ela era dada como uma pessoa autodestrutiva, então esperei algo nesse sentido, mas saí de mãos abanando. Ainda assim, um livro muito bom, lidando com como pessoas se aproveitam de condições médicas para lucrar horrores, com a estranheza de alguém ter um corpo que não é bem o seu, e em como políticas públicas podem mudar o rumo de toda uma parcela de pessoas. Inclusive, tem no MEC Livros, então peguem lá.

Para finalizar, tive a leitura de Eu que não amo você, por Ana Carolina Dantas. É um conto divertidíssimo que alterna o ponto de vista entre Lionel e Samanta, pessoas que formam o casal real, mas que são tão egoístas e mesquinhos que poderiam ser considerados inimigos mortais. É uma dinâmica divertida e que funciona muito bem. Gostei que ao final da história eles se entendem, mas não resolvem exatamente todos os seus problemas, então continuam sendo pessoas ruins, mas agora um pouco menos ruins um com o outro. Mês que vem pretendo ler o próximo da série.

Registro de Agosto

Agosto. Mês dos cachorros loucos; mesmo eu não sendo cachorro, enlouqueci também (ou quase). E veja bem, nem foi por coisas que aconteceram em Agosto (Foi um mês tão sem nada que nem tenho o que comentar), mas sim por coisas que aconteceram e acontecerão.

A começar pela Bienal, que ocorre em Setembro (Está ocorrendo no momento da postagem). Não estarei lá, mas gostaria de ir. Sempre fui muito de observar as coisas, sem interagir muito, então sei de vários nomes e acompanho várias pessoas (galera do mercado editorial, eu não sou um stalker, juro!), e esse é um ano que eu gostaria de ir lá para talvez interagir. E claro que, não indo, qualquer coisa do evento que pipoca nas redes me deixa curioso, e também com um pouco de inveja de quem vai. Felizmente, sempre virão outras oportunidades, e também tem eventos aqui onde moro que posso frequentar.

Quanto as coisas que ocorreram, digamos que fazer uma análise retroativa da vida e dos movimentos que me levaram a estar onde estou não é uma atividade muito saudável quando não sinto que estou em um local “bom”. Não vou me estender aqui para não virar sessão de terapia, e também porque é algo que não adianta chorar sobre.

Eu quero ver se trago algo novo para publicar aqui no blog, com frequência incerta, mas ainda não decidi exatamente o quê. Então continuo na busca e, enquanto isso, vamos para os demais assuntos.

Novidades da Escrita

Continuar Terra Fraturada esse mês foi um desafio. Eu travei legal numa parte e escrevi vários capítulos que vou ter que reler com muita calma, porque me parecem um amontoado de nada sobre nada. E então certa segunda-feira entrei em colapso e usei o tempo de escrita para refletir e buscar uma saída do buraco.

Acontece que a saída estava do meu lado, eu só tinha que virar a cabeça em vez de seguir reto sem parar. E isso significa que o manuscrito está muito perto do fim, os arcos de personagens estão se fechando e a história se aproximando do clímax.

Espero que eu consiga executar o final conforme imaginei lá atrás, até o momento tudo indica que sim, mas vamos ver.

Novidades de Jogos, Leituras, e etc

Agosto foi meu mês do Sandersão. Li o Ritmo da Guerra, que estava pendente há um bom tempo, e achei ele bom. Adorei o arco do Kaladin e do Adolin, e pela primeira vez achei algo da Shallan insuportável. Sinto que não foi o melhor da série até agora, esse título ainda pertence ao Caminho dos Reis.

Também li O Homem Iluminado, daquele conjunto de livros do projeto secreto. Eu… não sei se gostei. Como sempre, eu adoro a ambientação e construção de mundo do Brandon, e nesse está muito boa, mas não gostei do conteúdo. Pareceu meio qualquer coisa; Nômade não é interessante, e achei meio babação de ovo da própria Cosmere. Claro que, lendo alguns comentários do Brandon, esse era para ser um livro com essa intenção, então talvez o errado seja eu.

Por último, terminei Sangue sobre Bright Haven. Esse foi o destaque do mês, com certeza. Além de um mundo tanto maravilhoso quanto terrível, acompanhar as descobertas de Sciona e o relacionamento dela com Thomil foi um misto de sentimentos bons e assustadores. O choque de opiniões, visões de mundo, de religião e bem ou mal tornam esse livro uma baita recomendação. Indo para um lado mais sombrio, os paralelos que são possíveis de traçar com acontecimentos (não só de hoje em dia, mas ao longo da história) em que genocídios e outros crimes são cometidos em nome de uma superioridade religiosa são outro ponto forte do livro.

Registro de Julho

Imagem simulando uma janela do windows XP com o texto "Registro de Junho"

E chegamos ao fim de Julho, longuíssimo Julho, com suas semanas intermináveis. Foi um mês difícil, com minha calopsita ficando bem doente e vários dias esperando que ela melhorasse. Mesmo agora que está estável, ela ainda não ficou 100%, e faz quase um mês dessa função.

Posso dizer com propriedade que o mito do artista que produz melhor enquanto está sofrendo é uma baita mentira. Sim, eu me agarrei na escrita e na tradução, mas não com aquela ânsia de produzir, em vez disso foi com o desespero daqueles que estão prestes a despencar no abismo. Era uma forma de me manter são e funcional, e ainda assim teve dias que eu só não queria levantar da cama.

Por padrão, eu tenho uma visão bem negativa de tudo. Por isso meu cérebro ansioso antecipa qualquer coisa que possa dar errado e, infelizmente, quando algo dá ruim, não é uma sensação de “Viu? Eu disse. Agora com licença, estou preparado”. É mais como se preparar para um incêndio, mas entrar em pânico e esquecer de todos os planos em meio ao fogo. Uma porcaria.

Para ser a cereja do bolo, em situações ruins tudo que eu faço parece péssimo. Tudo que escrevi e traduzi esse mês me deixa com um pé atrás, apesar de eu ter botado um esforço real e saber que está, no mínimo, mediano.

Chego ao final de Julho cansado, mas seguindo adiante. A tempestade não passou, porém os raios de sol atravessaram as nuvens mais escuras.

Novidades da Escrita

E dalhe quarto arco de Terra Fraturada. Estou explorando uma personagem bem difícil pra mim, porque, bem… segredo! Mas está sendo um desafio, e com a história se aproximando do fim, vou dando os pontos na trama, tendo uma visão do todo e descobrindo que algumas coisas não estão tão boas, ou que vou precisar acrescentar novos detalhes e construir alguns conflitos mais cedo no livro.

Também estou começando minha aventura pelo maravilhoso mundo do inglês! Escrevi um conto leve e bem-humorado, e minha meta para Agosto é conseguir dois contos, ou um que seja maior.

Novidades de Jogos, Leituras, e etc

Credo, leitura, eca! Brincadeiras à parte, minhas leituras foram muito dispersas esse mês. Comecei vários romances que larguei no meio do caminho, não por serem ruins, mas por não estar no estado mental certo para eles. No futuro talvez eu finalize e traga os comentários.

Quanto ao que concluí, li partes do volume quatro da revista Tales & Feathers, que tem uns contos bem leves e aconchegantes (Eram o meu alívio mental pós-almoço), e também li o maravilhoso Slayer of Dreams, da Beneath Ceaseless Skies volume 457, uma noveleta sobre um deus que se alimentava dos sonhos de seus súditos, deixando-os vazios e apáticos durante o dia, e o poder que nossos heróis têm sobre nós.

Também joguei o capítulo cinco de Deltarune. Ele tem uma temática oriental meio avulsa ao meu ver, mas é ótimo. Adorei o Flowery e a música tema da boss fight do capítulo. Porém, alguns detalhes da história estão me escapando porque já fazem *checada no google* OITO ANOS que lançou o primeiro capítulo. Vou ter que jogar tudo do zero quando sair a versão completa.

Armazenando corretamente seus artefatos mágicos após salvar o mundo

Autoria: Tina Connolly
Tradução: Guilherme Lopes Lacerda
Publicado originalmente em inglês na revista Uncanny (leia AQUI)

1. A Espada Safira, de polimento esmaecido. Em outro mundo, você ergueu a espada e, em sua mão o azul cintilou. Fez você sentir heroísmo até mesmo nos dias em que cortava e trespassava inimigos sem um pingo desse sentimento. E agora salvou aquele mundo, voltou através do portal, retornou ao lar. Batalhas modernas são travadas com palavras, tweets e conferências de imprensa, e você não precisa mais de um metro de aço encantado. Envolva a Espada Safira em várias camadas de oleado azul, espalhe sálvia por cima, e enterre no seu jardim durante a lua cheia.

2. As Botas de Sete-léguas, remendadas. Antes, as utilizava para percorrer o país em questão de minutos. Sempre à disposição de estar ao lado daqueles precisando de você. Sem um suprimento constante de cera encantada, os feitiços nelas vão logo desaparecer. Deixe-as em um armário escuro até que possa utilizá-las sem sair arrebentando portas. Após isso, pode usar o item sem preocupação enquanto tenta voltar à sua antiga vida, a vida que conheceu antes de dar os primeiros passos através do portal e emergir no meio de uma batalha. Essa antiga vida vai parecer estranha e descompassada, como um suéter desconfortável. As Botas, outrora incômodas, agora estão mais do que amaciadas. Tome cuidado, mesmo sem os feitiços, elas têm o costume de vagar.

3. A Capa de Armadura Protetoral, rasgada. Por favor, se atente ao fato dos Fios de Energia Vital costurados no tecido ainda estarem ativos, e continuarão a consumir a energia do usuário enquanto não forem removidos. É preciso retirá-los com um abridor de costura, e guardar os restos de Fio em um pote de conserva hermético. É normal chorar sobre ela enquanto a desfaz. Pode te surpreender, afinal, guardar a Capa que tanto te protegeu durante contendas deveria ser um momento celebratório. Mesmo após bastante tempo, se pegará ainda tentando se envolver nela. Novamente, é uma reação normal. Com os Fios removidos, a Capa perderá as propriedades mágicas mas também não consumirá sua força vital. Se vestir ela trouxer conforto, faça isso. Não há respostas erradas.

4. As Missivas de seus Companheiros no Coração do Território Inimigo, dolorosas. Entendemos que muitos heróis chegam ao lar com essas cartas ainda nos bolsos. O papel em que estão escritas não pode ser reciclado, pois possui um revestimento místico. E, no entanto, deixá-las onde te peguem de surpresa pode tornar difícil o processo de recuperação. Rasgue essas cartas de amor e resistência em pedacinhos, e os espalhe. Um tanto no bolso de uma jaqueta quente, oferecida a um conhecido. Vários outros como forragem para flores silvestre colhidas e dadas a um novo vizinho. Não há como substituir a família que você escolheu. Mas alguns destes fragmentos vão se enraizar e crescer.

5. O Anel Vítreo do Portal Transportador, quebrado. O estresse da travessia final para casa despedaça o Anel para além de qualquer reparo. Por favor destine os pedaços quebrados à lareira. Esta porta está fechada, e não reabrirá.

6. A Poção de Recuperação, cheia. Deixe ao lado da cama e tome conforme o necessário quando as memórias se tornarem insuportáveis. Você vai acordar por qualquer barulho durante um tempo. Um galho, batendo na janela, é um ogro pronto para te empalar. O rastejar de esquilos é um jato de fogo dracônico, segundos antes de se acender. Você vai acordar pela manhã, com a mandíbula cerrada, os olhos buscando o mensageiro real vindo noticiar os horrores mais recentes. O silêncio habita o seu quarto, e ele vai parecer uma armadilha.

7. O Guia do Heroísmo, manchado com o sangue de seu próprio coração. Antes, você costumava consultar este guia para tudo; como empenar flechas, como criar um veneno indetectável, como cair e cair e ainda assim se levantar mais uma vez. Deixou notas de resistência nele. Escreveu sobre seus triunfos, e seu desespero. Ele tem o jeito de abrir sempre na página que precisa. Pegue-o e veja abrir em uma página bem perto do fim. Armazenando corretamente seus artefatos mágicos após salvar o mundo. Você leu sobre guardar a Espada, as Missivas, e as Botas, e deixou o Anel na lareira e a Poção ao lado da cama.

Beba da Poção de Recuperação, ele diz. Beba novamente, e você o faz.

Vire a página quando se sentir capaz.

O que reciclou sem pestanejar? O que foi um desafio deixar de lado?

A Espada, aguardando na parte de trás do jardim, está regenerando. Precisa dar tempo para o sangue ser extraído do metal, para terra protetora se esgueirar e a recuperar.

O Guia, com as memórias do que sentiu, viu e ouviu, é um marco para o qual pode retornar quando as mentiras te cercarem no futuro. Eu estive aqui, ele dirá para você. Essas são as verdades que vi, esses são os horrores que tentei combater.

O Anel permanecerá despedaçado. Portais nem sempre são necessários para adentrar uma luta. E o problema com os mundos é que nunca permanecem salvos.

Agora descanse, instrui o Guia. Deixe seu corpo se recuperar.

E aguarde.

Registro de Junho

Imagem simulando uma janela do windows XP com o texto "Registro de Junho"

Ao abrir o documento para escrever o relato de Junho, eu percebi que lembro muito pouco do mês em si, e do que eu fiz. Lembro de partes soltas, algumas traduções, algumas sessões de escritas, mas muito pouco de como eu me senti durante esse período.

Acho que parte disso é por conta de eu ter espalhado muito as atividades. Tradução, preparação, escrita, leitura, junto com outras preocupações da vida, tudo ao mesmo tempo bagunça minha cabeça e faz ela expulsar algumas outras coisas. Para mim, Julho foi um longo mês que durou uma semana.

Foi tanta coisa na cabeça que acabei voltando um pouco ao meu vício de rede social, ao “doomscrolling”. Nos intervalos que eu tinha, a última coisa que eu queria era ler um livro, ou newsletter ou quadrinho. Muito mais fácil desligar o cérebro e ficar vendo reels no Instagram.

Mas não foi totalmente ruim. Esse meu tempo de cérebro inativo me permitia relaxar um pouco, e com a finalização de alguns cursos, as atividades vão estar mais focadas. Com sorte, me livro do vício em Julho, e trago mais coisas interessante por aqui.

Novidades da Escrita

A revisão do terceiro arco do Terra Fraturada foi finalizada. Infelizmente não consegui entrar muito de cabeça na escrita do arco seguinte, tive que reestruturar uma personagem e repensar alguns eventos.

Ainda assim, fiz progresso, e é isso que importa. Também estou satisfeito com o andamento do projeto, uma raridade.

Novidades de Jogos, Leituras, e etc

Com o anúncio da continuação, reli Gideon, a Nona. Eu tinha lido originalmente em inglês, logo antes de sair a tradução em PT-BR. É um livro muito bem-humorado e gostoso de ler. Juntar um bando de necromantes únicos (adoro os adolescentes e a fonte que usaram para representar algumas falas deles) em um planeta abandonado não tem como ser ruim. Ele tem suas tragédias e momentos tensos, com o mistério do Lyctordócio puxando a trama, mas a perspectiva de Gideon ajuda a aliviar o clima (em partes).

We Shall Now Begin Ethics é um mangá que comecei a ler anos atrás, quando ainda estava em lançamento. Como frequentemente acontece, eu esqueci de continuar, e só voltei agora. É a história de um professor de ética e as diversas turmas e alunos que ele acompanha e ajuda a resolver os problemas. E com “ajuda”, muitas vezes tudo que ele faz — e às vezes só pode fazer isso mesmo — é aconselhar, afinal, vários problemas são internos, e os externos são bastante delicados. Acho interessante a filosofia por trás de cada capítulo (Meu favorito sendo aquele em que um rapaz dorme muito tarde todos os dias porque é ansioso) e como o problema é resolvido, isso quando é resolvido.

Por fim, temos Sacred and Terrible Air, o livro de um dos criadores de Disco Elysium. Escrito na Estônia e sem uma versão oficial em inglês, a única forma de ler é baixando uma versão traduzida por fãs. É um livro que me deixa em conflito. Por um lado, a escrita cheira a Disco Elysium, tem aquele clima e aquele humor único, personagens complexos mas também um tanto caricatos. Por outro, sinto que faltou polimento, e isso pode ser por conta da tradução, ou estar no original. Conta a história de três garotos investigando o desaparecimento de quatro amigas. A investigação dura a vida inteira, começando aos treze e terminando lá depois dos trinta, quando o desaparecimento deixou marcas tão profundas e permanentes que a vida de cada um está praticamente arruinada. Por mais que tenha sido um livro interessantíssimo, o final foi bem abrupto e fiquei sem entender bem.

Registro de Maio

Imagem similar a uma janela do Windows XP, com borda azul, e botões de minimizar, maximizar e fechar. No centro está escrito REGISTRO DE MAIO.

Maio! Com ele finalmente chegou o frio e pude tirar meus cobertores do armário para ficar bem aconchegado na cama.

Estou seguindo “firme” no meu plano de me tornar tradutor. Entre aspas porque apesar dos cursos, leituras e treinos, sinto que ainda faço pouco e que deveria fazer mais. Descanso é transformado em relaxamento, diversão e socialização viram desperdício. Sei que posso fazer mais, mas também sei que é preciso descansar, deixar o conteúdo do dia se assentar na cabeça.

De certa forma, sou assim desde que entrei no mercado de trabalho. Algum senso de dever me obriga a fazer meu trabalho da melhor forma possível, entregar na data e não abandonar a galera que estavam lá fazendo hora extra. Não enxergo isso como se fosse algo ruim. Cumprir prazos é… bem, o mínimo que qualquer pessoa deveria fazer. Dar uma mão para colegas é ter empatia. Tentar atingir excelência em entregas se origina em gostar do que se faz.

Porém, essas qualidades são reforjadas como armas e apontadas na nossa cara. Se tornam cobranças ferrenhas vindo tanto de nós como dos outros, e de repente você só pode descansar se todos também estão descansando. Não quero discutir a origem disso, não tenho essa qualificação.

O que eu quero falar é sobre essa cobrança quando não tem ninguém olhando. Sim, eu tenho um prazo para começar a ganhar dinheiro, mas uma vozinha insistente na minha cabeça me diz que eu deveria ser mais rápido. Uma máquina incansável e imparável de estudo e escrita e tradução. Fazendo tudo com qualidade máxima.

Nessas horas, tento pensar que todos tem sua jornada. Mas e se minha jornada levar para um caminho precário? Fadado a desabar a não ser que eu me apresse antes do chão erodir.

Não tenho uma solução para esse problema, apenas estratégia. A atual é definir horários para começar e parar, assim controlo melhor a autocobrança. Se me sinto especialmente disposto, continuo por mais algum tempo, mas tento evitar. Não quero fazer com que meu “chefe interior” se acostume.

É difícil se adaptar agora que não tenho uma cobrança tão direta, mas vou indo como posso. Um pouco de cada vez.

Novidades da Escrita

Arco 3 do projeto Terra Fraturada foi concluído, e estou revisando ele. Sinto que fazer uma revisão de inconsistências a cada arco concluído me faz ter mais controle do processo e fico mais satisfeito com o andamento e resultado do livro.

Se tudo seguir conforme planejei, faltarão 2 arcos para encerrar. O que deve levar uns 2 a 3 meses, e então entramos na revisão do livro como um todo e todas as intermináveis edições até ficar minimamente agradável de se ler.

Novidades de Jogos, Leituras, e etc

Fortunato Poeira foi o destaque de Maio para mim. Que livro gostoso de se ler, e ao mesmo tempo finalizar ele deixa aquele desconforto de um luto. Sempre me surpreendo como a Anna Martino consegue fazer personagens tão vivos e com falas tão marcadas que eles parecem alguém que eu poderia encontrar virando a rua.

No início do mês, joguei Everhood. Eu tinha um pouco de medo por ser um jogo de ritmo e eu ser péssimo neles, mas no nível normal a dificuldade estava razoável. Gostei bastante do jogo, psicodélico do jeito que eu gosto, com umas músicas incríveis e personagens carismáticos. Os finais opcionais eu pulei porque esses sim eram difíceis.

Estou seriamente pensando em reler a Saga do Assassino. Já fazem mais de cinco anos que não leio, e queria ver como está minha percepção dos livros agora. Mas antes quero dar vazão nos nacionais que estão na minha lista há algum tempo e não terminei ou sequer comecei.

Relato de Abril

Se alguém me segue no Bluesky e lê meus posts, sabe que venho fazendo um diário de escrita desde o início do ano. Como consegui manter ele por vários meses, resolvi dar mais um passo e montar um relato consolidado por aqui, além de trazer outros detalhes.

Sempre quis fazer isso, mas minha antiga profissão sugava qualquer vontade de me comprometer com qualquer outra tarefa. Só escrever consumia o restante da minha energia. Manter um blog, fazer divulgação, gravar vídeos para Instagram e Tiktok? Sem chance.

Sei que tem muitos autores que conseguem fazer isso e, sinceramente, um parabéns de verdade para eles, os considero meus super-heróis da vida real. Eu não conseguia. Era tempo demais gasto com algo que traria um retorno financeiro ínfimo em comparação com meu trabalho oficial, ainda que o retorno emocional pudesse ser, em um futuro que tudo desse certo, muito maior.

E bem, digamos que minha demissão no início do ano após um período conturbado no trabalho me jogou em uma crise das brabas. Eu poderia continuar na programação, mas minha vontade era nula. Ou eu poderia arriscar uma carreira no mercado literário. E por essa newsletter, acho que já sabem qual foi minha resposta.

E cá estou, escrevendo todo dia útil, estudando (inclusive, se tiverem recomendações de livros ou materiais sobre tradução literária, deixem nos comentários), pensando, me desesperando, compondo esse relato.

Antes que o clima fique mais pesado, vamos passar ao que importa.

Novidades da Escrita

Predadores 2 ficou de canto, é uma história pesada e delicada demais para eu lidar no momento. Então venho focando no projeto Terra Fraturada, um livro único, mais leve e mais amigável, mas comprido. Comecei no início do ano e pensei em cinco partes para ele. Estou agora no meio da terceira, mas a velocidade está boa o suficiente para eu acreditar que termino o rascunho até o final do ano. Está como prioridade número 1 pra mim.

Além disso, estou elaborando um conto para a gringa. Vai ser bom? Não sei, mas eu queria escrever alguém transformando a rotina em speed run e vou aproveitar o momento para isso.

Novidades de Jogos, Leituras, e etc

Li os dois primeiros livros de Carl, o explorador de masmorras. Fazia tempo que eu não pegava uma série tão divertida. Mesmo eu odiando esse estilo de LitRPG (atributos, menus e tudo mais), ele trabalha muito bem com isso. Os protagonistas são carismáticos, e acompanhá-los em cada andar é um misto de tensão e gargalhadas. Adorei a tradução da Letícia Werner, os nomes de chefões ficaram incríveis e imagino o trabalho danado que deu para adaptar algumas referências. Para comprar, clique aqui.

Também li Mãe, irmã, garota mágica para fazer um vídeo. Já tinha lido ele um tempo atrás, mas precisei conferir novamente alguns detalhes. Se quiser conferir o resultado, está aqui no Instagram. Para comprar, clique aqui.

Terminei minha leitura de Yumi e o pintor de pesadelos. Um livro bem mais íntimo do Brandon sobre o fazer da arte, expectativas que os outros têm de nós, expectativas que temos sobre nós mesmos, e o que fazer quando a realidade e expectativa se chocam de maneira destrutiva. Para comprar, clique aqui.

De games, finalizei Bioshock, o primeirão. Muito gostoso sair dando porrada e congelando os inimigos com chave de boca no meio de uma cidade submarina em colapso. A reviravolta do final foi bem inesperada.

Já na parte de animes, terminei de assistir O verão em que Hikaru morreu. Tenho certo preconceito com animes de horror, eles raramente me pegam. Este foi diferente. A mistura entre horror de cidade pequena, um romance que tem tudo para dar errado e crenças bizarras caiu como uma luva. Além disso, o monstro principal foi muito bem desenvolvido. No aguardo da segunda temporada.

Para finalizar, estou ansioso para ver no cinema o final de Circo Digital.

Predadores: A Obsessão – Epílogo

Desenho monocromático. A imagem mostra um smartphone aberto em uma aplicativo de mapa, mostrando nele uma visão do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Há uma marcação redonda no mapa na localização aproximada da região metropolitana de Porto Alegre. Ao lado do celular há uma caneta, e acima, um papel rabiscado.
No canto superior esquerdo da imagem está escrito "Epílogo".

Uma casa de madeira abandonada e pequena, com a tinta descascando, tábuas rachadas e as persianas emperradas por estarem fechadas há tanto tempo. Um local que até mesmo pessoas em fuga evitavam, exceto se soubessem que não poderia haver nenhum perigo lá dentro, como era o caso de Pietro.

Por isso mesmo a casa fora selecionada para descanso, ele sabia muito bem que ninguém se arriscaria em uma estrutura instável e medonha. Mesmo sem conforto algum, era um bom local para preparar os próximos passos.

Pensou em como foi complicado escapar da Grande São Paulo, no quanto a região se encheu de predadores pouco tempo após Nicolas quebrar as barreiras entre os mundos. Era como se estivessem em sincronia, e bastou um saber que era possível para os demais fazerem o mesmo. Teve que dar tudo de si e de seu vestígio apenas para fugir de lá.

E não foi só no Brasil que ocorreu, foi no mundo inteiro. Nos Estados Unidos e Canadá, um predador baleia de proporções continentais surgiu no mar e saltou em direção à terra. Tsunamis devastaram parte da costa, e o corpo do predador fez o resto do trabalho, afundando quase metade do continente.

Em outros locais, o estrago se deu pela quantidade em vez do tamanho. Houve resistência, mas quando seu inimigo cria a base dentro de sua capital, transformando áreas densamente populosas em um ninho, é difícil se organizar. Além do mais, os originadores ainda possuíam sua habilidade de distorcer a realidade. Junte isso ao dano físico causado e está feita a fórmula do desastre.

O único lado bom, se é que dava para ser chamado disso, era que os vestígios podiam ser usados no mundo humano. Fora isso, só piorou. Não podiam mais se transportar entre territórios e locais do mundo, tampouco ter a certeza de que estavam seguros em casa.

Governantes abandonaram seu povo, insurreições surgiram para acabar com o pouco de Estado que havia, e tudo isso enquanto uma ameaça maior batia à porta. Teriam todos morridos se não fosse a necessidade dos originadores de estabelecerem um território e fixarem-se a ele. Isso criava uma chance de fuga e zonas seguras, mas não a longo prazo. Os territórios se expandiam aos poucos. Talvez em uma década ou duas o mundo inteiro fosse inseguro.

Olhou a bateria do celular marcando 50% de carga. Estranhamente, o caos atual não impediu energia elétrica, GPS e internet de continuarem funcionando, ainda que limitados a locais específicos. Era importante achar uma tomada funcional enquanto rumava para o sul.

Havia lá um foco de resistência, assim como em tantos outros lugares. O líder daquele era um portador assim como Pietro, e era mais seguro assim. Viu o que fizeram com outros, quando capturaram um portador capaz de produzir calor e usaram-no como uma fornalha para mantê-los aquecidos e cozinhar sua comida. Testemunhou um produtor de água ser preso em um tanque com o único objetivo de fazer mais e mais água. Acompanhou um imortal ser usado de escudo e isca para predadores, seu corpo sendo despedaçado a cada confronto apenas para remontar-se no dia seguinte e ser enviado ao combate em um ciclo sem fim.

Ter acesso a toda a informação do mundo em um celular era algo muito tentador para deixarem passar. Ele seria preso e usado sem qualquer remorso, tudo em nome do bem-estar comum.

No sul, com Fernando, Bárbara e outros que se reuniam por lá, imaginou que teria um futuro melhor. Isso se chegasse com vida. Haviam predadores no caminho, havia Magno estabelecendo controle sobre algumas regiões, e também outros portadores tão ou mais assustadores que o cultista, com seus poderes beirando o de um originador. Mesmo que enxergasse movimentos em tempo real, duvidava ser capaz de evitar todos os perigos.

Seus olhos pesaram enquanto descansava. Precisava dormir, nem que fosse por uma ou duas horas, mas tinha medo. Medo da vulnerabilidade que isso lhe trazia. Medo de acabar sonhando com um mundo menos escroto e acordar sabendo que, na realidade, só ia ficar pior.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 41

Desenho monocromático. A imagem mostra um humano de cabelos escuros e compridos, de olhos fechados e expressão serena. Sua única vestimenta é um saiote chanti, e na pele é possível ver uma tatuagem em formato de círculo em volta do coração, com linhas que passam pelo peito e vão até as costas. Está estendendo a mão para frente, como se a oferecesse para alguém pegar.
Atrás dele está o mar, refletindo a lua cheia.
No canto superior esquerdo da imagem há o número quarenta e um para indicar o capítulo.

Não conseguia dormir, nem ao menos era capaz de fechar os olhos, apenas observava a programação da madrugada na televisão muda. Tentou não pensar no amanhecer, mas era impossível, ele chegaria independente de sua vontade. Como explicaria no escritório o envelhecimento súbito? Conseguiria disfarçar com maquiagem? Quase riu. Mais de vinte anos perdidos, e sua cabeça teimava em orbitar em torno do trabalho. Que vida de merda.

Saiu do sofá e rumou até a cozinha, onde encheu um copo com água da torneira. O vidro tremia em suas mãos e não soube dizer se era algum efeito da idade ou nervosismo. Tentou firmar a mão, aumentar a força e parar de chacoalhar, porém apenas piorou. Em um urro misturado com um soluço de choro, atirou o copo contra o azulejo, vidro e líquido se espalharam pela parede e chão.

Deu tudo de si para sair daquele lugar terrível, e sentiu que passou a entender menos do mundo do que antes. Predadores eram pessoas. E daí? O que fazer com essa informação? Como vingar Igor? Como destruir o culto da justiça com isso?

Respirou fundo e saiu da cozinha, seus pés a levando para o quarto, e então de volta para a sala. Andou de um lado a outro, tentando se acalmar. Perderam Fernando, ela conhecia bem o rosto de alguém que desistia. Ele era inteligente, afinal de contas.

Nicolas nunca fora confiável, mas continuar ao lado dele estava fora de cogitação. Poderia tentar algo somente com Dominique, mas duvidava que a idosa fosse largar do engravatado.

Sobrava apenas agir sozinha, como deveria ter feito desde o início. Poderia ir para qualquer lugar que já tivesse estado usando o farol como ponte, seria fácil descobrir informações dos cultistas, assim como seria fácil roubar os recursos de que precisasse. Sim, sozinha não precisaria se preocupar com ninguém.

Seus pensamentos e pés foram interrompidos quando alguém bateu à porta. Com um pouco de receio, checou o celular e viu que passavam poucos minutos das três horas da madrugada. Caminhou devagar e observou através do olho mágico, enxergando dois policiais do lado de fora. Um deles estava próximo à porta, e o outro um pouco mais afastado. A expressão taciturna e a postura tensa revelavam que não estavam ali só para conversar.

Pensou no copo quebrado, mas pelo amor, já ouvira vizinhos urrando madrugada adentro e nada da polícia, imagina um copo. Não, a única outra possibilidade era uma pela qual Bárbara já vinha se preparando, apesar de tentar esconder. Ali, do outro lado de sua porta, estava a consequência por sequestrar Maurício. Mas como tinham descoberto? Será que alguém na polícia sabia dos territórios? Será que havia dedo dos cultistas naquilo?

Por um ínfimo instante, pensou em se entregar. Seria tudo tão mais fácil se parasse de resistir e aceitasse. Mas ela não podia, e não era por Igor, ou pelas demais vítimas, era por si.

Antes que qualquer decisão pudesse ser tomada, seu corpo tremeu com um grito que passou pelo apartamento, deixando para trás a sensação de enjoo que somente um predador era capaz de transmitir. Por instinto, tentou fugir para o farol, mas o transporte não ocorreu. Bateram à porta, mais forte dessa vez. Coração e mente aceleraram em um esforço conjunto para entender o ocorrido. Só ela tinha ouvido o grito? Era bem possível.

Observou os policiais, pensando em como ganhar tempo, em quais mentiras inventar e como justificar uma mulher de vinte e seis com cara de cinquenta e poucos. Qualquer desculpa elaborada desapareceu ao ver os agentes da lei passarem de humanos a monstros. Suas fardas mantinham a coloração bege, porém o tecido pulsava, subia e descia como se fosse feito de carne, a pele recebeu uma tonalidade preta quase brilhante, mas a maior mudança foi a cabeça, substituída por um enorme globo ocular que fitava a porta.

Bárbara recuou diante da visão dos predadores. Não estava preparada para outro confronto, era cedo demais. Outra batida na porta. Mais outra. E então uma pancada que arrombou a entrada, quase arrancando-a das dobradiças. Os policiais predadores não perderam tempo com apresentações e entraram atirando.

Ficou paralisada diante dos tiros, ainda tentando compreender o que se passava, e o corpo incapaz de mover-se mais rápido que os projéteis. Dor explodiu em seu crânio e peito, um sofrimento que sentiu tantas vezes antes e agora vinha para matá-la.

A jaqueta, fria em seu corpo desde quando voltara, aqueceu-se com as asas flamejantes nas costas. Bárbara vivia, seu vestígio de alguma maneira funcional no mundo humano.

Saraivadas voaram em sua direção, atingindo pontos vitais, mas deixando pouco mais do que fendas e dor em seu corpo. O olhar da motoqueira focou-se nos inimigos à frente. Eram nada mais que predadores e sabia o que fazer a eles. Deixou a jaqueta rugir, o líquido vazar e arrebentar seus arredores.

As criaturas foram eliminadas, seus corpos desfazendo-se diante da ira exposta. Bárbara se inclinou para frente, respirando pesado e apoiando as mãos nos joelhos. Sobrevivera, mas não havia nenhum sentimento de vitória enquanto seus olhos esquadrinhavam o apartamento destruído. Esqueceu-se de direcionar seu ataque, mas, mesmo assim, não esperava aquele feito.

Tudo na sala estava jogado, eletrônicos foram quebrados, móveis foram destruídos e o pior, a própria estrutura do local estava danificada. Sua explosão danificou chão, paredes e teto, muito mais frágeis na realidade do que em territórios. Os olhos de Bárbara se arregalaram enquanto ela ouvia um som que só pode caracterizar como a queda de um gigante. No segundo seguinte, o prédio desabou em sua cabeça.

Mesmo tentando manter-se firme, não teve apoio. Seu andar também desabou, indo em direção ao térreo e, sem qualquer ponto para manter os pés, Bárbara foi junto. De um segundo para outro não havia mais luz, também não havia ar, somente poeira e o peso dos escombros sobre si.

Sua única parca fonte de iluminação era o próprio corpo, cheio de fendas vermelhas vazando uma luz fraca aos arredores. Mesmo assim, não enxergava nada além de destruição. Incapaz de mover mais que um dedo, só lhe restava deixar o vestígio agir mais vezes. O fluído vazou e explodiu, movendo os destroços e reduzindo-os a pó. No entanto, não foi o suficiente para se libertar por completo.

Repetiu o processo mais vezes, estourando e avançando alguns centímetros em uma direção que esperava ser o final daquele pesadelo. Arrastou-se pelos entulhos com a fortitude dos desesperados, sentindo seus esforços serem recompensados quando enfim enxergou um fiapo de luz.

Ao emergir, engatinhando para longe da construção demolida, descobriu que haviam mais problemas. Enxergou ao longe um enorme prédio com uma cobra enrolada próxima a seu topo. No entorno de Bárbara, pessoas corriam e gritavam, fugindo de aberrações com apenas um olho em seu corpo. Muitos eram capturados, derrubados, e então devorados inteiros por bocas enormes. Após a refeição, os predadores se deitavam no chão e paravam de se mover. Não havia ninguém para ajudá-la, e pior, não havia ninguém para resgatar as pessoas que ela condenou.

Bárbara arriscou olhar para trás, enxergando seu prédio destroçado. Ouvia gemidos e gritos por ajuda no meio da destruição. Levantou-se cambaleante, tiraria aquelas pessoas de lá, salvaria elas. Porém, um passo na direção dos escombros fez seu joelho falhar e ela deu de cara no chão. Seu corpo estava mais fraturado que nunca, com fendas atravessando de lado a lado e criando seções semitransparentes. Pela primeira vez se perguntou qual era o limite de seu vestígio, e o que aconteceria ao chegar nele. Teve certeza que descobriria se tivesse que usá-lo mais uma vez. Além do mais, ela era resistente, mas não forte. Precisaria de uma ajuda que não viria em meio ao caos e morte.

Cerrou os punhos, mordendo um lábio que não sangrou, apenas rachou mais. Lágrimas caíram de seus olhos enquanto tomava a decisão mais desgraçada de sua vida, uma que nunca esperava ter que tomar. Aproveitou que boa parte dos predadores no local já encontrara uma vítima, e então caminhou para longe do prédio, procurando um lugar seguro e deixando para trás as vidas que ela mesmo sentenciou à morte.

***

Mesmo não querendo, mesmo tentando se afastar deles, foi impossível não acordar pensando nos predadores, principalmente por sentir que entrara em um território. Levantou-se da cama com um grito e acendeu as luzes do quarto, vendo tudo em seu devido lugar.

— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — perguntou Gabriel, tão rápido para despertar quanto o namorado.

Fernando correu para a sala e ligou as luzes. Tudo igual. Fez o mesmo na cozinha, banheiro e garagem. Normalidade pintava os ambientes, mas a sensação de perigo não o abandonava. Estava prestes a sair na rua quando uma mão pousou em seu ombro.

— Fê! O que foi?!

— Tem algo muito errado. — Fernando se virou. — Sinto como se estivéssemos perto de predadores, como se estivessem por aqui.

— Tem certeza? Não foi só um pesadelo? — Gabriel desceu a mão pelo ombro, passando pelo braço e chegando até a mão.

Poderia ser? Além de velho, ficava insano também? Acordaria todos os dias em pânico? Por que não conseguia tirar da cabeça a ideia de que algo mais estava acontecendo? Precisava confirmar.

Foi até a rua, ouvindo atrás de si os protestos de Gabriel. Olhou em volta, mais uma vez vendo que tudo estava normal. Quase se virou para o namorado, prestes a lhe dizer que tinha razão, que era tudo imaginação, mas então olhou para o oeste, em direção ao centro da cidade. A madrugada estava com o céu limpo, permitindo uma boa visão do horizonte, e foi assim que viu um prédio se agigantar em uma velocidade espantosa. Alguma coisa escalou a construção, enrolando seu corpo ao redor do edifício. Difícil identificar o que era de tão longe, mas Fernando sabia muito bem, pois tudo no seu corpo gritava para que fugisse o mais rápido possível.

Olhou na direção de Gabriel, esperando ouvir que estava ficando maluco, que poderia descartar aquela visão como uma alucinação, mas o namorado olhava perplexo para o horizonte. Era real, estava ali com eles.

Um grito do enorme predador chegou até os dois. Fernando tonteou e só não caiu por auxílio de Gabriel.

— O que é isso? É… uma daquelas coisas? — perguntou o namorado.

— É — respondeu Fernando, sentindo a força voltar às pernas. — Precisamos fugir daqui o mais rápido possível.

— Por quê? O que está acontecendo?

— Não sei. — Olhou para a moto, em seguida para Gabriel. — Sua família fica em Alvorada, certo? — Gabriel assentiu. — Então vamos para lá depois, vou passar na casa da mãe primeiro.

Fernando subiu na Honda, orientando Gabriel a pegar a mochila de entregas e qualquer objeto que servisse de arma. O namorado em seguida abriu os portões da garagem e subiu na garupa. Os dois dispararam pelas ruas do bairro.

Mais gritos surgiram, dessa vez de humanos. Aqui e ali Fernando enxergava predadores saindo de casas, ouvia pedidos de ajuda e ignorava cada um deles. Se tivesse que auxiliar todos, jamais chegaria a tempo de salvar sua família.

Passaram ao lado de um adolescente, correndo para longe de uma criatura com torso magro e braços humanoides longos, da cintura para baixo o corpo era como de uma cobra, cheio de escamas pretas e brancas, e sua cabeça era um globo ocular enorme. Apesar de se arrastar com os braços, a distância entre ele e sua presa diminuía. Fernando cometeu o erro de olhar para trás e enxergou o menino correndo com lágrimas nos olhos, usava uma camiseta velha e uma bermuda de tactel. O rapaz notou o olhar do padeiro e estendeu a mão em sua direção enquanto gritava por ajuda.

Não houve um fluxo de pensamentos que o levassem a essa decisão, quando deu por si, Fernando já tinha parado e saía correndo na direção do predador e do garoto.

— Para! O que está fazendo? — Gabriel gritou atrás de si.

O predador chegou perto de seu alvo e, com um tapa nas pernas, derrubou-o de cara no chão. A monstruosidade subiu por cima das pernas do garoto enquanto uma boca repleta de dentes humanos se abria no peito da criatura. Fernando urrou para chamar a atenção, mas foi ignorado. O padeiro cerrou a mandíbula, vencendo os metros finais entre ele e o monstro, e acertou uma ombrada que lançou os dois ao chão e libertou o adolescente.

Algo estalou em seu ombro enquanto caía e mover o braço direito causou-lhe pontadas de dor. Enquanto Fernando ainda estava no chão, o predador se recuperou e focou seu enorme olho castanho no humano, seu novo alvo, sua nova presa. Com agilidade, a criatura se aproximou e a boca em seu peito salivou com a expectativa de alimento.

Resistiu, tentando empurrar com seu braço esquerdo o ombro da criatura, manter aqueles dentes longe de si, mas o predador era mais forte e calou os esforços de Fernando com um soco quase casual no peito do humano. Outro estalo, desta vez mais alto, seguido de dor e pontos escuros na visão que quase fizeram Fernando desmaiar.

Antes que a criatura abocanhasse sua presa, um grito desesperado tomou conta do local. Subitamente, um martelo surgiu no campo de visão de Fernando e atingiu com tudo o olho do predador. A aberração recuou, e Gabriel continuou avançando, gritando e brandindo sua arma.

Desta vez, o predador interceptou o golpe, segurando o pulso do atacante antes que a orelha do martelo atingisse mais uma vez seu globo ocular. Com uma torção quase sem esforço, o pulso de Gabriel quebrou com um estalo, seguido do derrubar do martelo e do pé de cabra na outra mão. O homem não gritou pelo osso partido, em vez disso apenas observava o ferimento, os olhos arregalados e a boca aberta, paralisado.

A dor no peito e ombro de Fernando reduziu-se a um mero incômodo diante da cena de seu namorado sendo atacado. Ele ergueu-se, pegou um pé de cabra e lançou-se contra o predador, mirando no globo ocular que regenerava-se. De alguma forma, a criatura não tentou impedir os ataques que vinham em sua direção, e Fernando não deixou de aproveitar isso, fazendo chover golpes contra o olho.

A arma subia e descia, e logo o namorado estava ao seu lado, alternando golpes do pé de cabra com o martelo. Sempre que o predador tentava parar o golpe de Gabriel, Fernando lhe acertava e impedia qualquer resistência. A criatura parou de se mover, mas eles continuaram até não restar nada do olho além de uma massa disforme e gosmenta no chão, que não desaparecia como nos territórios.

Fernando olhou para Gabriel empunhando o martelo na mão esquerda enquanto a direita pendia em uma direção agoniante. Correu para a mochila largada ali perto e retirou um brioche, alcançando-o para o namorado.

— Coma!

— Mas tu vai…

— Coma!

Gabriel obedeceu. O efeito foi instantâneo, os ossos juntaram-se e logo o pulso estava funcional. Fernando, no entanto, segurou um grito de dor ao ter seu pulso quebrado, deixando escapar apenas um grunhido. Antes que Gabriel se apiedasse demais, o padeiro rumou até o garoto. Ainda estava deitado no chão, em choque desde o início do ataque, com uma poça formando-se entre suas coxas. Fernando não o culpava, inclusive se surpreendia de não ter se mijado também.

— Algum ferimento? — perguntou Fernando entredentes.

Sem resposta.

Gabriel se agachou perto do garoto e balançou seu ombro.

— Ei, guri!

Isso pareceu despertá-lo seja lá de qual sonho estivesse, seus olhos focaram-se nos dois adultos.

— Teu nome? — perguntou Gabriel.

— Vagner — respondeu o adolescente, se demorando em cada sílaba.

— Algum ferimento?

— Não.

— Seus pais, onde estão? — disse Fernando.

Os olhos castanhos do garoto marejaram e sua mão ergueu-se, um dedo apontando na direção do predador que acabaram de enfrentar. Fernando fechou os olhos, respirou fundo e abriu-os. Não tinha como consolar ele, não naquele caos, não quando, há algumas dezenas de metros, outras mortes ocorriam e eles ignoravam.

— Preciso que me ouça — começou, a voz ganhando confiança a cada palavra. — Precisaremos de carros e armas, pode ser martelo, pedaço de pau, qualquer coisa que dê para bater. Vai nos ajudar?

O adolescente assentiu devagar.

— O que estamos fazendo agora? — perguntou Gabriel, hesitando nas palavras.

— Salvando essa gente.

***

Mais uma vez, Dominique estava sozinha no farol. Saíra pela janela e sentara-se no teto em forma de cúpula, onde observou o mar escuro adiante, iluminado somente pelo luar refletido na água. Parecia que, quanto mais buscava sua liberdade, mais solitária ficava. Tinha certeza que Fernando jamais voltaria, Bárbara também não parecia inclinada a reaparecer quando se despediu, e Nicolas talvez até voltasse, mas não seria o mesmo. O território afetara todos os seus companheiros, e sem um vestígio capaz de manter seus corpos fortes, não durariam muito tempo na luta contra os predadores.

Queria estar se movendo, enfrentando inimigos, fazendo algo. A cada território, o tempo de espera tornava-se insuportável, e a adrenalina que sentia durante o confronto cada vez mais viciante. Talvez devesse explorar sozinha dali em diante, derrotar os originadores em ritmo acelerado e chegar mais perto de salvar as pessoas.

De repente, a estrutura tremeu e um vento quente veio do mar. Dominique se pôs de pé, ajustando seus olhos para enxergar o mais longe possível. Há vários quilômetros de distância, algo emergia da água. Mesmo tão longe, notou que era alguém alto, possuía cabelos pretos e compridos que caíam até as costas, a pele tinha um tom de bronze quase reluzente. Estava de olhos fechados e seu rosto possuía uma expressão serena, em seu torso nu havia uma tatuagem em formato de círculo no peito com ramificações que iam em direção às costas. Seus pés estavam descalços e um chanti completava o visual.

Dominique sentiu sua alma em conflito. Queria apenas ficar observando aquela pessoa de tão linda que era, mas também desejava estraçalhá-la, tamanho era o enjoo que o predador lhe causava. Entendeu que aquela presença era o que faltava nos outros territórios sem dono, e não era que o farol não possuísse um originador, ele apenas mantinha discrição. Antes que pudesse decidir qual rumo tomar, a criatura agiu. Esticou seu braço delgado com a mão aberta na direção de Dominique, como se lhe oferecesse ajuda, e então cerrou o punho.

De um segundo para outro, o cenário azul foi substituído pelo cinza escuro do asfalto. Dominique mirou seu entorno, tentando entender em que tipo de território fora jogada. Estava de noite e, ao seu redor, diversas casas protegidas por grades e, em alguns casos, cercas elétricas, estavam com os portões abertos. Espalhados pela rua haviam corpos humanos muito magros e ressecados, como se fossem múmias, e mais ao longe, descendo uma a inclinação, havia um grupo pequeno de pessoas afastando-se de onde Dominique estava. O corpo da idosa se retesou quando notou os predadores pairando um pouco acima da multidão. Como uma mola tensionada, lançou-se na direção das criaturas sem pestanejar.

Ao se aproximar dos inimigos, Dominique notou que seus corpos eram uma combinação de humano com inseto. O tronco e cabeça lembravam muito o de uma pessoa, mas as semelhanças paravam por ali. Das costas saíam duas asas compridas e diáfanas, os braços e pernas foram trocados por três pares de pernas insectoides revestidas de um exoesqueleto escuro. A cabeça possuía alguns tufos de cabelo, um par de olhos compostos onde antes ficavam os normais, a boca deu lugar a um par de mandíbulas de formiga e, entre elas, despontava o haustelo característico de um mosquito.

Dominique melhorou os músculos das pernas o quanto pôde e saltou. Esperava se chocar contra uma das criaturas, mas elas reagiram rápido e se afastaram o suficiente para evitar uma colisão, mas não o bastante para impedir que a idosa agarrasse a asa de um dos predadores e desse um puxão com toda a força.

A idosa aterrissou em pé e aguardou enquanto a monstruosidade fazia seu pouso errático. Mal tocara o chão e Dominique já estava sobre ela. Contrário do que esperava, o predador era ágil e difícil de acertar. Demorou uns bons segundos para atingir a lateral da cabeça com um soco, e ainda assim o esqueleto resistente da criatura aguentou o impacto.

Antes que pudesse desferir outro golpe, sentiu algo penetrando sua panturrilha direita. Olhar para trás revelou outro predador, com suas mandíbulas fechadas na perna da aposentada. Inúmeros inimigos sobrevoavam Dominique e alguns pousavam nos arredores. De um momento para outro, se tornara o alvo do enxame.

Precisaria de mais força, de mais resistência e de mais visão. Por sorte, seus inimigos já tinham tudo isso, então nem precisaria ser criativa. Replicou o exoesqueleto resistente dos inimigos, projetou os diversos olhos pelo seu corpo e elevou seus músculos ao limite do que sabia ser capaz. Girou para ficar de frente contra o predador que lhe agredia a perna, levantou o pé e baixou-o contra a cabeça dele. O golpe foi fatal, esmagando o crânio e espalhando a gosma roxa pelo entorno. Girou mais uma vez, focando-se no inimigo sem uma das asas e se impulsionando contra ele. Um gancho de direita foi o suficiente para finalizá-lo.

Mais e mais predadores chegavam e avançavam contra ela. Dominique sorriu e diminuiu a sensação de dor por todo o seu corpo, preparando-se para a longa noite que enfrentaria.

Ela lutou, matou e triunfou. Não soube dizer quanto tempo se passou desde o início do confronto, mas o sol raiava quando a última aberração morreu por suas mãos. Dominique ergueu os braços e um grito de vitória escapou por sua garganta, um triunfo que não foi apreciado por ninguém exceto ela. Mesmo com o corpo repleto de ferimentos, ainda se mantinha em pé, erguida apenas pela adrenalina e pela satisfação de estar no mundo humano e conseguir usar sua benção.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 40

Desenho monocromático. A imagem mostra um ser humano se transformando em uma cobra bizarra. O tronco ainda é humanóide, porém das pernas para baixo o corpo se estende por muito metros, e nesta extensão, estão surgindo diversos pares de braços. O pescoço é alongado e a cabeça é similar ao de uma cobra, porém com apenas um olho e com dentes humanos.
No canto superior esquerdo da imagem há o número quarenta para indicar o capítulo.

Olhar-se no espelho revelou o rosto pertencente a um velho. Suspirou, abriu a torneira e lavou o rosto com água, sentindo nos dedos enrugados as marcas que o tempo deixou na sua face. Não imaginava que, de todas as pessoas para se tornarem originador, Heitor seria uma delas. Aquele incompetente. Em seguida lavou o cabelo, juntando água na mão e levando-a até o topo da cabeça, onde deixava escorrer até a pia. Pouco a pouco, livrou-se do que restava do gel, pegou a toalha de rosto e se secou. Não se incomodou com os respingos espalhados pela pia e chão.

Seu corpo exigia descanso, um intervalo nas atividades para se acomodar à nova idade. A mente queria um tempo apagado para entender tudo que se passou, mas Nicolas ignorou essas necessidades e seguiu até a cozinha, onde, com movimentos mecânicos e decorados, colocou água e pó na cafeteira. Fechou os olhos enquanto ouvia o líquido sendo despejado no filtro e escorrendo até a jarra. Pegou sua maior caneca, serviu-se e caminhou até o quarto.

Seus pés pararam no batente que dava acesso à sala de estar. Lá, no meio do cômodo, estava um homem alto, de peito estufado e olhar confiante, com expressão séria e compenetrada, de feições meio quadradas e nariz romano. Trajava roupas simples, camiseta branca, calça jeans cinza e um par de sapatênis marrons. Havia algo preso na gola da roupa, um microfone de auditório talvez? De tudo para acontecer, Nicolas não esperava uma visita.

— Preciso me apresentar? — falou o homem, a voz alta e clara.

— Não. — Nicolas encarou-o. — O que o fundador de um culto faz aqui?

— Parabenizá-lo, é claro. Nunca imaginei que alguém fosse capaz de eliminar aquele território, era muito antigo e poderoso.

— E precisou vir até aqui para isso? Um e-mail ou mensagem já serviriam.

Magno sorriu.

— Também vim recrutá-lo.

Nicolas entrou em um território. Olhou em volta, notando os arredores iguais, porém sabia que fugir para o farol, ou qualquer outro lugar, seria inútil. Ainda tinha suas pílulas de fuga, e apesar de ter dúvidas quanto à eficácia delas, serviriam como um último recurso.

— Você entende que acabou de se prender aqui? — Nicolas franziu o cenho.

— Não tem problema, sairei quanto o território for desfeito.

A forca de Nicolas apertou ao mesmo tempo em que uma corda se materializou perto de Magno, enrolou-se no pescoço do cultista e começou a puxá-lo para cima com um solavanco. No mesmo instante, a corda desapareceu e ressurgiu no pescoço de seu invocador. Não fosse sua reação rápida em parar o vestígio, Nicolas ficaria suspenso.

— Não faça isso, vai apenas se machucar. — Magno balançou a cabeça. — Voltando agora ao tópico do recrutamento, você é especial, Nicolas. Não tinha nada, objetivos, amigos, familiares, sua morte não faria ninguém sentir falta, mas não se tornou um esquecido, tornou-se um portador…

Atacou mais uma vez, esperando pegá-lo desprevenido no meio da sua fala idiota. Assim que a corda estava prestes a afetá-lo, desapareceu e ressurgiu em Nicolas. Precisou desativar a habilidade antes que quebrasse o próprio pescoço. Aliviou o aperto do vestígio. Qual era o truque?

— Já disse, não vai funcionar. — Magno suspirou. — Se bem que explicar isso é inútil, pois assim como eu sou a justiça, você é a obsessão.

— E isso significa que você não pode ser tocado? — perguntou Nicolas.

— Não posso ser afetado por alguém praticando ações injustas. — Magno ostentava um sorriso arrogante.

Como se isso fosse verdade. Deveria ter algo que acionava sua habilidade, algum detalhe escondido no meio daquele show de confiança. Nicolas passou a olhá-lo de cima a baixo, tentando encontrar ao menos uma vulnerabilidade.

— Continuando nosso assunto, sua obsessão atual não vai levá-lo à nada. Predadores e originadores são nada mais que pessoas, e como você mesmo já viu, destruir um território é uma medida temporária. Sempre haverá um substituto para reconstruí-lo.

— Seja direto, para que quer me recrutar?

— Sem ataques dessa vez? Ótimo. — Magno bateu palmas uma vez. — Destruir os predadores é como enxugar gelo, por isso deveríamos fazer o contrário e abraçá-los. — Abriu os braços. — Territórios não interagem entre si, aqueles que estão presos em um nunca serão afetados por predadores de outro. Meu objetivo é formar minha própria zona e manter as pessoas seguras lá. É a única saída para o problema.

— Muito altruísta da sua parte. — Nicolas quase revirou os olhos com tamanha baboseira. — Nem parece que você oferecia pessoas aos predadores.

— O fardo dos líderes é saber quais recursos usar. — Ele fechou os olhos e abriu-os em seguida. Seu sorriso sumiu e a voz ficou mais baixa. — Eu preciso entender mais do funcionamento dos predadores. Foi graças a esses sacrifícios honrosos que descobri que pessoas à beira do colapso mental ou físico são mais propensas a serem raptadas. Por isso o perigo é tão grande: quem nunca olhou para o precipício escuro e infinito dentro de si e pensou em se atirar?

— E esses sacrifícios foram todos voluntários, imagino.

— Claro que não. É cruel, eu sei, mas a justiça raramente anda de mãos limpas.

— E quer minha ajuda nesse plano?

— Sim! Você liderou um grupo pequeno, mas conseguiram acabar com diversos territórios. Se alinharmos sua obsessão aos meus objetivos, imagine o que seremos capazes de alcançar? — Ele estendeu a mão para Nicolas. — O que me diz?

Nicolas observou a palma de Magno, e em seguida os pés do homem. Estavam mais perto, o cultista era confiante o suficiente para se aproximar. Nicolas deu dois passos curtos, esticando sua própria mão, e então riu. Riu como nunca havia feito. Seu corpo oscilou, derrubando algumas gotas de café no chão da sala.

— Realmente tentou me convencer com esse discurso idiota? Eu sei de quase tudo isso. Desde o primeiro território eu sei que predadores são apenas pessoas azaradas, e não levou muito tempo para descobrir que originadores são pessoas como eu e você. Como foi que chamou mesmo? Portadores?

Magno franziu o cenho. Não havia tristeza fingida ou sorrisos mascarados ali.

— Então por que continua enfrentando os territórios? Não vê que é inútil?

— Eu queria mais informações, simples assim.

— Agora que as tem, vai se juntar a mim?

Nicolas aproveitou a leve incerteza que sentiu na voz de Magno. O cultista apareceu achando que era capaz de influenciá-lo e agora tinha suas dúvidas. Como era bom acabar com as expectativas desse tipo de gente.

— Não. Sua solução parece possível, mas há outra mais interessante. — Nicolas sorriu. — Se predadores são pessoas, basta eliminar todas.

— Isso é… — Ele parou com a boca aberta por um momento — impossível! Como consegue ao menos falar algo assim?

— Como disse, eu sou a obsessão, a ideia combina comigo. Assim como a de um território “seguro” combina com você, que não é a justiça.

— Filho da puta — disse entredentes. O verdadeiro temperamento do cultista vazava, seus olhos chamuscavam Nicolas. — Mesmo que fale grande, sabe que não tem como sair daqui. Você não pode me parar, ninguém pode!

— Podem sim, e você sabe disso. — Fitou a xícara de café, que ainda estava fumegante. — Conheço duas pessoas com essa capacidade, a primeira sendo eu.

Levantou os olhos para Magno e atirou o líquido contra ele. Café acertou rosto e peito, arrancando um grito do cultista outrora tão confiante. Enquanto o homem recuava com a mão na face, Nicolas invocou a última corda de que precisaria. Ela enrolou-se no pescoço do alvo, mas antes que puxasse o maldito para cima, Nicolas viu os olhos de Magno entre os dedos que tapavam o rosto, focados e raivosos. Desfez sua corda antes que acabasse se enforcando sozinho.

— Para quem quer acabar com a humanidade, você hesita bastante contra um único homem. — Magno tirou as mãos do rosto vermelho e pingando com os restos do líquido.

Nicolas cerrou a mandíbula. Tinha a opção de fugir ainda, mas nada garantia que não seria rastreado, e na próxima vez viriam quando estivesse vulnerável. Era um confronto impossível de vencer com medidas meia-boca. Ou jogava tudo de si contra Magno, ou morria. Deveria ter pensado em alguma medida de emergência para esse tipo de situação, uma forma rápida de chamar Dominique e Bárbara, mas isso envolveria mostrar a elas sua localização. Tudo bem, usaria as ferramentas que tinha à disposição.

Aliviou o aperto do vestígio em seu pescoço e invocou dezenas de cordas contra Magno, cada uma mirando em partes diferentes do corpo, algumas com intenção de apenas restringir, outras com a missão de apertar até quebrar ossos. Enxergou os lábios do cultista movendo-se, e antes mesmo que as cordas o atingissem, trocaram o alvo para seu invocador.

Nicolas teve suas pernas puxadas para trás, os pulsos foram esmagados, os tornozelos quebrados e o aperto no seu pescoço se intensificou tanto pelo vestígio quanto por uma corda que mirava em Magno. Caiu no chão sem gritar nem tirar os olhos de seu alvo. Seja lá qual fosse a habilidade exata do cultista, era ativada pelos lábios e podia repelir vários ataques em diferentes partes do corpo. Funcionava com um número grande de atacantes também? Impossível dizer. O jeito era continuar pressionando.

Continuou criando mais cordas, desta vez tentando apenas apertar o cultista. Todas, sem exceção, trocaram o alvo. O aperto no pescoço se intensificava cada vez mais, e agora não tinha nem mãos disponíveis para aliviá-lo. Ainda assim, não parou, fez dezenas, centenas. Respirar tornou-se impossível com o aperto da forca e, mesmo sem querer, seu corpo debatia-se em busca de oxigênio, de mais uma inspiração para seus pulmões.

À sua frente, Magno continuava parado, fitando-o como um humano olharia para uma barata inconveniente. Nicolas sentiu-se satisfeito de ter acertado pelo menos o café, seria sua vitória mesquinha em vida. Materializou uma última corda, mas antes mesmo que ela fosse até seu alvo, o aperto do vestígio se intensificou e rompeu a resistência dos ossos. O pescoço amoleceu, e sua cabeça, antes erguida, tombou. Os olhos continuaram abertos, fixos no inimigo que mal conseguiu ferir.

— Uma perda de tempo. — Magno suspirou, passando a mão no rosto. — Só serviu para eliminar um incômodo. — Olhou na direção do escritório. — Pode desfazer o território.

— Eu desfiz — respondeu algo lá de dentro. — Mas tem outro ativo agora.

Magno virou o rosto para o homem morto no chão e seus olhos arregalaram-se. Não esperava esse resultado. Na sua cabeça, tinha uma vitória completa. Como era burro, nada mais que uma criança achando que sabia algo do mundo à sua volta. Nicolas sorriu, divertindo-se com a situação.

***

Longe de Magno e Nicolas, separado por centenas de quilômetros, Pietro sentiu um calafrio terrível percorrendo sua espinha, do tipo que só as visões mais terríveis traziam. Era o nascimento de um novo monstro, um novo originador, e algo a mais. Pegou seu vestígio, conectou os fones de ouvido no celular e ficou olhando para a tela, desejando que ela lhe mostrasse o que ocorria.

Não demorou muito para encontrar a fonte do medo. Se passava em uma sala de estar vazia, de um lado estava um homem, Magno, e pelo que obteve dele, era o líder de um culto problemático. Próximo a ele havia diversas pessoas ocupando o mesmo corpo, de forma que era impossível pesquisar qualquer informação sobre elas. No centro do cômodo, um cadáver de membros quebrados e pescoço esmagado, caído no chão igual um saco de pano. Reconheceu como Nicolas — já o pesquisara antes —, um homem um tanto estranho. O corpo do morto debatia-se, como se em uma convulsão, e sua cabeça de repente se desfigurou, ganhando a forma de uma cobra. O resto do corpo mudou mais rápido ainda, as pernas desapareceram, os braços multiplicaram-se por todo o tronco, que se alongou por muitos e muitos metros. Os olhos juntaram-se, formando um único globo grande e arregalado no topo da cabeça de réptil. E esse olho moveu-se, fitando Magno, e a cobra sorriu com os estranhos dentes humanos.

O cultista deu um passo para trás, com uma expressão estupefata no rosto.

— Por que não usa seu poder em mim? — perguntou o originador, fazendo seu alvo recuar novamente. — Essa é a diferença entre nós: eu estou disposto a abandonar tudo pelo meu objetivo, enquanto você se prende ao que não deveria. É fraco.

O corpo do predador preparou-se para um bote. Magno foi mais rápido, retirando uma pílula dourada do bolso da calça e engolindo-a. Desapareceu antes do ataque da cobra, e não demorou muito para as diversas pessoas desaparecerem também.

O originador olhou em volta. As paredes daquele lugar não mais pertenciam à sala de estar onde estavam antes, agora eram todas de metal, revestidas de ferrugem aqui e ali. Encontrou uma passagem circular e atravessou-a com o enorme corpo de quase 100 metros, usando as mãos para se arrastar como se não soubesse se locomover como uma cobra. Um predador muito estranho, ciente demais de si. Daria um nó no estômago de qualquer um que o visse.

Ele percorreu a extensão da sua nova moradia, vagando por salas e mais salas, muitas com canos de metal saindo pelas paredes e dificultando a passagem, mas o originador persistiu. Aos poucos, parou de usar os braços para se arrastar e passou a rastejar como o animal que parecia. Cessou o movimento somente quando chegou a uma sala sem saída.

Talvez fosse esperar ali, tornar aquela a sua sala e aguardar a chegada de vítimas, mas não. Começou a bater a cabeça na parede com pancadas que faziam o território tremer e o coração gelar. A cada impacto, o metal amassava e rachava. Além disso, sentia o território diminuir cada vez mais. De alguma forma, o predador estava destruindo sua própria morada. Por quê? Pietro sentiu os músculos retesarem com a pergunta.

A cobra bateu a cabeça na parede uma última vez e um buraco surgiu no lugar. O originador atravessou sem hesitação, emergindo em meio a uma rua larga o suficiente para quatro vias de carro, mas que agora era ocupada inteiramente pela criatura. Buscar por informações revelou que era algum lugar no centro de Porto Alegre, não arriscou ir atrás de mais dados para não se distrair dos acontecimentos que se desenrolavam.

A monstruosidade seguiu pela avenida, indo em direção ao Mercado Público. Os poucos transeuntes naquela hora de madrugada mal tinham tempo de entender o que se passava, bastava enxergarem o originador para que uma cobra menor se materializasse próximo a eles, os atacando e enrolando-se no corpo das vítimas. Restava aos humanos ficarem caídos no chão, sentindo a dificuldade em respirar enquanto o coração batia cada vez mais rápido. Nem a morte era certa, alguns ainda se tornavam predadores antes de perderem a consciência.

Antes de chegar ao prédio do Mercado Público, a cobra virou de repente, e aproximou-se de um prédio inacabado nas proximidades. Usando o corpo comprido e as mãos que tinha ao longo de sua extensão, subiu a construção pelo exterior. De alguma maneira, o prédio ganhava andares conforme o predador o escalava. Construção e aberração cresceram até que estivessem a quase mil metros do chão. Quando estava no topo, a criatura gritou.

A garganta de Pietro secou e sentiu mais um arrepio percorrendo seu corpo. Ao buscar por informações, soube que diversos outros originadores se descobriam capazes de quebrarem as barreiras de seus territórios e criavam moradas em nosso mundo.

Pietro removeu os fones de ouvido e parou de olhar para a tela do celular. Guardou tudo no bolso e saiu daquele território sem dono, voltando para casa. Os predadores evoluíram e pelo ritmo em que se desenvolviam, logo não restariam muitos locais seguros no mundo.