Uma casa de madeira abandonada e pequena, com a tinta descascando, tábuas rachadas e as persianas emperradas por estarem fechadas há tanto tempo. Um local que até mesmo pessoas em fuga evitavam, exceto se soubessem que não poderia haver nenhum perigo lá dentro, como era o caso de Pietro.
Por isso mesmo a casa fora selecionada para descanso, ele sabia muito bem que ninguém se arriscaria em uma estrutura instável e medonha. Mesmo sem conforto algum, era um bom local para preparar os próximos passos.
Pensou em como foi complicado escapar da Grande São Paulo, no quanto a região se encheu de predadores pouco tempo após Nicolas quebrar as barreiras entre os mundos. Era como se estivessem em sincronia, e bastou um saber que era possível para os demais fazerem o mesmo. Teve que dar tudo de si e de seu vestígio apenas para fugir de lá.
E não foi só no Brasil que ocorreu, foi no mundo inteiro. Nos Estados Unidos e Canadá, um predador baleia de proporções continentais surgiu no mar e saltou em direção à terra. Tsunamis devastaram parte da costa, e o corpo do predador fez o resto do trabalho, afundando quase metade do continente.
Em outros locais, o estrago se deu pela quantidade em vez do tamanho. Houve resistência, mas quando seu inimigo cria a base dentro de sua capital, transformando áreas densamente populosas em um ninho, é difícil se organizar. Além do mais, os originadores ainda possuíam sua habilidade de distorcer a realidade. Junte isso ao dano físico causado e está feita a fórmula do desastre.
O único lado bom, se é que dava para ser chamado disso, era que os vestígios podiam ser usados no mundo humano. Fora isso, só piorou. Não podiam mais se transportar entre territórios e locais do mundo, tampouco ter a certeza de que estavam seguros em casa.
Governantes abandonaram seu povo, insurreições surgiram para acabar com o pouco de Estado que havia, e tudo isso enquanto uma ameaça maior batia à porta. Teriam todos morridos se não fosse a necessidade dos originadores de estabelecerem um território e fixarem-se a ele. Isso criava uma chance de fuga e zonas seguras, mas não a longo prazo. Os territórios se expandiam aos poucos. Talvez em uma década ou duas o mundo inteiro fosse inseguro.
Olhou a bateria do celular marcando 50% de carga. Estranhamente, o caos atual não impediu energia elétrica, GPS e internet de continuarem funcionando, ainda que limitados a locais específicos. Era importante achar uma tomada funcional enquanto rumava para o sul.
Havia lá um foco de resistência, assim como em tantos outros lugares. O líder daquele era um portador assim como Pietro, e era mais seguro assim. Viu o que fizeram com outros, quando capturaram um portador capaz de produzir calor e usaram-no como uma fornalha para mantê-los aquecidos e cozinhar sua comida. Testemunhou um produtor de água ser preso em um tanque com o único objetivo de fazer mais e mais água. Acompanhou um imortal ser usado de escudo e isca para predadores, seu corpo sendo despedaçado a cada confronto apenas para remontar-se no dia seguinte e ser enviado ao combate em um ciclo sem fim.
Ter acesso a toda a informação do mundo em um celular era algo muito tentador para deixarem passar. Ele seria preso e usado sem qualquer remorso, tudo em nome do bem-estar comum.
No sul, com Fernando, Bárbara e outros que se reuniam por lá, imaginou que teria um futuro melhor. Isso se chegasse com vida. Haviam predadores no caminho, havia Magno estabelecendo controle sobre algumas regiões, e também outros portadores tão ou mais assustadores que o cultista, com seus poderes beirando o de um originador. Mesmo que enxergasse movimentos em tempo real, duvidava ser capaz de evitar todos os perigos.
Seus olhos pesaram enquanto descansava. Precisava dormir, nem que fosse por uma ou duas horas, mas tinha medo. Medo da vulnerabilidade que isso lhe trazia. Medo de acabar sonhando com um mundo menos escroto e acordar sabendo que, na realidade, só ia ficar pior.
Não conseguia dormir, nem ao menos era capaz de fechar os olhos, apenas observava a programação da madrugada na televisão muda. Tentou não pensar no amanhecer, mas era impossível, ele chegaria independente de sua vontade. Como explicaria no escritório o envelhecimento súbito? Conseguiria disfarçar com maquiagem? Quase riu. Mais de vinte anos perdidos, e sua cabeça teimava em orbitar em torno do trabalho. Que vida de merda.
Saiu do sofá e rumou até a cozinha, onde encheu um copo com água da torneira. O vidro tremia em suas mãos e não soube dizer se era algum efeito da idade ou nervosismo. Tentou firmar a mão, aumentar a força e parar de chacoalhar, porém apenas piorou. Em um urro misturado com um soluço de choro, atirou o copo contra o azulejo, vidro e líquido se espalharam pela parede e chão.
Deu tudo de si para sair daquele lugar terrível, e sentiu que passou a entender menos do mundo do que antes. Predadores eram pessoas. E daí? O que fazer com essa informação? Como vingar Igor? Como destruir o culto da justiça com isso?
Respirou fundo e saiu da cozinha, seus pés a levando para o quarto, e então de volta para a sala. Andou de um lado a outro, tentando se acalmar. Perderam Fernando, ela conhecia bem o rosto de alguém que desistia. Ele era inteligente, afinal de contas.
Nicolas nunca fora confiável, mas continuar ao lado dele estava fora de cogitação. Poderia tentar algo somente com Dominique, mas duvidava que a idosa fosse largar do engravatado.
Sobrava apenas agir sozinha, como deveria ter feito desde o início. Poderia ir para qualquer lugar que já tivesse estado usando o farol como ponte, seria fácil descobrir informações dos cultistas, assim como seria fácil roubar os recursos de que precisasse. Sim, sozinha não precisaria se preocupar com ninguém.
Seus pensamentos e pés foram interrompidos quando alguém bateu à porta. Com um pouco de receio, checou o celular e viu que passavam poucos minutos das três horas da madrugada. Caminhou devagar e observou através do olho mágico, enxergando dois policiais do lado de fora. Um deles estava próximo à porta, e o outro um pouco mais afastado. A expressão taciturna e a postura tensa revelavam que não estavam ali só para conversar.
Pensou no copo quebrado, mas pelo amor, já ouvira vizinhos urrando madrugada adentro e nada da polícia, imagina um copo. Não, a única outra possibilidade era uma pela qual Bárbara já vinha se preparando, apesar de tentar esconder. Ali, do outro lado de sua porta, estava a consequência por sequestrar Maurício. Mas como tinham descoberto? Será que alguém na polícia sabia dos territórios? Será que havia dedo dos cultistas naquilo?
Por um ínfimo instante, pensou em se entregar. Seria tudo tão mais fácil se parasse de resistir e aceitasse. Mas ela não podia, e não era por Igor, ou pelas demais vítimas, era por si.
Antes que qualquer decisão pudesse ser tomada, seu corpo tremeu com um grito que passou pelo apartamento, deixando para trás a sensação de enjoo que somente um predador era capaz de transmitir. Por instinto, tentou fugir para o farol, mas o transporte não ocorreu. Bateram à porta, mais forte dessa vez. Coração e mente aceleraram em um esforço conjunto para entender o ocorrido. Só ela tinha ouvido o grito? Era bem possível.
Observou os policiais, pensando em como ganhar tempo, em quais mentiras inventar e como justificar uma mulher de vinte e seis com cara de cinquenta e poucos. Qualquer desculpa elaborada desapareceu ao ver os agentes da lei passarem de humanos a monstros. Suas fardas mantinham a coloração bege, porém o tecido pulsava, subia e descia como se fosse feito de carne, a pele recebeu uma tonalidade preta quase brilhante, mas a maior mudança foi a cabeça, substituída por um enorme globo ocular que fitava a porta.
Bárbara recuou diante da visão dos predadores. Não estava preparada para outro confronto, era cedo demais. Outra batida na porta. Mais outra. E então uma pancada que arrombou a entrada, quase arrancando-a das dobradiças. Os policiais predadores não perderam tempo com apresentações e entraram atirando.
Ficou paralisada diante dos tiros, ainda tentando compreender o que se passava, e o corpo incapaz de mover-se mais rápido que os projéteis. Dor explodiu em seu crânio e peito, um sofrimento que sentiu tantas vezes antes e agora vinha para matá-la.
A jaqueta, fria em seu corpo desde quando voltara, aqueceu-se com as asas flamejantes nas costas. Bárbara vivia, seu vestígio de alguma maneira funcional no mundo humano.
Saraivadas voaram em sua direção, atingindo pontos vitais, mas deixando pouco mais do que fendas e dor em seu corpo. O olhar da motoqueira focou-se nos inimigos à frente. Eram nada mais que predadores e sabia o que fazer a eles. Deixou a jaqueta rugir, o líquido vazar e arrebentar seus arredores.
As criaturas foram eliminadas, seus corpos desfazendo-se diante da ira exposta. Bárbara se inclinou para frente, respirando pesado e apoiando as mãos nos joelhos. Sobrevivera, mas não havia nenhum sentimento de vitória enquanto seus olhos esquadrinhavam o apartamento destruído. Esqueceu-se de direcionar seu ataque, mas, mesmo assim, não esperava aquele feito.
Tudo na sala estava jogado, eletrônicos foram quebrados, móveis foram destruídos e o pior, a própria estrutura do local estava danificada. Sua explosão danificou chão, paredes e teto, muito mais frágeis na realidade do que em territórios. Os olhos de Bárbara se arregalaram enquanto ela ouvia um som que só pode caracterizar como a queda de um gigante. No segundo seguinte, o prédio desabou em sua cabeça.
Mesmo tentando manter-se firme, não teve apoio. Seu andar também desabou, indo em direção ao térreo e, sem qualquer ponto para manter os pés, Bárbara foi junto. De um segundo para outro não havia mais luz, também não havia ar, somente poeira e o peso dos escombros sobre si.
Sua única parca fonte de iluminação era o próprio corpo, cheio de fendas vermelhas vazando uma luz fraca aos arredores. Mesmo assim, não enxergava nada além de destruição. Incapaz de mover mais que um dedo, só lhe restava deixar o vestígio agir mais vezes. O fluído vazou e explodiu, movendo os destroços e reduzindo-os a pó. No entanto, não foi o suficiente para se libertar por completo.
Repetiu o processo mais vezes, estourando e avançando alguns centímetros em uma direção que esperava ser o final daquele pesadelo. Arrastou-se pelos entulhos com a fortitude dos desesperados, sentindo seus esforços serem recompensados quando enfim enxergou um fiapo de luz.
Ao emergir, engatinhando para longe da construção demolida, descobriu que haviam mais problemas. Enxergou ao longe um enorme prédio com uma cobra enrolada próxima a seu topo. No entorno de Bárbara, pessoas corriam e gritavam, fugindo de aberrações com apenas um olho em seu corpo. Muitos eram capturados, derrubados, e então devorados inteiros por bocas enormes. Após a refeição, os predadores se deitavam no chão e paravam de se mover. Não havia ninguém para ajudá-la, e pior, não havia ninguém para resgatar as pessoas que ela condenou.
Bárbara arriscou olhar para trás, enxergando seu prédio destroçado. Ouvia gemidos e gritos por ajuda no meio da destruição. Levantou-se cambaleante, tiraria aquelas pessoas de lá, salvaria elas. Porém, um passo na direção dos escombros fez seu joelho falhar e ela deu de cara no chão. Seu corpo estava mais fraturado que nunca, com fendas atravessando de lado a lado e criando seções semitransparentes. Pela primeira vez se perguntou qual era o limite de seu vestígio, e o que aconteceria ao chegar nele. Teve certeza que descobriria se tivesse que usá-lo mais uma vez. Além do mais, ela era resistente, mas não forte. Precisaria de uma ajuda que não viria em meio ao caos e morte.
Cerrou os punhos, mordendo um lábio que não sangrou, apenas rachou mais. Lágrimas caíram de seus olhos enquanto tomava a decisão mais desgraçada de sua vida, uma que nunca esperava ter que tomar. Aproveitou que boa parte dos predadores no local já encontrara uma vítima, e então caminhou para longe do prédio, procurando um lugar seguro e deixando para trás as vidas que ela mesmo sentenciou à morte.
***
Mesmo não querendo, mesmo tentando se afastar deles, foi impossível não acordar pensando nos predadores, principalmente por sentir que entrara em um território. Levantou-se da cama com um grito e acendeu as luzes do quarto, vendo tudo em seu devido lugar.
— O que foi? Aconteceu alguma coisa? — perguntou Gabriel, tão rápido para despertar quanto o namorado.
Fernando correu para a sala e ligou as luzes. Tudo igual. Fez o mesmo na cozinha, banheiro e garagem. Normalidade pintava os ambientes, mas a sensação de perigo não o abandonava. Estava prestes a sair na rua quando uma mão pousou em seu ombro.
— Fê! O que foi?!
— Tem algo muito errado. — Fernando se virou. — Sinto como se estivéssemos perto de predadores, como se estivessem por aqui.
— Tem certeza? Não foi só um pesadelo? — Gabriel desceu a mão pelo ombro, passando pelo braço e chegando até a mão.
Poderia ser? Além de velho, ficava insano também? Acordaria todos os dias em pânico? Por que não conseguia tirar da cabeça a ideia de que algo mais estava acontecendo? Precisava confirmar.
Foi até a rua, ouvindo atrás de si os protestos de Gabriel. Olhou em volta, mais uma vez vendo que tudo estava normal. Quase se virou para o namorado, prestes a lhe dizer que tinha razão, que era tudo imaginação, mas então olhou para o oeste, em direção ao centro da cidade. A madrugada estava com o céu limpo, permitindo uma boa visão do horizonte, e foi assim que viu um prédio se agigantar em uma velocidade espantosa. Alguma coisa escalou a construção, enrolando seu corpo ao redor do edifício. Difícil identificar o que era de tão longe, mas Fernando sabia muito bem, pois tudo no seu corpo gritava para que fugisse o mais rápido possível.
Olhou na direção de Gabriel, esperando ouvir que estava ficando maluco, que poderia descartar aquela visão como uma alucinação, mas o namorado olhava perplexo para o horizonte. Era real, estava ali com eles.
Um grito do enorme predador chegou até os dois. Fernando tonteou e só não caiu por auxílio de Gabriel.
— O que é isso? É… uma daquelas coisas? — perguntou o namorado.
— É — respondeu Fernando, sentindo a força voltar às pernas. — Precisamos fugir daqui o mais rápido possível.
— Por quê? O que está acontecendo?
— Não sei. — Olhou para a moto, em seguida para Gabriel. — Sua família fica em Alvorada, certo? — Gabriel assentiu. — Então vamos para lá depois, vou passar na casa da mãe primeiro.
Fernando subiu na Honda, orientando Gabriel a pegar a mochila de entregas e qualquer objeto que servisse de arma. O namorado em seguida abriu os portões da garagem e subiu na garupa. Os dois dispararam pelas ruas do bairro.
Mais gritos surgiram, dessa vez de humanos. Aqui e ali Fernando enxergava predadores saindo de casas, ouvia pedidos de ajuda e ignorava cada um deles. Se tivesse que auxiliar todos, jamais chegaria a tempo de salvar sua família.
Passaram ao lado de um adolescente, correndo para longe de uma criatura com torso magro e braços humanoides longos, da cintura para baixo o corpo era como de uma cobra, cheio de escamas pretas e brancas, e sua cabeça era um globo ocular enorme. Apesar de se arrastar com os braços, a distância entre ele e sua presa diminuía. Fernando cometeu o erro de olhar para trás e enxergou o menino correndo com lágrimas nos olhos, usava uma camiseta velha e uma bermuda de tactel. O rapaz notou o olhar do padeiro e estendeu a mão em sua direção enquanto gritava por ajuda.
Não houve um fluxo de pensamentos que o levassem a essa decisão, quando deu por si, Fernando já tinha parado e saía correndo na direção do predador e do garoto.
— Para! O que está fazendo? — Gabriel gritou atrás de si.
O predador chegou perto de seu alvo e, com um tapa nas pernas, derrubou-o de cara no chão. A monstruosidade subiu por cima das pernas do garoto enquanto uma boca repleta de dentes humanos se abria no peito da criatura. Fernando urrou para chamar a atenção, mas foi ignorado. O padeiro cerrou a mandíbula, vencendo os metros finais entre ele e o monstro, e acertou uma ombrada que lançou os dois ao chão e libertou o adolescente.
Algo estalou em seu ombro enquanto caía e mover o braço direito causou-lhe pontadas de dor. Enquanto Fernando ainda estava no chão, o predador se recuperou e focou seu enorme olho castanho no humano, seu novo alvo, sua nova presa. Com agilidade, a criatura se aproximou e a boca em seu peito salivou com a expectativa de alimento.
Resistiu, tentando empurrar com seu braço esquerdo o ombro da criatura, manter aqueles dentes longe de si, mas o predador era mais forte e calou os esforços de Fernando com um soco quase casual no peito do humano. Outro estalo, desta vez mais alto, seguido de dor e pontos escuros na visão que quase fizeram Fernando desmaiar.
Antes que a criatura abocanhasse sua presa, um grito desesperado tomou conta do local. Subitamente, um martelo surgiu no campo de visão de Fernando e atingiu com tudo o olho do predador. A aberração recuou, e Gabriel continuou avançando, gritando e brandindo sua arma.
Desta vez, o predador interceptou o golpe, segurando o pulso do atacante antes que a orelha do martelo atingisse mais uma vez seu globo ocular. Com uma torção quase sem esforço, o pulso de Gabriel quebrou com um estalo, seguido do derrubar do martelo e do pé de cabra na outra mão. O homem não gritou pelo osso partido, em vez disso apenas observava o ferimento, os olhos arregalados e a boca aberta, paralisado.
A dor no peito e ombro de Fernando reduziu-se a um mero incômodo diante da cena de seu namorado sendo atacado. Ele ergueu-se, pegou um pé de cabra e lançou-se contra o predador, mirando no globo ocular que regenerava-se. De alguma forma, a criatura não tentou impedir os ataques que vinham em sua direção, e Fernando não deixou de aproveitar isso, fazendo chover golpes contra o olho.
A arma subia e descia, e logo o namorado estava ao seu lado, alternando golpes do pé de cabra com o martelo. Sempre que o predador tentava parar o golpe de Gabriel, Fernando lhe acertava e impedia qualquer resistência. A criatura parou de se mover, mas eles continuaram até não restar nada do olho além de uma massa disforme e gosmenta no chão, que não desaparecia como nos territórios.
Fernando olhou para Gabriel empunhando o martelo na mão esquerda enquanto a direita pendia em uma direção agoniante. Correu para a mochila largada ali perto e retirou um brioche, alcançando-o para o namorado.
— Coma!
— Mas tu vai…
— Coma!
Gabriel obedeceu. O efeito foi instantâneo, os ossos juntaram-se e logo o pulso estava funcional. Fernando, no entanto, segurou um grito de dor ao ter seu pulso quebrado, deixando escapar apenas um grunhido. Antes que Gabriel se apiedasse demais, o padeiro rumou até o garoto. Ainda estava deitado no chão, em choque desde o início do ataque, com uma poça formando-se entre suas coxas. Fernando não o culpava, inclusive se surpreendia de não ter se mijado também.
— Algum ferimento? — perguntou Fernando entredentes.
Sem resposta.
Gabriel se agachou perto do garoto e balançou seu ombro.
— Ei, guri!
Isso pareceu despertá-lo seja lá de qual sonho estivesse, seus olhos focaram-se nos dois adultos.
— Teu nome? — perguntou Gabriel.
— Vagner — respondeu o adolescente, se demorando em cada sílaba.
— Algum ferimento?
— Não.
— Seus pais, onde estão? — disse Fernando.
Os olhos castanhos do garoto marejaram e sua mão ergueu-se, um dedo apontando na direção do predador que acabaram de enfrentar. Fernando fechou os olhos, respirou fundo e abriu-os. Não tinha como consolar ele, não naquele caos, não quando, há algumas dezenas de metros, outras mortes ocorriam e eles ignoravam.
— Preciso que me ouça — começou, a voz ganhando confiança a cada palavra. — Precisaremos de carros e armas, pode ser martelo, pedaço de pau, qualquer coisa que dê para bater. Vai nos ajudar?
O adolescente assentiu devagar.
— O que estamos fazendo agora? — perguntou Gabriel, hesitando nas palavras.
— Salvando essa gente.
***
Mais uma vez, Dominique estava sozinha no farol. Saíra pela janela e sentara-se no teto em forma de cúpula, onde observou o mar escuro adiante, iluminado somente pelo luar refletido na água. Parecia que, quanto mais buscava sua liberdade, mais solitária ficava. Tinha certeza que Fernando jamais voltaria, Bárbara também não parecia inclinada a reaparecer quando se despediu, e Nicolas talvez até voltasse, mas não seria o mesmo. O território afetara todos os seus companheiros, e sem um vestígio capaz de manter seus corpos fortes, não durariam muito tempo na luta contra os predadores.
Queria estar se movendo, enfrentando inimigos, fazendo algo. A cada território, o tempo de espera tornava-se insuportável, e a adrenalina que sentia durante o confronto cada vez mais viciante. Talvez devesse explorar sozinha dali em diante, derrotar os originadores em ritmo acelerado e chegar mais perto de salvar as pessoas.
De repente, a estrutura tremeu e um vento quente veio do mar. Dominique se pôs de pé, ajustando seus olhos para enxergar o mais longe possível. Há vários quilômetros de distância, algo emergia da água. Mesmo tão longe, notou que era alguém alto, possuía cabelos pretos e compridos que caíam até as costas, a pele tinha um tom de bronze quase reluzente. Estava de olhos fechados e seu rosto possuía uma expressão serena, em seu torso nu havia uma tatuagem em formato de círculo no peito com ramificações que iam em direção às costas. Seus pés estavam descalços e um chanti completava o visual.
Dominique sentiu sua alma em conflito. Queria apenas ficar observando aquela pessoa de tão linda que era, mas também desejava estraçalhá-la, tamanho era o enjoo que o predador lhe causava. Entendeu que aquela presença era o que faltava nos outros territórios sem dono, e não era que o farol não possuísse um originador, ele apenas mantinha discrição. Antes que pudesse decidir qual rumo tomar, a criatura agiu. Esticou seu braço delgado com a mão aberta na direção de Dominique, como se lhe oferecesse ajuda, e então cerrou o punho.
De um segundo para outro, o cenário azul foi substituído pelo cinza escuro do asfalto. Dominique mirou seu entorno, tentando entender em que tipo de território fora jogada. Estava de noite e, ao seu redor, diversas casas protegidas por grades e, em alguns casos, cercas elétricas, estavam com os portões abertos. Espalhados pela rua haviam corpos humanos muito magros e ressecados, como se fossem múmias, e mais ao longe, descendo uma a inclinação, havia um grupo pequeno de pessoas afastando-se de onde Dominique estava. O corpo da idosa se retesou quando notou os predadores pairando um pouco acima da multidão. Como uma mola tensionada, lançou-se na direção das criaturas sem pestanejar.
Ao se aproximar dos inimigos, Dominique notou que seus corpos eram uma combinação de humano com inseto. O tronco e cabeça lembravam muito o de uma pessoa, mas as semelhanças paravam por ali. Das costas saíam duas asas compridas e diáfanas, os braços e pernas foram trocados por três pares de pernas insectoides revestidas de um exoesqueleto escuro. A cabeça possuía alguns tufos de cabelo, um par de olhos compostos onde antes ficavam os normais, a boca deu lugar a um par de mandíbulas de formiga e, entre elas, despontava o haustelo característico de um mosquito.
Dominique melhorou os músculos das pernas o quanto pôde e saltou. Esperava se chocar contra uma das criaturas, mas elas reagiram rápido e se afastaram o suficiente para evitar uma colisão, mas não o bastante para impedir que a idosa agarrasse a asa de um dos predadores e desse um puxão com toda a força.
A idosa aterrissou em pé e aguardou enquanto a monstruosidade fazia seu pouso errático. Mal tocara o chão e Dominique já estava sobre ela. Contrário do que esperava, o predador era ágil e difícil de acertar. Demorou uns bons segundos para atingir a lateral da cabeça com um soco, e ainda assim o esqueleto resistente da criatura aguentou o impacto.
Antes que pudesse desferir outro golpe, sentiu algo penetrando sua panturrilha direita. Olhar para trás revelou outro predador, com suas mandíbulas fechadas na perna da aposentada. Inúmeros inimigos sobrevoavam Dominique e alguns pousavam nos arredores. De um momento para outro, se tornara o alvo do enxame.
Precisaria de mais força, de mais resistência e de mais visão. Por sorte, seus inimigos já tinham tudo isso, então nem precisaria ser criativa. Replicou o exoesqueleto resistente dos inimigos, projetou os diversos olhos pelo seu corpo e elevou seus músculos ao limite do que sabia ser capaz. Girou para ficar de frente contra o predador que lhe agredia a perna, levantou o pé e baixou-o contra a cabeça dele. O golpe foi fatal, esmagando o crânio e espalhando a gosma roxa pelo entorno. Girou mais uma vez, focando-se no inimigo sem uma das asas e se impulsionando contra ele. Um gancho de direita foi o suficiente para finalizá-lo.
Mais e mais predadores chegavam e avançavam contra ela. Dominique sorriu e diminuiu a sensação de dor por todo o seu corpo, preparando-se para a longa noite que enfrentaria.
Ela lutou, matou e triunfou. Não soube dizer quanto tempo se passou desde o início do confronto, mas o sol raiava quando a última aberração morreu por suas mãos. Dominique ergueu os braços e um grito de vitória escapou por sua garganta, um triunfo que não foi apreciado por ninguém exceto ela. Mesmo com o corpo repleto de ferimentos, ainda se mantinha em pé, erguida apenas pela adrenalina e pela satisfação de estar no mundo humano e conseguir usar sua benção.
Olhar-se no espelho revelou o rosto pertencente a um velho. Suspirou, abriu a torneira e lavou o rosto com água, sentindo nos dedos enrugados as marcas que o tempo deixou na sua face. Não imaginava que, de todas as pessoas para se tornarem originador, Heitor seria uma delas. Aquele incompetente. Em seguida lavou o cabelo, juntando água na mão e levando-a até o topo da cabeça, onde deixava escorrer até a pia. Pouco a pouco, livrou-se do que restava do gel, pegou a toalha de rosto e se secou. Não se incomodou com os respingos espalhados pela pia e chão.
Seu corpo exigia descanso, um intervalo nas atividades para se acomodar à nova idade. A mente queria um tempo apagado para entender tudo que se passou, mas Nicolas ignorou essas necessidades e seguiu até a cozinha, onde, com movimentos mecânicos e decorados, colocou água e pó na cafeteira. Fechou os olhos enquanto ouvia o líquido sendo despejado no filtro e escorrendo até a jarra. Pegou sua maior caneca, serviu-se e caminhou até o quarto.
Seus pés pararam no batente que dava acesso à sala de estar. Lá, no meio do cômodo, estava um homem alto, de peito estufado e olhar confiante, com expressão séria e compenetrada, de feições meio quadradas e nariz romano. Trajava roupas simples, camiseta branca, calça jeans cinza e um par de sapatênis marrons. Havia algo preso na gola da roupa, um microfone de auditório talvez? De tudo para acontecer, Nicolas não esperava uma visita.
— Preciso me apresentar? — falou o homem, a voz alta e clara.
— Não. — Nicolas encarou-o. — O que o fundador de um culto faz aqui?
— Parabenizá-lo, é claro. Nunca imaginei que alguém fosse capaz de eliminar aquele território, era muito antigo e poderoso.
— E precisou vir até aqui para isso? Um e-mail ou mensagem já serviriam.
Magno sorriu.
— Também vim recrutá-lo.
Nicolas entrou em um território. Olhou em volta, notando os arredores iguais, porém sabia que fugir para o farol, ou qualquer outro lugar, seria inútil. Ainda tinha suas pílulas de fuga, e apesar de ter dúvidas quanto à eficácia delas, serviriam como um último recurso.
— Você entende que acabou de se prender aqui? — Nicolas franziu o cenho.
— Não tem problema, sairei quanto o território for desfeito.
A forca de Nicolas apertou ao mesmo tempo em que uma corda se materializou perto de Magno, enrolou-se no pescoço do cultista e começou a puxá-lo para cima com um solavanco. No mesmo instante, a corda desapareceu e ressurgiu no pescoço de seu invocador. Não fosse sua reação rápida em parar o vestígio, Nicolas ficaria suspenso.
— Não faça isso, vai apenas se machucar. — Magno balançou a cabeça. — Voltando agora ao tópico do recrutamento, você é especial, Nicolas. Não tinha nada, objetivos, amigos, familiares, sua morte não faria ninguém sentir falta, mas não se tornou um esquecido, tornou-se um portador…
Atacou mais uma vez, esperando pegá-lo desprevenido no meio da sua fala idiota. Assim que a corda estava prestes a afetá-lo, desapareceu e ressurgiu em Nicolas. Precisou desativar a habilidade antes que quebrasse o próprio pescoço. Aliviou o aperto do vestígio. Qual era o truque?
— Já disse, não vai funcionar. — Magno suspirou. — Se bem que explicar isso é inútil, pois assim como eu sou a justiça, você é a obsessão.
— E isso significa que você não pode ser tocado? — perguntou Nicolas.
— Não posso ser afetado por alguém praticando ações injustas. — Magno ostentava um sorriso arrogante.
Como se isso fosse verdade. Deveria ter algo que acionava sua habilidade, algum detalhe escondido no meio daquele show de confiança. Nicolas passou a olhá-lo de cima a baixo, tentando encontrar ao menos uma vulnerabilidade.
— Continuando nosso assunto, sua obsessão atual não vai levá-lo à nada. Predadores e originadores são nada mais que pessoas, e como você mesmo já viu, destruir um território é uma medida temporária. Sempre haverá um substituto para reconstruí-lo.
— Seja direto, para que quer me recrutar?
— Sem ataques dessa vez? Ótimo. — Magno bateu palmas uma vez. — Destruir os predadores é como enxugar gelo, por isso deveríamos fazer o contrário e abraçá-los. — Abriu os braços. — Territórios não interagem entre si, aqueles que estão presos em um nunca serão afetados por predadores de outro. Meu objetivo é formar minha própria zona e manter as pessoas seguras lá. É a única saída para o problema.
— Muito altruísta da sua parte. — Nicolas quase revirou os olhos com tamanha baboseira. — Nem parece que você oferecia pessoas aos predadores.
— O fardo dos líderes é saber quais recursos usar. — Ele fechou os olhos e abriu-os em seguida. Seu sorriso sumiu e a voz ficou mais baixa. — Eu preciso entender mais do funcionamento dos predadores. Foi graças a esses sacrifícios honrosos que descobri que pessoas à beira do colapso mental ou físico são mais propensas a serem raptadas. Por isso o perigo é tão grande: quem nunca olhou para o precipício escuro e infinito dentro de si e pensou em se atirar?
— E esses sacrifícios foram todos voluntários, imagino.
— Claro que não. É cruel, eu sei, mas a justiça raramente anda de mãos limpas.
— E quer minha ajuda nesse plano?
— Sim! Você liderou um grupo pequeno, mas conseguiram acabar com diversos territórios. Se alinharmos sua obsessão aos meus objetivos, imagine o que seremos capazes de alcançar? — Ele estendeu a mão para Nicolas. — O que me diz?
Nicolas observou a palma de Magno, e em seguida os pés do homem. Estavam mais perto, o cultista era confiante o suficiente para se aproximar. Nicolas deu dois passos curtos, esticando sua própria mão, e então riu. Riu como nunca havia feito. Seu corpo oscilou, derrubando algumas gotas de café no chão da sala.
— Realmente tentou me convencer com esse discurso idiota? Eu sei de quase tudo isso. Desde o primeiro território eu sei que predadores são apenas pessoas azaradas, e não levou muito tempo para descobrir que originadores são pessoas como eu e você. Como foi que chamou mesmo? Portadores?
Magno franziu o cenho. Não havia tristeza fingida ou sorrisos mascarados ali.
— Então por que continua enfrentando os territórios? Não vê que é inútil?
— Eu queria mais informações, simples assim.
— Agora que as tem, vai se juntar a mim?
Nicolas aproveitou a leve incerteza que sentiu na voz de Magno. O cultista apareceu achando que era capaz de influenciá-lo e agora tinha suas dúvidas. Como era bom acabar com as expectativas desse tipo de gente.
— Não. Sua solução parece possível, mas há outra mais interessante. — Nicolas sorriu. — Se predadores são pessoas, basta eliminar todas.
— Isso é… — Ele parou com a boca aberta por um momento — impossível! Como consegue ao menos falar algo assim?
— Como disse, eu sou a obsessão, a ideia combina comigo. Assim como a de um território “seguro” combina com você, que não é a justiça.
— Filho da puta — disse entredentes. O verdadeiro temperamento do cultista vazava, seus olhos chamuscavam Nicolas. — Mesmo que fale grande, sabe que não tem como sair daqui. Você não pode me parar, ninguém pode!
— Podem sim, e você sabe disso. — Fitou a xícara de café, que ainda estava fumegante. — Conheço duas pessoas com essa capacidade, a primeira sendo eu.
Levantou os olhos para Magno e atirou o líquido contra ele. Café acertou rosto e peito, arrancando um grito do cultista outrora tão confiante. Enquanto o homem recuava com a mão na face, Nicolas invocou a última corda de que precisaria. Ela enrolou-se no pescoço do alvo, mas antes que puxasse o maldito para cima, Nicolas viu os olhos de Magno entre os dedos que tapavam o rosto, focados e raivosos. Desfez sua corda antes que acabasse se enforcando sozinho.
— Para quem quer acabar com a humanidade, você hesita bastante contra um único homem. — Magno tirou as mãos do rosto vermelho e pingando com os restos do líquido.
Nicolas cerrou a mandíbula. Tinha a opção de fugir ainda, mas nada garantia que não seria rastreado, e na próxima vez viriam quando estivesse vulnerável. Era um confronto impossível de vencer com medidas meia-boca. Ou jogava tudo de si contra Magno, ou morria. Deveria ter pensado em alguma medida de emergência para esse tipo de situação, uma forma rápida de chamar Dominique e Bárbara, mas isso envolveria mostrar a elas sua localização. Tudo bem, usaria as ferramentas que tinha à disposição.
Aliviou o aperto do vestígio em seu pescoço e invocou dezenas de cordas contra Magno, cada uma mirando em partes diferentes do corpo, algumas com intenção de apenas restringir, outras com a missão de apertar até quebrar ossos. Enxergou os lábios do cultista movendo-se, e antes mesmo que as cordas o atingissem, trocaram o alvo para seu invocador.
Nicolas teve suas pernas puxadas para trás, os pulsos foram esmagados, os tornozelos quebrados e o aperto no seu pescoço se intensificou tanto pelo vestígio quanto por uma corda que mirava em Magno. Caiu no chão sem gritar nem tirar os olhos de seu alvo. Seja lá qual fosse a habilidade exata do cultista, era ativada pelos lábios e podia repelir vários ataques em diferentes partes do corpo. Funcionava com um número grande de atacantes também? Impossível dizer. O jeito era continuar pressionando.
Continuou criando mais cordas, desta vez tentando apenas apertar o cultista. Todas, sem exceção, trocaram o alvo. O aperto no pescoço se intensificava cada vez mais, e agora não tinha nem mãos disponíveis para aliviá-lo. Ainda assim, não parou, fez dezenas, centenas. Respirar tornou-se impossível com o aperto da forca e, mesmo sem querer, seu corpo debatia-se em busca de oxigênio, de mais uma inspiração para seus pulmões.
À sua frente, Magno continuava parado, fitando-o como um humano olharia para uma barata inconveniente. Nicolas sentiu-se satisfeito de ter acertado pelo menos o café, seria sua vitória mesquinha em vida. Materializou uma última corda, mas antes mesmo que ela fosse até seu alvo, o aperto do vestígio se intensificou e rompeu a resistência dos ossos. O pescoço amoleceu, e sua cabeça, antes erguida, tombou. Os olhos continuaram abertos, fixos no inimigo que mal conseguiu ferir.
— Uma perda de tempo. — Magno suspirou, passando a mão no rosto. — Só serviu para eliminar um incômodo. — Olhou na direção do escritório. — Pode desfazer o território.
— Eu desfiz — respondeu algo lá de dentro. — Mas tem outro ativo agora.
Magno virou o rosto para o homem morto no chão e seus olhos arregalaram-se. Não esperava esse resultado. Na sua cabeça, tinha uma vitória completa. Como era burro, nada mais que uma criança achando que sabia algo do mundo à sua volta. Nicolas sorriu, divertindo-se com a situação.
***
Longe de Magno e Nicolas, separado por centenas de quilômetros, Pietro sentiu um calafrio terrível percorrendo sua espinha, do tipo que só as visões mais terríveis traziam. Era o nascimento de um novo monstro, um novo originador, e algo a mais. Pegou seu vestígio, conectou os fones de ouvido no celular e ficou olhando para a tela, desejando que ela lhe mostrasse o que ocorria.
Não demorou muito para encontrar a fonte do medo. Se passava em uma sala de estar vazia, de um lado estava um homem, Magno, e pelo que obteve dele, era o líder de um culto problemático. Próximo a ele havia diversas pessoas ocupando o mesmo corpo, de forma que era impossível pesquisar qualquer informação sobre elas. No centro do cômodo, um cadáver de membros quebrados e pescoço esmagado, caído no chão igual um saco de pano. Reconheceu como Nicolas — já o pesquisara antes —, um homem um tanto estranho. O corpo do morto debatia-se, como se em uma convulsão, e sua cabeça de repente se desfigurou, ganhando a forma de uma cobra. O resto do corpo mudou mais rápido ainda, as pernas desapareceram, os braços multiplicaram-se por todo o tronco, que se alongou por muitos e muitos metros. Os olhos juntaram-se, formando um único globo grande e arregalado no topo da cabeça de réptil. E esse olho moveu-se, fitando Magno, e a cobra sorriu com os estranhos dentes humanos.
O cultista deu um passo para trás, com uma expressão estupefata no rosto.
— Por que não usa seu poder em mim? — perguntou o originador, fazendo seu alvo recuar novamente. — Essa é a diferença entre nós: eu estou disposto a abandonar tudo pelo meu objetivo, enquanto você se prende ao que não deveria. É fraco.
O corpo do predador preparou-se para um bote. Magno foi mais rápido, retirando uma pílula dourada do bolso da calça e engolindo-a. Desapareceu antes do ataque da cobra, e não demorou muito para as diversas pessoas desaparecerem também.
O originador olhou em volta. As paredes daquele lugar não mais pertenciam à sala de estar onde estavam antes, agora eram todas de metal, revestidas de ferrugem aqui e ali. Encontrou uma passagem circular e atravessou-a com o enorme corpo de quase 100 metros, usando as mãos para se arrastar como se não soubesse se locomover como uma cobra. Um predador muito estranho, ciente demais de si. Daria um nó no estômago de qualquer um que o visse.
Ele percorreu a extensão da sua nova moradia, vagando por salas e mais salas, muitas com canos de metal saindo pelas paredes e dificultando a passagem, mas o originador persistiu. Aos poucos, parou de usar os braços para se arrastar e passou a rastejar como o animal que parecia. Cessou o movimento somente quando chegou a uma sala sem saída.
Talvez fosse esperar ali, tornar aquela a sua sala e aguardar a chegada de vítimas, mas não. Começou a bater a cabeça na parede com pancadas que faziam o território tremer e o coração gelar. A cada impacto, o metal amassava e rachava. Além disso, sentia o território diminuir cada vez mais. De alguma forma, o predador estava destruindo sua própria morada. Por quê? Pietro sentiu os músculos retesarem com a pergunta.
A cobra bateu a cabeça na parede uma última vez e um buraco surgiu no lugar. O originador atravessou sem hesitação, emergindo em meio a uma rua larga o suficiente para quatro vias de carro, mas que agora era ocupada inteiramente pela criatura. Buscar por informações revelou que era algum lugar no centro de Porto Alegre, não arriscou ir atrás de mais dados para não se distrair dos acontecimentos que se desenrolavam.
A monstruosidade seguiu pela avenida, indo em direção ao Mercado Público. Os poucos transeuntes naquela hora de madrugada mal tinham tempo de entender o que se passava, bastava enxergarem o originador para que uma cobra menor se materializasse próximo a eles, os atacando e enrolando-se no corpo das vítimas. Restava aos humanos ficarem caídos no chão, sentindo a dificuldade em respirar enquanto o coração batia cada vez mais rápido. Nem a morte era certa, alguns ainda se tornavam predadores antes de perderem a consciência.
Antes de chegar ao prédio do Mercado Público, a cobra virou de repente, e aproximou-se de um prédio inacabado nas proximidades. Usando o corpo comprido e as mãos que tinha ao longo de sua extensão, subiu a construção pelo exterior. De alguma maneira, o prédio ganhava andares conforme o predador o escalava. Construção e aberração cresceram até que estivessem a quase mil metros do chão. Quando estava no topo, a criatura gritou.
A garganta de Pietro secou e sentiu mais um arrepio percorrendo seu corpo. Ao buscar por informações, soube que diversos outros originadores se descobriam capazes de quebrarem as barreiras de seus territórios e criavam moradas em nosso mundo.
Pietro removeu os fones de ouvido e parou de olhar para a tela do celular. Guardou tudo no bolso e saiu daquele território sem dono, voltando para casa. Os predadores evoluíram e pelo ritmo em que se desenvolviam, logo não restariam muitos locais seguros no mundo.
Ele viu Bárbara usar sua habilidade diversas vezes, mas em nenhuma delas o efeito foi tão forte quanto o que acabara de presenciar. A sala inteira tremeu e balançou com a explosão, como se uma fosse uma criatura abalada por receber um ferimento. Até mesmo o som normalmente alto e agudo, preenchendo sua audição com um zumbido, se manifestou em um tom grave, sendo que a maior parte do barulho veio da vidraça quebrando.
Fitou estupefato o outro lado, encontrando o olhar da motoqueira. Seu corpo inteiro era uma mescla de fendas vermelhas e pele. Bárbara mirou Fernando e Nicolas antes de levantar o braço fazendo sinal positivo com o dedão e desmaiar. Ela só não caiu de cara no chão porque Dominique surgiu no último segundo e tomou-a em seus braços, saltando em seguida através da janela até a parte onde os dois homens estavam. Com a proximidade, Fernando notou como corpo de Bárbara parecia feito de vidro, as rachaduras ramificavam-se e em alguns lugares era quase possível ver através do corpo da mulher. Talvez apenas o fato de soltá-la a quebrasse por completo, espalhando cacos igual ocorreu com a janela.
Sem tempo a perder, Fernando tirou a mochila das costas e retirou um pão australiano de dentro. No entanto, antes que pudesse dá-lo a Bárbara, Nicolas interveio:
— É melhor não fazer isso.
— Não quero nem saber — disse Fernando, dando um passo em direção à Bárbara e Dominique.
Nicolas segurou seu braço.
— Me ouça, se der o pão a ela, teremos você imóvel e incapacitado por sabe-se lá quantos minutos. Não temos esse tempo.
— Ela está com dor, eu que não vou ficar parado quando minha habilidade é curar os outros. — Desvencilhou-se de Nicolas e chegou nas duas mulheres, sentindo os cacos embaixo do tênis a cada passo. — Aqui está ruim, coloque ela no chão lá.
— Fernando… — começou Dominique.
— Eu não sou idiota, sei muito bem o valor de cada segundo aqui. — Cerrou o punho livre. — Vou ajudar ela só um pouco.
A idosa trocou um olhar com Nicolas, e então obedeceu, acomodando Bárbara em um canto que não estava inundado de cacos. Fernando sentou-se ao lado da colega inconsciente e arrancou um pequeno pedaço do alimento escuro. Veio a dúvida, como alimentar alguém inconsciente? Mais uma vez, arrependeu-se de não saber nada de primeiros socorros enquanto tentava despertar chamando-a e dando leves tapinhas no rosto sem obter resultados. Respirou fundo e apertou forte o pão, esmigalhando-o.
— Talvez seja melhor esperá-la acordar naturalmente — disse Dominique, baixinho.
Fernando negou com a cabeça, ainda pensando como faria para ajudar Bárbara.
— Caminhamos por salas estranhas e encontramos um retrato — disse a idosa. Fernando a olhou de canto, tentando entender do que ela estava falando, então notou que a fala era direcionada à Nicolas. Nem notou o cara se aproximando.
Dominique revirou a calça de Bárbara, tirou do bolso uma fotografia e mostrou para o líder. Fernando quase reclamou da conversa enquanto ele agoniava pela companheira desmaiada, mas queria entender do que se tratava.
— Reconhece alguém?
— Eu reconheço o lugar. — Nicolas espremeu os olhos. — Acho que sou eu ali, mas não sei quem é o outro.
— Bárbara e eu conversamos. — Dominique virou a foto para si e em seguida, vendo que Fernando os observava, mostrou para ele também. — Achamos que os territórios sempre são conectados a alguém. O metrô estava relacionado ao maquinista, o hospital com aquela moça, esse aqui pode estar ligado a você.
Nicolas franziu o cenho, mas nada disse. O desgraçado escondia algo, Fernando tinha certeza disso e, conhecendo Dominique, ela não questionaria muito. Queria que Bárbara se levantasse em um pulo e fizesse algumas perguntas na cara do engomadinho, mas sabia que era impossível. Cabia a si esse dever.
— Não teve nenhum amigo nessa época? — perguntou Fernando.
— Nunca fui próximo de ninguém.
— E isso é verdade?
— Esse território vem fazendo zero sentido até o momento. A foto pode ser algo criado por ele. — Nicolas ajeitou a gola do paletó.
— Exclusivamente para ti? Uma foto sua adolescente?
— E a última foto que encontramos em um território nos ajudou muito. — Dominique finalmente se manifestava.
— Não tem ninguém! — gritou Nicolas. Não eram como os gritos no meio de combate, cheios de razão e lógica como Fernando sempre sentiu. Era diferente, repleto de raiva. Depois de um suspiro, continuou, de volta à sua neutralidade de sempre. — Preciso de um minuto.
Ele se afastou, indo para o outro canto da sala e sentando-se no chão virado para a janela quebrada. Fernando voltou, ou tentou voltar, à sua tarefa de curar Bárbara. Não poderia simplesmente enfiar o pão goela abaixo, isso a mataria engasgada. Sua mão abria e fechava repetidamente, enquanto ele pensava, tentando encontrar uma forma de ajudar a amiga. Nada veio, estava sem ideias. Seu único alento era o fato da mulher não continuar enfraquecendo, estava frágil sim, porém estável.
Olhou na direção de Nicolas, que continuava parado no mesmo lugar, olhando para o mesmo ponto distante. Avizinhou-se do líder e abriu a boca para perguntar, porém foi interrompido.
— Eu sei como sair desse lugar — disse Nicolas.
— Tu sabe agora? Como? — Parecia bom demais para acreditar.
— Vocês confiam em mim? — Ele se ergueu.
Fernando hesitou em sua resposta enquanto a voz de Dominique chegava até eles.
— Confio.
— Depende, qual a ideia? — perguntou Fernando.
— Abrir portas até chegar na saída.
— Isso… Isso não é um plano! — Fernando colou no líder e apertou seu ombro. — É o que estamos fazendo já.
— Não, estávamos explorando demais, perdendo muito tempo. — Nicolas olhou em direção às portas. — Nosso método será entrar em uma sala, procurar a saída mais próxima e pegar ela.
— Eu não estou entendendo — disse Dominique. — Isso só não vai nos fazer andar sem rumo? Quantas portas teremos que abrir?
Fernando assentiu em concordância, aguardando uma resposta de Nicolas.
— Não sei. — Ele ergueu o indicador antes que qualquer um levantasse outro questionamento. — Mas é assim que tem que ser. Não há uma saída fácil, tudo que temos é uma árdua jornada para alcançar nosso objetivo, correndo o risco de nunca o atingir. — Encarou os colegas. — Por isso é de suma importância que confiem em mim, caso contrário não chegaremos a tempo.
Fernando olhou para Dominique, e a idosa lhe devolveu o olhar. Cada segundo era um dia perdido, cada minuto ponderando sobre ideias alternativas significava um mês jogado fora. Arriscar o plano de Nicolas ou pensar mais? O simples fato de ruminarem ali já poderia ser considerado uma perda de tempo. Estava assustado antes, mas só agora notava a crueldade do território em que estavam.
— Eu não confio em ti — declarou Fernando. — Confio no plano. Vamos com ele.
— É o suficiente. — Nicolas virou-se para uma das portas e começou a caminhar. — Dominique, você fica a cargo de Bárbara. Não se preocupem com inimigos, nosso objetivo é manter um ritmo estável até o final.
Fernando ajudou Dominique a colocar Bárbara em suas costas e logo os dois se aproximaram de Nicolas. Sem hesitar, o líder abriu a passagem e atravessou-a, com os dois em seu encalço. Chegaram em uma sala de estar que poderia ser descrita somente como coisa de rico, eram tantos móveis e lâmpadas que Fernando nem conseguiu absorver tudo, apenas foi capaz de contar oito sofás antes de passar junto aos outros para o próximo cômodo. Viram-se em uma espécie de ginásio escolar, com quadra de futsal e cestas de basquete. A porta deste estava a poucos passos de onde chegaram. Passaram por um laboratório de química, uma sala de estar comum, uma varanda comprida onde só se enxergavam nuvens, uma biblioteca. A única vez em que parou de seguir os demais foi quando depararam-se com uma garagem sem carros onde cinco cadáveres, reduzidos a ossos apenas, estavam no chão.
— Não parem! — Nicolas já estava perto da saída. — Não temos tempo para isso.
Fernando engoliu qualquer observação ou reclamação que se formava em sua garganta e foi até Nicolas. A partir dali, foram tantos cenários e locais que seus detalhes se misturavam na cabeça de Fernando, criando localizações sem sentido. Tinha mesmo visto a privada no meio de um escritório? A sala com os oito sofás de antes era realmente tão grande?
Nova sala. Porta. Nova localização. Porta. Novo cômodo. Porta. Mais mortos. Porta. Seu cérebro condicionou-se a esperar o som da maçaneta girando e a lingueta se recolhendo a cada poucos segundos, chegava a estranhar quando demorava um momento a mais para saírem. Seguia Nicolas sem sequer raciocinar o que faziam. Precisava só caminhar, só ir frente.
Como era cansativo. Estava só andando, não? Então por que se sentia tão acabado? Era sua cabeça? Ou passaram por inúmeras portas, percorrendo quilômetros impossíveis de medir? De alguma forma, Nicolas acelerou o ritmo, e as salas se tornaram um borrão indistinguível, era tão pouco tempo para absorver os arredores que Fernando desistiu de tentar.
Uma buzina de caminhão soou alto, trazendo de volta a consciência de Fernando junto. Estacou e absorveu seu entorno. Estavam em cima de uma passarela, abaixo deles havia uma rodovia com carros, caminhões e motos circulando sem parar. Viu diversas portas flutuando no ar e próximas à estrutura, algumas de madeira, outras de metal, e algumas sanfonadas. Todas fora do alcance do grupo.
Outra buzina soou, desta vez de um carro. Fernando foi até a beirada da passarela, apoiando-se no parapeito composto de três barras de metal. Logo abaixo havia um corpo humano estirado no chão com braços e pernas em ângulos que não deveriam estar. Veículos passavam por cima dele quase sem notar, alguns buzinavam, mas não faziam questão de frear ou desviar. Pela movimentação da pista, o cadáver deveria ser nada mais que uma pasta de carne e ossos esmagados no asfalto, mas ele mantinha sua forma.
— Está gastando nosso tempo — disse Nicolas.
Fernando virou-se para o companheiro, e deu de cara com alguém mais velho do que lembrava. Fios de cabelo branco despontavam no penteado outrora cheio de gel, mas que agora estava todo desgrenhado, o rosto repleto de rugas e os olhos afundados mostravam um cansaço que se equiparava ao que Fernando sentia.
— Quantos anos se passaram? — perguntou Fernando.
— Não sei, mas perderemos mais se ficarmos aqui.
Nicolas voltou a caminhar para o outro lado da passarela e foi seguido pelo padeiro. O peito de Fernando apertou quando se aproximaram de Dominique, que os esperava no meio do caminho. Esperou vê-la em uma situação muito mais grave, mas, curiosamente, a idosa conservava sua aparência de antes.
Atravessaram a passarela e desceram as escadas que davam até o chão, encontrando no final delas uma porta de madeira. Esta, diferente de todas que Fernando se lembrava de ter visto, possuía identificação: uma plaqueta riscada no meio diversas vezes, ocultando o cargo ou nome de alguém.
Passar pela porta os levou a um consultório. Havia uma dezena de cadeiras estofadas viradas na direção de uma mesa, e do outro lado, uma cadeira de escritório. Boa parte do cenário foi ignorada em razão da sensação exalada pelo originador habitando o local. Fernando trancou sua respiração enquanto ele se levantava de uma das cadeiras de pacientes e olhava o grupo.
O predador era nada mais que uma pessoa nos seus vinte e tantos anos. Possuía cabelos cacheados e curtos, os olhos adornados com olheiras profundas, roupas caídas e largas, como se tivessem sido usadas por tempo demais. Seria um encontro afortunado se as pernas de Fernando não ameaçassem falhar.
— Senti sua falta — disse o originador, abrindo um sorriso para Nicolas. — Nunca achei que chegaria até aqui, não inteiro. Como foi a experiência?
A resposta de Nicolas foi rápida e surgiu no formato de uma corda, enrolando-se no pescoço do predador e puxando-o para cima. Em questão de meio segundo, a sala caiu em silêncio profundo enquanto o corpo balançava sem nem ao menos se debater. A sensação desapareceu, o originador estava morto.
Tantos anos perdidos para acabar tão rápido.
— Vamos embora — disse Nicolas.
A estrutura da sala começou a se desfazer, chão caindo, paredes perdendo a tinta e as cadeiras apodrecendo. Fernando fechou os olhos, aliviado e tenso ao mesmo tempo, pensou no farol, sentindo-se capaz de fugir para lá, e foi isso que fez.
Assim que todos reapareceram no topo do farol, Fernando olhou para seus companheiros. Rugas permeavam o rosto de Nicolas, os cabelos estavam mais frágeis e a cor menos vibrante, e manchas senis se faziam presentes na pele. O mesmo se repetia em Bárbara. Respirou fundo enquanto pegava seu celular e checava o horário, exalando todo o ar ao notar que ainda estavam em 2019. Sua mão tremia enquanto observava os segundos passando devagar, como era o certo.
Abriu a câmera frontal do aparelho e checou a si. Não ficou incólume pelos efeitos do tempo, estava com alguns poucos fios brancos, a pele mais flácida e seca. Antes que se entregasse ao pessimismo da situação, notou Dominique deitando Bárbara no chão. Não era o momento de se abalar, precisava primeiro cuidar de sua companheira, tristeza e arrependimento viriam depois.
Desta vez conseguiu acordar Bárbara e a fez comer aos poucos um pão. Seu corpo foi tomado por um calor enorme, sentia-se dentro de um forno em temperatura máxima. Fernando cerrou o maxilar suportando a muito custo a dor. Lágrimas caíram de seus olhos enquanto as rachaduras sumiam de Bárbara e surgiam em seu próprio corpo. A dor apagou sua consciência antes que conseguisse se certificar da recuperação da moça.
Quando acordou, encontrou o farol quieto. Bárbara e Dominique estavam sentadas ao seu lado conversando baixinho, e não havia nem sinal de Nicolas. Sentou-se devagar, sentindo cada músculo e osso de seu corpo protestar contra a ação.
— Vai com calma, tu apagou não faz muito — disse Bárbara, colocando uma mão em seu ombro.
— Não acho que alguns minutos farão diferença — disse Fernando, curvando-se um pouco para frente. — E Nicolas?
— Nem perde teu tempo pensando nisso. — Ela bufou. — Acredita que ele foi embora? Meteu um “Melhor todos descansarem” e sumiu.
— Não foi bem assim — disse Dominique.
— Ele disse algo do originador?
— Quase nada, só disse que era alguém que devia estar morto há muito tempo. — Bárbara balançou a cabeça. — Mais uma vez ele esconde coisas da gente.
— Em teoria, ele acabou de matar alguém que conhecia — disse Dominique, apiedando-se.
— Não o defenda. Pela velocidade que enforcou o predador, não eram tão próximos.
— Sabem para onde isso está levando, certo? — perguntou Bárbara, a voz um tanto incerta e trocando olhares com os dois. — Ou a teoria minha e de Dominique sobre o predador ser relacionado a uma pessoa é verdade, ou o predador é uma pessoa que de alguma forma virou um monstro.
— Deveríamos perguntar a Nicolas, talvez ele tenha alguma ideia — sugeriu Dominique.
— Ainda com isso?! — rugiu Fernando. — Ele esconde quase tudo e nós vamos usá-lo como fonte de informação?
— Por que vocês dois implicam tanto com Nicolas? — Dominique franziu o cenho. — Tudo que ele faz é para ajudar os outros, duvido que sem ele teríamos passados tão bem por cada território.
— Bem? Bem?! — A raiva concedeu uma energia desconhecida ao corpo de Fernando, e quando deu por conta já estava em pé. — Olhe para mim e Bárbara, nossa vida já era! Envelhecemos sei lá quantos anos.
— E ainda assim sobrevivemos. Você teria conseguido fazer isso sem ele?
— Não, não teria. E também nem me envolveria com essas merdas. — Botar essas palavras para fora tornaram a ideia mais sólida e real, uma ideia que já vinha maturando desde o primeiro território. Fernando falou, desta vez com a voz mais controlada:
— Se eu fosse vocês, manteria distância disso tudo. Vamos acabar mortos por conta daquele maluco.
Sem esperar uma réplica, sem trocar olhares com ninguém, sem dar mais satisfações, Fernando voltou para sua casa. Surgiu na sala de estar, logo atrás do sofá onde o namorado assistia televisão. As luzes da sala estavam acesas e o relógio digital na parede marcava duas horas da manhã, mas pela primeira vez não se importou com o tempo. Haviam problemas bem maiores a serem resolvidos.
— Gabriel.
O namorado se levantou em um pulo, virando-se. Seu olhar passou de alívio para algo diferente. Medo e preocupação. Sua mandíbula se movia, prestes a disparar uma pergunta, mas ela não deixava sua boca.
Passaram por diversas salas sem conversar, apenas acenando e indicando os caminhos que tomariam. Quanto mais o silêncio perdurava, maior era a dificuldade em quebrá-lo, como se uma parede se erguesse entre as duas e a cada segundo uma camada extra de tijolos era adicionada.
Era diferente das mortes vistas em um curso de reciclagem que Bárbara fez ou das mortes que causaram em outro território. A rápida decomposição, como um vídeo tocando em velocidade aumentada, agia como um lembrete, uma visão do destino final de todos. Trazia um sentimento de iminência.
Depois de banheiros grandes demais, quartos sem cama e algumas cozinhas, chegaram a um corredor comprido. As portas deste lugar estavam todas concentradas na parede da direita, enquanto na esquerda não havia nada. Bárbara estava preparada para escolher uma porta e seguir como sempre, porém Dominique venceu a barreira de quietude entre as duas e disse:
— Essa sala é diferente, será que não conseguimos abrir uma saída nela?
Bárbara parou, fitando a parede sem portas. Não estava há tanto tempo sem falar, mas cada palavra pareceu arranhar a garganta.
— Será que vai funcionar? Não deu muito certo antes.
— Só seguir em frente não parece dar muito certo, também. — Dominique foi até a parede e colocou a mão nela. — E dessa vez vai ser você.
Arrastou os pés até aproximar-se de Dominique e apoiou-se na parede. Fechou os olhos com um suspiro e aguardou ouvir os passos da idosa se afastando para concentrar-se.
Abriu os olhos e focou-se no obstáculo à frente, sentindo o calor emitido pelas fendas em seu corpo. Como no hospital, precisava fazer uma explosão, porém em uma única direção desta vez. Raiva tomou conta de si, trazendo à tona outros sentimentos reprimidos. Ela era como uma bomba prestes a explodir e trazer o cataclisma ao que estivesse à sua frente. Podia muito bem abrir um rombo na parede se usasse tudo de si, mas como ficaria Dominique? Para onde a abertura levaria?
Não, faria algo menor, mais restrito. Algo que usasse apenas uma parte da energia rugindo em suas veias, diminuindo as chances de sucesso, sim, porém conservando para outro momento. Deixou apenas uma fração da energia escapar e fluir como líquido por suas mãos, estourando em direção à parede. A estrutura rachou, o dano espalhou-se pelo chão, criando fendas no piso que tomavam quase metade do corredor. No entanto, nenhum novo caminho se abriu.
Caiu sentada, sem força alguma nos joelhos. Ouviu um impacto à sua esquerda e viu Dominique com o braço revestido daquela armadura estranha encostado na parede.
— Mesmo rachado eu não consigo fazer nada! — A idosa deu outro soco, obtendo o mesmo resultado.
— Desculpe.
— Não se desculpe. — Dominique olhou na direção dela, a armadura se desfez como se fosse absorvida para o interior do braço. — Pelo menos sabemos que dá para conseguir, deve faltar um detalhe só.
Bárbara apoiou as mãos no chão e olhou para cima, notando pela primeira vez o visor que mostrava sol e lua, uma constante em todas as salas, de forma que nem prestavam mais atenção nele. Este, porém, parecia travado na imagem do sol e demorou quase um minuto até que a lua aparecesse.
— Estava assim quando entramos? — perguntou Bárbara.
— O quê? — Sua parceira olhou para cima. — Eu acho que não, difícil de lembrar.
— Será que tem algo que não estamos vendo? Sempre tem esse visor, e sempre ele alterna, ou alternava, rápido entre sol e lua.
— Pode ser… ou não. Lembra dos desenhos quando nos separamos? Não significavam nada, nunca mais os vimos.
— Mas a tela se repete sempre. Acho bom prestarmos bastante atenção nela daqui em diante. — Dito isso, Bárbara se levantou devagar. — Me sinto uma velha.
— Como? — Dominique a olhou de soslaio.
— Uma velha sem poderes de modificar seu corpo.
— Acho bom mesmo. — Ela deu uma risada. — Está bem para prosseguir?
— Sim, só um pouco dura.
Juntas, as duas escolheram uma porta para seguir adiante a abriram-na, deparando-se com um quarto. Um pequeno armário, uma cama de solteiro, uma escrivaninha com cadernos em cima e uma estante repleta de livros eram os móveis do local. A tela no teto se fazia presente como sempre, voltando a alternar rápido entre os astros, além disso, haviam quatro portas de saída no quarto.
Vasculharam o pequeno cômodo em busca de pistas ou direcionamentos, a começar pelos livros. A estante abrigava conteúdo de todo tipo, desde o didático, como matemática e história, até literário, indo desde os clássicos de Machado de Assis até livros de fantasia que Bárbara nunca tinha ouvido falar. As duas mulheres trocaram um olhar.
— Folhear as páginas? — perguntou Dominique.
— Exato.
Um por um, passaram por todos os livros, jogando na cama após a vistoria. A grande maioria estava em branco. Aqueles que continham algo escrito eram os didáticos, e eram somente anotações sobre o assunto do livro, resumos e indicativos de onde conseguir uma melhor explicação.
— Alguém estudava bastante — disse Dominique, virando de uma página cheia de escritos para outra.
— Até me faz lembrar de quando eu estudava para o vestibular. — Bárbara jogou um livro vazio de Clarice Lispector na cama. — Só que eu não estudava páginas em branco.
— O que você cursou mesmo?
— Ciências contábeis. — A jovem olhou para os cadernos na mesa. — Eu vou revirar aqueles ali, te aviso se achar algo.
Olhar os cadernos revelou apenas mais anotações de estudo, além de exercícios para cada matéria. Após algumas folhas, passou a ignorar o conteúdo escrito e avançou pelas páginas em busca de qualquer coisa que destoasse, fosse pela letra ou pela forma. Demorou três cadernos para encontrar algo: uma foto.
Bárbara cutucou a parceira.
— Olha aqui!
A imagem mostrava dois adolescentes lado a lado. Um era todo sorrisos, usando uma camiseta branca com uma prancha de surf estampada e uma calça jeans preta, possuía pele negra clara e seu cabelo era preto e encaracolado, descendo pelas laterais da cabeça até chegar aos ombros. O outro tinha um olhar sério e um sorriso que parecia forçado, os cabelos curtos e castanhos estavam penteados para o lado, as roupas limitavam-se a uma calça e camiseta pretas, contrastando com a pele pálida.
— Aquilo no fundo é o quê? — perguntou Dominique.
— O labirinto verde de Nova Petrópolis. — E, ao ver a cara de confusão da outra, Bárbara complementou: — Ponto turístico do estado.
Dominique assentiu, então colocou o dedo sobre a imagem do jovem sério.
— Não acha que parece o Nicolas?
Bárbara olhou com mais atenção. Tinha visto Nicolas sorrir apenas uma vez e fora bizarro, e naquele guri também estava estranho. Era mais alto que o outro, além de ser pálido como fantasma. Estavam imaginando coisas?
Ao virar a foto ao contrário, enxergou uma marcação com caneta permanente datando o evento: 10/2003. Era velha mesmo, mas talvez não tanto. Bárbara lembrou-se que nessa época estava na escola, também, apesar de que era mais jovem que os dois na foto.
— A data parece bater com a idade de Nicolas, ele tem quantos anos mesmo?
— Uns trinta? — arriscou Dominique. — Nunca perguntei.
Bárbara ficou mais algum tempo observando a imagem. Uma ideia se formava, algo que já desconfiava, até, apenas lhe faltavam provas.
— Tinha algo parecido no último, não? — perguntou ela.
— Como assim?
— Encontramos a foto de uma guria naquele quarto que o originador cuidava. Estava uma correria e por isso não deu tempo de raciocinar. Eu achei que era apenas a lógica do território, como Nicolas gosta de falar, não pensei que pudesse ser uma pessoa real. — Balançou a foto na mão. — Mas e se os originadores sempre forem relacionados a alguém?
— E está querendo dizer que o território que estamos agora tem relação com Nicolas?
— Isso! — Bárbara guardou a foto no bolso. — Temos que achar ele e levá-lo ao predador.
— Espera! Como vamos garantir que é realmente Nicolas? O garoto se parece se com ele, mas tem milhares de pessoas pálidas e sérias por aí. Além do mais, e se for o outro?
— Só perguntar, ué. Mostramos a foto, questionamos e decidimos o que fazer em seguida.
Dominique suspirou, os ombros murchando.
— Voltamos então à etapa de procurar os dois.
As duas continuaram a revirar cadernos e livros em busca de mais alguma informação acerca dos adolescentes, mas não encontraram nada. Por fim, escolheram uma porta e saíram do quarto.
O destino era um salão enorme, cheio de bancadas de computadores com divisórias entre cada máquina. Mouses, teclados e fones de ouvido com microfone serviam como periféricos, e as telas mostravam um programa de janela branca com um cronômetro no topo e uma mensagem escrita “Chamada recebida de” seguida de um número de celular. Um som baixo era emitido pelo fone de ouvido e, quando Bárbara o colocou, uma voz aguda e incessante martelou sua cabeça com diversas palavras ao mesmo tempo.
— Grande vida estranho produto quilograma pássaro horas empréstimo…
Com um grunhido, ela retirou os fones e os largou de volta na mesa.
— O que ouviu?
— Nada que preste, só um monte de coisa desconexa. — Olhou ao redor. — Deve ter uma centena de computadores aqui, vai ser um porre investigar tudo.
— Então é melhor sermos rápidas. — Dominique apontou para a outra ponta do salão. — Eu começo por lá.
Dominique se separou e Bárbara continuou a tarefa por onde estava. Passou por mais cinco ou seis computadores, todos sem nada importante ou relevante. A seta do mouse não se movia, o teclado parecia não funcionar, a tela mostrava sempre o mesmo programa e a voz saindo do fone formava frases ininteligíveis. Inclusive, a voz era o único fator que mudava em cada máquina, era sempre uma diferente.
Repetir a mesma verificação tornava tudo mais rápido e mecânico. Quando deu por conta, estava indo de uma divisória a outra em questão de segundos, até que ouviu o chamado de Dominique. Olhou por cima da tela e encontrou a idosa em frente a um computador, gesticulando para que Bárbara se aproximasse.
Chegando lá, viu no monitor um programa de anotações com fundo amarelo. Cada linha no programa continha uma mensagem diferente. “Não tenho medo da mudança, pois coisas boas se vão para que melhores possam vir”, “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”, “É necessário saber esperar porque até a mais bela das flores leva tempo para florescer”.
— Que isso? Mensagem de coach? — perguntou Bárbara.
— Olha aqui. — Dominique apontou para as frases mais embaixo.
Encontrou outro tipo de mensagem, desta vez com propósitos diferentes. “Por que tentar mais? Tentei de tudo e falhei”, “Não aguento mais este inferno. Queria que tudo acabasse”, “Vontade de botar fogo em toda essa merda e ir embora”, “Covarde demais para fazer qualquer coisa. Não consigo sair daqui e não consigo me matar”.
— O tom mudou bastante.
— E parece com o que uma pessoa de verdade poderia escrever, não? — disse Dominique.
— Achei que tu discordava de mim. — Bárbara franziu o cenho.
— Discordo da pessoa na foto ser Nicolas, mas sua teoria faz sentido. Quer dizer, sentido não, mas… Você entendeu.
— Entendi.
Ela moveu o mouse, mas a seta se manteve no mesmo lugar. Testou a tecla “Windows” e obteve uma reação. O menu abriu, mostrando apenas duas opções. Uma era o programa de anotações e a outra era uma agenda.
Moveu o mouse até o segundo e pela primeira vez o cursor respondeu, indo até onde Bárbara desejava. Abriu a agenda e se deparou com a rotina mais detalhada que vira na vida.
6h: Acordar
6h05: Se ajeitar
6h15: Tomar café da manhã
6h30: Sair para o trabalho
8h: Chegar no trabalho
12h: Almoçar
12h15: Assistir aulas
12h55: Escovar dentes
13h: Voltar ao trabalho
17h30: Sair do trabalho
19h30: Chegar em casa
19h40: Jantar
20h: Tomar banho
20h30: Escovar dentes
20h35: Estudar
22h: Dormir
Avançou a agenda em alguns dias e o detalhamento se mantinha no mesmo nível e sempre com as mesmas tarefas, com exceção de finais de semana e feriados, onde as partes de trabalho não estavam presentes, mas eram trocadas por tarefas de limpeza e cuidado da casa.
— Alguém gostava de rotinas — comentou Dominique.
— Ou odiava.
Tentar novos comandos no computador não resultou em nada e as duas se separaram mais uma vez. Depois de alguns minutos, encontraram-se no meio do salão sem ter descoberto nenhuma outra anormalidade nas máquinas. Escolheram uma porta e passaram por ela.
O próximo cômodo se resumia a uma sala comprida onde no lado esquerdo estava uma janela que cobria quase toda a extensão da parede, e no lado direito havia uma dúzia de portas para se escolher. O outro lado do vidro mostrava um espaço vazio por alguns metros, quase como se fosse o poço de luz em um condomínio, e no fim havia outra janela, mostrando uma sala similar.
Dominique não perdeu tempo, chegou perto da enorme janela e desferiu um soco, mas a estrutura não se abalou, sequer rachou.
— Nem vidro é quebrável nesse lugar. — Dominique suspirou. — De volta às portas, então?
Bárbara olhou para a dúzia de opções que tinham para escolher.
— Não aguento mais isso. Andamos e andamos e não chegamos a lugar algum!
— Descobrimos algumas coisas…
— E nem isso nos ajudou a navegar por esse lugar. — Bárbara olhou para Dominique com frustração no rosto. — Mesmo encontrando Nicolas, ainda precisamos sair.
— Ele pode ter descoberto uma maneira de sair.
Assim que Bárbara abriu a boca para contra-argumentar, viu movimentação na sala do outro lado da janela. Ela correu até o vidro e, notando que eram Nicolas e Fernando, começou a bater na janela. Dominique não demorou a entender o que se passava e logo estava balançando os braços.
Seja pelo estardalhaço ou não, os dois homens as perceberam e aproximaram-se da janela no outro cômodo. Nicolas colocou a mão no vidro e balançou a cabeça em negativa, enquanto isso, Fernando falava sem parar de gesticular, apontando na direção das duas mulheres. Seja lá o que estivessem conversando, Nicolas por fim pegou seu celular, escreveu algo e colocou a tela contra o vidro.
— Não consigo ler nada — disse Bárbara, semicerrando os olhos.
— Eu acho que consigo, me dê uns segundos — disse a idosa, fitando o aparelho ao longe. Após um tempo, disse: — “Precisamos nos apressar. O tempo passa mais rápido aqui. 1 segundo = 1 dia. Olhem o celular”.
Bárbara pegou seu celular pela primeira vez desde que entraram. A data mostrava um dia em Março de 2022. O coração acelerou, toda aquela investigação, todas as conversas que tiveram, tudo lhes custou preciosos dias. Como isso os afetaria ao sair do território? Se depararia com seu apartamento mais de três anos no futuro? Aliás, teria lugar para ficar? O proprietário já deveria ter jogado todos os seus pertences no lixo. Sentiu um aperto no peito ao pensar no destino de sua moto.
A voz de Dominique serviu para removê-la daquele estupor:
— “Não achamos uma lógica nas portas. Vamos tentar só portas que levem para frente ou para direita. Peguem para frente ou esquerda. Talvez isso nos conecte”.
— Não vai funcionar — disse Bárbara, não sem esperança, apenas encarando a realidade. — Aqui mesmo só tem portas no lado direito.
— Parece mais uma medida desesperada que um plano — sussurrou Dominique.
Sim, parecia. Não, era uma medida desesperada. Baixou o olhar para seus pés, sabendo que cada momento em que paravam lhes custava um tempo que não voltaria. Não havia planos ou saídas, seja por parte de Nicolas, Fernando ou Dominique. Sentiu o fogo em si querendo sair, mais fraco agora por ter sido usado antes. Se estavam sendo reprimidos por uma força tão grande, então Bárbara teria que se tornar algo que rivalizasse com o próprio tempo.
— Vamos quebrar o vidro — disse Bárbara, a voz exprimindo determinação enquanto olhava para Dominique.
— Tentamos lá atrás e não funcionou muito bem, além do mais…
— Vou fazer mais forte agora. — A jovem sinalizou para os homens afastarem-se da janela e então apoiou os dois braços no vidro. — Me acerte com toda a força.
— Tem certeza que… Não, esquece. Vamos fazer isso.
Dominique desferiu o primeiro soco, e foi como ser atingida por uma marreta. Bárbara arfou enquanto suprimia um grito de dor, mas então veio o segundo, e o terceiro. Cada um descia com uma força maior que o anterior e logo não conseguiu ter nenhuma reação que não fosse cerrar os dentes enquanto suportava o impacto em seu corpo. As rachaduras espalharam-se como nunca antes, sua própria visão parecia ter espaços em branco onde nada se via.
— Chega! — gritou Bárbara, mas pode ter sido um grunhido, era difícil de dizer.
Com o corpo no limite, focou suas forças em uma tarefa apenas: quebrar aquela janela. O inferno dentro de si rugia, era como se lava corresse por suas veias, procurando uma cratera pela qual pudesse escapar, causando destruição e caos na saída. Bárbara liberou a energia dentro de si e o que se seguiu não foi um estouro, mas o escorrimento de um líquido denso e vermelho pelas fendas de sua pele, movendo-se como um ser vivo até cobrir o vidro.
Ela não se surpreendeu, na verdade, até esperava isso. Aquele era seu sangue e sua raiva acumulada durante as últimas semanas. Não importava que tinham capturado Maurício ou o maluco do culto, nenhum dos dois foi o responsável pela morte de Igor. Não, o responsável estava mais adiante na jornada, e Bárbara não pararia até chegar em Magno.
Foi então que a explosão aconteceu. As janelas arrebentaram e espalharam cacos por toda a sala, até mesmo o marco da estrutura quebrou. Bárbara sorriu ao ver o caminho adiante aberto para ela e Dominique, até mesmo a janela do outro lado havia quebrado. Os dois homens surgiram em sua visão, Fernando com os olhos arregalados e Nicolas mantendo sua falta de expressão usual, mas algo lhe dizia que o homem estava satisfeito.
Certas coisas pertenciam ao passado e quando vistas em pleno funcionamento em épocas atuais provocavam uma sensação de estranhamento. Isso ainda existe? Ainda funciona? Televisores CRT, fitas cassetes, disquetes e mouses de esfera eram exemplos dessas antiguidades. Porém, quando Fernando e Nicolas adentraram aquela lan house após passarem por inúmeras salas, não foi o estranhamento que reinou, foi uma simples sensação de nostalgia e adequação.
O espaço não era grande. Resumia-se a um balcão com seis baias, cada uma contendo um gabinete, monitor, mouse, teclado e um fone de ouvido barato. Do lado oposto ao balcão, havia uma mesa pequena com somente um computador. O espaço para a cadeira e o monitor ficavam virados para a parede, facilitando a fiscalização do uso dos demais equipamentos. Havia três portas nesse lugar, uma de saída da lan house, e duas que pareciam levar a banheiros. Isso claro, se seguissem a lógica comum.
Os computadores dos clientes estavam todos ligados e mostrando na tela a mesma imagem: um jogo antigo com uma perspectiva top-down, aquela visão de cima do personagem, e ao redor havia um campo verde com eventuais pedras e árvores. Nada de som.
— Nossa! Faz um bom tempo desde que vi alguém jogando Tíbia — disse Fernando, apertando as setas direcionais de um teclado e fazendo o personagem se mover.
Nicolas passou caminhando em frente às demais baias.
— Talvez terminar o jogo nos ajude a sair do território?
Fernando segurou um riso.
— Boa sorte nisso, até onde lembro o jogo é quase infinito. Nunca ouviu falar? Era bem famoso na época.
— Lembro vagamente, não me interesso por jogos.
E pelo que tu se interessa? Essa era uma pergunta que surgia muitas vezes, mas nunca era mencionada porque a resposta seria algo no sentido de “Eliminar predadores”.
— Bem, hoje também não sou muito de jogo, mas todo mundo teve infância. — Olhou para a tela e em seguida para Nicolas. — Ou vai dizer que não teve?
— Eu tive. Foi normal. Nada que importe.
O parceiro passou novamente pelas baias, tentando fechar o programa de diversas formas. Enquanto isso, Fernando segurou a seta para cima e deixou o personagem seguir naquela direção. A movimentação era lentíssima. Sempre fora assim? Após Nicolas passar por cada um dos computadores, Fernando também tentou fechar o programa. O resultado foi o mesmo.
— Devem ser apenas distrações — disse Nicolas, virando-se em direção a uma das portas e caminhando até ela com Fernando logo atrás.
Entraram em outro lugar diferente, uma sala de aula. Antes eram só banheiros, quartos, sala de estar e todo tipo de cômodo que se encontra em uma casa. Um possível sinal de progresso?
As mesas e cadeiras do local estavam espalhadas uniformemente em algumas áreas e bagunçadas em outras. Os móveis possuíam um aspecto degradado e cheios de rabiscos, seja em caneta ou esculpidos na madeira por alguém com um estilete ou compasso. O quadro-negro na frente mostrava vários desenhos com as mais variadas cores de giz. Não foi surpreendente encontrar um pênis com capa de super-herói em um canto.
— Pensando bem, acho que sabemos muito pouco sobre o grupo, não? — perguntou Fernando.
— Como assim? — Nicolas nem olhou para ele, seu foco estava nas portas dispostas pelas paredes da sala, que eram quase vinte.
— Algumas coisas… Não sei sobre Dominique ou porque ela está com a gente, sei pouco de Bárbara, nada sobre ti.
— Não tem nada para saber sobre mim. — O líder encarou-o. — E não acho que saber esse tipo de coisa vai nos ajudar a sair daqui.
— É, mas poxa, nos encontramos só para arriscar a vida e matar monstros. Saber uns sobre os outros pode não nos ajudar com os predadores, mas seria um estímulo para o grupo se juntar mais vezes.
— E por que você nunca tocou nesse assunto antes? Por que esperou para falar só hoje? — Com essas palavras, Nicolas caminhou em direção a uma das portas.
Para alguém que parecia não ter sentimentos, o desgraçado sabia onde atingir. E de certa forma tinha razão. Fernando não tinha a resposta para aquelas perguntas. Poderia botar a culpa na sua rotina, nas suas preocupações, em qualquer coisa, na verdade. Ele queria apenas mudar a situação, e quase conseguiu uma vez quando levou lanches para todos e tiveram um momento divertido, de conexão. Queria transformar aquele grupo em algo além de uma forma de fugir dos seus problemas. Estava tentando reatar com sua família, e obtendo sucesso nisso. Mais coisas na sua vida importavam, e se iria se arriscar com o grupo, queria conhecer mais deles, considerá-los amigos. Não queria chegar e fazer o de sempre, como se fosse um trabalho mal pago.
Entraram em uma sala de estar e, qualquer que fosse o conteúdo dela, foi ignorado diante dos dois corpos esqueléticos no chão. Próximo a um dos cadáveres havia um revólver e manchas de sangue secas pelo que parecia ser muito tempo. Por um momento, Fernando preocupou-se que seriam Bárbara e Dominique, mas uma análise com calma do que restava das roupas revelou que eram outras pessoas.
Nicolas se agachou próximo ao morto do lado da arma.
— São do culto. Os dois têm o símbolo na roupa, ainda que esteja bem degradado.
Fernando chegou perto, notando que o cadáver tinha um ferimento que entrava em um lado da cabeça e abria um rombo no outro.
— Foram mortos por um predador? — perguntou Fernando.
— Provavelmente não.
— Provavelmente?
— Não vimos nenhum até agora, mesmo passando por inúmeras portas e salas.
— Podem estar se escondendo. Ou o lugar que é muito grande. — Fernando olhou para as portas. — Prova disso é que não encontramos ninguém até agora, sendo que diversos cultistas foram enviados para cá, não é mesmo?
— O objetivo dos predadores é eliminar humanos, se alimentar deles. Quanto mais nos deixarem no território, maior as chances de fugirmos ou aprendermos a lutar. Eu não acho que ficariam esperando.
Nicolas vasculhou os bolsos de cada cadáver. Em um deles não encontrou nada, no outro achou vários papéis amarelados e quebradiços, além de um celular. Assim que ligou a tela, Fernando viu os números das horas e minutos mudando tão rápido que era impossível registrar qual o horário mostrado em tela antes que ele mudasse novamente.
— Cheque seu celular — disse Nicolas, puxando também o seu. — Dias e horas.
Fernando obedeceu, tirando o smartphone do bolso. Há tempos havia desistido de checar informações como horas e a existência de um sinal quando estavam dentro de territórios. As informações costumavam ser imprecisas, mas ao ver em sua tela o mesmo que ocorria no celular do cultista, o coração palpitou com força. Prestou atenção no dia, que mudava menos que as horas, mas, ainda assim, rápido o suficiente. Olhou então o restante da data: fevereiro de 2021. Se acreditassem no registro, mais de 24 meses se passaram desde a entrada deles no território.
— Essa data não faz sentido — disse Fernando, olhando para Nicolas. — Deve ser o território cagando no sistema como sempre.
— Ou não… — O líder encarou Fernando, erguendo o celular do cultista — o que deixou os cadáveres assim não foi nenhum predador, foi simplesmente o tempo passando.
Fernando aproximou o rosto do aparelho do morto, vendo o sistema mostrar uma data diferente e ainda mais avançada: maio de 2068.
— Cara, não tem como isso ser verdade. — Ele guardou seu celular. — As horas nunca funcionaram direito nos territórios.
— Sim, sempre foi errático, ou parava ou avançava sem nexo algum e depois voltava. — Nicolas ergueu-se. — Aqui apenas avança. Temos como confirmar isso esperando anos o suficiente se passarem para notarmos as diferenças em nós mesmos.
— Espera! Se isso for verdade, se esses anos passaram, então nós simplesmente perdemos eles!
— Exato.
Um segundo de silêncio se abateu no local. Ou será que foi um dia? Quanto tempo realmente estava passando? E por que estavam parados?! Precisavam se mover, e rápido.
— Temos que achar as duas e sair daqui! — disse Fernando, tomando a dianteira e seguindo para uma porta qualquer.
Bárbara escancarou a porta recém-aberta com um pontapé, revelando um salão enorme. Ele começava com uma escada reta para um nível superior, sem proteções ou corrimão, e após alguns passos dividia-se com uma parte seguindo para o lado direito e outra em frente. As ramificações, por sua vez, dividiam-se em mais caminhos, para cima e para baixo, que em seguida faziam o mesmo, criando um labirinto de degraus.
Antes que Dominique pudesse analisar onde cada destino levava, Bárbara virou em sua direção e perguntou:
— O que faremos agora?
— Eu não sei. — Olhou para onde estivera sua porta alguns momentos antes. Tentaram coordenar uma abertura conjunta, mas, talvez por questão de milésimos, a de Bárbara foi aberta antes e permaneceu existindo.
— Sei que tu andou bastante com Nicolas, ele não deu nenhuma ideia do que fazer nessas situações?
Sim, eles interagiram mais e, sim, Nicolas conversou sobre os predadores com Dominique. Mas eram muito mais fatos e pontos filosóficos do que estratégias a serem aplicadas em situações emergenciais. Além do mais, as pílulas eram o escape definitivo, ou deveriam ser. As duas engoliram as cápsulas assim que os companheiros desapareceram, mas não houve efeito algum além de uma voz estranha ressoando no lugar.
Voltou a atenção para o salão de escadas. Adiantaria somente avançarem? O que mais as esperava? Teriam alucinações como no território de carne? Seriam sequestradas como no hospital? Ou enfrentariam hordas de inimigos como no metrô? Nenhuma daquelas opções era a correta, não pareciam se encaixar.
— Acho que não nos resta muita alternativa além de seguir em frente, mas antes podemos tentar abrir um buraco, o que acha?
— Boa ideia! Tu consegue? Eu estou… Bem, sem gás.
— Vou ter que tentar.
Dominique tocou a parede, sentindo a textura da estrutura. Parecia normal, sem nada que a reforçasse. Assumiu a postura adequada com pé esquerdo na frente, pé direito atrás e base firme, conforme viu em um vídeo que Nicolas mostrara. Girou o tronco ao mesmo tempo em que socou com o braço, um movimento longe de estar perfeito, mas Dominique não queria se tornar pugilista nem nada do tipo, então serviria por enquanto. O punho atingiu a parede com velocidade e força suficientes para matar qualquer criatura viva, mas a estrutura em si nem se abalou. O estrago mesmo foi feito na idosa, os ossos quebraram-se em fraturas que romperam a pele e marcaram a parede com sangue.
— Dominique! Que merda! Tu… Isso… Porra a gente devia ter pego uns pães com Fernando antes!
— Está tudo bem, nem está doendo.
E era verdade. Já esperava que não fosse capaz de abrir um rombo, ou que isso a afetasse no processo, portanto, eliminara a sensação de dor pelo corpo. Isso fazia com que se sentisse em um estado dormente, como se cada membro pertencesse a uma pessoa diferente e ela fosse uma espécie de Frankenstein.
Olhou para o punho, juntou os pedaços dos ossos e recuperou a pele. Em alguns segundos era como se nada tivesse acontecido, somente a mancha de sangue seco destoando do resto da pintura denunciava o ocorrido.
— Desde quando tu faz isso? — perguntou Bárbara.
— Aprendi truques novos — respondeu a idosa, com um meio sorriso.
— Queria eu ter aprendido algo também…
— Dessa vez eu consigo.
Reposicionou-se, reforçando mais seus músculos e envolvendo seu punho e antebraço em um exoesqueleto esbranquiçado com uma fina camada esponjosa antes de chegar no seu braço propriamente dito. Serviria para amortecer parte do impacto e impedir sua mão de arrebentar com o golpe.
Socou dando tudo de si, sentiu o exoesqueleto rachar assim que entrou em contato com a parede e forçou-o a manter-se inteiro, os ossos no interior do braço pareciam capazes de se partir em um milhão de fragmentos e o ombro quase deslocou. Porém, mesmo com todo o esforço, a parede nem sequer rachou.
Contorceu o rosto em uma careta e recuou a mão alguns centímetros, pronta para outra tentativa. Dessa vez funcionaria! Cerrou a mandíbula, mas então soltou a respiração e balançou a cabeça. Não daria certo, sua utilidade era limitada, ela era limitada. E na situação em que se encontravam, era inútil.
— Não sei se fico assustada ou impressionada. — Bárbara aproximou-se. — Tu não fazia nada disso antes.
— Pouco serve se não consigo sequer derrubar uma parede — respondeu Dominique enquanto desfazia as alterações no corpo.
— Eu poderia dizer que tenho pena dos predadores que encontrarmos daqui em diante, mas a verdade é que não tenho. — A jovem olhou na direção da porta. — Acho que só nos resta seguir adiante.
Dominique meneou com a cabeça e acompanhou Bárbara até o salão das escadas. Entrando nele, as duas pararam e observaram as inúmeras opções que tinham. Agora que estavam dentro, era possível enxergar que toda ramificação acabava em uma porta.
— Agora complicou — comentou Bárbara.
— Não deve ser tão diferente — Dominique passou os olhos nas diversas saídas. — É escolher uma porta e ir até ela.
— Sim, mas qual? A gente estava escolhendo qualquer porta antes, mas não acho que dê para fazer o mesmo para sempre.
Dominique fitou a porta no nível mais alto.
— Em histórias, o vilão está sempre no último andar, acho que devemos ir para aquela lá.
Bárbara olhou-a boquiaberta.
— Sério? Histórias? Estamos tentando fazer algo sério aqui.
— Eu estou falando sério. — Olhou a mulher mais nova. — Os outros territórios funcionavam com uma lógica, estou pensando que pode ser essa a lógica desse lugar: ir sempre o mais longe ou alto possível. Nicolas pensaria algo parecido.
— Do jeito que esses lugares são malucos é capaz de ser isso mesmo. — Bárbara estalou a língua. — E se o oposto também funcionar? Em prédios a saída é sempre para baixo.
— Se sairmos não eliminamos o originador. E os outros dois…
— Podem continuar presos, entendi. Vamos ao topo, então. Seja lá o que nos espera.
Dominique liderou o caminho, já tendo verificado quais ramificações pegar se quisesse chegar ao topo. Mesmo assim, o trajeto era desorientador: curvas que tinha que tomar às vezes apareciam cedo demais comparado ao que esperava, já em outros casos, ficava pensando qual lado seguir até notar que estava no caminho correto há uns bons segundos.
Cada opção que deixavam para trás lhe trazia um aperto no peito, uma incerteza. Aquela rota descartada poderia levá-las até os outros. Como saberiam qual porta era a correta? Como saberiam aonde chegar? Mais de uma vez, viu-se parando nas bifurcações e hesitando em continuar até o topo. Nunca pensou que apenas caminhar seria um teste de sua fortitude mental.
A presença de Bárbara, no entanto, a impelia adiante. Explicara seu raciocínio, ainda que estranho, para a jovem e a convencera de que era o correto. Mostrar insegurança seria prejudicial e levantaria dúvidas. Era assim que Nicolas se sentia? Era esse o fardo dos líderes, manter uma fachada de competência até que chegassem ao resultado esperado?
Quando enfim estavam no topo, Dominique abriu a porta. Ouviu um som rudimentar, como o arrastar de pedras e virou-se. Bárbara, felizmente, estava com ela. A mudança ocorreu no restante do caminho, com todas as ramificações desaparecendo, sobrando apenas uma escadaria reta que levava do início do salão até onde estavam.
— Estou pensando que vai ser impossível reencontrar Fernando e Nicolas no território — disse Bárbara, também observando as mudanças. — Tudo que fica para trás desaparece.
— Vamos encontrá-los em algum momento.
— Como tem certeza?
— Eles não são de ficar para trás, devem estar avançando mais que a gente nesse exato momento.
Bárbara assentiu, e as duas atravessaram a porta. Bastou colocarem os pés no cômodo seguinte e tiveram o olfato invadido pelo fedor de carne em decomposição e, por mais que tivessem visto muito até ali, a reação das duas foi a mesma: tapar o nariz com a roupa. Só então pararam para notar os detalhes do local em que se encontravam. Era uma sala de estar bem mobiliada, com dois sofás virados para uma televisão onde um sistema home theater estava instalado. Havia duas janelas grandes na sala, cobertas por cortinas creme e um tapete no chão em frente aos sofás.
Assim que os olhos pousaram no tapete, notaram a origem da podridão. Ali no chão, caído de forma desajeitada, estava um corpo humano. Era uma daquelas cenas que atraíam o olhar ao mesmo tempo em que o afastavam, um misto entre a curiosidade e a repulsa. O corpo era muito magro. A camisa branca e calça jeans estavam sujas, mas inteiras. Por baixo das vestes, a pele se descolava dos ossos e uma massa indefinida e podre escorria, tudo se desfazendo a cada segundo que passava. Bárbara se afastou, indo em direção ao outro lado da sala.
Já Dominique foi atraída para um movimento, uma silhueta humana levantando-se de trás de um dos sofás. Alívio quase manifestou-se nela antes de notar que a pessoa, o homem do outro lado, estava armado. Era capaz de modificar seu corpo para resistir a balas? Sempre se perguntou isso, mas nunca conseguiu testar, nem sequer queria. Antes mesmo que conseguisse criar uma espécie de exoesqueleto ou camada de gordura, Bárbara moveu-se, ficando na linha de tiro entre o homem e Dominique.
Os estampidos rugiram na sala pequena e previamente tomada pelo silêncio fúnebre. O primeiro tiro acertou Bárbara em cheio, criando rachaduras em suas mãos e pescoço, iluminando as asas nas costas da jaqueta com um vermelho sangue. Os três tiros seguintes não pareceram tão eficazes, e nos dois últimos o agressor foi incapaz de conter o recuo, acertando mais o teto do que a motoqueira. Ao final, a jaqueta de Bárbara rugia, as asas da estampa se alongando pelas costas inteiras.
O homem gritou e começou a recarregar. Dominique não perdeu tempo, contornou a companheira e avançou contra o atirador, arrancando quase sem esforço a espingarda de suas mãos e jogando-a em um canto distante. Desarmado, aquele homem era pequeno e inofensivo para as duas.
— Monstros! Aberrações! — O atirador recuou um passo e caiu sentado, proferindo as palavras com um misto de fúria e medo estampados em seu rosto.
Se Nicolas estivesse ali, aproveitaria o momento para interrogá-lo. Tiraria o máximo de informações antes de decidir o que fazer com ele. Por qual pergunta deveria começar? Qual era a mais útil?
Enquanto ponderava, o homem levou a mão às costas e puxou outra arma, um revólver, dessa vez. Tão próximo assim, não seria uma ameaça. Porém, enquanto Dominique se movia para desarmá-lo, não foi nela que o agressor mirou, e sim nele mesmo. Puxou o gatilho com um sorriso trêmulo no rosto. Pedaços de cérebro se espalharam pelo chão, sangue pingou nas cortinas e começou a encharcar o piso. Mais uma vez o silêncio tomava a sala.
— Filho da puta covarde — disse Bárbara atrás de si. — Bastou ficar encurralado para se matar.
Dominique se virou. Não conseguia manter o foco naquela cena. Só então teve uma visão de como estava a situação da outra. Fendas por todo o corpo, indo desde as mãos até o rosto, passando inclusive por um dos olhos, como se tivesse saído de um confronto com um predador.
— Desculpe. — Dominique baixou os olhos. Vendo a parceira naquele estado, entendia porque o homem se espantara tanto. — Eu devia ter segurado ele.
Bárbara fez uma careta e disse:
— Não, eu teria matado o desgraçado se ele não tivesse feito isso antes.
Foi então que o odor pútrido inundou novamente a sala, mais intenso e enjoativo. Bárbara olhou na direção do suicida e arregalou os olhos. Dominique se virou e fez o mesmo. Não faziam mais que alguns segundos desde que morrera, mas, de alguma forma, dias de decomposição já o afetavam. Língua e olhos inchados, saindo para fora do corpo como se fossem protuberâncias, pele enegrecida, cadáver deformado e inchado.
Matar e morrer pareciam tarefas fáceis comparadas a encarar o processo de decomposição tão de perto, tão rápido. Era um vislumbre do futuro que viria para todos, um do qual não se tinha escapatória.
Dominique sentiu a mão de Bárbara tocar em seu ombro e em seguida apontar para o peito do cadáver, bem na direção do símbolo dos cultistas da justiça. Claro, o objetivo era conseguir informações com aquela gente. E Dominique perdeu uma ótima oportunidade de cumpri-lo.
Virou-se para a colega e assentiu. Não havia nada a dizer, e qualquer palavra inundaria a língua com a podridão. Em silêncio, as duas rumaram até a porta mais distante dos corpos, abriram-na, e seguiram para a sala seguinte.
Fernando colocou a mochila nas costas, sentindo seu peso estranho e desconfortável. Os olhos passaram das alças para o rosto de Gabriel, contorcido em preocupação. Sempre foi ruim entrar em um território, dessa vez não era diferente, porém tinha um peso a mais em seus ombros. Estava fazendo progresso com sua família e, não fosse pela mensagem de Nicolas, sua noite encerraria com um jantar na casa da mãe.
— Vai dar tudo certo — disse Gabriel, abrindo um leve sorriso. — Tu mesmo me disse que na última vez saíram melhor que o esperado.
— Tenho medo que isso nos deixe confiantes demais.
— Melhor que ficarem todos amedrontados e colapsarem no primeiro obstáculo. — Gabriel botou as mãos em seus ombros e aproximou o rosto. — Não vou me estender para não dar uma de coach quântico aqui, mas tu é forte, o homem mais forte que eu conheço. Sei que vai dar tudo certo.
— Obrigado. — Fernando sorriu. — Só por dúvida, quem é a mulher mais forte?
— Essa seria minha mãe. Campeã indisputável.
Os dois riram. Sim, estavam receosos, porém o melhor a se fazer era encarar a preocupação com bom humor, em vez de afundar-se em sentimentos negativos. Fernando despediu-se de Gabriel com um beijo e foi para o farol.
Encontrou todos lá, esperando-o. Olhou primeiramente para Bárbara. O último encontro do grupo tinha terminado da pior forma possível, mas o rosto da motoqueira não demonstrava mais fragilidade ou tristeza, parecia uma máscara inabalável de determinação. Quanto daquilo era fingimento e quanto era real?
— Mais um território, então? — perguntou Fernando, voltando-se à Nicolas.
— Sim, um pouco diferente dessa vez. — O líder colocou-se no meio do grupo. — Descobrimos que o culto da justiça com que Bárbara se envolveu antes está enviando pessoas para diferentes territórios.
— Pera! — Fernando levantou uma mão. — Quando descobriram isso?
— Investigamos bastante nas últimas semanas — respondeu Bárbara. — Eram suspeitos demais para deixarmos de lado.
— E ninguém pensou em me avisar antes?
— Você me mandou mensagem pedindo para dar um tempo. — Nicolas olhou algo no celular. — Estávamos respeitando seu desejo.
Fernando grunhiu em resposta.
— Continuando. Não sabemos exatamente porque estão fazendo isso, sendo que a chance de sucesso para pessoas normais é baixíssima, então um de nossos objetivos será entrar em um dos territórios de despacho e investigar. Se acharmos um membro do culto, a prioridade é voltar para o farol com ele.
— E o originador? — perguntou Fernando.
— Melhor deixarmos de lado.
— Mas o eliminaremos na semana seguinte, certo? — perguntou Dominique.
— Tentaremos.
Nicolas passou os olhos pelo grupo, então entregou uma pílula de escape para cada um. Fernando e Dominique pegaram as suas sem questionar.
— Temos uma sobrando ainda — comentou Bárbara, antes de pegar a sua também.
— Sim, mas talvez tenhamos que trazer um cultista ao farol. Se nos separarmos, deem um jeito de deixá-lo inconsciente e dar a pílula. — Ele ficou um momento em silêncio. — E, também, eu precisava de uma desculpa para encontrar o fornecedor.
— O que queria com ele? — perguntou Fernando.
— Aliás, quem é o cara? — questionou Bárbara, franzindo o cenho e elevando o tom de voz.
— Apenas um homem que me ajuda de vez em quando. Queria ver se ele tinha informações dos cultistas, já que eles também possuem essas pílulas.
— E? — pressionou Bárbara.
— Nada. Devem conseguir direto com o produtor.
— Isso está me embaralhando a cabeça — disse Dominique. — Sabemos quem é o produtor?
— Não, só sei que é alguém com um vestígio. Igual a nós.
— E pelo jeito um grandessíssimo filho da puta — reclamou Bárbara. — Onde já se viu dar essas coisas para um cultista?
— Talvez ele não saiba quem são seus compradores? — sugeriu Dominique. — Ou talvez estejam mentindo.
Fernando ficou olhando para a pílula branca em sua mão. Nunca tinha parado e pensado no seu funcionamento, apenas aceitara sua efetividade. Como era feita? Por que o produtor criava aquilo?
— Mais alguma pergunta? — disse Nicolas.
Ninguém abriu a boca. Fernando olhou para Dominique e depois Bárbara. Algo estava diferente nas duas e ele não sabia dizer o quê. Talvez fosse o simples peso do que faziam agindo sobre elas, mas não parecia ser o caso.
Sentiu-se mal por ter se afastado. Deixou Bárbara na mão lidando com a morte do amigo. Não, ele precisara da pausa, se tivesse a possibilidade de ir a um território, usaria isso como desculpa para não entrar em contato com a família. Não se arrependeria de sua escolha.
Nicolas estendeu sua mão e os demais fizeram o mesmo. Um instante depois, foram transportados para o pátio de um condomínio de edifícios. Estavam no meio de uma trilha de pedras de basalto entre a porta de entrada para um prédio e o que deveria ser a saída, porém era apenas um muro de vidro fumê com mais de cinco metros de altura que cobria os arredores do condomínio. Não era possível ver nada que estivesse fora do terreno. Diferente dos outros territórios hostis em que tinha entrado, Fernando notou que poderia sair desse quando quisesse.
Também sentiu algo a mais, um tique-taque que tocava somente quando não se prestava atenção. Junto a ele, uma sensação estranha de familiaridade, como se já tivesse estado no território. Talvez fosse a brisa que percorria o terreno, talvez a porta de madeira do prédio. Era como se estivesse tendo o mesmo sonho pela segunda vez.
— Deixa comigo — disse Dominique, tirando-o de seus pensamentos.
A idosa aproximou-se mais do muro e saltou como se o corpo não pesasse mais que uma pena, subindo vários metros no ar e aterrissando no topo da divisa. Incapaz de fazer algo sequer parecido, Fernando direcionou seu olhar para outros pontos, notando os demais prédios no condomínio. O restante do pátio estava tomado por grama curta e amarelada, não havia mais trilhas levando do muro à entrada nos demais edifícios e, com exceção daquele em que estavam à frente, todos tinham um ar de incompleto. Alguns andares tinham quatro janelas, enquanto em outros havia um espaço vazio entre elas, a pintura era irregular e a estrutura deformada nos cantos. É como se a construtora tivesse esquecido de partes do projeto e deu como entregue mesmo assim. A única caraterística que todos tinham em comum eram os mais de vinte andares que cada prédio possuía, tornando impossível de visualizar o topo estando logo abaixo.
— Nada demais aqui, só carros indo de um lado para outro. — A voz de Dominique levou a atenção de Fernando de volta ao grupo.
— Algum sinal de pessoas? — perguntou Nicolas.
— Não, e agora que falou… os carros parecem vazios, também.
— Então desça.
Ela obedeceu, saltando de costas para eles, dando uma pirueta no ar e caindo com os braços abertos em frente à Bárbara. O movimento foi tão fluído que Fernando quase questionou se Dominique não estava fazendo ginástica no tempo livre.
Andaram até os outros prédios, mas nenhum deles tinha uma porta de entrada, obrigando-os a voltar para a frente do primeiro e entrar nele mesmo. Depararam-se com um corredor simples, havia elevador de portas abertas no lado direito e uma escadaria no esquerdo. Entrando na cabine deu para ver que o painel tinha somente um botão para o térreo e um para o sexto andar.
— De novo isso de elevador? Não aguento mais. — Bárbara voltou para o corredor. Os demais a seguiram.
— Será que vai ser algo parecido com o outro território? — perguntou Fernando.
— Com cada lugar sendo diferente, eu duvido. — Nicolas olhou na direção da porta de saída, e em seguida para a escada. — Seria muito fácil se tivessem soluções semelhantes.
Subiram e, ao passarem pelo primeiro lance de escadas, viram uma placa indicando que estavam no sexto andar. Bárbara soltou um grunhido baixo.
— Por que não tentamos subir mais? — disse Fernando ao notar mais um lance de escadas para cima.
Tentaram diferentes formas de subir e descer. Deixar alguém parado enquanto subiam apenas fazia com que o encontrassem quando venciam o lance de escadas, e sempre que desciam acabavam no térreo. Sem muita opção, seguiram pelo corredor comprido e cheio de portas do sexto andar, cada uma adornada com números indicando o apartamento. No entanto, ao se aproximarem de uma porta, notaram que era uma pintura detalhada e bem-feita, a ponto de enganar não importasse o ângulo de observação. Só conseguiam distinguir desenho de realidade ao chegarem bem perto.
Testar cada uma das entradas se provou rápido, apesar de frustrante. Havia apenas uma verdadeira no meio de tantas.
— Não gosto disso, estamos sendo guiados para cá — comentou Bárbara.
— Pelo menos sabemos que outras pessoas no território entraram aqui — disse Nicolas. — Não faz sentido vir matar um predador e não seguir esse caminho.
— Ainda assim, não gosto de seguir os planos de aberrações.
Bárbara olhou para cada um do grupo, recebendo um aceno de confirmação de todos, colocou a mão na maçaneta e abriu a porta. Fernando tensionou o corpo enquanto o interior do apartamento era revelado, esperando qualquer coisa, desde monstros horríveis até pessoas mortas, mas tudo que viram foi uma sala vazia com paredes cinza claro, chão de azulejo bege e uma porta em cada parede. No teto do local havia uma espécie de televisor que alternava sua imagem entre um desenho caricato do sol e um da lua, ambos com um exibindo um rosto de olhos fechados. De alguma forma, mesmo sem lâmpadas, era um cômodo bem iluminado. Fernando soube que, ao entrar ali, não poderia mais voltar ao restante do prédio.
— Trouxemos as pílulas para isso — disse Nicolas. — Vamos continuar.
Foram até o meio da sala, ficando bem abaixo do televisor. Ao que tudo indicava, sol e lua eram as únicas imagens que ele era capaz de transmitir. Nicolas deu um passo na direção da porta da parede da frente, e uma batida soou atrás do grupo.
Dominique e Bárbara se reorganizaram em meio segundo, posicionando-se entre o grupo e a origem do som. Felizmente não havia predadores atrás deles, e também não existia mais a porta de entrada. No lugar dela estava apenas a parede cinza.
— Eu já esperava algo do tipo — comentou Bárbara, olhando para Fernando e relaxando os punhos. — Só não precisava do barulho.
Fernando alternou o olhar entre Bárbara e o local onde estivera a entrada.
— Se tivéssemos segurado a porta, será que ela ainda sumiria? Não faz muito sentido ela bater se só pode desaparecer.
— Talvez devêssemos deixar alguém segurando a porta de salas que passarmos, só por garantia. — Ela virou-se na direção de Nicolas. — O que acha?
O homem ficou parado durante segundos, observando uma das saídas que restavam. Aproximou-se dela em seguida e observou-a por um momento. Finalmente respondeu:
— Pode ser uma boa ideia, mas primeiro precisamos descobrir o destino de cada uma.
Nicolas repetiu sua inspeção nas duas outras portas que, aos olhos de Fernando, pareciam iguais. Por fim, o líder se aproximou do grupo e confirmou essas suspeitas.
— Por que não abrimos qualquer uma, então? — perguntou Bárbara. — Se não sabemos o que tem do outro lado, basta olhar e ver.
— Esse território é mais perigoso que os demais — respondeu Nicolas.
— Também não podemos ficar parados aqui esperando uma ideia mirabolante — disse Dominique. — Acho que teremos que nos arriscar até entendermos tudo.
Fernando assentiu, concordando com a idosa. Era até estranho que eles estivessem pressionando Nicolas a agir com menos cautela. Acontecera algo durante o tempo em que estivera ausente? Como sempre, era difícil ler as expressões do líder para tirar conclusões.
— Tudo bem. — Nicolas olhou na direção da porta à esquerda deles. — Seguiremos com essa estratégia.
Bárbara caminhou até a porta e colocou a mão na maçaneta. Houve um momento em que Fernando achou que a mulher tinha congelado, mas então ela abriu a porta de supetão. Imediatamente, as outras duas saídas do cômodo desapareceram sem deixar rastros. A motoqueira olhou do caminho adiante de si para a sala em que estavam e disse:
— Por essa eu não esperava.
— Só significa que não podemos mudar nossa escolha — disse Nicolas, caminhando até Bárbara.
— E que escolha foi essa?
— Acho que só descobriremos com o tempo — respondeu Dominique, indo atrás de Nicolas.
Fernando seguiu-os. O grupo atravessou a porta e chegou em um corredor estreito e comprido. Havia o televisor no teto e as três portas dispostas em cada parede se repetiam. Seria igual, não fosse os quadros ao lado de cada saída. Cada um deles continha um papel com linhas desenhadas na horizontal e vertical, dividindo a folha em quadrados minúsculos. Alguns desses quadrados estavam coloridos e, olhando o desenho como um todo, formavam a imagem de um monstrinho.
— Isso é… pixel art de Pokémon? — perguntou Bárbara.
— É bonitinho. Já vi um dos meus netos fazendo algo parecido — comentou Dominique, seu tom de voz mais baixo que o normal, quase tímido. — O que isso quer dizer?
— Eu sei lá! Esse lugar não está fazendo sentido nenhum, menos que o normal.
— Charmander, Bulbasaur e Squirtle. Talvez a gente deva escolher o que mais gostamos? — arriscou Fernando, atraindo o olhar do grupo.
— Ou que, novamente, só temos uma escolha. — Nicolas alternou o olhar entre os desenhos. — A não ser que abramos múltiplas portas ao mesmo tempo.
Seguiram com essa ideia, a começar com duas simultaneamente. Bárbara ficou com a porta Bulbasaur, Dominique com a Charmander, Nicolas e Fernando ficaram entre as duas, prontos para oferecer suporte ao menor sinal de perigo. O líder iniciou uma contagem até três e, em seu término, as duas mulheres abriram as portas.
Não houve um piscar de luzes, ou um momento em que desvaneceram, não houve sequer uma chance de ajudá-las. Em um instante, Bárbara e Dominique desapareceram junto com as saídas recém-abertas, deixando Fernando e Nicolas sozinhos no corredor e com apenas a opção do Squirtle.
O coração de Fernando acelerou. Todo o relativo bom humor dos últimos minutos sumiu junto com as duas. Fernando pegou uma das pílulas de escape e colocou na boca, vendo Nicolas fazer o mesmo. Pensou no farol e em se reunir com as duas colegas. Inicialmente não fechou os olhos, sabendo que era desnecessário, porém, quando nada aconteceu, cerrou as pálpebras e fixou a imagem do farol na cabeça. Sentiu um puxão, o ambiente prestes a mudar. Abriu os olhos e se viu no mesmo lugar com Nicolas ao seu lado. A pílula não funcionou.
De repente, uma voz ressoou no corredor. Rouca e cansada, como se tivesse passado os últimos dias falando sem parar.
Sentou-se com um solavanco. O coração aliviou o ritmo das batidas quando percebeu estar em seu lar. Ainda se acalmando, olhou para cima viu a corda arrebentada ou cortada, não sabia dizer. O nó em volta de seu pescoço não incomodava, mas o tirou mesmo assim. Em uma tentativa de organizar sua mente, dobrou a escada caída e a colocou em pé, apoiada na parede. O movimento o fez notar o quanto sua pele e axilas estavam grudentas e fedidas. Foi direto para o banho.
Estava vivo novamente, ou seria pela primeira vez? O que era aquele lugar? O que eram os predadores? Rafael e suas respostas vagas lhe deram um ponto de partida, uma direção na qual seguir. A água botou a cabeça em ordem, as engrenagens quase enferrujadas voltaram a girar.
Saindo do banheiro, resolveu cuidar de si, afinal, um corpo fraco possuía intelecto limitado. Olhou para o celular, sem mensagem ou notificação alguma, mas não queria isso, estava interessado no relógio que indicava o meio da madrugada. Sem a possibilidade de tele-entrega, foi até a geladeira e pegou pedaços velhos de presunto e queijo, além de um pão de forma vencido. Após se alimentar, foi ao escritório.
Ligou o notebook e começou a pesquisa. Foi atrás de matérias jornalísticas e artigos, buscando por termos como “predadores”, “território de caça” e “rua infinita”. Nada relevante apareceu. Tentou mais termos e outras linguagens. Sem sucesso, abandonou os jornais e começou a ir atrás de qualquer fonte, por mais duvidosa que fosse. Encontrou blogs de conspirações e teorias sem sentido algum, falando besteiras a cada parágrafo, mas nenhum lugar lhe deu as respostas que precisava. Passou por páginas e mais páginas de discussões em fóruns. Nada.
Empurrou a escrivaninha com as mãos, fazendo a cadeira de rodinhas deslizar para trás e bater com o encosto na parede. Onde conseguiria suas respostas? Passou a mão pelo pescoço, o sulco deixado pela corda se destacava ao tato. Poderia ir para lá de novo usando o mesmo método? Balançou negativamente a cabeça. Sobreviver uma vez foi sorte, não podia contar com ela para sempre, era arriscado demais.
A possibilidade de ser tudo um delírio de repente pareceu mais sensata e provável. Crianças monstruosas, uma rua que não fazia sentido e um atirador risonho. Pegou esses pensamentos e ignorou-os. Não tinha como ser um sonho, foi tudo tão palpável, tão memorável. Além do mais, queria que fosse real.
Um bocejo lhe fez se levantar para preparar café. A cafeteira elétrica fora vendida semanas antes, mas manteve um grande estoque de café solúvel. Desistiu da ideia ao ver o sol do meio-dia. Empacou em problemas que não poderia resolver sem descansar primeiro. Fechou as cortinas do quarto, deitou-se na cama e se cobriu com os lençóis. Horários estranhos, problemas complicados e situações esquisitas, até parece que voltara a trabalhar. Não demorou para seu corpo se render.
Acordou na escuridão do quarto e conforto da cama, mas não conseguiu se mexer. Os olhos inspecionaram o cômodo na medida do possível, mas nada viram. O corpo estava pesado demais para mover-se, ou simplesmente ele próprio estava fraco, não soube dizer. Algo se aproximou e se sentou na beirada da cama. O colchão afundou sob o peso e tamanho do visitante. Sentiu-se no meio da uma multidão, com todos os presentes direcionando o olhar para ele.
— Você está fazendo perguntas importantes. Nós observamos você e sua rápida viagem. — Diversas vozes falaram em uníssono.
Nicolas tentou dizer algo, mas as palavras ficaram seladas na garganta por uma língua e boca desobedientes.
— Para entender aquele lugar, você precisa primeiro entender as pessoas como um conjunto. Isso não é difícil. Pense conosco, o que diferencia os humanos dos demais animais?
Uma pausa.
— Você pode ter pensado em consciência e inteligência, mas todos possuem isso em um nível ou outro. A diferença é outra, criada ao longo do tempo pelos próprios humanos. — Nicolas notou que o uníssono consistia de vozes de homens e mulheres. — Vocês avançaram de forma que nenhum animal foi capaz, criaram uma sociedade robusta e, ao mesmo tempo, frágil, aumentaram a expectativa de vida e entraram em uma era de relativa paz. Mais uma vez, o que diferencia os humanos dos demais animais?
Outra pausa.
— Progrediram tanto e conseguiram o feito de regredir em igual escala. Se deixam escravizar por si mesmos, não tomam as rédeas da própria vida e se definem pelo que os outros decidem. — Notou como o uníssono continha vozes de crianças também. — Se acorrentaram na sociedade, perderam liberdades importantes, perderam propósito. Assim como você, muitos outros escolheram o suicídio como saída. Decisão admirável, que requer uma coragem e força que poucos possuem. Agora ponha todos esses sentimentos em escala mundial. Todos pensam nisso, mas poucos entendem no que estão pensando.
Mais uma pausa.
— Sentimentos são poderosos, mais do que vocês lhe dão crédito. Seu próprio conceito de certo e errado é nada mais que um amontoado de sentimentos. Em escala tão grande, tão pesada, os humanos inconscientemente criaram a saída para os problemas: um propósito. — Vozes roucas e fanhas, graves e agudas, finas e grossas, todas vindo de um único lugar, entrando nos ouvidos de uma vez só. Nicolas sentia-se no meio de uma rua movimentada onde todos falavam com ele ao mesmo tempo. — Uma dimensão separada e próxima, seres diferentes e, ao mesmo tempo, iguais. Humanos criaram seus próprios predadores, uma existência capaz de destruí-los. Você foi atrás de respostas e nós lhe daremos uma única dica: olhe em volta. Verá que os predadores estão agindo. Por enquanto são lentos, ainda estão engatinhando. Porém tenha em mente que a criança logo aprende a correr e é bom que estejam preparados quando ela falar.
Sentiu o peso extra na cama sumir e então a força voltou aos seus membros. Levantou-se e ligou a luz, encontrando o quarto fechado e sem sinal de ninguém. O que foi aquilo? Quem acreditaria em um discurso tão idiota e fantasioso?
Mesmo diante de tamanha baboseira, não foi capaz de conter o sorriso tomando seus lábios. Tinha algo em que se concentrar e, se quisesse progredir no seu novo objetivo, precisaria mudar. Para melhor desta vez.
Resumir sua rotina de trabalho depois de sequestrarem — esse era o termo certo — Maurício foi difícil. Se antes não conseguia focar por buscar um culpado pela morte de Igor, passou a não focar pelo peso da culpa. Conseguiram as informações que precisavam, mas ainda não podiam libertar o gerente.
Quanto mais parava para pensar nas suas ações, mais idiotas pareciam. O que fariam depois que tirassem informações dos outros cultistas? Não poderiam soltar Maurício, pois ele poderia avisar os cultistas e jogar a instituição contra os quatro. Nicolas pediu para ela não se preocupar, que daria um jeito de fazê-lo não se lembrar. Mas e se não funcionasse, o que fariam? Não podia deixar o chefe abrir a boca, e não queria pensar em quais ameaças Nicolas faria para mantê-lo quieto.
Tentou agir naturalmente durante o dia, mas uma coisa era pensar, e outra era fazer. Pegar o café às nove e quarenta era normal? Ouvir uma conversa sobre a ausência do gerente era suspeito? Trabalhar sem perguntar nada era incriminador? Não sabia dizer, tudo parecia errado. No entanto, nada ocorreu. Não foi acusada, observada com cautela ou cercada de policiais de um segundo para o outro. O superior de Maurício apareceu no setor para perguntar dele e só.
Saindo do expediente, foi até o lugar que o gerente lhes revelou ser um ponto de encontro importante. Era uma espécie de galpão no meio da Avenida Ipiranga, ignorável se estivesse por lá com qualquer outro objetivo. Passou algumas vezes na frente e, quando a lua já estava alta no céu, esperou durante um tempo do outro lado da avenida, deixando o Arroio Dilúvio entre ela e a construção. Não aconteceu absolutamente nada, e nem no dia seguinte. Usou a madrugada e suas preciosas horas de descanso na tarefa. Para piorar, o pouco tempo de sono que tinha era repleto de pesadelos, onde ela era cercada por cultistas, presa e entregue como oferenda a um predador.
Foram cinco dias de observação e zero acontecimentos. Até que, no meio da madrugada do sexto dia, viu algo. Uma van, muito similar à que enxergou certa vez no salão, estacionou na frente do galpão. De dentro dela saíram diversos homens e, mesmo à distância, era possível ver que estavam armados. Não entendia quase nada de armas, mas pareciam fuzis e espingardas.
O plano era notificar Nicolas da chegada dos cultistas e fazer o mesmo que fizeram com Maurício, mas naquele cenário não funcionaria. Um tiro bem dado era mataria Nicolas, não importasse quantas cordas tivesse ao seu dispor. Dominique também sofreria danos, e como não falaram nada com Fernando, poderia demorar horas até ele aparecer e curá-la. A única resistente ali era Bárbara, mas isso só nos territórios. Mandou uma mensagem para Nicolas.
Bárbara
Vá para o farol.
Não esperou confirmação. Os homens começaram a mover-se para o interior do galpão. Se entrassem, não teria mais oportunidade alguma. Pensou no farol, sentiu a mudança de ambiente ao seu redor, e logo em seguida pensou na entrada do galpão. Surgiu atrás de um dos cultistas. Ouviu gritos e, antes que o homem pudesse se virar ou que levasse uma saraivada de balas, Bárbara tocou-o e voltou ao farol.
Assim que o ambiente mudou, o cultista afastou-se dela, virou, mirou a arma e atirou. Sentiu o impacto dos projéteis contra seu corpo, a dor fulminante das balas de fuzil, mas resistiu a cada uma delas. O homem continuou atirando, sua face retorcida em pavor e empolgação enquanto os projéteis batiam no corpo de Bárbara sem penetrar a carne. Teria atirado até acabar a munição, mas Dominique lhe acertou um golpe na cabeça que o deixou estatelado e inconsciente no chão.
Repleta de rachaduras, todas partindo do peito e cabeça para os demais membros, Bárbara caiu sentada, cada centímetro do corpo doía e queimava como o inferno, mas estava viva. Pela primeira vez olhou bem para o cultista. Estava na faixa dos trinta anos, os braços pareciam toras e o rosto possuía o tom bronzeado de quem ficara anos trabalhando sob o sol. Usava roupas pretas diferente das que tinha visto nos cultistas até o momento, com botas de cano alto, calças cargo e um colete balístico.
— Por que não seguiu o plano? — perguntou Nicolas, logo ao surgir no farol.
— Estavam todos armados! — A resposta de Bárbara saiu como um rosnado, a dor alimentando sua raiva.
— Não estou te reprimindo, apenas perguntando. — Nicolas pegou a arma no chão. — Armamento pesado demais para carregar por aí. — Começou a caminhar para o exterior. — Vou jogar isso fora.
Voltou alguns minutos depois, carregando uma cadeira de praia. Ele e Dominique ergueram o homem, o colocaram na cadeira e depois inúmeras cordas surgiram, restringindo seu mais novo sequestrado.
— Onde está Maurício? — perguntou Bárbara.
— Do lado de fora — disse Dominique. — Deixamos ele bem longe daqui para não ouvir ou ver nada do que acontecesse.
— Esperavam algo incriminador ocorrer?
— Quanto menos detalhes ele souber, melhor — respondeu Nicolas. — Se ele levar o que já sabe ao culto vamos ter muitos problemas.
O cultista acordou minutos depois, gemendo e falando da dor na cabeça. A reclamação não durou muito, pois assim que seus olhos pousaram nos três, ficou em alerta e tentou escapar. Era mais ativo que Maurício, mas um pouco mais burro também. O que faria se escapasse? As cordas resistiram ao esforço, mas não a cadeira, que de tanto balançar, tombou e fez o homem bater a cabeça no chão.
— Filha da puta! — berrou ele.
— Quando parar com essa tentativa inútil, conversaremos — declarou Nicolas.
O homem os encarou.
— Falar? Sobre o quê? Vão me matar mesmo. — Era com naturalidade que ele declarava isso, sua voz não titubeava.
— Vamos? — perguntou Bárbara, olhando para Nicolas.
— Claro que não — respondeu Dominique.
— Não estou falando de vocês, estou falando do culto.
— Explique — pediu Nicolas, dando um passo à frente.
— Que tal me levantar primeiro? Muito ruim falar assim.
Nicolas gesticulou para Dominique, que se aproximou da cadeira e colocou-a de pé. O homem sorriu.
— Tu é forte vovó.
Que figura tinham capturado?
— Então… — começou Nicolas.
— Vou abrir o jogo, eu não faço bem parte do culto. Sou mais um contratado, sabe? Alguém para garantir que todos os voluntários atirem no lugar certo.
— Tipo um instrutor? — perguntou Dominique.
— Isso! Inclusive, eu sou um instrutor de clube de tiro também. — Parecia mais e mais que o cara tinha usado substâncias diferenciadas logo antes. — Só que em vez de treinar em alvos parados, meu trabalho é fazer com que mirem e atirem nas aberrações.
— Com aberrações, você quer dizer os predadores?
— Sei lá, eu chamo de aberrações.
— Então eles te mandam para lá sem dizer nada? — Dominique olhou para Nicolas. — Isso está muito estranho.
— Vamos ser diretos aqui. — Nicolas aliviou o aperto no pescoço. — O que vocês iam fazer hoje no galpão?
O homem alternou o olhar entre todos antes de responder.
— Não vou falar sem antes fazer um trato. Quero que garantam minha segurança depois de me liberarem.
— Negativo. O que podemos fazer é te deixar em um local bem distante, assim vai ter como fugir dos cultistas.
— Não sei, não parece muito bom.
— Suas opções são ficar quieto e ser largado no galpão, ou nos falar tudo e ser largado longe.
O homem deu de ombros.
— Tudo bem, podem disparar suas questões. Um de cada vez, e levantem a mão antes.
— Por que o culto vai te matar, afinal? — perguntou Dominique.
— Para garantir que eu não tenha voltado como um espião.
— E por que aceitou o trabalho? Não era melhor ficar na sua? — perguntou Bárbara.
— Eles me pagam uma bolada! Vivo como um rei há dois meses, e só trabalho duas vezes na semana. — Ele riu. — Duvido que não aceitariam um trabalho sujo por uma grana boa.
Bárbara suspirou. Toda a sua investigação e tempo de espera resultaram em pegar o mais escroto do grupo. Seu pé estava coçando para juntar a sola da bota com o rosto do homem.
— Cuidem disso, eu vou esperar lá fora.
Saiu do farol e esperou sentada na grama. Não conseguiu ver nem sinal de Maurício pelas redondezas. Pensou em procurá-lo, mas para quê? Qualquer conversa que os dois tivessem seria desagradável, e não era capaz de ajudá-lo em nada, tampouco convenceria o homem a ficar de boca fechada.
Quase trinta minutos se passaram até que Nicolas e Dominique saíram do farol. Dominique tinha uma expressão preocupada, enquanto Nicolas parecia, era difícil definir com exatidão, empolgado.
— O que descobrimos? — perguntou Bárbara.
— Eles selecionam os mais fervorosos do culto para lutar contra predadores. Metem umas armas em suas mãos e ensinam o básico antes de jogá-los nos territórios — respondeu Nicolas.
— Parece estupidez…
— E é — disse Dominique.
— Eles nem sabem como vão parar lá — complementou Nicolas. — Apenas desligam todas as luzes no galpão, dão as mãos e alguém os transporta para o território.
— Como assim alguém? Alguém quem? — perguntou Bárbara, estranhando a explicação.
— Não sabemos, e ele também não. — Nicolas parou de falar, pensativo.
Após um tempo de silêncio, Dominique continuou a conversa.
— Aparentemente a razão disso não é eliminar o originador, apenas querem explorar o território antes de mandar um grupo de elite. E o território de hoje é especial, parece que tentam destruí-lo faz quase cinco meses e não conseguem. — Dominique olhou para o farol de relance. — Isso se ele falou a verdade.
— Não saberemos até ir lá — disse Nicolas.
— Vamos? — perguntou Bárbara, surpresa. — Por quê?
— Duvido que o objetivo do culto seja somente a eliminação de originadores, tem algo a mais. O modus operandi deles é estranho, se querem salvar as pessoas, por que as usam como bucha de canhão? Por que juntar um culto com uma milícia? Se fosse só por influência ou dinheiro, não precisaria envolver os predadores. — Nicolas ajeitou a corda no pescoço. — Desconfio que descobriram algo especial sobre os territórios, e esse de hoje possui algo muito valioso.
Bárbara cruzou os braços, os pelos arrepiando.
— Pode até ter… porém estão tentando há meses, não vai ser fácil.
— Estamos mais preparados agora, usamos melhor os nossos vestígios. E se deixarmos a oportunidade escapar, quem sabe quando aparecerá novamente?
— E quanto ao culto? Não era para descobrirmos mais sobre eles?
— Uma coisa leva a outra. Além do mais, com mais conhecimento, mais vantagem teremos.
Bárbara assentiu devagar, um tanto desconfiada das palavras de Nicolas.
— O que faremos?
— Preciso levá-lo de volta ao galpão agora. — Nicolas olhou para o topo do farol.
Bárbara não disse nada, e nem precisou, Dominique leu seu rosto e respondeu por Nicolas:
— Eles estão mandando pessoas para a morte certa. Quantas vezes nós, que somos feitos para isso, quase morremos? Agora imagine mandar pessoas que mal sabem empunhar uma arma? — Cada palavra era cuspida com um ódio que nunca vira na idosa. — Fazer um acordo com esse tipo de gente não vale a pena, é melhor pecar pela mentira do que ajudar alguém assim.
— Ele não era só um peão?
— Um peão que sabia muito sobre as operações e chance de sobrevivência. Aquelas pílulas que temos para fugir, sabe quem era o único que tinha? Ele!
— De qualquer forma, esse sábado vamos explorar o território. Vou chamar Fernando também.
— Não teria sido bom avisar ele de tudo isso antes?
— Ele pediu um tempo — disse Nicolas, pegando o celular. — Deve estar ocupado com outras coisas.
Era bom ver que pelo menos alguém no grupo tinha uma vida que não envolvia predadores ou cultistas. Quem dera a sua fosse tranquila assim, alguns problemas com a família ali, outros com dinheiro aqui. Nada que envolvesse desaparecimentos, mortes e sequestros. Era inveja pura, sabia disso. Ela também tinha problemas com a família, mas, diferente de Fernando, não se preocupava com isso, não mais.
— O que nós faremos até sábado? — perguntou ela.
— Eu vou checar o galpão, quero sentir o território e sua localização agora que estará vazio.
— Acho que você deveria tirar esses dias para descansar — disse Dominique. — Sem ofensas, mas parece que foi pisoteada por um cavalo.
— É… descansar seria bom.
Não seria, descansar a deixaria sozinha com seus problemas. Mas o que mais faria? Tinha de reconhecer que estava exausta além do limite. Pensamentos iam e vinham, sem receber a devida atenção e sem chegar à conclusão alguma. Talvez, com o nível de cansaço que estava, bastaria deitar-se que apagaria, sem que fosse atormentada por nada.
Despediu-se, voltou para seu apartamento e caiu no sofá. Só então lembrou-se de perguntar quando liberariam Maurício. Pegou o celular e tentou digitar uma mensagem para Nicolas, mas as pálpebras fechavam o tempo inteiro, os dedos erravam todas as letras. Desistiu, largou o celular e dormiu.