Predadores: A Obsessão – Capítulo 37

Desenho monocromático. A imagem mostra uma mesa de lanhouse com um monitor CRT antigo, um gabinete, mouse e teclado. O monitor está mostrando uma janela com o jogo tíbia aberto, onde temos a visão de cima de um personagem cavaleiro, uma trilha com árvores em volta e um monstro inseto próximo do personagem. No lado direito mostra o inventário do jogador, com os itens equipados e posses da mochila.
Na parte superior da imagem há o número trinta e sete para indicar o capítulo.

Certas coisas pertenciam ao passado e quando vistas em pleno funcionamento em épocas atuais provocavam uma sensação de estranhamento. Isso ainda existe? Ainda funciona? Televisores CRT, fitas cassetes, disquetes e mouses de esfera eram exemplos dessas antiguidades. Porém, quando Fernando e Nicolas adentraram aquela lan house após passarem por inúmeras salas, não foi o estranhamento que reinou, foi uma simples sensação de nostalgia e adequação.

O espaço não era grande. Resumia-se a um balcão com seis baias, cada uma contendo um gabinete, monitor, mouse, teclado e um fone de ouvido barato. Do lado oposto ao balcão, havia uma mesa pequena com somente um computador. O espaço para a cadeira e o monitor ficavam virados para a parede, facilitando a fiscalização do uso dos demais equipamentos. Havia três portas nesse lugar, uma de saída da lan house, e duas que pareciam levar a banheiros. Isso claro, se seguissem a lógica comum.

Os computadores dos clientes estavam todos ligados e mostrando na tela a mesma imagem: um jogo antigo com uma perspectiva top-down, aquela visão de cima do personagem, e ao redor havia um campo verde com eventuais pedras e árvores. Nada de som.

— Nossa! Faz um bom tempo desde que vi alguém jogando Tíbia — disse Fernando, apertando as setas direcionais de um teclado e fazendo o personagem se mover.

Nicolas passou caminhando em frente às demais baias.

— Talvez terminar o jogo nos ajude a sair do território?

Fernando segurou um riso.

— Boa sorte nisso, até onde lembro o jogo é quase infinito. Nunca ouviu falar? Era bem famoso na época.

— Lembro vagamente, não me interesso por jogos.

E pelo que tu se interessa? Essa era uma pergunta que surgia muitas vezes, mas nunca era mencionada porque a resposta seria algo no sentido de “Eliminar predadores”.

— Bem, hoje também não sou muito de jogo, mas todo mundo teve infância. — Olhou para a tela e em seguida para Nicolas. — Ou vai dizer que não teve?

— Eu tive. Foi normal. Nada que importe.

O parceiro passou novamente pelas baias, tentando fechar o programa de diversas formas. Enquanto isso, Fernando segurou a seta para cima e deixou o personagem seguir naquela direção. A movimentação era lentíssima. Sempre fora assim? Após Nicolas passar por cada um dos computadores, Fernando também tentou fechar o programa. O resultado foi o mesmo.

— Devem ser apenas distrações — disse Nicolas, virando-se em direção a uma das portas e caminhando até ela com Fernando logo atrás.

Entraram em outro lugar diferente, uma sala de aula. Antes eram só banheiros, quartos, sala de estar e todo tipo de cômodo que se encontra em uma casa. Um possível sinal de progresso?

As mesas e cadeiras do local estavam espalhadas uniformemente em algumas áreas e bagunçadas em outras. Os móveis possuíam um aspecto degradado e cheios de rabiscos, seja em caneta ou esculpidos na madeira por alguém com um estilete ou compasso. O quadro-negro na frente mostrava vários desenhos com as mais variadas cores de giz. Não foi surpreendente encontrar um pênis com capa de super-herói em um canto.

— Pensando bem, acho que sabemos muito pouco sobre o grupo, não? — perguntou Fernando.

— Como assim? — Nicolas nem olhou para ele, seu foco estava nas portas dispostas pelas paredes da sala, que eram quase vinte.

— Algumas coisas… Não sei sobre Dominique ou porque ela está com a gente, sei pouco de Bárbara, nada sobre ti.

— Não tem nada para saber sobre mim. — O líder encarou-o. — E não acho que saber esse tipo de coisa vai nos ajudar a sair daqui.

— É, mas poxa, nos encontramos só para arriscar a vida e matar monstros. Saber uns sobre os outros pode não nos ajudar com os predadores, mas seria um estímulo para o grupo se juntar mais vezes.

— E por que você nunca tocou nesse assunto antes? Por que esperou para falar só hoje? — Com essas palavras, Nicolas caminhou em direção a uma das portas.

Para alguém que parecia não ter sentimentos, o desgraçado sabia onde atingir. E de certa forma tinha razão. Fernando não tinha a resposta para aquelas perguntas. Poderia botar a culpa na sua rotina, nas suas preocupações, em qualquer coisa, na verdade. Ele queria apenas mudar a situação, e quase conseguiu uma vez quando levou lanches para todos e tiveram um momento divertido, de conexão. Queria transformar aquele grupo em algo além de uma forma de fugir dos seus problemas. Estava tentando reatar com sua família, e obtendo sucesso nisso. Mais coisas na sua vida importavam, e se iria se arriscar com o grupo, queria conhecer mais deles, considerá-los amigos. Não queria chegar e fazer o de sempre, como se fosse um trabalho mal pago.

Entraram em uma sala de estar e, qualquer que fosse o conteúdo dela, foi ignorado diante dos dois corpos esqueléticos no chão. Próximo a um dos cadáveres havia um revólver e manchas de sangue secas pelo que parecia ser muito tempo. Por um momento, Fernando preocupou-se que seriam Bárbara e Dominique, mas uma análise com calma do que restava das roupas revelou que eram outras pessoas.

Nicolas se agachou próximo ao morto do lado da arma.

— São do culto. Os dois têm o símbolo na roupa, ainda que esteja bem degradado.

Fernando chegou perto, notando que o cadáver tinha um ferimento que entrava em um lado da cabeça e abria um rombo no outro.

— Foram mortos por um predador? — perguntou Fernando.

— Provavelmente não.

— Provavelmente?

— Não vimos nenhum até agora, mesmo passando por inúmeras portas e salas.

— Podem estar se escondendo. Ou o lugar que é muito grande. — Fernando olhou para as portas. — Prova disso é que não encontramos ninguém até agora, sendo que diversos cultistas foram enviados para cá, não é mesmo?

— O objetivo dos predadores é eliminar humanos, se alimentar deles. Quanto mais nos deixarem no território, maior as chances de fugirmos ou aprendermos a lutar. Eu não acho que ficariam esperando.

Nicolas vasculhou os bolsos de cada cadáver. Em um deles não encontrou nada, no outro achou vários papéis amarelados e quebradiços, além de um celular. Assim que ligou a tela, Fernando viu os números das horas e minutos mudando tão rápido que era impossível registrar qual o horário mostrado em tela antes que ele mudasse novamente.

— Cheque seu celular — disse Nicolas, puxando também o seu. — Dias e horas.

Fernando obedeceu, tirando o smartphone do bolso. Há tempos havia desistido de checar informações como horas e a existência de um sinal quando estavam dentro de territórios. As informações costumavam ser imprecisas, mas ao ver em sua tela o mesmo que ocorria no celular do cultista, o coração palpitou com força. Prestou atenção no dia, que mudava menos que as horas, mas, ainda assim, rápido o suficiente. Olhou então o restante da data: fevereiro de 2021. Se acreditassem no registro, mais de 24 meses se passaram desde a entrada deles no território.

— Essa data não faz sentido — disse Fernando, olhando para Nicolas. — Deve ser o território cagando no sistema como sempre.

— Ou não… — O líder encarou Fernando, erguendo o celular do cultista — o que deixou os cadáveres assim não foi nenhum predador, foi simplesmente o tempo passando.

Fernando aproximou o rosto do aparelho do morto, vendo o sistema mostrar uma data diferente e ainda mais avançada: maio de 2068.

— Cara, não tem como isso ser verdade. — Ele guardou seu celular. — As horas nunca funcionaram direito nos territórios.

— Sim, sempre foi errático, ou parava ou avançava sem nexo algum e depois voltava. — Nicolas ergueu-se. — Aqui apenas avança. Temos como confirmar isso esperando anos o suficiente se passarem para notarmos as diferenças em nós mesmos.

— Espera! Se isso for verdade, se esses anos passaram, então nós simplesmente perdemos eles!

— Exato.

Um segundo de silêncio se abateu no local. Ou será que foi um dia? Quanto tempo realmente estava passando? E por que estavam parados?! Precisavam se mover, e rápido.

— Temos que achar as duas e sair daqui! — disse Fernando, tomando a dianteira e seguindo para uma porta qualquer.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 36

Desenho monocromático. A imagem mostra um tapete no chão, e ao lado dele um cadáver em estágio avançado de decomposição.
No canto inferior direito do desenho há o número trinta e seis para indicar o capítulo.

— Que ideia de merda essa do Nicolas.

Bárbara escancarou a porta recém-aberta com um pontapé, revelando um salão enorme. Ele começava com uma escada reta para um nível superior, sem proteções ou corrimão, e após alguns passos dividia-se com uma parte seguindo para o lado direito e outra em frente. As ramificações, por sua vez, dividiam-se em mais caminhos, para cima e para baixo, que em seguida faziam o mesmo, criando um labirinto de degraus.

Antes que Dominique pudesse analisar onde cada destino levava, Bárbara virou em sua direção e perguntou:

— O que faremos agora?

— Eu não sei. — Olhou para onde estivera sua porta alguns momentos antes. Tentaram coordenar uma abertura conjunta, mas, talvez por questão de milésimos, a de Bárbara foi aberta antes e permaneceu existindo.

— Sei que tu andou bastante com Nicolas, ele não deu nenhuma ideia do que fazer nessas situações?

Sim, eles interagiram mais e, sim, Nicolas conversou sobre os predadores com Dominique. Mas eram muito mais fatos e pontos filosóficos do que estratégias a serem aplicadas em situações emergenciais. Além do mais, as pílulas eram o escape definitivo, ou deveriam ser. As duas engoliram as cápsulas assim que os companheiros desapareceram, mas não houve efeito algum além de uma voz estranha ressoando no lugar.

Voltou a atenção para o salão de escadas. Adiantaria somente avançarem? O que mais as esperava? Teriam alucinações como no território de carne? Seriam sequestradas como no hospital? Ou enfrentariam hordas de inimigos como no metrô? Nenhuma daquelas opções era a correta, não pareciam se encaixar.

— Acho que não nos resta muita alternativa além de seguir em frente, mas antes podemos tentar abrir um buraco, o que acha?

— Boa ideia! Tu consegue? Eu estou… Bem, sem gás.

— Vou ter que tentar.

Dominique tocou a parede, sentindo a textura da estrutura. Parecia normal, sem nada que a reforçasse. Assumiu a postura adequada com pé esquerdo na frente, pé direito atrás e base firme, conforme viu em um vídeo que Nicolas mostrara. Girou o tronco ao mesmo tempo em que socou com o braço, um movimento longe de estar perfeito, mas Dominique não queria se tornar pugilista nem nada do tipo, então serviria por enquanto. O punho atingiu a parede com velocidade e força suficientes para matar qualquer criatura viva, mas a estrutura em si nem se abalou. O estrago mesmo foi feito na idosa, os ossos quebraram-se em fraturas que romperam a pele e marcaram a parede com sangue.

— Dominique! Que merda! Tu… Isso… Porra a gente devia ter pego uns pães com Fernando antes!

— Está tudo bem, nem está doendo.

E era verdade. Já esperava que não fosse capaz de abrir um rombo, ou que isso a afetasse no processo, portanto, eliminara a sensação de dor pelo corpo. Isso fazia com que se sentisse em um estado dormente, como se cada membro pertencesse a uma pessoa diferente e ela fosse uma espécie de Frankenstein.

Olhou para o punho, juntou os pedaços dos ossos e recuperou a pele. Em alguns segundos era como se nada tivesse acontecido, somente a mancha de sangue seco destoando do resto da pintura denunciava o ocorrido.

— Desde quando tu faz isso? — perguntou Bárbara.

— Aprendi truques novos — respondeu a idosa, com um meio sorriso.

— Queria eu ter aprendido algo também…

— Dessa vez eu consigo.

Reposicionou-se, reforçando mais seus músculos e envolvendo seu punho e antebraço em um exoesqueleto esbranquiçado com uma fina camada esponjosa antes de chegar no seu braço propriamente dito. Serviria para amortecer parte do impacto e impedir sua mão de arrebentar com o golpe.

Socou dando tudo de si, sentiu o exoesqueleto rachar assim que entrou em contato com a parede e forçou-o a manter-se inteiro, os ossos no interior do braço pareciam capazes de se partir em um milhão de fragmentos e o ombro quase deslocou. Porém, mesmo com todo o esforço, a parede nem sequer rachou.

Contorceu o rosto em uma careta e recuou a mão alguns centímetros, pronta para outra tentativa. Dessa vez funcionaria! Cerrou a mandíbula, mas então soltou a respiração e balançou a cabeça. Não daria certo, sua utilidade era limitada, ela era limitada. E na situação em que se encontravam, era inútil.

— Não sei se fico assustada ou impressionada. — Bárbara aproximou-se. — Tu não fazia nada disso antes.

— Pouco serve se não consigo sequer derrubar uma parede — respondeu Dominique enquanto desfazia as alterações no corpo.

— Eu poderia dizer que tenho pena dos predadores que encontrarmos daqui em diante, mas a verdade é que não tenho. — A jovem olhou na direção da porta. — Acho que só nos resta seguir adiante.

Dominique meneou com a cabeça e acompanhou Bárbara até o salão das escadas. Entrando nele, as duas pararam e observaram as inúmeras opções que tinham. Agora que estavam dentro, era possível enxergar que toda ramificação acabava em uma porta.

— Agora complicou — comentou Bárbara.

— Não deve ser tão diferente — Dominique passou os olhos nas diversas saídas. — É escolher uma porta e ir até ela.

— Sim, mas qual? A gente estava escolhendo qualquer porta antes, mas não acho que dê para fazer o mesmo para sempre.

Dominique fitou a porta no nível mais alto.

— Em histórias, o vilão está sempre no último andar, acho que devemos ir para aquela lá.

Bárbara olhou-a boquiaberta.

— Sério? Histórias? Estamos tentando fazer algo sério aqui.

— Eu estou falando sério. — Olhou a mulher mais nova. — Os outros territórios funcionavam com uma lógica, estou pensando que pode ser essa a lógica desse lugar: ir sempre o mais longe ou alto possível. Nicolas pensaria algo parecido.

— Do jeito que esses lugares são malucos é capaz de ser isso mesmo. — Bárbara estalou a língua. — E se o oposto também funcionar? Em prédios a saída é sempre para baixo.

— Se sairmos não eliminamos o originador. E os outros dois…

— Podem continuar presos, entendi. Vamos ao topo, então. Seja lá o que nos espera.

Dominique liderou o caminho, já tendo verificado quais ramificações pegar se quisesse chegar ao topo. Mesmo assim, o trajeto era desorientador: curvas que tinha que tomar às vezes apareciam cedo demais comparado ao que esperava, já em outros casos, ficava pensando qual lado seguir até notar que estava no caminho correto há uns bons segundos.

Cada opção que deixavam para trás lhe trazia um aperto no peito, uma incerteza. Aquela rota descartada poderia levá-las até os outros. Como saberiam qual porta era a correta? Como saberiam aonde chegar? Mais de uma vez, viu-se parando nas bifurcações e hesitando em continuar até o topo. Nunca pensou que apenas caminhar seria um teste de sua fortitude mental.

A presença de Bárbara, no entanto, a impelia adiante. Explicara seu raciocínio, ainda que estranho, para a jovem e a convencera de que era o correto. Mostrar insegurança seria prejudicial e levantaria dúvidas. Era assim que Nicolas se sentia? Era esse o fardo dos líderes, manter uma fachada de competência até que chegassem ao resultado esperado?

Quando enfim estavam no topo, Dominique abriu a porta. Ouviu um som rudimentar, como o arrastar de pedras e virou-se. Bárbara, felizmente, estava com ela. A mudança ocorreu no restante do caminho, com todas as ramificações desaparecendo, sobrando apenas uma escadaria reta que levava do início do salão até onde estavam.

— Estou pensando que vai ser impossível reencontrar Fernando e Nicolas no território — disse Bárbara, também observando as mudanças. — Tudo que fica para trás desaparece.

— Vamos encontrá-los em algum momento.

— Como tem certeza?

— Eles não são de ficar para trás, devem estar avançando mais que a gente nesse exato momento.

Bárbara assentiu, e as duas atravessaram a porta. Bastou colocarem os pés no cômodo seguinte e tiveram o olfato invadido pelo fedor de carne em decomposição e, por mais que tivessem visto muito até ali, a reação das duas foi a mesma: tapar o nariz com a roupa. Só então pararam para notar os detalhes do local em que se encontravam. Era uma sala de estar bem mobiliada, com dois sofás virados para uma televisão onde um sistema home theater estava instalado. Havia duas janelas grandes na sala, cobertas por cortinas creme e um tapete no chão em frente aos sofás.

Assim que os olhos pousaram no tapete, notaram a origem da podridão. Ali no chão, caído de forma desajeitada, estava um corpo humano. Era uma daquelas cenas que atraíam o olhar ao mesmo tempo em que o afastavam, um misto entre a curiosidade e a repulsa. O corpo era muito magro. A camisa branca e calça jeans estavam sujas, mas inteiras. Por baixo das vestes, a pele se descolava dos ossos e uma massa indefinida e podre escorria, tudo se desfazendo a cada segundo que passava. Bárbara se afastou, indo em direção ao outro lado da sala.

Já Dominique foi atraída para um movimento, uma silhueta humana levantando-se de trás de um dos sofás. Alívio quase manifestou-se nela antes de notar que a pessoa, o homem do outro lado, estava armado. Era capaz de modificar seu corpo para resistir a balas? Sempre se perguntou isso, mas nunca conseguiu testar, nem sequer queria. Antes mesmo que conseguisse criar uma espécie de exoesqueleto ou camada de gordura, Bárbara moveu-se, ficando na linha de tiro entre o homem e Dominique.

Os estampidos rugiram na sala pequena e previamente tomada pelo silêncio fúnebre. O primeiro tiro acertou Bárbara em cheio, criando rachaduras em suas mãos e pescoço, iluminando as asas nas costas da jaqueta com um vermelho sangue. Os três tiros seguintes não pareceram tão eficazes, e nos dois últimos o agressor foi incapaz de conter o recuo, acertando mais o teto do que a motoqueira. Ao final, a jaqueta de Bárbara rugia, as asas da estampa se alongando pelas costas inteiras.

O homem gritou e começou a recarregar. Dominique não perdeu tempo, contornou a companheira e avançou contra o atirador, arrancando quase sem esforço a espingarda de suas mãos e jogando-a em um canto distante. Desarmado, aquele homem era pequeno e inofensivo para as duas.

— Monstros! Aberrações! — O atirador recuou um passo e caiu sentado, proferindo as palavras com um misto de fúria e medo estampados em seu rosto.

Se Nicolas estivesse ali, aproveitaria o momento para interrogá-lo. Tiraria o máximo de informações antes de decidir o que fazer com ele. Por qual pergunta deveria começar? Qual era a mais útil?

Enquanto ponderava, o homem levou a mão às costas e puxou outra arma, um revólver, dessa vez. Tão próximo assim, não seria uma ameaça. Porém, enquanto Dominique se movia para desarmá-lo, não foi nela que o agressor mirou, e sim nele mesmo. Puxou o gatilho com um sorriso trêmulo no rosto. Pedaços de cérebro se espalharam pelo chão, sangue pingou nas cortinas e começou a encharcar o piso. Mais uma vez o silêncio tomava a sala.

— Filho da puta covarde — disse Bárbara atrás de si. — Bastou ficar encurralado para se matar.

Dominique se virou. Não conseguia manter o foco naquela cena. Só então teve uma visão de como estava a situação da outra. Fendas por todo o corpo, indo desde as mãos até o rosto, passando inclusive por um dos olhos, como se tivesse saído de um confronto com um predador.

— Desculpe. — Dominique baixou os olhos. Vendo a parceira naquele estado, entendia porque o homem se espantara tanto. — Eu devia ter segurado ele.

Bárbara fez uma careta e disse:

— Não, eu teria matado o desgraçado se ele não tivesse feito isso antes.

Foi então que o odor pútrido inundou novamente a sala, mais intenso e enjoativo. Bárbara olhou na direção do suicida e arregalou os olhos. Dominique se virou e fez o mesmo. Não faziam mais que alguns segundos desde que morrera, mas, de alguma forma, dias de decomposição já o afetavam. Língua e olhos inchados, saindo para fora do corpo como se fossem protuberâncias, pele enegrecida, cadáver deformado e inchado.

Matar e morrer pareciam tarefas fáceis comparadas a encarar o processo de decomposição tão de perto, tão rápido. Era um vislumbre do futuro que viria para todos, um do qual não se tinha escapatória.

Dominique sentiu a mão de Bárbara tocar em seu ombro e em seguida apontar para o peito do cadáver, bem na direção do símbolo dos cultistas da justiça. Claro, o objetivo era conseguir informações com aquela gente. E Dominique perdeu uma ótima oportunidade de cumpri-lo.

Virou-se para a colega e assentiu. Não havia nada a dizer, e qualquer palavra inundaria a língua com a podridão. Em silêncio, as duas rumaram até a porta mais distante dos corpos, abriram-na, e seguiram para a sala seguinte.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 35

Desenho monocromático. Nele estão representados um sol e uma lua cheia. O sol possui um rosto solene e contente desenhado no meio, já a lua possui um rosto resignado
No canto inferior direito do desenho há o número trinta e cinco para indicar o capítulo.

Fernando colocou a mochila nas costas, sentindo seu peso estranho e desconfortável. Os olhos passaram das alças para o rosto de Gabriel, contorcido em preocupação. Sempre foi ruim entrar em um território, dessa vez não era diferente, porém tinha um peso a mais em seus ombros. Estava fazendo progresso com sua família e, não fosse pela mensagem de Nicolas, sua noite encerraria com um jantar na casa da mãe.

— Vai dar tudo certo — disse Gabriel, abrindo um leve sorriso. — Tu mesmo me disse que na última vez saíram melhor que o esperado.

— Tenho medo que isso nos deixe confiantes demais.

— Melhor que ficarem todos amedrontados e colapsarem no primeiro obstáculo. — Gabriel botou as mãos em seus ombros e aproximou o rosto. — Não vou me estender para não dar uma de coach quântico aqui, mas tu é forte, o homem mais forte que eu conheço. Sei que vai dar tudo certo.

— Obrigado. — Fernando sorriu. — Só por dúvida, quem é a mulher mais forte?

— Essa seria minha mãe. Campeã indisputável.

Os dois riram. Sim, estavam receosos, porém o melhor a se fazer era encarar a preocupação com bom humor, em vez de afundar-se em sentimentos negativos. Fernando despediu-se de Gabriel com um beijo e foi para o farol.

Encontrou todos lá, esperando-o. Olhou primeiramente para Bárbara. O último encontro do grupo tinha terminado da pior forma possível, mas o rosto da motoqueira não demonstrava mais fragilidade ou tristeza, parecia uma máscara inabalável de determinação. Quanto daquilo era fingimento e quanto era real?

— Mais um território, então? — perguntou Fernando, voltando-se à Nicolas.

— Sim, um pouco diferente dessa vez. — O líder colocou-se no meio do grupo. — Descobrimos que o culto da justiça com que Bárbara se envolveu antes está enviando pessoas para diferentes territórios.

— Pera! — Fernando levantou uma mão. — Quando descobriram isso?

— Investigamos bastante nas últimas semanas — respondeu Bárbara. — Eram suspeitos demais para deixarmos de lado.

— E ninguém pensou em me avisar antes?

— Você me mandou mensagem pedindo para dar um tempo. — Nicolas olhou algo no celular. — Estávamos respeitando seu desejo.

Fernando grunhiu em resposta.

— Continuando. Não sabemos exatamente porque estão fazendo isso, sendo que a chance de sucesso para pessoas normais é baixíssima, então um de nossos objetivos será entrar em um dos territórios de despacho e investigar. Se acharmos um membro do culto, a prioridade é voltar para o farol com ele.

— E o originador? — perguntou Fernando.

— Melhor deixarmos de lado.

— Mas o eliminaremos na semana seguinte, certo? — perguntou Dominique.

— Tentaremos.

Nicolas passou os olhos pelo grupo, então entregou uma pílula de escape para cada um. Fernando e Dominique pegaram as suas sem questionar.

— Temos uma sobrando ainda — comentou Bárbara, antes de pegar a sua também.

— Sim, mas talvez tenhamos que trazer um cultista ao farol. Se nos separarmos, deem um jeito de deixá-lo inconsciente e dar a pílula. — Ele ficou um momento em silêncio. — E, também, eu precisava de uma desculpa para encontrar o fornecedor.

— O que queria com ele? — perguntou Fernando.

— Aliás, quem é o cara? — questionou Bárbara, franzindo o cenho e elevando o tom de voz.

— Apenas um homem que me ajuda de vez em quando. Queria ver se ele tinha informações dos cultistas, já que eles também possuem essas pílulas.

— E? — pressionou Bárbara.

— Nada. Devem conseguir direto com o produtor.

— Isso está me embaralhando a cabeça — disse Dominique. — Sabemos quem é o produtor?

— Não, só sei que é alguém com um vestígio. Igual a nós.

— E pelo jeito um grandessíssimo filho da puta — reclamou Bárbara. — Onde já se viu dar essas coisas para um cultista?

— Talvez ele não saiba quem são seus compradores? — sugeriu Dominique. — Ou talvez estejam mentindo.

Fernando ficou olhando para a pílula branca em sua mão. Nunca tinha parado e pensado no seu funcionamento, apenas aceitara sua efetividade. Como era feita? Por que o produtor criava aquilo?

— Mais alguma pergunta? — disse Nicolas.

Ninguém abriu a boca. Fernando olhou para Dominique e depois Bárbara. Algo estava diferente nas duas e ele não sabia dizer o quê. Talvez fosse o simples peso do que faziam agindo sobre elas, mas não parecia ser o caso.

Sentiu-se mal por ter se afastado. Deixou Bárbara na mão lidando com a morte do amigo. Não, ele precisara da pausa, se tivesse a possibilidade de ir a um território, usaria isso como desculpa para não entrar em contato com a família. Não se arrependeria de sua escolha.

Nicolas estendeu sua mão e os demais fizeram o mesmo. Um instante depois, foram transportados para o pátio de um condomínio de edifícios. Estavam no meio de uma trilha de pedras de basalto entre a porta de entrada para um prédio e o que deveria ser a saída, porém era apenas um muro de vidro fumê com mais de cinco metros de altura que cobria os arredores do condomínio. Não era possível ver nada que estivesse fora do terreno. Diferente dos outros territórios hostis em que tinha entrado, Fernando notou que poderia sair desse quando quisesse.

Também sentiu algo a mais, um tique-taque que tocava somente quando não se prestava atenção. Junto a ele, uma sensação estranha de familiaridade, como se já tivesse estado no território. Talvez fosse a brisa que percorria o terreno, talvez a porta de madeira do prédio. Era como se estivesse tendo o mesmo sonho pela segunda vez.

— Deixa comigo — disse Dominique, tirando-o de seus pensamentos.

A idosa aproximou-se mais do muro e saltou como se o corpo não pesasse mais que uma pena, subindo vários metros no ar e aterrissando no topo da divisa. Incapaz de fazer algo sequer parecido, Fernando direcionou seu olhar para outros pontos, notando os demais prédios no condomínio. O restante do pátio estava tomado por grama curta e amarelada, não havia mais trilhas levando do muro à entrada nos demais edifícios e, com exceção daquele em que estavam à frente, todos tinham um ar de incompleto. Alguns andares tinham quatro janelas, enquanto em outros havia um espaço vazio entre elas, a pintura era irregular e a estrutura deformada nos cantos. É como se a construtora tivesse esquecido de partes do projeto e deu como entregue mesmo assim. A única caraterística que todos tinham em comum eram os mais de vinte andares que cada prédio possuía, tornando impossível de visualizar o topo estando logo abaixo.

— Nada demais aqui, só carros indo de um lado para outro. — A voz de Dominique levou a atenção de Fernando de volta ao grupo.

— Algum sinal de pessoas? — perguntou Nicolas.

— Não, e agora que falou… os carros parecem vazios, também.

— Então desça.

Ela obedeceu, saltando de costas para eles, dando uma pirueta no ar e caindo com os braços abertos em frente à Bárbara. O movimento foi tão fluído que Fernando quase questionou se Dominique não estava fazendo ginástica no tempo livre.

Andaram até os outros prédios, mas nenhum deles tinha uma porta de entrada, obrigando-os a voltar para a frente do primeiro e entrar nele mesmo. Depararam-se com um corredor simples, havia elevador de portas abertas no lado direito e uma escadaria no esquerdo. Entrando na cabine deu para ver que o painel tinha somente um botão para o térreo e um para o sexto andar.

— De novo isso de elevador? Não aguento mais. — Bárbara voltou para o corredor. Os demais a seguiram.

— Será que vai ser algo parecido com o outro território? — perguntou Fernando.

— Com cada lugar sendo diferente, eu duvido. — Nicolas olhou na direção da porta de saída, e em seguida para a escada. — Seria muito fácil se tivessem soluções semelhantes.

Subiram e, ao passarem pelo primeiro lance de escadas, viram uma placa indicando que estavam no sexto andar. Bárbara soltou um grunhido baixo.

— Por que não tentamos subir mais? — disse Fernando ao notar mais um lance de escadas para cima.

Tentaram diferentes formas de subir e descer. Deixar alguém parado enquanto subiam apenas fazia com que o encontrassem quando venciam o lance de escadas, e sempre que desciam acabavam no térreo. Sem muita opção, seguiram pelo corredor comprido e cheio de portas do sexto andar, cada uma adornada com números indicando o apartamento. No entanto, ao se aproximarem de uma porta, notaram que era uma pintura detalhada e bem-feita, a ponto de enganar não importasse o ângulo de observação. Só conseguiam distinguir desenho de realidade ao chegarem bem perto.

Testar cada uma das entradas se provou rápido, apesar de frustrante. Havia apenas uma verdadeira no meio de tantas.

— Não gosto disso, estamos sendo guiados para cá — comentou Bárbara.

— Pelo menos sabemos que outras pessoas no território entraram aqui — disse Nicolas. — Não faz sentido vir matar um predador e não seguir esse caminho.

— Ainda assim, não gosto de seguir os planos de aberrações.

Bárbara olhou para cada um do grupo, recebendo um aceno de confirmação de todos, colocou a mão na maçaneta e abriu a porta. Fernando tensionou o corpo enquanto o interior do apartamento era revelado, esperando qualquer coisa, desde monstros horríveis até pessoas mortas, mas tudo que viram foi uma sala vazia com paredes cinza claro, chão de azulejo bege e uma porta em cada parede. No teto do local havia uma espécie de televisor que alternava sua imagem entre um desenho caricato do sol e um da lua, ambos com um exibindo um rosto de olhos fechados. De alguma forma, mesmo sem lâmpadas, era um cômodo bem iluminado. Fernando soube que, ao entrar ali, não poderia mais voltar ao restante do prédio.

— Trouxemos as pílulas para isso — disse Nicolas. — Vamos continuar.

Foram até o meio da sala, ficando bem abaixo do televisor. Ao que tudo indicava, sol e lua eram as únicas imagens que ele era capaz de transmitir. Nicolas deu um passo na direção da porta da parede da frente, e uma batida soou atrás do grupo.

Dominique e Bárbara se reorganizaram em meio segundo, posicionando-se entre o grupo e a origem do som. Felizmente não havia predadores atrás deles, e também não existia mais a porta de entrada. No lugar dela estava apenas a parede cinza.

— Eu já esperava algo do tipo — comentou Bárbara, olhando para Fernando e relaxando os punhos. — Só não precisava do barulho.

Fernando alternou o olhar entre Bárbara e o local onde estivera a entrada.

— Se tivéssemos segurado a porta, será que ela ainda sumiria? Não faz muito sentido ela bater se só pode desaparecer.

— Talvez devêssemos deixar alguém segurando a porta de salas que passarmos, só por garantia. — Ela virou-se na direção de Nicolas. — O que acha?

O homem ficou parado durante segundos, observando uma das saídas que restavam. Aproximou-se dela em seguida e observou-a por um momento. Finalmente respondeu:

— Pode ser uma boa ideia, mas primeiro precisamos descobrir o destino de cada uma.

Nicolas repetiu sua inspeção nas duas outras portas que, aos olhos de Fernando, pareciam iguais. Por fim, o líder se aproximou do grupo e confirmou essas suspeitas.

— Por que não abrimos qualquer uma, então? — perguntou Bárbara. — Se não sabemos o que tem do outro lado, basta olhar e ver.

— Esse território é mais perigoso que os demais — respondeu Nicolas.

— Também não podemos ficar parados aqui esperando uma ideia mirabolante — disse Dominique. — Acho que teremos que nos arriscar até entendermos tudo.

Fernando assentiu, concordando com a idosa. Era até estranho que eles estivessem pressionando Nicolas a agir com menos cautela. Acontecera algo durante o tempo em que estivera ausente? Como sempre, era difícil ler as expressões do líder para tirar conclusões.

— Tudo bem. — Nicolas olhou na direção da porta à esquerda deles. — Seguiremos com essa estratégia.

Bárbara caminhou até a porta e colocou a mão na maçaneta. Houve um momento em que Fernando achou que a mulher tinha congelado, mas então ela abriu a porta de supetão. Imediatamente, as outras duas saídas do cômodo desapareceram sem deixar rastros. A motoqueira olhou do caminho adiante de si para a sala em que estavam e disse:

— Por essa eu não esperava.

— Só significa que não podemos mudar nossa escolha — disse Nicolas, caminhando até Bárbara.

— E que escolha foi essa?

— Acho que só descobriremos com o tempo — respondeu Dominique, indo atrás de Nicolas.

Fernando seguiu-os. O grupo atravessou a porta e chegou em um corredor estreito e comprido. Havia o televisor no teto e as três portas dispostas em cada parede se repetiam. Seria igual, não fosse os quadros ao lado de cada saída. Cada um deles continha um papel com linhas desenhadas na horizontal e vertical, dividindo a folha em quadrados minúsculos. Alguns desses quadrados estavam coloridos e, olhando o desenho como um todo, formavam a imagem de um monstrinho.

— Isso é… pixel art de Pokémon? — perguntou Bárbara.

— É bonitinho. Já vi um dos meus netos fazendo algo parecido — comentou Dominique, seu tom de voz mais baixo que o normal, quase tímido. — O que isso quer dizer?

— Eu sei lá! Esse lugar não está fazendo sentido nenhum, menos que o normal.

— Charmander, Bulbasaur e Squirtle. Talvez a gente deva escolher o que mais gostamos? — arriscou Fernando, atraindo o olhar do grupo.

— Ou que, novamente, só temos uma escolha. — Nicolas alternou o olhar entre os desenhos. — A não ser que abramos múltiplas portas ao mesmo tempo.

Seguiram com essa ideia, a começar com duas simultaneamente. Bárbara ficou com a porta Bulbasaur, Dominique com a Charmander, Nicolas e Fernando ficaram entre as duas, prontos para oferecer suporte ao menor sinal de perigo. O líder iniciou uma contagem até três e, em seu término, as duas mulheres abriram as portas.

Não houve um piscar de luzes, ou um momento em que desvaneceram, não houve sequer uma chance de ajudá-las. Em um instante, Bárbara e Dominique desapareceram junto com as saídas recém-abertas, deixando Fernando e Nicolas sozinhos no corredor e com apenas a opção do Squirtle.

O coração de Fernando acelerou. Todo o relativo bom humor dos últimos minutos sumiu junto com as duas. Fernando pegou uma das pílulas de escape e colocou na boca, vendo Nicolas fazer o mesmo. Pensou no farol e em se reunir com as duas colegas. Inicialmente não fechou os olhos, sabendo que era desnecessário, porém, quando nada aconteceu, cerrou as pálpebras e fixou a imagem do farol na cabeça. Sentiu um puxão, o ambiente prestes a mudar. Abriu os olhos e se viu no mesmo lugar com Nicolas ao seu lado. A pílula não funcionou.

De repente, uma voz ressoou no corredor. Rouca e cansada, como se tivesse passado os últimos dias falando sem parar.

— Fugir não é escolha válida.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 34

Desenho monocromático. O desenho é um fundo preto preenchido com diversos olhos. Alguns são humanos, enquanto outros parecem pertencer a animais. No meio deles, há alguns que não pertencem a nenhum ser vivo, contendo várias pupilas, ou íris cobrindo quase toda a esclera, ou até mesmo órbitas que parecem derretidas.
No centro do desenho há o número trinta e quatro para indicar o capítulo.

Alguns meses antes…

Sentou-se com um solavanco. O coração aliviou o ritmo das batidas quando percebeu estar em seu lar. Ainda se acalmando, olhou para cima viu a corda arrebentada ou cortada, não sabia dizer. O nó em volta de seu pescoço não incomodava, mas o tirou mesmo assim. Em uma tentativa de organizar sua mente, dobrou a escada caída e a colocou em pé, apoiada na parede. O movimento o fez notar o quanto sua pele e axilas estavam grudentas e fedidas. Foi direto para o banho.

Estava vivo novamente, ou seria pela primeira vez? O que era aquele lugar? O que eram os predadores? Rafael e suas respostas vagas lhe deram um ponto de partida, uma direção na qual seguir. A água botou a cabeça em ordem, as engrenagens quase enferrujadas voltaram a girar.

Saindo do banheiro, resolveu cuidar de si, afinal, um corpo fraco possuía intelecto limitado. Olhou para o celular, sem mensagem ou notificação alguma, mas não queria isso, estava interessado no relógio que indicava o meio da madrugada. Sem a possibilidade de tele-entrega, foi até a geladeira e pegou pedaços velhos de presunto e queijo, além de um pão de forma vencido. Após se alimentar, foi ao escritório.

Ligou o notebook e começou a pesquisa. Foi atrás de matérias jornalísticas e artigos, buscando por termos como “predadores”, “território de caça” e “rua infinita”. Nada relevante apareceu. Tentou mais termos e outras linguagens. Sem sucesso, abandonou os jornais e começou a ir atrás de qualquer fonte, por mais duvidosa que fosse. Encontrou blogs de conspirações e teorias sem sentido algum, falando besteiras a cada parágrafo, mas nenhum lugar lhe deu as respostas que precisava. Passou por páginas e mais páginas de discussões em fóruns. Nada.

Empurrou a escrivaninha com as mãos, fazendo a cadeira de rodinhas deslizar para trás e bater com o encosto na parede. Onde conseguiria suas respostas? Passou a mão pelo pescoço, o sulco deixado pela corda se destacava ao tato. Poderia ir para lá de novo usando o mesmo método? Balançou negativamente a cabeça. Sobreviver uma vez foi sorte, não podia contar com ela para sempre, era arriscado demais.

A possibilidade de ser tudo um delírio de repente pareceu mais sensata e provável. Crianças monstruosas, uma rua que não fazia sentido e um atirador risonho. Pegou esses pensamentos e ignorou-os. Não tinha como ser um sonho, foi tudo tão palpável, tão memorável. Além do mais, queria que fosse real.

Um bocejo lhe fez se levantar para preparar café. A cafeteira elétrica fora vendida semanas antes, mas manteve um grande estoque de café solúvel. Desistiu da ideia ao ver o sol do meio-dia. Empacou em problemas que não poderia resolver sem descansar primeiro. Fechou as cortinas do quarto, deitou-se na cama e se cobriu com os lençóis. Horários estranhos, problemas complicados e situações esquisitas, até parece que voltara a trabalhar. Não demorou para seu corpo se render.

Acordou na escuridão do quarto e conforto da cama, mas não conseguiu se mexer. Os olhos inspecionaram o cômodo na medida do possível, mas nada viram. O corpo estava pesado demais para mover-se, ou simplesmente ele próprio estava fraco, não soube dizer. Algo se aproximou e se sentou na beirada da cama. O colchão afundou sob o peso e tamanho do visitante. Sentiu-se no meio da uma multidão, com todos os presentes direcionando o olhar para ele.

— Você está fazendo perguntas importantes. Nós observamos você e sua rápida viagem. — Diversas vozes falaram em uníssono.

Nicolas tentou dizer algo, mas as palavras ficaram seladas na garganta por uma língua e boca desobedientes.

— Para entender aquele lugar, você precisa primeiro entender as pessoas como um conjunto. Isso não é difícil. Pense conosco, o que diferencia os humanos dos demais animais?

Uma pausa.

— Você pode ter pensado em consciência e inteligência, mas todos possuem isso em um nível ou outro. A diferença é outra, criada ao longo do tempo pelos próprios humanos. — Nicolas notou que o uníssono consistia de vozes de homens e mulheres. — Vocês avançaram de forma que nenhum animal foi capaz, criaram uma sociedade robusta e, ao mesmo tempo, frágil, aumentaram a expectativa de vida e entraram em uma era de relativa paz. Mais uma vez, o que diferencia os humanos dos demais animais?

Outra pausa.

— Progrediram tanto e conseguiram o feito de regredir em igual escala. Se deixam escravizar por si mesmos, não tomam as rédeas da própria vida e se definem pelo que os outros decidem. — Notou como o uníssono continha vozes de crianças também. — Se acorrentaram na sociedade, perderam liberdades importantes, perderam propósito. Assim como você, muitos outros escolheram o suicídio como saída. Decisão admirável, que requer uma coragem e força que poucos possuem. Agora ponha todos esses sentimentos em escala mundial. Todos pensam nisso, mas poucos entendem no que estão pensando.

Mais uma pausa.

— Sentimentos são poderosos, mais do que vocês lhe dão crédito. Seu próprio conceito de certo e errado é nada mais que um amontoado de sentimentos. Em escala tão grande, tão pesada, os humanos inconscientemente criaram a saída para os problemas: um propósito. — Vozes roucas e fanhas, graves e agudas, finas e grossas, todas vindo de um único lugar, entrando nos ouvidos de uma vez só. Nicolas sentia-se no meio de uma rua movimentada onde todos falavam com ele ao mesmo tempo. — Uma dimensão separada e próxima, seres diferentes e, ao mesmo tempo, iguais. Humanos criaram seus próprios predadores, uma existência capaz de destruí-los. Você foi atrás de respostas e nós lhe daremos uma única dica: olhe em volta. Verá que os predadores estão agindo. Por enquanto são lentos, ainda estão engatinhando. Porém tenha em mente que a criança logo aprende a correr e é bom que estejam preparados quando ela falar.

Sentiu o peso extra na cama sumir e então a força voltou aos seus membros. Levantou-se e ligou a luz, encontrando o quarto fechado e sem sinal de ninguém. O que foi aquilo? Quem acreditaria em um discurso tão idiota e fantasioso?

Mesmo diante de tamanha baboseira, não foi capaz de conter o sorriso tomando seus lábios. Tinha algo em que se concentrar e, se quisesse progredir no seu novo objetivo, precisaria mudar. Para melhor desta vez.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 33

Desenho monocromático. O desenho mostra a avenida Ipiranga, uma via de mão dupla separada por um arroio no meio. Está de noite e, na via mais próxima da perspectiva da imagem está uma motocicleta, enquanto na outra, atravessando o arroio, mostra um galpão aberto com dois homens e uma van próxima. No canto superior direito há o número trinta e três para indicar o capítulo.

Resumir sua rotina de trabalho depois de sequestrarem — esse era o termo certo — Maurício foi difícil. Se antes não conseguia focar por buscar um culpado pela morte de Igor, passou a não focar pelo peso da culpa. Conseguiram as informações que precisavam, mas ainda não podiam libertar o gerente.

Quanto mais parava para pensar nas suas ações, mais idiotas pareciam. O que fariam depois que tirassem informações dos outros cultistas? Não poderiam soltar Maurício, pois ele poderia avisar os cultistas e jogar a instituição contra os quatro. Nicolas pediu para ela não se preocupar, que daria um jeito de fazê-lo não se lembrar. Mas e se não funcionasse, o que fariam? Não podia deixar o chefe abrir a boca, e não queria pensar em quais ameaças Nicolas faria para mantê-lo quieto.

Tentou agir naturalmente durante o dia, mas uma coisa era pensar, e outra era fazer. Pegar o café às nove e quarenta era normal? Ouvir uma conversa sobre a ausência do gerente era suspeito? Trabalhar sem perguntar nada era incriminador? Não sabia dizer, tudo parecia errado. No entanto, nada ocorreu. Não foi acusada, observada com cautela ou cercada de policiais de um segundo para o outro. O superior de Maurício apareceu no setor para perguntar dele e só.

Saindo do expediente, foi até o lugar que o gerente lhes revelou ser um ponto de encontro importante. Era uma espécie de galpão no meio da Avenida Ipiranga, ignorável se estivesse por lá com qualquer outro objetivo. Passou algumas vezes na frente e, quando a lua já estava alta no céu, esperou durante um tempo do outro lado da avenida, deixando o Arroio Dilúvio entre ela e a construção. Não aconteceu absolutamente nada, e nem no dia seguinte. Usou a madrugada e suas preciosas horas de descanso na tarefa. Para piorar, o pouco tempo de sono que tinha era repleto de pesadelos, onde ela era cercada por cultistas, presa e entregue como oferenda a um predador.

Foram cinco dias de observação e zero acontecimentos. Até que, no meio da madrugada do sexto dia, viu algo. Uma van, muito similar à que enxergou certa vez no salão, estacionou na frente do galpão. De dentro dela saíram diversos homens e, mesmo à distância, era possível ver que estavam armados. Não entendia quase nada de armas, mas pareciam fuzis e espingardas.

O plano era notificar Nicolas da chegada dos cultistas e fazer o mesmo que fizeram com Maurício, mas naquele cenário não funcionaria. Um tiro bem dado era mataria Nicolas, não importasse quantas cordas tivesse ao seu dispor. Dominique também sofreria danos, e como não falaram nada com Fernando, poderia demorar horas até ele aparecer e curá-la. A única resistente ali era Bárbara, mas isso só nos territórios. Mandou uma mensagem para Nicolas.

Bárbara

Vá para o farol.

Não esperou confirmação. Os homens começaram a mover-se para o interior do galpão. Se entrassem, não teria mais oportunidade alguma. Pensou no farol, sentiu a mudança de ambiente ao seu redor, e logo em seguida pensou na entrada do galpão. Surgiu atrás de um dos cultistas. Ouviu gritos e, antes que o homem pudesse se virar ou que levasse uma saraivada de balas, Bárbara tocou-o e voltou ao farol.

Assim que o ambiente mudou, o cultista afastou-se dela, virou, mirou a arma e atirou. Sentiu o impacto dos projéteis contra seu corpo, a dor fulminante das balas de fuzil, mas resistiu a cada uma delas. O homem continuou atirando, sua face retorcida em pavor e empolgação enquanto os projéteis batiam no corpo de Bárbara sem penetrar a carne. Teria atirado até acabar a munição, mas Dominique lhe acertou um golpe na cabeça que o deixou estatelado e inconsciente no chão.

Repleta de rachaduras, todas partindo do peito e cabeça para os demais membros, Bárbara caiu sentada, cada centímetro do corpo doía e queimava como o inferno, mas estava viva. Pela primeira vez olhou bem para o cultista. Estava na faixa dos trinta anos, os braços pareciam toras e o rosto possuía o tom bronzeado de quem ficara anos trabalhando sob o sol. Usava roupas pretas diferente das que tinha visto nos cultistas até o momento, com botas de cano alto, calças cargo e um colete balístico.

— Por que não seguiu o plano? — perguntou Nicolas, logo ao surgir no farol.

— Estavam todos armados! — A resposta de Bárbara saiu como um rosnado, a dor alimentando sua raiva.

— Não estou te reprimindo, apenas perguntando. — Nicolas pegou a arma no chão. — Armamento pesado demais para carregar por aí. — Começou a caminhar para o exterior. — Vou jogar isso fora.

Voltou alguns minutos depois, carregando uma cadeira de praia. Ele e Dominique ergueram o homem, o colocaram na cadeira e depois inúmeras cordas surgiram, restringindo seu mais novo sequestrado.

— Onde está Maurício? — perguntou Bárbara.

— Do lado de fora — disse Dominique. — Deixamos ele bem longe daqui para não ouvir ou ver nada do que acontecesse.

— Esperavam algo incriminador ocorrer?

— Quanto menos detalhes ele souber, melhor — respondeu Nicolas. — Se ele levar o que já sabe ao culto vamos ter muitos problemas.

O cultista acordou minutos depois, gemendo e falando da dor na cabeça. A reclamação não durou muito, pois assim que seus olhos pousaram nos três, ficou em alerta e tentou escapar. Era mais ativo que Maurício, mas um pouco mais burro também. O que faria se escapasse? As cordas resistiram ao esforço, mas não a cadeira, que de tanto balançar, tombou e fez o homem bater a cabeça no chão.

— Filha da puta! — berrou ele.

— Quando parar com essa tentativa inútil, conversaremos — declarou Nicolas.

O homem os encarou.

— Falar? Sobre o quê? Vão me matar mesmo. — Era com naturalidade que ele declarava isso, sua voz não titubeava.

— Vamos? — perguntou Bárbara, olhando para Nicolas.

— Claro que não — respondeu Dominique.

— Não estou falando de vocês, estou falando do culto.

— Explique — pediu Nicolas, dando um passo à frente.

— Que tal me levantar primeiro? Muito ruim falar assim.

Nicolas gesticulou para Dominique, que se aproximou da cadeira e colocou-a de pé. O homem sorriu.

— Tu é forte vovó.

Que figura tinham capturado?

— Então… — começou Nicolas.

— Vou abrir o jogo, eu não faço bem parte do culto. Sou mais um contratado, sabe? Alguém para garantir que todos os voluntários atirem no lugar certo.

— Tipo um instrutor? — perguntou Dominique.

— Isso! Inclusive, eu sou um instrutor de clube de tiro também. — Parecia mais e mais que o cara tinha usado substâncias diferenciadas logo antes. — Só que em vez de treinar em alvos parados, meu trabalho é fazer com que mirem e atirem nas aberrações.

— Com aberrações, você quer dizer os predadores?

— Sei lá, eu chamo de aberrações.

— Então eles te mandam para lá sem dizer nada? — Dominique olhou para Nicolas. — Isso está muito estranho.

— Vamos ser diretos aqui. — Nicolas aliviou o aperto no pescoço. — O que vocês iam fazer hoje no galpão?

O homem alternou o olhar entre todos antes de responder.

— Não vou falar sem antes fazer um trato. Quero que garantam minha segurança depois de me liberarem.

— Negativo. O que podemos fazer é te deixar em um local bem distante, assim vai ter como fugir dos cultistas.

— Não sei, não parece muito bom.

— Suas opções são ficar quieto e ser largado no galpão, ou nos falar tudo e ser largado longe.

O homem deu de ombros.

— Tudo bem, podem disparar suas questões. Um de cada vez, e levantem a mão antes.

— Por que o culto vai te matar, afinal? — perguntou Dominique.

— Para garantir que eu não tenha voltado como um espião.

— E por que aceitou o trabalho? Não era melhor ficar na sua? — perguntou Bárbara.

— Eles me pagam uma bolada! Vivo como um rei há dois meses, e só trabalho duas vezes na semana. — Ele riu. — Duvido que não aceitariam um trabalho sujo por uma grana boa.

Bárbara suspirou. Toda a sua investigação e tempo de espera resultaram em pegar o mais escroto do grupo. Seu pé estava coçando para juntar a sola da bota com o rosto do homem.

— Cuidem disso, eu vou esperar lá fora.

Saiu do farol e esperou sentada na grama. Não conseguiu ver nem sinal de Maurício pelas redondezas. Pensou em procurá-lo, mas para quê? Qualquer conversa que os dois tivessem seria desagradável, e não era capaz de ajudá-lo em nada, tampouco convenceria o homem a ficar de boca fechada.

Quase trinta minutos se passaram até que Nicolas e Dominique saíram do farol. Dominique tinha uma expressão preocupada, enquanto Nicolas parecia, era difícil definir com exatidão, empolgado.

— O que descobrimos? — perguntou Bárbara.

— Eles selecionam os mais fervorosos do culto para lutar contra predadores. Metem umas armas em suas mãos e ensinam o básico antes de jogá-los nos territórios — respondeu Nicolas.

— Parece estupidez…

— E é — disse Dominique.

— Eles nem sabem como vão parar lá — complementou Nicolas. — Apenas desligam todas as luzes no galpão, dão as mãos e alguém os transporta para o território.

— Como assim alguém? Alguém quem? — perguntou Bárbara, estranhando a explicação.

— Não sabemos, e ele também não. — Nicolas parou de falar, pensativo.

Após um tempo de silêncio, Dominique continuou a conversa.

— Aparentemente a razão disso não é eliminar o originador, apenas querem explorar o território antes de mandar um grupo de elite. E o território de hoje é especial, parece que tentam destruí-lo faz quase cinco meses e não conseguem. — Dominique olhou para o farol de relance. — Isso se ele falou a verdade.

— Não saberemos até ir lá — disse Nicolas.

— Vamos? — perguntou Bárbara, surpresa. — Por quê?

— Duvido que o objetivo do culto seja somente a eliminação de originadores, tem algo a mais. O modus operandi deles é estranho, se querem salvar as pessoas, por que as usam como bucha de canhão? Por que juntar um culto com uma milícia? Se fosse só por influência ou dinheiro, não precisaria envolver os predadores. — Nicolas ajeitou a corda no pescoço. — Desconfio que descobriram algo especial sobre os territórios, e esse de hoje possui algo muito valioso.

Bárbara cruzou os braços, os pelos arrepiando.

— Pode até ter… porém estão tentando há meses, não vai ser fácil.

— Estamos mais preparados agora, usamos melhor os nossos vestígios. E se deixarmos a oportunidade escapar, quem sabe quando aparecerá novamente?

— E quanto ao culto? Não era para descobrirmos mais sobre eles?

— Uma coisa leva a outra. Além do mais, com mais conhecimento, mais vantagem teremos.

Bárbara assentiu devagar, um tanto desconfiada das palavras de Nicolas.

— O que faremos?

— Preciso levá-lo de volta ao galpão agora. — Nicolas olhou para o topo do farol.

Bárbara não disse nada, e nem precisou, Dominique leu seu rosto e respondeu por Nicolas:

— Eles estão mandando pessoas para a morte certa. Quantas vezes nós, que somos feitos para isso, quase morremos? Agora imagine mandar pessoas que mal sabem empunhar uma arma? — Cada palavra era cuspida com um ódio que nunca vira na idosa. — Fazer um acordo com esse tipo de gente não vale a pena, é melhor pecar pela mentira do que ajudar alguém assim.

— Ele não era só um peão?

— Um peão que sabia muito sobre as operações e chance de sobrevivência. Aquelas pílulas que temos para fugir, sabe quem era o único que tinha? Ele!

— De qualquer forma, esse sábado vamos explorar o território. Vou chamar Fernando também.

— Não teria sido bom avisar ele de tudo isso antes?

— Ele pediu um tempo — disse Nicolas, pegando o celular. — Deve estar ocupado com outras coisas.

Era bom ver que pelo menos alguém no grupo tinha uma vida que não envolvia predadores ou cultistas. Quem dera a sua fosse tranquila assim, alguns problemas com a família ali, outros com dinheiro aqui. Nada que envolvesse desaparecimentos, mortes e sequestros. Era inveja pura, sabia disso. Ela também tinha problemas com a família, mas, diferente de Fernando, não se preocupava com isso, não mais.

— O que nós faremos até sábado? — perguntou ela.

— Eu vou checar o galpão, quero sentir o território e sua localização agora que estará vazio.

— Acho que você deveria tirar esses dias para descansar — disse Dominique. — Sem ofensas, mas parece que foi pisoteada por um cavalo.

— É… descansar seria bom.

Não seria, descansar a deixaria sozinha com seus problemas. Mas o que mais faria? Tinha de reconhecer que estava exausta além do limite. Pensamentos iam e vinham, sem receber a devida atenção e sem chegar à conclusão alguma. Talvez, com o nível de cansaço que estava, bastaria deitar-se que apagaria, sem que fosse atormentada por nada.

Despediu-se, voltou para seu apartamento e caiu no sofá. Só então lembrou-se de perguntar quando liberariam Maurício. Pegou o celular e tentou digitar uma mensagem para Nicolas, mas as pálpebras fechavam o tempo inteiro, os dedos erravam todas as letras. Desistiu, largou o celular e dormiu.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 32

Desenho monocromático. O desenho mostra um homem sentado em uma cadeira, com os braços para trás e com o corpo amarrado por cordas. Ele está com um saco na cabeça, impossibilitando de ver seu rosto. Agachado ao lado dele com uma mão no ombro do sequestrado e de costas para a imagem está Nicolas, um homem vestindo terno, de cabelo curto e utilizando uma corda de forca ao redor do pescoço. Ele está com o rosto próximo do ouvido do homem sequestrado.
No canto superior direito há o número trinta e dois para indicar o capítulo.

Conforme o combinado com Nicolas, Bárbara passou a monitorar o local após o expediente. Era uma atividade entediante, porém muito melhor que ficar no apartamento, roendo as unhas, remoendo a si e incapaz de fazer nada. Tinha um objetivo, um alvo, e o mais importante, um culpado.

Antes, responsabilizava o originador do território hospitalar pela morte de Igor, mas com o extermínio do predador, não havia mais a quem culpar. Poderia voltar sua raiva aos predadores em geral, no entanto eram algo tão abstrato e incerto que não servia para lhe acalmar. Tudo mudava com o culto entrando na história. Não somente eram um alvo tangível e humano, também estavam do lado dos predadores. Inclusive, tinha certeza de que eles foram os responsáveis pelo rapto de Igor, suspeitaram que ele sabia de algo e fizeram uma queima de arquivo. Era a única explicação plausível.

No sábado, após dois dias observando um lugar que não exibia movimentação alguma, resolveu mandar mensagem para Elisa, perguntando se o encontro do dia ocorreria. Não recebeu resposta, tinha até certeza que teve seu contato bloqueado. Como descobriria para onde foram? Talvez devesse abordar outro cultista na rua e pedir informações. Não, não funcionaria se tivessem o mínimo de organização e uma lista de bloqueados. Rodar a cidade inteira de moto também era uma possibilidade, só teria que estar disposta a encontrar, em plena capital, uma construção onde um grupo suspeito se reuniria em um dia que ela não sabia qual em um horário que não fazia ideia. Ou seja, inviável.

O final de semana passou engatinhando, e a segunda-feira foi um verdadeiro arrasto. Tudo na sua cabeça era sobre o culto. Pesquisava no celular sobre eles, entrava em grupos de redes sociais, perguntava em locais estranhos da internet, mas nada ajudava. Sempre mencionavam para ela entrar em contato com um dos pregadores que suas dúvidas seriam tiradas. Chegou em casa nesse dia com vontade de agarrar um dos devotos na rua e tirar as respostas no soco.

Antes que chegasse às vias de fato, recebeu uma mensagem no celular.

Maurício (Gerente)

Boa noite, Bárbara… Notei que nos últimos dias tu não parece bem. Está tudo certo?

Bárbara

Boa noite. Tudo bem sim. Estou apenas em choque com o desaparecimento de Igor.

Maurício

Consigo te dar dois dias de folga se precisar.

Quase riu. Dois dias de folga seria o suficiente para fazê-la enlouquecer, estava em um beco sem saída. Não, não era sem saída, ainda tinha uma chance. Mandou uma mensagem agradecendo pela oferta e dizendo que pensaria no assunto. Refletiu sobre mandar uma mensagem para Fernando, talvez ele conseguisse contato com um cultista e, com isso, descobrisse mais informações. Na pressa, em vez de fechar a conversa, tocou no nome de Maurício e o aplicativo abriu seu perfil.

Não costumava trocar mensagens com o gerente, e por isso não tinha visto que trocara a foto. Antes, era uma todo elegante de terno em algum evento que Bárbara não se importava, e passou a ser de um grupo de pessoas. Havia algo estranhamente familiar no peito dele. Ampliou a foto e deu zoom no tronco do homem, reconhecendo o símbolo: uma balança romana.

Resistiu a todos os impulsos de jogar o celular na parede. O filho da puta era parte do culto! Apertou o aparelho com força enquanto mantinha os olhos na imagem. Não, calma. Nem todo mundo envolvido devia saber dos predadores, era bem capaz de Maurício ser um frequentador comum, deixado de fora de assuntos escusos. Mesmo assim, certo que possuía algumas informações importantes. Precisava tirar elas do gerente, e até tinha um plano para isso.

No dia seguinte, Bárbara foi de moto para o trabalho e pagou, a duras penas, as horas de estacionamento. Talvez pudesse mandar a nota à Nicolas e pedir reembolso? Tinha a impressão que dinheiro era a última preocupação do cara.

Focou no trabalho o máximo que podia para não levantar suspeitas, mas ainda assim não foi capaz de evitar olhares na direção de Maurício. O gerente tocava seu dia normalmente, fazendo seja lá o que gerentes fazem, nunca se interessou muito pelo cargo e até onde sabia o trabalho dele era conversar com outros o tempo todo, pedir favores e cobrar funcionários.

Teve que estender um pouco seu horário, e tomaria bronca por isso depois, mas era necessário para sair junto com Maurício. Assim que o gerente começou a ajeitar suas coisas, Bárbara bloqueou o computador e desceu apressadamente pelas escadas, bateu o ponto e foi até o estacionamento. Subiu na Kawasaki e saiu do local, esperando próxima ao estacionamento da empresa, que tinha vagas apenas para cargos gerenciais. A Santa Fé de Maurício saiu momentos depois, e Bárbara seguiu-o de longe.

Foi complicado. Um por ser horário de pico, e outro porque ela nunca, e ainda bem que era o caso, precisou perseguir alguém sem ser notada. Usou a vantagem da moto para manobrá-la para perto sempre que sentia estar afastada demais, e tentava ficar em outra via para evitar suspeitas. Ao entrarem em uma área residencial, tornou-se mais fácil manter o foco na SUV, porém mais difícil de se esconder. Por isso mesmo Bárbara aumentou mais a distância entre eles.

A região era repleta de casas de dois andares, em alguns casos até três. E quando tinha apenas um andar, o terreno era espaçoso o suficiente para acomodar, no mínimo, mais duas residências. Quase todas exibiam um pátio com flores e árvores, algumas até frutíferas. As casas eram protegidas por grades altas com cerca elétrica e até mesmo cercas concertinas. Além disso, muitas ainda tinham também um sistema de alarme.

Seguiu Maurício até que ele entrou em uma casa de andar único. Foi em direção à outra rua, deu a volta na quadra e, por fim, passou na frente da residência do gerente. Parou por um momento, apenas o suficiente para tirar algumas fotos da fachada e da garagem aberta. Mais fácil do que o esperado.

No dia seguinte, parte da rotina se repetiu, mas em vez de perseguir o chefe, ultrapassou-o e seguiu sozinha. Dirigiu rápido pelas ruas, cortando carros, ônibus e caminhões, tudo para chegar o mais cedo possível. Quando chegou, manteve-se afastada da residência de Maurício e passou a mexer no celular. Quase cinco minutos depois, a SUV apareceu na rua e entrou na garagem. Assim que o portão começou a fechar, ela disparou uma mensagem para Nicolas.

Não ficou para ver se deu certo ou errado, apenas voltou para casa. E de lá foi ao farol. Esperava que estivessem todos reunidos no topo do farol, mas encontrou-os do lado de fora, na grama. Desceu e viu Maurício amarrado por diversas cordas bem apertadas em uma cadeira de plástico, próximo a ele estavam Nicolas e Dominique. Se aproximou dos dois.

— O quê… Bárbara? — O gerente perguntou, assustado. — O que está acontecendo? Onde estamos? Quem são os dois?

— Cala a boca. — Ela chegou perto da cadeira, colocou as mãos nos braços de Maurício e fulminou-o com o olhar. — Eu sei que tu faz parte do Culto da Justiça. — Sem enrolação, era melhor ir direto ao ponto. — Eles fizeram Igor desaparecer, ouviu? É tudo culpa deles! E tu vai me dizer onde estão se encontrando.

Os olhos dele se arregalaram enquanto passavam dela para os companheiros.

— Não, ninguém lá faria algo assim. Nós só nos reunimos de vez em quando e conversamos. Não é nada perigoso.

— Tu não sabe disso, mas o culto é cheio de filhos da puta.

— Está errada! — A voz se elevou. — Eles são bons, estão melhorando as pessoas, fizeram isso comigo. Foi graças a muitas conversas com eles que demiti Eder.

— Como se isso significasse algo! — Apertou com força os braços do gerente, enterrando as unhas na sua carne. — Onde estão se encontrando?

— Não vou dizer. — Maurício mirou Nicolas e Dominique. — Vocês vão ferir os outros membros, não posso dizer.

Ela soltou o chefe e recuou alguns passos, ficando ao lado de Nicolas. Queria jogar toda a sua raiva contra Maurício, mas seria errado. Ele era um peão, apenas mais um fervoroso no meio de tantos. Precisava guardá-la para os verdadeiros culpados.

— Posso intervir? — perguntou Nicolas, a corda apertada no pescoço dificultava sua fala.

— Faça como quiser.

Ele aliviou o aperto no colarinho e aproximou-se de Maurício.

— Você se lembra como foi preso logo que chegou aqui? — perguntou Nicolas, recebendo em resposta apenas um aceno positivo do interrogado. — Minhas cordas podem fazer muito mais que isso.

Uma delas surgiu em pleno ar, era fina e parecia frágil. Enrolou-se no pescoço de Maurício, não parecia apertar, mas a cada volta, o homem ficava mais pálido, como se esperasse a morte a qualquer segundo. Bárbara engoliu em seco e estava prestes a puxar Nicolas para longe do gerente. Antes que fizesse isso, a corda desapareceu.

— Eu poderia te enforcar em um piscar de olhos. Seria inútil, claro, ficaríamos com um cadáver e nenhuma resposta. — Nicolas deu a volta na cadeira, ficando nas costas de Maurício, então olhou na direção de Bárbara e Dominique e levou o dedo indicador aos lábios. O que ele estava pensando? — Te raptar foi fácil, bastou uma foto de sua casa. É bem fácil de conseguir hoje em dia, basta achar alguém relacionado, buscar em algumas redes sociais e pronto, lá está.

Era uma mentira. Bárbara teve que levar Nicolas até a frente da casa de Maurício para que o transporte funcionasse depois.

— Poderíamos fazer o mesmo com Diego. É mais simples até, basta esperá-lo fora do colégio Anchieta e pronto.

Toda a cor deixou o rosto do gerente, a respiração se tornou audível e entrecortada, antes era medo apenas por sua vida que sentia, o puro instinto de sobrevivência. Colocar o filho no meio daquilo gerava algo diferente, um pavor único. Fosse outra pessoa, talvez o blefe soasse óbvio, mas a frieza na voz de Nicolas, a naturalidade com que tocava no assunto e o desconhecimento de Maurício sobre o que estava acontecendo adicionavam combustível para os pensamentos mais terríveis.

— Também tem sua esposa, Bianca. Ela está fazendo um MBA atualmente, não? Saídas de faculdade no período noturno sempre são perigosas. Lucas é outra possibilidade, um pouco mais difícil e imprevisível por ser guia turístico, mas precisamos apenas ser pacientes. Alberto é provavelmente o mais fácil, as pernas frágeis e velhas dele não o levam a muitos lugares, então basta entrar na casa a qualquer momento.

Mesmo sabendo que era um blefe, mesmo sabendo que impediria Nicolas caso ele sequer cogitasse fazer isso, Bárbara não conseguiu evitar o frio que gelou os ossos. Acreditou naquelas palavras, acreditou que, dada a oportunidade, ele usaria seus poderes na família inteira de Maurício. Não eram ameaças vazias, Nicolas pesquisou cada um. Eram informações simples de se obter, mas reuni-las em um dia e usar contra alguém significava que aquele homem trabalhava com essa possibilidade desde o início.

— É esse tipo de gente que você está ajudando, Bárbara? — gritou Maurício, a voz falhando no meio da frase. Ele se debateu na cadeira, mas não conseguiu nada. — Está mesmo ameaçando minha família?!

Ela desviou o olhar e buscou algum auxílio em Dominique. A idosa tinha os punhos cerrados e fitava o mar com o cenho franzido.

— Nicolas está fazendo o certo — sussurrou para a motoqueira. — É um blefe, e é pelo bem de todos os outros.

— Bárbara está comigo desde o começo — disse Nicolas, a voz ainda impassiva. — Já fizemos muito pior que isso. Alguns corpos a mais ou a menos não vão fazer diferença. — Ele deu a volta na cadeira, ficando de frente para Maurício e tapando a visão das duas atrás de si. — Você escolhe. Vai falar para nós agora, ou vai falar quando os cadáveres de sua família estiverem empilhados ao seu redor?

Predadores: A Obsessão – Capítulo 31

Desenho monocromático. O desenho mostra o busto de Nicolas, um homem vestindo terno e uma corda de forca no pescoço como se fosse uma gravata. Ele está mostrando um grande sorriso, porém o restante de sua expressão não condiz com o sentimento, fazendo parecer um sorriso forçado e nem um pouco natural
No canto superior esquerdo há o número trinta para indicar o capítulo.

Igor estava morto, e Bárbara estava trabalhando. Ela poderia dizer que não se sentia bem e ir para casa, mas o desconto viria na próxima folha, talvez até junto com sua demissão. Tentar um atestado lhe garantiria horas de descanso remuneradas, no entanto, os verdadeiros problemas surgiam no apartamento: a vontade de fazer nada, o ócio, os pensamentos que insistiam em lhe dizer para pegar seus pertences e sair dali, fugir da capital, escapar de tudo aquilo.

Por isso, em uma quarta-feira, mais de uma semana depois de confirmar a morte de Igor, Bárbara saiu do apartamento logo que pisou nele após o expediente. Pegou a Kawasaki e vagou pela cidade, passando pelos últimos minutos do horário de pico e entrando nas horas mais calmas da noite. Quando deu por conta, parou na frente do salão onde viu Igor pela última vez.

As luzes internas acesas, as duas vans no estacionamento e as portas fechadas indicavam se tratar de uma reunião mais privada. Talvez os organizadores estivessem discutindo o andamento do culto. Possivelmente até o tal Magno participava da conversa.

Largou a moto em um local mais afastado e se aproximou das grades fechadas do salão. Apesar dos indícios de ter pessoas lá dentro, Bárbara não ouvia nada. Imaginou todos no mais completo silêncio, apenas olhando um para o rosto do outro. Talvez pudesse ouvir algo se chegasse mais perto, porém isso era impossível com o acesso ao pátio trancado. Uma câmera no teto do salão que vigiava a entrada desencorajou métodos menos éticos.

Se afastou e observou os arredores. Não muito longe dali, e com uma boa vista da construção, estava uma lancheria chamada Bar do Ilineu. Bárbara aproximou-se, sentou-se em uma das mesas de plástico próximas da porta e pediu um podrão qualquer para comer enquanto matava o tempo. Minutos depois, um xis bacon oleoso, uma coca lata e um copo foram colocados na mesa.

Comeu, alternando o olhar entre o salão e a televisão. Ninguém prestou atenção nela, estavam todos assistindo ao jogo de futebol, bebendo um litrão e xingando os jogadores. Quase trinta minutos depois de acabar a partida, viu algum movimento dos cultistas. Cerca de dez pessoas saíram do salão e caminharam até as vans. Não houve despedidas amigáveis, tapinhas nas costas, nada disso, apenas entraram nos veículos e partiram.

Suspeito. Muito suspeito. Será que valeria a pena pular o portão e entrar à força? Quase riu com a ideia besta. Não fazia ideia de como arrombar uma porta, além do mais, com um portão alto daqueles todos veriam seu delito. Isso sem contar a câmera que poderia incriminá-la, mas isso era contornável colocando um capacete. O problema é que, para os observadores, alguém de capacete ali seria duplamente suspeito.

O que estava fazendo? Que besteiras estava pensando? Levantou-se, pagou pelo lanche e voltou para casa.

Jogou-se no sofá assim que entrou no apartamento. No fim das contas, só queria se distrair. Era perigoso, ainda por cima. Igor avisara das armas e dos coletes. Talvez aquele grupo também estivesse armado, e Bárbara não era resistente fora dos territórios. Por que membros de um culto andariam tão armados? Inclusive, ainda não descobrira a relação entre o culto e os territórios. Apenas uma coincidência infeliz?

Sentia-se usando antolhos, incapaz de visualizar qualquer outro assunto que não envolvesse Igor e o culto. Por que o último encontro com Igor teve que ser naquela situação estranha? Por que não um momento agradável, que poderia guardar com carinho no coração? Teve vontade de ver o apartamento do amigo mais uma vez. Descartou a ideia em seguida, era perigoso, ainda mais com o escândalo que fizera no outro dia. Mas havia uma forma discreta de entrar, não?

E se podia entrar no apartamento sem ser vista, por que não no salão? Pulou para fora do sofá, trocou de roupas e colocou o capacete. Partiu para o farol.

Viu, em um canto do interior da construção, algumas roupas e outra coisa dobrada que não conseguiu distinguir o que era. Ignorou esses detalhes, tinha outro objetivo no momento. Fechou os olhos e pensou no salão, lembrou-se do interior dele, das cadeiras, do púlpito. Quando os abriu, estava onde imaginara.

— Isso aí!

Arrependeu-se do grito na mesma hora. Estava se infiltrando, não passeando. Mais contida, olhou em volta. As luzes estavam apagadas, deixando entrar somente um pouco do luar através das janelas no alto, que servia apenas para deixar o salão em uma penumbra. Ligou a lanterna do celular, mirando nas fileiras de cadeiras e nas paredes. Como esperava, não havia ninguém sentado no escuro esperando por um invasor desconhecido.

Enxergou uma câmera em um canto do salão e ficou feliz por ter ido de capacete. Logo abaixo havia uma porta que, por sorte, estava destrancada, mas isso também significava que não teria nada de importante do outro lado. Entrou na sala adiante, pequena e vazia. Bastou dar dois passos em frente para ser avassalada pela sensação de perigo. Fechou os punhos e cerrou os dentes, olhando ao redor em busca de predadores, mas não havia nenhum. Quando entendeu, uma parte pequena de si desejou continuar ignorante. Era a mesma sensação do quarto de Igor, a mesma maldita sensação, multiplicada várias e várias vezes. Não foi apenas uma pessoa a ser raptada ali, foram dezenas. Sentiu um calor tomando as costas com os rastros do último predador. Eram frescos, de no máximo algumas horas.

Voltou para o farol e de lá para o apartamento. Pegou o celular e mandou uma mensagem para Nicolas.

Bárbara

Tem como forçar alguém a ser raptado por predadores?

Nicolas não respondeu, na verdade, nem marcou como entregue. O filho da puta respondia com precisão de um minuto cada mensagem e quando realmente precisava do infeliz, não estava disponível. Caminhou de um lado a outro, ligou a televisão e continuou caminhando. Até deixou o celular de lado para ver se conseguia acalmar-se. Não funcionou.

Quando a mensagem chegou, correu até o aparelho e leu a resposta.

Nicolas

Nunca ouvi falar disso. Descobriu alguma coisa?

Bárbara

Precisamos conversar

Pessoalmente

Nicolas

Vamos ao farol.

Quando chegou ao local, encontrou Nicolas e Dominique lhe esperando. Notou que as roupas dobradas no chão eram semelhantes às utilizadas pela idosa. Outra dúvida estranha para o dia, mas não importante o suficiente.

— Convidou Fernando também? — perguntou Bárbara.

— Não.

— Então como…

— Calhou de eu estar aqui nessa hora — interrompeu Dominique. — Nem sei do que se trata.

Se era assim, decidiu ir direto ao ponto.

— Eu acho que encontrei um local de sacrifício para os predadores — disse Bárbara. — Tem que ser isso.

— Calma, vamos do começo — disse Nicolas. — Como chegou nesse lugar?

Bárbara relatou sua investigação do culto, pulando apenas a parte que acabou indo lá por puro acaso e por não aguentar ficar em casa. Quando comentou que não conseguiu entrar e usou o farol como intermediário para invadir o salão, Dominique pareceu surpresa.

— Dá para fazer isso?

— Sim — respondeu Nicolas, com naturalidade.

— Tu já sabia?! — perguntou Bárbara. — Por que não disse nada antes?

— Achei que estava óbvio quando fomos ao apartamento do seu amigo. Além do mais, nunca imaginei que vocês fossem investigar esse tipo de coisa por conta própria, e não queria vê-los usando nossos poderes em atividades mundanas. Se alguém filmar ou bater fotos, seria um problema enorme.

— De novo escondendo coisas! Tem mais algo que sabe e não contou?

Dominique olhou para Nicolas, e por um momento, o olhar dos dois se encontrou.

— Tu também, Dominique? — A voz saiu como um rosnado. Afinal, estavam trabalhando juntos ou não?

— Eu abordarei o assunto neste sábado, é um trabalho em andamento. — Nicolas não parecia nem um pouco envergonhado. — Continue sua história.

— Vou mesmo! Mas depois é bom me contar tudo.

Bárbara continuou seu relato, não havia muito mais para contar e de repente se sentiu menos à vontade de falar com os dois. Ainda assim, eram uma equipe e precisavam se ajudar. Quando terminou, olhou para Nicolas e perguntou:

— Quais as condições para uma pessoa ser raptada?

— Não sei — disse ele, estalando a língua. — Tentei buscar relatos de pessoas que voltaram. Foi inútil. Eram histórias confusas demais e não se encaixavam. Não ajudou que todas estavam sempre sozinhas durante o ocorrido, então sem testemunhas.

— Bom, é uma condição para a lista.

— Uma tão abrangente que o mundo inteiro é vulnerável em algum momento do dia. — Nicolas balançou a cabeça. — Precisamos de algo mais sólido.

— Poderíamos ter algo mais sólido se as pessoas compartilhassem informações…

— Calma, calma — disse Dominique. — Estamos compartilhando agora, não?

— Eu estou compartilhando. — Bárbara suspirou, forçando a mente de volta ao assunto mais importante. — Acho que os cultistas descobriram isso e estão usando as pessoas como oferenda. Faz sentido, né?

— Não muito — respondeu Nicolas. — Chamar eles pode ser um erro se atacarem indiscriminadamente. Qualquer um estaria vulnerável, não só os sacrifícios.

— Por isso eu disse que eles sabem algo que não sabemos!

— Tudo bem, é uma possibilidade. — Estendeu a mão para Bárbara. — Me leve lá, vamos dar uma olhada.

Bárbara olhou para Dominique e recebeu uma negação em resposta. Segurou a mão de Nicolas e pensou na sala repleta de vítimas. Assim que chegaram, o homem tirou uma lanterna pequena do bolso e rumou até o centro da sala.

— Tem razão, são muitos. — Ele respirou fundo e demorou a soltar o ar. — Conheço alguns dos territórios, outros não.

— E o que tem isso?

Nicolas olhou na direção dela.

— Eles fazem isso há bastante tempo. Eu inclusive sinto o resquício do primeiro território que entrei. Conhecem sobre os predadores há mais tempo do que eu. — Sorriu. Bárbara não se lembrava de vê-lo sorrindo antes e não queria ver nunca mais. A visão da boca se alargando não combinava com o olhar gélido e morto. Era como se fosse o movimento de alguém que não sabia o que era felicidade.

— Então minha hipótese…

— Está correta. Eles sabem algo que não sabemos. — A expressão no rosto de Nicolas sumiu. — Se não me engano, o nome do fundador é Magno, correto?

— Sim, tu…

— Olhei no site deles quando você mencionou o culto. Fique de olho e me avise imediatamente quando ocorrer outro encontro parecido com o de hoje. — Ele coçou o queixo. — Se tiverem o mínimo de inteligência, mudarão o local. Terá que descobrir o novo também.

— O que vamos fazer quando tiver outro encontro?

— Extrair informações.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 30

Desenho monocromático. O desenho mostra o busto de várias pessoas sobrepostas umas as outras, cada uma com expressões e olhos diferentes. Como estão semi-transparentes, é difícil saber quem está na frente e quem está atrás.
No lado direito há o número trinta para indicar o capítulo.

Arriscou olhar para o predador. A tontura assomou-lhe mais uma vez, mas não era esse o motivo de sua preocupação. Ele, ou ela, ou aquilo — era impossível definir com cada sílaba sendo pronunciada em uníssono por diversas vozes — falou, não só isso como também sabia a identidade deles. Um arrepio percorreu as pernas, a impulsionando para que eliminasse o predador ali mesmo. E quase moveu-se para fazer isso, porém, não foi ela quem sugeriu para Nicolas a busca por uma alternativa à morte? Isso deveria valer para todos os predadores, ou só para aqueles de quem ela se apiedava?

Baixou o olhar, relaxou um pouco os punhos e disse:

— Nicolas está tentando descobrir como impedir o originador de reaparecer, não posso pará-lo. Não ainda.

— Você não entende. — O predador deu um passo à frente, aumentando a tensão em Dominique. — Ou ele para agora, ou vai morrer e se tornar um dos predadores mais terríveis que existem.

Arriscou um olhar para trás. Nicolas ainda estava envolvido pela luz espinhosa, quase toda sua pele tornara-se preta e branca, também estava maior, o corpo espichado e superando dois metros de altura.

— E por que você se importa? Não é um predador? — perguntou ela, voltando sua atenção à frente.

— Estou do lado dos humanos nessa luta — respondeu, dando mais um passo. Se aproximava devagar e ainda faltavam uns bons metros até chegar perto. — E como pode ver, Nicolas não está bem.

Um predador do lado dos humanos, difícil de acreditar nisso. Era como dizer que a onça estava do lado das capivaras. Seria no máximo uma aliança temporária, durando até o estômago do felino roncar. Porém, o predador tinha razão, Nicolas não estava indo em direção a um caminho bom. Dominique abriu a boca para falar, mas fechou-a imediatamente quando notou a proximidade da coisa. Não tinha corrido nem se movimentado rápido, e mesmo assim, sem que a idosa percebesse, se encontrava a um passo dela.

De perto, as mudanças em sua forma eram ainda mais perceptíveis e perturbadoras. As linhas do rosto se alteravam tanto, e a cor da pele nunca assumia um tom fixo, pintas e sardas apareciam e desapareciam, os olhos sempre mudavam. Em um movimento quase instintivo, Dominique socou e atingiu seu alvo. O predador foi lançado para trás, e a idosa caiu de joelhos no chão.

Naquela fração de segundo que o punho se conectou com a cabeça da ameaça, foi como estar em um turbilhão de vozes, pensamentos, vontades e aflições. Esqueceu de quem era, de quem fora e de quem queria ser. Sua consciência foi sugada pela amálgama de pessoas e retornou surrada. Precisou de tudo de si apenas para manter-se de joelhos, e achou que ultrapassara todos os limites ao levantar a cabeça.

Já o predador se levantava como se nada tivesse lhe ocorrido, como se não tivesse recebido um golpe capaz de matar uma pessoa na mesma hora. Deveriam ter trazido mais alguém, deveriam ter trazido Bárbara, ela sim aguentaria aquela coisa, aguentava tudo.

Conseguiu ficar de pé bem quando a criatura voltou a caminhar em sua direção. Talvez conseguisse impedi-lo ao jogar objetos no maldito, mas o lugar era livre de qualquer pedra que pudesse ser usada como projétil. Dominique olhou para o asfaltou ao seus pés, e considerou quebrá-lo.

No entanto, antes que agisse, um novo predador surgiu no território. Sentiu-o logo atrás de si, bem onde Nicolas estava. Queria olhar, queria checar, mas o outro à sua frente era perigoso. No entanto, era possível olhar para várias direções, não é mesmo? Se mudava seus membros para lâminas, ou aumentava a potência e densidade dos músculos, por que não conseguir olhar atrás de si? Projetou um olho próximo ao cotovelo e durante um momento ficou desorientada por ter um campo de visão tão amplo. Assim que se acostumou, viu os espinhos atacando Nicolas, a luz abrira cortes em seu corpo e entrava por eles, preenchendo o corpo do líder. A pele parecia diferente também, como se fossem escamas de réptil.

— Rápido! Tire ele daqui!

Sendo um aliado ou não, a coisa tinha razão. Nicolas estava a um passo de se tornar um predador. Isso ela não permitiria, não perderia seu líder, o guia, a esperança. Desfez o olho extra e girou na direção da luz, correu até o homem e envolveu sua cintura com os braços. Cada fibra do seu corpo dizia que estava diante de um predador, mas Dominique acreditou que ainda tinha chances. Usou toda a sua força e puxou-o para longe, afastando-o da luz, fazendo os espinhos saírem aos poucos de seu corpo, diminuindo cada vez mais a sensação de que ele era um inimigo. Quando ele estava liberto, a idosa não hesitou e transportou-se para o farol.

Ressurgiram em meio a grama próxima à construção. Dominique projetou diversos olhos em seu próprio corpo, cobrindo todos os pontos cegos de sua visão humana e causando-lhe náuseas até que se acostumasse. Esperava que o predador fosse atrás deles, porém nada aconteceu, nenhuma ameaça os seguiu. Removeu os olhos adicionais e deitou Nicolas no chão.

O corpo do líder voltara ao padrão humano, sem escamas para encobrir a pele, e os cortes abertos pela luz espinhosa desapareceram sem deixar nenhuma cicatriz ou rastro de sangue. Não fosse pelo suor que molhava sua roupa, seria como se nada tivesse acontecido. Dominique sentou-se ao lado dele, finalmente relaxando. De alguma forma, tudo deu certo. E por certo entendia-se os dois saírem com vida. Lembrou-se então das palavras do predador. Teria o homem à frente dela se tornado um dos predadores mais fortes se ficasse mais alguns segundos naquele processo? Será que a transformação afetou sua mente mais do que o corpo? O fardo que ele carregava era pesado, mais pesado que o resto do grupo, e ainda assim, seguia em frente sempre, sem hesitar. Aproximou a mão para tocar o rosto de Nicolas, mas seus olhos abriram na mesma hora e focaram-se na idosa. Dominique recuou do toque.

— Como você está? — perguntou ela.

— Bem. — Ele se sentou, cruzando as pernas e olhando para o horizonte. — O que aconteceu?

Dominique explicou em detalhes o ocorrido. O tempo todo, Nicolas não moveu os olhos uma vez sequer, mantendo-os fixos em um ponto distante no mar. Sua única reação foi um levantar de sobrancelha ao mencionar as escamas que cobriam seu corpo. Quando a história terminou, o silêncio tomou conta do local por alguns minutos.

— Lembra de algo quando você tocou naquela luz?

— Nada. — A resposta foi seca, mais do que Dominique esperava. — Eu lembro de ver o originador morrendo, igual você viu, mas o resto é um borrão.

— Você… pretende fazer de novo?

— Eu deveria, mas… — Olhou para a própria mão. — Não é uma boa ideia. Piora o fato de ter um predador de olho naquilo.

— Conseguimos nada, então. — Dominique suspirou.

— Não é bem assim. — Nicolas encarou Dominique, o olhar dos dois finalmente se encontrando. — Você fez bem em conversar com ele. Sabemos agora que existem predadores racionais, e se formos atrás dele podemos obter mais respostas.

Dominique sorriu de leve. Ele tinha razão, não foi uma incursão inútil, apenas o resultado fora diferente do esperado. Porém, uma coisa passou a incomodá-la.

— Todos os predadores possuem um território, certo? — perguntou ela.

— Sim, todos até agora.

— Então como aquele saiu de seu território e foi parar em outro? Isso é possível?

— Deve ter um detalhe que não estamos percebendo. — Nicolas quebrou o contato visual e levantou-se. — No fim, é mais um mistério em nossa lista. Um para pensarmos com bastante consideração.

— E imagino que fará isso agora mesmo.

— Sim. — Ele olhou o topo do farol. — Pretende mesmo ficar aqui de agora em diante?

Que mudança brusca de assunto.

— Pretendo, não acha uma boa ideia?

— Quem decide isso é você. Só não acho muito inteligente dormir direto no chão.

— Bem… — Dominique coçou a bochecha e passou a se apoiar na perna direita. — Não tive muita escolha, foi o que deu para pegar na hora.

— Deixe comigo, apenas espere um pouco.

E então Nicolas desapareceu, deixando Dominique com a boca meio aberta prestes a fazer uma pergunta. Ela suspirou. Bem que ele poderia se explicar mais antes de sair fazendo as coisas, e também dar um tchau ou até logo não seria ruim. Se bem que o “Espere um pouco” talvez seja o equivalente de “Já volto” para Nicolas.

Caminhou até o topo do farol, apoiou os braços na cintura e observou o “aposento”. Era cru e frio, sem uma pitada sequer de personalidade. Talvez, se ela pedisse para Nicolas, poderiam dar um pouco de cor e vida ao local. Um quadro ali, talvez uma santinha de Nossa Senhora Aparecida, uma mesa para refeições seria bom, também. Teria que pensar nos detalhes ao longo do tempo, e fazer o pedido de uma vez só. Odiaria ver Nicolas se tornando um entregador de encomendas, ainda mais que ele era tão ocupado. Por outro lado, talvez fosse engraçado ver isso acontecendo. Uma parte de sua mente imaginou um caminhão de entregas aparecendo do nada no farol, descarregando sofá, cama e televisão. Os trabalhadores, confusos, apenas deixavam tudo no chão enquanto questionavam como foram parar ali.

Quando Nicolas voltou, trouxe consigo um colchão inflável. Não levaram mais do que cinco minutos para posicionar e inflar ele utilizando uma bomba de ar. Não era confortável, e nem de longe tão bom quanto o colchão que tinha em casa, mas era melhor do que deitar no metal duro. Não pôde evitar um sorriso enquanto Nicolas lia as instruções de bom uso indicadas no manual.

— Obrigada.

— Não me agradeça. — Ele levantou os olhos da folha. — Estou apenas garantindo que esteja apta para continuarmos as atividades do grupo.

Dominique deu de ombros. Toda e qualquer ação daquele homem parecia ter uma lógica ou justificativa plausível por trás, mas não era bem assim que as coisas funcionavam, e ela sabia disso. Podia manter a fachada de frio o quanto quisesse, Dominique via nas pequenas ações o quanto ele se importava com o grupo para além da simples utilidade.

Com Nicolas liderando-os, mesmo que mais e mais mistérios surgissem ao redor dos predadores, seriam capazes de vencê-los.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 29

Desenho monocromático. O desenho mostra Nicolas, um homem com terno e sapatos pretos, usando uma corda de forca ao redor do pescoço. Na frente dele há uma esfera de luz por onde saem gavinhas escuras que se espalham pelos arredores e parecem fluir para Nicolas.
No lado direito há o número vinte e nove para indicar o capítulo.

Saiu do sono com o medo que somente os pesadelos sabem despertar. Coçou os olhos e sentou-se devagar, enxergando Nicolas poucos metros ao seu lado. O líder percebeu o olhar e perguntou:

— O que está fazendo?

Levou alguns segundos para raciocinar onde estavam, como foi parar lá e qual resposta dar.

— Decidi morar aqui.

Levantou-se e passou a dobrar a colcha e o lençol. Anos antes, este seria um movimento instintivo de tão fácil, mas via-se com um pouco de dificuldade. A memória muscular não estava mais presente. Engraçado o quanto alguns anos sem fazer nada faziam-na perder a prática de qualquer coisa. Mas, no fim, era como andar de bicicleta e, mesmo não sendo sua melhor dobra da vida, conseguiu ajeitar as roupas de cama.

— E você, o que está fazendo aqui? — perguntou Dominique, voltando seu olhar para Nicolas.

— Pensando — respondeu ele, observando o mar. — Este é um bom lugar para pensar.

— No que? — Aproximou-se do líder, tentando imaginar o que se passava na cabeça dele e falhando. Por mais que o admirasse, o homem era uma incógnita. Além disso, tirando o primeiro encontro deles quando Dominique fora levada até um território, não tiveram muito tempo sozinhos para que fosse capaz de penetrar a máscara dura que ele vestia com tanto afinco.

— Está satisfeita com o ritmo do grupo? — Nicolas olhou-a de soslaio.

— Acho que nunca parei para pensar nisso, mas diria que sim.

— E por quê?

— Eliminamos dois originadores, já. Você viu quanta gente tinha naquele hospital? Conseguimos salvar todas! — Dominique olhou para a própria mão, lembrando-se da empolgação na fuga. Quis mencionar isso também, mas era secundário frente ao verdadeiro objetivo do grupo. — Falhamos apenas com o amigo de Bárbara.

— Entendi. — Ele voltou a observar o mar. — Do meu ponto de vista, foram apenas dois originadores. Enquanto demoramos semanas para eliminar esses, os demais agem o tempo todo, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. São incansáveis. Haverá muito mais casos como o de Igor, mortos antes que os libertemos.

— Não tem como ser tanto assim… Digo, eles estão lá, mas será que realmente agem sempre?

— Sabe quantas pessoas desaparecem por dia?

Dominique parou para pensar. Mesmo tendo o costume de assistir aos noticiários, matérias sobre desaparecimentos misteriosos eram poucas. De certa forma, tudo pareceria normal no mundo se ela não soubesse dos predadores. Comunicou isso para Nicolas.

— Demorei um tempo para levantar esse número. Não está em jornais ou comunicados governamentais, precisei entrar em grupos de redes sociais e procurar postagens de gente comunicando desaparecimentos impossíveis. Enfim, são cerca de trezentas por dia no país.

— Isso…

— Não parece tanto? — interrompeu Nicolas, virando-se para ela. — Mas isso são as que consegui descobrir e que foram relatadas. Quantas pessoas não reportam? Quantos raptos acontecem mundo afora? E mesmo que fossem “somente” trezentas, em um mês são nove mil, em um ano passa dos cem mil.

Dominique processou aquela informação por alguns segundos. Tinha noção do perigo dos predadores, mas Nicolas foi capaz de quantificar a ameaça. Pensando nos números de forma isolada, não fariam muita diferença, mas se juntassem os desaparecidos no mesmo lugar equivaleria à população de uma cidade média, talvez até mais.

— É impossível que só a gente saiba disso! — disse Dominique, franzindo o cenho. — Alguém no governo deve ter notado, ou alguém na imprensa!

— Os raptados são esquecidos, jogados de lado, até. Quando há matérias, dificilmente mencionam nomes. E mensurar nossa efetividade em números parece inútil. Quantas pessoas aquele território sequestrava por dia? Impossível dizer. Por isso não estou satisfeito.

— E se aumentássemos o grupo? Tem mais gente como nós.

— Eu já conversei com Fernando sobre isso uma vez. Os confiáveis são vocês, os outros ou não querem se comprometer, ou tem medo demais, ou agem conforme querem.

— Mas… se a ameaça é grande demais, não deveríamos nos unir? Certamente todos vão ver que precisamos ajudar uns aos outros!

Nicolas negou com a cabeça.

— Duvido muito.

— Temos que tentar! Eu posso ajudar todos os dias agora. Podemos rastrear essas pessoas e negociar.

— Dominique, algumas pessoas não conseguem enfrentar o impossível e se manterem positivas.

Aquelas palavras acenderam um alerta na idosa.

— Tem algo que eu preciso mostrar para vocês todos. Já que você está aqui, será a primeira a ver. — Nicolas estendeu a mão para ela.

— Para onde vamos?

— Para o primeiro território que destruí.

Dominique segurou a mão do homem. Por algum motivo, isso trouxe o pesadelo de volta aos seus pensamentos. Nele, tocar em alguém era o suficiente para ser capaz de modificá-lo. Conseguia fazer mesmo aquilo? Queria fazer? Não! Sua benção era para ajudá-la a derrotar predadores, não para mudar outras pessoas.

Quando deu por si, os dois estavam em uma rua vazia. Não havia nada nela além de uma estrada de asfalto iluminada pelo luar e campos de grama amarelada nas laterais. Não fosse suas pernas estarem funcionando, imaginaria se tratar de um lugar normal. Faltava a sensação de pressão e de tensão que surgia ao entrar em um território. Era semelhante ao farol, mas também diferente, como se faltasse algo.

— O território não deveria desaparecer depois de perder o originador? — perguntou Dominique.

— Desapareceu. — Nicolas olhou em volta. — E agora voltou.

O alerta se transformou em uma comichão nas pernas, junto com uma palpitação no peito.

— Quando voltou? — Dominique seguiu o olhar de Nicolas, mas não encontrou nada que chamasse a atenção.

— Cerca de duas semanas atrás, depois de ser destruído três meses antes. — Ele começou a caminhar pela estrada de asfalto. — No entanto, é só o território, sem sinal algum de predadores.

— Foi o seu primeiro, certo? — Dominique seguiu-o, caminhando ao seu lado. — Talvez tenha feito algo errado.

— Duvido muito, tive ajuda.

A conversa morreu por alguns segundos. Dominique ponderava uma pergunta enquanto tentava já adivinhar a resposta. Não parecia haver nenhum olhar de tristeza em Nicolas, e ela também duvidava que houvesse caso algo ruim tivesse acontecido ao ajudante dele.

— E o que aconteceu a essa pessoa? — perguntou.

— Descobrimos ter objetivos diferentes e nos separamos. Ainda mantemos contato, ele é meu fornecedor das pílulas. — Nicolas apontou para a frente. — Consegue ver aquilo?

Dominique olhou adiante e enxergou uma estranha luz. Ela não era visível antes mesmo estando em terreno plano. Estava há mais ou menos um metro do chão e brilhava em um tom amarelo-claro.

Se aproximar não fez muita diferença na impressão que Dominique tinha. Continuava sendo uma fonte misteriosa de iluminação sem qualquer detalhe. A idosa estendeu a mão para o brilho, tocando a energia que fluía dele. Era isso mesmo? Energia? Aliás, era ao menos possível tocar em algo como a luz? Antes que pudesse fazer perguntas, sua mente foi arrastada para outro lugar, que também era o mesmo lugar, no passado.

Enxergou uma sala de estar repleta de correntes tensionadas, emaranhando-se umas nas outras sem lógica alguma, uma teia de aranha imprecisa e sem planejamento. As correntes iam de um lado a outro, do chão para o teto, estendendo na horizontal, vertical e diagonal, de forma que era impossível dar um passo sequer no cômodo sem esbarrar no metal. Alguns metros à sua frente, próximo a uma porta aberta que dava acesso ao exterior, estava Nicolas. Sua expressão demonstrava um pouco de medo e cansaço, o cabelo arrumado pelo gel estava desgrenhado e pela primeira vez Dominique o via sem terno, em vez disso usava uma calça gasta de moletom e uma camiseta toda rasgada. A idosa imaginou que ele olhava em sua direção, até que ouviu o retinir de metal à sua esquerda. A poucos centímetros de si, estava uma criança com o corpo inteiro restrito pelas correntes, dando voltas e voltas até que somente a cabeça estivesse visível. Dezenas de cadeados mantinham as correntes bem apertadas. Sentiu pena do menino e se agachou, vendo que ele não possuía um corpo humano. As correntes que pareciam prendê-lo na verdade eram sua carne, protuberando-se para fora da parte humana. Dominique deu um passo para trás e, com a velocidade que já estava acostumada a ver, uma corda surgiu, enrolando-se no pescoço do predador e enforcando-o.

Afastou a mão da luz e recuou um passo. Não tinha notado durante a visão, mas um zunido constante ressoava em sua cabeça, também suava e ouvia ainda o tilintar das correntes e a respiração entrecortada do predador. Nicolas a observava com a mesma expressão de sempre e não disse uma palavra até Dominique fazer sua pergunta.

— Você enforcou uma criança?

— Um predador parecendo uma criança, para ser mais exato — respondeu ele, com naturalidade.

— Ainda assim…

— Eles tomam diversas formas, crianças, adultos, idosos. O mal é o mal e eliminá-lo na aparência que se apresenta é o necessário. Além do mais, era um originador, e acabei de te falar do estrago que estão fazendo. Ao não agir, eu condenaria muitos outros.

Dominique não respondeu. Mesmo sabendo o dano causado por predadores, algo na cena a revoltava. Seria ela capaz de fazer o mesmo? E se fosse, conseguiria se justificar igual Nicolas?

— Não há outra solução? — perguntou ela. — Vencemos o predador do hospital sem matá-lo.

— Talvez tenha, mas quantas vidas vamos perder até encontrá-la? Estaria disposta a dizer para as vítimas esperarem enquanto você busca uma saída melhor? — Dominique não respondeu.

— Por que você não mataria alguém que se finge de criança?

— Porque é errado.

— Noções de certo e errado não valem aqui. Se hesitarmos demais, perdemos. — Nicolas direcionou o olhar para a luz. — Eu sinto que esse originador vai voltar.

A cabeça dela ainda estava no último assunto, e mencionar o retorno do originador fez tudo se embaralhar.

— Tem alguma forma de impedir?

— É isso que quero descobrir, e para isso que preciso de sua ajuda. A luz revela o passado do originador, mas ficar tempo demais é perigoso. Quero que me puxe caso note que não aguentarei.

Era um pedido estranho, não pelo fato de estarem em uma rua asfaltada sem nada por perto, olhando para uma luz que vinha de lugar nenhum e que tinha a capacidade de transmitir memórias de uma criatura morta há mais de três meses, nem pelo fato de Nicolas querer arrancar o máximo de memórias dessa criatura, Dominique já tinha aceitado essas coisas como um fato da realidade. Estranho mesmo eram os termos usados. Sempre que eram reunidos, era com o objetivo de ajudar a suceder em algo, nunca vira Nicolas cogitar precisar de ajuda em caso de fracasso. Era uma faceta nova dele, só ela conhecia, mais ninguém.

Assentiu com empolgação, e o líder aproximou as mãos da luz sem hesitar. O brilho oscilou e mudou de forma. Se antes era como uma esfera, espalhando a iluminação igualmente em todas as direções, passou a ser galhos espinhosos, cobrindo os arredores de Nicolas. A idosa pensou em puxá-lo dali, mas a mudança repentina não pareceu incomodá-lo, tampouco feri-lo.

Minutos se passaram e os sinais de problema surgiam um após o outro. Primeiro com o suor que escorria da testa de Nicolas e logo empapou a roupa nas costas e axilas. A pele da mão e do rosto descamava, revelando por baixo uma camada reluzente em preto e branco. Os espinhos o envolviam cada vez mais e, se deixasse aquilo continuar, talvez Dominique não fosse capaz de trazê-lo de volta.

Esticou a mão para puxá-lo, mas parou ao sentir alguém perto deles e virou-se rapidamente, erguendo os punhos em posição de combate. Deparou-se com um ser sem forma, ou melhor, sem forma fixa. Em um instante se parecia com uma mulher, em outro, com um homem, o cabelo mudava o tempo todo, a altura também, assim como cor de pele, olhos, rosto, roupas e tudo mais. Só manter o olhar naquela coisa exigia um certo esforço de Dominique. Sua cabeça rodopiava com as alterações. Decidiu fixar-se no chão próximo à criatura, mantê-la na visão periférica era bem mais fácil, mas dificultaria reações aos ataques do predador. Cerrou os punhos e flexionou os joelhos, pronta para qualquer coisa, menos para o que saiu da boca da criatura.

— Calma, Dominique. Vim aqui para impedir que Nicolas se mate com o que ele está fazendo.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 28

Desenho monocromático. O desenho mostra vários ângulos de uma criatura humanóide. Em destaque está uma visão da frente, onde mostra o ser com olhos que são quase metade do rosto e saltando para fora das órbitas. Lágrimas escorrem pelos olhos da criatura. Alguns fiapos de cabelo despontam do topo de sua cabeça.
Outro ângulo mostra a criatura de mostras, com ossos atravessando a pele da coluna e mantendo-a bem reta. O último mostra o ser de lado, com braços e dedos bem longos, capazes de chegar ao chão sem precisar se agachar.
No lado direito há o número vinte e oito para indicar o capítulo.

Voltar para casa desta vez lhe tirou mais do que o movimento das pernas, ficou também sem a euforia que sentiu ao fugir do originador. Nunca antes seu corpo respondeu tanto a seus anseios, o contraste com a imobilidade parcial lhe doía no peito. Queria voltar ao território mais um pouco, correr mais, sentir a adrenalina pulsando, ir até os limites do que conseguia fazer, e então ir além destes limites.

Porém, somente com o restante do grupo conseguiria explorar os territórios. Ela podia ir sozinha, mas sabia que não tinha como enfrentar os originadores. Seria uma exploração para sua própria satisfação, e isso não era correto. A benção lhe foi dada para que ajudasse os demais. Então, como sempre, Dominique apenas esperou.

Esperou na segunda, quando todos saíram para o trabalho ou estudos, e ela ficava sozinha em casa. Esperou na terça, quando seus netos foram ao cinema assistir a um novo filme de super-herói. Esperou na quarta, quando ouviu de sua cama a família vibrando com o jogo. Esperou na quinta, quando tudo que fizeram foi jantarem juntos e descansar. Esperou na sexta, quando o neto mais velho foi a uma festa de aniversário, o mais novo ficou em seu quarto jogando até altas horas na madrugada e seu filho e esposa assistiram algum filme na televisão da sala. Tentou esperar no sábado, mas quando o filho anunciou que iam aproveitar o dia bonito de primavera, Dominique sentiu que enlouqueceria com tanta espera.

— Posso ir junto? — perguntou. — Estou a fim de pegar um ar fresco.

Manuel, que estava prestes a continuar falando, se interrompeu e a olhou com surpresa.

— Claro que pode! — Ele sorriu. — Vou avisar Isabela.

A esposa e o filho prepararam sanduíches, frutas e garrafas de água enquanto os netos acordavam e se ajeitavam. Em seguida, ajudaram Dominique a entrar no carro, ou seja, praticamente colocaram ela lá, dobrando a cadeira de rodas no porta-malas, e partiram para o parque. Muitos anos antes, Manuel comentou de comprar um carro adaptado, mas Dominique recusou. Na época, não queria causar mais problemas, então continuaram usando o carro que tinham.

Logo chegaram ao Parque de São Bento, desceram do carro e percorreram o caminho sem pressa até chegarem na área dos brinquedos. Era um local com chão de terra, rodeado por grandes árvores que jogavam sombra no terreno, ao seu redor haviam algumas mesas de pedra com tabuleiros de xadrez ou dama em seu tampo, além de ocasionais quiosques vendendo sorvetes, picolés e bebidas.

Dominique e sua família se aproximaram de uma das mesas de pedra e, como não havia espaço vago nos bancos próximos a mesa, deixaram a cadeira de rodas na diagonal. Jogaram uma toalha sobre o tampo e puseram a sacola térmica com as bebidas e os sanduíches sobre ela.

O local já estava repleto de outras famílias, cada uma com seus filhos e animais de estimação. Se tivessem demorado mais alguns minutos, não haveria vagas.

— Mãe! Mãe! Podemos ir brincar lá? — perguntou Luiz, o neto mais novo, apontando para o parquinho contendo escorregadores, balanços, gangorras e outros brinquedos.

— Podem sim. — Isabela olhou para o Manuel. — Você vai lá com eles? Eu fico aqui com a vó.

— Podem ir os dois — disse Dominique. — Eu cuido das coisas.

Não que ela fosse um símbolo da proteção ou algo do tipo, mas esperava que, pelo menos no meio de um parque movimentado, ninguém fosse lá roubar os seus pertences. E caso existisse alguém tão ousado, esperava que outras pessoas no mínimo a ajudassem. Além do mais, os brinquedos estavam próximos, daria para observar os netos e o filho de onde estava.

Minutos se passaram e nenhum perpetrador apareceu para roubar os pertences da família. Dominique relaxou, e nem tinha notado que estava tensa antes. Por que ficar em alerta no parque? O que tinha demais ali? Prestou atenção aos seus arredores, tentando encontrar um motivo.

Alguns metros à sua esquerda, um homem e uma mulher jovens conversavam, na frente dos dois, uma criança de não mais que quatro anos brincava com bonecos. O olhar passou por diversos transeuntes e parou em duas mulheres sentadas à sua direita, as duas de mãos dadas, trocando sorrisos e palavras. Um pouco estranho, mas nada perigoso. Olhou para sua frente e viu, há poucos metros, um cachorro de médio porte caminhando, seus pelos curtos e amarronzados, orelhas altas e rabo longo a lembraram de Jen. Botou a mão no peito, sentindo uma estranha palpitação. Mais uma das perdas difíceis do acidente. Nunca nem pensou em ter outro cão depois da perda da companheira, ela própria imaginava que não duraria muito tempo. Mas viveu.

Viveu mesmo? Os últimos anos eram nebulosos, uma mistura indefinida de dias sem nada acontecer ou mudar. Desistiu de tomar decisões para deixar sua vida na mão dos outros. Na mão do filho, principalmente. Por muitos anos, desejara ter mais liberdade, mas, ao mesmo tempo, fugia disso. Por que? O que mais o acidente lhe tirou sem que percebesse?

Enquanto o cachorro passava, com sua dona alguns metros atrás, Dominique decidiu que, após uma década, precisava retomar o controle de sua vida. Se era autonomia que queria, primeiro precisava tomar as próprias decisões, escolher o próprio caminho. Caso contrário, sua liberdade seria apenas um tempo fora da cela, alguns minutos de intervalo em que podia ser ela mesma.

Passou o resto da manhã e um pouco da tarde no parque e, assim que chegou em casa, disse estar cansada. O filho a levou para o quarto e ajudou a colocá-la na cama. Quando ele saiu, fechando a porta e desejando um bom descanso, Dominique agiu.

Ligou a luminária na cabeceira da cama e pegou um livro que estava há anos juntando pó ali. Pensou em diversos recados e despedidas para dar, mas não sabia a melhor forma de colocá-los no papel. Optou por algo simples: “Preciso partir para ajudar o resto do mundo”. Era verdade, mas também mentira. Não era aquele o principal motivo. Arrancou a folha e deixou sob o livro.

Esticou-se para o lado esquerdo, onde ficava seu armário, e puxou mudas de roupa. Pegou a colcha que estava usando na cama e um travesseiro também. Ficou alguns segundos olhando para o quarto pouco iluminado. Respirou fundo, assentiu e foi ao farol.

Logo sentiu o vento forte da costa batendo em si e ameaçando levar as roupas para longe. Era revigorante! Não estava ali para ficar algumas horas, mas dias, meses, quanto tempo quisesse.

Por mais que desejasse sentir o vento e a maresia, seria estúpido largar suas coisas ali. Dominique subiu ao topo do farol e organizou seus poucos pertences. Apesar de não ser o lugar mais espaçoso do mundo, era o suficiente para que se sentisse confortável. Fez uma espécie de cama com a colcha, deixou o travesseiro por cima e olhou em volta. Ouvia o som do mar batendo no promontório, o vento passando pelos vidros, seus próprios pensamentos e seu corpo. Perfeito.

Ainda precisava pensar no que fazer em seguida, mas antes, um cochilo para organizar as ideias seria muito bem-vindo.

***

Estava no céu, bem acima das nuvens. Ao seu redor estendia-se uma casa sem paredes, cujo piso do chão espalhava-se por muitos quilômetros. A maioria dos cômodos ligavam-se uns aos outros por pontes de madeira que não tinham mais que um metro de extensão. Aqueles que não possuíam pontes estavam mais distantes, cerca de quinze metros, e era necessário pular para chegar até eles.

Dominique caminhava pela casa aérea com naturalidade. Nunca usava as pontes, preferindo sempre saltar a distância entre um espaço e outro. Era mais divertido, e conseguia sentir o ar resistindo contra seu impulso toda vez. Vagou sem destino, mas quando ouviu uma voz grave e melosa, seguiu até ela.

Encontrou um banheiro com um homem dentro. Ele estava apoiado na pia e se olhando no espelho. Não tinha mais que trinta anos, mas sofria de problemas na coluna e fazer qualquer tipo de exercício, até mesmo uma caminhada, o deixava com dores. Ele não queria mais aquelas dores.

Aproximou-se do sujeito e tocou em suas costas. Seu conhecimento de medicina era resumido a matérias de televisão, alguns documentários e uma ou outra coisa que leu em revistas. Sua benção, porém, era sua vontade e seu poder, com ela poderia modificá-lo assim como modificava a si mesma. Alterou a coluna do homem, deixando-a reta, reforçando-a, mexendo nos nervos para que sentisse menos dor. Ele se tornou capaz de caminhar de forma correta, sem passar por sofrimento algum.

Ao olhar o resultado de seu trabalho, notou que o homem parecia mais alto graças às alterações. As lâminas vertebrais se manifestavam como protuberâncias compridas que rasgavam a pele e se exibiam ao mundo com seu tom esbranquiçado. Infelizmente, o sujeito não conseguia mover a cabeça e nem dobrar o torso. Mais alterações se faziam necessárias.

Começou pela cabeça, trabalhando para aumentar seu campo de visão, assim não precisaria movê-la. Trocou a localização das órbitas para ficarem uma em cada lado da cabeça, precisou remover o cabelo para que não caísse no olho e atormentasse o pobre coitado. Depois aumentou o tamanho dos globos oculares, expandindo-os para ficarem tão grandes quanto a palma de sua mão. Satisfeita, passou aos braços. Estes eram mais simples, bastava aumentar o tamanho deles para que os dedos fossem capazes de tocar no chão, e então aumentar o número de articulações nos membros.

Deu um passo para trás e observou mais uma vez o resultado do trabalho. O homem não tinha mais defeitos graves, era capaz de usar os braços para alcançar qualquer objeto que estivesse ao seu redor, os olhos viam tudo, a coluna era praticamente inquebrável. As pernas só ficaram parecendo curtas se comparada aos membros superiores, mas era um problema estético, não funcional.

O olho direito do homem se moveu, fixando-se em Dominique. Lágrimas escorriam do enorme globo, estava tão feliz! Ele passou as mãos pelo seu corpo, caindo de joelhos em seguida e estendendo os braços compridos na direção de sua benfeitora, em um sinal de agradecimento.

— Por quê?

Uma cortina se abriu diante dos olhos de Dominique. O que fez? Por que fez? Fruto de seus poderes ou não, aquele homem estava longe do que poderia ser um humano e, mesmo que tivesse resolvido seu problema, que outros criou sem saber?

Notou algo movendo-se pela visão periférica e virou-se. Em um quarto de casal à sua direita, viu o que só conseguiu definir como um amontoado de carne arrastando-se pelo chão. No meio da vermelhidão, havia um coração batendo, os pulmões inspirando e expirando, o estômago trabalhando. Seus instintos lhe diziam se tratar de mais um de seus “pacientes”.

Segurou a respiração, pensou em fazer aquelas pessoas voltarem ao normal. O que era o normal delas? Dominique olhou para a aberração que criou há nem cinco minutos e não conseguiu lembrar como ele se parecia. Olhar para o amontoado de carne era pior ainda, não tinha uma referência sequer da pessoa que um dia fora. Era criança, adulto ou idoso? Homem ou mulher? Tinha alguma marca de nascença? Não sabia nada.

Correu para longe, mas desta vez, ao passar pelos cômodos, notava como a casa estava repleta de pessoas que ajudou. Algumas ainda lembravam um pouco a forma humana, mas o corpo estava tão distorcido que nada se encaixava direito. Outras se tornaram algo diferente demais, variando entre uma esfera de tecido nervoso, transmitindo e recebendo estímulos que deviam trabalhar em conjunto com o cérebro e outros órgãos que não mais existiam, até aqueles que nada tinham de carne, somente uma fumaça incapaz de tocar, sentir, ver ou emitir sons, apenas vagando pelos cômodos enquanto deixavam um rastro cinzento e gosmento atrás de si.

Tentar fugir só a fazia ver mais e mais daquele horror. A diferença entre eles era tão grande que acostumar-se era impossível. Não havia para onde fugir, a casa se estendia infinitamente para qualquer lado que corresse. Restava apenas uma saída.

Pulou no vão entre os cômodos, queria a segurança da terra, queria estar abaixo das nuvens mais uma vez. Caiu, atravessando a imensidão branca e aproximando-se do enorme azul abaixo de si. Era um lago, cristalino e calmo como em um dia sem brisa alguma. Conforme se aproximava, notou o seu reflexo na água. Das costas brotavam asas brancas enormes, como aquelas que se viam em pinturas de anjos. As mãos e braços estavam pálidos, mostrando as veias pulsando com intensidade e se remexendo como vermes dentro de um hospedeiro. Do tronco brotavam membros que deveriam ser outros braços, mas que acabavam em lâminas de metal afiado. As pernas eram um conjunto de músculos reforçados por um exoesqueleto vermelho, produzindo uma camada fina de um líquido pegajoso. A única parte humana era a face, com os olhos esbugalhados, as sobrancelhas erguidas e a boca levemente aberta enquanto encaravam o reflexo no lago.

Dominique não fez nada para impedir de cair na água e afundar.