Predadores: A Obsessão – Capítulo 8

Desenho monocromático. O desenho mostra um ser humanoide e grande, com pele branca e refletora e seu rosto é apenas um buraco. Ele está sentado de forma relaxada em um trono feito de pequenas pessoas e em sua mão direita está segurando uma dessas pessoas.
No topo esquerdo da imagem há o número oito para indicar o capítulo.

Fernando sentiu um frio que percorria o interior dos ossos se manifestando como músculos retesados. Estavam preparados? Realmente preparados? Nicolas não parecia preocupado, mas poderia confiar nele? Parte de si acreditava, o homem os protegera e os salvara, não os enganaria em um momento tão crucial. Então, mesmo sabendo disso, por que as mãos tremiam? E mesmo com suas mãos tremendo, por que aceitou continuar avançando?

Antes que pudesse chegar a uma resposta, Bárbara abriu a porta à frente do grupo. Quando deu por conta já estavam na sala seguinte. Seu olhar foi atraído para o predador sentado em uma espécie de cadeira no centro. Não, cadeira não, era um trono enferrujado. O monstro era enorme. Mesmo sentado como um rei preguiçoso, quase alcançava o teto. Apesar da forma humanoide, lhe faltavam muitas características humanas. A pele era branca e reflexiva, semelhante à porcelana, não possuía pelos ou roupas no corpo, seu rosto era apenas um buraco na cabeça, revelando um interior vazio.

Seu foco inteiro estava naquela face, naquele nada. Foi só quando Nicolas passou a mão em frente aos seus olhos que notou o quanto estava absorto. O fascínio foi trocado por nojo, repulsa pura manifestando-se em uma contorção no rosto. Procurando qualquer outra fonte de distração, olhou para o resto da sala onde estavam.

Era circular e possuía pé-direito de quase dez metros, suas paredes de metal eram limpas, sem engrenagens ou ferrugem. Um vidro que cobria a parte superior de uma parede mostrava o caminho à frente e os trilhos. Um painel cheio de botões, monitores e gráficos ficava logo abaixo da janela. Um homem magro e franzino, sem as manchas de ferrugem, observava o painel, apertava botões e corria de um lado a outro.

— Cuidado! — gritou Bárbara.

O grupo se separou e tudo que Fernando viu foi um borrão aproximando-se em alta velocidade, atingindo-o no tronco e lançando seu corpo para trás. A sala rodopiou e parou de lado. Ele tentou reunir ar para pedir ajuda, mas o ato de inspirar doeu-lhe o tórax. Conteve um berro a contragosto, deixando a dor escapar em forma de lágrimas. Levou a mão ao peito e sentiu uma nova pontada de dor. Um peso na perna o fez temer que ela estivesse em situação pior, mas encontrou apenas uma pessoa manchada jogada em seus pés. Apoiou as mãos no chão, instigando mais agulhadas nas costelas e chutou o enferrujado para longe, que não ofereceu resistência, ficou apenas ali, atirado no chão como um objeto descartado.

Olhou na direção do originador e viu que ele endireitara a postura, a mão direita segurando fortemente um dos braços do trono, como se tentasse arrancá-lo e então algo se soltou: outro indivíduo manchado. Não era um assento feito de metal enferrujado, e sim de pessoas comprimidas, dobradas, quebradas e deformadas. Tudo conforme a vontade de seu senhor para que lhe servissem como móvel.

O rosto do predador virou-se em sua direção. Fernando continuava sendo o alvo. Não podia deixar isso acontecer. Quem cuidaria dos ferimentos do grupo? Buscou se erguer, a dor no peito impedindo que fizesse movimentos bruscos demais. Uma sombra se pôs à sua frente e cordas se materializaram, tentando restringir os movimentos do homem de porcelana, mas arrebentaram tão logo ele continuou o lançamento. O projétil humanoide atingiu Bárbara como se batesse contra uma viga de metal. Chocou-se e girou para o lado, caindo a alguns metros dela. Nas costas da jaqueta da mulher, duas labaredas surgiram, pequenas e inofensivas.

O inimigo preparou-se para arrancar mais uma pessoa do trono. Dominique disparou rumo ao originador e deu um salto impossível na direção da criatura que tinha mais de cinco vezes o seu tamanho. Ela chegou perto da cabeça, mas o predador reagiu e, com o dorso da mão, em um tapa quase casual, acertou a senhora com força arrebatadora o suficiente para jogá-la na parede e fazer o corpo quicar contra o metal. Não houve movimento quando ela caiu no chão. Fernando venceu a dor e gritou seu nome. Sem resposta. Onde estava Nicolas quando precisavam?

Como se respondesse a seus pensamentos, o líder se aproximou pela lateral.

— Você está bem? — perguntou ele, com voz calma.

— Claro que não! Temos que sair daqui, não estamos preparados!

— Está vendo alguma saída?

Fernando correu a sala com os olhos, zero portas. Bárbara foi atingida mais uma vez e as labaredas cresceram.

— Use sua corda! Enforca ele!

Nicolas olhou na direção do originador. Fernando viu a corda se constringindo contra o pescoço do homem, e uma réplica surgiu no alvo, mas sem efeito algum.

— Já tentei. — Ele aliviou o aperto. — Não funciona.

— Tu… Nós estamos condenados.

— Não acabou ainda.

— O que vai…

Nicolas levou um dedo aos lábios. Seus olhos percorriam a sala como se fosse uma máquina. Foi um momento que se estendeu por eras. Bárbara foi atingida repetidas vezes, cada lançamento parecendo mais forte que o anterior. Entre um golpe e outro, ela fitou-os com olhos marejados e o rosto tomado pela ferrugem.

— Aguente mais um pouco, estamos quase lá! — Fernando mentiu a contragosto.

A mulher assentiu e voltou os olhos para frente. Os de Nicolas pararam de vasculhar a sala e focaram-se em Fernando.

— Tem um padrão, o metrô inteiro foi montado para ser sustentado pelas pessoas com manchas. O próprio originador as usa para nos atacar, é dependente dos outros — disse ele, a voz saindo mais rápido que o normal. — Precisamos acabar com esse vínculo.

Fernando olhou para o painel que vira antes, onde se meteu aquele homem? Uma parte dos controles estava oculta pelo originador. Apontou na direção do vidro.

— Tem outra pessoa nessa sala, deve ser uma espécie de maquinista.

— Eu vou até lá. — Nicolas assentiu.

— Tu não vai ficar bem se for atingido por uma daquelas coisas…

— Não serei. Apoie Bárbara, vai ficar mais difícil para ela.

Fernando viu a corda se apertando forte no pescoço de Nicolas e sua esclera tornou-se vermelha de sangue. O originador inclinou-se para frente no trono e arrancou pessoas com as duas mãos, lançando-as em Bárbara na sequência. Tirou mais duas e jogou novamente, e mais uma vez. Estava mais rápido, mais focado, mais obcecado. Nicolas aproveitou o momento para ir correndo na direção do painel.

— Mais um pouco! Nicolas descobriu como derrubar ele! — gritou Fernando.

Bárbara assentiu, as asas nas costas da jaqueta pulsando em um vermelho intenso. Os ataques do originador continuaram focados nela, que não se movia um passo e deixava as rachaduras espalharem-se pelo seu corpo como nunca. Fernando admirou a força de vontade da companheira.

O monstro estava prestes a fazer mais um lançamento quando pareceu congelar, o frio que tomava Fernando desde que entraram sumiu. A pele de porcelana encheu-se de rachaduras e pedaços caíram pouco a pouco em uma chuva de cacos. O originador passou de um rei no seu trono a um déspota em decadência. Atrás de tudo isso, Fernando viu o homem franzino sendo enforcado por Nicolas. Mesmo suspenso no ar, esticava suas mãos na direção do painel e gritava.

— Não! Não! O metrô não pode parar, tem que continuar! Ele pediu para continuar! Devo continuar!

Ele se debatia, arranhava o próprio pescoço, tentava tirar a corda. Nada do que fazia tinha efeito algum. Quando o homem parou de se mexer, uma pressão incômoda deixou o peito de Fernando, e soube que poderia fugir do território. Nicolas olhou na direção do grupo e gritou:

— O farol! Pensem no farol.

A sala inteira rachou-se em seguida e os olhos do padeiro buscaram a companheira caída.

— Dominique! — gritou ele.

Não houve resposta dela, mas Nicolas tomou ação e correu até a idosa, tomando-a nos braços. Um tremor percorreu a sala, desequilibrando Bárbara e trazendo uma sensação ruim para Fernando. Obedeceu a Nicolas e pensou no farol.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 7

Desenho em monocromático. O desenho mostra uma mão em frente a um painel de vidro transparente. Do outro lado estão dezenas de engrenagens dos mais diferentes tamanhos, algumas tão pequenas quanto uma mão e outras tão grandes quanto o tronco de uma pessoa. Ao lado do painel estão diversas engrenagens descartadas no chão.
No topo da imagem há o número sete para indicar o capítulo.

— Corram! — gritou Nicolas.

Obedeceram. Bárbara viu pelo canto do olho a ferrugem avançando junto com eles, espalhando-se pelo vagão como um vírus. Mantiveram-se à frente da infecção e das criaturas durante preciosos segundos, até acreditou que conseguiriam escapar, porém a ferrugem ganhou velocidade, preenchendo o local como a água de um tsunami.

Duas fendas abriram-se em paredes opostas à frente do grupo. Dominique acelerou e acertou a criatura que saía da fenda na esquerda com uma ombrada, dobrando o corpo dela em um ângulo que espinha alguma era capaz de suportar. No lado direito, uma corda surgiu e puxou o enferrujado para cima, limpando mais uma vez o caminho deles. Esse, porém, foi só o começo.

Conforme avançavam, mais e mais aberturas apareciam no vagão e, por mais rápida que fosse a reação de Dominique, eram muitas para uma só pessoa. Nicolas também tinha seu limite e a cada enforcado ele titubeava. Para piorar, as criaturas se enraiveceram, atacando ao mesmo tempo em que saíam das fendas. Apareceram criaturas cujo braço se deformava em um estranho chicote de carne, com ossos despontando como espinhos. Em outros, o antebraço era apenas um osso fino curvado, lembrando uma espécie de espada.

A situação se agravou quando as fissuras se abriram ao mesmo tempo à frente e ao lado do grupo. Na primeira vez que isso ocorreu, um enferrujado pegou Bárbara de surpresa e acertou seu rosto com unhas que pareciam garras. O golpe deslizou pela pele como se fosse feita de metal, mas a dor veio tão grande quanto poderia ser. Desacelerou por apenas um momento, mas foi o suficiente para que caíssem nela como abutres atrás de carniça.

Mãos agarraram seu tornozelo, chicotes se enrolaram em seus braços, enferrujados surgiram pelo lado para arranhar, tentando puxar seus membros até arrancá-los, e mais um bando deles caiu de uma fenda no teto. Ela tentou dar um passo em frente, mas o peso de tudo aquilo a fez desabar. Sentiu a infecção espalhando-se no corpo, queimando tanto quanto os ataques que recebia. Não conseguia nem ver Fernando e Nicolas, que já deviam estar longe, correndo por suas vidas. Rangeu os dentes e gritou como um animal encurralado que não desistiria de lutar. A visão tornou-se um borrão vermelho enquanto apoiava as mãos no chão metálico e forçava o corpo a se levantar. Mesmo com todo aquele peso e a agressão, ficou de joelhos e logo estava se erguendo. Sairia dali, não importava que estivesse sozinha lutando contra uma multidão, nunca se entregaria.

— Aguente mais um pouco — gritou Dominique.

O peso em si diminuiu e o caminho foi limpo aos poucos. A dor ainda estava lá, mas era apenas um eco do sofrimento que passou segundos atrás. A vermelhidão diminuiu e conseguiu visualizar os arredores. Um enxame de corpos jazia pendurado no teto, as pernas balançando em um ritmo lento, todos desaparecendo aos poucos. Encontrou Dominique à sua frente, oferecendo uma mão de apoio. Logo atrás dela estava Fernando mantendo Nicolas em pé. O insensível líder estava com os olhos injetados e aliviava o aperto no pescoço. Uma fenda se abriu ao lado de Dominique e uma corda imediatamente armou-se contra a criatura, arrastando-a para longe da idosa.

Nicolas levantou uma mão com três dedos erguidos, baixando um deles após um momento. Baixou o segundo e Bárbara se preparou para correr, notando que sua pele estava repleta de rachaduras vermelhas e manchas de ferrugem. Quando baixou o último, ela disparou junto com Dominique. Nicolas vacilou por um momento assim que Fernando o soltou, mas logo estava acompanhando o ritmo do restante deles. Precisavam achar uma saída logo.

Atravessaram três vagões na correria desesperada até desembocarem em um que continha as portas de desembarque. Bárbara não precisou de ordem alguma de Nicolas, fugiria por aquela saída nem que todos discordassem. Conforme o grupo avançava, um rangido metálico ecoou pelo metrô inteiro. O chão oscilou e a parede da esquerda, onde estava sua salvação, dobrou-se. Metal e vidro se contorceram enquanto o lado esquerdo do vagão era amassado por forças invisíveis. A rota de fuga desapareceu diante dos olhos de todos em menos de um segundo e tiveram que manter-se abaixados por conta da diferença de altura entre um lado e outro do carro.

— Temos que continuar! — gritou Nicolas.

O grupo se moveu, mas Bárbara parou na frente de onde estava a porta, agora inutilizável. Deveria ser a saída deles, a fuga para um lugar seguro. Por quantos vagões mais teriam que correr? Quando cairiam por um vacilo qualquer e seriam dizimados? Seu corpo moveu-se antes que o raciocínio se completasse e Bárbara acertou a parede distorcida com o ombro. Uma dor aguda percorreu o corpo conforme ela atingia o metal. Recuou três passos e uma mão segurou seu cotovelo.

— O que está fazendo? — disse Fernando.

Ela respirou fundo. Um dos enferrujados surgiu próximo deles e foi mandado longe por um chute de Dominique.

— Precisamos fugir! — disse Bárbara. — Essa é nossa saída.

Desvencilhou-se do homem e avançou novamente contra a lateral do vagão. Seu ombro ardeu e ela viu rachaduras surgindo próximas ao pescoço. Não queria nem saber como estava por baixo da jaqueta. Abriria aquela porcaria nem que destruísse seus ossos no processo.

Ela se atirou contra a parede de novo e de novo. Ninguém mais tentou pará-la, pois era isso ou lidar com as criaturas. A dor vinha em ondas cada vez mais intensas e a expressão dar murro em ponta de faca pareceu aplicar-se perfeitamente à situação. Nicolas e Dominique mantiveram o terreno livre apesar da quantidade cada vez maior de inimigos. Eventualmente Bárbara parou de se preocupar com eles, parou de sentir dor e parou de contar quantas vezes já tinha tentado. Ficou sem forças, seu corpo tão fragmentado que parecia capaz de desfazer-se a qualquer momento, e mesmo assim tentou uma última vez. Sentiu o coração bater mais forte, deu um berro e atirou-se contra o metal. Nicolas gritou algo. Bárbara sentiu como se pudesse destruir tudo à sua volta, reduzir tudo a menos que cinzas, liberar todos os sentimentos que rondavam seu coração. Se fizesse isso, no entanto, não sabia o que aconteceria a si. Se conteve apenas o suficiente para deixar vazar somente um pouco de tudo que habitava sua alma, o ombro atingiu a parede, sua raiva vazou e estourou.

Quando a visão voltou, e nem percebeu antes que a perdera, metade do vagão estava arruinado. Bárbara estava em uma ilha de metal no meio da completa escuridão que havia fora do metrô. As rachaduras na pele mudaram do carmesim para um vermelho esbranquiçado e seus braços e pernas tornaram-se pesados demais. Olhou para onde antes estavam a parede e porta, vendo somente o negrume do nada. Todo o esforço, toda a dor, todo o tempo foi em vão: a saída que criou não os levaria de volta para a segurança, pelo contrário, olhar para ela causava arrepios. Atrás de si a visão era a mesma, o vagão estava dividido em dois. As fendas pararam de surgir e as criaturas não ousavam chegar perto do buraco.

À sua esquerda, depois de muitos metros de nada, estava o restante do grupo. Nicolas e Dominique trocaram breves palavras, e então a senhora tomou distância, correu para o abismo e pulou. Não foi o mais gracioso ou elegante dos saltos, mas a permitiu aterrissar na ilha de metal junto com Bárbara. De perto era possível notar como a ferrugem tomava quase metade do corpo da idosa.

— Está tudo bem? Não está doendo? — perguntou Bárbara.

— Menina, você brilhou como uma fogueira e então explodiu. Essa pergunta é minha. — E, antes que Bárbara pudesse falar algo, continuou:

— Nicolas disse que precisamos nos apressar, sem muito tempo para descanso.

— Claro que disse — falou Bárbara, com um pouco de irritação.

— Não fique braba, ele está tentando nos manter vivos. — Dominique sorriu. — Agora se segure que vamos saltar.

A idosa tomou-a nos braços e a ergueu. Sem espaço para tomar impulso, flexionou os joelhos e pulou. Foi um momento no ar em que Bárbara agarrou-se ao pescoço de sua carregadora. Aterrissaram na borda do chão e Dominique quase perdeu o equilíbrio, mas Fernando reagiu rápido o suficiente para segurar as duas e puxá-las até a segurança.

— Desculpe, quase que nos fomos dessa vez — disse a idosa, colocando Bárbara no chão.

— Eu que me desculpo, perdemos tempo com minha teimosia. — Bárbara suspirou.

Fernando balançou negativamente a cabeça e disse:

— Não se preocupe com isso, o importante é que estamos vivos.

Dito isso, ele buscou mais pães na mochila e entregou para as duas. Fernando tentou disfarçar o incômodo enquanto comiam, mas era possível ver a agonia causada a cada mordida que davam, além de verem o corpo do rapaz ficando com as manchas laranjas e pequenas fendas pelo corpo.

— Talvez não tenha sido tempo perdido — falou Nicolas, aproximando-se dos três. — Eles pararam de nos atacar.

— Tem razão, por quê? — perguntou Fernando.

Nicolas coçou o queixo.

— Devem estar gastando a energia reparando o estrago. Manter a máquina operando é uma preocupação das criaturas, e acho que do predador original também. É melhor recuperar-se do que continuar atrás dos invasores.

— Não parece muito inteligente.

— Não mesmo, mas predadores são criaturas de instinto e emoção, não de raciocínio e lógica.

Bárbara respirou fundo, ainda estava cansada, mas queria sair logo dali. Trocou um olhar com os homens, então disse:

— E ficar aqui discutindo teoria dos predadores é menos inteligente ainda quando estamos de cara com o perigo. Que tal seguirmos?

Retomaram o avanço, desta vez diminuindo o ritmo para um trote. Ninguém aguentaria tanto tempo correndo. Passaram por quase vinte vagões, todos sem sinal algum de saída. Os primeiros tinham a mesma aparência, isso até chegarem em um diferente dos demais. Era mais largo, os móveis estavam ausentes, a própria estrutura de um metrô tinha se perdido. As superfícies de metal foram trocadas por um vidro transparente, por onde era possível ver diversas engrenagens girando. Algumas eram pequenas, não maior do que um dedo, enquanto outras alcançavam o tamanho de uma pessoa. Elas estavam por tudo, e as criaturas manchadas também.

Bárbara tensionou os músculos e parou, observando os inimigos. Estavam em grupos de quatro ou cinco, e ficavam próximos às paredes, fitando o maquinário. Próximo de cada conjunto de criaturas havia um amontoado de outras engrenagens empilhadas no chão.

— Vamos devagar e em silêncio — sussurrou Nicolas.

Avançaram a passos lentos. Os enferrujados nem olharam para eles. Durante o trajeto viram que o vidro da parede e do chão tinha puxadores e dobradiças. Quando uma das engrenagens saiu do lugar e o funcionamento do maquinário foi afetado, um grupo de criaturas abriu a seção de vidro e substituiu a engrenagem por outra de aparência mais nova e do mesmo tamanho. A engrenagem defeituosa foi para a pilha que ficava próxima ao grupo. No curto tempo que levaram para atravessar o vagão, viram mais peças serem trocadas seguindo o mesmo processo.

Depois de vinte ou trinta vagões, não se importava tanto a ponto de contar, chegaram em um carro curto, com poucos assentos, todos eles estofados e bonitos. No final, havia quatro mulheres em pé ao redor da porta, formando um corredor humano, vestidas com saltos altos, saias apertadas, cabelos lisos e rosto cheio de maquiagem. Depois delas havia uma porta que em nada combinava com a atmosfera. Era feita de madeira clara, com uma maçaneta cromada e uma placa de metal ao nível dos olhos.

— Continuemos — disse Nicolas.

Chegaram perto das mulheres, paradas como estátuas. Agora que estava mais perto, Bárbara notou que, apesar do cabelo e alturas diferentes, todas tinham o mesmo rosto. Deu um passo hesitante para o meio delas, esperando algo terrível, mas nada aconteceu. Deu mais outro e nada, o grupo seguiu com ela e chegaram até a porta. A placa continha algo escrito, mas fora riscado e apagado, tornando-a ilegível.

Sendo a linha de frente do grupo, Bárbara botou a mão na maçaneta e sentiu a garganta entalar e a força sumir. Seja lá o que tinha do outro lado, não deveria ver, não queria ver. Recuou e olhou para Nicolas.

— Não acho uma boa ideia — disse ela.

O rosto do homem estava impassivo e calmo quando respondeu:

— O predador original deve estar ali, não é uma boa ideia, mas é o precisamos fazer.

— Precisamos mesmo? — perguntou Fernando. — Não concordamos em fugir se ficasse perigoso demais?

— Se o deixarmos vivo, mais vítimas surgirão. — Foi Dominique quem respondeu. — É nosso dever.

— Além do mais — Nicolas olhou ao redor —, não vimos nenhuma outra saída até aqui.

O coração de Bárbara acelerou. Não queria abrir a porta, mas então o que fora fazer ali? Dar um passeio pelo metrô amaldiçoado é que não foi. Não sabia bem, queria apenas fugir da rotina, de seu tormento. Foi uma decisão idiota e tomada por impulso, igual a tantas outras que fez ao longo da vida. Mesmo assim, naquele momento, podia fazer algo diferente do que só aceitar as coisas calada, podia lutar contra algo terrível, talvez até vencer. Virou-se, girou a maçaneta e abriu a porta.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 6

Desenho em preto e branco. Ele mostra um ser humanoide agachado com duas mãos no chão e olhando para o espectador. Ele não possui roupa ou órgãos sexuais, é magro e a parte de sua cabeça acima do nariz não existe. Ao redor da criatura está um vagão de metrô vazio, enferrujado e desgastado pelo tempo.
No topo da imagem há o número seis para indicar o capítulo.

Menos de um dia antes, Fernando fora colocado em um grupo no Whats chamado Predadores, onde também estavam Nicolas e Bárbara. Uma conversa rápida aconteceu para marcarem um encontro e, conforme o combinado, o padeiro foi lá no horário apenas para encontrar o farol vazio. Minutos depois, Bárbara chegou.

Então lá estava ele, procurando uma distração ao observar os arredores enquanto aguardava a chegada de Nicolas. Alguns metros ao seu lado, Bárbara fazia o mesmo. Não falaram nada além da costumeira troca de cumprimentos, e isso o deixara nervoso. Ela parecia uma daquelas pessoas esquentadinhas, sempre de cara fechada e mal humor. Sabia muito bem que o certo a se fazer era deixá-las quietas.

Com o canto do olho, viu a mulher tirar o celular do bolso pela terceira vez no último minuto. Não a culpou, queria fazer o mesmo para se distrair, mas a falta de sinal o impedia. Nem ao menos conseguiam acompanhar os minutos passando, visto que entrar em um território era o suficiente para embaralhar as horas, jogando o relógio do aparelho para frente e para trás constantemente.

— Para alguém metido a certinho, ele tá atrasado — disse Bárbara, bufando um pouco em seguida. — Fiz questão de aparecer no horário marcado e nem sinal do cara. — Ela olhou para Fernando. — Há quanto tempo tu tá com ele? Isso sempre acontece?

— Normalmente Nicolas chega antes, e “estar com ele” é um termo forte. — Fernando se virou de costas para o vidro e olhou na direção da mulher. — Tenho algumas semanas a mais que tu nisso tudo, mas só fiz algo relativo aos predadores em uns dois ou três dias.

— Quer dizer que o único que sabe o que tá fazendo aqui é ele? — Bárbara levantou uma sobrancelha.

— Isso mesmo.

— Que nhaca, hein? — Ela checou o celular mais uma vez. — Só espero que ele não demore muito, tenho que trabalhar amanhã.

— Teve problema com o… dia fora?

Bárbara levantou os olhos para ele por um momento antes de baixá-los ao celular mais uma vez.

— Nem quero falar sobre isso.

Deixou a conversa morrer por ali, sabia muito bem quando falar e quando ficar quieto. Virou-se para a janela e voltou a encarar o horizonte. Ficou um tempo visualizando o nada enquanto pensava em como ajustar seus dias a essas idas aos territórios. Como Nicolas se organizava?

— Como foi contigo? — perguntou Bárbara com a voz mansa. — Como acabou em um território?

— Não sei explicar. — O homem botou a mão no peito, sentindo um desconforto na pele. — Sei que fui assaltado, levaram minha moto e tomei um tiro.

— Então tu meio que… morreu também. — A voz da mulher se reduziu a um sussurro. — E depois?

— Depois eu estava no metrô e encontrei Nicolas.

— Não isso, a sua moto. — Bárbara se aproximou um pouco. — Estava inteira também?

— Sim, na garagem como se nada tivesse acontecido. — Deu um sorriso azedo. — Não sei o que pensar disso.

Antes que a conversa continuasse, Fernando notou uma movimentação do lado de fora do farol. Nicolas se aproximava da entrada da construção. E acompanhado.

— Veio ele e mais alguém — disse Fernando.

Ela arqueou as sobrancelhas.

— Mais um fudido?

— Está querendo dizer que somos fudidos também?

— Claro, por qual outro motivo estaríamos aqui?

Ficou em silêncio, não porque pensava a mesma coisa, mas porque sabia que convencer alguém era complicado, ainda mais quando falavam com tanta convicção e não eram chegados. Conseguia entender o ponto de vista de Bárbara. Que tipo de pessoa arriscaria ir até um lugar onde a lógica era inexistente e o perigo constante apenas para ajudar pessoas que nem conhecia?

Não demorou muito para Nicolas subir até o topo do farol. Junto dele veio uma voz rouca e alegre.

— E é aqui que vocês sempre se encontram?

Logo em seguida apareceu a dona da voz. Ali, com os cabelos brancos e curtos, rosto cheio de linhas de expressão e pontinhos marrons pela bochecha, trajando roupas que pareciam mais adequadas a uma corrida no parque, estava uma senhora. Viu nas mãos dela manchas avermelhadas que lembraram Fernando de algumas semanas atrás, quando Nicolas ligou pedindo lhe curasse de alguma doença que contraiu em um território.

— Sério, cara? Tu trouxe uma velha pra cá?! — Bárbara disparou antes que Fernando pudesse fazê-lo, apesar de que teria escolhido palavras menos ofensivas à pobre senhora.

— Sim, eu trouxe — disse Nicolas. — Esta é Dominique. Ela estará conosco daqui em diante.

— Você deve ser a Bárbara. Nicolas me falou de ti. — Dominique se aproximou sem maldade alguma da esquentadinha. Mesmo com as palavras duras que recebera, esboçava um sorriso no rosto. — Entendo o que disse e eu também estou confusa. — Deu uma risada baixa. — Mas acho que posso ajudar vocês.

A expressão dura de Bárbara aliviou, e quando isso aconteceu, Dominique a cumprimentou com um beijo na bochecha. De forma hesitante, a motoqueira retribuiu.

— E você, nossa, que forte. — Dominique disse ao olhar para Fernando. — Deve fazer sucesso com as mulheres.

— Ééé… — Foi a única palavra que Fernando conseguiu emitir.

Os dois se cumprimentaram com beijos na bochecha. Mesmo no clima mais ameno, não pôde deixar de desconfiar de Dominique. Trocou uma olhadela com Nicolas, e logo foi respondido:

— Dominique é extremamente capaz e acho que será a adição perfeita ao grupo. Assim como eu, ela cuida da ofensiva, dessa forma Bárbara consegue focar em nos proteger.

Fernando arregalou os olhos para a idosa. Como uma pessoa tão carinhosa e de idade serviria para o ataque? Ele não queria vê-la se machucar e ir para o hospital.

— Vou ser bem direto aqui — disse Fernando. — Dominique, tu entendeu os riscos? Não estamos aqui pra fazer algo fácil, pode se machucar de verdade.

— Já sei disso. — O sorriso no rosto dela não sumiu. — Estamos aqui para salvar pessoas e matar monstros. Eu quero fazer isso.

— Tu pode morrer — reforçou Bárbara. — Me desculpe, senhora, não posso te aceitar aqui.

— Mas eu posso ajudar. E eu já vivi bastante, mais que o dobro de vocês, se eu morrer, que seja fazendo algo bom.

— Eu sei que estão hesitantes, porém confiem em mim. — Nicolas se aproximou e colocou a mão no ombro de Dominique. — Eu não arriscaria a vida de ninguém que eu não achasse capaz de contribuir conosco.

— Tu ouve o que está dizendo? — disse Fernando, balançando fervorosamente as mãos para frente e para trás ao lado da cabeça. — Vai mandar uma senhora lutar contra aquelas monstruosidades porque acha que ela é capaz de ajudar?! Não tem coração?

— Somos poucos, temos que aproveitar as oportunidades que aparecem.

Fernando começou a bufar.

— Estamos lidando com vidas aqui!

— Eu sei — disse Nicolas. Ele olhou para os outros e parou com os olhos em Fernando. — Por isso não fizemos nada perigoso de verdade até agora, não tínhamos um grupo capaz de lidar com diferentes situações. Agora temos.

— Que tal assim, nós vamos bem devagar hoje, e se sentirem que eu não sirvo, vou embora — disse Dominique, fitando Fernando sem sorrir. — Não quero atrapalhar.

— Vamos tentar explorar, apenas, ver como trabalhamos juntos e voltar quando der. — Nicolas pressionou.

Fernando alternou o alvo de sua carranca entre o pálido e a idosa. Respirou fundo e fechou os olhos. Se fosse só Nicolas insistindo, daria um jeito de manter Dominique longe dessa loucura.

— Tudo bem, mas quem vai decidir se paramos ou não sou eu. Entendido?

— Sim.

***

No território do metrô, se depararam com mudanças. O vagão parecia mais largo, as paredes e chão, antes limpas e brilhantes, estavam tomadas de ferrugem. A noite chegara e o lago estava escuro. Os prédios continuavam todos ali, mas os letreiros eram irregulares, as luzes piscantes falhavam vez ou outra. Nicolas foi até a janela que dava para o lago e observou em silêncio antes de se virar e falar:

— O território está mudando, crescendo, talvez. Não tinha visto isto antes.

— Quem sabe a gente volta — disse Fernando, olhando de relance para a ferrugem que tomava o teto.

— Cada dia que esse território existe, ele se fortalece e pessoas se tornam vítimas dele. — respondeu Nicolas. — Se não entendermos as mudanças, pode ser ainda mais difícil da próxima vez.

— Por que não avançamos um pouco? Se estiver muito difícil podemos voltar — sugeriu Dominique.

Concordaram e se organizaram na formação previamente estabelecida. Na frente, Bárbara e Dominique, no meio Nicolas e atrás Fernando. Avançaram para o vagão seguinte, desta vez encontrando algumas pessoas. Elas nem prestaram atenção ao grupo e, apesar de não se lembrar com muitos detalhes do território, Bárbara notou que elas tinham algo diferente da última vez. Ao longo da pele e da própria roupa, diversas manchas alaranjadas, semelhantes a ferrugem, permeavam os indivíduos. Em alguns, as manchas estavam focadas nos pés, em outros, nas mãos, mas todos tinham um pouco na cabeça. Pareciam não se importar, mantendo uma reação apática para tudo a sua volta. Onde a marca estava, cabelos faltavam e a própria carne se fazia ausente, criando uma aparência esquelética.

— São mais presentes nos mais velhos — disse Nicolas, perto de seu ouvido.

Bárbara se virou, pronta para empurrá-lo, mas ele já tinha recuado um passo.

— Não faça mais isso! — disse ela, apontando o dedo para Nicolas.

— Tomarei mais cuidado, mas olhem. — Ele levantou o queixo na direção das pessoas. — Quanto mais velhos, mais manchas. Mesmo assim, há exceções, alguns jovens carregam muitas.

— Isso significa algo? — perguntou Fernando, quebrando a formação e ficando ao lado de Nicolas.

Bárbara voltou a fitar os manchados, era a protetora do grupo e não queria deixá-los na mão, porém manteve o ouvido atento para a explicação de Nicolas.

— Territórios são armadilhas para humanos, uma forma dos predadores nos atraírem. Imagino que o local se modele de acordo com a mentalidade das pessoas que o predador visa.

— Mas isso não limita a comida do predador?

— Eles podem não querer todo tipo de refeição — respondeu Dominique. — Igual peixe, você usa a isca certa para a espécie que quer pegar.

— Podemos deixar a especulação pra mais tarde? — Bárbara se virou para os três. — Não dá para ficar a noite toda teorizando e eu tenho que trabalhar amanhã.

Fernando arregalou os olhos.

— Tem razão, vamos logo!

Continuaram avançando pelos vagões. A ferrugem se mostrava presente em cada vagão que entravam. Quanto mais ela permeava a estrutura, mais os passageiros de lá estavam tomados pelas marcas. Bárbara não via muitos detalhes pois manteve o foco à sua frente, não queria deixar nada passar, mas pôde ouvir Nicolas murmurando algumas coisas de vez em quando.

Chegaram em um carro que estava tomado pela ferrugem. Teto, paredes e chão pareciam pintados para ficar daquela forma. O primeiro passo de Bárbara revelou uma estrutura sensível e instável.

— Cuidado, gente — disse ela.

Como sempre, foi na frente, testando o chão antes de cada passo. Quando já tinham avançado um pouco no vagão, ouviu um barulho atrás de si e logo foi tomada por uma estranha sensação de nojo. Virou-se para trás e viu que todos estavam ali. Direcionou a visão mais para o fundo e viu lá uma criatura esparramada pelo chão, se levantando aos poucos.

Chegava quase a dois metros de altura e podia-se contar com facilidade suas costelas. A pele inteira estava tomada pela mancha alaranjada, não usava roupas e lhe faltavam órgãos sexuais. Porém o que mais chamou sua atenção foi a cabeça. Não tinha olhos ou cérebro, era como se uma lâmina fina e precisa a tivesse cortado logo acima do nariz.

Bárbara aprontou-se para trocar de posição quando ouviu outro barulho, desta vez na direção aonde estavam indo. Se virou mais rápido que da outra vez e viu, alguns metros à sua frente, outra criatura no chão. Estava mais perto que a outra, e os murmúrios que fazia chegavam ao ouvido da motoqueira.

— A máquina deve continuar operando.

— Não deixe parar.

— Se esforce.

Ele repetia estas frases de novo e de novo, até mesmo depois de se levantar.

Bárbara se sentia perdida. O que deveria fazer? Avançar? Ficar ali? Ir para trás? A criatura deu passos lentos em sua direção e a motoqueira estava prestes a recuar quando ouviu a voz de Nicolas.

— Fiquem onde estão!

Assim que terminou de falar, uma corda se materializou no ar, enrolada no pescoço da aberração, que logo foi puxada para cima com um solavanco e ficou suspensa, se debatendo. A resistência não durou muito e logo os movimentos cessaram. O mesmo aconteceu com a criatura de trás. O corpo delas escureceu, uma gosma fétido e roxo escorreu, logo em seguida tornaram-se nada mais que pó.

Bárbara soltou a respiração, só então notando que estava segurando-a. Olhou na direção de Nicolas, que ajeitava a corda em seu pescoço. Pensou que, por menos que gostasse de como falava e agia, o homem tinha suas qualidades. Seus olhos se encontraram e ele falou:

— Continue.

Ela olhou para frente, arrependida de seu último pensamento. O babaca insensível nem para falar algo que animasse servia. Deu um passo adiante e parou em seguida. O chão sob seus pés subia e descia em um movimento lento, oscilando como se fossem as entranhas de uma besta. Não tardou para uma fenda surgir alguns metros à sua frente na parede da esquerda. De dentro saiu uma mão esquelética e depois outra, se agarraram nas bordas da fenda e fizeram força para sair, revelando primeiro a cabeça incompleta da criatura, e então o resto de seu corpo esquálido. A coisa saiu da fenda, caindo desajeitada no chão e se levantando em seguida. Bárbara fechou a mão com força, e depois tremeu quando dezenas de outras fendas surgiram ao longo do vagão.

— Atrás também! — gritou Fernando. — O que fazemos?

— Avançamos!

Ouvindo a decisão de Nicolas, Bárbara avançou, abandonando a cautela que tinha antes em cada passo. Apesar de mais e mais criaturas aparecendo a cada segundo, sua lentidão tornava fácil evitá-las.

Enquanto dava um passo à esquerda para evitar uma criatura de braços estendidos, Bárbara sentiu o chão ceder sob seu peso. O repentino desequilíbrio a fez cair para frente, onde uma criatura emergia do chão e alçava as mãos em sua direção.

Um par de pés calçando tênis de corrida surgiram. Dominique chutou a criatura na cabeça, o tronco dela se curvou inteiro para trás e o queixo foi destroçado. Bárbara ainda estava surpresa com a força de sua companheira, pelo menos quarenta anos mais velha, quando Dominique lhe estendeu a mão.

— Vamos, vamos!

Aceitou a ajuda de bom grado e se levantou. Logo estavam de volta na formação e avançando pelo corredor. Dominique lidava com as criaturas que se aproximavam, desferindo socos e pontapés que nem mesmo Anderson Silva seria capaz de dar. Quando notou que as manchas estavam espalhando-se pelos punhos da idosa guerreira, resolveu ajudar também, se limitando a empurrar e chutar os obstáculos. As criaturas eram fracas e leves demais, quase não sentia impacto ao interagir com elas, mas o resíduo que deixavam em seu corpo causava ardência.

Logo chegaram no fim do vagão e atravessaram para o próximo. Não fosse por estar em território de um predador, teria pensado que estava em um transporte normal. As paredes e assentos estavam limpos, na verdade, nunca tinha visto tamanho zelo nas vezes que andara de metrô. Nicolas fechou com um estrondo a passagem entre as divisas.

Conseguiram ver através do vidro na porta a multidão avançando até eles. Nicolas recuou, deixando as mulheres ficarem mais próximas do perigo. As criaturas aproximaram-se da passagem, mas nada fizeram. Após alguns segundos, recuaram, voltando ao meio do vagão e desaparecendo pelas fendas.

— Fernando… — começou Nicolas.

— Já sei.

O líder assentiu e manteve o olhar no carro anterior. Fernando tirou a mochila de entrega das costas e a abriu. Tirou de dentro dois cacetinhos, fumegantes como se recém tivessem saído do forno.

— Isso deve ficar delicioso com uma manteiguinha — comentou Dominique, pegando o pão e abocanhando-o.

Bárbara pegou e comeu sem comentários, apreciava os efeitos da comida, mas achava bizarro botar na boca algo que vinha daquele lugar. Ao contrário do que esperava, o alimento não tinha gosto ou peso no seu estômago, era como se comesse ar.

A ardência que sentia enfraqueceu até o ponto de sentir nada, as manchas recuaram para a ponta dos dedos até desaparecerem. O mesmo ocorreu com Dominique, mas de forma mais lenta, já que as manchas dela chegavam ao cotovelo. Além disso, a vermelhidão que havia desde antes em suas mãos desapareceu.

Viu Fernando esfregando o braço direito enquanto fechava a mochila e notou diversas marcas na mão e antebraço dele. Segurou-o pelo pulso com firmeza, porém sem apertar.

— Passou para ti também. — Olhou para o rosto de Fernando, notando o quanto ele tentava disfarçar uma careta. — Vai ficar bem?

— Daqui a pouco passa. — Balançou de leve a cabeça na direção de Nicolas. — Testamos algumas vezes para ver como eu reagia com ferimentos.

— Testaram? — Bárbara soltou Fernando. — Não sei o que dizer sobre isso.

Ele abriu um sorriso amarelo.

— Nem eu, mas é a forma que tenho de ajudar.

— Não acha que deveria ficar no farol, então? Assim não se expõe tanto.

— Não dá. — Balançou o dedo indicador em negação. — Se fosse hoje, Dominique estaria cheia de manchas quando voltasse ao farol.

— Tu que sabe… — Levantou o olhar para Nicolas. — Ei, vamos continuar?

— Sim, vamos. — Ele se virou para Bárbara. — Parece que aquelas coisas se limitam ao vagão que estão, nem tentaram vir para cá.

— E no que isso importa?

— Como eu disse antes, o território é…

— Eu sei, entendi.

Antes que pudessem seguir adiante, um som estático soou pelo vagão. Em seguida veio uma voz abafada e grossa, falando tão rápido que foi difícil entender a mensagem:

— Atenção! Temos uma emergência em nossa máquina. Quatro estrangeiros querem nos ver destruídos. Contamos com a colaboração de todos para uma rápida eliminação da ameaça.

E então a divisa com o vagão enferrujado se abriu com violência.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 5

Desenho em preto e branco. O desenho é dividido em duas partes. Na parte da esquerda temos uma mulher de cabelos compridos envolvida por galhos grossos que apertam seu corpo, e no fundo se veem mais um conjunto de galhos. Na parte da direita, há três gralhas, uma atrás da outra, olhando na direção do espectador, no fundo há uma lua cheia no céu.
No topo da imagem há o número cinco para indicar o capítulo.

Para olhos cansados que viveram bastante, os dias se misturavam em indistinguíveis amálgamas de eventos. Sempre começavam com Dominique na sala, assistindo as primeiras notícias da manhã enquanto os membros da família saíam para seus afazeres. Uma apatia dominava a idosa, e nem mesmo a volta dos parentes trazia cores ao dia, pois não faziam muita diferença no eterno marasmo que era sua rotina.

Sempre desejava, sem falar para ninguém, é claro, que Deus pusesse um fim em sua vida. Não que a odiasse, apenas não via motivos para continuar no mundo. Abandonara qualquer objetivo ou sonho, não tinha mais com quem compartilhar conquistas ou alegrias, perdera tudo de uma vez só e se tornara prisioneira do pior cárcere que existe. Ansiava por uma liberdade impossível.

Por isso, não foi com estranheza que recebeu o peso estranho no peito. Decidira dormir mais cedo por conta de um cansaço anormal, e minutos depois de deitar veio a sensação incomum. Não ficou desacompanhada, logo o suor frio tomava conta do corpo enquanto as batidas do coração aceleravam. Não pediu ajuda, e mesmo que quisesse, se achava incapaz de reunir ar para gritar. Fechou os olhos e aceitou seu fim, esperando as dores passarem e a vinda da paz.

Não esperava que fosse dar de cara com um bosque composto unicamente de angicos-brancos e sem vegetação rasteira alguma, apenas terra úmida. Era uma noite de calor intenso e abafado, fazendo Dominique suar mesmo em sua camisola. O silêncio e os dois olhos prateados que a observavam da copa de uma árvore lhe inquietavam. De tudo isso, o que mais a surpreendeu foi o fato de estar em pé.

Antes que pudesse apreciar sua nova vida, ouviu um grito. Um pássaro saiu voando onde estavam os olhos brilhantes, deixando Dominique sozinha e dividida entre ir atrás de quem gritou ou ir na direção contrária. Quem sabe pudesse esperar ali até que a encontrassem? Que pensamento estúpido, faria as mesmas coisas de sempre, sem nunca tomar iniciativa?

Deu seu primeiro passo naquele mundo novo, indo em direção à voz. Pegou confiança e, vencidos alguns metros, acelerou. Todas as árvores pelas quais passava eram da mesma espécie e os pássaros de olhos prateados a observavam sem se mover. Não ouviu mais nenhum pedido de socorro e logo seguia a esmo, sem saber se já passara ou não pela outra pessoa.

Por pouco não trombou com uma mulher que vinha da direção oposta. Dominique evitou a colisão com um salto rápido e fitou a moça, que também parara. Ela tinha cabelos longos e bagunçados e, ao mirar Dominique, a idosa reconheceu o tremelique e os soluços de um choro intenso. Usava uma roupa branca com algum símbolo no peito impossível de identificar pela sujeira marrom de terra.

— Me ajude! Elas vão me pegar! — A mulher deu um passo em sua direção, estendendo as mãos.

A madeira, anteriormente cinza do tronco mais próximo, criou manchas marrons e claras. Em seguida, os galhos se moveram. Eram rápidos e flexíveis como se feitos de borracha, mas ainda havia os estalos característicos quando esticaram e enrolaram-se no tórax e pernas da jovem. O aperto acirrou e em seguida veio o estalo dos ossos quebrando. Viu quando a árvore ergueu a mulher em meio a gritos de desespero para o alto, os ramos enrodilhando a presa como se fossem serpentes, mas diferente dos répteis que matavam por asfixia, o angico-branco não hesitou em apertar o máximo possível, torcendo o corpo e silenciando sua vítima para sempre.

Estava no inferno, só podia ser isso, nada mais explicaria lhe darem um presente tão desejado para, em seguida, mostrarem aquela cena terrível. O corpo tornou-se um iceberg e Dominique temeu por um segundo que ficaria paralisada, mas bastou dar um passo para trás que seus instintos despertaram e a levaram para longe do terror.

No entanto, não importava o quanto corresse, não conseguia deixar para trás os angicos-brancos nem os pássaros, e quanto mais fugia, mais corpos destroçados pelas árvores ela encontrava e mais sentia vontade de parar e desistir. De que adiantava toda aquela correria para chegar a lugar algum?

Os pensamentos negativos cessaram junto com a movimentação quando se chocou com outra pessoa viva. Os dois se desequilibraram e quase caíram. Dominique arregalou os olhos para aquele homem de terno e corda no pescoço, tão deslocado quanto ela, mas transmitindo uma calma impossível. A idosa falou sem nem pensar:

— Por favor, me ajuda!

Sentiu algo passando por si, como um projétil rápido, e no momento seguinte o tronco mais próximo ganhou um tom marrom. Em uma repetição do que viu acontecer antes, os galhos moveram-se em sua direção. O corpo da idosa reagiu mais rápido que a última vítima, saltando vários metros para trás e escapando do agarrão mortal.

Dominique não teve tempo de entender aquele movimento anormalmente rápido e poderoso, pois tropeçou nos próprios pés assim que aterrissou e viu outra árvore prestes a lhe capturar. Fechou os olhos e quis que acabasse rápido, mas a dor não veio. Em vez disso, uma voz masculina:

— Abra seus olhos e corra.

Ao redor da idosa, o angico que a atacava estava restringido por uma dúzia de cordas que surgiam em pleno ar e sustentavam-se no nada. O homem aliviava o aperto da forca no próprio pescoço.

— Corra! — gritou ele.

Desta vez obedeceu, levantando-se e correndo para qualquer direção. Seu salvador logo a acompanhou na fuga, mantendo uma certa distância. Outras árvores nas proximidades mudavam de cor e atacavam Dominique sem dó. Mais preparada dessa vez, conseguia se esquivar dos galhos com movimentos rápidos e impulsionados por um instinto que não sabia possuir. Acima deles, as aves que antes se limitavam a ficar empoleiradas agora voavam e grasnavam, seguindo os dois fugitivos.

Dominique sobreviveu como pôde, seu corpo obedecendo-a com precisão para escapar dos ataques. Se agachou rápido quando os galhos de uma árvore vieram em direção ao seu tórax e cabeça, pulou por cima quando um angico tentou lhe chicotear as pernas. A dificuldade aumentava conforme as plantas tornavam-se mais rápidas e reativas. Os ramos cada vez mais chegavam perto de atingir a idosa atlética. Ou talvez fosse apenas o cansaço vencendo o desejo pela sobrevivência.

Antes que fosse tomada pela exaustão e cometesse um erro fatal, os pássaros silenciaram, as árvores cessaram os ataques e uma ave caiu na frente de Dominique. A visão do animal morto com o pescoço retorcido a fez parar e olhar ao redor. O chão estava repleto daqueles bichos, quando foi que tantos começaram a segui-los?

Mais atrás estava o homem, intacto e correndo para se aproximar. Coçava o pescoço enquanto afrouxava a corda. Era uma visão estranha, mas dadas as circunstâncias Dominique não reclamaria.

Logo os pássaros começaram a perder forma e cor, as penas azuis do corpo e as pretas da cabeça ganharam um tom arroxeado, em seguida transformaram-se em um visco que se espalhava pelo chão e desaparecia. Dominique desviou o olhar das aberrações.

— Os pássaros estavam comandando as árvores pelo que entendi — disse o homem, fazendo Dominique dar um pulo de medo. — Acho que estamos seguros por enquanto.

— Isso não faz sentido — replicou ela, virando-se para seu interlocutor.

— Não há senso comum aqui, o objetivo é apenas te matar.

— Eu? — Apontou para si mesma. — Por quê?

— Não sei, mas atacavam apenas você.

— Por… Não… Que lugar é esse? O inferno?

— É um território de caça, e aquelas aves são predadores. — Ele fitou uma árvore. — Suspeito que as árvores também sejam. E você não perguntou, mas me chamo Nicolas.

Antes que Dominique conseguisse sequer começar a entender toda a informação que recebeu em poucas frases, ouviu um farfalhar de asas acima deles, junto com os grasnados que acompanhavam um novo ataque. Arriscou olhar para o céu e viu uma revoada dando círculos em volta de onde estavam.

— O que fez antes? Pode fazer de novo? — disse a idosa em tom de súplica.

— Não com tantos, não tão longe. — Ele respirou fundo. — Corra, você é o alvo.

Foi exatamente o que fez, iniciando mais uma vez o exercício extenuante de sobreviver. Tão logo as aves pousaram em angicos próximos, o ataque recomeçou. Esperava que todas as árvores a atacassem, mas continuava sendo apenas uma por vez, porém com velocidade e precisão intensas.

Teve que abandonar questionamentos e dúvidas que tinha para Nicolas, fechando-se para tudo que não fosse a movimentação contínua que a mantinha viva e respirando. Era assustador saber que bastava um milésimo de atraso ou um passo em falso e teria um destino terrível. Em cada esquiva havia uma expectativa de ser o fim, mas havia algo mais, uma sensação única que fazia o coração bater mais forte e as pernas reagirem mais rápido. Sentia os galhos não somente como uma ameaça, eram um desafio também.

O transe encerrou com um grito de Nicolas:

— Não são os pássaros! É outra coisa movendo-se entre as árvores.

Dominique se lembrou do que sentiu na primeira vez que foi atacada. Algo passando rápido por si, como uma bala. Conseguiria interceptar?

Moveu-se para longe de uma árvore ofensora, desta vez prestando atenção no tronco em vez de simplesmente fugir. Enxergou o momento em que a mancha marrom, muito parecida com uma infecção, atenuou-se e algo pequeno saiu de lá, atravessando o ar até a planta mais próxima de Dominique.

Afastou-se dessa nova árvore controlada e correu até ficar próxima de outra. Percebeu o momento exato que a infecção diminuía no angico, e preparou os dois braços, então viu o objeto minúsculo indo em direção à árvore atrás de si. Moveu a mão como um gavião caçando sua presa e agarrou por pouco seja lá o que fosse.

Cerrou os punhos, sentiu algo sendo esmagado e um líquido pegajoso tocar a pele. Na sua palma, havia um verme branco e rechonchudo. Estava imóvel e deformado pelo aperto, com gosma vertendo por seu corpo. Tomada de nojo, Dominique esfregou a mão na árvore, livrando-se dos restos mortais do verme. Só então notou que não ouvia mais as aves. Olhar ao redor mostrou que havia alguns pássaros empoleirados ali perto, mas a revoada no céu desaparecera.

— Muito bom. — Nicolas se aproximou. — Com isso devemos ter um tempo até uma nova investida.

A satisfação pelo elogio recebido foi rapidamente substituída por preocupação.

— Não acabou?

— Enquanto estivermos aqui, nunca vai acabar. — Ele olhou para o céu.

Dominique fez o mesmo, mas não viu nada demais.

— E como saímos?

— Caminhei por um tempo e não encontrei a saída. — Ele apontou para uma árvore. — Consegue escalar? De cima deve ser possível encontrar.

— E o que eu procuro?

— Algo diferente do resto.

Fazia no mínimo cinquenta anos que Dominique não escalava uma árvore, e nunca o fizera de pijama. Demorou um pouco observando por onde começar, mas assim que iniciou, os movimentos foram fluidos, mãos e pés faziam seu trabalho sem dificuldade alguma. Estranhamente, todos os galhos eram firmes, até mesmo os finos, e logo estava com a cabeça acima da copa, pronta para encontrar o “algo diferente”.

Por mais que observasse, parecia tudo igual. O mesmo tipo de árvore em todo lugar, como uma maquete infinita cujo criador fora tomado por uma gigantesca falta de criatividade. A única variação eram algumas plantas com os corpos quebrados erguidos acima das folhagens. Começou a mirar outras direções, mas encontrou uma situação diferente das demais.

Empoleirado nos galhos de um angico-branco que erguia sua vítima, havia uma ave grande e de penas escuras. Dominique demorou a entender o que pássaro fazia, até que ele tirou o bico de dentro das entranhas do cadáver, exibindo sua cabeça vermelha. Como se soubesse que era observado, o urubu virou a cabeça na direção da idosa.

Até aquele momento, Dominique sentira perigo quando era atacada pelas árvores, sentira a adrenalina correndo pelo corpo, mas o olhar da criatura fez sua garganta secar e os ossos gelarem. Ficou paralisada, observando a ave abrir as longas asas e levantar voo, indo em sua direção.

Era mais rápida do que Dominique imaginava, mas não foi isso que a fez se mover, foram os angicos que o urubu deixava para trás. As folhas perdiam sua coloração verde e assumiam uma tonalidade preta.

Desceu da árvore o mais rápido que pôde, saltando da metade dela para o chão. Antes que explicasse para Nicolas o que vira, as árvores ao redor se encheram de fungos, as folhas murcharam e os galhos pareceram quebradiços pela primeira vez. O homem olhou para cima e disse:

— Originador. Precisamos fugir.

Os dois correram. Diferente da última vez, não havia o grasnar de aves ou a constante ameaça dos galhos, apenas silêncio e a certeza de que o originador, seja lá o que fosse isso, os observava do alto.

A tosse se incidiu aos poucos, ocorrendo esporadicamente conforme falhavam em ganhar distância do urubu. No início era seca, quase machucando, e logo cada tossida era acompanhada de algo subindo pela garganta. Em uma escarrada, Dominique se viu cuspindo muco misturado ao sangue. Ficou ciente da dificuldade em respirar que a acompanhava desde que a ave ganhara os céus, as pernas antes tão capazes bambolearam e a idosa se viu caindo no chão.

Nicolas se interrompeu alguns metros à frente dela. Também tinha a cara de quem estava lutando para continuar em pé, mas diferente de Dominique, não parecia que seu corpo desistiria tão cedo. Ele levou a mão direita ao bolso da calça e pareceu buscar algo lá, se interrompendo quando ouviram a aproximação do originador com um bater de asas. Desta vez Dominique viu a corda ao redor do pescoço de Nicolas apertar e machucar a pele. Em seguida, com um baque, a ave encontrou o chão ao lado direito da idosa, de pescoço e asas quebradas. Infelizmente, nenhum alívio acompanhou a morte do urubu.

— Posso ajudar, mas não posso te salvar. Ninguém pode — disse Nicolas, a voz saindo seca.

— Eu já morri! Não sei por que tô aqui, não sei que lugar é esse.

— E daí? Vai desistir por isso? — Um acesso de tosse o interrompeu por um momento, e Dominique viu a forca apertar seu pescoço. — Você sempre foi assim?

Nem sempre, mas um segundo, ou até mesmo um milésimo, podem destruir o acúmulo de desejos e sonhos de uma vida inteira. Ela deveria ser apenas uma casca vazia de quem fora, mas enquanto se movimentava rápido por aquele bosque e desviava de árvores assassinas, sentiu-se viva mais uma vez. Vida após a morte, não era esse seu desejo pelos últimos anos? Ir para onde poderia voltar a fazer o que desejava? Por que desperdiçava a chance que Deus lhe deu?

Cerrou os punhos com raiva de si, a queimação no peito se tornando combustível para impeli-la adiante, lembrar que ainda vivia, que não era uma mente quebrada.

— O que faremos? — perguntou ela.

— Se for igual a antes, teremos um tempo até o originador voltar, não sinto que o matei de verdade. Suba em uma árvore e procure de novo. E ignore a ave.

Dominique se pôs de pé e andou até o angico-branco mais perto. Escalou como da última vez, porém não sentia mais aquela empolgação quase inocente, era o desespero daqueles que querem sobreviver, impelindo a mão a agarrar o próximo galho e os pés a buscarem apoio. Quando chegou ao topo, viu de imediato o urubu se aproximando. Teria preciosos segundos para vasculhar o ambiente antes que ele chegasse perto demais e trouxesse a doença consigo.

Fitou o lado oposto ao originador e temeu não encontrar o que buscava, mas então enxergou. Era um local discreto, uma ausência de árvores que não veria se não estivesse buscando justamente por uma anormalidade. E lá estava. Infelizmente, era longe e demandaria um bom esforço.

Desceu rápido e abriu a boca para falar com Nicolas, mas um acesso de tosse a interrompeu. Contentou-se em apenas apontar com a mão, e o homem não precisou de mais que isso para começar sua corrida, com Dominique logo atrás.

Não tardou para outros males surgirem. Uma dor no peito ameaçava se alastrar pelo corpo, e erupções cutâneas começaram a surgir, primeiro apenas como manchas avermelhadas, mas logo acumulando uma secreção amarela no meio.

O originador não desceu mais, restando aos dois humanos impulsionar seus corpos além do que eram capazes. Cada passo sendo mais lento e bamboleante que o último. A passagem de tempo tornava-se confusa, os angicos-brancos todos iguais. Foi quase sem perceber que chegaram na clareira.

Não era natural, se é que essa palavra sequer poderia ser aplicada ao lugar. As árvores ao redor estavam chamuscadas, seus galhos mortos sem nenhuma folha. O chão era terra arrasada, afetado por tantas queimadas que estava seco e rachado. Uma cena que deveria causar revolta e indignação, mas que naquele momento causou a Dominique apenas alívio.

Nicolas não perdeu tempo, tirou um papel do bolso e entregou à idosa.

— Pense em sua casa, volte para lá. — A voz dele era entrecortada e rasgada, Dominique imaginou que a sua não estava diferente.

Fez o que homem pediu, faria independente dele ter dito ou não. Fechou os olhos e mentalizou seu quarto. Sentiu uma mudança no ar e logo estava de volta na sua cama. Ainda estava febril e com o corpo cheio de dores, as tosses não sumiram e nem as erupções na pele.

Guardou o papel que Nicolas lhe entregou em um gaveteiro ao lado da cama, então gritou por ajuda. Momentos depois, seu filho abriu a porta assustado. Dominique se permitiu apagar ali, esperando que não fizessem muitas perguntas depois.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 4

O desenho mostra Barbara, uma mulher de cabelos longos e cacheados, usando pijama. Ela está sentada na cama e olhando com uma expressão tensa para o celular. No fundo, à direita, há um armário de roupas, e na esquerda uma porta.
No topo da imagem há o número quatro para indicar o capítulo.

Acordou com os sons clássicos de uma discussão. Virou de lado e fechou os olhos com mais força, não aguentava mais as brigas da mãe e do padrasto. Parecia até um evento marcado que acontecia toda semana. Tentou ignorar as vozes por alguns minutos, porém notou que eram desconhecidas. Abriu os olhos e se sentou em um pulo.

Estava no interior de uma construção circular. A parede era feita de vidro e no meio havia uma enorme lente estranha: começava no centro com um círculo pequeno interior e ia se repetindo até chegar próximo do teto e do chão, tudo isso suportado em uma plataforma de metal. Mesmo com a lente no meio, a sala ainda era grande, comportaria mais pessoas, muito mais do que ela e os dois homens que discutiam.

Lembrou-se do acidente ao olhar o rosto de ambos. Na ocasião, andava muito mais rápido do que deveria na Freeway, uma forma de deixar a raiva para trás, e se distraiu por um momento. Em seguida, teve a breve visão de um triângulo de sinalização e então alçou voo. Depois veio o metrô, não conseguiu evitar de levar a mão até a garganta, sentindo resquícios de um aperto agonizante. E não só isso, tinham outros homens e mulheres a atacando, fosse com socos, chutes ou armas que não conseguia compreender ou processar.

Levantou-se devagar, tinha que achar uma saída dali. Seus planos foram frustrados na mesma hora, quando um dos homens, o mais alto e pálido, usando uma corda no pescoço e com uma manga faltando no terno, olhou em sua direção. Ele tentou se aproximar, mas o outro botou a mão em seu peito e interrompeu-o. O baixinho musculoso possuía cabelo preto bem curto e vestia uma camiseta de manga curta vermelha clara sem estampa e um pouco apertada nos braços, já o jeans cinza claro pareciam um pouco folgados demais.

— Tu já fez merda antes, deixa que eu falo com ela — disse o baixinho.

O pálido concordou e recuou, olhando para o chão atrás de si. Bárbara acompanhou o movimento e viu ali a sua chance de fugir, uma escadaria para baixo. Tinha certeza de que nocauteava o alto, mas o outro seria complicado. Não tinha escolha, precisaria deixá-los vulneráveis primeiro, fazê-los baixar a guarda.

O moreno deu um passo em sua direção, ainda mantendo uma certa distância.

— Fique tranquila, só vamos conversar — disse ele, pausadamente. — Eu entendo a confusão que está sentindo.

— Entende mesmo? — As palavras saíram antes mesmo que pudesse pensar em todas elas. — Por que me atacaram então? Acha que vou acreditar nisso?!

— Fizemos merda lá, mas foi pra te salvar. Eu juro. — Ele colocou as duas mãos no peito. — Não conseguiríamos te levar pra fora no estado em que estava.

— Do que está falando? Que estado?

— Tu estava toda… As fendas na pele? — Ele passou os dedos no próprio rosto, desenhando rastros. — Lembra?

Bárbara franziu o cenho, aquela era a pior tentativa de enganação que já presenciou. Fendas na pele? Olhou para as costas das mãos. Estavam limpas. Virou as palmas para cima e, como um lampejo, as recordações vieram à tona. Estava de volta no vagão, sendo ferida e agarrada. Lembrou-se do calor percorrendo seu corpo, como se quisesse escapar por qualquer lugar possível. Viu a pele rachando e se abrindo como asfalto, no interior da fenda havia apenas o vermelho de seu sangue, sua raiva.

Recuou até bater com as costas no vidro.

— O que fizeram comigo?

— Nós não fizemos nada. Somos iguais a você, de certa forma — respondeu o pálido.

Em seguida, ele tirou um canivete do bolso da calça, esticou o braço sem a manga e passou a lâmina na pele e carne, abrindo um corte profundo. Não vacilou em sua expressão séria por um momento sequer. A visão do sangue a paralisou tanto quanto a frieza da ação. Não estava lidando com pessoas normais, talvez o musculoso até fosse, mas o outro não. O baixo olhou para trás e viu o sangue escorrendo.

— Desgraçado! Podia dar o sinal antes!

Correu para trás da estrutura no centro da sala, saindo da vista de Bárbara. Logo voltou com uma mochila de entrega nas mãos, tirou um pão, uma bisnaguinha, de dentro dela e alcançou para o homem ferido, que guardou o canivete, pegou o alimento e o devorou em instantes. O corte começou a se fechar, primeiro pelo sangue que parou de escorrer, deixando a carne à mostra, e então, puxada por uma força invisível, a pele se fechou. Em segundos, nem uma cicatriz restava.

— Isso dói sabia? — disse o baixo, esfregando o braço esquerdo com uma expressão de dor no rosto.

— Vê agora como somos parecidos. — O maluco se aproximou dela. — Eu enforco, ele cura e você explode. Se quiséssemos te matar ou te ferir, não estaria em pé. Podemos conversar agora?

Bárbara assentiu. Ainda fugiria na primeira chance que dessem, mas queria, pelo menos, entender o que estava acontecendo.

Após ouvir uma apresentação seguida de explicações, sua vontade de fugir ainda estava lá, mas sufocada pelo que acabara de escutar.

— Então, tu… Nós, fomos escolhidos pra matar essas coisas? — perguntou ela, com a voz vacilante.

— Não — respondeu Nicolas. — Não somos obrigados a nada, mas nossas habilidades nos tornam os únicos qualificados.

— Mas por que nós? Não seria melhor escolherem pessoas realmente capacitadas? Policiais e militares, por exemplo.

— Quem disse que não somos capazes?

— Eu não me sinto capaz — disse Fernando, apontando para o próprio peito.

— Vocês conseguiam realizar seus trabalhos quando tinham dez anos? — perguntou Nicolas. — Ninguém nasceu pronto, isso não existe, mas dentro de nós há potencial.

Bárbara sentiu-se de volta nas palestras motivacionais que a empresa fornecia de vez em quando.

— Ta, nós temos o potencial e toda essa baboseira. Mas e daí? Agora saímos entrando em territórios e pronto? Acabamos com os predadores?

— Não, isso seria idiota. — Nicolas foi até o vidro e olhou para fora. — Fazendo isso estamos lidando com o sintoma, não com a causa.

— Não entendi. — Fernando franziu o cenho.

— De onde vêm os predadores? — Nicolas perguntou sem tirar os olhos do exterior. — Até respondermos isso, nossos esforços são paliativos. Por isso estou montando uma equipe que não só mate predadores, mas que me ajude na investigação.

Bárbara olhou para Fernando que, apesar de ter ajudado na explicação dos eventos recentes, possuía um olhar confuso. Fitou Nicolas.

— E só achou nós até agora? — disse ela, fitando Nicolas.

— Não. Alguns eu decidi que seriam nocivos ao meu objetivo e outros recusaram o convite. — Ele a encarou. — Essa é uma opção também, recusar.

— Claro que é — disse Bárbara. — Estou recusando agora mesmo.

— Por que não pensa em tudo primeiro? Vá para casa, descanse e me ligue depois com a resposta.

— Não precisa, estou dando ela agora.

— Reflita primeiro — insistiu Nicolas, sem vacilar.

Bárbara inspirou fundo e soltou tudo de uma vez. O que precisaria fazer para que o maldito entendesse que sua vida já era complicada da forma que estava? Não tinha tempo para mais uma tarefa na sua pilha de estresses que se acumulavam a cada dia.

— Vou mostrar para ela como voltar — disse Fernando. Olhou para Bárbara, chamou-a com um gesto de mão e caminhou em direção à saída.

Desceram uma escada vertical de dois metros e então seguiram por uma escadaria caracol. No meio da construção havia duas enormes correntes de metal que iam do topo até o chão e, assim que desceram tudo, Bárbara viu que havia um peso de metal no fim das correntes. Fernando abriu a porta de madeira velha e, pela força que o homem fez, pesada. Saíram para fora.

Olhara de relance para o exterior, mas nunca tinha parado e observado onde estava. A construção em que se encontravam, um farol, ficava em um promontório. Além dele só se via o mar, com suas águas escuras e infinitas. Do outro lado enxergava uma pequena descida rochosa e, ao fim desta, um campo cheio de grama.

— Onde estamos?

— No farol, não sei te dizer mais do que isso. — Fernando olhou para cima. — Nicolas disse que esse é um território sem dono e seguro.

— Tanto faz. — Cada resposta só a deixava confusa. Desistiu de tentar entender e apenas aceitou. — Como saio daqui?

— Bem fácil, feche seus olhos e pense em… Mora em casa ou apartamento?

Bárbara o fitou com olhos semicerrados.

— Apartamento.

— Pense nele, então, no lugar que tu mais gosta de ficar.

— O que mais?

— Só isso.

Fechou os olhos pensou na sua residência, no seu quarto, na sua cama. Só queria dormir um pouco.

Fernando começou:

— Pense no que…

Bárbara abriu os olhos para perguntar qual seria o resto da frase, mas não havia mais Fernando, não havia mais farol. Estava de volta ao seu quarto. Não quis nem saber o horário, se deitou e dormiu.

Estava em um saguão alto, de pé no teto e de cabeça para baixo. Pessoas, estas no chão, caminhavam de um lado a outro, trombavam umas nas outras e seguiam seu caminho sem pedir desculpas. Um arrepio percorreu seu corpo ao se ver parada lá embaixo, caminhando sem rumo, sem chegar a lugar algum. Um enorme relógio de pêndulo em uma das paredes do cômodo tiquetaqueava sem parar. Sentiu uma respiração na nuca e mãos em seus ombros. Seu corpo imobilizado nada podia fazer. Rápido como surgiu, o que estava atrás de si desapareceu.

Acordou pouco antes do amanhecer, com fracos raios de sol atravessando a persiana e trazendo luz e deveres ao apartamento. Acostumada a acordar com o despertador, Bárbara levantou num pulo e checou o celular, apenas para notar que estava sem bateria.

Com um olho fechado e outro tentando abrir, ligou a luz do quarto. Cerrou com força os dois olhos até se acostumar com a iluminação, então catou o carregador pelo cômodo. Encontrou-o no meio das roupas velhas que receberam a função de pijamas e botou o celular para carregar.

Aproveitou que estava cedo e começou sua rotina matinal com calma. Era impressionante como um banho bem tomado e uma torrada no capricho melhoravam a manhã de qualquer um.

Voltou até o celular e, vendo que já tinha um pouco de carga, o ligou. Segundos após conectar ao wi-fi que o vizinho compartilhava, foi bombardeada de notificações. Dezenas de mensagens no WhatsApp, e-mails oferecendo criptomoedas e cupons de desconto, além de chamadas perdidas de seu gerente e até mesmo de Igor, o mais próximo de um amigo que tinha na empresa.

Ao ver as ligações, lembrou-se do que a fez quase se matar. Uma crescente tensão no corpo surgiu junto com a vontade de voltar para baixo dos lençóis e esquecer tudo, esperar até que ninguém se lembrasse dela e então retomar a vida como se nada tivesse acontecido. Sabia, porém, como a realidade é implacável e não se pode aguardar os problemas se escafederem. Ignorou os grupos e viu as mensagens privadas que perdera.

Igor

Oi

Tudo bem por aí? Me disseram que tu sumiu ontem e não apareceu hoje

Até o gerente veio perguntar por ti, não sei o que deu, mas ele parecia furioso

Respirou fundo e visualizou as do gerente.

Maurício (Gerente)

Bárbara tudo bem?

Fiquei sabendo do que aconteceu hoje mais cedo… Podemos conversar sobre isso amanhã?

Bárbara tudo bem?

Sei dos problemas de ontem mas preciso de ti hoje aqui, temos muitas notas pra contabilizar e o time ta sobrecarregado.

Não gosto de fazer isso mas se não aparecer eu vou ter que acionar o RH

Enquanto pensava em respostas, releu as mensagens até cansar. O que escrever? A verdade era tão improvável que a mandariam direto pro hospício se contasse tudo. Mas, vendo o que o gerente escreveu, talvez lá não fosse tão ruim. Olhou para o relógio, estava cedo, faltando boas horas para iniciar o expediente, decidiu postergar a explicação e mandou a mesma mensagem aos dois: “Tive uns problemas, desculpe… estou voltando hoje”.

Largou o celular e caminhou pelo curto espaço do apartamento. Dezenas de conversas com Maurício passavam por sua cabeça. O que dizer? Como responder as perguntas que ele provavelmente faria? A hora seguinte foi tomada por esses diálogos imaginários e, quando o despertador soou, pegou suas coisas e saiu às pressas do apartamento. Passou na garagem para verificar se estava vazia, mas encontrou sua Kawasaki lá, intacta apesar dos acontecimentos. Por um momento ficou confusa, mas se aceitou que ia para outra dimensão com seres deformados, não questionaria muito o estado do veículo.

Pela primeira vez desde que passou do período de experiência, Bárbara foi a primeira do setor a chegar na empresa. A cabeça ainda estava cheia de preocupações, mas se distraiu com o trabalho, era difícil não ficar assim ao ver a montanha de e-mails e notas para lançar no sistema.

Às dez em ponto, sentiu uma mão no seu ombro. Os dedos paralisaram logo acima do teclado. Olhou para trás e viu Maurício, com uma expressão séria.

— Vamos conversar — disse ele, calmamente.

— Claro — respondeu Bárbara, quase sem pensar.

Bloqueou o computador e o seguiu até uma sala pequena e fechada. Viu pelo caminho os rostos de colegas se levantando, seus olhos caçando a nova fofoca do dia igual abutres procurando carniça. O local continha uma televisão grande na parede, uma mesa oval e uma dúzia de cadeiras executivas ao redor. Maurício fechou a porta e sentou-se. Bárbara escolheu um assento que ficasse de frente para o gerente. Sua cabeça trabalhava como nunca, milhares de perguntas e respostas se passavam por ela.

— Bem… — Maurício suspirou. — Pode me explicar o que aconteceu?

De repente, nada que tinha pensado até ali passou a servir. Continham erros e defeitos, eram mentiras óbvias. Decidiu se contentar com a verdade, pelo menos, uma parte dela. Respirou fundo e encarou Maurício.

— Eu estava na cozinha tomando meu café. O Eder apareceu lá e me convidou para sair, eu disse não e… — Por mais que soubesse que era o certo, continuar o resto da história se tornou difícil. — Ele… ele passou a mão em mim. Eu me irritei e bati nele.

Maurício apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos. Expirou pela boca e manteve o olhar impassível em Bárbara.

— Esse incidente, que tal deixarmos de lado? Eder cometeu um erro e tu também. Ambos precisam esquecer isso.

— O quê? — Não acreditou no que ouvia. — Que erro eu cometi?

— Tu deu um socou nele, Bárbara. Fez ele sair sangrando da sala, até registrou queixa no RH. Passou a tarde inteira com o rosto inchado.

— Claro que eu bati nele! — Bárbara se levantou, apoiando as mãos na mesa e se inclinando na direção do gerente. — Ele me assediou, queria que eu agradecesse?!

— Dois errados não fazem um certo.

— Ah sim, agora vai vir com esse papinho?

— Bárbara! — Maurício levantou o tom de voz um pouco. — Pode se sentar?

Ela largou o corpo contra a cadeira, fazendo as rodinhas deslizarem alguns centímetros no carpete.

— Vou te explicar a minha situação, está bem? — Sem dar tempo para ela lhe dizer que cagava para essa situação, continuou: — Tenho um funcionário antigo da casa e com bom histórico registrando uma queixa contra ti. Tenho tu, explicando que foi… assediada, sem provas. Não há câmeras na cozinha para provar nenhuma das histórias. Eu também tenho um mês cheio e está difícil achar profissionais qualificados na área. Tu é uma das melhores que temos. — Pena que o salário não refletia nem um pouco essa grandeza. — Vamos fazer o seguinte, te deixo com uma advertência e pronto. Pode ser?

Entendeu de cara a pergunta, não era um “Pode ser?” sincero, era um “Aceite ou será demitida”. Fosse alguns anos atrás, na escola ou faculdade, era capaz de deitar o chefe na porrada só para deixar de ser escroto. Mas precisava de trabalho, tinha as parcelas da moto e o aluguel para pagar, então enfiou a vozinha revoltada no fundo da alma e, com nojo de si mesma, respondeu:

— Pode ser.

— Muito bom — respondeu ele, como se estivesse educando uma criança. — Eu vou falar com o RH, pode voltar para tua mesa.

O dia foi um daqueles que parece infinito, não importava a quantidade de trabalho que Bárbara fizesse. Não quis nem olhar na cara de Eder, e o filho da puta teve a decência mínima e inesperada de ficar na dele o dia todo. Os dedos já estavam cansados e uma dor começava a lhe incomodar o pulso direito quando o expediente acabou e pôde voltar para casa. Não sentia raiva, nem sabia qual sentimento a assolava na verdade, era apenas um vazio.

No apartamento, logo foi para o sofá e ligou a televisão. Várias matérias passaram no jornal local sem deixar registro na mente de Bárbara. A única que deixou uma pequena lembrança foi uma notícia sobre o clima instável e pessoas desaparecidas. Desligou a televisão e se pôs a arrumar a casa.

Não faria uma faxina completa, só dobrar roupas jogadas por aí, limpar a pia e organizar a sala. Enquanto pegava roupas e avaliava o cheiro, além de verificar os bolsos a procura de notas de dinheiro ou algum cartão, sentiu um papel na calça do dia anterior. Tirou ele e viu um número ao lado de um nome. Quando foi que aquele papel de Nicolas parou no seu bolso?

Pensou na loucurada no farol. Antes, não pretendia aceitar a oferta daqueles dois. O perigo de morrer era real, mas se morresse, que diferença faria? O mundo não lhe dava nada de bom, nunca teria a vida com a qual sonhou.

Gravou o contato de Nicolas e mandou uma mensagem para ele pelo WhatsApp.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 3

O desenho mostra uma mochila de entregas aberta. Em seu interior estão quatro pães cervejinhas recém saídos do forno.
No topo da imagem há o número quatro para indicar o capítulo.

Passara as duas últimas semanas trocando mensagens com Nicolas, tentando assimilar tudo que tinha visto. Sabia que era real, mas isso só tornava a situação mais grave. Um lugar, uma dimensão melhor dizendo, onde seus residentes devoravam os humanos que apareciam. E para piorar, existiam pessoas, como ele próprio e Nicolas, capazes de entrar e sair dessa dimensão. Não queria nem pensar no fato de que possuíam poderes.

Viu uma mão passando em frente aos seus olhos, lhe tirando de seus pensamentos.

— Tudo bem aí? — perguntou Adair.

Sonhando acordado na frente dos clientes, que vergonha. Até parecia um amador, igual quando começou na carreira de vendedor muitos anos antes.

— Sim, sim, claro. — Olhou para o balcão. — Me desculpe, eu me distraí. O que tu pediu mesmo?

— Seis rosquinhas. De polvilho doce.

— Pra já.

Pegou uma sacola plástica transparente, botou as seis roscas dentro, entregou para o idoso e recebeu o pagamento. Em seguida olhou para o relógio na parede atrás de si. Mais algumas horas e sairia para fazer as entregas.

— Está bem mesmo?

Virou-se e viu Adair ainda ali, de sobrancelhas unidas e com um braço em cima do balcão.

— Estou bem sim, só cansado.

— Vai ter que contratar alguém para te ajudar guri, parece cada dia pior.

Fernando sorriu com o canto da boca e falou:

— Não vou te contratar, seu Adair.

— Esses jovens, cada dia mais exigentes. — Completou com uma risada.

— Obrigado pela preocupação, mas vou ficar bem.

— Eu sei que vai, tu é forte como um touro. — Olhou para o braço de Fernando. — Isso tudo é por causa dos pães?

— As máquinas fazem boa parte do trabalho, isso aqui é dos tempos de academia.

— Agora eu quero ir para a academia.

— Nunca é tarde para ficar monstro.

Adair sorriu, mas a expressão durou pouco.

— Fale o que quiser, sou metido mesmo, mas se tiver algum problema, pode contar comigo.

— Olha que eu vou cobrar, hein!

Se despediram e dessa vez o senhor saiu mesmo da loja. O resto do expediente na padaria foi tranquilo. O tempo se arrastava e Fernando se pegava sempre distraído. Confundiu alguns pedidos e por vezes até cobrou a mais. Estava piorando. Não conseguiria manter dois empregos com outros assuntos rondando sua cabeça.

O relógio cravou dez horas, e com isso o momento de fechar o estabelecimento. O celular emitiu um bipe de mensagem que foi ignorado. Conhecia o remetente e o assunto. Sempre, todo maldito dia, recebia o mesmo texto nesse horário.

Nicolas

Algo para reportar? Podemos nos encontrar hoje?

Fernando o enrolara durante um tempo, dizendo que não estava se sentindo bem, ou que tinha assuntos para cuidar, por fim falando que em breve estaria melhor. Nos dois primeiros dias Nicolas mandou a mensagem durante o turno na padaria, mas depois de uma reclamação de Fernando, passou a mandar após o expediente.

Terminou de fechar a loja, pegou o celular e começou a digitar sua resposta padrão, porém parou antes de concluí-la. Por quanto tempo mais adiaria esse compromisso? Nicolas não parecia ter a cabeça no lugar certo, mas só estava sendo tão insistente porque Fernando o contatou e prometeu que ajudaria. Se odiava por ter feito aquela promessa, não conseguia nem se ajudar, quanto mais aos outros.

Olhou para o relógio, em breve teria que começar as entregas. Mesmo sabendo que quase morrera uma vez, precisava continuar com elas. Como mais iria se manter? Pensou na alternativa de Gabriel e balançou a cabeça, não era o namorado a encarar sua própria família.

Apagou a resposta que escrevia e largou o celular em uma mesa. Caminhou devagar pela padaria. Poderia dizer que não queria mais nada com Nicolas, tinha certeza de que ele aceitaria e nunca mais o contataria. Eles não eram heróis ou detetives para sair investigando os predadores. Deviam deixar aquilo com a polícia ou jornalistas ou qualquer outra profissão investigativa, fariam um trabalho melhor com certeza. Claro que fazê-los levar a sério era outra história.

Sentou-se em uma cadeira próxima. Já era hora de sair, estava se atrasando. Olhou para o celular com o aplicativo de mensagens aberto na tela. Sentindo o arrependimento na ponta dos dedos, escreveu sua resposta.

Fernando

Como nos encontramos?

***

Houve uma época em que fora fascinado por histórias fantásticas. Filmes e quadrinhos envolvendo magia eram seus preferidos. Lembrava-se bem de várias situações em que, para lançar uma magia ou superpoder, o protagonista precisava primeiro visualizá-lo em sua mente. Fernando algumas vezes até ficou irritado com aquelas situações, afinal, era só imaginar, como poderia ser tão difícil? Quem diria que chegaria o dia de fazer algo semelhante.

Sentado no interior da padaria, vestindo roupas que podia se dar ao luxo de rasgar, com um pé da cabra nas mãos e usando a mochila de entregas, tentava visualizar um portal para a morada dos predadores. “Apenas visualize-se indo para outra dimensão, rasgando o tecido entre elas e atravessando”, essas foram as palavras de Nicolas, mas não faziam sentido algum. Tentou mais uma vez, mas nada se formou à sua frente. Pegou o celular e releu as mensagens, para ter certeza que não fazia nada errado. Tentou novamente e não obteve sucesso. Levantou-se e tomou um copo de água, passou no banheiro e notou como suava. Lavou o rosto e encarou o espelho.

— O que estou fazendo?

A figura no espelho mimicou seus movimentos. Ficou encarando o reflexo, lembrando como algumas histórias utilizavam deles como uma forma de transporte e sempre que isso acontecia, o espelho trocava sua imagem para o local de destino, ou para uma espécie de vórtice. Ótimo, estava usando ficção como guia.

Voltou até sua cadeira, se sentou e fechou os olhos. Talvez tivesse que ser mais preciso, queria ir para outra dimensão, mas para onde nela? Pensou no metrô, tinham combinado de se encontrar lá e depois ir para outro lugar.

De repente sentiu sua cabeça tremendo de leve, um balançar constante e ao mesmo tempo calmo, familiar. Abriu os olhos e se viu no interior de um vagão.

— Está atrasado — disse Nicolas ao seu lado, usando roupas formais como da última vez.

— Tuas instruções eram bem vagas. — Balançou a cabeça. Agora tinha um chefe pra ficar cobrando-o e nem lembrava de vê-lo assinando a carteira.

— Foi o que funcionou para mim.

Fernando olhou para as janelas. A paisagem era a mesma de duas semanas atrás, parecia que nada mudara. Levantou-se, segurando com firmeza o pé de cabra. Com uma arma para se proteger não ficaria mais refém da ajuda de Nicolas.

— Vamos só explorar mesmo? — perguntou.

— Correto. — Nicolas começou a caminhar até a divisa entre os vagões. — Temos que entender mais desse lugar, descobrir como funciona e se há outros predadores.

— Vem cá… — Fernando seguiu. — Como tu sabia a forma de voltar para cá? Não parece algo simples.

— Isso eu aprendi sozinho, mas outras coisas eu tive ajuda de uma pessoa.

— E quem é essa pessoa? Ela faz parte do seu grupo?

— Não faz parte do nosso grupo.

— Mas quem é?

Nicolas estava prestes a respondê-lo, porém um tremor percorreu o vagão. Os dois seguraram-se nas barras de apoio para não caírem. O silêncio pairou em seguida, os nós dos dedos de Fernando estavam brancos de tanta força que exerciam.

Após algum tempo sem mais nada acontecer, Nicolas soltou devagar a mão de uma das barras, logo depois soltou a outra. Fernando fez o mesmo.

— Isso não aconteceu da outra vez — comentou Fernando, olhando para frente e para trás no vagão.

Nicolas franziu o cenho.

— Ou o predador original está crescendo, ou é uma presença externa.

— Presença externa? — Por que sempre explicava de uma forma difícil de entender?

— Alguém como nós.

— Um aliado, então? Ufa, pensei que seria pior.

Nicolas não falou nada.

— Espera, não é um aliado?

— Pode ser, ou pode não ser. Já encontrei pessoas que tentaram me matar. Vamos ver. Estou otimista hoje.

Fernando não questionou por que seres humanos se atacariam ali, já sabia a resposta. Também não quis perguntar o que Nicolas fez com eles.

Seguiram em frente atravessando os vagões, vendo alguns com assentos quebrados, estruturas deformadas e janelas rachadas. Passaram até mesmo por portas de desembarque. Depois de vários minutos, chegaram em uma seção destruída. Havia rombos nas paredes, vidros quebrados e fendas no chão. Nicolas parou de caminhar e estendeu o braço para o lado, Fernando obedeceu o sinal e também parou, observando melhor o estrago. As “saídas” do metrô eram pura escuridão, não era possível ver os trilhos, tampouco o lago ou a cidade. Ajeitou as alças da mochila de entregas ao notar o transporte lentamente se reconstruindo. Pouco a pouco o metal se alongava para preencher o vazio, o vidro reunia seus cacos para consertar as janelas e os assentos se reformavam. Lembrou Fernando de sua própria habilidade. Será que havia, em algum lugar, uma aberração sofrendo pela cura do vagão?

Nicolas se aproximou de um buraco na parede e observou-o por diversos ângulos. Fernando não chegou perto, evitava até mesmo manter seu foco na escuridão, procurando qualquer outro ponto de interesse.

— Seja lá quem fez isso, é forte. — O engomado passou um dedo ao redor da seção destruída. — Causar danos ao terreno é quase impossível, é mais fácil matar o predador original e esperar o resto se desfazer.

— E o que isso quer dizer?

— Que precisaremos agir rápido se essa pessoa for um inimigo. No pior dos casos, morreremos antes que eu faça algo.

Fernando olhou para o caminho adiante e sentiu um aperto na garganta.

— E se não for um inimigo? Pode ser só alguém perdido, assim como eu na primeira vez.

— Sim, pode ser.

— Então temos que ajudá-lo!

Nicolas o encarou, examinando-o de cima a baixo. Por fim, mexeu na corda em seu pescoço, olhou para o próximo vagão e falou:

— Sim.

Seguiram adiante, tomando cuidado onde pisavam. Nenhum dos dois comentou sobre a escuridão. Não precisava, Fernando sabia que era ruim. Chegaram na divisória e abriram a porta, vendo um vagão vazio e inteiro. No meio dele, uma mulher praticamente se arrastava, seus pés mal saíam do chão, e a cada passo ela largava a mão de uma das barras e passava para a próxima, avançando até o carro seguinte. Seus longos cabelos cacheados estavam empapados de suor, usava uma jaqueta preta de couro com asas vermelhas nas costas, calça jeans e um par de botinas. Se ela os notou entrando, não demonstrou.

Fernando não se aguentou, era impossível alguém naquele estado ser um inimigo. Passou pelo lado de Nicolas e gritou:

— Viemos te ajudar!

A mulher virou o rosto na direção deles e Fernando parou. A face dela estava tomada por rachaduras vermelhas na pele, pulsando a cada segundo. A esclera era escura e a íris de um tom rubro.

— Não venham! — A voz saiu como um rosnado.

Fernando fitou o pé de cabra nas mãos, abaixou-se lentamente e o largou no chão, levantando-se em seguida.

— Não iremos te machucar. Eu só quero ajudar.

Os olhos da moribunda alternavam entre a ferramenta e Fernando. Ela recuou um passo, passando a segurar com a mão esquerda uma barra que estava um pouco acima dela. Apontou a mão direita na direção deles, os dedos tremendo, o braço oscilando para cima e para baixo em um óbvio esforço para manter-se erguido.

— Não! Vão embora! Mentirosos!

Fernando estava prestes a dar outro passo quando sentiu uma mão no ombro seguida de um sussurro.

— Deixe comigo.

— Ela está assustada, eu… — Fernando virou o rosto, encarando Nicolas. — Eu não acho que tu consiga.

— É só ir com calma.

— Se enforcá-la, eu juro que uso o pé de cabra em ti.

Ele não respondeu à ameaça, apenas seguiu na direção da mulher.

— Você está confusa e assustada, acontece com todos daqui — disse Nicolas, elevando o tom de voz.

Ela recuou mais um passo.

— Sai!

— Sem dúvida te atacaram e você apenas revidou. Está tudo bem, não vamos te ferir.

— Eu já disse para ficar longe.

— Nós queremos apenas ajudar, como meu amigo disse, não somos pessoas ruins.

Nicolas estava a poucos passos de distância da mulher. Ele parou de caminhar e estendeu a mão esquerda para ela.

— Venha.

— Eu disse para ficarem longe!

Ela pisou firme no chão metálico, e as fissuras alumiaram. Nicolas levou a mão direita até o colarinho e pareceu ajeitá-lo. Estava receoso? Não, no pouco tempo em que se conheciam, sabia que aquele cara não hesitava. Ao mesmo tempo em que chegou a essa conclusão, uma corda surgiu no ar e enrolou-se no pescoço da moça. Fernando deu um passo adiante, recuou, pegou o pé de cabra no chão e correu em frente. Mal deu dois passos e a vítima do enforcamento reuniu forças para liberar um grito rouco e gutural.

— Fora!

As rachaduras na pele se expandiram, e delas começou a vazar um líquido vermelho incandescente, denso e viscoso. Assim que o fluído entrou em contato com o ar exterior, explodiu como uma bomba. A onda de choque jogou Fernando para trás e tirou a arma de suas mãos. Quando seus sentidos se estabilizaram e o ouvido parou de zunir, levantou-se e olhou ao redor. A mulher estava caída no chão, as fendas na pele ainda pulsando, porém com uma cor mais opaca. Nicolas fora jogado adiante e agora estava sentado.

Fernando sentiu vontade de esmurrar o desgraçado até não poder mais, porém parou ao ver o estado em que ele se encontrava. Nunca foi de entrar em grupos que compartilhavam vídeos de assassinatos e ferimentos brutais, mas pensou que a cena diante de si poderia vir direto deles. O braço esquerdo de Nicolas estava destruído, com pedaços espalhados por perto. O coto era uma massa vermelha e sangrenta, com um pedaço de osso como uma protuberância estranha.

Engatinhou até o ferido, sentiu as mãos tocando o sangue no chão. Ao se aproximar, abriu a boca, mas nada saía. Ficou apenas ali, parado, a mente incapaz de raciocinar.

— Pegue a mulher, temos que carregá-la pra fora daqui — disse Nicolas.

— Ta doido? Olhe o seu… Olha… Seu braço!

Sentia vontade de desviar o olhar e ao mesmo tempo não conseguia. Na verdade, não sabia nem para onde olhar depois.

— Fernando, vou precisar da sua cura.

Sentindo como se levasse um tapa na cara, lembrou-se da mochila. Pegou pães cervejinhas milagrosos que estavam nela e os deu para Nicolas comer. Ele mastigou todos sem dificuldade. Fernando tentou antecipar a dor que viria em seguida, mas ela chegou antes de seu preparo. Começou como uma queimação no braço que só não o derrubou porque já estava ajoelhado. Se curvou, apertando o membro com força, aumentando a dor, mas não sabia o que fazer. Esquecera por um momento do preço a ser pago pela cura, como era burro! Não podia perder o braço, precisava dele! Como explicaria isso para Gabriel? Como trabalharia na padaria? Como faria as entregas?

A dor arrefeceu aos poucos, no entanto a visão do que acontecia serviu apenas para deixá-lo mais paranoico. Viu e sentiu os músculos do braço atrofiarem, a pele tornar-se flácida e em seguida ressecar. Ao final, mais parecia o membro de uma múmia do que o seu próprio.

Levantou a cabeça, mais para tentar ignorar o acontecido do que qualquer coisa. Viu que o braço de Nicolas voltara e parecia tão saudável quanto antes.

— Tu é um filho da puta — disse Fernando, entre longas pausas para reunir ar.

— E você me ajudou mesmo assim. Quer me bater? Faça isso quando estivermos seguros.

Nicolas se levantou e ofereceu a mão para Fernando. Não aceitaria aquela gentileza, não mesmo. Com o braço direito, apoiou-se em um assento e ergueu-se.

Por mais violenta que a explosão tenha sido, não afetou o vagão tanto quanto a eles. Foi fácil se aproximar da mulher, e com a ajuda de Nicolas, ergueram-na, passando os braços por baixo de suas axilas. Não era a forma mais gentil de carregar alguém, mas não estavam em condições de serem cuidadosos.

Passaram pelos vagões anteriormente danificados. Todos já tinham voltado ao normal, era como se o território lhes mandasse um lembrete de que era impossível destruí-lo por completo. Assim que chegaram em frente à porta de desembarque, Nicolas se adiantou e foi o primeiro a botar o pé fora do metrô.

O cenário mudou. O concreto do chão transformou-se em terra coberta de grama, a luz artificial de lâmpadas se tornou a iluminação de uma noite limpa e coberta de estrelas, e o ar enclausurado mudou para um vento forte com cheiro de maresia. Não muito longe de onde estavam, uma construção se erguia na noite. Um farol. E depois dele apenas o mar.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 2

O desenho mostra no centro um homem com expressão séria e intimidadora olhando em direção ao observador. Ele possui cabelo curto, veste uma camiseta social e um crachá de empresa balança em seu peito. Seus braços são anormais, transformados em chicotes longos grossos por onde despontam partes de ossos em quantidade maior que um ser humano deveria possuir.

O cenário ao redor é o interior de um vagão de metrô, e além do homem do chicote, diversas outras pessoas olham com expressões de desconfiança e desgosto para o observador.

Avançou um pouco antes de ser pego. A multidão o agarrou e o parou de forma coordenada, cada um segurando partes diferentes do corpo. Desvencilhou-se de dois que prendiam seu braço, e com este livre, bateu em três que restringiam o outro. Era como acertar rochas e seu punho doeu mais com os socos desajeitados do que machucou os agressores.

Berrou e se debateu. Os malditos gritavam, repetindo as mesmas frases. Algo penetrou sua roupa e rasgou sua pele. Sentiu seus braços, ombros e peito sendo abertos com cortes superficiais, mas doloridos mesmo assim. Fechou os olhos.

As vozes pararam abruptamente e não havia mais ninguém lhe segurando ou ferindo. Caiu sentado ao ver os arredores. Seus atacantes estavam suspensos no ar por cordas que saíam do teto e os enforcavam. Encolheu-se no chão para enxergar apenas o metal, tapou a boca e tentou ignorar o cheiro fétido que impregnava o ar. Tremeu ao sentir uma mão em seu ombro.

— Tudo bem?

Virou o rosto devagar, com medo de ver os cadáveres, mas não havia nada, nem as cordas nem os passageiros, o cheiro terrível também desaparecera. Apenas o maluco de terno estava ali, agachado ao seu lado.

— O que… — Fernando tentou formular uma pergunta, mas não sabia como completá-la.

— Você foi atacado pelos predadores. — Nicolas aliviou o aperto da forca no pescoço. — Desculpe não te ajudar de imediato.

— Tu… Foi tu que matou eles?

— Sim.

Fernando se levantou em um pulo e recuou.

— Tu é um monstro! O que fez com eles?

— Os corpos de predadores desaparecem depois de mortos.

— Pare com essa história de predadores! Isso não existe.

— Supondo que não existam e eram apenas pessoas normais, teriam te linchado.

— Mentiroso!

— Olhe para si mesmo, sua roupa está em frangalhos.

Por mais que odiasse admitir, o homem tinha razão. Sua camiseta estava rasgada nos ombros e parte do peito, filetes de sangue escorriam por diversos arranhões na pele.

— Vou esperar você se acalmar. Só saiba que não temos tempo a perder, agora que matamos alguns, o resto virá atrás de nós. — Ele sentou-se em um assento próximo.

— Nós não matamos, tu fez isso sozinho.

— Estamos na mesma posição, você é como eu.

— Não sou!

Nicolas não respondeu, apenas fitou-o. Fernando tentou colocar os pensamentos em ordem: acabara de participar de assassinato, teria que denunciar isso à polícia. Talvez nem acreditassem nele, o que falaria, afinal? “Tentaram me matar e daí um maluco veio e enforcou todo mundo. As vítimas? O corpo delas desapareceu depois”, quase riu de si mesmo, era o verdadeiro insano nessa história. Se ficasse ali, será que alguém iria resgatá-lo? Quem? Não, não podia depender de ninguém. Um passo depois do outro. Primeiro sair do metrô, depois pensar no que fazer.

— Tudo bem, vou entrar no seu jogo. Estamos sendo atacados por predadores, como saímos daqui?

— Atravessando os vagões e procurando uma saída.

— E se formos atacados de novo?

— Deixe comigo, estou familiarizado com o funcionamento desses lugares.

— Tu vai na frente então.

— Claro.

Caminharam até o próximo segmento do metrô. Lá estava o enjoo mais uma vez, era como entrar em uma sala cheia de carniça e respirar fundo. Viram mais pessoas encarando-os, e desta vez havia um homem em pé no meio do caminho. Era alto e parrudo, usando roupas formais que pareciam apertadas e desconfortáveis. Um crachá ficava à mostra no peito e ostentava uma expressão séria e desaprovadora.

— Pare, fique bem para trás — disse Nicolas.

Não precisava pedir, Fernando já dera três passos e daria mais assim que algo ruim ocorresse.

— Vocês precisam ser corrigidos. Não se encaixam na nossa família — disse o homem no meio do vagão.

O braço dele começou a se alongar, a pele do antebraço rasgou, revelando a carne por baixo. Espinhos que mais pareciam pedaços de ossos surgiram do interior do membro. A mão perdeu a forma e tornou-se apenas mais um pedaço daquele chicote de espinhos feito de carne e osso. Fernando acreditava ter estômago forte, mas cada minuto no metrô fazia suas entranhas se revirarem e o cérebro chacoalhar.

Nicolas inclinou o corpo para trás e botou o braço direito à frente da cabeça. No instante seguinte, o chicote se moveu em velocidade assustadora e se enrolou no braço que servia de escudo. O outro membro do predador se transformou e envolveu a cintura e barriga do homem à sua frente. Contrariando intenções anteriores, Fernando pensou em ajudar, mas o que faria? Deu um passo em frente, qualquer coisa era melhor que ver alguém morrer.

Uma corda surgiu a partir do teto e se enroscou no pescoço do homem do chicote e de todos que os encaravam. Foram puxados para cima com um solavanco, não se debateram ou reagiram. Apesar da repulsa, Fernando se recusou a fechar os olhos. Concordara em participar, tinha que ver tudo, até mesmo o desagradável. O corpo dos mortos começou a escurecer a partir das extremidades, a pele rachou e uma gosma se espalhou para fora. Os restos mortais começaram a se tornar poeira e logo nada restava deles.

As cordas desapareceram em seguida. Nicolas baixou o braço direito e com o outro aliviou a forca no pescoço. Sangue embebia o terno onde fora atingido, mas ele não emitiu um gemido de dor sequer. Olhou para trás e falou:

— Vamos continuar.

Começou a caminhar para o próximo vagão, sangue escorrendo dos ferimentos a cada passo dado. Fernando não se aguentou.

— Não podemos continuar, tu não tá nada bem.

Nicolas parou, analisou o braço direito e a barriga.

— Estou bem, conseguiremos chegar na saída desse jeito.

— Eu não consigo. — Fernando segurou o ferido pelos ombros e o empurrou até um assento, forçando-o a se sentar.

— Precisamos pelo menos estancar isso. — Tirou a mochila de entregas das costas, colocando-a ao lado de si. — Tem alguma faca para cortarmos a roupa?

— Infelizmente não, você não tem nada nessa mochila?

Fernando revirou os olhos. Era uma mochila de entregas, não uma caixa de primeiros socorros. Mesmo assim, se agachou e a abriu, desejando ter algo que o ajudasse. Franziu o cenho com o que viu. Ali, no meio da mochila, solto como estivesse em um forno, estava um pão. Pegou ele com a mão direita, estava aquecido ainda, possuía formato achatado e comprido, a casca levemente crocante. Era igual a um dos ciabatta que fazia na padaria.

— Você entrega pães?

— Que pergunta é essa? — Olhou o pão por diversos ângulos, não fazia muito sentido ele estar ali. Na verdade, nada fazia sentido algum, então talvez não fazer sentido fazia sentido. Uma ideia surgiu em sua mente, como se fosse o correto a se fazer. — Coma.

— Por quê?

— Come!

O homem pegou o pão e o aproximou da boca, dando uma mordida delicada. As próximas foram ávidas e em poucos segundos nada restava. Fernando sentiu uma queimação no braço direito e na barriga, mas não lhes deu atenção pois seus olhos mesmerizaram-se com os acontecimentos à sua frente. As feridas de Nicolas fecharam-se, a carne foi reconstruída e logo depois coberta por uma camada de pele. O único resquício de um ferimento era o sangue empapando a roupa.

— Tu é humano? — perguntou Fernando, encarando o homem.

— Tanto quanto você.

— Duvido, não fui eu quem fechou feridas sérias.

— Foi você sim. Ou melhor, foi sua mochila.

— Ah sim, a mochila criou um pão mágico que cura todas as feridas. — Fernando riu. — Isso é ridículo.

— Mas é a realidade. — Nicolas passou a mão pelo braço curado. — Pegue seu telefone.

Sentindo-se idiota por não pensar nisso antes, moveu a mão para pegar o celular. Só então notou diversos ferimentos no seu braço direito, parecidos com aqueles do chicote, porém mais leves. A visão do sangue lhe trouxe a dor, não só no braço, como na barriga. Olhou para baixo e notou manchas de sangue na camiseta. Com os joelhos prestes a cederem, levantou a roupa e viu ferimentos no abdômen, idênticos ao do braço.

Sem aviso, Nicolas se avizinhou, mais perto do que Fernando gostaria, observando com atenção as feridas. Não tinha forças para afastá-lo. Precisava se acalmar, pensar com clareza. Sentou-se em um banco próximo e aguardou.

Minutos se passaram, mas não conseguiu sossegar. Fitou os machucados durante o intervalo, notando que cicatrizavam a uma velocidade espantosa — só não tanto quanto as de seu companheiro maluco — e logo estava curado. Deixara de ser humano sem notar? Nunca se recuperou assim. Inspecionou o corpo em busca dos arranhões de antes, sem sucesso em encontrá-los.

Ouviu um estalo de dedos na sua frente.

— Não podemos esperar mais.

Sem cabeça para questionar ou tentar entender, Fernando pegou seu celular e tentou, sem sucesso, fazer uma ligação para a polícia.

— Não é possível se comunicar com o lado de fora. Agora, anote esse número e salve o contato. — Nicolas ditou um número de telefone.

— É o seu? Para quê?

— Quero que me ligue assim que sair daqui.

— Nunca mais quero te ver.

Se ficou ofendido, não demonstrou, apenas replicou:

— Anote mesmo assim, é só não ligar.

Não querendo perder a única ajuda que encontrara, salvou o contato. Feito isso, olhou as horas, já passava das vinte, mas ali ainda parecia ser o final da tarde. Como isso estava acontecendo em Porto Alegre sem ninguém mais notar? Antes que chegasse a uma conclusão, o horário mudou para as quinze.

— Vamos continuar — disse Nicolas.

Chegaram no próximo vagão. Ele estava cheio de pessoas olhando o nada e, para o alívio de Fernando, havia uma porta de desembarque.

— Graças a Deus! — Correu até a saída. — Como saímos agora?

— Para onde você quer voltar?

— Para minha casa, é óbvio.

— Então vá.

A porta se abriu de repente, revelando uma estação. Havia pichações por toda a parte escrito “Volte”, “Fique aí” e “Aqui é sua família”. Fernando botou a cabeça para fora do metrô e olhou para os lados. Na direita havia uma escadaria terminando em uma passarela.

Não entendeu muito as palavras de Nicolas, mas não chegaria em casa se ficasse enrolando. Botou um pé fora do vagão e tudo se desfez no instante seguinte.

***

Estava em sua casa, na cama. Se despreguiçou, espantando a nebulosidade da mente. Lembrou-se então das entregas, do roubo, da morte e do metrô. Acendeu a luz e examinou seu corpo. Nada de ferimentos, nem mesmo uma cicatriz. Fora apenas uma fantasia?

A moto! Se fosse verdade, não estaria com ela.

Saiu do quarto, passando de fininho pela sala, onde Gabriel assistia televisão. Chegou na garagem e encontrou seu veículo. Observou-o por todos os ângulos possíveis. Estava em perfeito estado. Notou a mochila de entregas em um canto. Abriu-a e viu apenas o vazio, deixou escapar uma risada baixa.

— Fê, tudo bem aí? — Ouviu a voz de Gabriel vindo de trás.

— Sim. — Virou-se com um sorriso no rosto. — Só tive um pesadelo loucaço.

O namorado se aproximou, segurando e acariciando a mão de Fernando.

— Eu já disse: tu se puxa demais. Por que não pede ajuda para tua família?

Desvencilhou-se.

— Não posso, tu sabe disso.

— Pode sim.

— Hoje não…

Gabriel negou com a cabeça.

— Vamos para a sala, faz tempo que não vemos algo juntos.

— Eu tenho que dormir, preciso estar na padaria depois.

— No domingo?

Fernando ficou em silêncio. O próximo dia era domingo mesmo? Nem se lembrava de ver a semana passando. Agradeceu pelo presente inesperado.

— O que está passando de bom?

— As mesmas porcarias de sempre.

Ficaram algumas horas assistindo televisão no sofá. Viram um pouco do noticiário, com as matérias recorrentes: corrupção, instabilidade no clima e desmatamento. No entanto, uma notícia despertou sua curiosidade: uma série de desaparecimentos próximos ao metrô de Porto Alegre. A matéria relatava a vida das pessoas, todos adultos trabalhadores, que sumiram nos últimos quinze dias, um dos desaparecidos inclusive era parente de um funcionário do canal que assistiam. A polícia conseguiu rastrear os movimentos de todos os cinco desaparecidos até entrarem no transporte, e a partir daí era como se tivessem desaparecido. Ninguém mais os tinha visto. Olhou para Gabriel, que assistia à reportagem sem muito interesse. Será que teria a mesma reação se não fosse pelo sonho? Sentiu um incômodo no braço e na barriga.

Saíram da TV aberta e botaram um filme qualquer no streaming. Como era de praxe, seu namorado botou uma comédia romântica leve e de humor pastelão. Exatamente o que precisavam para relaxar no final do dia. Ao término do filme, foram os dois para a cama.

Ouviu o tique-taque de um relógio, portas abrindo e fechando. Sentiu mãos tocando seus braços e coxas, apalpando, agarrando, testando. Estavam puxando-o, mas pararam de repente. Desapareceram, deixando apenas a sensação de que poderiam voltar quando quisessem.

Fernando acordou de madrugada com o corpo suado e a respiração acelerada. Foi até a cozinha e se serviu de um copo de água. Enquanto o líquido gelado descia pela garganta, seu celular vibrou. Nem queria ver a notificação recebida, mas então lembrou-se do número salvo no sonho. Devia ser apenas um delírio causado pela exaustão. Mesmo assim, pegou o aparelho e visualizou os contatos. Seus dedos pararam quando encontrou o que não queria achar: Nicolas.

Em negação, procurou pela casa a camiseta que usava no sonho e encontrou-a no fundo da lixeira, embaixo de embalagens de plástico. Estava rasgada e possuía manchas vermelhas. Enfiou-a de volta no saco, o mais fundo que conseguiu.

Ligou para o número encontrado antes. Chamou durante alguns segundos e então alguém atendeu.

— Nicolas aqui, quem fala?

Fernando segurou a respiração. Estava pirando? Talvez devesse mostrar para Gabriel o contato e explicar tudo que viu. Não, o namorado já tinha muito com o que lidar.

Se identificou para Nicolas e conversou sobre o que viram e ouviram naquele lugar amaldiçoado.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 1

O desenho mostra um homem de costas. Ele usa uma mochila de entregador, camiseta de manga curta e possui pele morena. Na frente do homem há um passageiro sentado, com olhar ausente. Um pouco mais afastado, está um terceiro homem, este usando terno e, no lugar de uma gravata, está uma corda de forca. Na direita, uma janela mostra o por do sol no lago.

O alarme tocou às vinte e duas horas e foi desligado logo em seguida por mãos que memorizaram há muito o ponto exato que deveriam tocar na mesa de cabeceira. Levantou da cama e seguiu sua rotina: tomar banho, escovar os dentes, trocar de roupas e comer algo para forrar o estômago. Trinta minutos depois subiu na moto e disparou rua afora. A pouca movimentação agilizou seu percurso, que em condições normais demoraria cinco ou dez minutos a mais para ser feito, mas como nem tudo eram flores, o vazio da noite cobrava seu preço. A cada parada, a cada sinal vermelho, Fernando corria os olhos pelos arredores, relaxando só quando a moto estava em movimento novamente.

Chegou na padaria faltando quinze minutos para as vinte e três horas. Ali seu trabalho começou. Limpou toda o local primeiro e, em seguida, passou ao preparo dos produtos. Mesmo usando diferentes receitas, o passo a passo era parecido: preparar a massa, deixar na estufa, preparar o próximo pão e, por fim, assar os já fermentados. Eram movimentos braçais e cansativos, auxiliados pelas máquinas que conseguiu financiar, mas seu corpo se acostumara após tantos meses nessa rotina. Ainda assim, prestava atenção em cada etapa, nunca deixando a mente divagar no meio do trabalho. Nas poucas vezes que fazia isso, parava a atividade e descansava por meio minuto.

As horas passaram e o alarme das sete tocou, anunciando o momento de abrir a padaria. Distribuiu os pães na mesma organização de sempre, lavou o rosto, passou pano uma última vez nas mesas, alinhou as cadeiras e destrancou a porta da frente. Não demorou para seus clientes habituais aparecerem.

— Quando tu vai contratar alguém pra ficar no balcão? — perguntou Adair, um senhor em seus setenta anos. Preciso como um relógio suíço, aparecia todo dia às sete e meia.

Fernando coçou os olhos.

— Não quero ter que contratar alguém para demitir de novo tão rápido. De repente, quando a padaria voltar a ter um lucro bom eu procuro um funcionário. Aliás, seu Adair, o que acha de trabalhar aqui?

— Bah, nem fala isso. Eu consigo contar o dinheiro, mas essa maquininha sua eu não sei usar não.

— Eu te ensino, é bem fácil. — Fernando movimentou as mãos como se estivesse varrendo algo. — Mas tem que limpar o banheiro também.

— Não, nem pensar! Sou velho demais para isso.

Os dois se despediram e seguiram para seus dias. Logo chegou as dez horas e Fernando fechou a padaria. Contabilizou o que vendeu e o que sobrou. Trabalhando sozinho, sua produção diária diminuiu, mas ainda assim não conseguia vender tudo. O prejuízo era menor comparado com os meses anteriores. Sentia-se triste pelos funcionários que demitira, mas era isso ou a falência inevitável.

Botou alguns dos pães que sobraram no baú da moto e os demais ensacou e largou em um cesto vazio que tinha instalado na frente da padaria. Logo acima do recipiente, um papel ensacado dizia “Pegue quantos precisar”. Teria problemas se alguém denunciasse para a vigilância sanitária, porém acreditava que era melhor correr este risco do que jogar a comida fora.

Trancou tudo, subiu na moto e voltou para casa. Chegando lá, se permitiu alguns minutos de descanso antes de trocar de roupas, pegar a mochila de entregador e sair para seu segundo trabalho. Abriu o aplicativo às onze horas e as entregas começaram. Em cada trajeto, sua atenção se movia entre os carros, as ruas esburacadas e o tempo decorrido. A cada pedido finalizado, calculava o quanto ganhara e quanto faltava para atingir a meta do dia. Não precisava de muito, apenas do dinheiro suficiente para zerar o prejuízo com a padaria.

Pouco depois das quatorze horas, recebeu um pedido de dois almoços não muito longe de onde estava. Passou no restaurante e saiu em direção ao destino. Chegou em uma rua estreita, com casas próximas uma das outras. O chão, apesar de asfaltado, estava desregulado em muitos níveis e com buracos aqui e ali, nada que Fernando não estivesse acostumado.

Parou em frente ao local, uma casa toda fechada com uma grade pintada de azul e arame farpado na parte superior. Buzinou algumas vezes e saiu da moto. Passou um minuto e nem sinal do sujeito. Perfeito, era mais um daqueles babacas que pediam comida e nem se preocupavam em ver se estava chegando. Buzinou mais uma vez, bateu palmas e gritou. Nada.

Olhou para o celular, verificando se não estava no lugar errado, talvez o babaca fosse ele mesmo. Ouviu passos e se virou, apenas para dar de cara com dois homens. Não, garotos. Estavam próximos a ele, um apontando uma pistola, a mira oscilando tanto que poderiam diagnosticá-lo com Parkinson.

Não pensou duas vezes, apenas levantou os braços e pediu:

— Por favor, a moto não.

— Celular e carteira! — gritou o desarmado. Este parecia um pouco mais velho que o outro.

Fez como pediram, já fora assaltado outra vez e sabia que o melhor caminho era obedecer, mas não pôde se impedir de falar enquanto entregava os pertences.

— A moto não, eu preciso dela.

— Cala a boca!

Fernando se afastou, deixando os dois subirem no veículo. O ronco do motor fez o padeiro ir contra o senso comum e, antes que pudesse raciocinar, lançou-se na direção dos ladrões. O mais jovem, sentado atrás, notou a movimentação e gritou. Um estouro repentino abafou o berro.

— Merda! — berrou o atirador, olhando para a arma nas mãos.

— Fica quieto — gritou o mais velho, então acelerou e disparou para longe.

Fernando nem notou que estava caído no chão, só viu os dois indo embora, levando sua moto. Não teria dinheiro para comprar outra, tinha que abandonar a padaria. Tudo culpa dele. Era burro, ignorante, teimoso. Desculpou-se com o pai e não viu mais nada.

***

Despertou com as batidas do próprio coração. Sobressaltou-se, notando que estava sentado em um assento de plástico duro. Na sua frente havia mais uma fileira deles. Levantou o olhar e deparou-se com diversas janelas dispostas lado a lado ao longo de um vagão. Através delas via um lago enorme.

Inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nas coxas e observando o chão metálico e sujo. Estava apenas no metrô, o assalto fora um sonho. Contudo, o que fazia ali? Morava a quilômetros da estação mais próxima.

Viu no assento ao lado sua mochila de entregas e, ainda que estranhasse sua presença, a colocou sobre o colo. Notou luzes vindo de trás e virou-se. Ao longe, havia prédios altos e amontados que superavam quinze andares, a sua maioria com letreiros de neon cujas palavras não faziam sentido algum. Pela baixa iluminação, deveria ser o final da tarde, porém não foi capaz de identificar a posição do sol devido às sombras se espalharem em diferentes direções. Fitou novamente o lago, desta vez com mais atenção. Ali estava o sol, lançando uma luz alaranjada sobre a água em uma cena muito parecida com o que via no Gasômetro.

Se levantou, colocando a mochila nas costas, e bateu de leve com os nós dos dedos na janela mais próxima. Não parecia ser um televisor. Deu-se por vencido no enigma, queria apenas ir para casa.

Procurou algum indicativo de sua localização, um mapa da linha ou qualquer coisa que o ajudasse. Encontrou no final do vagão uma esperança: um homem sentado usando um uniforme azul com o logotipo de uma empresa. Ele não tirava o olho da janela na sua frente. Foi até lá, segurando-se nas barras de apoio.

— Ei, onde estamos? — Sem resposta. — Alô? Está vivo? Tô falando contigo. Cara, eu tô perdido, não pode falar nada mesmo? Por favor, senhor. Eu só preciso saber onde eu estou. Onde fica a próxima estação? Quero descer nela.

Balançou a mão em frente ao rosto do ouvinte. Nem piscou. Fernando suspirou e deu meia-volta bem a tempo de ver uma das portas entre os vagões se abrindo. Do outro lado estava o que definiu como um trabalhador estereotipado de escritório, com direito a terno e gravata, cabelos curtos penteados para o lado e fixados com gel. Era alto e um pouco fora de forma. Não duvidaria se ele de repente apresentasse uma carteirinha da OAB.

O homem entrou no vagão e se aproximou. A ilusão do estereótipo desapareceu quando Fernando notou que a gravata era, na verdade, uma corda enrolada no pescoço por um nó de forca. Em situações normais, teria obedecido a regra de não dar trela para maluco, mas como ele parecia mais responsivo que o outro passageiro, permitiu-se arriscar:

— Sabe onde estamos?

— Sei. Você sabe?

Fernando arqueou as sobrancelhas.

— Claro que não, por isso te perguntei. — Vendo que um silêncio estava prestes a se formar entre os dois, complementou: — Onde estamos?

— Você é novo então. Sente-se. — Ele indicou um assento perto dos dois. — Minhas respostas não vão fazer sentido, vai entender apenas depois de um tempo.

O homem estava certo, Fernando não compreendeu nada. Mesmo assim, acatou o pedido, o outro se sentou ao seu lado em seguida.

— Você não perguntou, mas acho bom nos apresentarmos antes. Meu nome é Nicolas, e estamos no que é chamado de território de caça.

Fernando tentou manter a expressão neutra, não queria o outro vendo o arrependimento estampado em sua cara.

— A qualquer momento, seres estranhos chamados predadores vão aparecer e nos caçar. Temos que sair antes que fiquem atiçados demais e chamem predadores maiores. — A seriedade e o tom monótono não combinavam com as palavras usadas. — Estou procurando mais respostas, por enquanto isso é tudo que eu consigo falar e que faz sentido. Alguma dúvida?

— Não, não. Acho que entendi.

— Não, não entendeu.

— Entendi sim. — Fernando se levantou. — Eu tenho que sair, sabe, está ficando tarde. Eu preciso ir para casa.

Se afastou do maluco e procurou a porta de desembarque, apenas para notar que não tinha uma em nenhum dos lados. Talvez estivesse em um dos outros vagões. Olhou a porta usada pelo fantasista. Ainda estava aberta.

— Está procurando a saída? — perguntou Nicolas.

— Como eu disse antes, sim.

— Então eu vou contigo.

— Eu acho que consigo caminhar sozinho, sou bem grandinho.

— Você até pode intimidar pessoas normais, mas não vai funcionar aqui. Insisto que devo ir contigo.

E claro que ele era do tipo grudento.

— Tudo bem, mas não fica cheirando meu cangote.

Com o maluco atrás de si, foi para o próximo carro. Encontrou-o lotado com homens e mulheres de todas as idades, usando o mesmo uniforme azul. Tentou conversar com eles, mas recebeu um tratamento tão frio quanto antes. Também não havia porta de desembarque ali.

Passaram por mais três vagões, enfrentando em todos o mesmo problema. No último, olhou em direção ao lago e notou que a paisagem não mudara, mesmo o metrô estando sempre em movimento. Fitou a direção oposta. Os prédios se mantinham, porém enxergava-os de outro ângulo. A ideia de perguntar sobre o fenômeno foi embora assim que pôs os olhos em Nicolas.

No carro seguinte, deparou-se com pessoas responsivas. O único, e grave, problema era que todos no vagão o encaravam. Um formigamento surgiu nos ombros, onde a alça da mochila ficava. Além do mais, sentia-se enjoado. Caminhou até a passageira mais próxima, lutando contra uma repulsa crescente em cada passo dado.

— Com licença, sabe me dizer em qual vagão fica a saída?

A passageira respondeu em tom robótico:

— Você não deveria estar aqui, este vagão é exclusivo.

— Eu… me desculpe. Só quero descobrir onde está a saída.

— Você não deveria estar aqui, este vagão é exclusivo.

— Certo, sem estresse. Vou sair.

Andou na direção do próximo carro. As pessoas por quem passava repetiam as mesmas frases.

— Você não deveria estar aqui.

— É nosso vagão, só nós o merecemos.

— Este vagão nos foi dado, saia.

— Você não se esforçou para estar aqui.

As vozes pararam ao chegar na metade do caminho. Algo mudou no olhar dos passageiros. Se antes o observavam como se fosse apenas um sovadinho em meio a tantos outros, passaram a enxergá-lo com um brilho nos olhos de alguém faminto que se depara com o último pão na prateleira. Deu um passo apressado e as pessoas lançaram-se sobre ele.

Apresentando Predadores: A Obsessão

Capa do livro "Predadores: A Obsessão". No centro da imagem, temos um prédio comercial inacabado e laranja. Enrodilhando-se nele há uma cobra gigante de escamas pretas, e com braços humanos saindo pelas laterais de seu corpo. Na cabeça da serpente há um único olho encarando o espectador. Como cenário temos diversos prédios na cor verde, dispostos de forma caótica, que se estendem até o horizonte. Ao fundo, o sol mostra o final da tarde. No topo da imagem está escrito "Predadores: A Obsessão", e na parte de baixo o nome do autor: Guilherme Lopes Lacerda

Sobre o livro

Acho que a melhor forma de começar a apresentação, é com a sinopse. Então vamos lá.

Fernando, um motoboy, perde a vida após ser baleado durante uma entrega suspeita. Bárbara encontra seu fim no asfalto após um acidente de alta velocidade na Freeway. A solidão é tudo que cerca Dominique em seus últimos suspiros na cama. Essas três pessoas, com nada em comum, recebem uma segunda chance e acabam indo parar em uma dimensão onde lógica e física são alteradas ao bel-prazer dos predadores, onde são salvos por Nicolas, um misterioso homem engravatado.

Utilizando habilidades recém-adquiridas, o grupo começa uma investigação para desvendar de onde surgiram os monstros, e também impedir que continuem abduzindo pessoas e as utilizando como alimento. Tudo isso enquanto continuam lidando com sua vida cotidiana, relacionamentos e trabalho.

Predadores me levou um bom tempo para finalizar, boa parte dele foi por conta da minha tentativa de aumentar meu ritmo de escrita. Com isso, os primeiros rascunhos ficaram terríveis, e meu trabalho de reescrita foi dobrado. Porém, depois de muitas mudanças, estou feliz com o texto.

Sobre o lançamento dos capítulos: ocorrerá todo sábado pela manhã. Se houver mudança no dia/hora, avisarei com antecedência.

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Wattpad: https://www.wattpad.com/user/guilopeslacerda

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Recomendação – Príncipe Partido

Capa do livro escrito por Arthur Malvavisco. Um corvo de asas abertas é um elemento central à ilustração, bem como uma espada de guarda-mão estilizado. Ao fundo, há uma floresta noturna, e, cercando os elementos centrais há objetos simbólicos: uma coroa partida, uma taça quebrada, flores cortadas, uma chave enferrujada e uma garrafa quebrada.

Detalhes:

  • Título: Príncipe Partido
  • Autor: Arthur Malvavisco
  • Editora: Corvus
  • Link para compra: https://a.co/d/hBUZgg8

Sinopse:

A aguardada sequência de Lebre da Madrugada!

Após escapar por pouco à Vigília, Andras e Aeselir estão feridos e isolados às vésperas de um desastre mágico. Estariam também desarmados, não fosse por um detalhe: com o Umbral que corre nas veias de Andras após seu Despertar, eles se tornaram Andarilho e Feiticeiro, capazes de moldar o poder das sombras a seu favor.

Isso, porém, não torna a vida mais fácil. Sentimentos complicados afloram entre eles: desejo e vergonha, amor e culpa por crimes cometidos na década passada. Ainda caçados pela Vigília e ameaçados pelo Eclipse, médico solariano e guerreiro iluriano precisarão forjar alianças para sobreviver. Assombrados por inimigos antigos, terão de enfrentar também os esquemas de um nobre iluriano peçonhento e reatar laços com familiares perdidos há muito tempo.

Com a aproximação do Eclipse e sob ameaça de guerra, segredos sobre uma doença que acometeu seus dois mundos serão revelados com o auxílio de uma menina-águia, e Andarilho e Príncipe-Feiticeiro terão de lutar por amor, para restaurar coisas quebradas e para descobrir seu lugar num mundo que os odeia.

Comentários:

Enquanto o primeiro livro possui foco em Andras, neste segundo vemos mais de Aeselir Hrád (ou Lyr para os íntimos). Sendo um livro de fantasia sombria, eu já esperava um passado difícil, mas o escritor conseguiu me surpreender com tanta desgraça e tortura. Entendemos porque Aeselir era tão temido e odiado, e o quão graves seus crimes eram. Gostei bastante que, mesmo mostrando o passado de Hrád, não houve um momento em que ele passou a ser amigável ou redimido, o peso de tudo que fez ainda o acompanhava e eu como pessoa ainda quero distância dele.

O livro, apesar de grande, não é arrastado, sempre tem algo se desenvolvendo, sejam os novos passos no ótimo romance entre Andras e Lyr, ou o avanço da trama e dos eventos. Ajuda que Arthur é um excelente escritor e soube montar cada parágrafo de forma a serem gostosos de ler. A história se conclui neste segundo livro e o final é muito satisfatório.

Ideal para quem gosta de um romance inusitado entre alguém inocente e amigável e alguém muito muito violento, com pintadas de magia e um mundo terrível de se viver.