Predadores: A Obsessão – Capítulo 17

Desenho monocromático. O desenho mostra um salão repleto de cadeiras ocupadas. A maioria das pessoas está prestando atenção em um homem discursando em frente a um púlpito. Ao lado deste homem há uma figura humana erguendo no seu braço direito uma balança romana. Apenas cinco pessoas não estão prestando atenção no discurso. Elas estão olhando para trás, em direção ao observador da imagem.
No lado superior esquerdo há o número dezessete para indicar o capítulo.

Quando ouviu o interfone tocar, soube que estava um pouco atrasada. Bem, um pouco não, bastante. Tudo culpa dos compilados de videologs de motoqueiros e entregadores no Youtube, uma boa forma de relaxar e passar o tempo, atividade que executou com primor e, neste caso, em excesso.

Atendeu o interfone e apertou o botão para que Igor entrasse no prédio e, pouco tempo depois, abriu a porta para o amigo. Ele cumprimentou-a e entrou no apartamento, as roupas formais do trabalho foram trocadas por algo mais casual e parecido com seu estilo antigo: calça jeans, um tênis meio surrado e uma camisa colorida com estampas que ninguém prestava atenção. O homem olhou a sala bagunçada, não havia muito o que fazer, a arrumação era só no dia seguinte, e então olhou para Bárbara.

— Tu vai no culto assim? — perguntou ele.

— Algum problema com meu estilo? — Seu tom de voz ganhou apenas uma nota de hostilidade.

— Não, claro que não. — Igor desviou o olhar dela por um momento. — É só que são roupas para outra… atividade, tipo dormir confortavelmente na cama.

Os dois abriram um leve sorriso.

— Claro que não vou assim, ô palhaço. — Ela fitou a sala. — Pode sentar onde quiser, por ali é a cozinha se quiser pegar uma água e lá é o banheiro. Espera aí que vou me trocar.

Dito isso, disparou para o quarto e fechou a porta. Tirou as roupas de pijama e trocou por seu kit básico, só não vestiu a jaqueta porque estava um dia quente e preferia não ficar suando no meio de um culto. Uma pena, adorava a peça, mas conforto e estilo não raramente andam lado a lado.

Saiu do quarto e encontrou Igor sentado na ponta do sofá, o mais afastado possível das roupas jogadas pelo móvel, e olhando algo no celular.

— Vamos logo, enrolão.

Ele virou o rosto para Bárbara.

— Enrolão? Eu? Quem se atrasou mesmo?

— Vamos!

Os dois saíram do apartamento e desceram os quatro andares com passos rápidos. Chegando na frente do prédio, Bárbara começou a rumar em direção à garagem, porém Igor ficou para trás.

— Aonde tu vai? — perguntou ele.

— Pegar minha moto ué.

— Melhor ir de Uber, vai que os malucos do culto anotam a placa e pesquisam tua vida a partir disso?

— Desse jeito parece que eles são os Illuminati.

— Ficaria surpresa com o quanto de informação se consegue com os contatos certos, não precisa nem fazer parte de organização secreta.

— Não exagera…

— Olha, já vi coisa pior. — Ele respirou fundo. — E foi tu quem me chamou, vai ignorar meus conselhos agora?

— Certo, vamos de Uber então.

Bárbara inseriu no aplicativo o endereço que Elisa lhe passara dias antes. Por sorte, a corrida não saiu muito cara e cinco minutos depois um Up! branco parou perto deles. Entraram no carro, cumprimentando o motorista, que parecia mais jovem que Bárbara, e seguiram viagem. Nem um minuto havia se passado quando o homem falou:

— Ontem mesmo peguei uma passageira aqui. Foi bem triste, o filho dela tinha desaparecido fazia uma semana e ela estava desesperada.

Bárbara olhou da janela para o motorista. Não lembrava de ter ouvido de ninguém desaparecer nas proximidades. Sabia muito bem que a culpa desses desaparecimentos era dos predadores, mas para as pessoas normais devia ser muito pior, não tinham ideia do que estava acontecendo e de quem poderia ajudá-los. Os sequestrados só ganhavam nome e rosto após muita comoção familiar ou da comunidade, recebendo alguns minutos de exposição em uma rádio, jornal ou televisão local, e mesmo assim perdiam suas identidades com o passar dos dias. De autoridades, seja policial ou governamental, não havia nenhuma ação proativa para encontrá-los, e Bárbara duvidava que, mesmo havendo, funcionasse.

— Ele desapareceu do nada? — perguntou Igor.

— Tipo isso. Parece que estava na sua rotina normal e um dia sumiu. — O motorista estalou a língua. — Senti pena dela.

— Já ouvi dizer que é uma organização criminal nova por aí, tentando impor ordem.

— Bah, e para isso eles atacam gente inocente no estado inteiro? Faz sentido nenhum.

— Talvez seja um culto então? Acho que faz mais sentido.

— É… faz mesmo, essa gente não tem deus no coração.

— Podemos não falar disso? — interrompeu Bárbara, ríspida.

O motorista se empertigou no assento, aumentou o volume do rádio e ficou em silêncio. O resto da viagem transcorreu sem nenhuma palavra. Bárbara agradeceu por isso, ouvir sobre o assunto apenas lembrava-a que havia uma forma de combater os desaparecimentos, porém, ninguém no grupo estava tomando iniciativa, Nicolas mesmo não mandara mensagem alguma. A última fora de Fernando alegando ter visto algo no farol, mas no dia seguinte mandou um pedido de desculpas dizendo que devia ter sido apenas um momento de estresse. No fim, cada um tinha seus próprios problemas para lidar.

Chegaram ao local do culto, um terreno aberto com um salão ocupando todo o lado direito, com o outro servindo de estacionamento. Pela quantidade de carros e motos, o evento estava lotado. Nenhum dos veículos parecia muito novo ou caro, eram modelos populares. O salão era quadrado e praticamente sem aberturas, com exceção de algumas janelas basculantes na parte superior. A entrada nele se dava por uma porta dupla de metal, onde havia um homem para receber os participantes, apesar de que ninguém mais estava chegando no momento.

Aproximaram-se e viram o interior do salão repleto de pessoas, todas sentadas em cadeiras de plástico e organizadas em fileiras. Não havia nenhum símbolo religioso no local, com exceção de um estandarte no fundo mostrando a balança e o homem. Bárbara viu o local onde Elisa estava sentada e notou duas cadeiras desocupadas ao lado. Cutucou Igor no ombro e seguiram até a mulher. Apenas uma minoria de pessoas utilizava as batas brancas, deviam ser apenas os mais fervorosos. O padre, ou o equivalente disso, falava enquanto iam até Elisa, mas Bárbara acabou não prestando atenção nas palavras dele. Ao se sentarem, a mulher abriu-lhes um sorriso receptivo. Bárbara começou a prestar atenção no discurso.

— … e cada vez mais as injustiças do mundo vêm à tona. Nossos noticiários e jornais pingam sangue e maldade. Amigos traindo uns aos outros por mesquinharias, familiares se matando por trocados de herança, governantes traindo seu povo pela simples sensação orgásmica que o poder lhes traz. — Seus olhos vagaram pela plateia. — Hoje mesmo eu vi uma matéria sobre escolas caindo aos pedaços enquanto o governador se banha em lazeres e privilégios.

“Isso não acontece por vontade divina ou ciclo cármico, justamente o contrário, foi por dependermos tanto destes escapismos místicos que chegamos nesse ponto. Não existe inferno para punir os tais pecadores, tampouco existe reencarnação para que passem pelo sofrimento que infringiram. Temos somente uma vida e é nela que precisamos fazer justiça, precisamos zelar por ela.

“Sei que vocês, a maioria, não são boas pessoas, ninguém é realmente uma boa pessoa, mas também não é minha função vir aqui para repreendê-los e puni-los. Os erros pertencem a vocês e apenas a reflexão os fará corrigi-los”.

O discurso se alongou um pouco mais. O homem manteve o assunto durante boa parte do tempo, citando como as pessoas deviam refletir sobre seus erros e evitá-los. Em dado momento, comentou sobre rostos novos e disse que ficou feliz de ver a comunidade crescendo. Por fim, se aproximou de alguém na ponta esquerda da primeira fileira e sussurrou algo. Esta pessoa fez o mesmo com aquele que estava a seu lado, e assim por diante até chegar em Elisa, que recebeu as palavras e as repassou.

— Faça justiça e tenha uma vida justa.

Bárbara olhou para Igor. Ele estava pálido e segurava o braço da cadeira com força. Quis perguntar se o amigo estava bem, mas achou melhor repassar as palavras para não causarem tumulto. Ele fez o mesmo sem esboçar qualquer reação.

— Tudo bem aí? — perguntou Bárbara.

— Não, não gosto nada daqui. — Ele cruzou os braços. — Será que termina logo?

As palavras passaram por todos os membros do culto e então, para o alívio de Bárbara, a reunião foi encerrada. Pessoas se levantaram e saíram sem pressa.

— Quer falar com o orador? — perguntou Elisa. — Ele gosta de conversar com novos membros.

Bárbara não lembrava de ter dito que se juntaria a eles, apenas que estava curiosa. Mesmo assim, aceitou o convite. Esperaram o salão quase esvaziar, e então Elisa a levou até o orador.

— Estes são Bárbara e Igor. Os dois estão interessados em se juntar a nós — disse ela.

— Que ótimo! — O homem sorriu. — Me traz alegria ver que nosso trabalho continua angariando novos integrantes.

— É, eu achei a cerimônia bem… diferente — disse Bárbara, desconfortável. — Quem teve a ideia de fundar o culto com esses ideais? Foi tu?

— Não, não. — Ele balançou a mão. — Nosso fundador nem está aqui hoje. A comunidade cresceu mais rápido do que Magno esperava e agora fica visitando as diferentes congregações.

— Mas ele nunca aparece?

— Uma vez por mês mais ou menos.

Igor deu um leve puxão na manga de Bárbara e, ao encarar o colega, viu que ele sinalizava para a saída com os olhos.

— Sinto muito, precisamos ir agora. — Ela se virou de lado. — O dia está meio corrido hoje, mas vou vir no próximo encontro na…

— Semana que vem — completou Elisa. — Sábado também.

— Isso. Até mais.

Virou-se e seguiu junto de um Igor apressado até a saída. No trajeto, viu um grupo de cinco homens conversando em um canto. Todos se encaixariam melhor como seguranças de boate do que ajudantes ou membros do culto. Um deles a encarou e, mesmo que quisesse devolver o olhar, foi impedida por um puxão no cotovelo dado pelo amigo. Saíram do local e afastaram-se umas duas quadras antes de Bárbara parar subitamente.

— Vai me dizer o que foi agora?

— Não gostei nada daquele lugar! — Igor se virou para ela.

— Qual é? Foi tão ruim assim?

— Claro que foi! — Igor olhou os arredores por um segundo. — Aquele discurso de justiça e sei lá o que não me engana! Esses caras são tudo menos justos.

— Calma! Me diz, o que teve de tão ruim?

— O padre, ou orador, ou sei lá o que. Algo nele não me agrada. O discurso parece moderado, mas eu tenho certeza de que isso é fachada para manter os curiosos como a gente por ali. Certo que ele tem uma pregação mais radical quando estão só os iniciados.

— Acho que tu viu conspiração onde não tem.

— Eu não vou voltar mais aqui, e recomendo que tu também não.

— Eu queria descobrir mais algumas coisas…

— Tu vai morrer antes de descobrir — disse ele, em tom de aviso.

— Como assim? — Bárbara franziu o cenho.

— Os caras no canto, aqueles que resolveu encarar. Notou algo estranho?

Pensou por um segundo. Lembrava que eles eram grandes e provavelmente musculosos. Tinha mais um detalhe só.

— Usavam várias camadas de roupa?

— Coletes à prova de bala.

— O quê? Não! Como sabe disso?

— Estou deduzindo, enquanto tu prestava atenção no orador eu olhei eles. E pelo menos dois estavam armados. — Igor respirou fundo e colocou as mãos no ombro de Bárbara. — Não se meta mais nisso. Eu sei que perdeu um amigo, mas não vale a pena. Vai ser pior para ti no fim.

— Como sabe disso?

— Eu… Olha, eu sei! Confia em mim?

— Confio.

E acreditava mesmo. Porém a curiosidade era grande, e cada vez mais aquele culto se tornava suspeito. Ficaria distante deles pelas próximas semanas, mas assim que soubesse que o tal Magno estaria em uma reunião, iria ver o cara. Não tinha como ser coincidência que membros de um culto novo fossem parar em um território, ainda mais com a suspeita de que havia envolvimento de armas. Talvez pudesse pedir ajuda dos outros, mas será que alguém responderia?

Como seria bom ter seus poderes no mundo real, poderia encarar qualquer perigo sem ter medo pela sua vida. Fazer o que nunca faria em outras situações.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 16

Desenho monocromático. O desenho mostra o topo de um farol durante a noite, com a lua no canto superior direito da imagem. A luz está acesa, e graças a ela é possível ver a silhueta de um monstro no interior do farol. Ele possui cabeça humanoide e três pares de braços, com um tronco alongado que some da vista, sem mostrar como seriam as pernas da criatura.
No lado direito há o número dezesseis para indicar o capítulo.

O primeiro jorro deixou sua garganta, espalhando o gosto de bile por toda a boca e trazendo consigo a acidez do estômago. A comida parcialmente digerida sujou a porcelana do vaso e a visão serviu apenas para deixar Fernando mais enjoado. Antes que conseguisse se recuperar, outro jato veio, trazendo mais da mesma sensação e espalhando queimação pela garganta. O ciclo se repetiu algumas vezes e o homem enfim reuniu saliva na boca e cuspiu no vaso, falhando em livrar-se do gosto horrível.

— O que aconteceu? — perguntou Gabriel.

Fernando olhou para o namorado, não tinha visto nem ouvido ele entrar no banheiro, mas era óbvio que apareceria. A vinda da pergunta também era uma certeza, e quase contou a verdade, quase contou que os pesadelos pioravam a cada noite, quase contou que toda vez que dormia sonhava com o território, sonhava com as pessoas mortas, com a cena vinda direto de um filme de terror, quase contou que temia por sua vida, pela vida dos outros no grupo, quase contou que não conseguia carregar a responsabilidade sozinho. Mas não falou a verdade, em vez disso, a mentira saiu de seus lábios com tanta naturalidade que o espantou.

— Está tudo bem, devo ter comido algo estranho só.

Gabriel franziu o cenho.

— Não está. E não me venha com isso de intoxicação alimentar, tu tem andado estranho há tempos! Nem olha para mim direito nos finais de semana e fica só sussurrando pela casa.

— É que… as coisas na padaria não estão fáceis. Digo, estou começando a equilibrar as contas, mas perdi alguns clientes e o fornecedor não colabora.

— Então peça ajuda, fale com sua família. Ou deixa comigo que eu converso com eles.

— Não! — gritou o padeiro.

Silêncio tomou o banheiro. Um intervalo desconfortável em que Fernando sentia a cabeça de Gabriel trabalhar em alguma resposta, alguma forma de tirá-los daquela situação. Enquanto isso, Fernando apenas encarava o namorado, ainda sentindo o gosto de vômito na boca e o cheiro ruim no vaso.

— Tudo bem, como quiser. — Sua voz estava embargada e ele deixou os braços penderem ao lado do corpo, os ombros baixando. — Quer se martirizar e ficar sofrendo até não aguentar mais, faça isso mesmo.

E então deixou o cômodo. O coração de Fernando se acelerou, sabia que estava deteriorando a relação dos dois, mas não imaginou que tinha feito tanto estrago assim. Com medo do que poderia acontecer se não falasse nada, moveu-se às pressas e segurou o ombro de Gabriel, virando-o para si.

— Não se preocupe, vai ficar tudo bem. — Outra mentira, mais uma na pilha que andava contando a Gabriel e a si mesmo.

— Como eu não vou me preocupar? É claro para qualquer um que olhe para tua cara que não vai ficar bem. Cada dia tu parece mais acabado, e não fala nada para mim! O que eu devo pensar disso? O problema é mesmo a padaria?

Fernando abriu a boca para responder, outra mentira prestes a ser disparada pelos lábios e língua, mas ele hesitou e manteve-se em silêncio.

— Por que não diz a verdade? — perguntou Gabriel.

— Porque eu não posso dizer. Eu não consigo dizer a verdade! — A voz de Fernando saiu baixa, cada palavra arrastando-se pela garganta.

— Tente.

— Eu não…

— Tente!

Fernando suspirou e baixou a cabeça. Qual das duas situações era pior? Continuar na enganação e arriscar tudo que lhe sobrava de felicidade, ou dizer a verdade e ter a chance de ser desacreditado no momento em que abria seu coração? Fitou os olhos azuis-claros de Gabriel e pensou no que faria se o namorado lhe aparecesse com a história mais sem pé nem cabeça que existe. Fernando acreditaria, é claro, a relação entre eles não era algo para se desmanchar tão fácil. Se era o caso, então por que temia? Na sua frente estava uma pessoa que abriu mão de uma casa confortável para viverem juntos, que fazia horas extras para cobrir os gastos que tinham sem reclamar, que sempre o ajudou. Não havia nada a temer.

Quando falou, contando sobre o dia em que levou o tiro, quase se engasgou com as lembranças, mas continuou. E uma vez que estava contando, não conseguiu parar mais. Era como o ar dentro de um balão, pronto para sair e esvaziá-lo do tormento que o inchava desde muito tempo atrás. Era arriscado, Fernando sabia disso melhor do que ninguém, já que ele mesmo teve dificuldade de acreditar em tudo que viu, ouviu e sentiu na primeira vez. Porém, a oportunidade de dividir aquilo com alguém que o apoiaria venceu esse medo. Achava egoísta de sua parte se sentir assim, mas não pôde evitar. Quando deu por conta, narrava os eventos com a voz chorosa e os olhos cheios de lágrimas.

Gabriel ficou em silêncio o tempo todo, mas prestou atenção em cada palavra despejada em meio a uma cachoeira de sentimentos. Só foi falar quando o outro parou a história e o encarou com olhos hesitantes.

— Eu acredito em ti.

E abraçou Fernando, que deixou o aperto na garganta escapar e as lágrimas fluírem. O tempo se tornou algo dispensável. Fernando não sabia dizer o que aconteceu, quando deu por si, estava sentado no sofá com um copo cheio de água em mãos e com o namorado ao lado, mantendo a mão no seu ombro.

— Eu não acho que esteja mentindo — começou Gabriel. — É só que… tu sabe que isso é difícil de provar, né? Tem certeza de que não está cansado a ponto de alucinar?

— Eu posso mostrar.

Gabriel abriu a boca e fechou-a em seguida. Acenou para que Fernando continuasse. O padeiro entregou o copo vazio e levantou-se. Fechou os olhos enquanto imaginava o farol. Suas pernas tremeram, mesmo sabendo que aquele era um local seguro, não pode evitar o pânico de se manifestar conforme as visões da última incursão brotavam na cabeça. Porém, era sua chance de conseguir ajuda, e encararia o medo apenas por alguns segundos.

Abriu os olhos e encontrou-se no promontório, do lado de fora, era noite no território assim como no mundo real. A atenção foi atraída para o topo do farol, para a luz que nunca era ligada, mas que naquele momento brilhava. Ela girava, focando sua iluminação em um ponto de cada vez. Na primeira volta, destacou uma silhueta humana que parecia estar apoiada nos antebraços contra o vidro. Na segunda volta, a figura apoiava a cabeça nas mãos. Na terceira, Fernando deu um passo em direção à entrada do farol. Alguém do grupo deveria estar com problemas, talvez pudesse ajudar. Sentiu os pelos da nuca arrepiarem, uma repulsa crescente no seu estômago, a vontade de ter a mochila de entregas consigo e hesitou em dar um segundo passo. Na volta seguinte, a silhueta deixou de ser humana. Tinha um corpo alongado e largo, cobrindo todo o vidro em altura e, ao redor do tronco, se era mesmo isso, inúmeros braços saíam, apoiando as mãos contra o vidro.

Sentiu-se novamente no metrô, na sala do originador. Fechou os olhos, vendo por um momento o estrago causado naquele território das ilusões, o sangue pelo chão, os corpos mortos. Desejou voltar para casa.

Deparou-se com Gabriel em pé, olhando-o espantado.

— Era real mesmo… Eu… Como? Por quê?

— Falamos em um segundo. — Fernando levantou um dedo, arrancou o celular do bolso e abriu no grupo com Nicolas. Foi difícil digitar a mensagem, os dedos tremiam e foi impossível acertar todas as letras.

Fernando

Acavei de ver um ptedador no farol

Passou um minuto e nenhuma resposta veio. O padeiro quase deu um pulo quando a mão de Gabriel apertou seu ombro.

— Tudo bem? O que aconteceu?

— Eu vi um predador. Deveria ser nosso local seguro! — Fernando olhou a tela do celular por um segundo. — Se alguém for lá, eu não sei o que vai acontecer.

— Calma. Senta no sofá e respira fundo.

— Eu não posso…

— Senta.

Obedeceu a contragosto, a perna subia e descia em movimentos rápidos. Gabriel foi para a cozinha, deixando-o com o celular e a expectativa. Nicolas sempre lia rápido as mensagens, será que já fora pego? E os demais? E se já estivessem todos mortos?!

O aplicativo sinalizou uma nova mensagem.

Nicolas

Acabei de voltar do farol, sem sinal de predador.

Fernando

Mas eu vi

Nicolas

Passarei a noite lá, reportarei qualquer problema.

Gabriel voltou com o copo cheio de água e lhe alcançou. Fernando pegou, mas não fez menção de beber.

— Recebeu resposta? — perguntou o namorado.

— Sim, Nicolas disse que não tem nada lá.

— Será que não foi sua cabeça? Estresse talvez?

— Eu sei o que vi!

— Tudo bem. — Gabriel sentou-se ao lado dele. — Por que não bebe a água e daí me conta o que viu?

— Para que eu vou beber água?

— Para se acalmar.

Fernando bufou e tomou tudo de uma vez só. Não teve efeito. Assim que engoliu, disparou os detalhes do farol em Gabriel, que ouviu tudo em silêncio e com uma expressão séria.

— Então tu viu tudo isso, mas Nicolas não? — perguntou o namorado, ao fim da explicação.

— Não, ele disse que tá tudo normal.

— E se estiver mesmo tudo normal?

— E se não estiver?! Qualquer hora alguém pode ir lá e morrer!

Gabriel respirou fundo.

— Como é esse Nicolas? Não de aparência, mas de personalidade.

— O que isso importa? — Fernando balançou as mãos, o copo escorregou um pouco nos dedos.

— Tu já vai entender.

Fernando bufou, mas respondeu:

— Quieto, sem expressão, estranhamente obcecado com os predadores e eliminar eles.

— E tu acha que ele avisaria se houvesse algum problema?

— Sim, capaz até de nos ligar nessa hora da noite.

— Então tu avisou, e Nicolas é competente. Por que a preocupação?

— E se ele não notar algo importante? Ele não é perfeito!

— Concordo, mas cara, tu tá uma pilha de nervos e não dorme bem há alguns dias que eu sei. — Gabriel afagou o ombro de Fernando com a mão. — A última coisa que precisa é mais preocupação, deixa isso na mão dos outros por enquanto. Caso contrário vai ser o mesmo problema da padaria, mais um peso para carregar sozinho nas costas.

Fernando ficou em silêncio, pensando um pouco sobre as palavras do namorado. Ele tinha razão em partes, mas não entendia, não sabia o que era sentir aquele arrepio. Não conhecia um território.

Gabriel segurou sua mão e disse:

— E já que não vai dormir hoje, que tal me contar, nos mínimos detalhes dessa vez, sobre esses predadores, porque mesmo se tu não quiser, eu vou te ajudar. Vamos pensar em uma forma de ajustar tua rotina, eu posso assumir algumas tarefas, talvez as negociações com os fornecedores. Qualquer coisa para facilitar tua vida.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 15

Desenho monocromático. O desenho mostra uma calçada vista do terceiro andar. Na calçada há um grupo de duas mulheres e um homem com camisetas brancas. Dois deles, o homem e uma das mulheres, seguram panfletos, enquanto a última pessoa está entregando um panfleto para alguém de passagem. No topo direito da imagem há o número quinze para indicar o capítulo.

Voltar ao trabalho era uma sensação estranha, ao mesmo tempo que mostrava a continuidade de tudo, era como se a vida fosse obrigada a parar durante aquelas oito horas e meia do expediente. Bárbara não sabia se agradecia ou amaldiçoava este intervalo de tempo. Por um lado, conseguia focar em outra coisa, por outro, que lugarzinho merda para se estar.

Não bastasse os colegas de bancada a olharem torto, a fofoca viajou pela empresa e agora todos olhavam-na com uma espécie de medo e repulsa, como se fossem levar um soco apenas por estarem próximos. Se era evitada antes por conta de sua carranca, agora nem a olhavam na cara, podia apenas sentir o julgamento de cada um por suas costas.

Era meio da tarde quando se levantou da mesa e foi até a copa para uma xícara de café. Os dois funcionários que estavam conversando por lá saíram sem muita discrição enquanto Bárbara se servia. O líquido fumegante inundou sua xícara e ela se afastou das térmicas, ficando próxima a uma janela com visão para a calçada na rua oposta. Mais importante que isso, ali era o único lugar na copa que era pego por câmeras, então para garantir que nenhum desencontro ocorresse e outra acusação injusta a fizesse ser demitida, Bárbara evitava ficar onde não pudesse ser gravada.

Enquanto bebericava o café amargo, notou a aproximação de Igor, o único a ainda manter contato regular com ela, talvez por saber que a fúria da colega era justificada, ou talvez por pena. Difícil saber. O homem vestia uma camisa azul-escuro, calças jeans cinza claro e um par de sapatos, uma bela diferença do seu estilo “vou vestir a primeira coisa que achar no armário” da adolescência. Ele adentrou a copa, passou pela térmica de café e ficou em frente à outra, de chá.

— Como tu consegue ficar acordado só com isso? — perguntou Bárbara. Não era chegada em conversa fiada, mas o silêncio em suas pausas do café trazia memórias do território à tona.

— Não muito bem. — Igor se serviu. — Só que eu já tomo muito café quando chego na empresa, aí se eu tomar mais dá uma dor de barriga desgraçada.

— Faz sentido.

— Sobre Eder… — Ele avizinhou-se, os olhos castanhos que Bárbara achava um charme traziam consigo algumas olheiras e pareciam mais foscos.

— Não quero saber — respondeu, ríspida.

Igor suspirou.

— Talvez se tu tentasse…

Bárbara virou o rosto enquanto tomava de uma vez o resto do café. Focou-se na rua e enxergou três pessoas com batas brancas, completando o visual com calças azul-marinho e calçados pretos. Havia algo estampado na roupa deles, algo que Bárbara lembrava-se de ver ao redor de muito sangue.

— Tu já viu aquilo ali antes? — perguntou, interrompendo seja lá o que Igor estivesse falando.

O homem se aproximou e olhou pela janela, fazendo uma careta em seguida.

— Já. Na minha rua surgiram uns malucos desse culto. É picaretagem das brabas igual a todos os outros.

Ficou em silêncio por alguns segundos, observando o trio distribuindo folhetos para os poucos transeuntes que passavam naquele horário.

— Vou lá.

— O quê?! Estamos no meio do trabalho.

Saiu da copa com a xícara vazia nas mãos e rumou para fora do prédio, descendo pelas escadas de emergência até o térreo. Tinha consciência de que poderia receber uma advertência, mas não perderia a oportunidade de conversar com aquele grupo. Talvez tivessem respostas. Aproveitou que a rua estava calma e atravessou o asfalto a passos largos, por fim, aproximou-se do trio composto de duas mulheres e um homem.

Conseguiu ver melhor a estampa naquelas batas. Era uma balança romana segurada por um homem, sem venda nos olhos e uma expressão dura. Os três a olharam com certa expectativa.

— Boa tarde — disse Bárbara. — Eu vi vocês lá da empresa e fiquei curiosa. São tipo uma religião?

Igor chegou em seguida e ficou ao seu lado enquanto a mulher no centro do grupo dava um passo à frente. Ela tinha cabelo preto e cacheado, cortado na altura do pescoço, além disso, sustentava um olhar tranquilo e abriu um sorriso para Bárbara após a pergunta.

— Não somos uma religião, e sim um culto. Diferente de outros, veneramos não um deus ou deuses que se colocam acima da humanidade, mas um ideal sustentado por nós mesmos: a justiça.

— Justiça no sentido do sistema judiciário? — Alertas acendiam na cabeça de Bárbara, mas teve que ignorá-los. Se fosse capaz de descobrir algo a partir dessas pessoas, valeria a pena.

— Não, essa é uma justiça fraca e arbitrária. Valorizamos a verdadeira justiça, a moral da humanidade, dar e receber, ajudar e ser ajudado, machucar e ser machucado. Bem e mal não podem ficar na mão de um deus, caso contrário a humanidade nunca vai aprender com seus erros. — A mulher falava sem pressa, satisfazendo-se com cada palavra. — Tu pode aprender mais sobre isso indo a uma de nossas reuniões.

Igor fez uma carranca que rivalizava com as de Bárbara em seus piores momentos. Mesmo assim, manteve-se em silêncio.

— Onde e quando são feitas essas reuniões? — perguntou Bárbara.

— Temos cinco locais em Porto Alegre, e vários outros na região metropolitana. Pode me passar o seu Whats para conversarmos e vermos o melhor lugar para ti.

— Não é melhor me passar o seu? Vocês devem ter que ir atrás de muita gente já.

— Claro, como ficar melhor para ti.

Bárbara pegou seu celular e gravou o contato da mulher, cujo nome descobrira ser Elisa. Em seguida recebeu um dos panfletos que o grupo entregava, ele era pequeno, com algumas mensagens exaltando a capacidade humana de se entregar à bondade e à justiça e viver sem um deus para guiar suas ações, pautando-as através do bem da comunidade. Havia um número de telefone e um site no verso do papel. Agradeceu a Elisa e se despediu do trio, caminhando de volta para o trabalho. Igor seguia mal-humorado ao seu lado.

— Parece que tu não gosta muito desse chá — comentou Bárbara.

Igor olhou para a xícara que ainda carregava e derramou o conteúdo em uma árvore pela qual passavam.

— Não acredito que está pensando em se envolver com aquela gente — disse ele com um muxoxo.

— Eu não quero, mas um conhecido meu se envolveu com esse culto e desapareceu. Não sei se foi culpa deles ou outra coisa, mas quero investigar.

— Ouvi dizer que muitas pessoas andam desaparecendo nos últimos meses… Não me surpreende que um culto assim tenha surgido. Essa gente se alimenta da nossa insegurança e do desejo de ter um futuro feliz. Eu diria para nem tentar ir atrás porque isso só vai complicar tua vida, mas… — Ele suspirou. — Me chame quando for em uma dessas reuniões.

Bárbara levantou uma sobrancelha.

— Me oferecendo ajuda agora?

— Olha, eu já lidei com essas merdas e não quero te ver se afundando e ficando bitolada.

— Não é uma reclamação, só estou um pouco surpresa. — Bárbara sorriu. — Pode deixar, te aviso sim.

Igor assentiu e fizeram sua caminhada de volta em silêncio, separando-se quando chegaram no andar em que trabalhavam. Bárbara voltou imediatamente para sua mesa, já que a pausa para o café tinha se estendido demais e queria evitar reclamações do gerente. No entanto, não foi dele que veio o comentário, e sim de Eder. Era a primeira fala que o infeliz se direcionava a ela desde o dia do assédio.

— O trabalho deve estar fácil para ficar saindo no meio do expediente.

Bárbara respirou fundo, limitou-se a tirar os olhos do monitor e encarar o homem. Ele sustentou o olhar, lançando um desafio no ar: retruque, leve a discussão adiante. Ela sabia muito bem que era uma armadilha, Eder tinha as costas quentes e teria vantagem em uma argumentação. Não era justo.

Talvez fosse ironia do destino que menos de cinco minutos atrás estivesse conversando com um culto que venerava justiça. Parecia algo cada vez mais escasso no mundo, ou talvez cada vez mais arbitrário. Rigidez e punições para uns, perdões e absolvição para outros. Entendeu um pouco mais das palavras de Elisa, a justiça e a moral não deviam ficar nas mãos de um deus, mas deixá-los na mão das pessoas também parecia a receita para o desastre. Um dilema sem muita saída.

Por fim, achou melhor segurar a língua e baixar os olhos para o monitor, tinha trabalho a fazer. Além disso, precisava investigar o culto, descobrir se acreditavam nas próprias palavras ou queriam apenas cativar os fiéis igual muitas outras religiões. Mais importante que isso, queria descobrir qual o relacionamento deles com os predadores, entender por que os cinco mortos vestiam roupas do culto.

Minutos depois, alguém se aproximou. Começou como uma presença assomando suas costas e, momentos depois, tornou-se uma mão do lado esquerdo de sua bancada. Ela seguiu a linha do braço com o olhar, por fim encontrando os olhos de Maurício.

— Oi — disse Bárbara, cansada de esperar que a primeira palavra viesse do homem.

— Boa tarde. — Ele tirou a mão da bancada. — Vamos conversar?

Pronto, a bronca por ter escapulido por cinco minutos no horário de trabalho vinha a jato. Quem dera as vagabundagens diárias de Eder ao celular merecessem também repreensão, mostraria, no mínimo, uma certa consistência.

Foram para a mesma sala de reuniões onde conversaram sobre o assédio de Eder e, repetindo o mesmo roteiro, Bárbara sentou-se de frente para o gerente. Maurício respirou fundo, porém nenhuma palavra deixou sua boca. Resolveu ela mesma arrancar o silêncio.

— Algum problema? Aconteceu alguma coisa?

— Tu é uma boa funcionária — disse ele.

Pronto, não era uma advertência, era demissão. O sangue gelou com a perspectiva, quantas contas tinha para pagar? Ainda lidava com as parcelas da Kawasaki, tinham as contas de aluguel, luz, condomínio e isso sem incluir a alimentação e higiene. Não duraria nem três meses direito com o dinheiro de reserva. Conseguiria arranjar um emprego qualquer antes de se afogar em boletos? Precisaria voltar para Santa Maria? Como fazia para pegar o seguro-desemprego?

— Sempre entregou tudo que pedimos, e em certos casos até adiantou as tarefas. — Maurício pôs as mãos entrelaçadas sobre a mesa. — Não acho certo como o caso com Eder foi conduzido.

Bárbara empertigou-se na cadeira, subitamente consciente de sua postura, do fato de estar curvando-se mais para frente, como se o gerente fosse demiti-la com um sussurro. Não aguentava mais.

— Vai me demitir mesmo por isso?

— O quê? Não…

— Então vai me demitir por quê?

— Bárbara, eu não vou te demitir.

Toda sua linha de pensamento sobre contas, novos empregos e mudanças desesperadas foi cortada de repente, jogando-a em uma maré de confusão. Ficou impossibilitada de seguir com qualquer questionamento.

— Pretendo fazer um movimento diferente — seguiu o gerente. — Não foi certo a forma que tratamos alguém dedicada como tu. Tirei os últimos dias para refletir sobre isso e também para observar Eder.

Bárbara assentiu.

— Vou demiti-lo e te dar um aumento.

Não conseguia mais acompanhar o desenrolar dos eventos. O mundo de repente avançara para 200 km/h enquanto ela recém engatava a primeira. De qualquer forma, estava feliz.

— Por que mudou de ideia só agora? — Ela deixou escapar. Será que tinha falado com agressividade demais? Será que estava forçando o lampejo de ética do chefe?

— Pessoas podem mudar, para melhor às vezes. Eu me arrependo do que fiz e quero consertar isso. Desculpe ter demorado. — Ele descruzou os dedos. — Só peço que não comente nada por enquanto, quero conversar com Eder ainda.

— Claro, fico quieta sim.

A conversa encerrou e logo ela estava de volta à sua cadeira, olhando para um monitor que exibia o programa da contabilidade. Sentia-se animada, mas não conseguia direcionar essa energia para o trabalho. Enquanto estava naquele estado, ouviu o assediador sendo chamado.

O papo durou quase uma hora. Tempo demais para uma demissão. Nos primeiros minutos aguardou para ver o resultado, mas esperar se tornou impossível e seu foco voltou para o trabalho. Ao fim da conversa, Eder reapareceu com passos apressados e uma expressão dura no rosto, jogou seus pertences na mochila, desligou o computador e desapareceu do escritório.

Foi um dia estranho.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 14

Desenho monocromático. O desenho exibe Nicolas, um homem com roupas formais e uma corda de forca no pescoço, em frente a um espelho de banheiro. Na imagem só mostra do nariz para baixo. Nicolas está segurando entre seu polegar e indicador uma escama preta. No lado direito da bancada da pia há uma escova de dente, e do outro lado um relógio marcando uma hora da madrugada. No topo esquerdo da imagem há o número quatorze para indicar o capítulo.

Voltaram ao farol antes que Dominique acertasse um soco em Nicolas. O líder agiu rápido, bastou ela iniciar o movimento para que duas cordas restringissem seu braço direito, outras surgiram para segurar os demais membros e, no meio de um grito, ele enfiou uma pílula goela abaixo nela.

Um filtro foi retirado de sua visão, a voz que sussurrava em sua mente desaparecera e ficou apenas o próprio arrependimento. Os ombros caíram enquanto observava o braço destroçado de Nicolas. No entanto, não foi capaz de formular um pedido de ajuda, sequer de mover-se para auxiliar o líder. A mente estava presa nos últimos minutos, repassando todos os eventos. As mortes, a discussão, a quase briga. Se tivesse acertado o soco, teria assassinado o homem. Sabia muito bem o peso por trás do golpe. Por que quis matá-lo?

Viu Fernando se recuperar um pouco de seu estado quebrado de espírito para curar Nicolas. Seria uma hora muito dolorosa para o padeiro, Dominique devia ficar junto com ele nem que fosse para distrair da dor. Não conseguiu. Algo em si estava diferente, uma indignação que pensou ter se livrado há muito tempo voltara. Enquanto os outros no grupo se ajudavam, ela só foi capaz de aproximar-se dos vidros do farol e olhar o mar. Nicolas foi seu alvo, mas os pensamentos em sua cabeça. Ah! Como eram destrutivos. Culpou cada um no grupo e depois a si mesma. Não podia sorrir e oferecer palavras de alento, não depois de ter desejado a morte de todos.

— Quem eram aquelas pessoas, afinal? — perguntou Bárbara depois de muito tempo.

— Não faço ideia, mas vendo que estavam todos armados, deviam caçar predadores — respondeu Nicolas.

— Como nós, então? — A voz de Fernando veio com uma pontada de dor, aquele embargo na voz, a dificuldade de superar o sofrimento para falar.

— Difícil — disse o líder. — Não vi nenhum vestígio neles e se tinham um, não usaram. Acho que só tinham as armas de fogo mesmo. Talvez fossem um grupo que sabia o que estava acontecendo e resolveram enfrentar sozinhos.

— Então como foram parar lá? Digo, fomos porque sentimos o território se formando, mas eles não devem ter sentido. E duvido que seja coincidência de estarem armados e preparados bem quando o predador os puxou.

— Não sei, precisarei investigar.

— Seria bom saber, porque olha, tem que ser muito maluco para entrar lá só e sem os nossos poderes. — O que era aquele tom de Bárbara? Deboche?

— Está culpando-os agora por terem ficado no nosso caminho? — disse Dominique com a voz mais alta que o normal e virando-se para o grupo.

Estavam todos em um estado tão lamentável que não pareciam as mesmas pessoas que riram e comeram juntos pouco tempo atrás. Sangue seco manchava o terno e calças de Nicolas na parte direita do corpo, os jeans de Bárbara revelavam a destruição que ela causou em um dos corpos e Fernando, apesar de ser o mais limpo, tinha traços de sangue do joelho para baixo, nas mãos e antebraço.

— O quê? Claro que não — defendeu-se Bárbara.

— Não é o que parece. — Dominique cerrou os punhos. — Matamos pessoas hoje. Cinco! E estamos aqui tentando entender como foram parar lá e porquê. Não é isso que deveríamos fazer. Nós… nós deveríamos nos entregar, dizer que cometemos assassinato.

A última frase fez qualquer resposta que estava prestes a sair da boca de Bárbara morrer ali mesmo.

— Se entregar para quem? Ninguém vai acreditar, aliás não foi nossa culpa — disse Nicolas, neutro como sempre. — Foi o território, o predador. Aquelas ilusões nos enganaram e não tinha como prever que nossos atacantes eram pessoas. Além do mais, eles agiram primeiro, nós só nos defendemos.

— Você deveria ter previsto isso! É nosso líder, sabe mais que qualquer um como os predadores funcionam! Por que não mandou voltarmos na primeira ilusão? — bradou ela.

— Calma, não tem como alguém pensar em tudo — disse Fernando, em tom apaziguador.

— Não, ela tem razão, é minha culpa. — Por que Nicolas não se alterava? O que tinha de errado com ele? — Eu achei que, enquanto Bárbara e eu pudéssemos escapar das ilusões, tudo ficaria bem. Me enganei, devemos deixar esse território de lado até que tenhamos uma forma confiável de passar por ele.

— Isso não resolve nada! Pessoas morreram por nossa causa… Nenhuma palavra vai trazer elas de volta, nada vai.

Por que estava discutindo? Onde queria chegar com aquilo? Seus próprios pensamentos pareciam tão nublados. Não aguentava mais ficar ali, olhando para eles, julgando os companheiros e a si mesma. Se virou na direção da escada e desceu correndo. Sabia que não precisava fazer isso, bastava um pensamento para que se visse em sua casa, mas não queria voltar. Saiu do farol e disparou pela imensidão verde daquele território vazio. Queria se cansar, queria ficar sem energias para se lamentar, queria apenas fechar os olhos e dormir.

Seu corpo, esse corpo novo, não cansava fácil. Ela correu e correu, mas quanto mais fazia isso, menos cansada se sentia. A brisa em sua face não trazia a mesma frescura de antes, agora era um vento álgido que lhe afligia o rosto e orelhas. O suor escorria por seus braços e costas como não fazia há muitos anos. Mas não conseguia se cansar.

Por fim, desistiu e rumou até o mar, tirou suas roupas e lavou o corpo na água gelada e salgada, tentando tirar os resquícios de sangue da pele. De corpo limpo, aguardou na beira da água enquanto secava.

Depois, simplesmente voltou para sua casa, para seu quarto. Afundou o rosto no travesseiro e deixou as lágrimas escorrerem dos olhos. Aquela não era liberdade que tanto desejara.

***

A partida de Dominique foi um choque. Nenhum deles teve forças para ir atrás dela, até mesmo Fernando estava cansado e dolorido demais para fazer algo. Seu braço ainda se recuperava do tratamento fornecido a Nicolas e a cabeça não conseguia acompanhar tudo que transcorria. Depois da saída da idosa, ficaram em silêncio e evitaram olhar uns para os outros. Se não fosse por Bárbara se mexer, talvez tivessem passado mais de horas ali, parados, esperando por algo que não sabiam.

— Tenho que ir. Mesmo depois disso tudo ainda tenho trabalho amanhã.

— Merda, tem razão. — Fernando juntou o que restava das forças e se levantou. Não conseguiu evitar de olhar para as marcas de sangue em si e nas roupas. — Ah cara, vai ser uma mão voltar para casa assim.

— Não é só tomar um banho?

— Sim, mas eu estava na padaria antes. Até tenho roupas de reserva, mas… Eu não quero me lavar na pia.

— Vem pro meu apê. Não é grande coisa, mas tem um chuveiro.

Quase perguntou para Bárbara se tinha certeza daquele convite, mas resolveu não. O que mais faria? Deixaria vestígios de sangue na padaria? Iria para casa todo sangrento e arriscando ser visto por alguém? Seria o inferno se alguém o visse. Seria um inferno maior ainda se o alguém fosse Gabriel.

— Aceito.

Olhou para Nicolas, quieto todo esse tempo. Ele estava com um olhar distante e pensativo. Mesmo depois do que tinham passado, era como se houvesse uma barreira entre o líder e os demais, não parecia haver abertura nem mesmo para se despedir. Mesmo assim, arriscou:

— Até mais, eu hã… sinto muito por hoje. Não ajudei muito.

— Até.

Vendo que não arrancariam muitas palavras de Nicolas, Fernando se virou para Bárbara. A mulher pegou no seu pulso e fechou os olhos por um instante. O terreno ao redor deles mudou, ficou escuro e com um cheiro de umidade, a temperatura caiu de uma hora para outra e sentiu que estavam em um ambiente fechado.

— Porra! Viemos parar no banheiro.

Bárbara o soltou e andou um pouco para o lado, pisando no pé de Fernando. Não doeu, mas isso fez a mulher recuar com um pedido de desculpas e dar com as costas em algo, espalhando o som de batida em vidro pelo pequeno cômodo.

— Porcaria! Se eu quebro o box a dona vai ficar putaça.

Conseguiu sentir a presença de Bárbara se aproximando dele. Momentos depois a luz foi acesa. O banheiro era pequeno, contendo uma pia com pasta e escova de dentes largadas em cima dela. Um espelho mostrava os dois próximos um ao outro, ambos em estado lamentável. O box em que sua anfitriã deu com as costas tinha espaço para um banho sem muitos movimentos, talvez se abrisse demais os cotovelos ia bater nas paredes.

— Desculpa, nunca surgi no banheiro antes. — Bárbara esfregou as mãos por um instante. — Vou pegar uma toalha para ti. Aguenta aí.

Ela tirou as botas com o solado sujo e saiu do banheiro, entrando na sala de estar. Fernando não resistiu à curiosidade e deu uma olhada no resto do apartamento. Era desorganizado, mas não sujo ou malcuidado. Viu algumas roupas jogadas aqui e ali, umas caixas de papelão atiradas em um canto abandonado da sala, uma televisão e um sofá.

Bárbara voltou com uma toalha em mãos. Era bege e estava dobrada de forma que mostrasse as palavras da dona no tecido. Alcançou-a para Fernando, que quase pegou, mas resolveu perguntar antes.

— Não tem uma mais velha?

— Essa é a mais velha.

— É que tem o seu nome e tal, aí né, estarei me limpando de sangue. Não quero estragar.

— Tu vai se lavar antes, sem problema.

Ele deu de ombros e quase pegou a toalha, porém Bárbara afastou a mão no último segundo.

— Esquece, pego outra.

Ela voltou segundos depois, com uma toalha azul-escura em mãos. Desta vez Fernando pegou sem muitas perguntas e fechou a porta do banheiro. Tirou as roupas, entrou no box e girou o registro. A água saiu quente, bem mais quente do que ele queria. Antes que o lombo pelasse, ajustou a temperatura. Ficou fria demais. Lidar com o chuveiro alheio sempre era um desafio. Ajustou e acertou o ponto. Começou a se lavar.

— O que acha que vai acontecer com o grupo agora? — perguntou Bárbara.

— Não faço ideia.

— Será que Dominique vai voltar?

— Eu… não sei, mas espero que sim. Queria ter ido atrás dela.

— Também, mas talvez fosse melhor deixar ela esfriar a cabeça. Falo por mim, mas prefiro ficar sozinha nessas situações. — Pausa. — Eu deveria ter notado a ilusão mais cedo. Ela botou a culpa em Nicolas, mas eu me recuperava mais rápido, devia ter visto…

Outra pausa.

— Por que eu e Nicolas escapamos tão rápido das visões?

— Gostaria de entender isso também, eu… — As imagens vieram nítidas em sua mente. A briga que tivera com o pai quase um ano após reatarem. O celular tocando, trazendo notícias que já sabia, e sendo ignorado por minutos a fio. As mensagens da mãe perguntando se compareceria ao enterro, e sua resposta negativa. Balançou a cabeça. — Tem muita coisa que não conhecemos sobre os predadores e territórios.

— Acha que Nicolas está escondendo coisas da gente?

— Ele falaria se fosse importante. Nicolas é meio insensível, mas até agora tem sido sincero.

Apesar das palavras, não conseguiu deixar de se perguntar se era o caso. O líder ocultara informações sobre os vestígios, o que mais guardava para si?

O resto do banho transcorreu em silêncio. Quando terminou, se despediu de Bárbara e agradeceu por tudo. Voltou ao farol e viu o que restava da comida que saboreavam horas atrás, parecia até ter se passado em outra vida. Tampou os potes, desmontou a mesa e dobrou as cadeiras, empilhando tudo e levando de volta à padaria. Uma vez lá, deixou tudo em um canto, botou roupas limpas e tentou se preparar para o dia seguinte. Não foi fácil, mas os deveres da vida mundana nunca sumiam, por mais insignificantes que parecessem as vezes.

***

Não havia um único grama de vitória em suas mãos. Nem mesmo o conhecimento de que um território podia jogar as pessoas em ilusões era algo inédito. A única parte nova era a intensidade de tais visões. Mesmo cansado, Nicolas não conseguia parar de andar de um lado a outro na casa.

Passava pela cozinha quando se iniciou o pensamento de que era um fraco. Um pedaço inútil de bosta que não conseguia diferenciar sonhos de realidade. Deveria ser o líder daquele grupo, encabeçar qualquer desafio e surgir com uma solução, porém o que aconteceu lá? Hesitou em sua determinação, em seu objetivo. Bárbara foi mais rápida que ele, e ainda assim insuficiente.

Estava de volta no escritório quando a cena dos mortos invadiu sua mente. Escorou as costas na parede e levou as mãos ao rosto, arranhando a pele e sentindo algo duro na bochecha direita. Era uma sensação boa, mas forçou-se a afastar os dedos do rosto, não adiantaria nada ficar abrindo ferimentos. Focou no misterioso grupo que enfrentaram. Não se arrependia de tê-los matado, faria tudo de novo. Se lamentava mesmo de não ter ordenado a fuga quando percebeu que as ilusões eram fortes. E, para sua surpresa, foram jogados de uma direto em outra. Os predadores estavam evoluindo cada vez mais, ao passo que ele ficava para trás.

O abalo do dia levaria suas atividades a um hiato. Quanto tempo duraria? Quantos voltariam a atuar? Não tinha como dizer, mas esperava que fossem todos. Teria que pensar em uma forma de forçá-los se fosse necessário, não tinha tempo para se preocupar com sentimentos.

Moveu-se da parede e voltou a andar. Entrou no banheiro, abriu a torneira e lavou o rosto, tentando tirar alguma sujeira que estava incomodando-o. Foi um erro entrar em um território novo sem qualquer tipo de preparação. Começaria a explorar novos alvos sozinho antes de levar o restante do grupo, eles eram capazes, mas algumas coisas apenas poderiam ser feitas se estivesse sozinho. Sim, era um bom plano e que dependia somente de si. Levou os olhos ao espelho e viu o rosto pálido e molhado, as gotas escorrendo pela pele imberbe até caírem na pia, olheiras profundas revelando noites e mais noites mal dormidas, e os olhos tomados de determinação.

Fitou as mãos e notou a fonte do incômodo no rosto, uma pequeníssima placa orgânica, não maior que seu dígito. Era resistente, ficando inteira após um aperto dos dedos, tinha uma forma quadrada e arredondada nas pontas, além de possuir uma coloração cinza escuro. Não era simples sujeira, e sim algo que traria mais desconforto e o atrasaria por alguns dias. Seria melhor ir ao farol antes que a situação piorasse.

Precisava manter a calma. Não falharia, nunca mais.

Predadores: A Obsessão – Índice

Capa do livro "Predadores: A Obsessão". No centro da imagem, temos um prédio comercial inacabado e laranja. Enrodilhando-se nele há uma cobra gigante de escamas pretas, e com braços humanos saindo pelas laterais de seu corpo. Na cabeça da serpente há um único olho encarando o espectador. Como cenário temos diversos prédios na cor verde, dispostos de forma caótica, que se estendem até o horizonte. Ao fundo, o sol mostra o final da tarde. No topo da imagem está escrito "Predadores: A Obsessão", e na parte de baixo o nome do autor: Guilherme Lopes Lacerda

Índice de capítulos para o livro Predadores: A Obsessão

Status: Finalizado

Capítulos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Capítulo 26

Capítulo 27

Capítulo 28

Capítulo 29

Capítulo 30

Capítulo 31

Capítulo 32

Capítulo 33

Capítulo 34

Capítulo 35

Capítulo 36

Capítulo 37

Capítulo 38

Capítulo 39

Capítulo 40

Capítulo 41

Epílogo

Predadores: A Obsessão – Capítulo 13

Desenho monocromático. O desenho é dividido em duas partes. A parte da direita mostra uma casa de madeira, com uma casinha de brinquedo no chão e parte de uma cama. Também há uma janela por onde se veem outras casas. Conforme se olha para o lado esquerdo, a casa desaparece e as paredes se tornam orgânicas, lembrando entranhas e o interior de um corpo animal. No centro da imagem há o número treze para indicar o capítulo.

Estava tudo ali, os brinquedos que se dividiam entre bonecas, caixas cheias até o topo com lego e até mesmo alguns quebra-cabeças. Havia sua cama também, o travesseiro com extremidades verdes e centro amarelo, a colcha estampada da Mulan e até mesmo o abajur na cabeceira.

Bárbara caminhou ao redor da cama, deixando a mão sentir a textura da colcha e a resistência do colchão. Um olhar para a direita revelou a janela do quarto. Saltitou até ela, subiu em um mocho para ganhar altura e olhou para o exterior. Dali tinha uma visão perfeita da rua, conseguia ver o chão de paralelepípedo, os vizinhos cujo filho tinha um cachorro peludão com quem adorava brincar, até mesmo Clara estava lá, em frente à casa de madeira. A idosa viu ela através do vidro e acenou. Bárbara, apesar de incomodada, retribuiu o gesto. Há quanto tempo não via dona Clara?

A mão parou. Exato, há quanto tempo não a via? Uma carranca formou-se em seu rosto. Dona Clara estava morta, um infarto mais de dez anos atrás. Ela tinha algumas opiniões fortes sobre as atitudes de Bárbara e, por ser amiga da família, achava normal expressá-las em quase toda ocasião. Recebendo as palavras ousadas da idosa e sem o apoio da própria mãe, Bárbara tornou a última conversa delas em uma discussão acalorada. Não houve conclusão, uma hora cansou de ouvir todo aquele desaforo e foi embora. Nem um dia depois e ficou sabendo da internação e morte da outra.

Olhou para trás, visualizando novamente o quarto. O local não era real, o verdadeiro nem existia mais. Não estava na casa onde passou a infância. A realização deste fato fez tudo parecer falso, o desenho de Mulan estava borrado e retorcido, seu rosto carecia de proporções corretas. Os brinquedos, na verdade, estavam quebrados e a tinta escorria pelo plástico.

— Não!

Um grito feminino ecoou pela casa inteira. Seus olhos percorreram o aposento até encontrarem a porta. Avançou até ela e abriu. A primeira coisa que enxergou foi a vermelhidão do lugar em que estavam. Era um corredor rubro, feito de um material que oscilava a cada respiração, com lâmpadas comuns que se veria em uma casa qualquer, mas cuja iluminação era fraca e deixava o ambiente à meia-luz.

— Voltou a si? — perguntou Nicolas.

Bárbara olhou para o restante do grupo. O líder estava como sempre, uma expressão neutra encarando-a. Fernando e Dominique se encontravam parados, os ombros encurvados e olhos arregalados. O queixo caído enquanto observavam o nada.

— O que aconteceu com eles? — perguntou ela.

— O mesmo que aconteceu com nós dois.

Bárbara chacoalhou Fernando, tirando-o de seu transe. Fez o mesmo com Dominique em seguida. Os dois pareciam tão perdidos quanto ela ao acordarem. Antes que pudessem fazer mais perguntas, o corredor se contraiu logo à frente deles, expandindo-se em seguida como se fosse um ser vivo respirando.

— Onde estamos? — perguntou Fernando.

Bárbara colocou a palma em uma das paredes. Sentiu o material ceder um pouco, mas ao forçá-lo não conseguiu empurrar mais. Tinha uma sensação quente ao toque, além de ter uma textura esponjosa. Afastou a mão, sentindo-a úmida. Estavam dentro de uma coisa viva.

— Ainda não sei, mas não descobriremos se ficarmos parados aqui. — Nicolas começou a caminhar. — Preparem as pílulas.

Seguiram pelo corredor, fazendo curvas, passando por bifurcações, subindo e descendo inclinações. Acabaram por chegar em uma parte que tinha janelas, do tipo normal que se veria em qualquer casa. Estavam no meio das paredes vivas e, ao chegar perto, vislumbraram o exterior escuro onde nada se via.

Enquanto observava o lado de fora, algo surgiu em sua visão. Era uma mulher alta, com cabelos cacheados castanhos e cara fechada. Usava uma jaqueta de couro com uma camiseta vermelha por baixo. Bárbara virou-se para Fernando, prestes a perguntar se o homem também estava vendo o próprio reflexo. Seus olhos não encontraram o colega, porém, enxergaram um cenário diferente.

— Tem certeza que quer isso? Vai ser bem longe.

Estava em uma sala de estar. Na sua frente via o sofá de três lugares coberto por uma manta branca tricotada. Logo ao lado do móvel estava o rádio que sua avó deixava ligado durante boa parte da tarde para trazer vida à casa enquanto cuidava das tarefas domésticas. Era um modelo usado, porém mais novo que o anterior, tocava tanto CD quanto fita cassete, apesar de que não usavam uma há anos.

Olhou para trás, deparando-se com o balcão onde ficava a televisão de tubo. A monstruosidade eletrônica ocupava metade da bancada, e de cada lado dela havia decorações variadas: alguns gatinhos de cerâmica comprados pela cidade, uma foto da avó com os dois filhos e três netos e uma estátua de Nossa Senhora Aparecida.

Poderia ficar capturando todos os detalhes do cômodo, lembrando-se de como já subira muito naquele balcão, de como uma vez tentara levantar a TV e achou que fosse morrer esmagada, ou de como estragou o rádio antigo por colocar massa de modelar em seu interior. Passou mais de uma década após cada um destes acontecimentos, mas as memórias estavam frescas.

— Oi? Está me ouvindo?

Virou a cabeça para frente, de volta à figura de sua mãe. Por algum motivo, ignorou-a até ali. Diziam que as duas se pareciam muito, mas Bárbara negava. O cabelo, apesar de cacheado, era mais claro na outra, os olhos castanhos na filha eram de um tom esverdeado na mãe. A altura, porém, era a principal diferença. Isabel era uma cabeça mais baixa.

— Estou ouvindo, só estava pensando — respondeu Bárbara. Ver a mãe ali, sentada e preocupada, lembrou-lhe do que estavam discutindo.

— Será que tu não consegue algo aqui? Mesmo que seja em outra área…

— Mesmo que eu consiga, ficar no interior não tem futuro. Ainda mais se eu pegar algo fora da minha formação.

— Mas…

— Não quero passar o resto da minha vida fazendo algo que não gosto. Ir para a capital é minha chance! E diferente de outras pessoas, não vou sem um emprego definido.

— E se te demitirem logo em seguida? E se quiserem se aproveitar de ti lá? Vai estar sozinha, sem família para te dar uma mão.

— Eu sei me virar! — disse Bárbara, o tom de voz mais alto. — E até parece que estar aqui vai me proteger de alguma coisa.

Não protegeu a mãe de ser abandonada pelo marido, tampouco ajudou quando começaram as brigas diárias com o namorado. Dois relacionamentos fracassados em que ninguém, familiar ou amigo, moveu um dedo para ajudar. Não era algo que jogaria na cara dela sem um bom motivo, mas odiava aquela preocupação toda. Pareciam querer contê-la a todo custo. Sempre foi assim.

Mas no fim Isabel até que tinha razão. Quando se mudou, seu único conhecido próximo passou a ser Igor. Espera? Como sua mãe poderia ter razão se nem se mudou ainda? Sentiu algo se movendo na visão periférica e observou o cômodo com o canto do olho. As paredes não eram de madeira e sim daquele material bizarro e vermelho. O chão não era firme, oscilava e era macio. Tivera aquela conversa antes, mas nada daquilo era real.

Trincou os dentes enquanto via o sofá e a mãe desaparecem diante de seus olhos, dando lugar a Fernando, mais uma vez com a expressão distante. Ao seu lado, Nicolas balançava a cabeça.

— De novo? — rosnou Bárbara.

— Sim — respondeu o homem. — Parece ser a forma que esse território funciona.

Balançaram os dois colegas, retirando-os da ilusão.

— Espero que isso não aconteça mais vezes — disse Fernando.

— Vai acontecer — falou Nicolas.

— Por quê? — perguntou Dominique. — Não é como se isso fizesse muito mal a nós, além de nos fazer perder alguns minutos.

— Bem, prefiro isso que o metrô. — Fernando olhou em volta. — Não tem nenhum monstro nos atacando pelo menos.

— É um originador novo, talvez seja só isso do que é capaz de fazer. — Nicolas coçou a têmpora. — Vamos continuar, talvez encontremos algo que nos ajude a eliminar o predador em uma próxima vinda.

O grupo voltou a prosseguir pelo corredor. Em alguns minutos de caminhada, apareceram diversas passagens à esquerda e à direita. Cada uma levava para uma espécie de cômodo.

— E aqui são as salas de reunião — disse a voz da mulher que os guiava. Ela trabalhava no RH da empresa e era a responsável por realizar a integração dos novos empregados, ou como gostavam de chamar, colaboradores. O grupo de Bárbara era pequeno, apenas cinco jovens tão nervosos quanto ela com o primeiro dia de trabalho.

A motoqueira cerrou os dentes, reconhecendo a cena como uma ilusão. Já tinha passado por duas, não seria afetada por uma terceira. Avançou no meio do grupo, empurrando seus novos colegas e ultrapassando a moça do RH. A ilusão se desfez, e Bárbara enxergou o verdadeiro propósito das enganações. À frente dela estavam cinco predadores.

O corpo inteiro era vermelho, lembrando uma ferida inchada, da cintura para baixo não haviam pernas, apenas uma massa disforme que se conectava ao chão como se fossem protuberâncias. O tronco tinha um formato mais humano e aparência muito magra, mas sem mostrar costela alguma. Os braços eram longos e estranhos, quase tentaculares. Mal conseguiu identificar o rosto deles, apenas notou que tudo parecia deslocado. Os olhos estavam espaçados demais, um próximo ao queixo e outro perto do topo da testa. A boca estava em algum lugar entre eles, e não se via o nariz ou as orelhas.

Estavam dispostos de forma estranha, mas antes de chegar em uma conclusão, Bárbara abandonou os pensamentos, notando que era a única desperta. Se virou, ficando na frente de Fernando e empurrando os outros dois para os lados. Era injusto que pudesse proteger só um, mas o padeiro era prioridade. Os predadores atacaram, esticando seus braços para frente e mirando nos humanos. Algo disparou de dentro dos membros, projéteis pequenos, porém, considerando a distância, poderosos. Mesmo com sua resistência, Bárbara não estava em posição para manter o equilíbrio, e quando sentiu o impacto em suas costas, foi jogada para frente junto da dor dispersa que invadiu suas paletas.

Fúria preencheu seu coração e foi bombeada por suas veias. A dor se tornou um estimulante perigoso enquanto ela se levantava em um pulo e virava-se na direção dos predadores. Os cinco concentraram os braços nela e lançaram outra saraivada. Desta vez estava preparada e manteve-se firme enquanto era atingida pelos inúmeros projéteis. Seu braço, tronco, barriga e pernas queimaram como se estivesse em uma pira. Ela gritou enquanto as rachaduras se espalhavam por todo o corpo.

Disparou na direção dos inimigos enquanto era alvo de uma terceira onda de ataques, mas não parou. Dois dos predadores pareciam de alguma forma agachados, ainda que não tivessem pernas ou joelhos, mas sua forma era mais baixa que os demais e esse foi o primeiro pensamento na cabeça de Bárbara. Os outros três estavam em pé logo atrás. Era uma formação estranhamente organizada para monstruosidades como aquelas.

Antes que pudessem atacar de novo, cordas surgiram do teto e enrolaram-se no corpo dos dois da frente, puxando-os para cima com violência. A quarta saraivada veio em seguida, atingindo os corpos recém-erguidos. Dominique passou pelo seu lado como um raio, dando a volta nos corpos suspensos e chutando um dos predadores na direção de Bárbara. Ele deu um encontrão nos outros predadores, derrubando parte de seu braço no caminho, e caiu perto da mulher raivosa. Bárbara chutou a cabeça da aberração com toda a força que tinha. Seu corpo reagiu ao ataque, o líquido vazou das rachaduras, passando pela roupa e bota, acumulando-se na ponta do calçado assim que se conectou com a estranha carne da criatura.

A explosão desta vez foi mais focada, com a fúria direcionada toda ao predador. Seu vestígio pareceu reconhecer o objetivo singular e nem ofereceu tudo que tinha. O tronco do inimigo rebentou em sangue, o chão logo à frente deformou-se, afundando um pouco. Bárbara olhou para a frente, tão cansada que poderia cair de joelhos ali mesmo. Dominique dera conta dos outros dois. Estavam seguros por enquanto. Baixou a cabeça, exausta e sentindo o cérebro ribombar no crânio.

Se deu conta de algo estranho no chão. Não era parte do braço que a criatura derrubou? Se aproximou do membro, notando que não era vermelho, e sim cinza. Dois canos longos juntando-se em uma empunhadura, um gatilho embaixo. Uma arma. O coração bateu mais rápido enquanto olhava para o predador que matara. Não havia como identificar nada do tronco, agora um monte de carne espalhada pelo corredor, mas agora haviam pernas, pernas bem humanas.

As entranhas se apertaram, tentando parar seja lá o que estivesse tomando conta de Bárbara. Olhou na direção dos outros predadores. Os enforcados foram baixados e agora estavam jogados no chão. Suas formas bem mais fáceis de identificar. O tronco era humano, coberto por uma espécie de bata branca com um símbolo no peito e suja de entranhas. E o rosto, não havia como confundir, eram pessoas. Não tinham mais feições deslocadas. Bárbara olhou para frente, encontrando o olhar perplexo de Dominique. De repente, sobreviver tornou-se secundário, nem sequer pensava em avançar no território.

Fernando passou por ela e se ajoelhou ao lado dos corpos. Ele abriu a mochila e tentou forçar o pão goela abaixo nos cadáveres enforcados.

— Bárbara! Me ajude aqui! — gritava o homem. — Temos que salvar eles, eu acho que consigo reviver. Droga!

Ela não se moveu. Viu Dominique passando pelos dois que matara, ambos com o crânio afundado por golpes poderosos. Notou os olhos sérios e focados, revelando o ardor da alma dela. Queria sentir o mesmo, mas não conseguia, seu coração ocupava-se com algo diferente. Virou-se para sua vítima, e era isso que eram, vítimas. Não inimigos, tampouco predadores. Não conseguiu tirar o olho do corpo, era impossível ignorar o peso do que fizera. Atrás de si, os choros e lamentos de Fernando pareciam vir de outro mundo, chegando até ela como um eco, uma transmissão de rádio.

— Isso é sua culpa! Você deveria ter notado!

Olhou na direção de Dominique e Nicolas. A idosa discutia com o líder deles, ignorando o fato de que o braço do homem estava pela metade, o antebraço perdido em algum lugar no chão, desprendido do corpo durante a leva de tiros.

— Você deveria ser o salvador dos humanos! Deveria ajudar todos, mas olhe… olhe o que você nos obrigou a fazer.

Nicolas apoiava-se na parede, de alguma forma conseguindo manter-se em pé e aguentar as palavras atiradas contra si. Ele pareceu notar o olhar de Bárbara e encarou-a. Um frêmito percorreu o peito dela enquanto notava a ausência de emoção naqueles olhos.

— O território está nos afetando — disse ele, passando por cima da raiva de Dominique. — Precisamos sair. Dê uma pílula a Fernando, eu me viro por aqui.

Uma ordem, uma direção. Claro! Aquele peso devia ser coisa do território, todos se sentiriam melhor quando voltassem para o farol. Saindo do torpor, Bárbara caminhou até Fernando. Ele balançava o corpo de um dos mortos, pedindo que acordasse, que levantasse. Lágrimas escorriam pela sua face.

— Precisamos sair — disse ela.

Fernando não a ouviu, apenas continuou lamentando. Bárbara segurou os pulsos do homem e puxou para si, forçando-o a encará-la. Que erro. Ele estava quebrado, soluçando a morte de pessoas que nem conhecia. Não deveria sentir o mesmo? Como conseguia ignorar o peso do que fizeram?

— Me solte! Você é um monstro! Todos nós somos! — O homem desvencilhou-se.

Respirando fundo, Bárbara soube o que precisaria fazer. Empurrou Fernando e, assim que ele caiu, subiu em sua cintura. Em meio a gritos e tentativas de escape, pegou a pílula e enfiou na boca dele, tapando-a com a mão. O homem não deixou barato e a acertou como pôde. Bárbara aguentou cada golpe, não sentia a queimação e raiva que vinham quando era atingida. Não sentia nada. Quando Fernando engoliu a pílula, ela pegou sua própria e fez o mesmo. Queria nada mais que sair dali e voltar para o farol.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 12

Desenho monocromático. O desenho mostra o topo de um promontório com uma mesa de plástico com um pote com pães e sucos de caixinha em cima, ao redor dela há 3 cadeiras de praia. No horizonte vemos o mar refletindo a luz da lua cheia no céu. No centro da imagem há o número doze para indicar o capítulo.

Seria apenas uma noite comum se não fosse por uma repentina ligação de Fernando alguns dias antes. Quase que Dominique não atendeu, aquele número desconhecido só podia ser coisa de gente querendo dar golpe, mas no fim a curiosidade triunfou sobre a cautela e a ligação foi atendida.

A chamada foi curta, porém suficiente para deixá-la animada. Marcara um encontro com o grupo! Depois do último, apesar de serem vitoriosos, temeu que não fossem chamá-la. Ao que parecia, suas preocupações eram infundadas, botaram-na até em um chat com todos. Pedir para que seu filho lhe ensinasse a usar um celular moderno foi a melhor decisão que tomara em anos.

A vibração do alarme a tirou de seus pensamentos. Vinte e duas horas, o momento da reunião. Sentou-se na cama e olhou para a porta trancada. Não gostava de fazer isso, mas desde que acabou no hospital, passaram a cuidá-la mais de perto. Isso, claro, nos primeiros dias. Estavam mais relaxados, porém ainda havia um risco. E era mais fácil explicar uma porta trancada do que um desaparecimento temporário.

Já estava vestida com as roupas de exercício que Nicolas conseguiu após o último território. O líder do grupo sabia ser discreto e foi esforçado o suficiente para encontrar um conjunto igual ao antigo, descartado no fundo de uma lixeira muitos dias atrás. Esperava não sujar as vestimentas novas com sangue.

Fechou os olhos e imaginou o farol. Não tinha Nicolas para guiá-la desta vez, mas ele a instruíra como fazer e, durante algumas noites tediosas, foi sozinha até lá. Não encontrou nada demais, mas era melhor que ficar presa na casa, à mercê do tédio. Nunca superaria isso, porém sentia que não precisava. Deus agira sobre ela, ainda que de forma pouco convencional.

Um sorriso cruzou seus lábios enquanto sentia a viagem acontecendo, e logo estava de pé no interior do farol. Enxergou Fernando e Bárbara no exterior da construção, à beira do promontório, e desceu para encontrá-los. Só quando sentiu a resistência e os pequenos buracos da escada de metal nos pés notou que estava descalça. Pensou em voltar, mas era uma sensação agradável e há muito esquecida. Aguentaria ficar um tempo sem calçado, os jovens entenderiam.

Continuou seu caminho, passando do metal para a frieza da pedra no exterior. A maresia a atingiu de forma que não sentia há muitos anos, trazendo calafrios em suas pernas.

Encontrou com os dois companheiros sentados em cadeiras de praia, e havia uma vazia para ela. Estavam reunidos em volta de uma mesa de plástico, do tipo que se remove as pernas quando guarda, com dois potes brancos semitransparentes em cima. Não conseguiu ver o conteúdo, mas tudo bem, descobriria em breve. A noite sem nuvens e a lua cheia e cintilante davam conta de iluminar o ambiente mais que o necessário. Havia algo de especial naquele território.

— Boa noite, jovens! — disse, cumprimentando os dois com um beijo no rosto.

Após os cumprimentos, Bárbara baixou os olhos e levantou uma sobrancelha.

— Tu… esqueceu os tênis? — perguntou ela.

— Esqueci. — Fitou seus pés mais uma vez. — Agora é tarde, além do mais, é meio libertador andar descalça.

— Por essa lógica, andar sem roupas também é libertador — replicou a mulher mais nova.

— Tem razão, acho que vou fazer isso na próxima vez.

— Por favor, não — disse Fernando.

— “Por favor”? Estou tão mal assim?

— Não, não, claro que não! — respondeu ele, balançando as mãos espalmadas.

— Talvez até seja uma boa ideia — disse Bárbara. — Finalmente veremos Nicolas esboçar algo que não seja uma cara séria.

— Não diga isso do rapaz! — Dominique cruzou os braços. — Ele só não sabe se expressar direito.

— Conheço gente que não sabe se expressar, e não é o caso de Nicolas. Pensando melhor, talvez ele nem fosse dar bola. — Bárbara fechou a cara e imitou uma expressão séria, seguida de uma voz mais grossa e sem emoções. — Boa ideia Dominique, assim os predadores não têm como nos agarrar pelas roupas. Muito eficiente.

Fernando tentou segurar uma risada, mas ela logo escapou. Foi contagiante, infectando Dominique e Bárbara com a mesma intensidade. Como sentia falta disso! Dos momentos de diversão e alegria, tão gostosos e valiosos. Ainda se recuperando, a idosa se sentou na cadeira de praia restante. Era um arranjo único, nunca imaginaria que algum dia se reuniria com pessoas tão jovens no topo de um farol misterioso e mágico.

— Agora que Dominique chegou… — disse Bárbara, ainda com o resquício de um sorriso no rosto. — Dá para abrir?

— Esfomeado é foda. — Fernando fechou os olhos, prensou os lábios e balançou a cabeça, em um gesto decepcionado. Em seguida tirou a tampa dos potes e colocou embaixo dos mesmos. Dentro do primeiro havia cuecas viradas e no segundo pães compridos, fatiados e polvilhados com um pouco de farinha na parte de cima.

— Posso pegar? — perguntou Dominique, que foi respondida com um aceno positivo de Fernando.

Começou com uma cueca virada. Na primeira abocanhada, já sentiu a quantidade de açúcar da comida, na medida certa para ser deliciosa e fazer seu médico lhe xingar por comer essas besteiras. Ora, o doutor não sabia o que era ser velho! Queria ver ele se conter quando chegasse aos setenta.

— Está ótimo! — Esticou a mão para pegar mais uma das delícias açucaradas.

Bárbara atacava sua terceira cueca virada quando Dominique finalizou sua segunda e resolveu provar dos curiosos pães. Pegou um pedaço, era um pouco mais pesado do que esperava, mas uma leve apertada revelou sua fofura. Logo descobriu a origem do peso extra, o interior estava recheado com queijo e cubos de calabresa.

Enquanto se ocupavam com a comida, Fernando abriu a mochila de entregas, tirou três caixinhas pequenas com suco de uva e as pôs em cima da mesa.

— Para desembuchar.

Dominique ficou grata, tornou-se difícil de engolir tudo. Estava prestes a pegar um dos sucos quando Bárbara falou:

— Poxa, tu faz cueca virada e pão recheado, mas daí trouxe suco de uva de caixinha?! Quebrou todo o clima.

— Tá abusada, já. — Um pequeno sorriso surgiu no canto da boca de Fernando. — Queria que eu colhesse uvas no meio da cidade e pisoteasse elas para fazer suco?

Dominique já havia pegado o seu e agora observava os dois na discussão amigável.

— Devia ter ido até Bento comprar um dos bons.

Bárbara tentou pegar uma das caixinhas, mas Fernando se lançou sobre elas antes, pegando as restantes e mantendo fora do alcance da mulher.

— Reclamou, fica sem.

A moça bufou e olhou para Dominique.

— Senhora, vai dividir comigo, né? — pediu ela, em um tom que sugeria uma ordem.

Dominique olhou para seu suco. Tirou o canudo do plástico e com ele furou o fino alumínio da abertura. Levantou o olhar para Bárbara e respondeu:

— Não.

E então gargalhou. Uma sensação gostosa tomou conta de si, quase como se seu corpo tivesse esquecido o que era rir sem preocupações. Se conheciam há pouco, mas gostava daqueles jovens e sentia que gostavam dela. Há quanto tempo não fazia novos amigos? Há quanto tempo não conversava com pessoas novas?

Fernando devolveu o suco para Bárbara e terminaram o lanche com conversas amigáveis. Descobriu que os dois eram de Porto Alegre, moravam perto um do outro, inclusive. Coisa curiosa a vida, duas pessoas tão próximas que nunca se viram antes. Revelou aos dois que morava em Niterói, Rio de Janeiro.

— Odeio quebrar o clima — disse Fernando, fechando os potes agora vazios. — Mas preciso falar algo.

Dominique e Bárbara trocaram um breve olhar. A jovem não falou nada, mas expressou um pouco de desagrado com o que estava por vir.

— Estive esses dias com Nicolas e conversamos sobre alguns assuntos. — Ele entrelaçou os dedos, levantando e baixando cada um deles em sequência.

— Lá vem… — sussurrou Bárbara.

— Não é nada tão impactante! — Ele separou as mãos e abanou-as para a frente. — Apenas algo que deveriam todos saber. A questão é: se encontrarmos alguma pessoa como nós daqui para frente, é bom tomar cuidado. Nicolas me… disse após uma certa pressionada, que é possível roubar nossos poderes se pegarem o objeto que nos concede eles e nos matar.

— Como que isso não é impactante? — A jovem deu um soco no braço da cadeira de praia.

— Calma, Bárbara — disse Dominique. — Deixa ele terminar primeiro.

— Não tem muito mais, era basicamente isso. — Fernando esfregou as mãos no rosto. — É impactante sim, falei besteira. Nicolas disse que não falou disso antes para não gerar desconfiança.

— Não que funcione muito, né? — disse Bárbara, indignada. — Eu já estava desconfiada dele e agora estou mais. Isso não é coisa que se oculte!

— Mas faz sentido, não? — Dominique botou a mão no ombro da colega. — Se estivéssemos em alerta um contra o outro, nosso trabalho em equipe não seria tão bom.

— Eu estava lá para ser uma parede contra ataques e faria isso com ou sem segredos — resmungou Bárbara.

— E agora que todos nos conhecemos, Nicolas revelou isso. — Dominique sorriu. — Era só uma precaução temporária.

— E o que mais ele esconde? — Bárbara olhou com raiva para Fernando. — Sabe de alguma coisa?!

— Eu teria dito se soubesse.

— Será mesmo?

— Não dá para culpar o coitado — interveio Dominique.

Bárbara cruzou os braços, respirou fundo e esfregou os olhos com as palmas da mão.

— É, desculpa. Estourei de novo.

— Pelo menos não usou a jaqueta — disse Fernando, um leve sorriso se formando no rosto. — Seria bem pior para mim.

— Falando em jaqueta… — Bárbara olhou para Dominique. — Nicolas é a corda bizarra, Fernando é a mochila, eu a jaqueta, e tu?

— É até estranho dizer isso, mas eu não tenho um objeto que me dá poderes — respondeu Dominique. — É meu próprio corpo, pelo menos é isso que sinto.

— Então, em teoria, não podem roubar sua habilidade? — perguntou Fernando.

— Ou pode ser algum órgão dentro dela — disse Bárbara. — Só arrancar ele.

— Ah meu deus! Que coisa horrível. — Fernando fez uma careta de nojo. — Acho que está na hora de trocar de assunto.

O papo tornou-se mais ameno, como a novela das nove, que Fernando disse não ver, mas conhecia os pormenores como ninguém. Também ficaram sabendo de mais detalhes da profissão de Fernando, incluindo dos terríveis horários que ele atuava. Falaram um pouco de suas famílias, seus relacionamentos e de algumas besteiras engraçadas que fizeram durante a vida.

Dominique sentiu de repente um tremor e a conversa se interrompeu-se. Não foi físico, tudo na mesa estava no mesmo lugar, mas algo em seu ser ressoou, como um sino badalando diversas vezes.

— Sentiram, também? — perguntou Dominique, levando a mão ao peito. A sensação ainda estava lá.

— Sim. — Bárbara alternou o olhar entre os dois. — O que foi isso?

— Eu não sei — respondeu Fernando. — Vou sair e ligar para Nicolas…

Antes mesmo de tirar o celular do bolso, o homem que procuravam surgiu no farol. Estava com a respiração acelerada, porém mantinha a expressão de sempre.

— Que bom, todos estão aqui — disse ele. — Surgiu um território novo, temos que investigar.

— Eu não acho que estamos preparados — protestou Fernando.

— Só vamos investigar, não vamos atrás do originador.

— Temos que agir antes que o território faça vítimas — disse Dominique, se levantando. — É bom investigarmos agora mesmo.

— Da última vez foi o mesmo papo — disse Fernando.

— E não tínhamos um método de fuga. — Nicolas mexeu na corda em seu pescoço. — Agora temos.

— Estranho dizer isso, mas concordo. — Bárbara se levantou da cadeira. — Principalmente com Dominique.

— Se todos aceitam… — Fernando se levantou. — Acho bom entregar as pílulas, não?

— Entregarei.

O homem entregou duas cápsulas para Dominique, Bárbara e Fernando. Passando as instruções de engolirem e pensarem no farol em seguida, assim seriam retirados do território.

— Agora, sobre como chegar ao nosso destino — disse Nicolas. — Ele recém se formou e por sorte estamos dentro de um território para senti-lo. Concentrem-se no abalo que surgiu há pouco, sentirão junto uma força, uma espécie de sucção, querendo levá-los a outro lugar. Se deixem serem carregados.

Dominique obedeceu, fechando os olhos e focando-se no tremor que percorreu seu corpo. Não havia nenhuma força sugando-a, e sim fragmentos de conversas, palavras soltas ao ar sem contexto ou objetivo. Poderia seguir elas se quisesse.

— Estão todos sentindo? — perguntou Nicolas, e ao receber uma resposta afirmativa, continuou: — Vão para lá.

Sentiu os pés deixando o chão e ficou assustada por um momento, imaginando que os membros adormeciam. No entanto, foi apenas temporário, pois seguiu uma sensação de envolvimento por algo, ou alguém. As conversas que ouvia se intensificaram e seu conteúdo tornou-se mais claro. Eram lamúrias, monólogos intermináveis que questionavam certo e errado.

Sentiu um par de olhos em si. Eles observavam-na atrás da lente de óculos, eram inocentes e, ao mesmo tempo, manchados pelo conhecimento do pecado. Não pôde evitá-los, já estava a caminho do território e tudo que pode fazer era deixá-los examinarem-na.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 11

Desenho monocromático. O desenho mostra um homem sorridente, uma flor adorna seus cabelos volumosos e ondulados. Ele utiliza uma camiseta de manga curta com estampas floridas e está oferecendo um pequeno saco plástico com pílulas. O cenário ao redor mostra vários postes de luz e prédios cortorcidos em direção ao centro.
No topo direito da imagem há o número onde para indicar o capítulo.

Fernando acordou cedo no domingo. Talvez a maioria das pessoas considerasse se levantar às dez horas como tarde, mas para ele era quase como despertar antes do nascer do sol. Um leve aroma de café o capturou antes que botasse os pés no chão.

Foi para a cozinha. O cômodo, e a casa em si, não eram muito grandes, por isso tiveram que usar bem o pouco espaço que possuíam. Uma parede da cozinha era dedicada ao fogão e eletrodomésticos, logo depois havia uma linha de balcões com topo de madeira e metal para a pia. No lado oposto tinha uma mesa suspensa, e sentado em uma cadeira alta, estava Gabriel.

Se serviu do café enquanto refletia a semana que passou. Por algum motivo, esperava que a vida fosse mudar após vencerem o originador do metrô, porém ali estava ele, quase um mês depois, igual ou até pior. Era como se a realidade jogasse na sua cara que não fizera nada demais.

O cansaço com as entregas estava cobrando seu preço: acordou atrasado mais vezes do que de costume. Na quarta-feira sua demora foi de quase uma hora e arriscou-se mais do que o normal na ida até a padaria, além de fazer tudo às pressas neste dia. Não ajudava que o lucro com o estabelecimento diminuía e, por mais que chorasse pedindo descontos ao fornecedor, não conseguiu segurar a subida de preços. Os gastos minuciosamente calculados foram ralo abaixo.

Queria apenas ficar na cama e descansar, só se levantou cedo no domingo por conta de uma mensagem convocatória de Nicolas no meio da semana. Seja lá o que fossem fazer, esperava que não demorasse demais. Teria que ver uma forma de equilibrar as contas da casa mais tarde. Se continuasse nesse ritmo, talvez abandonasse o grupo. Não, não podia fazer isso. Quem cuidaria dos outros na sua ausência?

— Ô! Bom dia. — Gabriel balançou a mão perto do rosto de Fernando.

— Bom dia.

Voltou ao mundo real, trocando um olhar com o namorado, que por sua vez tomava um longo gole de café sem desviar os olhos. Fernando forçou um sorriso, não era assim que queria começar seu suposto dia de descanso.

— Desculpa, eu estava pensando no compromisso de hoje.

— Compromisso?

— Eu te disse.

Ou será que não? A bobeira da manhã ainda não passara, precisava daquele café. Sorveu um longo gole enquanto Gabriel falava:

— Não falou não.

— Talvez, provavelmente, possivelmente, eu tenha esquecido de te contar.

— É? Será? Ou será que contou pro amante e se confundiu?

Fernando estacou. Que papo era aquele de amante? Baixou a xícara de café. Um sorriso surgiu no rosto de Gabriel.

— Te peguei!

Fernando revirou os olhos em um movimento encenado.

— Um antigo colega do trabalho me convidou pra passar na casa dele. — Odiava mentir, mas seria complicado explicar a verdade. Além do mais, seu compromisso não era nenhum tipo de traição e nem faria nada errado.

— Ué? — Gabriel bebericou. — Pessoal da concessionária ainda mantém contato contigo?

— Não, também achei estranho. Mas vou ir mesmo assim, fazer algo diferente, sabe?

— Tá certo, vai ser bom para ti. Tu passa tempo demais na padaria, sei que é teu sonho, mas o ritmo está difícil… — Gabriel deixou a boca aberta por um momento, mas seja lá o que ia dizer, morreu em seus lábios.

Fernando encarou a xícara e tomou mais alguns goles. Sabia onde chegariam se deixasse o namorado continuar. Recorrer à família estava fora de questão, não conseguiria encará-los. Pensou em algo para trocar de assunto e, por sorte, ele acabara de passar por sua garganta mais uma vez.

— O café está diferente, comprou de outra marca?

— É o gosto de novos sabores. — Gabriel se levantou e foi até o armário, puxando um pacote de café fechado por um prendedor. — Comprei lá no mercado público.

— É bom, eu gostei. Foi muito caro?

O namorado encarou-o com uma expressão séria.

— Não me venha com seus papos de murrinha.

— Eu só perguntei…

— Tô sabendo. Só toma aí e fica quieto.

Fernando olhou de volta para a xícara. Apreciou o gesto de Gabriel, era raro que fizessem algo diferente. Mas não deixaria de pesquisar os preços da marca, por curiosidade, é claro.

Pouco mais de uma hora depois, estava na padaria. Havia deixado a mochila de entregas ali no dia anterior. Já dera tudo de si para inventar a mentira do ex-colega de trabalho, seria impossível criar uma justificativa para sair com a mochila junto.

Botou ela nas costas e fechou os olhos. Ir para o farol estava cada vez mais fácil e bastou um segundo para sentir a mudança no ambiente. Chegando lá, viu Nicolas ao seu lado, olhando pela janela.

— Só nós hoje? — perguntou Fernando.

— Sim. — O homem fitou o padeiro. — Eu iria sozinho, mas é bom que mais alguém no grupo saiba disso.

— O que vamos fazer?

— Encontrar uma pessoa, mas antes precisa me prometer sigilo completo da identidade dela. Até mesmo do restante do grupo.

— Espera aí! — Levantou as mãos. — Por que não vai contar para as duas?

— Porque essa pessoa gosta de manter a identidade em segredo.

— Até parece, se for um zé ruela como nós, mesmo com o nome ninguém vai saber quem… Espera! É alguém famoso né?

— Sim.

— Tipo o Brad Pitt?

— Ele aparece na televisão todo dia.

Certo, bem famoso, mas não ao nível de astro de cinema. Fernando assentiu devagar e disse:

— Tudo bem, prometo manter segredo.

— Então vamos.

Nicolas esticou a mão e segurou o pulso do colega. O cenário mudou e foram para o canteiro central de uma avenida. Para a esquerda e direita, apenas a linha de luzes denunciava a passagem de carros e motos nas quatro pistas em cada lado. Após a estrada, prédios tortos se erguiam, encostados uns contra os outros e inclinando-se na direção da avenida. Era como o território seguro em que ficavam, mas distinto também, como se algo faltasse.

O líder soltou Fernando e caminhou pelo canteiro com o chão repleto de grama alta, quase batendo nas canelas. O padeiro seguiu ao lado do companheiro a passos rápidos, quase ultrapassando-o.

— Aqui é como o farol?

— Sim, um território sem dono, sem predadores. Seguro e limitado.

— E por que eles existem? Achei que os predadores criassem o território.

— Essa é uma pergunta para a qual ainda não tenho resposta. — Nicolas ajeitou a gola. — Acredito que primeiro nasce um território, e em seguida ele é dominado por um originador.

— Então o farol pode virar um território de predador a qualquer momento?! E se ficarmos presos nele?

— Por isso estamos aqui, vamos arranjar uma forma de fugir quando quisermos.

— Entendi. — Fernando assentiu. — Até que tu pensa nas coisas.

— Sim.

Com a resposta seca, o padeiro seguiu em silêncio. Conseguia respeitar a atitude quietona de Nicolas, mas bem que ele podia tentar ser mais emotivo.

Caminharam por cerca de dez minutos no território. A todo momento tentou enxergar alguém mais adiante, uma silhueta que fosse, para indicar que estavam perto. Queria descobrir logo quem era a tal pessoa. Em dado momento, a avenida fazia uma curva acentuada para a esquerda e, no meio desta curva, Fernando viu alguém. A princípio parecia uma pessoa comum, mas conforme se aproximaram, a estranheza foi trocada por reconhecimento. Quando Nicolas falou em famoso, imaginou que fosse ser um jornalista, não um ator, mas ali estava Rafael. Um dos destaques da novela das nove.

Com o cabelo loiro volumoso e ondulado, junto a uma franja, uma camiseta branca de manga curta com estampas de flor, bermuda de tactel esverdeada e chinelos de dedo, Rafael parecia mais jovem que na novela. O próprio sorriso que ele deu ao ver os dois diminuía a idade. O único detalhe que parecia fora de lugar era uma flor branca e bonita, presa à orelha direita. Ele levantou os braços e abanou enquanto se aproximava. Nicolas parou de caminhar.

— Nicolas! — Rafael se aproximou. — Há quanto tempo? Não acreditava que estaria vivo. — Olhou para Fernando. — Até arranjou um companheiro. — Uma lágrima escorreu pelo olho direito, Rafael limpou na hora com o indicador. — Tão emocionante.

Além da estranha atitude do ator, estar na presença de alguém famoso fez com que o padeiro se reduzisse a um mero observador. Era incapaz de proferir uma palavra que fosse.

— Ele é Fernando, estamos juntos há pouco tempo, mas já eliminamos um território.

Rafael moveu o olhar para Nicolas.

— O metrô? Cara, aquele lugar era bizarro! Nunca gostei de metrô. — Seu foco se voltou ao outro. — Como você aguenta esse cara? — Apontou para Nicolas. — Eu não aguentei.

Fernando se obrigou a responder. Ora essa, não tinha mais dez anos para ficar todo tímido por aí!

— É só pensar nele como um robô, funciona bem.

— Há! Esse é dos meus. — Rafael alternou sua atenção entre os dois. — Aliás, o que você faz? Tem a ver com sua mochila?

— Rafael, objetividade. — Nicolas se intrometeu. — Conseguiu as pílulas?

— Objetividade. — Mimicou o ator, com uma voz mais fina. — Sempre com esse papinho.

Ele colocou a mão no bolso da bermuda, puxou um plástico com oito cápsulas brancas de dentro e estendeu aos dois. Nicolas fez menção de pegar as pílulas, mas Rafael se moveu rápido, segurou o pulso do outro e disse em um tom de voz baixo:

— Muitas fugas para dois. Têm quantos no grupo? Três? Não, a quantidade não bate. Quatro?

Os dois apenas se encararam por alguns segundos. Então o ator soltou Nicolas e jogou o plástico para ele.

— Lembre-se que, quanto mais gente, maior o risco. — Não havia mais sorriso no rosto do loiro.

— Você cuida das suas coisas que eu cuido das minhas — respondeu o engomadinho, guardando o plástico no bolso.

— E então? — Rafael voltou a sorrir, subindo e baixando as sobrancelhas.

— O território é um bosque. As árvores são todas iguais, é sempre noite e abafado por lá. Vai ver vários pássaros te observando, mas são inofensivos se não estiverem ativos. Não peça ajuda ou isso vai fazer os predadores te caçarem. E cuidado com o urubu.

— Parece bom. Vai servir.

Antes que uma despedida pudesse ocorrer, Nicolas segurou Fernando pelo pulso. Um momento depois estavam de volta ao farol. Foi uma interação estranha, e isso que a barra de normalidade vinha se alterando nos últimos tempos.

— O que foi isso? — perguntou Fernando.

Nicolas não respondeu, apenas o soltou, tirou as pílulas do bolso e as observou.

— Silêncio não vai funcionar comigo, tu sabe.

— É a negociação que fazemos. Rafael conhece o fornecedor e consegue as pílulas de fuga para mim. Só que ele exige a localização de um território em troca.

— Localização? Tu só disse como o lugar é.

— Há duas maneiras de descobrir um território, a primeira é senti-lo quando se forma ou quando alguém for raptado perto de você. A segunda é tendo detalhes sobre ele, facilita a visualização e transporte.

— Entendi… — Fernando coçou o queixo. — Espera, então ele é como nós? Tentando se livrar dos predadores?

— Não. — Nicolas balançou a cabeça em negativa. — Se nós caçamos para eliminar pragas, ele caça por esporte.

Fernando não pode deixar de franzir o cenho.

— Esporte? Mas…

— É a diversão dele.

— Caralho! Como que arriscar a vida numa merda dessas é a diversão de alguém?

— Pessoas podem se divertir com qualquer coisa.

— E aquilo que ele disse no final. Por que é arriscado com mais gente?

— Eu pretendia tocar neste assunto depois, mas tudo bem, está na hora. — Nicolas guardou o plástico no bolso do paletó. — Nosso poder normalmente é concedido por um objeto, nosso instrumento, ou vestígio como Rafael gosta de chamar. Minha corda, sua mochila, a jaqueta de Bárbara. Se um de nós morrer e o instrumento for tomado, o novo dono poderá usar os poderes do antigo.

Nicolas cessou a explicação. Um silêncio repentino tomou o farol enquanto Fernando aguardava uma continuação, mas esta não veio. Resolveu romper o silêncio.

— E por que não contou isso antes? — questionou, segurando os ombros de Nicolas com as duas mãos.

— Como confiar em alguém que possa ter motivações obscuras? Que pode se aproveitar de um momento de fraqueza para roubar seu vestígio? — Os olhos quase reptilianos de Nicolas o encararam. — Não posso ter um grupo desunido que se imploda na primeira dificuldade.

— E para isso tu mantém segredos que deveriam ser compartilhados? Como vamos confiar em ti assim?

— E o que faria com essa informação?

— Eu tomaria… — Fernando se interrompeu. Era exatamente o que Nicolas falara antes, tomaria cuidado com os outros. Uma semente de suspeita seria plantada em sua mente e a flor dela era capaz de impedir a colaboração entre os membros do grupo. — Está bem, eu entendi. — Passou a mão nos cabelos, se ele não gostou de ouvir isso, não queria nem imaginar a reação de Bárbara. — Quando vai contar para os outros?

— No próximo encontro.

— Deixa que eu faço isso.

— Por quê?

— Porque tu explicando é horrível. Temo até de pensar tu dando a notícia da morte de alguém.

Assim que voltou à padaria, Fernando pegou seu celular e pensou em que mensagens mandar, e em como criar um ambiente agradável o suficiente para contar o que precisava. Não precisou refletir muito, a solução estava bem na sua cara.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 10

Desenho monocromático. O desenho apresenta uma perspectiva de cima, mostrando Nicolas sentado na parte de baixo de uma escada dobrável. No topo direito da imagem há um vislumbre de uma corda.
No topo da imagem há o número dez para indicar o capítulo.

Alguns meses antes…

A luz que entrava através das cortinas do escritório diminuía cada vez mais. O dia estava perto do fim após uma tarde inteira em frente ao notebook, digitando frases apenas para interrompê-las por um novo fluxo de pensamentos, então as apagava e recomeçava.

O alarme do celular tocou sinalizando que eram duas e meia da tarde. Fechou o documento de texto sem salvar e desligou o computador. Enquanto se levantava, teve uma percepção que agora lhe parecia tardia: era inútil deixar algo escrito, quem leria?

Saiu pela porta do escritório, chegando na sala de estar, mantida na penumbra através de persianas blecaute bem fechadas e ausente de quaisquer móveis. Nunca foi de encher a residência com decorações, preferindo uma vida frugal. Mesmo assim, nem o sofá onde apagara algumas vezes enquanto assistia seriados e filmes sobreviveu ao impulso repentino que lhe acometeu semanas atrás. Vendeu tudo que não era necessário, ficando apenas com os pertences do escritório, cama e eletrodomésticos da cozinha.

Acendeu a luz da sala e olhou para a viga grossa que atravessava o teto de um lado a outro. Sim, serviria. Foi até um canto da sala onde sua mochila estava atirada e pegou a carteira, confirmou a existência de notas de cinquenta junto dos cartões de crédito e colocou-a no bolso. Saiu do apartamento.

Voltou um tempo depois, carregando uma escada dobrável, uma corda grossa e a furadeira mais potente que a ferragem oferecia. Abriu a escada embaixo da viga e ligou a furadeira na tomada. Lembrou-se do período de silêncio no prédio, com certeza receberia uma reclamação dos vizinhos e uma advertência do síndico, talvez uma multa se ele estivesse de mau humor. Deu de ombros e começou a trabalhar.

Não levou muito tempo para que se cansasse. Mesmo com a furadeira potente era necessário esforço para atravessar o concreto. O sedentarismo que existia desde o início da vida adulta fazia seu corpo exaurir-se mais rápido do que deveria e não ajudava que passou a viver de hambúrguer, cachorro-quente e pizza quando se demitiu. Depois de muitas pausas e goles de água, conseguiu, enfim, abrir um buraco de um lado a outro.

Passou a corda pela abertura e deu um nó na ponta. Nicolas bem sabia que não era o método menos indolor, no entanto era um dos poucos que estava disposto a fazer. Sentou-se no degrau da escada e ficou olhando para a porta de saída do apartamento. Sua mente era uma revoada de pensamentos, indo de recordações eventuais até conversas que nunca teve. Deixou-se levar e fechou os olhos.

O burburinho do início da noite chegou até ele. Motos acelerando, buzinas, um ônibus freando violentamente na rua. Podia apostar que dentro do veículo, muitos passageiros estariam cansados, sustentando um olhar quase catatônico em seu rosto na volta para o lar, alguns teriam encontrado um conhecido na viagem e estariam, com sorte, sentados lado a lado, deixando as conversas do dia a dia fluírem sem rumo e sem lógica, uma distração como qualquer outra. Se tivessem azar, um pequeno grupo decidiria que a viagem era o momento ideal para compartilhar seu gosto musical em volumes audíveis além das conversas inúteis e mentes isoladas. Conhecia bem a rotina e os padrões, agora abandonados e deixados de lado, insignificantes e desagradáveis.

Foi mais longe, chegando na fronteira entre sonho e realidade. Estava em um ônibus semileito, viajando para Nova Petrópolis. A cabeça apoiada na janela via a paisagem transcorrer. Árvores e casas na beira da estrada, vacas e ovelhas, postes de luz e placas de trânsito. Passavam cada vez mais rápido, acelerando até que fossem apenas borrões. Sol e lua subiam e desciam dos céus a cada segundo. Uma mão tocou em seu ombro e Nicolas tirou os olhos da rua. Ao seu lado, um rosto esquecido, borrado e morto lhe observava.

— Nos veremos em breve.

Seu celular bipou. Abriu os olhos e o checou. A tela dizia apenas que ele ganhou um cupom na compra do próximo jantar. Cinco reais de desconto. Levantou-se, não haveria nova refeição.

Subiu todos os degraus, passou a cabeça pela corda e empurrou a escada com o pé. O pescoço não quebrou. Nicolas resistiu por um centésimo de segundo que pareceu infinito, mas acabou levando as mãos até a corda, tentando se soltar. O último esforço de um corpo com mente derrotada. Não conseguiu, tinha pesquisado durante dias a melhor forma de fazer o nó. Nada de voltar atrás. No desespero, arranhou a corda e o pescoço. As unhas arrebentaram e sangraram, dificultando ainda mais a inútil tarefa de escape. Tentou puxar ar. Tentou viver.

Falhou.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 9

Desenho monocromático. O desenho mostra Nicolas, sentado em uma cadeira de escritório e com uma corda com nó de forca pendendo de seu pescoço. Ele está observando uma pequena pílula entre seus dedos. Ao seu lado, está uma escrivaninha com notebook em cima.
No topo da imagem há o número nove para indicar o capítulo.

Surgiram no interior do farol. Nicolas não perdeu tempo e deitou Dominique no chão, trocando um breve olhar com Fernando. O peito da idosa subia e descia com dificuldade, a respiração era entrecortada e o braço esquerdo estava mole e dobrado em um ângulo estranho. De tudo isso, foi a perna que mais chamou a atenção de Fernando. Na canela, próximo ao joelho, a pele se abria em uma vermelhidão de sangue e músculos, e no meio disso tudo despontava algo reto e quebrado com tons fracos de vermelho misturados ao branco. O padeiro tentou lembrar-se qual era o nome do osso na canela, mas logo chacoalhou a cabeça e abriu sua mochila de entregas. Não era médico ou cirurgião para decorar detalhes de anatomia, sua cura era diferente, e seria dolorosa para ele.

Pegou um dos alimentos e aproximou-se de Dominique, ainda desacordada. Deu tapinhas no rosto dela enquanto gritava por seu nome. Tinha uma técnica para fazer pessoas engolirem coisas enquanto inconscientes, não tinha? Por que nunca pensou em fazer algo tão básico quanto aprender primeiros socorros antes?!

— Temos que levar ela para um hospital! Vai se quebrar todo se curar isso! — disse Bárbara.

— Fernando é mais eficiente que qualquer tratamento.

— Eu vou quebrar teu braço para tu ver como dói. Quero ver recusar hospital depois disso. — Bárbara se aproximou de Nicolas, ficando com o rosto a centímetros dele.

— Fiquem quietos! — gritou Fernando. — Eu faço isso, vai dar certo.

Toda a gritaria e desespero serviu para acordar Dominique, que abriu os olhos devagar e emitiu um gemido. Fernando aproximou o pão de sua boca.

— Por favor, coma. Vai ficar tudo bem.

Ela obedeceu sem falar nada, a dor deixando de lado qualquer cerimônia ou hesitação enquanto mordia o alimento. Fernando temeu que não fosse funcionar, pois até a última mordida, nada acontecera. Foi só depois de alguns segundos que começou o processo de cura. A dor veio com um estalo, começou nas costelas já quebradas, e então se espalhou pelo restante do corpo. Ele sabia que ia ficar pior e sua consciência não resistiu a fratura no braço e o quebrar da perna.

Quando voltou ao mundo desperto, se é que podia chamar aquele lugar por esse nome, Dominique e Bárbara estavam ao redor dele. A idosa estava recuperada, com as pernas da calça manchadas de sangue, mas inteira. Bárbara não tinha nenhuma mancha de ferrugem no corpo e as rachaduras desapareceram. Fernando agradeceu por isso, não queria passar por outra sessão de dor tão cedo. Seu corpo já estava quase bom, tudo ainda doía, porém não parecia mais que fora atropelado por um ônibus da Soul.

Quase uma hora depois, sentiu que conseguiria se levantar e voltar para a padaria. As mulheres lhe fizeram companhia durante o processo, conversando sobre amenidades do dia a dia.

— Acho que devemos voltar — disse Fernando, levantando enquanto apoiava a mão na parede.

— É, deve estar tarde. — disse Bárbara. — Vou acordar podre amanhã.

— Eu vou acordar bem tranquila. — Dominique abriu um sorriso. — Nada como os benefícios da aposentadoria.

— Nem me fala! — Bárbara riu. — Já, já eu chego lá.

— Esse teu “já, já” vai levar muitos anos — provocou Fernando.

Bárbara olhou na direção de Nicolas. O líder do grupo estava do outro lado da sala, olhava para o horizonte há algum tempo. Ela suspirou, foi até ele e trocou algumas palavras de despedida. Em seguida voltou até Fernando e se preparou para dar um abraço.

— Não, não as costelas! — avisou Fernando.

— Verdade, desculpa. — Ela parou com os braços no ar, os levou até o lado do corpo e então lhe deu um beijo na bochecha. — Obrigada pelo apoio lá.

— Só fiz o que achei certo — respondeu Fernando.

— Nem todo mundo faz o certo. Enfim, até mais!

E com isso, Bárbara desapareceu.

— Você ajudou bastante. Até peço desculpas, se eu fosse mais cuidadosa não teria quebrado nada — disse Dominique, colocando levemente a mão sobre o ombro de Fernando.

— Que isso, estou aqui para cuidar de todo mundo. E tu também ajudou, todos ajudaram.

A idosa sorriu e lhe deu um beijo no rosto.

— Tchau.

Ela se aproximou de Nicolas, o abraçou e se despediu com um beijo no rosto, desaparecendo em seguida.

O líder olhou em sua direção e se avizinhou.

— Você deveria voltar e descansar — disse ele.

— Eu vou, só estava esperando para me recuperar. — Fernando moveu os ombros, a dor tinha aliviado um pouco mais. Deixou-se sorrir. — Fora daqui eu não conserto ossos quebrados.

— Entendo.

— E tu, não vai voltar? — perguntou Fernando.

— Vou.

— Tá… — Fernando olhou para baixo, então de volta para o rosto de Nicolas. — Eu sei que disse algumas coisas pesadas para ti, e saiba que não me arrependo! Mas vencemos um originador hoje e destruímos um território, as pessoas vão ficar mais seguras. Obrigado por isso.

— Eu que deveria agradecer por acreditarem em mim. Você, Bárbara e Dominique são ótimos. — Nicolas esticou a mão.

Fernando estranhou o gesto, mas a apertou. Se contentaria com aquele elogio vindo do homem que demonstrava tanta emoção quanto uma pedra.

— Iremos nos reunir de novo em breve? — perguntou Fernando.

— Vou procurar outro território, mas não se preocupe, te mantenho informado.

Pensou na sua padaria e nas tarefas que faria quando chegasse lá. Tinha que terminar os pães que ficaram descansando. Ia ser uma noite longa e dolorida, mas daria conta. Sentia-se com mais energia do que nunca. Fechou os olhos e quando os abriu, voltou ao trabalho.

***

Nicolas voltou para sua casa, em específico para o escritório. O cômodo estava bem cuidado como sempre, deixar lixos no local de trabalho era uma das inúmeras maneiras de criar um ambiente propício ao fracasso. Sentou-se em frente ao notebook e o ligou. Nos poucos segundos em que aguardava, tirou do bolso uma pílula branca e a apertou de leve entre polegar e indicador. Logo deixou a cápsula de lado e navegou pelas pastas sobre os predadores. Achou o diretório com o título de “Território do Metrô” e o abriu. Diversos documentos ali detalhavam o que viu no território, cenário, paisagem, habitantes e predadores.

Escreveu um relatório detalhando sobre a visita final ao lugar. Obtiveram sucesso em destruir o originador, mas o que realmente aprendeu? Não foi muita coisa, mas, pelo menos, descobriu mais sobre seus novos ajudantes. Eram capazes, ainda que pouco eficientes. Precisaram apenas de um empurrão com a segunda habilidade de seu vestígio para seguirem em frente, com exceção de Bárbara. Ela devia ter alguma imunidade a esse tipo de coisa. Só esperava não ter que usar isso sempre.

Anotou a nova descoberta sobre os territórios serem capazes de modificar-se para impedir a fuga deles e também para atacar. Foi uma boa estratégia reunir um grupo de habilidades variadas, ainda que tenha encontrado eles por sorte, caso contrário teriam morrido em alguma parte do metrô. Se comparado com o território da rua infinita, em que o terreno era mais aberto e a fuga mais fácil, este foi complicado. O originador, no entanto, acabou sendo parecido. No primeiro, precisou apenas encontrar a criança certa, a criança de verdade, para enforcar. No metrô, a situação foi a mesma, só passou por uma espécie de guardião antes. Talvez os originadores fossem limitados em suas capacidades. Ou talvez ainda estejam evoluindo, conforme aquela criatura mencionou.

O relógio no computador sinalizou oito horas da manhã. Suspirou e deu uma olhada nas notícias mais recentes. Encontrou apenas uma, em um site de notícias da capital, sobre pessoas consideradas desaparecidas ressurgindo. Certamente algum familiar do jornalista fora raptado, caso contrário só veria algo do tipo no meio do dia e olhe lá. Fechou o notebook e se preparou para dormir.

Procuraria novos territórios quando acordasse. E talvez trocasse uma ideia com um antigo parceiro para disponibilizar uma fuga mais confiável aos outros. Fernando não os deixaria se arriscar tanto se não houvesse uma forma fácil de fugir.