Predadores: A Obsessão – Capítulo 14

Desenho monocromático. O desenho exibe Nicolas, um homem com roupas formais e uma corda de forca no pescoço, em frente a um espelho de banheiro. Na imagem só mostra do nariz para baixo. Nicolas está segurando entre seu polegar e indicador uma escama preta. No lado direito da bancada da pia há uma escova de dente, e do outro lado um relógio marcando uma hora da madrugada. No topo esquerdo da imagem há o número quatorze para indicar o capítulo.

Voltaram ao farol antes que Dominique acertasse um soco em Nicolas. O líder agiu rápido, bastou ela iniciar o movimento para que duas cordas restringissem seu braço direito, outras surgiram para segurar os demais membros e, no meio de um grito, ele enfiou uma pílula goela abaixo nela.

Um filtro foi retirado de sua visão, a voz que sussurrava em sua mente desaparecera e ficou apenas o próprio arrependimento. Os ombros caíram enquanto observava o braço destroçado de Nicolas. No entanto, não foi capaz de formular um pedido de ajuda, sequer de mover-se para auxiliar o líder. A mente estava presa nos últimos minutos, repassando todos os eventos. As mortes, a discussão, a quase briga. Se tivesse acertado o soco, teria assassinado o homem. Sabia muito bem o peso por trás do golpe. Por que quis matá-lo?

Viu Fernando se recuperar um pouco de seu estado quebrado de espírito para curar Nicolas. Seria uma hora muito dolorosa para o padeiro, Dominique devia ficar junto com ele nem que fosse para distrair da dor. Não conseguiu. Algo em si estava diferente, uma indignação que pensou ter se livrado há muito tempo voltara. Enquanto os outros no grupo se ajudavam, ela só foi capaz de aproximar-se dos vidros do farol e olhar o mar. Nicolas foi seu alvo, mas os pensamentos em sua cabeça. Ah! Como eram destrutivos. Culpou cada um no grupo e depois a si mesma. Não podia sorrir e oferecer palavras de alento, não depois de ter desejado a morte de todos.

— Quem eram aquelas pessoas, afinal? — perguntou Bárbara depois de muito tempo.

— Não faço ideia, mas vendo que estavam todos armados, deviam caçar predadores — respondeu Nicolas.

— Como nós, então? — A voz de Fernando veio com uma pontada de dor, aquele embargo na voz, a dificuldade de superar o sofrimento para falar.

— Difícil — disse o líder. — Não vi nenhum vestígio neles e se tinham um, não usaram. Acho que só tinham as armas de fogo mesmo. Talvez fossem um grupo que sabia o que estava acontecendo e resolveram enfrentar sozinhos.

— Então como foram parar lá? Digo, fomos porque sentimos o território se formando, mas eles não devem ter sentido. E duvido que seja coincidência de estarem armados e preparados bem quando o predador os puxou.

— Não sei, precisarei investigar.

— Seria bom saber, porque olha, tem que ser muito maluco para entrar lá só e sem os nossos poderes. — O que era aquele tom de Bárbara? Deboche?

— Está culpando-os agora por terem ficado no nosso caminho? — disse Dominique com a voz mais alta que o normal e virando-se para o grupo.

Estavam todos em um estado tão lamentável que não pareciam as mesmas pessoas que riram e comeram juntos pouco tempo atrás. Sangue seco manchava o terno e calças de Nicolas na parte direita do corpo, os jeans de Bárbara revelavam a destruição que ela causou em um dos corpos e Fernando, apesar de ser o mais limpo, tinha traços de sangue do joelho para baixo, nas mãos e antebraço.

— O quê? Claro que não — defendeu-se Bárbara.

— Não é o que parece. — Dominique cerrou os punhos. — Matamos pessoas hoje. Cinco! E estamos aqui tentando entender como foram parar lá e porquê. Não é isso que deveríamos fazer. Nós… nós deveríamos nos entregar, dizer que cometemos assassinato.

A última frase fez qualquer resposta que estava prestes a sair da boca de Bárbara morrer ali mesmo.

— Se entregar para quem? Ninguém vai acreditar, aliás não foi nossa culpa — disse Nicolas, neutro como sempre. — Foi o território, o predador. Aquelas ilusões nos enganaram e não tinha como prever que nossos atacantes eram pessoas. Além do mais, eles agiram primeiro, nós só nos defendemos.

— Você deveria ter previsto isso! É nosso líder, sabe mais que qualquer um como os predadores funcionam! Por que não mandou voltarmos na primeira ilusão? — bradou ela.

— Calma, não tem como alguém pensar em tudo — disse Fernando, em tom apaziguador.

— Não, ela tem razão, é minha culpa. — Por que Nicolas não se alterava? O que tinha de errado com ele? — Eu achei que, enquanto Bárbara e eu pudéssemos escapar das ilusões, tudo ficaria bem. Me enganei, devemos deixar esse território de lado até que tenhamos uma forma confiável de passar por ele.

— Isso não resolve nada! Pessoas morreram por nossa causa… Nenhuma palavra vai trazer elas de volta, nada vai.

Por que estava discutindo? Onde queria chegar com aquilo? Seus próprios pensamentos pareciam tão nublados. Não aguentava mais ficar ali, olhando para eles, julgando os companheiros e a si mesma. Se virou na direção da escada e desceu correndo. Sabia que não precisava fazer isso, bastava um pensamento para que se visse em sua casa, mas não queria voltar. Saiu do farol e disparou pela imensidão verde daquele território vazio. Queria se cansar, queria ficar sem energias para se lamentar, queria apenas fechar os olhos e dormir.

Seu corpo, esse corpo novo, não cansava fácil. Ela correu e correu, mas quanto mais fazia isso, menos cansada se sentia. A brisa em sua face não trazia a mesma frescura de antes, agora era um vento álgido que lhe afligia o rosto e orelhas. O suor escorria por seus braços e costas como não fazia há muitos anos. Mas não conseguia se cansar.

Por fim, desistiu e rumou até o mar, tirou suas roupas e lavou o corpo na água gelada e salgada, tentando tirar os resquícios de sangue da pele. De corpo limpo, aguardou na beira da água enquanto secava.

Depois, simplesmente voltou para sua casa, para seu quarto. Afundou o rosto no travesseiro e deixou as lágrimas escorrerem dos olhos. Aquela não era liberdade que tanto desejara.

***

A partida de Dominique foi um choque. Nenhum deles teve forças para ir atrás dela, até mesmo Fernando estava cansado e dolorido demais para fazer algo. Seu braço ainda se recuperava do tratamento fornecido a Nicolas e a cabeça não conseguia acompanhar tudo que transcorria. Depois da saída da idosa, ficaram em silêncio e evitaram olhar uns para os outros. Se não fosse por Bárbara se mexer, talvez tivessem passado mais de horas ali, parados, esperando por algo que não sabiam.

— Tenho que ir. Mesmo depois disso tudo ainda tenho trabalho amanhã.

— Merda, tem razão. — Fernando juntou o que restava das forças e se levantou. Não conseguiu evitar de olhar para as marcas de sangue em si e nas roupas. — Ah cara, vai ser uma mão voltar para casa assim.

— Não é só tomar um banho?

— Sim, mas eu estava na padaria antes. Até tenho roupas de reserva, mas… Eu não quero me lavar na pia.

— Vem pro meu apê. Não é grande coisa, mas tem um chuveiro.

Quase perguntou para Bárbara se tinha certeza daquele convite, mas resolveu não. O que mais faria? Deixaria vestígios de sangue na padaria? Iria para casa todo sangrento e arriscando ser visto por alguém? Seria o inferno se alguém o visse. Seria um inferno maior ainda se o alguém fosse Gabriel.

— Aceito.

Olhou para Nicolas, quieto todo esse tempo. Ele estava com um olhar distante e pensativo. Mesmo depois do que tinham passado, era como se houvesse uma barreira entre o líder e os demais, não parecia haver abertura nem mesmo para se despedir. Mesmo assim, arriscou:

— Até mais, eu hã… sinto muito por hoje. Não ajudei muito.

— Até.

Vendo que não arrancariam muitas palavras de Nicolas, Fernando se virou para Bárbara. A mulher pegou no seu pulso e fechou os olhos por um instante. O terreno ao redor deles mudou, ficou escuro e com um cheiro de umidade, a temperatura caiu de uma hora para outra e sentiu que estavam em um ambiente fechado.

— Porra! Viemos parar no banheiro.

Bárbara o soltou e andou um pouco para o lado, pisando no pé de Fernando. Não doeu, mas isso fez a mulher recuar com um pedido de desculpas e dar com as costas em algo, espalhando o som de batida em vidro pelo pequeno cômodo.

— Porcaria! Se eu quebro o box a dona vai ficar putaça.

Conseguiu sentir a presença de Bárbara se aproximando dele. Momentos depois a luz foi acesa. O banheiro era pequeno, contendo uma pia com pasta e escova de dentes largadas em cima dela. Um espelho mostrava os dois próximos um ao outro, ambos em estado lamentável. O box em que sua anfitriã deu com as costas tinha espaço para um banho sem muitos movimentos, talvez se abrisse demais os cotovelos ia bater nas paredes.

— Desculpa, nunca surgi no banheiro antes. — Bárbara esfregou as mãos por um instante. — Vou pegar uma toalha para ti. Aguenta aí.

Ela tirou as botas com o solado sujo e saiu do banheiro, entrando na sala de estar. Fernando não resistiu à curiosidade e deu uma olhada no resto do apartamento. Era desorganizado, mas não sujo ou malcuidado. Viu algumas roupas jogadas aqui e ali, umas caixas de papelão atiradas em um canto abandonado da sala, uma televisão e um sofá.

Bárbara voltou com uma toalha em mãos. Era bege e estava dobrada de forma que mostrasse as palavras da dona no tecido. Alcançou-a para Fernando, que quase pegou, mas resolveu perguntar antes.

— Não tem uma mais velha?

— Essa é a mais velha.

— É que tem o seu nome e tal, aí né, estarei me limpando de sangue. Não quero estragar.

— Tu vai se lavar antes, sem problema.

Ele deu de ombros e quase pegou a toalha, porém Bárbara afastou a mão no último segundo.

— Esquece, pego outra.

Ela voltou segundos depois, com uma toalha azul-escura em mãos. Desta vez Fernando pegou sem muitas perguntas e fechou a porta do banheiro. Tirou as roupas, entrou no box e girou o registro. A água saiu quente, bem mais quente do que ele queria. Antes que o lombo pelasse, ajustou a temperatura. Ficou fria demais. Lidar com o chuveiro alheio sempre era um desafio. Ajustou e acertou o ponto. Começou a se lavar.

— O que acha que vai acontecer com o grupo agora? — perguntou Bárbara.

— Não faço ideia.

— Será que Dominique vai voltar?

— Eu… não sei, mas espero que sim. Queria ter ido atrás dela.

— Também, mas talvez fosse melhor deixar ela esfriar a cabeça. Falo por mim, mas prefiro ficar sozinha nessas situações. — Pausa. — Eu deveria ter notado a ilusão mais cedo. Ela botou a culpa em Nicolas, mas eu me recuperava mais rápido, devia ter visto…

Outra pausa.

— Por que eu e Nicolas escapamos tão rápido das visões?

— Gostaria de entender isso também, eu… — As imagens vieram nítidas em sua mente. A briga que tivera com o pai quase um ano após reatarem. O celular tocando, trazendo notícias que já sabia, e sendo ignorado por minutos a fio. As mensagens da mãe perguntando se compareceria ao enterro, e sua resposta negativa. Balançou a cabeça. — Tem muita coisa que não conhecemos sobre os predadores e territórios.

— Acha que Nicolas está escondendo coisas da gente?

— Ele falaria se fosse importante. Nicolas é meio insensível, mas até agora tem sido sincero.

Apesar das palavras, não conseguiu deixar de se perguntar se era o caso. O líder ocultara informações sobre os vestígios, o que mais guardava para si?

O resto do banho transcorreu em silêncio. Quando terminou, se despediu de Bárbara e agradeceu por tudo. Voltou ao farol e viu o que restava da comida que saboreavam horas atrás, parecia até ter se passado em outra vida. Tampou os potes, desmontou a mesa e dobrou as cadeiras, empilhando tudo e levando de volta à padaria. Uma vez lá, deixou tudo em um canto, botou roupas limpas e tentou se preparar para o dia seguinte. Não foi fácil, mas os deveres da vida mundana nunca sumiam, por mais insignificantes que parecessem as vezes.

***

Não havia um único grama de vitória em suas mãos. Nem mesmo o conhecimento de que um território podia jogar as pessoas em ilusões era algo inédito. A única parte nova era a intensidade de tais visões. Mesmo cansado, Nicolas não conseguia parar de andar de um lado a outro na casa.

Passava pela cozinha quando se iniciou o pensamento de que era um fraco. Um pedaço inútil de bosta que não conseguia diferenciar sonhos de realidade. Deveria ser o líder daquele grupo, encabeçar qualquer desafio e surgir com uma solução, porém o que aconteceu lá? Hesitou em sua determinação, em seu objetivo. Bárbara foi mais rápida que ele, e ainda assim insuficiente.

Estava de volta no escritório quando a cena dos mortos invadiu sua mente. Escorou as costas na parede e levou as mãos ao rosto, arranhando a pele e sentindo algo duro na bochecha direita. Era uma sensação boa, mas forçou-se a afastar os dedos do rosto, não adiantaria nada ficar abrindo ferimentos. Focou no misterioso grupo que enfrentaram. Não se arrependia de tê-los matado, faria tudo de novo. Se lamentava mesmo de não ter ordenado a fuga quando percebeu que as ilusões eram fortes. E, para sua surpresa, foram jogados de uma direto em outra. Os predadores estavam evoluindo cada vez mais, ao passo que ele ficava para trás.

O abalo do dia levaria suas atividades a um hiato. Quanto tempo duraria? Quantos voltariam a atuar? Não tinha como dizer, mas esperava que fossem todos. Teria que pensar em uma forma de forçá-los se fosse necessário, não tinha tempo para se preocupar com sentimentos.

Moveu-se da parede e voltou a andar. Entrou no banheiro, abriu a torneira e lavou o rosto, tentando tirar alguma sujeira que estava incomodando-o. Foi um erro entrar em um território novo sem qualquer tipo de preparação. Começaria a explorar novos alvos sozinho antes de levar o restante do grupo, eles eram capazes, mas algumas coisas apenas poderiam ser feitas se estivesse sozinho. Sim, era um bom plano e que dependia somente de si. Levou os olhos ao espelho e viu o rosto pálido e molhado, as gotas escorrendo pela pele imberbe até caírem na pia, olheiras profundas revelando noites e mais noites mal dormidas, e os olhos tomados de determinação.

Fitou as mãos e notou a fonte do incômodo no rosto, uma pequeníssima placa orgânica, não maior que seu dígito. Era resistente, ficando inteira após um aperto dos dedos, tinha uma forma quadrada e arredondada nas pontas, além de possuir uma coloração cinza escuro. Não era simples sujeira, e sim algo que traria mais desconforto e o atrasaria por alguns dias. Seria melhor ir ao farol antes que a situação piorasse.

Precisava manter a calma. Não falharia, nunca mais.

Predadores: A Obsessão – Índice

Capa do livro "Predadores: A Obsessão". No centro da imagem, temos um prédio comercial inacabado e laranja. Enrodilhando-se nele há uma cobra gigante de escamas pretas, e com braços humanos saindo pelas laterais de seu corpo. Na cabeça da serpente há um único olho encarando o espectador. Como cenário temos diversos prédios na cor verde, dispostos de forma caótica, que se estendem até o horizonte. Ao fundo, o sol mostra o final da tarde. No topo da imagem está escrito "Predadores: A Obsessão", e na parte de baixo o nome do autor: Guilherme Lopes Lacerda

Índice de capítulos para o livro Predadores: A Obsessão

Status: Em andamento

Capítulos

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Capítulo 12

Capítulo 13

Capítulo 14

Capítulo 15

Capítulo 16

Capítulo 17

Capítulo 18

Capítulo 19

Capítulo 20

Capítulo 21

Capítulo 22

Capítulo 23

Capítulo 24

Capítulo 25

Capítulo 26

Capítulo 27

Capítulo 28

Capítulo 29

Capítulo 30

Capítulo 31

Capítulo 32

Capítulo 33

Capítulo 34

Capítulo 35

Capítulo 36

Capítulo 37

Capítulo 38

Capítulo 39

Capítulo 40

Capítulo 41

Epílogo

Predadores: A Obsessão – Capítulo 13

Desenho monocromático. O desenho é dividido em duas partes. A parte da direita mostra uma casa de madeira, com uma casinha de brinquedo no chão e parte de uma cama. Também há uma janela por onde se veem outras casas. Conforme se olha para o lado esquerdo, a casa desaparece e as paredes se tornam orgânicas, lembrando entranhas e o interior de um corpo animal. No centro da imagem há o número treze para indicar o capítulo.

Estava tudo ali, os brinquedos que se dividiam entre bonecas, caixas cheias até o topo com lego e até mesmo alguns quebra-cabeças. Havia sua cama também, o travesseiro com extremidades verdes e centro amarelo, a colcha estampada da Mulan e até mesmo o abajur na cabeceira.

Bárbara caminhou ao redor da cama, deixando a mão sentir a textura da colcha e a resistência do colchão. Um olhar para a direita revelou a janela do quarto. Saltitou até ela, subiu em um mocho para ganhar altura e olhou para o exterior. Dali tinha uma visão perfeita da rua, conseguia ver o chão de paralelepípedo, os vizinhos cujo filho tinha um cachorro peludão com quem adorava brincar, até mesmo Clara estava lá, em frente à casa de madeira. A idosa viu ela através do vidro e acenou. Bárbara, apesar de incomodada, retribuiu o gesto. Há quanto tempo não via dona Clara?

A mão parou. Exato, há quanto tempo não a via? Uma carranca formou-se em seu rosto. Dona Clara estava morta, um infarto mais de dez anos atrás. Ela tinha algumas opiniões fortes sobre as atitudes de Bárbara e, por ser amiga da família, achava normal expressá-las em quase toda ocasião. Recebendo as palavras ousadas da idosa e sem o apoio da própria mãe, Bárbara tornou a última conversa delas em uma discussão acalorada. Não houve conclusão, uma hora cansou de ouvir todo aquele desaforo e foi embora. Nem um dia depois e ficou sabendo da internação e morte da outra.

Olhou para trás, visualizando novamente o quarto. O local não era real, o verdadeiro nem existia mais. Não estava na casa onde passou a infância. A realização deste fato fez tudo parecer falso, o desenho de Mulan estava borrado e retorcido, seu rosto carecia de proporções corretas. Os brinquedos, na verdade, estavam quebrados e a tinta escorria pelo plástico.

— Não!

Um grito feminino ecoou pela casa inteira. Seus olhos percorreram o aposento até encontrarem a porta. Avançou até ela e abriu. A primeira coisa que enxergou foi a vermelhidão do lugar em que estavam. Era um corredor rubro, feito de um material que oscilava a cada respiração, com lâmpadas comuns que se veria em uma casa qualquer, mas cuja iluminação era fraca e deixava o ambiente à meia-luz.

— Voltou a si? — perguntou Nicolas.

Bárbara olhou para o restante do grupo. O líder estava como sempre, uma expressão neutra encarando-a. Fernando e Dominique se encontravam parados, os ombros encurvados e olhos arregalados. O queixo caído enquanto observavam o nada.

— O que aconteceu com eles? — perguntou ela.

— O mesmo que aconteceu com nós dois.

Bárbara chacoalhou Fernando, tirando-o de seu transe. Fez o mesmo com Dominique em seguida. Os dois pareciam tão perdidos quanto ela ao acordarem. Antes que pudessem fazer mais perguntas, o corredor se contraiu logo à frente deles, expandindo-se em seguida como se fosse um ser vivo respirando.

— Onde estamos? — perguntou Fernando.

Bárbara colocou a palma em uma das paredes. Sentiu o material ceder um pouco, mas ao forçá-lo não conseguiu empurrar mais. Tinha uma sensação quente ao toque, além de ter uma textura esponjosa. Afastou a mão, sentindo-a úmida. Estavam dentro de uma coisa viva.

— Ainda não sei, mas não descobriremos se ficarmos parados aqui. — Nicolas começou a caminhar. — Preparem as pílulas.

Seguiram pelo corredor, fazendo curvas, passando por bifurcações, subindo e descendo inclinações. Acabaram por chegar em uma parte que tinha janelas, do tipo normal que se veria em qualquer casa. Estavam no meio das paredes vivas e, ao chegar perto, vislumbraram o exterior escuro onde nada se via.

Enquanto observava o lado de fora, algo surgiu em sua visão. Era uma mulher alta, com cabelos cacheados castanhos e cara fechada. Usava uma jaqueta de couro com uma camiseta vermelha por baixo. Bárbara virou-se para Fernando, prestes a perguntar se o homem também estava vendo o próprio reflexo. Seus olhos não encontraram o colega, porém, enxergaram um cenário diferente.

— Tem certeza que quer isso? Vai ser bem longe.

Estava em uma sala de estar. Na sua frente via o sofá de três lugares coberto por uma manta branca tricotada. Logo ao lado do móvel estava o rádio que sua avó deixava ligado durante boa parte da tarde para trazer vida à casa enquanto cuidava das tarefas domésticas. Era um modelo usado, porém mais novo que o anterior, tocava tanto CD quanto fita cassete, apesar de que não usavam uma há anos.

Olhou para trás, deparando-se com o balcão onde ficava a televisão de tubo. A monstruosidade eletrônica ocupava metade da bancada, e de cada lado dela havia decorações variadas: alguns gatinhos de cerâmica comprados pela cidade, uma foto da avó com os dois filhos e três netos e uma estátua de Nossa Senhora Aparecida.

Poderia ficar capturando todos os detalhes do cômodo, lembrando-se de como já subira muito naquele balcão, de como uma vez tentara levantar a TV e achou que fosse morrer esmagada, ou de como estragou o rádio antigo por colocar massa de modelar em seu interior. Passou mais de uma década após cada um destes acontecimentos, mas as memórias estavam frescas.

— Oi? Está me ouvindo?

Virou a cabeça para frente, de volta à figura de sua mãe. Por algum motivo, ignorou-a até ali. Diziam que as duas se pareciam muito, mas Bárbara negava. O cabelo, apesar de cacheado, era mais claro na outra, os olhos castanhos na filha eram de um tom esverdeado na mãe. A altura, porém, era a principal diferença. Isabel era uma cabeça mais baixa.

— Estou ouvindo, só estava pensando — respondeu Bárbara. Ver a mãe ali, sentada e preocupada, lembrou-lhe do que estavam discutindo.

— Será que tu não consegue algo aqui? Mesmo que seja em outra área…

— Mesmo que eu consiga, ficar no interior não tem futuro. Ainda mais se eu pegar algo fora da minha formação.

— Mas…

— Não quero passar o resto da minha vida fazendo algo que não gosto. Ir para a capital é minha chance! E diferente de outras pessoas, não vou sem um emprego definido.

— E se te demitirem logo em seguida? E se quiserem se aproveitar de ti lá? Vai estar sozinha, sem família para te dar uma mão.

— Eu sei me virar! — disse Bárbara, o tom de voz mais alto. — E até parece que estar aqui vai me proteger de alguma coisa.

Não protegeu a mãe de ser abandonada pelo marido, tampouco ajudou quando começaram as brigas diárias com o namorado. Dois relacionamentos fracassados em que ninguém, familiar ou amigo, moveu um dedo para ajudar. Não era algo que jogaria na cara dela sem um bom motivo, mas odiava aquela preocupação toda. Pareciam querer contê-la a todo custo. Sempre foi assim.

Mas no fim Isabel até que tinha razão. Quando se mudou, seu único conhecido próximo passou a ser Igor. Espera? Como sua mãe poderia ter razão se nem se mudou ainda? Sentiu algo se movendo na visão periférica e observou o cômodo com o canto do olho. As paredes não eram de madeira e sim daquele material bizarro e vermelho. O chão não era firme, oscilava e era macio. Tivera aquela conversa antes, mas nada daquilo era real.

Trincou os dentes enquanto via o sofá e a mãe desaparecem diante de seus olhos, dando lugar a Fernando, mais uma vez com a expressão distante. Ao seu lado, Nicolas balançava a cabeça.

— De novo? — rosnou Bárbara.

— Sim — respondeu o homem. — Parece ser a forma que esse território funciona.

Balançaram os dois colegas, retirando-os da ilusão.

— Espero que isso não aconteça mais vezes — disse Fernando.

— Vai acontecer — falou Nicolas.

— Por quê? — perguntou Dominique. — Não é como se isso fizesse muito mal a nós, além de nos fazer perder alguns minutos.

— Bem, prefiro isso que o metrô. — Fernando olhou em volta. — Não tem nenhum monstro nos atacando pelo menos.

— É um originador novo, talvez seja só isso do que é capaz de fazer. — Nicolas coçou a têmpora. — Vamos continuar, talvez encontremos algo que nos ajude a eliminar o predador em uma próxima vinda.

O grupo voltou a prosseguir pelo corredor. Em alguns minutos de caminhada, apareceram diversas passagens à esquerda e à direita. Cada uma levava para uma espécie de cômodo.

— E aqui são as salas de reunião — disse a voz da mulher que os guiava. Ela trabalhava no RH da empresa e era a responsável por realizar a integração dos novos empregados, ou como gostavam de chamar, colaboradores. O grupo de Bárbara era pequeno, apenas cinco jovens tão nervosos quanto ela com o primeiro dia de trabalho.

A motoqueira cerrou os dentes, reconhecendo a cena como uma ilusão. Já tinha passado por duas, não seria afetada por uma terceira. Avançou no meio do grupo, empurrando seus novos colegas e ultrapassando a moça do RH. A ilusão se desfez, e Bárbara enxergou o verdadeiro propósito das enganações. À frente dela estavam cinco predadores.

O corpo inteiro era vermelho, lembrando uma ferida inchada, da cintura para baixo não haviam pernas, apenas uma massa disforme que se conectava ao chão como se fossem protuberâncias. O tronco tinha um formato mais humano e aparência muito magra, mas sem mostrar costela alguma. Os braços eram longos e estranhos, quase tentaculares. Mal conseguiu identificar o rosto deles, apenas notou que tudo parecia deslocado. Os olhos estavam espaçados demais, um próximo ao queixo e outro perto do topo da testa. A boca estava em algum lugar entre eles, e não se via o nariz ou as orelhas.

Estavam dispostos de forma estranha, mas antes de chegar em uma conclusão, Bárbara abandonou os pensamentos, notando que era a única desperta. Se virou, ficando na frente de Fernando e empurrando os outros dois para os lados. Era injusto que pudesse proteger só um, mas o padeiro era prioridade. Os predadores atacaram, esticando seus braços para frente e mirando nos humanos. Algo disparou de dentro dos membros, projéteis pequenos, porém, considerando a distância, poderosos. Mesmo com sua resistência, Bárbara não estava em posição para manter o equilíbrio, e quando sentiu o impacto em suas costas, foi jogada para frente junto da dor dispersa que invadiu suas paletas.

Fúria preencheu seu coração e foi bombeada por suas veias. A dor se tornou um estimulante perigoso enquanto ela se levantava em um pulo e virava-se na direção dos predadores. Os cinco concentraram os braços nela e lançaram outra saraivada. Desta vez estava preparada e manteve-se firme enquanto era atingida pelos inúmeros projéteis. Seu braço, tronco, barriga e pernas queimaram como se estivesse em uma pira. Ela gritou enquanto as rachaduras se espalhavam por todo o corpo.

Disparou na direção dos inimigos enquanto era alvo de uma terceira onda de ataques, mas não parou. Dois dos predadores pareciam de alguma forma agachados, ainda que não tivessem pernas ou joelhos, mas sua forma era mais baixa que os demais e esse foi o primeiro pensamento na cabeça de Bárbara. Os outros três estavam em pé logo atrás. Era uma formação estranhamente organizada para monstruosidades como aquelas.

Antes que pudessem atacar de novo, cordas surgiram do teto e enrolaram-se no corpo dos dois da frente, puxando-os para cima com violência. A quarta saraivada veio em seguida, atingindo os corpos recém-erguidos. Dominique passou pelo seu lado como um raio, dando a volta nos corpos suspensos e chutando um dos predadores na direção de Bárbara. Ele deu um encontrão nos outros predadores, derrubando parte de seu braço no caminho, e caiu perto da mulher raivosa. Bárbara chutou a cabeça da aberração com toda a força que tinha. Seu corpo reagiu ao ataque, o líquido vazou das rachaduras, passando pela roupa e bota, acumulando-se na ponta do calçado assim que se conectou com a estranha carne da criatura.

A explosão desta vez foi mais focada, com a fúria direcionada toda ao predador. Seu vestígio pareceu reconhecer o objetivo singular e nem ofereceu tudo que tinha. O tronco do inimigo rebentou em sangue, o chão logo à frente deformou-se, afundando um pouco. Bárbara olhou para a frente, tão cansada que poderia cair de joelhos ali mesmo. Dominique dera conta dos outros dois. Estavam seguros por enquanto. Baixou a cabeça, exausta e sentindo o cérebro ribombar no crânio.

Se deu conta de algo estranho no chão. Não era parte do braço que a criatura derrubou? Se aproximou do membro, notando que não era vermelho, e sim cinza. Dois canos longos juntando-se em uma empunhadura, um gatilho embaixo. Uma arma. O coração bateu mais rápido enquanto olhava para o predador que matara. Não havia como identificar nada do tronco, agora um monte de carne espalhada pelo corredor, mas agora haviam pernas, pernas bem humanas.

As entranhas se apertaram, tentando parar seja lá o que estivesse tomando conta de Bárbara. Olhou na direção dos outros predadores. Os enforcados foram baixados e agora estavam jogados no chão. Suas formas bem mais fáceis de identificar. O tronco era humano, coberto por uma espécie de bata branca com um símbolo no peito e suja de entranhas. E o rosto, não havia como confundir, eram pessoas. Não tinham mais feições deslocadas. Bárbara olhou para frente, encontrando o olhar perplexo de Dominique. De repente, sobreviver tornou-se secundário, nem sequer pensava em avançar no território.

Fernando passou por ela e se ajoelhou ao lado dos corpos. Ele abriu a mochila e tentou forçar o pão goela abaixo nos cadáveres enforcados.

— Bárbara! Me ajude aqui! — gritava o homem. — Temos que salvar eles, eu acho que consigo reviver. Droga!

Ela não se moveu. Viu Dominique passando pelos dois que matara, ambos com o crânio afundado por golpes poderosos. Notou os olhos sérios e focados, revelando o ardor da alma dela. Queria sentir o mesmo, mas não conseguia, seu coração ocupava-se com algo diferente. Virou-se para sua vítima, e era isso que eram, vítimas. Não inimigos, tampouco predadores. Não conseguiu tirar o olho do corpo, era impossível ignorar o peso do que fizera. Atrás de si, os choros e lamentos de Fernando pareciam vir de outro mundo, chegando até ela como um eco, uma transmissão de rádio.

— Isso é sua culpa! Você deveria ter notado!

Olhou na direção de Dominique e Nicolas. A idosa discutia com o líder deles, ignorando o fato de que o braço do homem estava pela metade, o antebraço perdido em algum lugar no chão, desprendido do corpo durante a leva de tiros.

— Você deveria ser o salvador dos humanos! Deveria ajudar todos, mas olhe… olhe o que você nos obrigou a fazer.

Nicolas apoiava-se na parede, de alguma forma conseguindo manter-se em pé e aguentar as palavras atiradas contra si. Ele pareceu notar o olhar de Bárbara e encarou-a. Um frêmito percorreu o peito dela enquanto notava a ausência de emoção naqueles olhos.

— O território está nos afetando — disse ele, passando por cima da raiva de Dominique. — Precisamos sair. Dê uma pílula a Fernando, eu me viro por aqui.

Uma ordem, uma direção. Claro! Aquele peso devia ser coisa do território, todos se sentiriam melhor quando voltassem para o farol. Saindo do torpor, Bárbara caminhou até Fernando. Ele balançava o corpo de um dos mortos, pedindo que acordasse, que levantasse. Lágrimas escorriam pela sua face.

— Precisamos sair — disse ela.

Fernando não a ouviu, apenas continuou lamentando. Bárbara segurou os pulsos do homem e puxou para si, forçando-o a encará-la. Que erro. Ele estava quebrado, soluçando a morte de pessoas que nem conhecia. Não deveria sentir o mesmo? Como conseguia ignorar o peso do que fizeram?

— Me solte! Você é um monstro! Todos nós somos! — O homem desvencilhou-se.

Respirando fundo, Bárbara soube o que precisaria fazer. Empurrou Fernando e, assim que ele caiu, subiu em sua cintura. Em meio a gritos e tentativas de escape, pegou a pílula e enfiou na boca dele, tapando-a com a mão. O homem não deixou barato e a acertou como pôde. Bárbara aguentou cada golpe, não sentia a queimação e raiva que vinham quando era atingida. Não sentia nada. Quando Fernando engoliu a pílula, ela pegou sua própria e fez o mesmo. Queria nada mais que sair dali e voltar para o farol.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 12

Desenho monocromático. O desenho mostra o topo de um promontório com uma mesa de plástico com um pote com pães e sucos de caixinha em cima, ao redor dela há 3 cadeiras de praia. No horizonte vemos o mar refletindo a luz da lua cheia no céu. No centro da imagem há o número doze para indicar o capítulo.

Seria apenas uma noite comum se não fosse por uma repentina ligação de Fernando alguns dias antes. Quase que Dominique não atendeu, aquele número desconhecido só podia ser coisa de gente querendo dar golpe, mas no fim a curiosidade triunfou sobre a cautela e a ligação foi atendida.

A chamada foi curta, porém suficiente para deixá-la animada. Marcara um encontro com o grupo! Depois do último, apesar de serem vitoriosos, temeu que não fossem chamá-la. Ao que parecia, suas preocupações eram infundadas, botaram-na até em um chat com todos. Pedir para que seu filho lhe ensinasse a usar um celular moderno foi a melhor decisão que tomara em anos.

A vibração do alarme a tirou de seus pensamentos. Vinte e duas horas, o momento da reunião. Sentou-se na cama e olhou para a porta trancada. Não gostava de fazer isso, mas desde que acabou no hospital, passaram a cuidá-la mais de perto. Isso, claro, nos primeiros dias. Estavam mais relaxados, porém ainda havia um risco. E era mais fácil explicar uma porta trancada do que um desaparecimento temporário.

Já estava vestida com as roupas de exercício que Nicolas conseguiu após o último território. O líder do grupo sabia ser discreto e foi esforçado o suficiente para encontrar um conjunto igual ao antigo, descartado no fundo de uma lixeira muitos dias atrás. Esperava não sujar as vestimentas novas com sangue.

Fechou os olhos e imaginou o farol. Não tinha Nicolas para guiá-la desta vez, mas ele a instruíra como fazer e, durante algumas noites tediosas, foi sozinha até lá. Não encontrou nada demais, mas era melhor que ficar presa na casa, à mercê do tédio. Nunca superaria isso, porém sentia que não precisava. Deus agira sobre ela, ainda que de forma pouco convencional.

Um sorriso cruzou seus lábios enquanto sentia a viagem acontecendo, e logo estava de pé no interior do farol. Enxergou Fernando e Bárbara no exterior da construção, à beira do promontório, e desceu para encontrá-los. Só quando sentiu a resistência e os pequenos buracos da escada de metal nos pés notou que estava descalça. Pensou em voltar, mas era uma sensação agradável e há muito esquecida. Aguentaria ficar um tempo sem calçado, os jovens entenderiam.

Continuou seu caminho, passando do metal para a frieza da pedra no exterior. A maresia a atingiu de forma que não sentia há muitos anos, trazendo calafrios em suas pernas.

Encontrou com os dois companheiros sentados em cadeiras de praia, e havia uma vazia para ela. Estavam reunidos em volta de uma mesa de plástico, do tipo que se remove as pernas quando guarda, com dois potes brancos semitransparentes em cima. Não conseguiu ver o conteúdo, mas tudo bem, descobriria em breve. A noite sem nuvens e a lua cheia e cintilante davam conta de iluminar o ambiente mais que o necessário. Havia algo de especial naquele território.

— Boa noite, jovens! — disse, cumprimentando os dois com um beijo no rosto.

Após os cumprimentos, Bárbara baixou os olhos e levantou uma sobrancelha.

— Tu… esqueceu os tênis? — perguntou ela.

— Esqueci. — Fitou seus pés mais uma vez. — Agora é tarde, além do mais, é meio libertador andar descalça.

— Por essa lógica, andar sem roupas também é libertador — replicou a mulher mais nova.

— Tem razão, acho que vou fazer isso na próxima vez.

— Por favor, não — disse Fernando.

— “Por favor”? Estou tão mal assim?

— Não, não, claro que não! — respondeu ele, balançando as mãos espalmadas.

— Talvez até seja uma boa ideia — disse Bárbara. — Finalmente veremos Nicolas esboçar algo que não seja uma cara séria.

— Não diga isso do rapaz! — Dominique cruzou os braços. — Ele só não sabe se expressar direito.

— Conheço gente que não sabe se expressar, e não é o caso de Nicolas. Pensando melhor, talvez ele nem fosse dar bola. — Bárbara fechou a cara e imitou uma expressão séria, seguida de uma voz mais grossa e sem emoções. — Boa ideia Dominique, assim os predadores não têm como nos agarrar pelas roupas. Muito eficiente.

Fernando tentou segurar uma risada, mas ela logo escapou. Foi contagiante, infectando Dominique e Bárbara com a mesma intensidade. Como sentia falta disso! Dos momentos de diversão e alegria, tão gostosos e valiosos. Ainda se recuperando, a idosa se sentou na cadeira de praia restante. Era um arranjo único, nunca imaginaria que algum dia se reuniria com pessoas tão jovens no topo de um farol misterioso e mágico.

— Agora que Dominique chegou… — disse Bárbara, ainda com o resquício de um sorriso no rosto. — Dá para abrir?

— Esfomeado é foda. — Fernando fechou os olhos, prensou os lábios e balançou a cabeça, em um gesto decepcionado. Em seguida tirou a tampa dos potes e colocou embaixo dos mesmos. Dentro do primeiro havia cuecas viradas e no segundo pães compridos, fatiados e polvilhados com um pouco de farinha na parte de cima.

— Posso pegar? — perguntou Dominique, que foi respondida com um aceno positivo de Fernando.

Começou com uma cueca virada. Na primeira abocanhada, já sentiu a quantidade de açúcar da comida, na medida certa para ser deliciosa e fazer seu médico lhe xingar por comer essas besteiras. Ora, o doutor não sabia o que era ser velho! Queria ver ele se conter quando chegasse aos setenta.

— Está ótimo! — Esticou a mão para pegar mais uma das delícias açucaradas.

Bárbara atacava sua terceira cueca virada quando Dominique finalizou sua segunda e resolveu provar dos curiosos pães. Pegou um pedaço, era um pouco mais pesado do que esperava, mas uma leve apertada revelou sua fofura. Logo descobriu a origem do peso extra, o interior estava recheado com queijo e cubos de calabresa.

Enquanto se ocupavam com a comida, Fernando abriu a mochila de entregas, tirou três caixinhas pequenas com suco de uva e as pôs em cima da mesa.

— Para desembuchar.

Dominique ficou grata, tornou-se difícil de engolir tudo. Estava prestes a pegar um dos sucos quando Bárbara falou:

— Poxa, tu faz cueca virada e pão recheado, mas daí trouxe suco de uva de caixinha?! Quebrou todo o clima.

— Tá abusada, já. — Um pequeno sorriso surgiu no canto da boca de Fernando. — Queria que eu colhesse uvas no meio da cidade e pisoteasse elas para fazer suco?

Dominique já havia pegado o seu e agora observava os dois na discussão amigável.

— Devia ter ido até Bento comprar um dos bons.

Bárbara tentou pegar uma das caixinhas, mas Fernando se lançou sobre elas antes, pegando as restantes e mantendo fora do alcance da mulher.

— Reclamou, fica sem.

A moça bufou e olhou para Dominique.

— Senhora, vai dividir comigo, né? — pediu ela, em um tom que sugeria uma ordem.

Dominique olhou para seu suco. Tirou o canudo do plástico e com ele furou o fino alumínio da abertura. Levantou o olhar para Bárbara e respondeu:

— Não.

E então gargalhou. Uma sensação gostosa tomou conta de si, quase como se seu corpo tivesse esquecido o que era rir sem preocupações. Se conheciam há pouco, mas gostava daqueles jovens e sentia que gostavam dela. Há quanto tempo não fazia novos amigos? Há quanto tempo não conversava com pessoas novas?

Fernando devolveu o suco para Bárbara e terminaram o lanche com conversas amigáveis. Descobriu que os dois eram de Porto Alegre, moravam perto um do outro, inclusive. Coisa curiosa a vida, duas pessoas tão próximas que nunca se viram antes. Revelou aos dois que morava em Niterói, Rio de Janeiro.

— Odeio quebrar o clima — disse Fernando, fechando os potes agora vazios. — Mas preciso falar algo.

Dominique e Bárbara trocaram um breve olhar. A jovem não falou nada, mas expressou um pouco de desagrado com o que estava por vir.

— Estive esses dias com Nicolas e conversamos sobre alguns assuntos. — Ele entrelaçou os dedos, levantando e baixando cada um deles em sequência.

— Lá vem… — sussurrou Bárbara.

— Não é nada tão impactante! — Ele separou as mãos e abanou-as para a frente. — Apenas algo que deveriam todos saber. A questão é: se encontrarmos alguma pessoa como nós daqui para frente, é bom tomar cuidado. Nicolas me… disse após uma certa pressionada, que é possível roubar nossos poderes se pegarem o objeto que nos concede eles e nos matar.

— Como que isso não é impactante? — A jovem deu um soco no braço da cadeira de praia.

— Calma, Bárbara — disse Dominique. — Deixa ele terminar primeiro.

— Não tem muito mais, era basicamente isso. — Fernando esfregou as mãos no rosto. — É impactante sim, falei besteira. Nicolas disse que não falou disso antes para não gerar desconfiança.

— Não que funcione muito, né? — disse Bárbara, indignada. — Eu já estava desconfiada dele e agora estou mais. Isso não é coisa que se oculte!

— Mas faz sentido, não? — Dominique botou a mão no ombro da colega. — Se estivéssemos em alerta um contra o outro, nosso trabalho em equipe não seria tão bom.

— Eu estava lá para ser uma parede contra ataques e faria isso com ou sem segredos — resmungou Bárbara.

— E agora que todos nos conhecemos, Nicolas revelou isso. — Dominique sorriu. — Era só uma precaução temporária.

— E o que mais ele esconde? — Bárbara olhou com raiva para Fernando. — Sabe de alguma coisa?!

— Eu teria dito se soubesse.

— Será mesmo?

— Não dá para culpar o coitado — interveio Dominique.

Bárbara cruzou os braços, respirou fundo e esfregou os olhos com as palmas da mão.

— É, desculpa. Estourei de novo.

— Pelo menos não usou a jaqueta — disse Fernando, um leve sorriso se formando no rosto. — Seria bem pior para mim.

— Falando em jaqueta… — Bárbara olhou para Dominique. — Nicolas é a corda bizarra, Fernando é a mochila, eu a jaqueta, e tu?

— É até estranho dizer isso, mas eu não tenho um objeto que me dá poderes — respondeu Dominique. — É meu próprio corpo, pelo menos é isso que sinto.

— Então, em teoria, não podem roubar sua habilidade? — perguntou Fernando.

— Ou pode ser algum órgão dentro dela — disse Bárbara. — Só arrancar ele.

— Ah meu deus! Que coisa horrível. — Fernando fez uma careta de nojo. — Acho que está na hora de trocar de assunto.

O papo tornou-se mais ameno, como a novela das nove, que Fernando disse não ver, mas conhecia os pormenores como ninguém. Também ficaram sabendo de mais detalhes da profissão de Fernando, incluindo dos terríveis horários que ele atuava. Falaram um pouco de suas famílias, seus relacionamentos e de algumas besteiras engraçadas que fizeram durante a vida.

Dominique sentiu de repente um tremor e a conversa se interrompeu-se. Não foi físico, tudo na mesa estava no mesmo lugar, mas algo em seu ser ressoou, como um sino badalando diversas vezes.

— Sentiram, também? — perguntou Dominique, levando a mão ao peito. A sensação ainda estava lá.

— Sim. — Bárbara alternou o olhar entre os dois. — O que foi isso?

— Eu não sei — respondeu Fernando. — Vou sair e ligar para Nicolas…

Antes mesmo de tirar o celular do bolso, o homem que procuravam surgiu no farol. Estava com a respiração acelerada, porém mantinha a expressão de sempre.

— Que bom, todos estão aqui — disse ele. — Surgiu um território novo, temos que investigar.

— Eu não acho que estamos preparados — protestou Fernando.

— Só vamos investigar, não vamos atrás do originador.

— Temos que agir antes que o território faça vítimas — disse Dominique, se levantando. — É bom investigarmos agora mesmo.

— Da última vez foi o mesmo papo — disse Fernando.

— E não tínhamos um método de fuga. — Nicolas mexeu na corda em seu pescoço. — Agora temos.

— Estranho dizer isso, mas concordo. — Bárbara se levantou da cadeira. — Principalmente com Dominique.

— Se todos aceitam… — Fernando se levantou. — Acho bom entregar as pílulas, não?

— Entregarei.

O homem entregou duas cápsulas para Dominique, Bárbara e Fernando. Passando as instruções de engolirem e pensarem no farol em seguida, assim seriam retirados do território.

— Agora, sobre como chegar ao nosso destino — disse Nicolas. — Ele recém se formou e por sorte estamos dentro de um território para senti-lo. Concentrem-se no abalo que surgiu há pouco, sentirão junto uma força, uma espécie de sucção, querendo levá-los a outro lugar. Se deixem serem carregados.

Dominique obedeceu, fechando os olhos e focando-se no tremor que percorreu seu corpo. Não havia nenhuma força sugando-a, e sim fragmentos de conversas, palavras soltas ao ar sem contexto ou objetivo. Poderia seguir elas se quisesse.

— Estão todos sentindo? — perguntou Nicolas, e ao receber uma resposta afirmativa, continuou: — Vão para lá.

Sentiu os pés deixando o chão e ficou assustada por um momento, imaginando que os membros adormeciam. No entanto, foi apenas temporário, pois seguiu uma sensação de envolvimento por algo, ou alguém. As conversas que ouvia se intensificaram e seu conteúdo tornou-se mais claro. Eram lamúrias, monólogos intermináveis que questionavam certo e errado.

Sentiu um par de olhos em si. Eles observavam-na atrás da lente de óculos, eram inocentes e, ao mesmo tempo, manchados pelo conhecimento do pecado. Não pôde evitá-los, já estava a caminho do território e tudo que pode fazer era deixá-los examinarem-na.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 11

Desenho monocromático. O desenho mostra um homem sorridente, uma flor adorna seus cabelos volumosos e ondulados. Ele utiliza uma camiseta de manga curta com estampas floridas e está oferecendo um pequeno saco plástico com pílulas. O cenário ao redor mostra vários postes de luz e prédios cortorcidos em direção ao centro.
No topo direito da imagem há o número onde para indicar o capítulo.

Fernando acordou cedo no domingo. Talvez a maioria das pessoas considerasse se levantar às dez horas como tarde, mas para ele era quase como despertar antes do nascer do sol. Um leve aroma de café o capturou antes que botasse os pés no chão.

Foi para a cozinha. O cômodo, e a casa em si, não eram muito grandes, por isso tiveram que usar bem o pouco espaço que possuíam. Uma parede da cozinha era dedicada ao fogão e eletrodomésticos, logo depois havia uma linha de balcões com topo de madeira e metal para a pia. No lado oposto tinha uma mesa suspensa, e sentado em uma cadeira alta, estava Gabriel.

Se serviu do café enquanto refletia a semana que passou. Por algum motivo, esperava que a vida fosse mudar após vencerem o originador do metrô, porém ali estava ele, quase um mês depois, igual ou até pior. Era como se a realidade jogasse na sua cara que não fizera nada demais.

O cansaço com as entregas estava cobrando seu preço: acordou atrasado mais vezes do que de costume. Na quarta-feira sua demora foi de quase uma hora e arriscou-se mais do que o normal na ida até a padaria, além de fazer tudo às pressas neste dia. Não ajudava que o lucro com o estabelecimento diminuía e, por mais que chorasse pedindo descontos ao fornecedor, não conseguiu segurar a subida de preços. Os gastos minuciosamente calculados foram ralo abaixo.

Queria apenas ficar na cama e descansar, só se levantou cedo no domingo por conta de uma mensagem convocatória de Nicolas no meio da semana. Seja lá o que fossem fazer, esperava que não demorasse demais. Teria que ver uma forma de equilibrar as contas da casa mais tarde. Se continuasse nesse ritmo, talvez abandonasse o grupo. Não, não podia fazer isso. Quem cuidaria dos outros na sua ausência?

— Ô! Bom dia. — Gabriel balançou a mão perto do rosto de Fernando.

— Bom dia.

Voltou ao mundo real, trocando um olhar com o namorado, que por sua vez tomava um longo gole de café sem desviar os olhos. Fernando forçou um sorriso, não era assim que queria começar seu suposto dia de descanso.

— Desculpa, eu estava pensando no compromisso de hoje.

— Compromisso?

— Eu te disse.

Ou será que não? A bobeira da manhã ainda não passara, precisava daquele café. Sorveu um longo gole enquanto Gabriel falava:

— Não falou não.

— Talvez, provavelmente, possivelmente, eu tenha esquecido de te contar.

— É? Será? Ou será que contou pro amante e se confundiu?

Fernando estacou. Que papo era aquele de amante? Baixou a xícara de café. Um sorriso surgiu no rosto de Gabriel.

— Te peguei!

Fernando revirou os olhos em um movimento encenado.

— Um antigo colega do trabalho me convidou pra passar na casa dele. — Odiava mentir, mas seria complicado explicar a verdade. Além do mais, seu compromisso não era nenhum tipo de traição e nem faria nada errado.

— Ué? — Gabriel bebericou. — Pessoal da concessionária ainda mantém contato contigo?

— Não, também achei estranho. Mas vou ir mesmo assim, fazer algo diferente, sabe?

— Tá certo, vai ser bom para ti. Tu passa tempo demais na padaria, sei que é teu sonho, mas o ritmo está difícil… — Gabriel deixou a boca aberta por um momento, mas seja lá o que ia dizer, morreu em seus lábios.

Fernando encarou a xícara e tomou mais alguns goles. Sabia onde chegariam se deixasse o namorado continuar. Recorrer à família estava fora de questão, não conseguiria encará-los. Pensou em algo para trocar de assunto e, por sorte, ele acabara de passar por sua garganta mais uma vez.

— O café está diferente, comprou de outra marca?

— É o gosto de novos sabores. — Gabriel se levantou e foi até o armário, puxando um pacote de café fechado por um prendedor. — Comprei lá no mercado público.

— É bom, eu gostei. Foi muito caro?

O namorado encarou-o com uma expressão séria.

— Não me venha com seus papos de murrinha.

— Eu só perguntei…

— Tô sabendo. Só toma aí e fica quieto.

Fernando olhou de volta para a xícara. Apreciou o gesto de Gabriel, era raro que fizessem algo diferente. Mas não deixaria de pesquisar os preços da marca, por curiosidade, é claro.

Pouco mais de uma hora depois, estava na padaria. Havia deixado a mochila de entregas ali no dia anterior. Já dera tudo de si para inventar a mentira do ex-colega de trabalho, seria impossível criar uma justificativa para sair com a mochila junto.

Botou ela nas costas e fechou os olhos. Ir para o farol estava cada vez mais fácil e bastou um segundo para sentir a mudança no ambiente. Chegando lá, viu Nicolas ao seu lado, olhando pela janela.

— Só nós hoje? — perguntou Fernando.

— Sim. — O homem fitou o padeiro. — Eu iria sozinho, mas é bom que mais alguém no grupo saiba disso.

— O que vamos fazer?

— Encontrar uma pessoa, mas antes precisa me prometer sigilo completo da identidade dela. Até mesmo do restante do grupo.

— Espera aí! — Levantou as mãos. — Por que não vai contar para as duas?

— Porque essa pessoa gosta de manter a identidade em segredo.

— Até parece, se for um zé ruela como nós, mesmo com o nome ninguém vai saber quem… Espera! É alguém famoso né?

— Sim.

— Tipo o Brad Pitt?

— Ele aparece na televisão todo dia.

Certo, bem famoso, mas não ao nível de astro de cinema. Fernando assentiu devagar e disse:

— Tudo bem, prometo manter segredo.

— Então vamos.

Nicolas esticou a mão e segurou o pulso do colega. O cenário mudou e foram para o canteiro central de uma avenida. Para a esquerda e direita, apenas a linha de luzes denunciava a passagem de carros e motos nas quatro pistas em cada lado. Após a estrada, prédios tortos se erguiam, encostados uns contra os outros e inclinando-se na direção da avenida. Era como o território seguro em que ficavam, mas distinto também, como se algo faltasse.

O líder soltou Fernando e caminhou pelo canteiro com o chão repleto de grama alta, quase batendo nas canelas. O padeiro seguiu ao lado do companheiro a passos rápidos, quase ultrapassando-o.

— Aqui é como o farol?

— Sim, um território sem dono, sem predadores. Seguro e limitado.

— E por que eles existem? Achei que os predadores criassem o território.

— Essa é uma pergunta para a qual ainda não tenho resposta. — Nicolas ajeitou a gola. — Acredito que primeiro nasce um território, e em seguida ele é dominado por um originador.

— Então o farol pode virar um território de predador a qualquer momento?! E se ficarmos presos nele?

— Por isso estamos aqui, vamos arranjar uma forma de fugir quando quisermos.

— Entendi. — Fernando assentiu. — Até que tu pensa nas coisas.

— Sim.

Com a resposta seca, o padeiro seguiu em silêncio. Conseguia respeitar a atitude quietona de Nicolas, mas bem que ele podia tentar ser mais emotivo.

Caminharam por cerca de dez minutos no território. A todo momento tentou enxergar alguém mais adiante, uma silhueta que fosse, para indicar que estavam perto. Queria descobrir logo quem era a tal pessoa. Em dado momento, a avenida fazia uma curva acentuada para a esquerda e, no meio desta curva, Fernando viu alguém. A princípio parecia uma pessoa comum, mas conforme se aproximaram, a estranheza foi trocada por reconhecimento. Quando Nicolas falou em famoso, imaginou que fosse ser um jornalista, não um ator, mas ali estava Rafael. Um dos destaques da novela das nove.

Com o cabelo loiro volumoso e ondulado, junto a uma franja, uma camiseta branca de manga curta com estampas de flor, bermuda de tactel esverdeada e chinelos de dedo, Rafael parecia mais jovem que na novela. O próprio sorriso que ele deu ao ver os dois diminuía a idade. O único detalhe que parecia fora de lugar era uma flor branca e bonita, presa à orelha direita. Ele levantou os braços e abanou enquanto se aproximava. Nicolas parou de caminhar.

— Nicolas! — Rafael se aproximou. — Há quanto tempo? Não acreditava que estaria vivo. — Olhou para Fernando. — Até arranjou um companheiro. — Uma lágrima escorreu pelo olho direito, Rafael limpou na hora com o indicador. — Tão emocionante.

Além da estranha atitude do ator, estar na presença de alguém famoso fez com que o padeiro se reduzisse a um mero observador. Era incapaz de proferir uma palavra que fosse.

— Ele é Fernando, estamos juntos há pouco tempo, mas já eliminamos um território.

Rafael moveu o olhar para Nicolas.

— O metrô? Cara, aquele lugar era bizarro! Nunca gostei de metrô. — Seu foco se voltou ao outro. — Como você aguenta esse cara? — Apontou para Nicolas. — Eu não aguentei.

Fernando se obrigou a responder. Ora essa, não tinha mais dez anos para ficar todo tímido por aí!

— É só pensar nele como um robô, funciona bem.

— Há! Esse é dos meus. — Rafael alternou sua atenção entre os dois. — Aliás, o que você faz? Tem a ver com sua mochila?

— Rafael, objetividade. — Nicolas se intrometeu. — Conseguiu as pílulas?

— Objetividade. — Mimicou o ator, com uma voz mais fina. — Sempre com esse papinho.

Ele colocou a mão no bolso da bermuda, puxou um plástico com oito cápsulas brancas de dentro e estendeu aos dois. Nicolas fez menção de pegar as pílulas, mas Rafael se moveu rápido, segurou o pulso do outro e disse em um tom de voz baixo:

— Muitas fugas para dois. Têm quantos no grupo? Três? Não, a quantidade não bate. Quatro?

Os dois apenas se encararam por alguns segundos. Então o ator soltou Nicolas e jogou o plástico para ele.

— Lembre-se que, quanto mais gente, maior o risco. — Não havia mais sorriso no rosto do loiro.

— Você cuida das suas coisas que eu cuido das minhas — respondeu o engomadinho, guardando o plástico no bolso.

— E então? — Rafael voltou a sorrir, subindo e baixando as sobrancelhas.

— O território é um bosque. As árvores são todas iguais, é sempre noite e abafado por lá. Vai ver vários pássaros te observando, mas são inofensivos se não estiverem ativos. Não peça ajuda ou isso vai fazer os predadores te caçarem. E cuidado com o urubu.

— Parece bom. Vai servir.

Antes que uma despedida pudesse ocorrer, Nicolas segurou Fernando pelo pulso. Um momento depois estavam de volta ao farol. Foi uma interação estranha, e isso que a barra de normalidade vinha se alterando nos últimos tempos.

— O que foi isso? — perguntou Fernando.

Nicolas não respondeu, apenas o soltou, tirou as pílulas do bolso e as observou.

— Silêncio não vai funcionar comigo, tu sabe.

— É a negociação que fazemos. Rafael conhece o fornecedor e consegue as pílulas de fuga para mim. Só que ele exige a localização de um território em troca.

— Localização? Tu só disse como o lugar é.

— Há duas maneiras de descobrir um território, a primeira é senti-lo quando se forma ou quando alguém for raptado perto de você. A segunda é tendo detalhes sobre ele, facilita a visualização e transporte.

— Entendi… — Fernando coçou o queixo. — Espera, então ele é como nós? Tentando se livrar dos predadores?

— Não. — Nicolas balançou a cabeça em negativa. — Se nós caçamos para eliminar pragas, ele caça por esporte.

Fernando não pode deixar de franzir o cenho.

— Esporte? Mas…

— É a diversão dele.

— Caralho! Como que arriscar a vida numa merda dessas é a diversão de alguém?

— Pessoas podem se divertir com qualquer coisa.

— E aquilo que ele disse no final. Por que é arriscado com mais gente?

— Eu pretendia tocar neste assunto depois, mas tudo bem, está na hora. — Nicolas guardou o plástico no bolso do paletó. — Nosso poder normalmente é concedido por um objeto, nosso instrumento, ou vestígio como Rafael gosta de chamar. Minha corda, sua mochila, a jaqueta de Bárbara. Se um de nós morrer e o instrumento for tomado, o novo dono poderá usar os poderes do antigo.

Nicolas cessou a explicação. Um silêncio repentino tomou o farol enquanto Fernando aguardava uma continuação, mas esta não veio. Resolveu romper o silêncio.

— E por que não contou isso antes? — questionou, segurando os ombros de Nicolas com as duas mãos.

— Como confiar em alguém que possa ter motivações obscuras? Que pode se aproveitar de um momento de fraqueza para roubar seu vestígio? — Os olhos quase reptilianos de Nicolas o encararam. — Não posso ter um grupo desunido que se imploda na primeira dificuldade.

— E para isso tu mantém segredos que deveriam ser compartilhados? Como vamos confiar em ti assim?

— E o que faria com essa informação?

— Eu tomaria… — Fernando se interrompeu. Era exatamente o que Nicolas falara antes, tomaria cuidado com os outros. Uma semente de suspeita seria plantada em sua mente e a flor dela era capaz de impedir a colaboração entre os membros do grupo. — Está bem, eu entendi. — Passou a mão nos cabelos, se ele não gostou de ouvir isso, não queria nem imaginar a reação de Bárbara. — Quando vai contar para os outros?

— No próximo encontro.

— Deixa que eu faço isso.

— Por quê?

— Porque tu explicando é horrível. Temo até de pensar tu dando a notícia da morte de alguém.

Assim que voltou à padaria, Fernando pegou seu celular e pensou em que mensagens mandar, e em como criar um ambiente agradável o suficiente para contar o que precisava. Não precisou refletir muito, a solução estava bem na sua cara.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 10

Desenho monocromático. O desenho apresenta uma perspectiva de cima, mostrando Nicolas sentado na parte de baixo de uma escada dobrável. No topo direito da imagem há um vislumbre de uma corda.
No topo da imagem há o número dez para indicar o capítulo.

Alguns meses antes…

A luz que entrava através das cortinas do escritório diminuía cada vez mais. O dia estava perto do fim após uma tarde inteira em frente ao notebook, digitando frases apenas para interrompê-las por um novo fluxo de pensamentos, então as apagava e recomeçava.

O alarme do celular tocou sinalizando que eram duas e meia da tarde. Fechou o documento de texto sem salvar e desligou o computador. Enquanto se levantava, teve uma percepção que agora lhe parecia tardia: era inútil deixar algo escrito, quem leria?

Saiu pela porta do escritório, chegando na sala de estar, mantida na penumbra através de persianas blecaute bem fechadas e ausente de quaisquer móveis. Nunca foi de encher a residência com decorações, preferindo uma vida frugal. Mesmo assim, nem o sofá onde apagara algumas vezes enquanto assistia seriados e filmes sobreviveu ao impulso repentino que lhe acometeu semanas atrás. Vendeu tudo que não era necessário, ficando apenas com os pertences do escritório, cama e eletrodomésticos da cozinha.

Acendeu a luz da sala e olhou para a viga grossa que atravessava o teto de um lado a outro. Sim, serviria. Foi até um canto da sala onde sua mochila estava atirada e pegou a carteira, confirmou a existência de notas de cinquenta junto dos cartões de crédito e colocou-a no bolso. Saiu do apartamento.

Voltou um tempo depois, carregando uma escada dobrável, uma corda grossa e a furadeira mais potente que a ferragem oferecia. Abriu a escada embaixo da viga e ligou a furadeira na tomada. Lembrou-se do período de silêncio no prédio, com certeza receberia uma reclamação dos vizinhos e uma advertência do síndico, talvez uma multa se ele estivesse de mau humor. Deu de ombros e começou a trabalhar.

Não levou muito tempo para que se cansasse. Mesmo com a furadeira potente era necessário esforço para atravessar o concreto. O sedentarismo que existia desde o início da vida adulta fazia seu corpo exaurir-se mais rápido do que deveria e não ajudava que passou a viver de hambúrguer, cachorro-quente e pizza quando se demitiu. Depois de muitas pausas e goles de água, conseguiu, enfim, abrir um buraco de um lado a outro.

Passou a corda pela abertura e deu um nó na ponta. Nicolas bem sabia que não era o método menos indolor, no entanto era um dos poucos que estava disposto a fazer. Sentou-se no degrau da escada e ficou olhando para a porta de saída do apartamento. Sua mente era uma revoada de pensamentos, indo de recordações eventuais até conversas que nunca teve. Deixou-se levar e fechou os olhos.

O burburinho do início da noite chegou até ele. Motos acelerando, buzinas, um ônibus freando violentamente na rua. Podia apostar que dentro do veículo, muitos passageiros estariam cansados, sustentando um olhar quase catatônico em seu rosto na volta para o lar, alguns teriam encontrado um conhecido na viagem e estariam, com sorte, sentados lado a lado, deixando as conversas do dia a dia fluírem sem rumo e sem lógica, uma distração como qualquer outra. Se tivessem azar, um pequeno grupo decidiria que a viagem era o momento ideal para compartilhar seu gosto musical em volumes audíveis além das conversas inúteis e mentes isoladas. Conhecia bem a rotina e os padrões, agora abandonados e deixados de lado, insignificantes e desagradáveis.

Foi mais longe, chegando na fronteira entre sonho e realidade. Estava em um ônibus semileito, viajando para Nova Petrópolis. A cabeça apoiada na janela via a paisagem transcorrer. Árvores e casas na beira da estrada, vacas e ovelhas, postes de luz e placas de trânsito. Passavam cada vez mais rápido, acelerando até que fossem apenas borrões. Sol e lua subiam e desciam dos céus a cada segundo. Uma mão tocou em seu ombro e Nicolas tirou os olhos da rua. Ao seu lado, um rosto esquecido, borrado e morto lhe observava.

— Nos veremos em breve.

Seu celular bipou. Abriu os olhos e o checou. A tela dizia apenas que ele ganhou um cupom na compra do próximo jantar. Cinco reais de desconto. Levantou-se, não haveria nova refeição.

Subiu todos os degraus, passou a cabeça pela corda e empurrou a escada com o pé. O pescoço não quebrou. Nicolas resistiu por um centésimo de segundo que pareceu infinito, mas acabou levando as mãos até a corda, tentando se soltar. O último esforço de um corpo com mente derrotada. Não conseguiu, tinha pesquisado durante dias a melhor forma de fazer o nó. Nada de voltar atrás. No desespero, arranhou a corda e o pescoço. As unhas arrebentaram e sangraram, dificultando ainda mais a inútil tarefa de escape. Tentou puxar ar. Tentou viver.

Falhou.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 9

Desenho monocromático. O desenho mostra Nicolas, sentado em uma cadeira de escritório e com uma corda com nó de forca pendendo de seu pescoço. Ele está observando uma pequena pílula entre seus dedos. Ao seu lado, está uma escrivaninha com notebook em cima.
No topo da imagem há o número nove para indicar o capítulo.

Surgiram no interior do farol. Nicolas não perdeu tempo e deitou Dominique no chão, trocando um breve olhar com Fernando. O peito da idosa subia e descia com dificuldade, a respiração era entrecortada e o braço esquerdo estava mole e dobrado em um ângulo estranho. De tudo isso, foi a perna que mais chamou a atenção de Fernando. Na canela, próximo ao joelho, a pele se abria em uma vermelhidão de sangue e músculos, e no meio disso tudo despontava algo reto e quebrado com tons fracos de vermelho misturados ao branco. O padeiro tentou lembrar-se qual era o nome do osso na canela, mas logo chacoalhou a cabeça e abriu sua mochila de entregas. Não era médico ou cirurgião para decorar detalhes de anatomia, sua cura era diferente, e seria dolorosa para ele.

Pegou um dos alimentos e aproximou-se de Dominique, ainda desacordada. Deu tapinhas no rosto dela enquanto gritava por seu nome. Tinha uma técnica para fazer pessoas engolirem coisas enquanto inconscientes, não tinha? Por que nunca pensou em fazer algo tão básico quanto aprender primeiros socorros antes?!

— Temos que levar ela para um hospital! Vai se quebrar todo se curar isso! — disse Bárbara.

— Fernando é mais eficiente que qualquer tratamento.

— Eu vou quebrar teu braço para tu ver como dói. Quero ver recusar hospital depois disso. — Bárbara se aproximou de Nicolas, ficando com o rosto a centímetros dele.

— Fiquem quietos! — gritou Fernando. — Eu faço isso, vai dar certo.

Toda a gritaria e desespero serviu para acordar Dominique, que abriu os olhos devagar e emitiu um gemido. Fernando aproximou o pão de sua boca.

— Por favor, coma. Vai ficar tudo bem.

Ela obedeceu sem falar nada, a dor deixando de lado qualquer cerimônia ou hesitação enquanto mordia o alimento. Fernando temeu que não fosse funcionar, pois até a última mordida, nada acontecera. Foi só depois de alguns segundos que começou o processo de cura. A dor veio com um estalo, começou nas costelas já quebradas, e então se espalhou pelo restante do corpo. Ele sabia que ia ficar pior e sua consciência não resistiu a fratura no braço e o quebrar da perna.

Quando voltou ao mundo desperto, se é que podia chamar aquele lugar por esse nome, Dominique e Bárbara estavam ao redor dele. A idosa estava recuperada, com as pernas da calça manchadas de sangue, mas inteira. Bárbara não tinha nenhuma mancha de ferrugem no corpo e as rachaduras desapareceram. Fernando agradeceu por isso, não queria passar por outra sessão de dor tão cedo. Seu corpo já estava quase bom, tudo ainda doía, porém não parecia mais que fora atropelado por um ônibus da Soul.

Quase uma hora depois, sentiu que conseguiria se levantar e voltar para a padaria. As mulheres lhe fizeram companhia durante o processo, conversando sobre amenidades do dia a dia.

— Acho que devemos voltar — disse Fernando, levantando enquanto apoiava a mão na parede.

— É, deve estar tarde. — disse Bárbara. — Vou acordar podre amanhã.

— Eu vou acordar bem tranquila. — Dominique abriu um sorriso. — Nada como os benefícios da aposentadoria.

— Nem me fala! — Bárbara riu. — Já, já eu chego lá.

— Esse teu “já, já” vai levar muitos anos — provocou Fernando.

Bárbara olhou na direção de Nicolas. O líder do grupo estava do outro lado da sala, olhava para o horizonte há algum tempo. Ela suspirou, foi até ele e trocou algumas palavras de despedida. Em seguida voltou até Fernando e se preparou para dar um abraço.

— Não, não as costelas! — avisou Fernando.

— Verdade, desculpa. — Ela parou com os braços no ar, os levou até o lado do corpo e então lhe deu um beijo na bochecha. — Obrigada pelo apoio lá.

— Só fiz o que achei certo — respondeu Fernando.

— Nem todo mundo faz o certo. Enfim, até mais!

E com isso, Bárbara desapareceu.

— Você ajudou bastante. Até peço desculpas, se eu fosse mais cuidadosa não teria quebrado nada — disse Dominique, colocando levemente a mão sobre o ombro de Fernando.

— Que isso, estou aqui para cuidar de todo mundo. E tu também ajudou, todos ajudaram.

A idosa sorriu e lhe deu um beijo no rosto.

— Tchau.

Ela se aproximou de Nicolas, o abraçou e se despediu com um beijo no rosto, desaparecendo em seguida.

O líder olhou em sua direção e se avizinhou.

— Você deveria voltar e descansar — disse ele.

— Eu vou, só estava esperando para me recuperar. — Fernando moveu os ombros, a dor tinha aliviado um pouco mais. Deixou-se sorrir. — Fora daqui eu não conserto ossos quebrados.

— Entendo.

— E tu, não vai voltar? — perguntou Fernando.

— Vou.

— Tá… — Fernando olhou para baixo, então de volta para o rosto de Nicolas. — Eu sei que disse algumas coisas pesadas para ti, e saiba que não me arrependo! Mas vencemos um originador hoje e destruímos um território, as pessoas vão ficar mais seguras. Obrigado por isso.

— Eu que deveria agradecer por acreditarem em mim. Você, Bárbara e Dominique são ótimos. — Nicolas esticou a mão.

Fernando estranhou o gesto, mas a apertou. Se contentaria com aquele elogio vindo do homem que demonstrava tanta emoção quanto uma pedra.

— Iremos nos reunir de novo em breve? — perguntou Fernando.

— Vou procurar outro território, mas não se preocupe, te mantenho informado.

Pensou na sua padaria e nas tarefas que faria quando chegasse lá. Tinha que terminar os pães que ficaram descansando. Ia ser uma noite longa e dolorida, mas daria conta. Sentia-se com mais energia do que nunca. Fechou os olhos e quando os abriu, voltou ao trabalho.

***

Nicolas voltou para sua casa, em específico para o escritório. O cômodo estava bem cuidado como sempre, deixar lixos no local de trabalho era uma das inúmeras maneiras de criar um ambiente propício ao fracasso. Sentou-se em frente ao notebook e o ligou. Nos poucos segundos em que aguardava, tirou do bolso uma pílula branca e a apertou de leve entre polegar e indicador. Logo deixou a cápsula de lado e navegou pelas pastas sobre os predadores. Achou o diretório com o título de “Território do Metrô” e o abriu. Diversos documentos ali detalhavam o que viu no território, cenário, paisagem, habitantes e predadores.

Escreveu um relatório detalhando sobre a visita final ao lugar. Obtiveram sucesso em destruir o originador, mas o que realmente aprendeu? Não foi muita coisa, mas, pelo menos, descobriu mais sobre seus novos ajudantes. Eram capazes, ainda que pouco eficientes. Precisaram apenas de um empurrão com a segunda habilidade de seu vestígio para seguirem em frente, com exceção de Bárbara. Ela devia ter alguma imunidade a esse tipo de coisa. Só esperava não ter que usar isso sempre.

Anotou a nova descoberta sobre os territórios serem capazes de modificar-se para impedir a fuga deles e também para atacar. Foi uma boa estratégia reunir um grupo de habilidades variadas, ainda que tenha encontrado eles por sorte, caso contrário teriam morrido em alguma parte do metrô. Se comparado com o território da rua infinita, em que o terreno era mais aberto e a fuga mais fácil, este foi complicado. O originador, no entanto, acabou sendo parecido. No primeiro, precisou apenas encontrar a criança certa, a criança de verdade, para enforcar. No metrô, a situação foi a mesma, só passou por uma espécie de guardião antes. Talvez os originadores fossem limitados em suas capacidades. Ou talvez ainda estejam evoluindo, conforme aquela criatura mencionou.

O relógio no computador sinalizou oito horas da manhã. Suspirou e deu uma olhada nas notícias mais recentes. Encontrou apenas uma, em um site de notícias da capital, sobre pessoas consideradas desaparecidas ressurgindo. Certamente algum familiar do jornalista fora raptado, caso contrário só veria algo do tipo no meio do dia e olhe lá. Fechou o notebook e se preparou para dormir.

Procuraria novos territórios quando acordasse. E talvez trocasse uma ideia com um antigo parceiro para disponibilizar uma fuga mais confiável aos outros. Fernando não os deixaria se arriscar tanto se não houvesse uma forma fácil de fugir.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 8

Desenho monocromático. O desenho mostra um ser humanoide e grande, com pele branca e refletora e seu rosto é apenas um buraco. Ele está sentado de forma relaxada em um trono feito de pequenas pessoas e em sua mão direita está segurando uma dessas pessoas.
No topo esquerdo da imagem há o número oito para indicar o capítulo.

Fernando sentiu um frio que percorria o interior dos ossos se manifestando como músculos retesados. Estavam preparados? Realmente preparados? Nicolas não parecia preocupado, mas poderia confiar nele? Parte de si acreditava, o homem os protegera e os salvara, não os enganaria em um momento tão crucial. Então, mesmo sabendo disso, por que as mãos tremiam? E mesmo com suas mãos tremendo, por que aceitou continuar avançando?

Antes que pudesse chegar a uma resposta, Bárbara abriu a porta à frente do grupo. Quando deu por conta já estavam na sala seguinte. Seu olhar foi atraído para o predador sentado em uma espécie de cadeira no centro. Não, cadeira não, era um trono enferrujado. O monstro era enorme. Mesmo sentado como um rei preguiçoso, quase alcançava o teto. Apesar da forma humanoide, lhe faltavam muitas características humanas. A pele era branca e reflexiva, semelhante à porcelana, não possuía pelos ou roupas no corpo, seu rosto era apenas um buraco na cabeça, revelando um interior vazio.

Seu foco inteiro estava naquela face, naquele nada. Foi só quando Nicolas passou a mão em frente aos seus olhos que notou o quanto estava absorto. O fascínio foi trocado por nojo, repulsa pura manifestando-se em uma contorção no rosto. Procurando qualquer outra fonte de distração, olhou para o resto da sala onde estavam.

Era circular e possuía pé-direito de quase dez metros, suas paredes de metal eram limpas, sem engrenagens ou ferrugem. Um vidro que cobria a parte superior de uma parede mostrava o caminho à frente e os trilhos. Um painel cheio de botões, monitores e gráficos ficava logo abaixo da janela. Um homem magro e franzino, sem as manchas de ferrugem, observava o painel, apertava botões e corria de um lado a outro.

— Cuidado! — gritou Bárbara.

O grupo se separou e tudo que Fernando viu foi um borrão aproximando-se em alta velocidade, atingindo-o no tronco e lançando seu corpo para trás. A sala rodopiou e parou de lado. Ele tentou reunir ar para pedir ajuda, mas o ato de inspirar doeu-lhe o tórax. Conteve um berro a contragosto, deixando a dor escapar em forma de lágrimas. Levou a mão ao peito e sentiu uma nova pontada de dor. Um peso na perna o fez temer que ela estivesse em situação pior, mas encontrou apenas uma pessoa manchada jogada em seus pés. Apoiou as mãos no chão, instigando mais agulhadas nas costelas e chutou o enferrujado para longe, que não ofereceu resistência, ficou apenas ali, atirado no chão como um objeto descartado.

Olhou na direção do originador e viu que ele endireitara a postura, a mão direita segurando fortemente um dos braços do trono, como se tentasse arrancá-lo e então algo se soltou: outro indivíduo manchado. Não era um assento feito de metal enferrujado, e sim de pessoas comprimidas, dobradas, quebradas e deformadas. Tudo conforme a vontade de seu senhor para que lhe servissem como móvel.

O rosto do predador virou-se em sua direção. Fernando continuava sendo o alvo. Não podia deixar isso acontecer. Quem cuidaria dos ferimentos do grupo? Buscou se erguer, a dor no peito impedindo que fizesse movimentos bruscos demais. Uma sombra se pôs à sua frente e cordas se materializaram, tentando restringir os movimentos do homem de porcelana, mas arrebentaram tão logo ele continuou o lançamento. O projétil humanoide atingiu Bárbara como se batesse contra uma viga de metal. Chocou-se e girou para o lado, caindo a alguns metros dela. Nas costas da jaqueta da mulher, duas labaredas surgiram, pequenas e inofensivas.

O inimigo preparou-se para arrancar mais uma pessoa do trono. Dominique disparou rumo ao originador e deu um salto impossível na direção da criatura que tinha mais de cinco vezes o seu tamanho. Ela chegou perto da cabeça, mas o predador reagiu e, com o dorso da mão, em um tapa quase casual, acertou a senhora com força arrebatadora o suficiente para jogá-la na parede e fazer o corpo quicar contra o metal. Não houve movimento quando ela caiu no chão. Fernando venceu a dor e gritou seu nome. Sem resposta. Onde estava Nicolas quando precisavam?

Como se respondesse a seus pensamentos, o líder se aproximou pela lateral.

— Você está bem? — perguntou ele, com voz calma.

— Claro que não! Temos que sair daqui, não estamos preparados!

— Está vendo alguma saída?

Fernando correu a sala com os olhos, zero portas. Bárbara foi atingida mais uma vez e as labaredas cresceram.

— Use sua corda! Enforca ele!

Nicolas olhou na direção do originador. Fernando viu a corda se constringindo contra o pescoço do homem, e uma réplica surgiu no alvo, mas sem efeito algum.

— Já tentei. — Ele aliviou o aperto. — Não funciona.

— Tu… Nós estamos condenados.

— Não acabou ainda.

— O que vai…

Nicolas levou um dedo aos lábios. Seus olhos percorriam a sala como se fosse uma máquina. Foi um momento que se estendeu por eras. Bárbara foi atingida repetidas vezes, cada lançamento parecendo mais forte que o anterior. Entre um golpe e outro, ela fitou-os com olhos marejados e o rosto tomado pela ferrugem.

— Aguente mais um pouco, estamos quase lá! — Fernando mentiu a contragosto.

A mulher assentiu e voltou os olhos para frente. Os de Nicolas pararam de vasculhar a sala e focaram-se em Fernando.

— Tem um padrão, o metrô inteiro foi montado para ser sustentado pelas pessoas com manchas. O próprio originador as usa para nos atacar, é dependente dos outros — disse ele, a voz saindo mais rápido que o normal. — Precisamos acabar com esse vínculo.

Fernando olhou para o painel que vira antes, onde se meteu aquele homem? Uma parte dos controles estava oculta pelo originador. Apontou na direção do vidro.

— Tem outra pessoa nessa sala, deve ser uma espécie de maquinista.

— Eu vou até lá. — Nicolas assentiu.

— Tu não vai ficar bem se for atingido por uma daquelas coisas…

— Não serei. Apoie Bárbara, vai ficar mais difícil para ela.

Fernando viu a corda se apertando forte no pescoço de Nicolas e sua esclera tornou-se vermelha de sangue. O originador inclinou-se para frente no trono e arrancou pessoas com as duas mãos, lançando-as em Bárbara na sequência. Tirou mais duas e jogou novamente, e mais uma vez. Estava mais rápido, mais focado, mais obcecado. Nicolas aproveitou o momento para ir correndo na direção do painel.

— Mais um pouco! Nicolas descobriu como derrubar ele! — gritou Fernando.

Bárbara assentiu, as asas nas costas da jaqueta pulsando em um vermelho intenso. Os ataques do originador continuaram focados nela, que não se movia um passo e deixava as rachaduras espalharem-se pelo seu corpo como nunca. Fernando admirou a força de vontade da companheira.

O monstro estava prestes a fazer mais um lançamento quando pareceu congelar, o frio que tomava Fernando desde que entraram sumiu. A pele de porcelana encheu-se de rachaduras e pedaços caíram pouco a pouco em uma chuva de cacos. O originador passou de um rei no seu trono a um déspota em decadência. Atrás de tudo isso, Fernando viu o homem franzino sendo enforcado por Nicolas. Mesmo suspenso no ar, esticava suas mãos na direção do painel e gritava.

— Não! Não! O metrô não pode parar, tem que continuar! Ele pediu para continuar! Devo continuar!

Ele se debatia, arranhava o próprio pescoço, tentava tirar a corda. Nada do que fazia tinha efeito algum. Quando o homem parou de se mexer, uma pressão incômoda deixou o peito de Fernando, e soube que poderia fugir do território. Nicolas olhou na direção do grupo e gritou:

— O farol! Pensem no farol.

A sala inteira rachou-se em seguida e os olhos do padeiro buscaram a companheira caída.

— Dominique! — gritou ele.

Não houve resposta dela, mas Nicolas tomou ação e correu até a idosa, tomando-a nos braços. Um tremor percorreu a sala, desequilibrando Bárbara e trazendo uma sensação ruim para Fernando. Obedeceu a Nicolas e pensou no farol.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 7

Desenho em monocromático. O desenho mostra uma mão em frente a um painel de vidro transparente. Do outro lado estão dezenas de engrenagens dos mais diferentes tamanhos, algumas tão pequenas quanto uma mão e outras tão grandes quanto o tronco de uma pessoa. Ao lado do painel estão diversas engrenagens descartadas no chão.
No topo da imagem há o número sete para indicar o capítulo.

— Corram! — gritou Nicolas.

Obedeceram. Bárbara viu pelo canto do olho a ferrugem avançando junto com eles, espalhando-se pelo vagão como um vírus. Mantiveram-se à frente da infecção e das criaturas durante preciosos segundos, até acreditou que conseguiriam escapar, porém a ferrugem ganhou velocidade, preenchendo o local como a água de um tsunami.

Duas fendas abriram-se em paredes opostas à frente do grupo. Dominique acelerou e acertou a criatura que saía da fenda na esquerda com uma ombrada, dobrando o corpo dela em um ângulo que espinha alguma era capaz de suportar. No lado direito, uma corda surgiu e puxou o enferrujado para cima, limpando mais uma vez o caminho deles. Esse, porém, foi só o começo.

Conforme avançavam, mais e mais aberturas apareciam no vagão e, por mais rápida que fosse a reação de Dominique, eram muitas para uma só pessoa. Nicolas também tinha seu limite e a cada enforcado ele titubeava. Para piorar, as criaturas se enraiveceram, atacando ao mesmo tempo em que saíam das fendas. Apareceram criaturas cujo braço se deformava em um estranho chicote de carne, com ossos despontando como espinhos. Em outros, o antebraço era apenas um osso fino curvado, lembrando uma espécie de espada.

A situação se agravou quando as fissuras se abriram ao mesmo tempo à frente e ao lado do grupo. Na primeira vez que isso ocorreu, um enferrujado pegou Bárbara de surpresa e acertou seu rosto com unhas que pareciam garras. O golpe deslizou pela pele como se fosse feita de metal, mas a dor veio tão grande quanto poderia ser. Desacelerou por apenas um momento, mas foi o suficiente para que caíssem nela como abutres atrás de carniça.

Mãos agarraram seu tornozelo, chicotes se enrolaram em seus braços, enferrujados surgiram pelo lado para arranhar, tentando puxar seus membros até arrancá-los, e mais um bando deles caiu de uma fenda no teto. Ela tentou dar um passo em frente, mas o peso de tudo aquilo a fez desabar. Sentiu a infecção espalhando-se no corpo, queimando tanto quanto os ataques que recebia. Não conseguia nem ver Fernando e Nicolas, que já deviam estar longe, correndo por suas vidas. Rangeu os dentes e gritou como um animal encurralado que não desistiria de lutar. A visão tornou-se um borrão vermelho enquanto apoiava as mãos no chão metálico e forçava o corpo a se levantar. Mesmo com todo aquele peso e a agressão, ficou de joelhos e logo estava se erguendo. Sairia dali, não importava que estivesse sozinha lutando contra uma multidão, nunca se entregaria.

— Aguente mais um pouco — gritou Dominique.

O peso em si diminuiu e o caminho foi limpo aos poucos. A dor ainda estava lá, mas era apenas um eco do sofrimento que passou segundos atrás. A vermelhidão diminuiu e conseguiu visualizar os arredores. Um enxame de corpos jazia pendurado no teto, as pernas balançando em um ritmo lento, todos desaparecendo aos poucos. Encontrou Dominique à sua frente, oferecendo uma mão de apoio. Logo atrás dela estava Fernando mantendo Nicolas em pé. O insensível líder estava com os olhos injetados e aliviava o aperto no pescoço. Uma fenda se abriu ao lado de Dominique e uma corda imediatamente armou-se contra a criatura, arrastando-a para longe da idosa.

Nicolas levantou uma mão com três dedos erguidos, baixando um deles após um momento. Baixou o segundo e Bárbara se preparou para correr, notando que sua pele estava repleta de rachaduras vermelhas e manchas de ferrugem. Quando baixou o último, ela disparou junto com Dominique. Nicolas vacilou por um momento assim que Fernando o soltou, mas logo estava acompanhando o ritmo do restante deles. Precisavam achar uma saída logo.

Atravessaram três vagões na correria desesperada até desembocarem em um que continha as portas de desembarque. Bárbara não precisou de ordem alguma de Nicolas, fugiria por aquela saída nem que todos discordassem. Conforme o grupo avançava, um rangido metálico ecoou pelo metrô inteiro. O chão oscilou e a parede da esquerda, onde estava sua salvação, dobrou-se. Metal e vidro se contorceram enquanto o lado esquerdo do vagão era amassado por forças invisíveis. A rota de fuga desapareceu diante dos olhos de todos em menos de um segundo e tiveram que manter-se abaixados por conta da diferença de altura entre um lado e outro do carro.

— Temos que continuar! — gritou Nicolas.

O grupo se moveu, mas Bárbara parou na frente de onde estava a porta, agora inutilizável. Deveria ser a saída deles, a fuga para um lugar seguro. Por quantos vagões mais teriam que correr? Quando cairiam por um vacilo qualquer e seriam dizimados? Seu corpo moveu-se antes que o raciocínio se completasse e Bárbara acertou a parede distorcida com o ombro. Uma dor aguda percorreu o corpo conforme ela atingia o metal. Recuou três passos e uma mão segurou seu cotovelo.

— O que está fazendo? — disse Fernando.

Ela respirou fundo. Um dos enferrujados surgiu próximo deles e foi mandado longe por um chute de Dominique.

— Precisamos fugir! — disse Bárbara. — Essa é nossa saída.

Desvencilhou-se do homem e avançou novamente contra a lateral do vagão. Seu ombro ardeu e ela viu rachaduras surgindo próximas ao pescoço. Não queria nem saber como estava por baixo da jaqueta. Abriria aquela porcaria nem que destruísse seus ossos no processo.

Ela se atirou contra a parede de novo e de novo. Ninguém mais tentou pará-la, pois era isso ou lidar com as criaturas. A dor vinha em ondas cada vez mais intensas e a expressão dar murro em ponta de faca pareceu aplicar-se perfeitamente à situação. Nicolas e Dominique mantiveram o terreno livre apesar da quantidade cada vez maior de inimigos. Eventualmente Bárbara parou de se preocupar com eles, parou de sentir dor e parou de contar quantas vezes já tinha tentado. Ficou sem forças, seu corpo tão fragmentado que parecia capaz de desfazer-se a qualquer momento, e mesmo assim tentou uma última vez. Sentiu o coração bater mais forte, deu um berro e atirou-se contra o metal. Nicolas gritou algo. Bárbara sentiu como se pudesse destruir tudo à sua volta, reduzir tudo a menos que cinzas, liberar todos os sentimentos que rondavam seu coração. Se fizesse isso, no entanto, não sabia o que aconteceria a si. Se conteve apenas o suficiente para deixar vazar somente um pouco de tudo que habitava sua alma, o ombro atingiu a parede, sua raiva vazou e estourou.

Quando a visão voltou, e nem percebeu antes que a perdera, metade do vagão estava arruinado. Bárbara estava em uma ilha de metal no meio da completa escuridão que havia fora do metrô. As rachaduras na pele mudaram do carmesim para um vermelho esbranquiçado e seus braços e pernas tornaram-se pesados demais. Olhou para onde antes estavam a parede e porta, vendo somente o negrume do nada. Todo o esforço, toda a dor, todo o tempo foi em vão: a saída que criou não os levaria de volta para a segurança, pelo contrário, olhar para ela causava arrepios. Atrás de si a visão era a mesma, o vagão estava dividido em dois. As fendas pararam de surgir e as criaturas não ousavam chegar perto do buraco.

À sua esquerda, depois de muitos metros de nada, estava o restante do grupo. Nicolas e Dominique trocaram breves palavras, e então a senhora tomou distância, correu para o abismo e pulou. Não foi o mais gracioso ou elegante dos saltos, mas a permitiu aterrissar na ilha de metal junto com Bárbara. De perto era possível notar como a ferrugem tomava quase metade do corpo da idosa.

— Está tudo bem? Não está doendo? — perguntou Bárbara.

— Menina, você brilhou como uma fogueira e então explodiu. Essa pergunta é minha. — E, antes que Bárbara pudesse falar algo, continuou:

— Nicolas disse que precisamos nos apressar, sem muito tempo para descanso.

— Claro que disse — falou Bárbara, com um pouco de irritação.

— Não fique braba, ele está tentando nos manter vivos. — Dominique sorriu. — Agora se segure que vamos saltar.

A idosa tomou-a nos braços e a ergueu. Sem espaço para tomar impulso, flexionou os joelhos e pulou. Foi um momento no ar em que Bárbara agarrou-se ao pescoço de sua carregadora. Aterrissaram na borda do chão e Dominique quase perdeu o equilíbrio, mas Fernando reagiu rápido o suficiente para segurar as duas e puxá-las até a segurança.

— Desculpe, quase que nos fomos dessa vez — disse a idosa, colocando Bárbara no chão.

— Eu que me desculpo, perdemos tempo com minha teimosia. — Bárbara suspirou.

Fernando balançou negativamente a cabeça e disse:

— Não se preocupe com isso, o importante é que estamos vivos.

Dito isso, ele buscou mais pães na mochila e entregou para as duas. Fernando tentou disfarçar o incômodo enquanto comiam, mas era possível ver a agonia causada a cada mordida que davam, além de verem o corpo do rapaz ficando com as manchas laranjas e pequenas fendas pelo corpo.

— Talvez não tenha sido tempo perdido — falou Nicolas, aproximando-se dos três. — Eles pararam de nos atacar.

— Tem razão, por quê? — perguntou Fernando.

Nicolas coçou o queixo.

— Devem estar gastando a energia reparando o estrago. Manter a máquina operando é uma preocupação das criaturas, e acho que do predador original também. É melhor recuperar-se do que continuar atrás dos invasores.

— Não parece muito inteligente.

— Não mesmo, mas predadores são criaturas de instinto e emoção, não de raciocínio e lógica.

Bárbara respirou fundo, ainda estava cansada, mas queria sair logo dali. Trocou um olhar com os homens, então disse:

— E ficar aqui discutindo teoria dos predadores é menos inteligente ainda quando estamos de cara com o perigo. Que tal seguirmos?

Retomaram o avanço, desta vez diminuindo o ritmo para um trote. Ninguém aguentaria tanto tempo correndo. Passaram por quase vinte vagões, todos sem sinal algum de saída. Os primeiros tinham a mesma aparência, isso até chegarem em um diferente dos demais. Era mais largo, os móveis estavam ausentes, a própria estrutura de um metrô tinha se perdido. As superfícies de metal foram trocadas por um vidro transparente, por onde era possível ver diversas engrenagens girando. Algumas eram pequenas, não maior do que um dedo, enquanto outras alcançavam o tamanho de uma pessoa. Elas estavam por tudo, e as criaturas manchadas também.

Bárbara tensionou os músculos e parou, observando os inimigos. Estavam em grupos de quatro ou cinco, e ficavam próximos às paredes, fitando o maquinário. Próximo de cada conjunto de criaturas havia um amontoado de outras engrenagens empilhadas no chão.

— Vamos devagar e em silêncio — sussurrou Nicolas.

Avançaram a passos lentos. Os enferrujados nem olharam para eles. Durante o trajeto viram que o vidro da parede e do chão tinha puxadores e dobradiças. Quando uma das engrenagens saiu do lugar e o funcionamento do maquinário foi afetado, um grupo de criaturas abriu a seção de vidro e substituiu a engrenagem por outra de aparência mais nova e do mesmo tamanho. A engrenagem defeituosa foi para a pilha que ficava próxima ao grupo. No curto tempo que levaram para atravessar o vagão, viram mais peças serem trocadas seguindo o mesmo processo.

Depois de vinte ou trinta vagões, não se importava tanto a ponto de contar, chegaram em um carro curto, com poucos assentos, todos eles estofados e bonitos. No final, havia quatro mulheres em pé ao redor da porta, formando um corredor humano, vestidas com saltos altos, saias apertadas, cabelos lisos e rosto cheio de maquiagem. Depois delas havia uma porta que em nada combinava com a atmosfera. Era feita de madeira clara, com uma maçaneta cromada e uma placa de metal ao nível dos olhos.

— Continuemos — disse Nicolas.

Chegaram perto das mulheres, paradas como estátuas. Agora que estava mais perto, Bárbara notou que, apesar do cabelo e alturas diferentes, todas tinham o mesmo rosto. Deu um passo hesitante para o meio delas, esperando algo terrível, mas nada aconteceu. Deu mais outro e nada, o grupo seguiu com ela e chegaram até a porta. A placa continha algo escrito, mas fora riscado e apagado, tornando-a ilegível.

Sendo a linha de frente do grupo, Bárbara botou a mão na maçaneta e sentiu a garganta entalar e a força sumir. Seja lá o que tinha do outro lado, não deveria ver, não queria ver. Recuou e olhou para Nicolas.

— Não acho uma boa ideia — disse ela.

O rosto do homem estava impassivo e calmo quando respondeu:

— O predador original deve estar ali, não é uma boa ideia, mas é o precisamos fazer.

— Precisamos mesmo? — perguntou Fernando. — Não concordamos em fugir se ficasse perigoso demais?

— Se o deixarmos vivo, mais vítimas surgirão. — Foi Dominique quem respondeu. — É nosso dever.

— Além do mais — Nicolas olhou ao redor —, não vimos nenhuma outra saída até aqui.

O coração de Bárbara acelerou. Não queria abrir a porta, mas então o que fora fazer ali? Dar um passeio pelo metrô amaldiçoado é que não foi. Não sabia bem, queria apenas fugir da rotina, de seu tormento. Foi uma decisão idiota e tomada por impulso, igual a tantas outras que fez ao longo da vida. Mesmo assim, naquele momento, podia fazer algo diferente do que só aceitar as coisas calada, podia lutar contra algo terrível, talvez até vencer. Virou-se, girou a maçaneta e abriu a porta.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 6

Desenho em preto e branco. Ele mostra um ser humanoide agachado com duas mãos no chão e olhando para o espectador. Ele não possui roupa ou órgãos sexuais, é magro e a parte de sua cabeça acima do nariz não existe. Ao redor da criatura está um vagão de metrô vazio, enferrujado e desgastado pelo tempo.
No topo da imagem há o número seis para indicar o capítulo.

Menos de um dia antes, Fernando fora colocado em um grupo no Whats chamado Predadores, onde também estavam Nicolas e Bárbara. Uma conversa rápida aconteceu para marcarem um encontro e, conforme o combinado, o padeiro foi lá no horário apenas para encontrar o farol vazio. Minutos depois, Bárbara chegou.

Então lá estava ele, procurando uma distração ao observar os arredores enquanto aguardava a chegada de Nicolas. Alguns metros ao seu lado, Bárbara fazia o mesmo. Não falaram nada além da costumeira troca de cumprimentos, e isso o deixara nervoso. Ela parecia uma daquelas pessoas esquentadinhas, sempre de cara fechada e mal humor. Sabia muito bem que o certo a se fazer era deixá-las quietas.

Com o canto do olho, viu a mulher tirar o celular do bolso pela terceira vez no último minuto. Não a culpou, queria fazer o mesmo para se distrair, mas a falta de sinal o impedia. Nem ao menos conseguiam acompanhar os minutos passando, visto que entrar em um território era o suficiente para embaralhar as horas, jogando o relógio do aparelho para frente e para trás constantemente.

— Para alguém metido a certinho, ele tá atrasado — disse Bárbara, bufando um pouco em seguida. — Fiz questão de aparecer no horário marcado e nem sinal do cara. — Ela olhou para Fernando. — Há quanto tempo tu tá com ele? Isso sempre acontece?

— Normalmente Nicolas chega antes, e “estar com ele” é um termo forte. — Fernando se virou de costas para o vidro e olhou na direção da mulher. — Tenho algumas semanas a mais que tu nisso tudo, mas só fiz algo relativo aos predadores em uns dois ou três dias.

— Quer dizer que o único que sabe o que tá fazendo aqui é ele? — Bárbara levantou uma sobrancelha.

— Isso mesmo.

— Que nhaca, hein? — Ela checou o celular mais uma vez. — Só espero que ele não demore muito, tenho que trabalhar amanhã.

— Teve problema com o… dia fora?

Bárbara levantou os olhos para ele por um momento antes de baixá-los ao celular mais uma vez.

— Nem quero falar sobre isso.

Deixou a conversa morrer por ali, sabia muito bem quando falar e quando ficar quieto. Virou-se para a janela e voltou a encarar o horizonte. Ficou um tempo visualizando o nada enquanto pensava em como ajustar seus dias a essas idas aos territórios. Como Nicolas se organizava?

— Como foi contigo? — perguntou Bárbara com a voz mansa. — Como acabou em um território?

— Não sei explicar. — O homem botou a mão no peito, sentindo um desconforto na pele. — Sei que fui assaltado, levaram minha moto e tomei um tiro.

— Então tu meio que… morreu também. — A voz da mulher se reduziu a um sussurro. — E depois?

— Depois eu estava no metrô e encontrei Nicolas.

— Não isso, a sua moto. — Bárbara se aproximou um pouco. — Estava inteira também?

— Sim, na garagem como se nada tivesse acontecido. — Deu um sorriso azedo. — Não sei o que pensar disso.

Antes que a conversa continuasse, Fernando notou uma movimentação do lado de fora do farol. Nicolas se aproximava da entrada da construção. E acompanhado.

— Veio ele e mais alguém — disse Fernando.

Ela arqueou as sobrancelhas.

— Mais um fudido?

— Está querendo dizer que somos fudidos também?

— Claro, por qual outro motivo estaríamos aqui?

Ficou em silêncio, não porque pensava a mesma coisa, mas porque sabia que convencer alguém era complicado, ainda mais quando falavam com tanta convicção e não eram chegados. Conseguia entender o ponto de vista de Bárbara. Que tipo de pessoa arriscaria ir até um lugar onde a lógica era inexistente e o perigo constante apenas para ajudar pessoas que nem conhecia?

Não demorou muito para Nicolas subir até o topo do farol. Junto dele veio uma voz rouca e alegre.

— E é aqui que vocês sempre se encontram?

Logo em seguida apareceu a dona da voz. Ali, com os cabelos brancos e curtos, rosto cheio de linhas de expressão e pontinhos marrons pela bochecha, trajando roupas que pareciam mais adequadas a uma corrida no parque, estava uma senhora. Viu nas mãos dela manchas avermelhadas que lembraram Fernando de algumas semanas atrás, quando Nicolas ligou pedindo lhe curasse de alguma doença que contraiu em um território.

— Sério, cara? Tu trouxe uma velha pra cá?! — Bárbara disparou antes que Fernando pudesse fazê-lo, apesar de que teria escolhido palavras menos ofensivas à pobre senhora.

— Sim, eu trouxe — disse Nicolas. — Esta é Dominique. Ela estará conosco daqui em diante.

— Você deve ser a Bárbara. Nicolas me falou de ti. — Dominique se aproximou sem maldade alguma da esquentadinha. Mesmo com as palavras duras que recebera, esboçava um sorriso no rosto. — Entendo o que disse e eu também estou confusa. — Deu uma risada baixa. — Mas acho que posso ajudar vocês.

A expressão dura de Bárbara aliviou, e quando isso aconteceu, Dominique a cumprimentou com um beijo na bochecha. De forma hesitante, a motoqueira retribuiu.

— E você, nossa, que forte. — Dominique disse ao olhar para Fernando. — Deve fazer sucesso com as mulheres.

— Ééé… — Foi a única palavra que Fernando conseguiu emitir.

Os dois se cumprimentaram com beijos na bochecha. Mesmo no clima mais ameno, não pôde deixar de desconfiar de Dominique. Trocou uma olhadela com Nicolas, e logo foi respondido:

— Dominique é extremamente capaz e acho que será a adição perfeita ao grupo. Assim como eu, ela cuida da ofensiva, dessa forma Bárbara consegue focar em nos proteger.

Fernando arregalou os olhos para a idosa. Como uma pessoa tão carinhosa e de idade serviria para o ataque? Ele não queria vê-la se machucar e ir para o hospital.

— Vou ser bem direto aqui — disse Fernando. — Dominique, tu entendeu os riscos? Não estamos aqui pra fazer algo fácil, pode se machucar de verdade.

— Já sei disso. — O sorriso no rosto dela não sumiu. — Estamos aqui para salvar pessoas e matar monstros. Eu quero fazer isso.

— Tu pode morrer — reforçou Bárbara. — Me desculpe, senhora, não posso te aceitar aqui.

— Mas eu posso ajudar. E eu já vivi bastante, mais que o dobro de vocês, se eu morrer, que seja fazendo algo bom.

— Eu sei que estão hesitantes, porém confiem em mim. — Nicolas se aproximou e colocou a mão no ombro de Dominique. — Eu não arriscaria a vida de ninguém que eu não achasse capaz de contribuir conosco.

— Tu ouve o que está dizendo? — disse Fernando, balançando fervorosamente as mãos para frente e para trás ao lado da cabeça. — Vai mandar uma senhora lutar contra aquelas monstruosidades porque acha que ela é capaz de ajudar?! Não tem coração?

— Somos poucos, temos que aproveitar as oportunidades que aparecem.

Fernando começou a bufar.

— Estamos lidando com vidas aqui!

— Eu sei — disse Nicolas. Ele olhou para os outros e parou com os olhos em Fernando. — Por isso não fizemos nada perigoso de verdade até agora, não tínhamos um grupo capaz de lidar com diferentes situações. Agora temos.

— Que tal assim, nós vamos bem devagar hoje, e se sentirem que eu não sirvo, vou embora — disse Dominique, fitando Fernando sem sorrir. — Não quero atrapalhar.

— Vamos tentar explorar, apenas, ver como trabalhamos juntos e voltar quando der. — Nicolas pressionou.

Fernando alternou o alvo de sua carranca entre o pálido e a idosa. Respirou fundo e fechou os olhos. Se fosse só Nicolas insistindo, daria um jeito de manter Dominique longe dessa loucura.

— Tudo bem, mas quem vai decidir se paramos ou não sou eu. Entendido?

— Sim.

***

No território do metrô, se depararam com mudanças. O vagão parecia mais largo, as paredes e chão, antes limpas e brilhantes, estavam tomadas de ferrugem. A noite chegara e o lago estava escuro. Os prédios continuavam todos ali, mas os letreiros eram irregulares, as luzes piscantes falhavam vez ou outra. Nicolas foi até a janela que dava para o lago e observou em silêncio antes de se virar e falar:

— O território está mudando, crescendo, talvez. Não tinha visto isto antes.

— Quem sabe a gente volta — disse Fernando, olhando de relance para a ferrugem que tomava o teto.

— Cada dia que esse território existe, ele se fortalece e pessoas se tornam vítimas dele. — respondeu Nicolas. — Se não entendermos as mudanças, pode ser ainda mais difícil da próxima vez.

— Por que não avançamos um pouco? Se estiver muito difícil podemos voltar — sugeriu Dominique.

Concordaram e se organizaram na formação previamente estabelecida. Na frente, Bárbara e Dominique, no meio Nicolas e atrás Fernando. Avançaram para o vagão seguinte, desta vez encontrando algumas pessoas. Elas nem prestaram atenção ao grupo e, apesar de não se lembrar com muitos detalhes do território, Bárbara notou que elas tinham algo diferente da última vez. Ao longo da pele e da própria roupa, diversas manchas alaranjadas, semelhantes a ferrugem, permeavam os indivíduos. Em alguns, as manchas estavam focadas nos pés, em outros, nas mãos, mas todos tinham um pouco na cabeça. Pareciam não se importar, mantendo uma reação apática para tudo a sua volta. Onde a marca estava, cabelos faltavam e a própria carne se fazia ausente, criando uma aparência esquelética.

— São mais presentes nos mais velhos — disse Nicolas, perto de seu ouvido.

Bárbara se virou, pronta para empurrá-lo, mas ele já tinha recuado um passo.

— Não faça mais isso! — disse ela, apontando o dedo para Nicolas.

— Tomarei mais cuidado, mas olhem. — Ele levantou o queixo na direção das pessoas. — Quanto mais velhos, mais manchas. Mesmo assim, há exceções, alguns jovens carregam muitas.

— Isso significa algo? — perguntou Fernando, quebrando a formação e ficando ao lado de Nicolas.

Bárbara voltou a fitar os manchados, era a protetora do grupo e não queria deixá-los na mão, porém manteve o ouvido atento para a explicação de Nicolas.

— Territórios são armadilhas para humanos, uma forma dos predadores nos atraírem. Imagino que o local se modele de acordo com a mentalidade das pessoas que o predador visa.

— Mas isso não limita a comida do predador?

— Eles podem não querer todo tipo de refeição — respondeu Dominique. — Igual peixe, você usa a isca certa para a espécie que quer pegar.

— Podemos deixar a especulação pra mais tarde? — Bárbara se virou para os três. — Não dá para ficar a noite toda teorizando e eu tenho que trabalhar amanhã.

Fernando arregalou os olhos.

— Tem razão, vamos logo!

Continuaram avançando pelos vagões. A ferrugem se mostrava presente em cada vagão que entravam. Quanto mais ela permeava a estrutura, mais os passageiros de lá estavam tomados pelas marcas. Bárbara não via muitos detalhes pois manteve o foco à sua frente, não queria deixar nada passar, mas pôde ouvir Nicolas murmurando algumas coisas de vez em quando.

Chegaram em um carro que estava tomado pela ferrugem. Teto, paredes e chão pareciam pintados para ficar daquela forma. O primeiro passo de Bárbara revelou uma estrutura sensível e instável.

— Cuidado, gente — disse ela.

Como sempre, foi na frente, testando o chão antes de cada passo. Quando já tinham avançado um pouco no vagão, ouviu um barulho atrás de si e logo foi tomada por uma estranha sensação de nojo. Virou-se para trás e viu que todos estavam ali. Direcionou a visão mais para o fundo e viu lá uma criatura esparramada pelo chão, se levantando aos poucos.

Chegava quase a dois metros de altura e podia-se contar com facilidade suas costelas. A pele inteira estava tomada pela mancha alaranjada, não usava roupas e lhe faltavam órgãos sexuais. Porém o que mais chamou sua atenção foi a cabeça. Não tinha olhos ou cérebro, era como se uma lâmina fina e precisa a tivesse cortado logo acima do nariz.

Bárbara aprontou-se para trocar de posição quando ouviu outro barulho, desta vez na direção aonde estavam indo. Se virou mais rápido que da outra vez e viu, alguns metros à sua frente, outra criatura no chão. Estava mais perto que a outra, e os murmúrios que fazia chegavam ao ouvido da motoqueira.

— A máquina deve continuar operando.

— Não deixe parar.

— Se esforce.

Ele repetia estas frases de novo e de novo, até mesmo depois de se levantar.

Bárbara se sentia perdida. O que deveria fazer? Avançar? Ficar ali? Ir para trás? A criatura deu passos lentos em sua direção e a motoqueira estava prestes a recuar quando ouviu a voz de Nicolas.

— Fiquem onde estão!

Assim que terminou de falar, uma corda se materializou no ar, enrolada no pescoço da aberração, que logo foi puxada para cima com um solavanco e ficou suspensa, se debatendo. A resistência não durou muito e logo os movimentos cessaram. O mesmo aconteceu com a criatura de trás. O corpo delas escureceu, uma gosma fétido e roxo escorreu, logo em seguida tornaram-se nada mais que pó.

Bárbara soltou a respiração, só então notando que estava segurando-a. Olhou na direção de Nicolas, que ajeitava a corda em seu pescoço. Pensou que, por menos que gostasse de como falava e agia, o homem tinha suas qualidades. Seus olhos se encontraram e ele falou:

— Continue.

Ela olhou para frente, arrependida de seu último pensamento. O babaca insensível nem para falar algo que animasse servia. Deu um passo adiante e parou em seguida. O chão sob seus pés subia e descia em um movimento lento, oscilando como se fossem as entranhas de uma besta. Não tardou para uma fenda surgir alguns metros à sua frente na parede da esquerda. De dentro saiu uma mão esquelética e depois outra, se agarraram nas bordas da fenda e fizeram força para sair, revelando primeiro a cabeça incompleta da criatura, e então o resto de seu corpo esquálido. A coisa saiu da fenda, caindo desajeitada no chão e se levantando em seguida. Bárbara fechou a mão com força, e depois tremeu quando dezenas de outras fendas surgiram ao longo do vagão.

— Atrás também! — gritou Fernando. — O que fazemos?

— Avançamos!

Ouvindo a decisão de Nicolas, Bárbara avançou, abandonando a cautela que tinha antes em cada passo. Apesar de mais e mais criaturas aparecendo a cada segundo, sua lentidão tornava fácil evitá-las.

Enquanto dava um passo à esquerda para evitar uma criatura de braços estendidos, Bárbara sentiu o chão ceder sob seu peso. O repentino desequilíbrio a fez cair para frente, onde uma criatura emergia do chão e alçava as mãos em sua direção.

Um par de pés calçando tênis de corrida surgiram. Dominique chutou a criatura na cabeça, o tronco dela se curvou inteiro para trás e o queixo foi destroçado. Bárbara ainda estava surpresa com a força de sua companheira, pelo menos quarenta anos mais velha, quando Dominique lhe estendeu a mão.

— Vamos, vamos!

Aceitou a ajuda de bom grado e se levantou. Logo estavam de volta na formação e avançando pelo corredor. Dominique lidava com as criaturas que se aproximavam, desferindo socos e pontapés que nem mesmo Anderson Silva seria capaz de dar. Quando notou que as manchas estavam espalhando-se pelos punhos da idosa guerreira, resolveu ajudar também, se limitando a empurrar e chutar os obstáculos. As criaturas eram fracas e leves demais, quase não sentia impacto ao interagir com elas, mas o resíduo que deixavam em seu corpo causava ardência.

Logo chegaram no fim do vagão e atravessaram para o próximo. Não fosse por estar em território de um predador, teria pensado que estava em um transporte normal. As paredes e assentos estavam limpos, na verdade, nunca tinha visto tamanho zelo nas vezes que andara de metrô. Nicolas fechou com um estrondo a passagem entre as divisas.

Conseguiram ver através do vidro na porta a multidão avançando até eles. Nicolas recuou, deixando as mulheres ficarem mais próximas do perigo. As criaturas aproximaram-se da passagem, mas nada fizeram. Após alguns segundos, recuaram, voltando ao meio do vagão e desaparecendo pelas fendas.

— Fernando… — começou Nicolas.

— Já sei.

O líder assentiu e manteve o olhar no carro anterior. Fernando tirou a mochila de entrega das costas e a abriu. Tirou de dentro dois cacetinhos, fumegantes como se recém tivessem saído do forno.

— Isso deve ficar delicioso com uma manteiguinha — comentou Dominique, pegando o pão e abocanhando-o.

Bárbara pegou e comeu sem comentários, apreciava os efeitos da comida, mas achava bizarro botar na boca algo que vinha daquele lugar. Ao contrário do que esperava, o alimento não tinha gosto ou peso no seu estômago, era como se comesse ar.

A ardência que sentia enfraqueceu até o ponto de sentir nada, as manchas recuaram para a ponta dos dedos até desaparecerem. O mesmo ocorreu com Dominique, mas de forma mais lenta, já que as manchas dela chegavam ao cotovelo. Além disso, a vermelhidão que havia desde antes em suas mãos desapareceu.

Viu Fernando esfregando o braço direito enquanto fechava a mochila e notou diversas marcas na mão e antebraço dele. Segurou-o pelo pulso com firmeza, porém sem apertar.

— Passou para ti também. — Olhou para o rosto de Fernando, notando o quanto ele tentava disfarçar uma careta. — Vai ficar bem?

— Daqui a pouco passa. — Balançou de leve a cabeça na direção de Nicolas. — Testamos algumas vezes para ver como eu reagia com ferimentos.

— Testaram? — Bárbara soltou Fernando. — Não sei o que dizer sobre isso.

Ele abriu um sorriso amarelo.

— Nem eu, mas é a forma que tenho de ajudar.

— Não acha que deveria ficar no farol, então? Assim não se expõe tanto.

— Não dá. — Balançou o dedo indicador em negação. — Se fosse hoje, Dominique estaria cheia de manchas quando voltasse ao farol.

— Tu que sabe… — Levantou o olhar para Nicolas. — Ei, vamos continuar?

— Sim, vamos. — Ele se virou para Bárbara. — Parece que aquelas coisas se limitam ao vagão que estão, nem tentaram vir para cá.

— E no que isso importa?

— Como eu disse antes, o território é…

— Eu sei, entendi.

Antes que pudessem seguir adiante, um som estático soou pelo vagão. Em seguida veio uma voz abafada e grossa, falando tão rápido que foi difícil entender a mensagem:

— Atenção! Temos uma emergência em nossa máquina. Quatro estrangeiros querem nos ver destruídos. Contamos com a colaboração de todos para uma rápida eliminação da ameaça.

E então a divisa com o vagão enferrujado se abriu com violência.