Resenha – Filhos da Degradação

Filhos da Degradação se passa em Untherak, uma cidade onde praticamente todos os seus habitantes vivem uma vida de merda e devem louvar a deusa Una, caso contrário terão uma vida pior ainda. As poucas exceções são as figuras de poder, que fazem questão de usar sua posição para sair em vantagem em relação aos demais.

A história alterna entre poucos momentos no passado e a maioria no presente. A narrativa é muito boa e o livro, apesar de longo, não foi cansativo em momento algum. Sempre tinha algo acontecendo e movendo a história. Até mesmo o pequeno infodump que ocorre no começo possui uma serventia mais para frente (porém ainda acho que poderia não ter ele). O mundo possui um clima sombrio e pesado, e os personagens refletem bem esse clima com negativismo, antipatia e inimizade.

O mundo se resume à cidade de Untherak. Claro, existem coisas além, mas temos tão pouca informação que nem vale a pena citar. Com destaque nas raças, achei os anões e sinfos os mais desenvolvidos, acho que faltou um pouco de atenção aos kaorshs (humanos não precisam de atenção, todo mundo sabe como funciona). Também senti falta de uma explicação para o processo de recrutamento de Autoridades, me pergunto qual o método que usam para só deixar babacas no poder.

Os personagens são bons e diferentes entre si, mas faltou desenvolvimento e uma demonstração de como se aproximaram. Entendo que isso foi feito “fora de cena”, mas poderia ser narrado como se aproximaram e entenderam uns aos outros. Da forma que ficou parece que ficaram amigos de uma hora pra outra.

O final deixa um gancho enorme para o próximo livro que, para minha tristeza mais profunda, não foi lançado até o momento.

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Resenha – Máscaras para os Mortos

Máscaras para os mortos é uma fantasia sombria, e faz jus ao gênero. Desde o começo ele cria um clima pesado e incerto em um mundo cruel. Este clima se mantém pelo livro inteiro, e isso se vê nos detalhes, desde as descrições de deformidades em criaturas monstruosas até diálogos e relações entre os personagens.

Os primeiros capítulos são lentos, focando na explicação do mundo e dos protagonistas. Entendo que por se tratar de um mundo novo, explicações são necessárias, mas talvez fosse possível atenuar os infodumps espalhando-os mais ao longo da narrativa. Porém, quando o livro pega no tranco, se torna mais dinâmico, os infodumps diminuem consideravelmente e a leitura se torna prazerosa.

A história de Hakim, um dos protagonistas, me pareceu um pouco desinteressante no início, mas conforme a trama se desenrola, o personagem em si se torna muito mais interessante e proativo, indo atrás de mistérios e conspirações que ameaçam o reino de Var Khalad.

Em compensação, a história de Moira deslancha desde o início, por apresentar uma situação mais difícil e ameaçadora à personagem, e por consequência, dar a ela um objetivo claro. A constante mudança que Moira sofre ao longo do livro cobra o preço em seu psicológico, que se torna cada vez mais frio, e a garota termina o livro irreconhecível. E para mim, pelo menos, parece que até se esqueceu que procurava por sua família.

É impossível não falar também de Sev, que apesar de possuir poucas cenas, me chamou muito a atenção por ser tão (ou até mais) carismático que os protagonistas. O ladrão velho, com problemas de coluna que arquiteta um roubo magnífico, por vezes é o que move a história de Moira, e justamente por causa disso acabo considerando ele um dos protagonistas. Como todo bom ladrão, ele não chama a atenção nos eventos grandes, mas seu dedo está sempre em algum acontecimento.

Os diferentes tipos de magia também chamam a atenção, tanto por sua criatividade quando pela forma bizarra com que funciona. A taumaturgia utiliza-se de fluidos corporais injetados para dar diferentes habilidades aos seus usuários, os taumaturgos. A necromancia pode parecer clichê, mas a meu ver, o autor deu aplicações criativas o suficiente para superar esse problema. Também há outras magias pouco explicadas no momento, mas imagino que terão seu destaque em obras futuras.

Não posso deixar de comentar sobre a qualidade técnica. Para uma obra independente, não deixa devendo em comparação à publicações tradicionais. O vocabulário rico do autor também merece destaque (e agradeço ao kindle pelo dicionário embutido), pois sabe-se que construir um bom vocabulário requer muita leitura e pesquisa. Obviamente, ele não é livre de defeitos. Existem alguns poucos erros de português, mas não atrapalham na apreciação da obra. Acredito que o autor poderia ter focado um pouco mais em demonstrar a emoção dos personagens, por vezes acaba resumindo demais o que os personagens sentem e sinto que uma atenção mais cuidadosa a isso aumentaria a qualidade geral.

Além do mais, o preço está super em conta neste momento, quem tiver interesse, aproveite.

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Resenha – A segunda morte de Suellen Rocha

Com a finalidade de dar uma movimentada a mais no blog, vou começar a postar resenhas de livros que eu for lendo. Foge um pouco do objetivo do blog, mas resenha é uma forma de escrita, então ta valendo pra mim. Só cuidado que a resenha possui spoilers ein.

O livro é nacional e foi lançado a pouco pela editora Avec, tem versões em ebook e digital, e se você tiver o Amazon prime, custa um total de 0 reais. Vamos então ao que interessa.

A história é um suspense envolvendo 4 mulheres, que em sua adolescência assassinaram alguém e resolvem manter isso em segredo para o resto da vida. Isso fica bem óbvio logo no prólogo e ao longo da história são dados detalhes sobre os motivos do assassinato. No primeiro capítulo, uma destas 4 mulheres morre, revivendo a história que todas tentavam esquecer e dando início a toda trama.

De longe, o ponto mais forte do livro são os personagens. Nenhum deles é inteiramente bom ou inteiramente mal, todos estão em um meio termo perigoso. Esta representação é tão humana que chega a ser assustadora. Atos de maldade são, na cabeça dos personagens que cometeram o ato, justificados através de uma lógica distorcida que os exime da culpa. Até mesmo Max tem em sua mente uma justificativa bizarra que o estupro de Suellen na verdade não foi um estupro, foi o clássico: Ela estava pedindo por isso.

A autora possui um domínio da escrita, as descrições e a prosa são muito boas. O próprio diálogo é bem real e, apesar de ter momentos em que não ficava muito claro quem estava falando, não tenho do que reclamar.

O mistério por trás de quem era o assassino acaba não sendo o ponto forte da história, com os pensamentos do assassino logo na primeira parte, e a apresentação de Davi como sendo uma pessoa religiosa que não se dava bem com a irmã, é possível ligar os pontos. Achei interessante que, mesmo ele sendo um dos principais antagonistas, no fim era apenas uma vítima de um ciclo de ódio propagado pela igreja e de um grupo de aproveitadores que usaram seu ódio para fazê-lo matar. Com isso, a história mostra que qualquer pessoa, nas condições certas, é capaz de realizar atrocidades, às vezes por necessidade, às vezes por motivos que nem entendem direito.

A conclusão da história no geral foi boa, porém seu único defeito foi ser um pouco conveniente demais. Não acho crível que alguém como Garanata não manteria alguém de guarda no caso de André Peralta, o investigador que sabia dos crimes na cidade e poderia estar indo atrás dele, aparecesse.