Predadores: A Obsessão – Capítulo 22

Desenho monocromático. O desenho mostra um necrotério repleto de gavetas que sobem até desaparecer da visão. No centro do local há um totem com um tablet. Uma das gavetas próximas ao chão está aberta, e nela há uma maca com um corpo tapado. No canto superior esquerdo há o número vinte e dois para indicar o capítulo.

As mãos eram suficientes para cobrir o tronco e parte das pernas, e apertavam-na com força crescente. Por mais que tentasse, Dominique não conseguia sair, não conseguia mover nada além dos pés e do braço esquerdo, que estava livre do agarrão. Atrás de si, Nicolas estava com os olhos focados na criatura, mas imóvel. Fernando estava logo ao lado do líder, alternando entre o homem e a criatura. A única a se mover era Bárbara, mas o que ela faria? Seu poder funcionava melhor quando ela era o alvo dos monstros. Nenhuma ajuda viria. Não, não. Que pensamento derrotista era esse? Ela disse a Joaquim, não disse? Tinha um dever, uma missão dada a grupo seleto. Se era para morrer, faria isso dando o máximo de trabalho possível.

Olhou para o rosto do predador. Ele afastou-a um pouco de si quando agarrou, e agora movia os lábios rapidamente. Entre Bárbara gritando abaixo de si e as batidas de coração que pareciam tambores abafando o resto, conseguiu ouvir um sussurro:

— Minha estrela, minha pequena estrela, é você?

Sem tempo para fazer sentido de loucuras, Dominique reagiu, socou as mãos da criatura, deu cotoveladas. Nada tinha efeito, porcaria! Esticou o braço para puxar um dos tentáculos, mas estavam longe demais. Se ela tivesse uma arma, talvez um facão, alcançaria o predador e cortaria tudo.

Nesse momento, sentiu o antebraço livre perder a sensibilidade, a pele ficou pálida, a roupa desapareceu e os ossos mudaram de forma. A carne secou e o osso transformou-se em metal, moldando-se no formato de um facão longo. Não havia porquê entender o que aconteceu, sobrevivência era essencial. Balançou o braço-facão e cortou de uma vez só cinco tentáculos.

A criatura berrou e soltou a idosa, que se estabacou no chão. Antes que pudesse se erguer, um dos enormes braços do predador moveu-se para esmagá-la. Sua reação instintiva foi encolher-se e aguentar a dor, mas o impacto não veio. Viu Bárbara sobre si, o corpo tão cheio de rachaduras quanto um copo trincado. Ao fundo, o braço se erguia mais uma vez. Dominique ergueu-se, passou a mão na cintura de Bárbara e saltou para o lado com a companheira. O chão atrás delas foi atingido na sequência, rachando o piso e soltando cacos de porcelanato para todos os lados. Mal tinham se recomposto e o originador preparava outro ataque. Precisavam ser mais rápidas!

— Me proteja mais uma vez! Vou atacar em seguida! — gritou Dominique.

Teria apenas uma chance de cortar os tentáculos restantes. Se errasse, ficaria suspensa no ar e a experiência no território do metrô mostrou que era vulnerável demais assim. A mãozorra desceu e mais uma vez Bárbara aguentou o golpe, erguendo os dois antebraços. Seus joelhos flexionaram, as fendas no corpo multiplicaram e jaqueta irradiou ainda mais o vermelho das asas. Dominique aproveitou o momento para saltar com toda a força na direção da cabeça do monstro e, enquanto passava pela protuberância, usou o facão para cortá-la. Por pouco não foi atingida por um golpe do originador enquanto ele se debatia.

— Vamos, vamos! — disse a idosa ao aterrissar.

Ela e Bárbara se afastaram enquanto o predador enlouquecia. Berrando e se debatendo, as mãos socavam as paredes, as unhas arranhavam pedaços do chão como se fossem areia molhada, tudo isso enquanto ignorava a presença dos demais.

— Precisamos… sair — disse Nicolas, assim que reagruparam.

O grupo inteiro correu para longe, procurando por uma segunda saída. A loucura do originador diminuiu até cessar e logo não ouviam mais nada, silêncio total a não ser pelas próprias batidas dos calçados contra o piso.

Encontraram uma escada para baixo e, por falta de plano melhor, desceram-na. Com o andar inferior sendo idêntico, tomaram o caminho direto até o elevador. Não demorou muito para os tremores começarem, mas, graças a Deus, chegaram sem problemas. Ele estava com as portas abertas, como se estivesse apenas aguardando o grupo. Dominique apertou um botão sem nem pensar. Enquanto a porta fechava, viram o originador emergir ao derrubar uma parede próxima. A protuberância estava de volta junto com todos os tentáculos. Ele virou o corpo na direção deles, mas não fez menção de segui-los.

Chegando no térreo, correram até a rua e, com exceção de Dominique, largaram-se todos pelo chão. A idosa ouviu alguém lhe perguntando sobre ferimentos, mas ela estava distraída com seu braço esquerdo, que voltara ao normal.

— O que acontece agora? — perguntou Fernando, esfregando as mãos cobertas de rachaduras após ajudar Bárbara.

— Ele é capaz de se curar — disse Nicolas, recuperando a compostura. — A maioria do que Dominique fez não teve efeito, capaz de Bárbara não ter muita utilidade também.

— A pele dele é bem grossa, senti como se tivesse batendo em concreto puro. — Dominique olhou para a mão direita. — Se formos atacar, tem que ser na cabeça.

— Antes de qualquer coisa, como tu fez aquilo? — perguntou Bárbara, apontando para seu braço esquerdo.

— Eu não sei, pensei que queria uma forma de cortar os tentáculos, quando notei já estava com uma lâmina no braço. — Levantou a mão esquerda para o alto. — Devo ter entendido errado minha benção.

— Ainda assim, não podemos desistir! — Fernando alternava o olhar entre os demais. — Ferimos ele um pouco.

— Não é o suficiente, fomos apenas um incômodo — rebateu Nicolas.

— Menos que isso eu diria. — Bárbara cruzou os braços.

— Tem outra coisa… o originador falou algo enquanto me prendia — disse Dominique.

— Que palavras ele usou? — perguntou Nicolas, avizinhando-se.

— “Minha estrela, minha pequena estrela, é você?”. — Dominique suspirou. — Mas não vejo como isso vai ajudar muito, desculpe…

— Não se desculpe — disse o líder. — Temos que entender mais um pouco desse lugar.

— O que há mais para entender? — perguntou Fernando. — Não estivemos em todos os andares já?

Nicolas e Bárbara trocaram um olhar.

— O andar -1 — disse a mulher mais jovem. — É realmente um lugar ou só um defeito no elevador?

— Vamos descobrir.

Fernando se levantou, Dominique foi em seguida e ajudou Bárbara a ficar em pé. Mais um andar, com sorte seria um lugar pequeno e sem predadores. Pena que estavam sem sorte naquele dia.

Caminharam de volta ao elevador e entraram nele. Os botões dispostos na vertical não indicavam sinal algum de ter outro andar. Investigaram juntos o resto da cabine, procurando por alguma dica. Minutos se passaram até que saíssem de mãos vazias.

— Talvez dê para entrar só pelo poço. Abrimos a porta e eu pulo — sugeriu Dominique.

Um par de enfermeiros saiu de uma sala trazendo consigo uma maca, utilizaram o elevador e subiram para outro andar.

— Nem pensar, e se não tiver fundo? E se tu não voltar, o que fazemos? — questionou Fernando.

— É uma boa ideia. — Nicolas assentiu. — Mas só até a parte de abrir a porta.

Assim, com a ajuda de Dominique, forçaram a porta. O poço não acabava no térreo, ia mais para o fundo. Olhar aquele abismo trouxe um frio na ponta dos dedos da idosa, junto com a certeza que não gostaria de descer até lá.

— Não dá para fazer uma corda e descemos de rapel? — perguntou Bárbara. — Aí se tiver um perigo tu só puxa para cima.

— Não. — Nicolas nem olhou para ela ao responder. — Serve apenas para enforcamento e restrição. E também, meus alvos precisam estar ao meu redor, então se eu descer alguém, eventualmente não vou conseguir mais prender essa pessoa.

— Tentei. — A motoqueira deu de ombros.

Fecharam a porta e aguardaram o elevador descer, entrando nele mais uma vez em uma nova tentativa de descobrir como chegar ao andar oculto. Investigaram mais um pouco, porém não havia nenhuma dica.

— Talvez… — começou Bárbara. — A gente não deva ir lá? Tipo, lugar proibido e tal.

— Por essa lógica nem deveríamos estar aqui, ou estar vivos — disse Fernando.

— Não, faz sentido. Um andar que não deveria ser acessado, que precisa ser descoberto. Algo que o originador quis manter oculto de qualquer um, mas que se olharmos sob a superfície, será encontrado. — Nicolas olhou para os botões do elevador. — Talvez a solução precise de um pouco de violência. Dominique, arranque o painel.

Feliz em ajudar, a idosa se aproximou e forçou a mão contra o metal. Seus dedos atravessaram a proteção sem muita resistência, e ela puxou. O painel resistiu por um tempo, até que abriu com um estalo, girando para fora como uma porta.

O interior revelou ser um compartimento cheio de placas eletrônicas fixas na parede e fios coloridos, alguns levando para entradas na parede que Dominique não fazia ideia de onde iam dar. Na parte de trás do painel de botões, havia uma placa redonda para cada botão, todas ligadas por fios que se juntavam e, se tinha entendido corretamente aquele mundaréu de cabos, ligavam-se nas placas que estavam fixas à parede.

— Aí sim! Olha ali! — Bárbara apontou para a sequência de botões, onde uma das placas de seleção de andar estava suspensa, ligada aos fios, mas não estava conectada em nenhum dos botões.

— Como sabia? — perguntou Fernando.

— Não sabia, foi experimentação. — Nicolas passou os olhos por cada um deles. — Descemos então. Todos prontos?

O grupo se aninhou no meio do elevador. Nicolas substitui a placa do andar Recuperação por aquela que supostamente os levaria até o subterrâneo e apertou o botão. As portas do elevador fecharam e o frio na barriga que surgiu indicava que desciam.

Levou quase um minuto para as portas se abrirem. No painel de andares estava o -1 que viram antes. Bastou darem um passo para fora que sentiram o ar gelado que percorria o andar inteiro.

Era uma única sala comprida e alta, com paredes feitas de metal e fileiras e mais fileiras de gavetas que as preenchiam, subindo até o teto, por onde uma única lâmpada de luz branca e forte dava conta de iluminar tudo.

A alguns metros de distância do elevador, havia um totem com um tablet próximo do topo. Era discreto e cinza, do tipo que se encontra em muitas lojas Brasil afora. Não demorou para se aproximarem do dispositivo, que estava em um aplicativo de contatos. Diversos nomes cobriam a tela, separados por uma linha horizontal. Nicolas deu um passo à frente e tocou em um dos nomes. Uma nova janela abriu, contendo mais informações sobre a pessoa.

NOME: AMANDA PACHECO AMARAL

IDADE: 23 ANOS

ALTURA: 1,76 M

PESO: 68 KG

A lista de descrições físicas era enorme, e uma foto no canto superior direito mostrava o rosto da tal Amanda. Nicolas se demorou lendo tudo que tinha na tela e, ao final, precisou rolar para baixo. No fim de tudo, havia informações que chamaram mais atenção que as outras.

CAUSA DE MORTE: PERDA DE SANGUE

CAUSADOR DA MORTE: AMANDA PACHECO AMARAL

HORÁRIO DA MORTE: 00H23

Havia um botão azul também: “Mostrar Cadáver”. O dedo de Nicolas pairou por alguns segundos acima da tela, mas, por fim, acabou tocando no botão. Seguiu-se um som alto, como se mecanismos há muito tempo parados voltassem a funcionar. As gavetas do necrotério começaram a se reorganizar. Subiam, iam para o lado e desciam. Depois de poucos segundos, uma delas ficou ao nível do chão, se abriu e levou para fora a bandeja mortuária contendo uma pessoa. Estava coberta dos pés à cabeça por um plástico branco que não permitia a ninguém ver o que havia por baixo.

— Dê uma olhada no cadáver — ordenou Nicolas a Bárbara.

— Eu não, vai tu.

Então Nicolas foi. Levantou o plástico na área da cabeça, olhou por alguns segundos para o rosto, e fez o mesmo na área dos pulsos. Voltou ao totem.

— É a Amanda mesmo, pelo menos em aparência — disse ele.

O botão se tornou vermelho e anunciava a opção de “Ocultar Cadáver”. Nicolas o apertou e o corpo de Amanda voltou para a gaveta. Voltaram à lista de nomes. No topo dela havia um sino cuja cor anterior era cinza, e que mudara para vermelho. Ao tocar no símbolo, abriu-se uma pequena janela com os dizeres:

LAURA SCHMITT ADICIONADA À LISTA

HENRIQUE OLIVEIRA ADICIONADO À LISTA

EDUARDO MOURA ADICIONADO À LISTA

FRANCIANO GAIESKY ADICIONADO À LISTA

Nicolas fechou a janela de novas adições e seguiu conferindo outras pessoas. Todas tinham tantos detalhes quanto a primeira, e sempre mostravam a causa da morte. Assim que chegaram na letra “C”, Fernando disse:

— Deixa eu mexer aí.

— Quer procurar alguém? — perguntou Nicolas, sem se virar.

— Quero.

— Quem?

— Eu mesmo, acho.

O líder deu espaço ao padeiro, que rolou e rolou até achar um nome: Cleber Martines. Ele abriu as informações da pessoa e deparou-se com a foto do pai. Dominique sutilmente olhou para outra direção, dando um pouco de privacidade ao colega.

— Qual o nome completo do Igor? — perguntou Fernando.

— Igor… Machado — respondeu Bárbara.

Fernando buscou pelo nome na lista quase interminável do tablet, até que parou com o dedo.

— Eu… — Olhou para Bárbara. — Quer abrir?

A mulher ficou tensa. O corpo, mesmo sem as rachaduras, parecia prestes a se desfazer em pedaços. Ela assentiu, tomou o lugar de Fernando e abriu as informações de Igor.

NOME: IGOR MACHADO

IDADE: 13 ANOS

ALTURA: 1,52 M

PESO: 42 KG

Bárbara fechou os olhos, colocou as mãos no rosto e soltou o ar. Seus ombros caíram, mas ela logo olhou para Fernando e disse:

— Não é ele.

Dominique passou as mãos nas costas da companheira. Era uma sensação estranha estar aliviada com a morte de outra pessoa, ainda mais de uma criança.

— Ainda temos chance, então — disse Fernando, olhando para Nicolas. — Eu tenho uma teoria de como eliminar o predador, mas pode ser que não funcione.

— É melhor que ter ideia nenhuma — disse Bárbara. — Desembucha aí.

— No metrô havia aquele monstro grandão e um maquinista no mesmo lugar, acho que aqui pode ser parecido. Lembram daquela sala no andar da perdição? Deve ser uma pista! Uma dica de que o verdadeiro não é o monstro que enfrentamos, mas um desses cadáveres.

Nicolas assentiu enquanto mexia na corda em seu pescoço e ajeitava a gola da camisa.

— Só tem um problema: como vamos descobrir o nome da pessoa? — Bárbara passou um dos dedos pela tela, rolando a página. — Olha isso! A lista é enorme!

— Talvez a gente volte ao quarto dela e procure alguma identificação? — sugeriu Fernando.

— E se arriscar lá de novo? — Bárbara levantou uma sobrancelha. — Não acho que vamos ter tanta sorte dessa vez. Ainda mais que um vai ter que ficar procurando no quarto enquanto os outros seguram o monstro.

Pronto, ali estava sua chance. Uma forma de provar para eles que era capaz, que ia muito além de sua aparência. Antes que a discussão tomasse outro rumo, Dominique disse:

— Eu vou! Deixem isso comigo.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 21

Desenho monocromático. O desenho mostra um rosto humano glabro saindo de um corpo peludo e grande. No rosto, onde deveria ficar o nariz e os olhos, há um apêndice similar ao de uma toupeira-natiz-de-estrela, de onde despontam diversos tentáculos finos e compridos se espalhando em diferentes direções.
No canto inferior esquerdo há o número vinte e um para indicar o capítulo.

Deixou os dois jovens liderarem a busca durante algum tempo. Apesar das palavras, sua cabeça ainda estava no quarto, queria ficar mais um tempo lá. Sabia muito bem da verdade: Joaquim morrera no mesmo acidente que tirou suas pernas. Não fazia ideia de como, mas aquele ali era apenas uma cópia, uma sombra. Mas que sombra calorosa era essa!

Havia passado por uma dezena de quartos quando conseguiu se recompor e andar ao lado de Bárbara. Não ousou conversar, em vez disso, focou em entender aquele lugar. Predadores não eram seres que se alimentavam de pessoas? Por que então criar o hospital? Por que criar aquele lugar tão agradável e tentador? O que estavam falhando em ver?

Encontraram Fernando dentro de um quarto cujo nome do paciente era Cleber. Não era muito difícil imaginar o homem mais velho como o pai do companheiro, tinha por volta de cinquenta anos e dava para ver muitos traços de semelhança. Os mesmos braços largos, a pele morena, o queixo quadrado, mas as características mudavam a partir daí. Os olhos eram duros e ele parecia ser do mesmo tamanho de Nicolas.

— Vocês estão aqui também — disse Fernando ao vê-los, um sorriso de criança tomando seu rosto. — Entrem, venham ver meu pai.

Bárbara trocou um olhar com Dominique e, após um momento de hesitação, todos entraram.

— Não se acanhem, não tô tão mal assim pra quebrar igual vidro — disse o pai, gesticulando para que se aproximassem.

— Também não se faz de durão, acabou no hospital de qualquer forma — replicou o filho.

Dominique respirou fundo e se aproximou, a única a fazer isso. Sabia de luto melhor que os outros dois, era a mais adequada para lidar com a situação.

— Tu deve ser a tal Dominique — comentou Cleber. — Agradeço pela ajuda ao meu filho.

— Eu que devia agradecer. — Olhou para Fernando por um momento. — Seu filho é um homem incrível e gentil, estaríamos com muitos problemas se não fosse por ele.

Cleber inflou o peito ao ouvir isso e abriu um sorriso de orelha a orelha.

— Ele sempre foi assim, o orgulho da família.

Os dois trocaram mais algumas palavras. A aposentada sabia bem o que precisava dizer em seguida, mas não conseguia. Seu foco estava em falar com Cleber. Precisava usar alguma inconsistência ou fato estranho que o pai dissesse para provar que era apenas uma cópia. Sabia, no entanto, que não encontraria. Era a melhor das ilusões, perfeito e igual ao original em cada sentido.

— Incrível, né? — disse Fernando. — Depois de anos eu o encontro aqui.

O olhar da idosa rumou até o rosto iluminado do companheiro. Não queria formar as palavras necessárias, era quase crueldade. Os dizerem chegavam até a boca, torciam-lhe a língua, então eram engolidos de volta, arranhando a garganta. Olhou para Nicolas, esperando que o líder do grupo a ajudasse nem que fosse com a mais crua das frases, mas não foi dele que veio o auxílio.

— Seu pai está morto. — A expressão de Bárbara era fechada e o corpo inteiro estava retesado, como se estivesse prestes a levar um golpe.

Como espelho sendo quebrado, a expressão de Fernando mudou. Seu sorriso resplandecente desapareceu e uma escuridão de reconhecimento tomou conta.

— Do que está falando? — Fernando baixou o tom de voz. — Ele está ali.

— É uma imitação — disse Nicolas, em voz alta. — Ele está morto, igual todos os pacientes nesse hospital.

Fernando encarou Cleber e foi encarado de volta. Não trocaram uma palavra sequer, mas, de repente, a pele de seu pai ficou mais pálida, a íris passando para um tom esbranquiçado.

— Vocês estão errados — sussurrou Fernando. — Ele está aqui, vivo! Não entendem?!

— Eu falei com meu falecido marido há pouco — interveio Dominique. Seu tom de voz era calmo e baixo, quase como se estivesse lidando com um animal assustado. — É muito parecido e pode ser que até seja seu pai, mas ele se foi. Os vivos não podem ficar presos aos mortos, por mais doloroso que seja, devemos deixá-los irem e descansar.

O olhar de Fernando percorreu o rosto de Dominique, Bárbara e por fim Nicolas. Sua expressão e postura mudaram. Não era mais um animal assustado, parecia encurralado, capaz de usar unhas e dentes para sair vivo.

— Então eu posso curar feridas impossíveis. Com. Um. Pão! Uma velha é mais forte que halterofilistas, uma tem um corpo igual pedra e o outro cria cordas do nada, mas meu pai não pode voltar à vida?! — As palavras eram cuspidas. — Hipócritas! Vão à merda e continuem com essa aventurazinha idiota! Eu ficarei.

— Conseguem tirar ele daqui? — perguntou Nicolas.

Dominique ficou relutante, mas assentiu mesmo assim. Não podiam abandonar Fernando, mas nenhum deles era tão próximo a ponto de argumentarem e enfiarem a razão na cabeça do homem.

Foi um processo lento e cuidadoso na medida do possível. Bárbara e Dominique o seguraram e arrastaram, em meio aos gritos, choro e ameaças até o lado de fora do quarto. Socos e pontapés foram desferidos contra as duas, mas elas não revidaram. Quando o soltaram a alguns metros da porta do quarto, caiu de joelhos no chão, o olhar fixo em algum ponto na parede.

Nicolas saiu por último e fechou a porta. No segundo seguinte, o padeiro pulou no pescoço do engravatado, a fúria voltando aos seus olhos. Não fosse Dominique impedir, imaginou que os dois estariam se engalfinhando no chão. Foram necessários alguns segundos para que Fernando se acalmasse e desabasse novamente, desta vez com uma expressão de derrota. Ficou assim alguns minutos, até que começou a soluçar.

— Eu não acredito — disse Fernando, limpando as lágrimas com as mãos. — O que aconteceu comigo? Eu estava… Eu queria…

— Culpe o território, não a si mesmo — disse Nicolas.

— É cara, não é sua culpa. Esse lugar que é estranho — disse Bárbara, se agachando e afagando o ombro de Fernando.

— Melhor encontrarmos Igor e sair logo daqui — pediu Dominique, quanto mais cedo fugissem, melhor seria para todos.

— Não! — Fernando se levantou em um solavanco. — Esse predador morre hoje.

— Tem certeza? — perguntou Bárbara. — Tu não parece bem.

— Não estou bem, mas não vou aturar que esse monstro continue por aí.

— Decidimos isso depois de encontrar Igor — disse Nicolas. — Nossa prioridade aqui é o resgate.

Caminharam por mais uma hora, abrindo todas as portas que encontravam. Em determinado momento, avistaram uma escadaria para o andar inferior, mas a ignoraram. Passaram a encontrar identificações contendo nomes estrangeiros, chegando a ter até mesmo letras de outros alfabetos. Abrir essas portas sempre revelava um interior igual aos demais, porém os ocupantes eram de outra nacionalidade e conversavam em outro idioma. Quando enfim chegaram ao final do corredor, deparando-se com uma parede sem janelas, voltaram até a escada e foram ao andar inferior.

Não sabia quanto tempo perderam naquele andar, mas a cada porta, a cada minuto, Bárbara parecia mais apressada. Tinham dezenas, se não centenas, de quartos a verificar, mas e se Igor não estivesse em nenhum deles?

Revistaram todo o andar inferior e nem sinal do amigo de Bárbara, tudo que encontraram foi um elevador de portas fechadas, o painel sinalizando que estava no terceiro andar, e mais uma escadaria para baixo. Desceram e repetiram o longo e cansativo processo de busca, sem obter resultado algum. Havia outro elevador apenas, e nada de escada.

— Talvez ele esteja no primeiro andar? — sugeriu Bárbara. — Vamos voltar lá e investigar.

— Aqui não é o primeiro? — perguntou Fernando.

— Pela lógica, deveria ser — respondeu Dominique. — Só que não encontramos a recepção até agora.

— Lógica não é o forte dos territórios — disse Bárbara.

— É bom começar a pensar na possibilidade de que Igor não está mais vivo — disse Nicolas, de repente.

Em um piscar de olhos, Bárbara virou-se, agarrou a corda no pescoço do homem alto e puxou-o para perto.

— Ele não está morto! — gritou ela.

Dominique se moveu para segurar a jovem, mas Nicolas levantou a mão, pedindo para não interferirem. O líder sustentou o olha furioso de Bárbara enquanto falava:

— Ele está aqui a uma semana, se formos levar em consideração a história que você nos contou. O que acha que acontece com aqueles que ficam tempo demais aqui? Sem comer, sem beber. Parece um lugar confortável nesses quartos, mas lembre-se…

Bárbara não o deixou continuar, empurrou Nicolas para longe.

— Eu sei disso, porra! Mas não revistamos tudo. Enquanto eu não olhar cada pedaço desse lugar, Igor está vivo.

— Não sabemos como funciona a passagem de tempo aqui, uma semana por ser um dia ou algumas horas. — Fernando colocou-se entre os dois. — Vamos revirar esse lugar de cabeça para baixo antes de levantar a possibilidade de morte. Que tal?

Com um clima ainda mais pesado que antes, rumaram para o elevador, que ainda sinalizava o terceiro andar. Apertaram o botão, esperando que fossem levar alguns segundos para chegar, mas ele abriu instantaneamente.

— Botões estranhos — disse Dominique, após entrarem. — Vocês não comentaram disso.

— Era tanta coisa que até esqueci dos nomes bestas. — Bárbara balançou a cabeça.

— Se eu estiver correto, só o elevador é capaz de nos transportar entre diferentes andares, então tudo que caminhamos desde que saímos é o terceiro andar — disse Nicolas.

— Isso significa que tem muito para ver ainda — murmurou Bárbara.

O líder apertou o botão para o andar “Perdição”. As portas se fecharam e abriram logo em seguida, mostrando um corredor com as lâmpadas principais desligadas, dependendo apenas das luzes emergenciais para manter o mínimo de iluminação. Naquele andar coberto pela penumbra, as portas eram vistas pela metade e o espaço entre as lâmpadas era incerto.

Bárbara e Dominique saíram primeiro do elevador. As lâmpadas piscaram por um momento, como que para recebê-los, dar boas-vindas e prepará-los para o pior.

Repetiram o mesmo processo do andar Recuperação, abrindo todas as portas que encontravam. Ali, no entanto, sempre achavam quartos vazios. Sem pessoas, decoração ou móveis. Desocupados e abandonados.

Caminharam por corredores empoeirados durante algum tempo, até que, em uma parede à direita, encontraram um buraco. Era oval e imperfeito, grande o suficiente para passar um pequeno caminhão.

Dentro havia um quarto devidamente limpo e arrumado, até a poeira se recusava a entrar nele. No fundo do diminuto cômodo, no lado direito, uma cama de solteiro estava coberta por um lençol azul-claro e um travesseiro branco. De pé, encostado na parede ao lado da cama, estava um violão e no chão próximo ao instrumento haviam cadernos abertos, mostrando partituras. Ainda no fundo, mas no lado esquerdo, havia uma pequena mesa com um notebook aberto em um programa de áudio que emitia um som agradável, acústico e simples. Uma voz jovem cantava, acompanhando o toque do violão. Até mesmo para alguém sem muito senso musical como Dominique, aquele não era o melhor dos sons, e sim alguém tentando aprender.

No meio, entre violão e notebook, preso no alto, havia um porta-retrato. Nele, uma adolescente, talvez até jovem adulta, sorria. Seus cabelos loiros, quase dourados, destoavam com os olhos escuros. As sardas no rosto, próximas ao nariz pequeno e boca rosada pareciam deixá-la mais jovem do que era.

— Ficou ótimo! Perfeito! — A música cessou, dando lugar a uma voz de mulher adulta.

— Está ruim ainda, preciso treinar mais. — Outra voz, agora mais jovem, contrariou.

Então outra música começou a sair pelos alto-falantes do aparelho. Desta vez somente o canto, sem violão.

Dominique deu um passo adiante, entrando no quarto. Foi então que seu estômago se apertou, o chão balançou e um grito percorreu os corredores do hospital. Era um aviso, uma ameaça para instigar medos nos invasores.

— O originador está vindo, vamos recuar — disse Nicolas.

— Fugiremos dele? — perguntou Fernando, se colocando ao lado do engravatado.

— Não acho que será uma boa ideia lutar contra ele aqui, talvez se o levarmos até a rua tenhamos mais chances.

E com isso o grupo se reorganizou para voltar correndo até o elevador. Os tremores ocorreram mais vezes, sua frequência aumentou, inclusive a origem estava cada vez mais próxima. Quando o elevador estava em sua visão, a parede à frente do grupo se estraçalhou. Poeira, reboco e fragmentos de tijolo preencheram a visão de Dominique por um instante. Estes deram lugar a uma criatura de corpo largo, capaz de ocupar metade do corredor do hospital, e coberto por uma fina e curta pelugem negra, com um calombo nas costas que raspava no teto, criando uma zona esfolada e sangrenta. O tronco oval terminava em uma grande cabeça humana pálida, orelhas onde deveria estar o nariz e os olhos. Uma protuberância se alongava e terminava se conectando a diversos tentáculos rosados que, em sua origem, possuíam um formato estelar. Os apêndices eram finos e compridos, se espalhando ao redor da criatura. Os braços com quase o mesmo comprimento do corpanzil saíam da área logo atrás da cabeça, começavam cobertos por pelos e iam perdendo-os até chegar nas mãos, achatadas e compridas, com os dedos e unhas curtos. As duas juntas nos braços faziam eles se dobrarem de forma bizarra. Dominique era assomada por repulsa e náusea instintivas, e dessa vez também havia um estranho fascínio.

O grupo estacou durante um momento, a poeira terminou de baixar e a criatura saiu por completo da abertura na parede, revelando pernas curtas e musculosas, pés compridos com dedos e unhas longos. Os tentáculos se espalharam, tocando as paredes em volta e criando uma espécie de rede.

— Dominique, vá com cuidado — disse Nicolas, sua voz calma e baixa.

E como uma flecha, ela correu, atravessando a distância entre o grupo e o originador em um piscar de olhos. Os tentáculos vibraram e o inimigo moveu o braço direito para atacar. Uma corda se materializou a partir da parede e se enrolou no punho da criatura, impedindo o golpe. Antes que pudesse usar o membro livre, uma segunda corda o imobilizou. Dominique aproveitou para desferir um soco no corpo da criatura. Sabia de sua força, sabia que não era pouca em nenhum padrão que usasse. Porém, bater naquele originador era como socar o tronco da mais grossa das árvores: não teve efeito algum.

Dominique socou mais uma vez. Nada. O monstro urrou e forçou mais as cordas, arrebentando todas de uma vez só. Antes que suas mãos alcançassem Dominique, uma nova leva de amarras surgiu, parando os braços e pernas da criatura.

— A cabeça! Vai na cabeça! — gritou Bárbara.

Olhou para cima, vendo os tentáculos que saíam do rosto e esquadrinhavam os arredores. Não tocavam em nada, mas moviam-se de forma errática, como se estivessem cobrindo território. Se tinha algum ponto fraco, era aquele. Sentiu os músculos da perna retesando e saltou com altura suficiente para alcançar o rosto da coisa. Agarrou-se com a mão esquerda na protuberância e com a outra mão puxou um dos tentáculos, arrancando-o. Um líquido branco espirrou ao redor, sujando o rosto e corpo de Dominique. O predador guinchou, os demais tentáculos moveram-se ao mesmo tempo e sem coordenação alguma, esbarrando uns contra os outros. Estava funcionando! Largou o apêndice arrancado, mas antes que pudesse puxar um segundo, um par de braços humanoides emergiu dos pelos abaixo da cabeça do originador e agarram-na com força surpreendente.

Seu coração acelerou enquanto aquelas mãos geladas e esbranquiçadas tocavam seu corpo. Não queria pensar na derrota, mas tudo que veio em sua mente era a morte. Seu corpo seria esmagado, os ossos quebrariam, os órgãos seriam destruídos e restaria apenas uma carcaça deformada. Por um segundo, imaginou que era esse mesmo seu destino: morrer nas mãos de predadores.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 20

Desenho monocromático. O desenho mostra o interior de um elevador espaçoso com dois enfermeiros sem rosto, um homem e uma mulher, e no meio deles há uma maca coberta por um lençol manchado de sangue. O sangue pinga da maca e cai no chão do elevador.
No topo há o número vinte para indicar o capítulo.

Em um segundo estavam apenas os quatro, e no seguinte foram cercados por uma multidão de predadores, criaturas humanoides de braços grossos terminando em mãos achatadas de dedos curtos e grossos contendo garras. Não possuíam olhos e o formato da cabeça assemelhava-se a um focinho de animal, terminando em um nariz achatado na ponta do rosto, com cor mais rosada que o resto do corpo. Possuíam coordenação surpreendente, navegando habilmente entre si e encurralando o grupo. Bárbara tentou manter-se próxima aos outros, mas os inimigos eram muitos e quando deu por conta estava sozinha.

Cordas surgiram para erguer os predadores, e a motoqueira aproveitou o enforcamento de diversos inimigos próximos para olhar os arredores. Encontrou Dominique sendo abraçada por um homem desconhecido. Gritou para a idosa, mas sem efeito. Os dois afundavam no chão e, Bárbara foi bloqueada antes que pudesse se mover na direção da companheira. Deu um encontrão na criatura à sua frente e conseguiu linha de visão para Dominique mais uma vez, mas não havia sinal da mulher.

Procurou por Fernando e não o encontrou, teria sido raptado também? O único que restava era Nicolas, rodeado pelos monstros. Cordas surgiam a todo momento, mas onde antes havia um corpo, logo estava um novo inimigo. Bárbara disparou na direção do último companheiro, amaldiçoando a própria incapacidade de proteger os demais. Garras atingiam seu corpo a cada passo e, por mais que resistisse aos ferimentos, a dor marcava presença.

As cordas pararam de surgir e os predadores conseguiram chegar perto de Nicolas. Bárbara acelerou e deu um empurrão com o ombro em um predador já próximo do homem. Os dois trocaram um olhar breve e ela pôde ver manchas azuladas nos lábios de seu companheiro. Pela respiração entrecortada, parecia capaz de desabar a qualquer instante.

Nicolas apontou para uma parede, haviam poucos predadores no caminho, a maioria deles parecia concentrado em evitar que fugissem pelo corredor. Não sabia o que diabos fariam lá, mas acatou as ordens, não era como se ela tivesse um plano próprio. Seguiram até o local, com Bárbara protegendo Nicolas das mãos dos predadores.

— E agora? — gritou a mulher.

— Explode. Todo lado menos costas. — Cada palavra era emitida com visível esforço. — Depois recepção.

E como caralhos faria isso?! Não, sem tempo para hesitar. Os predadores cada vez mais próximos urgiam uma ação. Nas vezes que conseguira focar sua habilidade, foi de forma inconsciente. Encarou os inimigos, uma massa de predadores que agora lhe remetiam a toupeiras. Sentiu o calor de sua habilidade espalhando-se pelo corpo inteiro, como uma fornalha ardendo. As costas não, as costas não!

Obedecendo sua vontade, a queimação afastou-se das paletas, focando-se nas laterais e no peito, onde passou a ser magma, prestes a derreter seus ossos e escorrer pelo tronco. Sentiu a iminência da destruição que poderia causar, bastava deixar tudo fluir e a jaqueta faria o resto. Se conteve para não ferir Nicolas. Os predadores chegaram bem perto, e Bárbara liberou a explosão com um grito.

As criaturas foram erradicadas, o piso do chão arrancado, as paredes racharam e o prédio tremeu. Seus joelhos quase cederam e ela mal teve tempo de se recuperar antes de Nicolas segurar seu pulso e puxá-la em direção à saída.

— Espera — arfou ela. — E os outros?

Sua resposta foi uma balançar negativo da cabeça. Atravessaram o corredor e chegaram na recepção. Lá era como se nada tivesse acontecido, as mesmas funcionárias atendiam os recém-chegados e mais pessoas entravam no hospital para formar a fila em um ciclo infinito. Foram até as cadeiras, Nicolas se sentou e curvou-se para a frente, mantendo os olhos no corredor, talvez esperando a aparição dos predadores a qualquer momento. Bárbara deixou os joelhos cederem e escorou bem as costas no assento, olhando para cima.

— Nós não… — Baixou os olhos para o companheiro. — Não perdemos eles?

Sem tirar os olhos do corredor, Nicolas respondeu:

— Não.

— Como tem certeza? — A calma dele a indignava. — Viu aquelas coisas? Dominique talvez se salve, mas Fernando não é um lutador!

Alguns segundos de silêncio se passaram. Nicolas aliviou o aperto da corda no pescoço e respondeu:

— Esse lugar não opera só com agressão. Nenhum dos dois resistiu ao ser arrastado, e os predadores não pareciam inclinados a atacá-los. — Fez uma pausa para tomar ar. — Aqueles predadores não vão matá-los, não tão rápido.

— Então por que nós fomos atacados? Tu sobreviveu porque protegeu seus arredores, e eu porque sou resistente. Eles teriam nos trucidado se tivessem a chance!

— Acho que o hospital usa algum tipo de ilusão para impedir a oposição. Você e eu somos resistentes, e por isso fomos atacados.

— Porra! E no que isso ajuda a salvar os dois?

Nicolas se levantou e caminhou em direção à saída do hospital.

— Não está pensando em deixá-los, está? — perguntou Bárbara

— Estou indo pensar. — Ele parou. — Venha, preciso de você.

Saíram da construção e foram até o estacionamento, bem onde Nicolas estivera da outra vez. Sentia que ainda conseguiriam fugir se quisessem, mas não fariam isso. Não deixaria o homem nem pensar nisso. Ele apontou na direção do hospital e perguntou.

— Notou algo estranho? — perguntou Nicolas.

Ela semicerrou os olhos e disse:

— Menor do que eu esperava.

— Sim, bem menor, o corredor que fomos atacados era maior que a extensão da construção.

— E só fica pior.

Um homem de meia idade passou pelos dois. Bárbara não perdeu tempo e gritou:

— Ô! Tu aí!

O homem a ignorou e seguiu em frente. Ela bufou e avançou, alcançando-o e colocando-se em sua frente.

— Tô falando contigo.

Ele parou, porém seus olhos estavam desfocados, as pupilas dilatadas ao extremo. Ficou olhando para ela como se estivesse diante de uma parede.

— O que veio fazer aqui? Tá indo para onde?

— Visitar minha irmã — respondeu ele, em voz lenta e monótona. — No quarto andar.

Ele fechou a boca e ficou olhando na direção de Bárbara. Com um suspiro, ela saiu da frente e o homem continuou sua caminhada.

A motoqueira perguntou o mesmo para mais quatro transeuntes e, ao final, se aproximou de Nicolas, que continuava parado observando o hospital.

— No fim todo mundo está aqui para ver alguém e todos vão ao quarto andar. Poderíamos começar nossa busca por lá, só passar por três andares recheados de predadores antes.

— Ou pegamos a rota de entrada de ambulâncias.

Bárbara olhou na direção apontada por Nicolas e encontrou os veículos parados no lado esquerdo do hospital e, alguns metros à frente delas, uma entrada específica para emergência e a placa “Exclusivo para Ambulância” logo ao lado das enormes portas duplas.

Foram até o local e passaram pela porta. Próximo a eles havia um balcão de atendimento, uma fileira de cadeiras para espera e no lado esquerdo uma porta larga. O local não era grande, porém possuía espaço o suficiente para manobrar uma maca sem correr o perigo de acertar as paredes. Diferente da entrada comum, esta era desprovida de vida. Ninguém na sala de espera, ninguém para atender. O único som era um chiado incômodo vindo de uma televisão próxima ao teto, onde somente estática era mostrada em sua tela.

Seguiram pela esquerda e acabaram em um corredor com diversas portas em ambos os lados e, ao final dele, um elevador. Bárbara caminhou reto para o fim do caminho, mas parou ao ver que Nicolas não a seguia. Ele havia se aproximado de uma das portas.

— Não acha que estará vazio também? — perguntou a mulher.

— Melhor verificar pelo menos uma.

Ele abriu a porta. A visão das paredes repletas de manchas vermelho-escuro, a poça de sangue abaixo do leito hospitalar aumentando de tamanho a cada segundo e o cheiro pungente de carne podre misturado com álcool obrigaram Bárbara a desviar o olhar. Quando deu por conta, estava olhando a madeira da porta, tentando distrair-se com as unhas de Nicolas na maçaneta. As memórias do último território vieram com tudo, trazendo tontura e enjoo.

Arriscou outro olhar, desta vez notando uma pia em um canto da sala e, mais importante, o corpo que repousava no leito, coberto por lençóis brancos que se tingiam de rubro. Pensou em entrar, mas antes que pudesse dar o primeiro passo, Nicolas fechou a porta. Os dois trocaram um breve olhar, havia uma pergunta entalada na garganta de Bárbara, fazê-la poderia muito bem levar a uma descoberta infeliz.

— Vou ver se é um deles — disse Nicolas. — Fique de guarda.

Bárbara assentiu e virou de costas para a porta, mantendo os olhos no corredor e no caminho por onde entraram. Ouviu o homem entrando e alguns segundos depois, o som de água escorrendo. Ele saiu do quarto balançando mãos úmidas e limpas. Não esperou Bárbara perguntar.

— Não era nenhum dos dois. Vamos checar as demais.

As outras salas estavam vazias e limpas, nenhuma gota de sangue em lugar algum. Não havia sinal dos companheiros, mas era melhor isso do que vê-los naquele corredor.

Chegaram no elevador. Ao lado esquerdo das portas estavam os botões para chamá-lo, e acima delas havia um painel digital mostrando o andar em que ele se encontrava.

— Andar menos um? Isso está funcionando? — Bárbara apertou o botão para subir, que se acendeu com uma leve luz amarelada.

— Talvez seja o subsolo.

O painel alterou o andar de “-1” para “T”. Bastou as portas abrirem para que ouvissem algo vindo de trás. Ela se virou e viu duas pessoas entrando na primeira sala que investigaram.

— Merda, vamos rápido! — Entrou no elevador, prestes a acionar qualquer comando que os tirasse dali, mas parou no último momento ao ler os três botões no painel. Lidos de baixo para cima, eram: Avaliação, Perdição e Recuperação.

— Que porra é essa?!

As duas figuras saíram da sala, trazendo consigo o leito sangrento, e correram na direção do elevador.

— Vai qualquer coisa mesmo.

Bárbara aproximou o dedo do painel, mas Nicolas segurou seu pulso.

— Vamos aguardar.

— E ficar no elevador com eles?

— São só dois, esse número eu aguento.

— Só quero ver.

Esperaram e viram que a dupla era um enfermeiro e uma enfermeira, as faces nada mais que telas em branco. Entraram no elevador espaçoso o suficiente para a maca e os outros quatro ocupantes, e apertaram o botão “Recuperação”. As portas se fecharam, eles subiram e nem cinco segundos depois um “ding” soou no alto-falante, anunciando sua chegada ao terceiro andar. Os enfermeiros dispararam para fora, deixando Bárbara e Nicolas sozinhos, e o chão manchado do sangue que pingou da maca.

Saíram do elevador. Os olhos da mulher logo foram para a porta mais próxima, temendo que alguma ameaça saltasse para cima deles, mas tudo que viu foi uma placa com o nome “Raíssa” próxima ao topo. Olhou para a entrada do quarto seguinte, à direita: mesmo tom, mesmo material, nome diferente. As demais seguiam o mesmo padrão.

Enquanto olhava adiante, Bárbara quase não viu Nicolas se aproximando da porta “Raíssa” e colocando a mão na maçaneta. A motoqueira abriu a boca, mas o líder levou o dedo aos lábios antes que o som saísse. Mesmo assim, ele entendeu o pedido e deixou-a ir na frente. Murmúrios escapavam pelas frestas, chegando quase inaudíveis aos ouvidos de Bárbara. Seja lá o que estivesse do outro lado, sabia falar.

Sentiu os dedos suados contra o metal da maçaneta e o girou. O clique suave da lingueta se recolhendo não silenciou as vozes do outro lado. No quarto havia uma menina de no máximo quinze anos. Ela sentava-se em um leito com travesseiros servindo como apoio para suas costas. Ao lado dela, em uma cadeira, estava um jovem de idade semelhante. Ele segurava e apoiava a testa contra as costas da mão da enferma.

— Me desculpe, me desculpe, não servi para nada.

— Shhh — disse a garota, com um pequeno sorriso. — Estou aqui, estou bem. Está tudo bem agora.

Do outro lado da cama, tinha um armário entreaberto com algumas roupas dentro. No interior, também era possível ver alguns livros que, pela grossura e tamanho, deviam ser de estudos. Bárbara fechou a porta com tanto cuidado quanto abriu. Se virou para Nicolas e o empurrou de leve no peito. Os dois recuaram até o meio do corredor.

— Eu vi direito? Parecia só uma guria hospitalizada — disse Bárbara.

— E um rapaz acompanhando ela, eu vi. Mas não podemos acreditar nisso, aqui não é um hospital.

— Eu não vou atrapalhar os dois.

Nicolas a encarou e Bárbara sustentou seu olhar. Segundos depois, o homem direcionou seus olhos até o próximo quarto.

— Tem pessoas nesse andar, talvez encontremos os três por aqui.

Seguiram pelo corredor, abrindo incontáveis portas e checando o conteúdo delas. Quarto após quarto, encontravam sempre a mesma cena, um paciente e um familiar ou amigo. Apenas em uma ocasião encontraram mais de uma pessoa como acompanhante. De vez em quando mais enfermeiros passavam por eles, indo até um quarto, deixando o paciente e voltando.

Fizeram questão de memorizar quais eram os quartos com os novos pacientes e visitá-los. O primeiro surpreendeu. Esperavam entrar em um quarto com um cadáver dentro, mas encontraram um jovem relativamente saudável e inteiro, e uma mulher conversando com ele. Os demais seguiram este padrão: uma maca sangrenta passava e um paciente saudável era deixado no quarto, onde ninguém mais entrava, porém, ao checá-lo, sempre havia um acompanhante.

Depois de muito andar, abrindo portas e escutando trechos de conversas, chegaram a uma com a identificação de “Joaquim”. O processo estava tão automático que Bárbara abriu quase sem pensar. Seu coração bateu forte ao ver Dominique como acompanhante no interior do quarto. Na cama, um homem idoso conversava com ela. Mesmo com a idade, ele mantinha a boa forma, dava para ver pela grossura dos braços, possuía também uma voz rouca e forte. Os dois ocupantes conversavam amenidades, mas logo Dominique olhou na direção da porta. Um breve arrependimento abateu Bárbara por terem adentrado aquele santuário.

A idosa acariciou e beijou a mão do enfermo, sussurrando algo em seu ouvido na sequência. Os olhos dele encheram-se de lágrimas.

— Não pode ficar mais um pouco?

— Eu adoraria, queria ficar aqui para sempre, mas eu preciso ir. — Apontou na direção dos companheiros. — Estou ajudando eles agora, é importante. Um último dever para uma velha como eu.

— Eu… entendo. — Ele olhou para Bárbara e assentiu de leve, voltando a fitar Dominique em seguida. — Vou esperar.

A idosa se curvou sobre a cama e beijou os lábios do homem. Segurou suas mãos uma última vez e soltou, virando-se na direção da porta e caminhando para a saída. Bárbara e Nicolas abriram espaço e deixaram-na passar.

— Dominique… eu… — começou Bárbara.

— Não se preocupe comigo — respondeu a idosa, o olhar firme em frente, mas com a voz falhando na última palavra. — Joaquim está morto e eu sei disso. Deus me recompensou com mais alguns momentos ao lado hoje.

— Agora sabemos de uma coisa, Fernando está por aqui — disse Nicolas, olhando de canto para Bárbara. — E seu amigo também. Vamos encontrar os dois.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 19

Desenho monocromático. O desenho mostra Dominique, uma mulher idosa e magra, utilizando uma camiseta sem mangas e calças de abrigo, em uma fila com várias pessoas. A fila leva até o balcão de uma recepção.
No topo há o número dezenove para indicar o capítulo.

Um domingo em família assistindo a programação da televisão aberta. Em outros tempos, talvez Dominique até se animasse com a ideia. Ultimamente, porém, nada a divertia. Estava de volta ao seu humor carrancudo de antes, quando apenas aguardava a morte chegar. Seu único momento de alívio era logo antes de dormir, quando podia ir ao farol dar uma caminhada, e mesmo assim hesitava em fazê-lo na maioria dos dias com receio de encontrar alguém por lá. As visitas diminuíram ainda mais após a mensagem de Fernando sobre um possível predador no local.

Estava distraída com a televisão, deixando os pensamentos vagarem enquanto filho, nora e netos conversavam. Seu celular vibrou. Dominique, no entanto, nem olhou a mensagem, preferindo assistir a “matéria” sobre as fofocas do reality show que passava no canal. Mais notificações chegaram.

— Grupo tá bombando aí, vó? — disse Felipe, o mais velho dos netos.

— Deve ser alguma bobagem — respondeu Dominique.

Como que silenciava essas porcarias mesmo? Desbloqueou o aparelho e notou de qual grupo vinham os avisos. Segurou o celular com mais firmeza enquanto lia o conteúdo das mensagens. Nelas, Bárbara explicava que um amigo seu sumira de um dia para o outro e, quando foi ao seu apartamento procurar por ele, sentiu que fora levado por predadores. Fernando corroborou a história.

Releu o texto e notou que Nicolas digitava algo. Aguardou alguns segundos e veio a frase que fez seu coração palpitar, trazendo aos músculos uma eletricidade que não sentia há semanas.

Nicolas

Todos podem vir ao farol hoje?

Logo Bárbara e Fernando disseram que sim. Faltava ela. Pensou na forma que os deixara, imatura e burra. Coisa de adolescente. Será que a aturariam? Não, sem negatividade. Nicolas era metódico e se fosse algum empecilho ao grupo teria a expulsado antes. Sim, era bem-vinda, e era útil.

Dominique

Também posso

Combinaram um horário durante a noite e tudo que restou para Dominique foi aguardar. Não conseguia mais prestar atenção à televisão, preferiu se distrair com a conversa da família. Quando a hora chegou, já estava na cama.

Chegaram ao farol quase ao mesmo tempo, nem sequer tiveram a chance de se cumprimentarem antes que Nicolas falasse:

— Bárbara, você tem uma foto do seu amigo?

— Sim. — Mesmo diante da pergunta repentina, Bárbara não hesitou. Pegou o celular e mostrou uma foto de Igor aos demais.

— Nosso objetivo dessa vez será percorrer o território até encontrá-lo.

— E como vamos descobrir onde ele foi parar? — Bárbara guardou o aparelho. — Não existem vários territórios possíveis?

— Sim, mas vocês dois disseram sentir um predador, certo? — Nicolas olhou de Bárbara para Fernando, os dois confirmaram e ele continuou. — Se seguirmos a sensação, vamos achar o território correto. Seu amigo estará lá.

A jovem relaxou por um segundo, fechando os olhos. Quando os abriu, porém, havia certa tensão nos ombros. Ela perguntou:

— E se não o encontrarmos?

— Então pode estar inacessível. Territórios são coisas complicadas. — Nicolas cruzou os braços. — Nesse caso, nossa melhor chance é eliminar o originador. Isso vai libertar todas as vítimas.

— Isso… não pode ser perigoso demais? — perguntou Dominique. — O último território foi…

— Terrível, sim. — Nicolas não hesitou. — Temos que avaliar isso ao avançarmos.

— Espera aí! Vamos só fugir se for difícil demais? — perguntou Bárbara, os olhos fumegantes encarando o líder.

— Não, mas precisamos saber nosso limite.

— Acho que precisamos cuidar com ilusões e coisas do tipo — disse Fernando, dando tapinhas no ombro da motoqueira. — Fomos bem no território do metrô, afinal.

— Sim. Bárbara e eu seguiremos sozinhos se for o caso.

Fernando franziu o cenho.

— Isso parece pior do que fugir.

— A alternativa é abandonar Igor. — Nicolas encarou a jovem. — Ele é seu amigo, você decide.

Logo os outros seguiram o olhar do líder. A idosa sentiu a determinação da mulher mais jovem vacilar. Era uma situação difícil. Colocar a vida de todos em risco por uma pessoa, ou abandonar um amigo? Dominique nem quis saber qual seria a sua resposta para esse dilema. Por fim, Bárbara suspirou e disse:

— Decidimos lá, se a situação apertar. Pode ser?

— Perfeito. Vamos juntar as mãos, Bárbara vai nos transportar para o apartamento. — Um frio tomou conta das pernas da idosa ao ouvir essas palavras de Nicolas. Ele olhou-a de relance. — Fernando, segure Dominique quando chegarmos.

— Espera! Como assim transportar? E que negócio é esse de segurar Dominique?

— Estamos perdendo tempo aqui, explico depois. — Nicolas olhou para Bárbara, que assentiu em concordância.

Os quatro juntaram as mãos. Estava um tanto resignada de fazer isso, pois sabia bem qual seria o resultado. Já bastava Nicolas saber, e olha que ele era uma exceção, pois nunca a tratou diferente, nunca a olhou diferente.

No segundo seguinte, o farol foi trocado por um apartamento escuro. A força que os territórios davam às pernas de Dominique se foi, o tato da cintura para baixo se perdeu e não mais estava em pé sob dois membros funcionais. Começou a desabar, muito mais velha do que se sentia um segundo atrás, porém os braços de Fernando envolveram seu tronco e mantiveram-na erguida.

— Luz! — disse Fernando.

— Tô procurando, sei lá onde ficam as tomadas aqui — grunhiu Bárbara, um pouco distante deles.

Segundos depois, a sala se iluminou. Fernando aproveitou a oportunidade para sentar Dominique no sofá. O olhar dos dois jovens estava sobre ela, tentando entender e criando teorias que levariam a conclusões apressadas. Sabia bem o que viria com as conclusões.

— Bárbara, me mostre o quarto — ordenou Nicolas.

— Mas ela…

— Estou bem — disse Dominique, forçando o bom humor. — É melhor focar no seu amigo.

Bárbara assentiu devagar e caminhou na direção do quarto, ainda lançando um olhar para a sala. Restou somente Fernando e a própria Dominique. Nenhum deles era burro e já deviam ter entendido sua paralisia. Relutante, encarou o padeiro e quase se arrependeu. Seus olhos demonstravam o que ela mais odiava: pena. Faziam-na lembrar do quanto era dependente em algumas coisas, mas pior do que isso, julgavam-na como uma inútil, mesmo que soubessem que nos territórios ela era a mais forte do grupo.

Antes que Fernando pudesse levantar qualquer discussão, Nicolas retornou com Bárbara.

— Descobri para onde Igor foi.

Dominique agradeceu pela agilidade do líder e disse:

— Vamos logo.

Juntaram as mãos novamente. Dominique sentia que dessa vez Fernando a segurava com mais delicadeza. Ela rilhou os dentes e fechou os olhos, aguardando serem transportados. Não demorou a sentir a mudança no ambiente, e a força de volta às pernas.

Os quatro estavam em uma fila, haviam pessoas à frente e atrás deles. A sala, ou melhor, a recepção, possuía paredes brancas e um chão com piso bege. Na frente, no início da fila, havia um balcão de recepção com duas mulheres atendendo, usavam roupas brancas e mexiam em um computador enquanto o atendido aguardava por instruções. No canto superior direito da recepção, se encontrava um corredor largo, e adiante diversas portas com algum rótulo na madeira.

Uma pessoa foi liberada da fila e seguiu na direção do corredor, Dominique andou junto com os demais sem pestanejar.

O cheiro de desinfetante e álcool denunciava onde estavam. Um arrepio percorreu seu corpo, junto com um frio que entorpecia as pernas, lembrando-a de quantas vezes estivera nesse tipo de lugar. Olhou para trás e viu a saída do hospital, um paredão de vidro com duas portas automáticas.

Sentiu um toque no braço e quase se afastou antes de ver que era Fernando, saindo da fila junto com Bárbara e Nicolas.

— Tu está bem? — perguntou, a mão ainda estendida em sua direção.

— Sim, eu só… me distraí.

Fernando a encarou por um momento, sentiu como ele tentasse ler seus pensamentos, mas por fim olhou para os demais e segurou o pulso dela.

— Não se preocupe, acho que foi só um choque de chegada.

Da forma mais gentil possível, desprendeu-se de sua mão e acompanhou-o até as fileiras de cadeiras estofadas que estavam no lado esquerdo da recepção. Sentou-se em uma, deixando as pernas se recuperarem do ocorrido. Teve que lembrar que era só um território, não um hospital de verdade.

— Vamos primeiro checar o lado externo — disse Nicolas, tomando a atenção dela. — Depois disso, entramos e seguimos no corredor.

— Tem algo diferente, não? — questionou Fernando, olhando em volta. — Digo, olha isso. — Apontou para as pessoas na fila. — Tem muita gente aqui e não para de vir mais.

— Não vejo nada de errado, o metrô era igual. — Bárbara cruzou os braços e franziu o cenho.

— Tinham pessoas nele, mas elas passavam uma sensação diferente. — Fernando olhou para todos do grupo. — Ou eu tô ficando maluco?

— Não, você está certo. — Nicolas olhou para os indivíduos saindo da fila e aqueles entrando no hospital. — Não é que passam uma sensação diferente, eles têm presença. No metrô só estavam lá, como se fizessem parte do cenário. E quando tomavam alguma ação, era para nos atacar.

Dominique se levantou, não se deixaria levar por lembranças e expectativas negativas sobre si.

— Acho que descobriremos mais investigando. Vamos lá? — sugeriu ela.

Saíram da construção, deparando-se com enormes eucaliptos cercando a área do hospital. Eram dignos de filmes, passando dos vinte metros. Todos muito mais próximos entre si do que no território do urubu. Antes das árvores, acessível através de uma sequência de escadas ou uma rampa, estava o estacionamento. Impecável como nunca visto antes, o concreto era bem-feito, sem as quebras ocasionais e as linhas de demarcação de vagas pareciam recém pintadas.

Seguiram Nicolas até o meio do estacionamento, diversas pessoas passaram por eles, todas indo em direção ao hospital. Dominique soube então que se quisessem sair do território, era ali que deviam fazer isso.

Nicolas virou-se para o hospital e Dominique replicou o movimento. A construção tinha três andares, a julgar pelas janelas. Não era muito grande e, em outras condições, poderia considerá-lo como um hospital de cidade interiorana.

— Nada anormal até aqui — murmurou Nicolas. — Alguém sente algo estranho?

Todos negaram.

— Ótimo, esse aqui será nosso ponto de encontro caso nos separemos. Também não hesitem de usar as pílulas em situações de extremo perigo. — Ele olhou para o último andar. — Se esse território for parecido com os demais, o originador estará no topo. Por isso vamos vasculhar os andares inferiores primeiro.

— Se acharmos Igor, o que faremos? — perguntou Bárbara.

— Damos uma pílula a ele. Alguém vai ficar sem, mas já sabemos o local de fuga e temos mais chance de sobrevivência do que alguém que foi capturado.

Dominique assentiu. Passou a entender melhor a função de Nicolas, antes o tomava por uma espécie de salvador, enviado ali para dar a eles o melhor destino possível, porém, após o território das ilusões e do desastre que causaram, entendia que era apenas um humano. Ainda o culpava, em partes, pelo fracasso, mas sabia que tentava apenas desviar a responsabilidade de si. Essa era a função do líder, tomar as decisões e absorver a culpa para impedir que o resto do grupo implodisse com a pressão e a responsabilidade. Que outro seria capaz de reagir tão rápido a adversidades? Quem seguiria de cabeça erguida após fracassar? Ela não conseguiria, e apostaria que Bárbara também não. O mais próximo seria Fernando, mas a empatia do homem o impedia de fazer certas coisas. Sabia que, dependendo dele, ninguém do grupo se arriscaria, e por isso mesmo não fariam avanços tão rápidos.

Com um plano mais ou menos definido, percorreram o caminho de volta para o hospital, passando pela recepção e adentrando o corredor. Encontraram-no silencioso e solitário, não havia sinal das pessoas de antes. Ele se estendia por metros e mais metros com portas numeradas e fechadas ao longo de sua extensão. Ao final era possível enxergar uma escadaria para cima, sem elevadores.

Nicolas se aproximou da primeira porta no corredor, numerada com 101, e abriu. Dentro havia um quarto hospitalar com três leitos, uma porta para o banheiro e zero janelas. As camas estavam arrumadas e desocupadas, o cheiro de desinfetante inundava o ambiente.

Seguiu até a porta seguinte, de número 102. O grupo o acompanhou apenas para ver um quarto exatamente igual ao anterior.

— Não vamos abrir todas, vamos? — Bárbara olhou para Nicolas. — Isso vai demorar uma eternidade.

— Seria contraprodutivo. — Ele fechou a porta. — Fernando e eu ficaremos de olho nas portas, se virmos alguma anormalidade, abrimos. Você e Dominique mantenham a atenção no caminho.

Seguiram ao longo do corredor sem mais paradas. Estava tão silencioso que os saltos das botas de Bárbara ecoavam por ali. Tac, tac, tac. Quanto mais andava, mais se lembrava das vezes em que esteve em um hospital. Um símbolo de esperança e tristeza, para ela mais do último que do primeiro.

O silêncio e calmaria foram rompidos quando todas as portas ao redor do grupo se abriram. Dominique levantou os punhos e preparou o corpo para avançar na presença mais próxima, mas paralisou ao ver do que se tratava. Não acreditou no que via, naquele rosto calmo, com um sorriso sempre despontando nos lábios, nos olhos castanhos e profundos, onde podia se perder por uma quantidade de tempo indefinida.

Baixou os braços e a visão borrou pelas lágrimas que surgiam. Joaquim se aproximou dela e segurou em suas mãos. Os dois encostaram as testas e ela se deixou ser levada, arrastada para onde seu marido desejasse.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 18

Desenho monocromático. O desenho mostra uma visão parcial de uma sala de estar. No lado direito conseguimos ver uma parte de um rack com uma televisão em cima e dois bonecos, Alphonse de Full Metal Alchemist e Rei de Evangelion, ao lado da televisão. No centro da imagem há uma porta branca de hospital que não combina com o restante do cômodo. Ela possui um prontuário na frente e está fechada.
No lado superior direito há o número dezoito para indicar o capítulo.

O domingo foi repleto de ansiedade. Bárbara tinha muito a pensar e pouco a fazer. Seu corpo precisava estar em movimento, precisava de algo que a distraísse ou ficaria matutando sobre o culto até ter dores de cabeça. Não à toa botou o pé na estrada e viajou para longe da capital. Só o fato de ter que prestar atenção na rodovia afastava-a dos pensamentos. E quando sentia que estava tudo calmo demais, acelerava para muito além do limite de velocidade. Era perigoso, sabia disso mais que qualquer um, porém não cometeria o mesmo erro duas vezes. Quando voltou para casa, perto da madrugada, estava tão cansada que o simples fato de pensar em tirar a roupa e tomar banho já exauriu seus neurônios.

A semana começou com qualquer outra e, pela primeira vez em muito tempo, Bárbara agradeceu a carga de trabalho. Se jogou nas tarefas e focou sua mente nelas. Estava tão distraída e evitando qualquer assunto sobre o culto que foi só na quarta-feira que notou não ver Igor nos dias anteriores.

No fim do dia, mandou-lhe uma mensagem, que permaneceu sem ser visualizada, ou sequer entregue, até a manhã seguinte. Fez então o que ninguém mais gostava de fazer. A chamada para o amigo nem chegou a completar, estava desligado ou fora da área de cobertura. Uma paranoia ardeu, mas Bárbara a conteve. Tentou outras vezes ao longo da quinta, mas o resultado foi o mesmo.

Quando perguntou para alguém do setor administrativo se tinham visto Igor, responderam que não, inclusive fizeram a ela mesma pergunta. Não aparecia ou mandava justificativas desde segunda. A paranoia, antes contida, se alastrou pela mente de Bárbara, incendiando qualquer outro pensamento.

Fuçou nas redes sociais e encontrou o pai e a irmã do amigo. Mandou mensagem para os dois e aguardou por uma resposta. Foi o dia mais longo que tivera nos últimos tempos, e um dos mais tensos. Só obteve retorno de noite, mas nem isso serviu para acalmar-lhe os nervos. A irmã respondeu que estava preocupada, que tentou contato com Igor logo após visualizar a mensagem e também não conseguiu. Bárbara não esperou por mais tentativas dos familiares, foi até a delegacia e preencheu um boletim de ocorrência. Quando questionou sobre o início das investigações, recebeu um olhar cansado do brigadiano.

— Temos outros desaparecimentos na frente, mas vamos averiguar assim que possível.

O coração a mil fez a semana se alongar. Todo dia ligava para a delegacia recebia a mesma resposta: Estavam investigando. Todo dia também respondia a mesma coisa para a irmã de Igor, que estava a centenas de quilômetros de distância da capital, em uma cidade próxima da fronteira com o Uruguai. Dormir se tornou muito mais difícil e nem os passeios de moto serviam para lhe acalmar. A preocupação tomou conta enquanto passava seus dias checando o celular em busca de alguma mensagem, fosse de Igor, da irmã ou de algum policial. Nunca foi alguém capaz de ficar muito tempo sem fazer nada, e os sentimentos contidos estavam prestes a estourar. Antes que enlouquecesse mandou mensagem para Fernando:

Bárbara

Oi. Podemos conversar? Surgiu uma situação e preciso da ajuda de alguém

Desculpa vir do nada

Um amigo desapareceu

Mais uma vez, esperou. Próximo das dez da noite recebeu retorno:

Fernando

Passa aqui amanhã de noite para falarmos

O padeiro anexou na conversa a localização de sua casa. Bárbara suspirou de alívio, ainda que não soubesse no que pedir ajuda. Dormiu um pouco melhor, e no dia seguinte foi para o escritório com a moto. O expediente passou de arrasto, com cada minuto mais lento que o anterior. Maurício devia estar feliz com a produtividade dela, já que seu único método para finalizar o dia rápido era cair de cabeça no trabalho. Em outros tempos, reclamaria da falta de aumento, mas a situação mudara.

Um segundo antes de acabar o expediente, Bárbara já estava ao lado do relógio de ponto. Marcou a saída, foi até a Kawasaki no estacionamento e navegou pelo trânsito caótico do horário de pico com destreza e velocidade. Chegou na casa de Fernando antes do que o GPS previra.

Desceu da moto, bateu palmas e gritou pelo nome de Fernando. A casa dele era pequena, uma grade de metal com uma porta protegia o lado esquerdo da casa, já no direito se iniciava uma garagem fechada. Não muito tempo depois que chamou, o anfitrião abriu o portão de metal da garagem, revelando um cômodo bagunçado e com uma motocicleta um tanto surrada no meio. Fernando tinha o rosto meio inchado e as pálpebras semifechadas. Bocejou e disse:

— Tem campainha, sabia?

— Nem vi.

Bárbara entrou na garagem com sua moto, deixando-a próxima da saída. Ferramentas e caixas ocupavam boa parte do local, além de cacarecos que só quem é dono sabe para que servem.

— Tá tudo bem? — perguntou Fernando, mas não obteve resposta.

Saíram por uma porta e adentraram a sala de estar, onde havia um homem sentado. Seus cabelos pretos e lisos criavam uma franja que parecia tapar parte da visão por alguns centímetros. Por detrás dos fios, globos oculares de um azul bem claro a observavam e percorriam seu corpo, em uma similaridade bizarra com a forma que Nicolas olhava para qualquer um. No entanto, o efeito quebrou-se quando notou suas vestimentas, uma camiseta preta, velha e larga com estampa do Bart Simpson, uma bermuda verde-musgo com palmeiras e o chinelo de dedos.

A descrição que Fernando dera de seu namorado — amigável e bem-humorado — era diferente do que Bárbara presenciava. Apenas o reconheceu pela tatuagem de enguia na perna direita.

— Quer chá? — perguntou Fernando. E, quando Bárbara assentiu, continuou. — Vou lá fazer, fica ali na sala. Sinta-se em casa.

Bárbara não queria ficar na sala, tampouco se sentia em casa com o olhar de Gabriel, mas obedeceu. Cumprimentaram-se sem muita empolgação e aguardaram. Foram alguns minutos desconfortáveis, por sorte a televisão ligada trazia a desculpa perfeita para não precisar olhar em outra direção. Estar pela primeira na casa de alguém sempre era estranho.

Fernando voltou carregando habilmente três xícaras nas mãos, duas de chá, que entregou para os dois e uma de café. Ele desligou a televisão e ficou em pé na frente da tela, olhando para Bárbara enquanto sorvia um gole.

— O que aconteceu?

Ela não respondeu, em vez disso, fitou Gabriel.

— É mesmo, não falei né? Gabi já sabe.

Aquilo era surpreendente. Da forma que Fernando falava antes, parecia que nunca contaria para seu namorado sobre os predadores.

— Algum problema com isso? — perguntou Gabriel à Bárbara.

— Não né — respondeu ela, navegando entre surpresa e uma pitada de raiva. — Eu apenas não esperava.

— Gente, sem brigas — disse Fernando. — Eu queria dormir, mas estou aqui, acordado. Bárbara tem um problema e vamos ao que importa.

Resumiu a situação aos dois. Contou do culto estranho que encontrou e como as vestimentas de alguns eram muito parecidas com as dos homens que encontraram no último território. Isso quebrou a máscara de cansaço que estava sobre Fernando desde que chegara, e ele empalideceu. Bárbara continuou, dizendo que foram a um evento e, segundo Igor apenas, haviam pessoas com coletes balísticos e armas. Em seguida falou do desaparecimento, mencionou as diversas tentativas de entrar em contato, fosse de forma direta e indireta. Quando terminou de falar, toda a expressão de sono em Fernando sumira. Ele finalizou sua xícara de café com um último gole e perguntou:

— E tu não foi atrás dos cultistas?

— Eu não me arrisco com maluco religioso armado.

— Sensata — disse Gabriel. — Mas e Igor? Será que ele foi de novo?

— Não. — Bárbara baixou os olhos para sua xícara de chá, ainda cheia. — Ele estava com medo.

— Talvez tenha sido justamente isso que o fez ir atrás dos caras. — Fernando colocou a xícara no balcão da televisão.

— Inclusive, tem como ajudarmos com isso? — perguntou Gabriel. — O certo seria esperar alguma solução da polícia.

— Eu tentei. — Apertou a chávena e curvou seu corpo para frente. — Mas quantos desaparecimentos relatados são resolvidos? Eu não posso ficar sentada esperando, ainda mais que eu o arrastei para isso! Isso é culpa minha!

— Calma. Respira — disse Gabriel.

— Para mim ela está calma demais. — Fernando olhava para Gabriel. — Não sei o que faria se tu sumisse.

— Mas se exaltar aqui não vai adiantar de nada — respondeu Gabriel.

— Onde ele mora? — perguntou Fernando.

— Um condomínio. — Bárbara se esforçou para manter a voz nivelada. — Passei na frente dele essa semana.

— E por que não tentamos entrar lá?

— Porque seria um crime? — Gabriel arregalou os olhos. — Não dá para sair entrando na casa dos outros.

— Tem razão. — Fernando deu de ombros. — Mas não é invasão se deixarem a gente entrar. Podemos tentar falar com o síndico, ele vai nos ouvir.

Era um plano, um meio xoxo, mas era melhor que Bárbara dispunha no momento. Os três combinaram de se encontrar no domingo pela manhã em frente ao condomínio.

Os dias seguintes não se arrastaram, e sim rastejaram. A noite de sábado foi marcada por uma dificuldade enorme em deitar, dormir então estava fora de questão. Só pregou os olhos no alto da madrugada, quando todas as postagens de todos os perfis que Bárbara seguia em todas as redes sociais haviam sido lidas. Acordou menos grogue do que esperava, correu para se arrumar e saiu de casa.

Encontrou o casal esperando por ela na rua do condomínio, em frente ao bloco de número 1567. Começaram o trabalho, abordando da forma mais amigável possível as pessoas que saíam do local, pedindo pelo número do apartamento do síndico. Foi uma tarefa desgastante, a maioria das pessoas era desconfiada e desconversava, dizendo que em breve o síndico aparecia por ali ou então que não sabiam onde morava. A salvação deles foi um homem forte e alto saindo para passear com seu cachorro linguicinha rechonchudo. Era uma estranha dupla, mas o fortão foi amigável o suficiente para ouvi-los e ajudá-los.

Fernando conversou com o síndico no interfone e, após um falatório explicativo e algumas súplicas, convenceu-o a deixá-los entrar. Minutos depois o síndico abria o portão e acompanhava-os até o quinto andar, onde se depararam com uma folha A4 presa abaixo do olho mágico com os dizeres “Não entrar”. Ele destrancou as fechaduras auxiliares na parte de cima e de baixo da porta e a abriu.

— Podem dar uma olhada, mas tentem não mexer nas coisas, a polícia teve aqui e pediu para não mover os objetos.

O grupo entrou no apartamento, dando de cara com uma sala cheia de decorações. A televisão era rodeada por miniaturas de personagens de diversos desenhos e jogos, cinco quadros com pinturas de animais estavam pelas paredes e um relógio com pássaros ao lado das horas tiquetaqueava incessantemente.

Uma inquietação tomou conta de Bárbara ao pisar na sala. Algo não estava certo. Ela e Fernando moveram-se ao mesmo tempo pelo apartamento. Seu coração acelerou com uma possibilidade que estava mais do que óbvia, porém ignorada em todas as palavras que Bárbara proferira até o momento. Atravessaram um corredor curto e chegaram no quarto. Ela não prestou atenção em móveis, paredes, ou eletrônicos que estavam pelo local. Sentiu apenas uma sensação familiar, quase impossível de descrever para as demais pessoas, um nojo e repulsa repentinos, agonizantes agora que entravam em um contexto diferente. Estavam próximos de um predador.

Cerrou o maxilar com força, seus punhos doeram de tanto apertar. Estava prestes a socar algo e, só não o fez, porque sentiu a mão de Fernando em seu ombro. Ela virou-se para o homem, já levantando o punho para caso ele lhe pedisse calma. Seus olhos estavam foscos e até mesmo o aperto no ombro estava fraco. Tudo que ele disse foi:

— Vamos chamar os outros.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 17

Desenho monocromático. O desenho mostra um salão repleto de cadeiras ocupadas. A maioria das pessoas está prestando atenção em um homem discursando em frente a um púlpito. Ao lado deste homem há uma figura humana erguendo no seu braço direito uma balança romana. Apenas cinco pessoas não estão prestando atenção no discurso. Elas estão olhando para trás, em direção ao observador da imagem.
No lado superior esquerdo há o número dezessete para indicar o capítulo.

Quando ouviu o interfone tocar, soube que estava um pouco atrasada. Bem, um pouco não, bastante. Tudo culpa dos compilados de videologs de motoqueiros e entregadores no Youtube, uma boa forma de relaxar e passar o tempo, atividade que executou com primor e, neste caso, em excesso.

Atendeu o interfone e apertou o botão para que Igor entrasse no prédio e, pouco tempo depois, abriu a porta para o amigo. Ele cumprimentou-a e entrou no apartamento, as roupas formais do trabalho foram trocadas por algo mais casual e parecido com seu estilo antigo: calça jeans, um tênis meio surrado e uma camisa colorida com estampas que ninguém prestava atenção. O homem olhou a sala bagunçada, não havia muito o que fazer, a arrumação era só no dia seguinte, e então olhou para Bárbara.

— Tu vai no culto assim? — perguntou ele.

— Algum problema com meu estilo? — Seu tom de voz ganhou apenas uma nota de hostilidade.

— Não, claro que não. — Igor desviou o olhar dela por um momento. — É só que são roupas para outra… atividade, tipo dormir confortavelmente na cama.

Os dois abriram um leve sorriso.

— Claro que não vou assim, ô palhaço. — Ela fitou a sala. — Pode sentar onde quiser, por ali é a cozinha se quiser pegar uma água e lá é o banheiro. Espera aí que vou me trocar.

Dito isso, disparou para o quarto e fechou a porta. Tirou as roupas de pijama e trocou por seu kit básico, só não vestiu a jaqueta porque estava um dia quente e preferia não ficar suando no meio de um culto. Uma pena, adorava a peça, mas conforto e estilo não raramente andam lado a lado.

Saiu do quarto e encontrou Igor sentado na ponta do sofá, o mais afastado possível das roupas jogadas pelo móvel, e olhando algo no celular.

— Vamos logo, enrolão.

Ele virou o rosto para Bárbara.

— Enrolão? Eu? Quem se atrasou mesmo?

— Vamos!

Os dois saíram do apartamento e desceram os quatro andares com passos rápidos. Chegando na frente do prédio, Bárbara começou a rumar em direção à garagem, porém Igor ficou para trás.

— Aonde tu vai? — perguntou ele.

— Pegar minha moto ué.

— Melhor ir de Uber, vai que os malucos do culto anotam a placa e pesquisam tua vida a partir disso?

— Desse jeito parece que eles são os Illuminati.

— Ficaria surpresa com o quanto de informação se consegue com os contatos certos, não precisa nem fazer parte de organização secreta.

— Não exagera…

— Olha, já vi coisa pior. — Ele respirou fundo. — E foi tu quem me chamou, vai ignorar meus conselhos agora?

— Certo, vamos de Uber então.

Bárbara inseriu no aplicativo o endereço que Elisa lhe passara dias antes. Por sorte, a corrida não saiu muito cara e cinco minutos depois um Up! branco parou perto deles. Entraram no carro, cumprimentando o motorista, que parecia mais jovem que Bárbara, e seguiram viagem. Nem um minuto havia se passado quando o homem falou:

— Ontem mesmo peguei uma passageira aqui. Foi bem triste, o filho dela tinha desaparecido fazia uma semana e ela estava desesperada.

Bárbara olhou da janela para o motorista. Não lembrava de ter ouvido de ninguém desaparecer nas proximidades. Sabia muito bem que a culpa desses desaparecimentos era dos predadores, mas para as pessoas normais devia ser muito pior, não tinham ideia do que estava acontecendo e de quem poderia ajudá-los. Os sequestrados só ganhavam nome e rosto após muita comoção familiar ou da comunidade, recebendo alguns minutos de exposição em uma rádio, jornal ou televisão local, e mesmo assim perdiam suas identidades com o passar dos dias. De autoridades, seja policial ou governamental, não havia nenhuma ação proativa para encontrá-los, e Bárbara duvidava que, mesmo havendo, funcionasse.

— Ele desapareceu do nada? — perguntou Igor.

— Tipo isso. Parece que estava na sua rotina normal e um dia sumiu. — O motorista estalou a língua. — Senti pena dela.

— Já ouvi dizer que é uma organização criminal nova por aí, tentando impor ordem.

— Bah, e para isso eles atacam gente inocente no estado inteiro? Faz sentido nenhum.

— Talvez seja um culto então? Acho que faz mais sentido.

— É… faz mesmo, essa gente não tem deus no coração.

— Podemos não falar disso? — interrompeu Bárbara, ríspida.

O motorista se empertigou no assento, aumentou o volume do rádio e ficou em silêncio. O resto da viagem transcorreu sem nenhuma palavra. Bárbara agradeceu por isso, ouvir sobre o assunto apenas lembrava-a que havia uma forma de combater os desaparecimentos, porém, ninguém no grupo estava tomando iniciativa, Nicolas mesmo não mandara mensagem alguma. A última fora de Fernando alegando ter visto algo no farol, mas no dia seguinte mandou um pedido de desculpas dizendo que devia ter sido apenas um momento de estresse. No fim, cada um tinha seus próprios problemas para lidar.

Chegaram ao local do culto, um terreno aberto com um salão ocupando todo o lado direito, com o outro servindo de estacionamento. Pela quantidade de carros e motos, o evento estava lotado. Nenhum dos veículos parecia muito novo ou caro, eram modelos populares. O salão era quadrado e praticamente sem aberturas, com exceção de algumas janelas basculantes na parte superior. A entrada nele se dava por uma porta dupla de metal, onde havia um homem para receber os participantes, apesar de que ninguém mais estava chegando no momento.

Aproximaram-se e viram o interior do salão repleto de pessoas, todas sentadas em cadeiras de plástico e organizadas em fileiras. Não havia nenhum símbolo religioso no local, com exceção de um estandarte no fundo mostrando a balança e o homem. Bárbara viu o local onde Elisa estava sentada e notou duas cadeiras desocupadas ao lado. Cutucou Igor no ombro e seguiram até a mulher. Apenas uma minoria de pessoas utilizava as batas brancas, deviam ser apenas os mais fervorosos. O padre, ou o equivalente disso, falava enquanto iam até Elisa, mas Bárbara acabou não prestando atenção nas palavras dele. Ao se sentarem, a mulher abriu-lhes um sorriso receptivo. Bárbara começou a prestar atenção no discurso.

— … e cada vez mais as injustiças do mundo vêm à tona. Nossos noticiários e jornais pingam sangue e maldade. Amigos traindo uns aos outros por mesquinharias, familiares se matando por trocados de herança, governantes traindo seu povo pela simples sensação orgásmica que o poder lhes traz. — Seus olhos vagaram pela plateia. — Hoje mesmo eu vi uma matéria sobre escolas caindo aos pedaços enquanto o governador se banha em lazeres e privilégios.

“Isso não acontece por vontade divina ou ciclo cármico, justamente o contrário, foi por dependermos tanto destes escapismos místicos que chegamos nesse ponto. Não existe inferno para punir os tais pecadores, tampouco existe reencarnação para que passem pelo sofrimento que infringiram. Temos somente uma vida e é nela que precisamos fazer justiça, precisamos zelar por ela.

“Sei que vocês, a maioria, não são boas pessoas, ninguém é realmente uma boa pessoa, mas também não é minha função vir aqui para repreendê-los e puni-los. Os erros pertencem a vocês e apenas a reflexão os fará corrigi-los”.

O discurso se alongou um pouco mais. O homem manteve o assunto durante boa parte do tempo, citando como as pessoas deviam refletir sobre seus erros e evitá-los. Em dado momento, comentou sobre rostos novos e disse que ficou feliz de ver a comunidade crescendo. Por fim, se aproximou de alguém na ponta esquerda da primeira fileira e sussurrou algo. Esta pessoa fez o mesmo com aquele que estava a seu lado, e assim por diante até chegar em Elisa, que recebeu as palavras e as repassou.

— Faça justiça e tenha uma vida justa.

Bárbara olhou para Igor. Ele estava pálido e segurava o braço da cadeira com força. Quis perguntar se o amigo estava bem, mas achou melhor repassar as palavras para não causarem tumulto. Ele fez o mesmo sem esboçar qualquer reação.

— Tudo bem aí? — perguntou Bárbara.

— Não, não gosto nada daqui. — Ele cruzou os braços. — Será que termina logo?

As palavras passaram por todos os membros do culto e então, para o alívio de Bárbara, a reunião foi encerrada. Pessoas se levantaram e saíram sem pressa.

— Quer falar com o orador? — perguntou Elisa. — Ele gosta de conversar com novos membros.

Bárbara não lembrava de ter dito que se juntaria a eles, apenas que estava curiosa. Mesmo assim, aceitou o convite. Esperaram o salão quase esvaziar, e então Elisa a levou até o orador.

— Estes são Bárbara e Igor. Os dois estão interessados em se juntar a nós — disse ela.

— Que ótimo! — O homem sorriu. — Me traz alegria ver que nosso trabalho continua angariando novos integrantes.

— É, eu achei a cerimônia bem… diferente — disse Bárbara, desconfortável. — Quem teve a ideia de fundar o culto com esses ideais? Foi tu?

— Não, não. — Ele balançou a mão. — Nosso fundador nem está aqui hoje. A comunidade cresceu mais rápido do que Magno esperava e agora fica visitando as diferentes congregações.

— Mas ele nunca aparece?

— Uma vez por mês mais ou menos.

Igor deu um leve puxão na manga de Bárbara e, ao encarar o colega, viu que ele sinalizava para a saída com os olhos.

— Sinto muito, precisamos ir agora. — Ela se virou de lado. — O dia está meio corrido hoje, mas vou vir no próximo encontro na…

— Semana que vem — completou Elisa. — Sábado também.

— Isso. Até mais.

Virou-se e seguiu junto de um Igor apressado até a saída. No trajeto, viu um grupo de cinco homens conversando em um canto. Todos se encaixariam melhor como seguranças de boate do que ajudantes ou membros do culto. Um deles a encarou e, mesmo que quisesse devolver o olhar, foi impedida por um puxão no cotovelo dado pelo amigo. Saíram do local e afastaram-se umas duas quadras antes de Bárbara parar subitamente.

— Vai me dizer o que foi agora?

— Não gostei nada daquele lugar! — Igor se virou para ela.

— Qual é? Foi tão ruim assim?

— Claro que foi! — Igor olhou os arredores por um segundo. — Aquele discurso de justiça e sei lá o que não me engana! Esses caras são tudo menos justos.

— Calma! Me diz, o que teve de tão ruim?

— O padre, ou orador, ou sei lá o que. Algo nele não me agrada. O discurso parece moderado, mas eu tenho certeza de que isso é fachada para manter os curiosos como a gente por ali. Certo que ele tem uma pregação mais radical quando estão só os iniciados.

— Acho que tu viu conspiração onde não tem.

— Eu não vou voltar mais aqui, e recomendo que tu também não.

— Eu queria descobrir mais algumas coisas…

— Tu vai morrer antes de descobrir — disse ele, em tom de aviso.

— Como assim? — Bárbara franziu o cenho.

— Os caras no canto, aqueles que resolveu encarar. Notou algo estranho?

Pensou por um segundo. Lembrava que eles eram grandes e provavelmente musculosos. Tinha mais um detalhe só.

— Usavam várias camadas de roupa?

— Coletes à prova de bala.

— O quê? Não! Como sabe disso?

— Estou deduzindo, enquanto tu prestava atenção no orador eu olhei eles. E pelo menos dois estavam armados. — Igor respirou fundo e colocou as mãos no ombro de Bárbara. — Não se meta mais nisso. Eu sei que perdeu um amigo, mas não vale a pena. Vai ser pior para ti no fim.

— Como sabe disso?

— Eu… Olha, eu sei! Confia em mim?

— Confio.

E acreditava mesmo. Porém a curiosidade era grande, e cada vez mais aquele culto se tornava suspeito. Ficaria distante deles pelas próximas semanas, mas assim que soubesse que o tal Magno estaria em uma reunião, iria ver o cara. Não tinha como ser coincidência que membros de um culto novo fossem parar em um território, ainda mais com a suspeita de que havia envolvimento de armas. Talvez pudesse pedir ajuda dos outros, mas será que alguém responderia?

Como seria bom ter seus poderes no mundo real, poderia encarar qualquer perigo sem ter medo pela sua vida. Fazer o que nunca faria em outras situações.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 16

Desenho monocromático. O desenho mostra o topo de um farol durante a noite, com a lua no canto superior direito da imagem. A luz está acesa, e graças a ela é possível ver a silhueta de um monstro no interior do farol. Ele possui cabeça humanoide e três pares de braços, com um tronco alongado que some da vista, sem mostrar como seriam as pernas da criatura.
No lado direito há o número dezesseis para indicar o capítulo.

O primeiro jorro deixou sua garganta, espalhando o gosto de bile por toda a boca e trazendo consigo a acidez do estômago. A comida parcialmente digerida sujou a porcelana do vaso e a visão serviu apenas para deixar Fernando mais enjoado. Antes que conseguisse se recuperar, outro jato veio, trazendo mais da mesma sensação e espalhando queimação pela garganta. O ciclo se repetiu algumas vezes e o homem enfim reuniu saliva na boca e cuspiu no vaso, falhando em livrar-se do gosto horrível.

— O que aconteceu? — perguntou Gabriel.

Fernando olhou para o namorado, não tinha visto nem ouvido ele entrar no banheiro, mas era óbvio que apareceria. A vinda da pergunta também era uma certeza, e quase contou a verdade, quase contou que os pesadelos pioravam a cada noite, quase contou que toda vez que dormia sonhava com o território, sonhava com as pessoas mortas, com a cena vinda direto de um filme de terror, quase contou que temia por sua vida, pela vida dos outros no grupo, quase contou que não conseguia carregar a responsabilidade sozinho. Mas não falou a verdade, em vez disso, a mentira saiu de seus lábios com tanta naturalidade que o espantou.

— Está tudo bem, devo ter comido algo estranho só.

Gabriel franziu o cenho.

— Não está. E não me venha com isso de intoxicação alimentar, tu tem andado estranho há tempos! Nem olha para mim direito nos finais de semana e fica só sussurrando pela casa.

— É que… as coisas na padaria não estão fáceis. Digo, estou começando a equilibrar as contas, mas perdi alguns clientes e o fornecedor não colabora.

— Então peça ajuda, fale com sua família. Ou deixa comigo que eu converso com eles.

— Não! — gritou o padeiro.

Silêncio tomou o banheiro. Um intervalo desconfortável em que Fernando sentia a cabeça de Gabriel trabalhar em alguma resposta, alguma forma de tirá-los daquela situação. Enquanto isso, Fernando apenas encarava o namorado, ainda sentindo o gosto de vômito na boca e o cheiro ruim no vaso.

— Tudo bem, como quiser. — Sua voz estava embargada e ele deixou os braços penderem ao lado do corpo, os ombros baixando. — Quer se martirizar e ficar sofrendo até não aguentar mais, faça isso mesmo.

E então deixou o cômodo. O coração de Fernando se acelerou, sabia que estava deteriorando a relação dos dois, mas não imaginou que tinha feito tanto estrago assim. Com medo do que poderia acontecer se não falasse nada, moveu-se às pressas e segurou o ombro de Gabriel, virando-o para si.

— Não se preocupe, vai ficar tudo bem. — Outra mentira, mais uma na pilha que andava contando a Gabriel e a si mesmo.

— Como eu não vou me preocupar? É claro para qualquer um que olhe para tua cara que não vai ficar bem. Cada dia tu parece mais acabado, e não fala nada para mim! O que eu devo pensar disso? O problema é mesmo a padaria?

Fernando abriu a boca para responder, outra mentira prestes a ser disparada pelos lábios e língua, mas ele hesitou e manteve-se em silêncio.

— Por que não diz a verdade? — perguntou Gabriel.

— Porque eu não posso dizer. Eu não consigo dizer a verdade! — A voz de Fernando saiu baixa, cada palavra arrastando-se pela garganta.

— Tente.

— Eu não…

— Tente!

Fernando suspirou e baixou a cabeça. Qual das duas situações era pior? Continuar na enganação e arriscar tudo que lhe sobrava de felicidade, ou dizer a verdade e ter a chance de ser desacreditado no momento em que abria seu coração? Fitou os olhos azuis-claros de Gabriel e pensou no que faria se o namorado lhe aparecesse com a história mais sem pé nem cabeça que existe. Fernando acreditaria, é claro, a relação entre eles não era algo para se desmanchar tão fácil. Se era o caso, então por que temia? Na sua frente estava uma pessoa que abriu mão de uma casa confortável para viverem juntos, que fazia horas extras para cobrir os gastos que tinham sem reclamar, que sempre o ajudou. Não havia nada a temer.

Quando falou, contando sobre o dia em que levou o tiro, quase se engasgou com as lembranças, mas continuou. E uma vez que estava contando, não conseguiu parar mais. Era como o ar dentro de um balão, pronto para sair e esvaziá-lo do tormento que o inchava desde muito tempo atrás. Era arriscado, Fernando sabia disso melhor do que ninguém, já que ele mesmo teve dificuldade de acreditar em tudo que viu, ouviu e sentiu na primeira vez. Porém, a oportunidade de dividir aquilo com alguém que o apoiaria venceu esse medo. Achava egoísta de sua parte se sentir assim, mas não pôde evitar. Quando deu por conta, narrava os eventos com a voz chorosa e os olhos cheios de lágrimas.

Gabriel ficou em silêncio o tempo todo, mas prestou atenção em cada palavra despejada em meio a uma cachoeira de sentimentos. Só foi falar quando o outro parou a história e o encarou com olhos hesitantes.

— Eu acredito em ti.

E abraçou Fernando, que deixou o aperto na garganta escapar e as lágrimas fluírem. O tempo se tornou algo dispensável. Fernando não sabia dizer o que aconteceu, quando deu por si, estava sentado no sofá com um copo cheio de água em mãos e com o namorado ao lado, mantendo a mão no seu ombro.

— Eu não acho que esteja mentindo — começou Gabriel. — É só que… tu sabe que isso é difícil de provar, né? Tem certeza de que não está cansado a ponto de alucinar?

— Eu posso mostrar.

Gabriel abriu a boca e fechou-a em seguida. Acenou para que Fernando continuasse. O padeiro entregou o copo vazio e levantou-se. Fechou os olhos enquanto imaginava o farol. Suas pernas tremeram, mesmo sabendo que aquele era um local seguro, não pode evitar o pânico de se manifestar conforme as visões da última incursão brotavam na cabeça. Porém, era sua chance de conseguir ajuda, e encararia o medo apenas por alguns segundos.

Abriu os olhos e encontrou-se no promontório, do lado de fora, era noite no território assim como no mundo real. A atenção foi atraída para o topo do farol, para a luz que nunca era ligada, mas que naquele momento brilhava. Ela girava, focando sua iluminação em um ponto de cada vez. Na primeira volta, destacou uma silhueta humana que parecia estar apoiada nos antebraços contra o vidro. Na segunda volta, a figura apoiava a cabeça nas mãos. Na terceira, Fernando deu um passo em direção à entrada do farol. Alguém do grupo deveria estar com problemas, talvez pudesse ajudar. Sentiu os pelos da nuca arrepiarem, uma repulsa crescente no seu estômago, a vontade de ter a mochila de entregas consigo e hesitou em dar um segundo passo. Na volta seguinte, a silhueta deixou de ser humana. Tinha um corpo alongado e largo, cobrindo todo o vidro em altura e, ao redor do tronco, se era mesmo isso, inúmeros braços saíam, apoiando as mãos contra o vidro.

Sentiu-se novamente no metrô, na sala do originador. Fechou os olhos, vendo por um momento o estrago causado naquele território das ilusões, o sangue pelo chão, os corpos mortos. Desejou voltar para casa.

Deparou-se com Gabriel em pé, olhando-o espantado.

— Era real mesmo… Eu… Como? Por quê?

— Falamos em um segundo. — Fernando levantou um dedo, arrancou o celular do bolso e abriu no grupo com Nicolas. Foi difícil digitar a mensagem, os dedos tremiam e foi impossível acertar todas as letras.

Fernando

Acavei de ver um ptedador no farol

Passou um minuto e nenhuma resposta veio. O padeiro quase deu um pulo quando a mão de Gabriel apertou seu ombro.

— Tudo bem? O que aconteceu?

— Eu vi um predador. Deveria ser nosso local seguro! — Fernando olhou a tela do celular por um segundo. — Se alguém for lá, eu não sei o que vai acontecer.

— Calma. Senta no sofá e respira fundo.

— Eu não posso…

— Senta.

Obedeceu a contragosto, a perna subia e descia em movimentos rápidos. Gabriel foi para a cozinha, deixando-o com o celular e a expectativa. Nicolas sempre lia rápido as mensagens, será que já fora pego? E os demais? E se já estivessem todos mortos?!

O aplicativo sinalizou uma nova mensagem.

Nicolas

Acabei de voltar do farol, sem sinal de predador.

Fernando

Mas eu vi

Nicolas

Passarei a noite lá, reportarei qualquer problema.

Gabriel voltou com o copo cheio de água e lhe alcançou. Fernando pegou, mas não fez menção de beber.

— Recebeu resposta? — perguntou o namorado.

— Sim, Nicolas disse que não tem nada lá.

— Será que não foi sua cabeça? Estresse talvez?

— Eu sei o que vi!

— Tudo bem. — Gabriel sentou-se ao lado dele. — Por que não bebe a água e daí me conta o que viu?

— Para que eu vou beber água?

— Para se acalmar.

Fernando bufou e tomou tudo de uma vez só. Não teve efeito. Assim que engoliu, disparou os detalhes do farol em Gabriel, que ouviu tudo em silêncio e com uma expressão séria.

— Então tu viu tudo isso, mas Nicolas não? — perguntou o namorado, ao fim da explicação.

— Não, ele disse que tá tudo normal.

— E se estiver mesmo tudo normal?

— E se não estiver?! Qualquer hora alguém pode ir lá e morrer!

Gabriel respirou fundo.

— Como é esse Nicolas? Não de aparência, mas de personalidade.

— O que isso importa? — Fernando balançou as mãos, o copo escorregou um pouco nos dedos.

— Tu já vai entender.

Fernando bufou, mas respondeu:

— Quieto, sem expressão, estranhamente obcecado com os predadores e eliminar eles.

— E tu acha que ele avisaria se houvesse algum problema?

— Sim, capaz até de nos ligar nessa hora da noite.

— Então tu avisou, e Nicolas é competente. Por que a preocupação?

— E se ele não notar algo importante? Ele não é perfeito!

— Concordo, mas cara, tu tá uma pilha de nervos e não dorme bem há alguns dias que eu sei. — Gabriel afagou o ombro de Fernando com a mão. — A última coisa que precisa é mais preocupação, deixa isso na mão dos outros por enquanto. Caso contrário vai ser o mesmo problema da padaria, mais um peso para carregar sozinho nas costas.

Fernando ficou em silêncio, pensando um pouco sobre as palavras do namorado. Ele tinha razão em partes, mas não entendia, não sabia o que era sentir aquele arrepio. Não conhecia um território.

Gabriel segurou sua mão e disse:

— E já que não vai dormir hoje, que tal me contar, nos mínimos detalhes dessa vez, sobre esses predadores, porque mesmo se tu não quiser, eu vou te ajudar. Vamos pensar em uma forma de ajustar tua rotina, eu posso assumir algumas tarefas, talvez as negociações com os fornecedores. Qualquer coisa para facilitar tua vida.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 15

Desenho monocromático. O desenho mostra uma calçada vista do terceiro andar. Na calçada há um grupo de duas mulheres e um homem com camisetas brancas. Dois deles, o homem e uma das mulheres, seguram panfletos, enquanto a última pessoa está entregando um panfleto para alguém de passagem. No topo direito da imagem há o número quinze para indicar o capítulo.

Voltar ao trabalho era uma sensação estranha, ao mesmo tempo que mostrava a continuidade de tudo, era como se a vida fosse obrigada a parar durante aquelas oito horas e meia do expediente. Bárbara não sabia se agradecia ou amaldiçoava este intervalo de tempo. Por um lado, conseguia focar em outra coisa, por outro, que lugarzinho merda para se estar.

Não bastasse os colegas de bancada a olharem torto, a fofoca viajou pela empresa e agora todos olhavam-na com uma espécie de medo e repulsa, como se fossem levar um soco apenas por estarem próximos. Se era evitada antes por conta de sua carranca, agora nem a olhavam na cara, podia apenas sentir o julgamento de cada um por suas costas.

Era meio da tarde quando se levantou da mesa e foi até a copa para uma xícara de café. Os dois funcionários que estavam conversando por lá saíram sem muita discrição enquanto Bárbara se servia. O líquido fumegante inundou sua xícara e ela se afastou das térmicas, ficando próxima a uma janela com visão para a calçada na rua oposta. Mais importante que isso, ali era o único lugar na copa que era pego por câmeras, então para garantir que nenhum desencontro ocorresse e outra acusação injusta a fizesse ser demitida, Bárbara evitava ficar onde não pudesse ser gravada.

Enquanto bebericava o café amargo, notou a aproximação de Igor, o único a ainda manter contato regular com ela, talvez por saber que a fúria da colega era justificada, ou talvez por pena. Difícil saber. O homem vestia uma camisa azul-escuro, calças jeans cinza claro e um par de sapatos, uma bela diferença do seu estilo “vou vestir a primeira coisa que achar no armário” da adolescência. Ele adentrou a copa, passou pela térmica de café e ficou em frente à outra, de chá.

— Como tu consegue ficar acordado só com isso? — perguntou Bárbara. Não era chegada em conversa fiada, mas o silêncio em suas pausas do café trazia memórias do território à tona.

— Não muito bem. — Igor se serviu. — Só que eu já tomo muito café quando chego na empresa, aí se eu tomar mais dá uma dor de barriga desgraçada.

— Faz sentido.

— Sobre Eder… — Ele avizinhou-se, os olhos castanhos que Bárbara achava um charme traziam consigo algumas olheiras e pareciam mais foscos.

— Não quero saber — respondeu, ríspida.

Igor suspirou.

— Talvez se tu tentasse…

Bárbara virou o rosto enquanto tomava de uma vez o resto do café. Focou-se na rua e enxergou três pessoas com batas brancas, completando o visual com calças azul-marinho e calçados pretos. Havia algo estampado na roupa deles, algo que Bárbara lembrava-se de ver ao redor de muito sangue.

— Tu já viu aquilo ali antes? — perguntou, interrompendo seja lá o que Igor estivesse falando.

O homem se aproximou e olhou pela janela, fazendo uma careta em seguida.

— Já. Na minha rua surgiram uns malucos desse culto. É picaretagem das brabas igual a todos os outros.

Ficou em silêncio por alguns segundos, observando o trio distribuindo folhetos para os poucos transeuntes que passavam naquele horário.

— Vou lá.

— O quê?! Estamos no meio do trabalho.

Saiu da copa com a xícara vazia nas mãos e rumou para fora do prédio, descendo pelas escadas de emergência até o térreo. Tinha consciência de que poderia receber uma advertência, mas não perderia a oportunidade de conversar com aquele grupo. Talvez tivessem respostas. Aproveitou que a rua estava calma e atravessou o asfalto a passos largos, por fim, aproximou-se do trio composto de duas mulheres e um homem.

Conseguiu ver melhor a estampa naquelas batas. Era uma balança romana segurada por um homem, sem venda nos olhos e uma expressão dura. Os três a olharam com certa expectativa.

— Boa tarde — disse Bárbara. — Eu vi vocês lá da empresa e fiquei curiosa. São tipo uma religião?

Igor chegou em seguida e ficou ao seu lado enquanto a mulher no centro do grupo dava um passo à frente. Ela tinha cabelo preto e cacheado, cortado na altura do pescoço, além disso, sustentava um olhar tranquilo e abriu um sorriso para Bárbara após a pergunta.

— Não somos uma religião, e sim um culto. Diferente de outros, veneramos não um deus ou deuses que se colocam acima da humanidade, mas um ideal sustentado por nós mesmos: a justiça.

— Justiça no sentido do sistema judiciário? — Alertas acendiam na cabeça de Bárbara, mas teve que ignorá-los. Se fosse capaz de descobrir algo a partir dessas pessoas, valeria a pena.

— Não, essa é uma justiça fraca e arbitrária. Valorizamos a verdadeira justiça, a moral da humanidade, dar e receber, ajudar e ser ajudado, machucar e ser machucado. Bem e mal não podem ficar na mão de um deus, caso contrário a humanidade nunca vai aprender com seus erros. — A mulher falava sem pressa, satisfazendo-se com cada palavra. — Tu pode aprender mais sobre isso indo a uma de nossas reuniões.

Igor fez uma carranca que rivalizava com as de Bárbara em seus piores momentos. Mesmo assim, manteve-se em silêncio.

— Onde e quando são feitas essas reuniões? — perguntou Bárbara.

— Temos cinco locais em Porto Alegre, e vários outros na região metropolitana. Pode me passar o seu Whats para conversarmos e vermos o melhor lugar para ti.

— Não é melhor me passar o seu? Vocês devem ter que ir atrás de muita gente já.

— Claro, como ficar melhor para ti.

Bárbara pegou seu celular e gravou o contato da mulher, cujo nome descobrira ser Elisa. Em seguida recebeu um dos panfletos que o grupo entregava, ele era pequeno, com algumas mensagens exaltando a capacidade humana de se entregar à bondade e à justiça e viver sem um deus para guiar suas ações, pautando-as através do bem da comunidade. Havia um número de telefone e um site no verso do papel. Agradeceu a Elisa e se despediu do trio, caminhando de volta para o trabalho. Igor seguia mal-humorado ao seu lado.

— Parece que tu não gosta muito desse chá — comentou Bárbara.

Igor olhou para a xícara que ainda carregava e derramou o conteúdo em uma árvore pela qual passavam.

— Não acredito que está pensando em se envolver com aquela gente — disse ele com um muxoxo.

— Eu não quero, mas um conhecido meu se envolveu com esse culto e desapareceu. Não sei se foi culpa deles ou outra coisa, mas quero investigar.

— Ouvi dizer que muitas pessoas andam desaparecendo nos últimos meses… Não me surpreende que um culto assim tenha surgido. Essa gente se alimenta da nossa insegurança e do desejo de ter um futuro feliz. Eu diria para nem tentar ir atrás porque isso só vai complicar tua vida, mas… — Ele suspirou. — Me chame quando for em uma dessas reuniões.

Bárbara levantou uma sobrancelha.

— Me oferecendo ajuda agora?

— Olha, eu já lidei com essas merdas e não quero te ver se afundando e ficando bitolada.

— Não é uma reclamação, só estou um pouco surpresa. — Bárbara sorriu. — Pode deixar, te aviso sim.

Igor assentiu e fizeram sua caminhada de volta em silêncio, separando-se quando chegaram no andar em que trabalhavam. Bárbara voltou imediatamente para sua mesa, já que a pausa para o café tinha se estendido demais e queria evitar reclamações do gerente. No entanto, não foi dele que veio o comentário, e sim de Eder. Era a primeira fala que o infeliz se direcionava a ela desde o dia do assédio.

— O trabalho deve estar fácil para ficar saindo no meio do expediente.

Bárbara respirou fundo, limitou-se a tirar os olhos do monitor e encarar o homem. Ele sustentou o olhar, lançando um desafio no ar: retruque, leve a discussão adiante. Ela sabia muito bem que era uma armadilha, Eder tinha as costas quentes e teria vantagem em uma argumentação. Não era justo.

Talvez fosse ironia do destino que menos de cinco minutos atrás estivesse conversando com um culto que venerava justiça. Parecia algo cada vez mais escasso no mundo, ou talvez cada vez mais arbitrário. Rigidez e punições para uns, perdões e absolvição para outros. Entendeu um pouco mais das palavras de Elisa, a justiça e a moral não deviam ficar nas mãos de um deus, mas deixá-los na mão das pessoas também parecia a receita para o desastre. Um dilema sem muita saída.

Por fim, achou melhor segurar a língua e baixar os olhos para o monitor, tinha trabalho a fazer. Além disso, precisava investigar o culto, descobrir se acreditavam nas próprias palavras ou queriam apenas cativar os fiéis igual muitas outras religiões. Mais importante que isso, queria descobrir qual o relacionamento deles com os predadores, entender por que os cinco mortos vestiam roupas do culto.

Minutos depois, alguém se aproximou. Começou como uma presença assomando suas costas e, momentos depois, tornou-se uma mão do lado esquerdo de sua bancada. Ela seguiu a linha do braço com o olhar, por fim encontrando os olhos de Maurício.

— Oi — disse Bárbara, cansada de esperar que a primeira palavra viesse do homem.

— Boa tarde. — Ele tirou a mão da bancada. — Vamos conversar?

Pronto, a bronca por ter escapulido por cinco minutos no horário de trabalho vinha a jato. Quem dera as vagabundagens diárias de Eder ao celular merecessem também repreensão, mostraria, no mínimo, uma certa consistência.

Foram para a mesma sala de reuniões onde conversaram sobre o assédio de Eder e, repetindo o mesmo roteiro, Bárbara sentou-se de frente para o gerente. Maurício respirou fundo, porém nenhuma palavra deixou sua boca. Resolveu ela mesma arrancar o silêncio.

— Algum problema? Aconteceu alguma coisa?

— Tu é uma boa funcionária — disse ele.

Pronto, não era uma advertência, era demissão. O sangue gelou com a perspectiva, quantas contas tinha para pagar? Ainda lidava com as parcelas da Kawasaki, tinham as contas de aluguel, luz, condomínio e isso sem incluir a alimentação e higiene. Não duraria nem três meses direito com o dinheiro de reserva. Conseguiria arranjar um emprego qualquer antes de se afogar em boletos? Precisaria voltar para Santa Maria? Como fazia para pegar o seguro-desemprego?

— Sempre entregou tudo que pedimos, e em certos casos até adiantou as tarefas. — Maurício pôs as mãos entrelaçadas sobre a mesa. — Não acho certo como o caso com Eder foi conduzido.

Bárbara empertigou-se na cadeira, subitamente consciente de sua postura, do fato de estar curvando-se mais para frente, como se o gerente fosse demiti-la com um sussurro. Não aguentava mais.

— Vai me demitir mesmo por isso?

— O quê? Não…

— Então vai me demitir por quê?

— Bárbara, eu não vou te demitir.

Toda sua linha de pensamento sobre contas, novos empregos e mudanças desesperadas foi cortada de repente, jogando-a em uma maré de confusão. Ficou impossibilitada de seguir com qualquer questionamento.

— Pretendo fazer um movimento diferente — seguiu o gerente. — Não foi certo a forma que tratamos alguém dedicada como tu. Tirei os últimos dias para refletir sobre isso e também para observar Eder.

Bárbara assentiu.

— Vou demiti-lo e te dar um aumento.

Não conseguia mais acompanhar o desenrolar dos eventos. O mundo de repente avançara para 200 km/h enquanto ela recém engatava a primeira. De qualquer forma, estava feliz.

— Por que mudou de ideia só agora? — Ela deixou escapar. Será que tinha falado com agressividade demais? Será que estava forçando o lampejo de ética do chefe?

— Pessoas podem mudar, para melhor às vezes. Eu me arrependo do que fiz e quero consertar isso. Desculpe ter demorado. — Ele descruzou os dedos. — Só peço que não comente nada por enquanto, quero conversar com Eder ainda.

— Claro, fico quieta sim.

A conversa encerrou e logo ela estava de volta à sua cadeira, olhando para um monitor que exibia o programa da contabilidade. Sentia-se animada, mas não conseguia direcionar essa energia para o trabalho. Enquanto estava naquele estado, ouviu o assediador sendo chamado.

O papo durou quase uma hora. Tempo demais para uma demissão. Nos primeiros minutos aguardou para ver o resultado, mas esperar se tornou impossível e seu foco voltou para o trabalho. Ao fim da conversa, Eder reapareceu com passos apressados e uma expressão dura no rosto, jogou seus pertences na mochila, desligou o computador e desapareceu do escritório.

Foi um dia estranho.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 14

Desenho monocromático. O desenho exibe Nicolas, um homem com roupas formais e uma corda de forca no pescoço, em frente a um espelho de banheiro. Na imagem só mostra do nariz para baixo. Nicolas está segurando entre seu polegar e indicador uma escama preta. No lado direito da bancada da pia há uma escova de dente, e do outro lado um relógio marcando uma hora da madrugada. No topo esquerdo da imagem há o número quatorze para indicar o capítulo.

Voltaram ao farol antes que Dominique acertasse um soco em Nicolas. O líder agiu rápido, bastou ela iniciar o movimento para que duas cordas restringissem seu braço direito, outras surgiram para segurar os demais membros e, no meio de um grito, ele enfiou uma pílula goela abaixo nela.

Um filtro foi retirado de sua visão, a voz que sussurrava em sua mente desaparecera e ficou apenas o próprio arrependimento. Os ombros caíram enquanto observava o braço destroçado de Nicolas. No entanto, não foi capaz de formular um pedido de ajuda, sequer de mover-se para auxiliar o líder. A mente estava presa nos últimos minutos, repassando todos os eventos. As mortes, a discussão, a quase briga. Se tivesse acertado o soco, teria assassinado o homem. Sabia muito bem o peso por trás do golpe. Por que quis matá-lo?

Viu Fernando se recuperar um pouco de seu estado quebrado de espírito para curar Nicolas. Seria uma hora muito dolorosa para o padeiro, Dominique devia ficar junto com ele nem que fosse para distrair da dor. Não conseguiu. Algo em si estava diferente, uma indignação que pensou ter se livrado há muito tempo voltara. Enquanto os outros no grupo se ajudavam, ela só foi capaz de aproximar-se dos vidros do farol e olhar o mar. Nicolas foi seu alvo, mas os pensamentos em sua cabeça. Ah! Como eram destrutivos. Culpou cada um no grupo e depois a si mesma. Não podia sorrir e oferecer palavras de alento, não depois de ter desejado a morte de todos.

— Quem eram aquelas pessoas, afinal? — perguntou Bárbara depois de muito tempo.

— Não faço ideia, mas vendo que estavam todos armados, deviam caçar predadores — respondeu Nicolas.

— Como nós, então? — A voz de Fernando veio com uma pontada de dor, aquele embargo na voz, a dificuldade de superar o sofrimento para falar.

— Difícil — disse o líder. — Não vi nenhum vestígio neles e se tinham um, não usaram. Acho que só tinham as armas de fogo mesmo. Talvez fossem um grupo que sabia o que estava acontecendo e resolveram enfrentar sozinhos.

— Então como foram parar lá? Digo, fomos porque sentimos o território se formando, mas eles não devem ter sentido. E duvido que seja coincidência de estarem armados e preparados bem quando o predador os puxou.

— Não sei, precisarei investigar.

— Seria bom saber, porque olha, tem que ser muito maluco para entrar lá só e sem os nossos poderes. — O que era aquele tom de Bárbara? Deboche?

— Está culpando-os agora por terem ficado no nosso caminho? — disse Dominique com a voz mais alta que o normal e virando-se para o grupo.

Estavam todos em um estado tão lamentável que não pareciam as mesmas pessoas que riram e comeram juntos pouco tempo atrás. Sangue seco manchava o terno e calças de Nicolas na parte direita do corpo, os jeans de Bárbara revelavam a destruição que ela causou em um dos corpos e Fernando, apesar de ser o mais limpo, tinha traços de sangue do joelho para baixo, nas mãos e antebraço.

— O quê? Claro que não — defendeu-se Bárbara.

— Não é o que parece. — Dominique cerrou os punhos. — Matamos pessoas hoje. Cinco! E estamos aqui tentando entender como foram parar lá e porquê. Não é isso que deveríamos fazer. Nós… nós deveríamos nos entregar, dizer que cometemos assassinato.

A última frase fez qualquer resposta que estava prestes a sair da boca de Bárbara morrer ali mesmo.

— Se entregar para quem? Ninguém vai acreditar, aliás não foi nossa culpa — disse Nicolas, neutro como sempre. — Foi o território, o predador. Aquelas ilusões nos enganaram e não tinha como prever que nossos atacantes eram pessoas. Além do mais, eles agiram primeiro, nós só nos defendemos.

— Você deveria ter previsto isso! É nosso líder, sabe mais que qualquer um como os predadores funcionam! Por que não mandou voltarmos na primeira ilusão? — bradou ela.

— Calma, não tem como alguém pensar em tudo — disse Fernando, em tom apaziguador.

— Não, ela tem razão, é minha culpa. — Por que Nicolas não se alterava? O que tinha de errado com ele? — Eu achei que, enquanto Bárbara e eu pudéssemos escapar das ilusões, tudo ficaria bem. Me enganei, devemos deixar esse território de lado até que tenhamos uma forma confiável de passar por ele.

— Isso não resolve nada! Pessoas morreram por nossa causa… Nenhuma palavra vai trazer elas de volta, nada vai.

Por que estava discutindo? Onde queria chegar com aquilo? Seus próprios pensamentos pareciam tão nublados. Não aguentava mais ficar ali, olhando para eles, julgando os companheiros e a si mesma. Se virou na direção da escada e desceu correndo. Sabia que não precisava fazer isso, bastava um pensamento para que se visse em sua casa, mas não queria voltar. Saiu do farol e disparou pela imensidão verde daquele território vazio. Queria se cansar, queria ficar sem energias para se lamentar, queria apenas fechar os olhos e dormir.

Seu corpo, esse corpo novo, não cansava fácil. Ela correu e correu, mas quanto mais fazia isso, menos cansada se sentia. A brisa em sua face não trazia a mesma frescura de antes, agora era um vento álgido que lhe afligia o rosto e orelhas. O suor escorria por seus braços e costas como não fazia há muitos anos. Mas não conseguia se cansar.

Por fim, desistiu e rumou até o mar, tirou suas roupas e lavou o corpo na água gelada e salgada, tentando tirar os resquícios de sangue da pele. De corpo limpo, aguardou na beira da água enquanto secava.

Depois, simplesmente voltou para sua casa, para seu quarto. Afundou o rosto no travesseiro e deixou as lágrimas escorrerem dos olhos. Aquela não era liberdade que tanto desejara.

***

A partida de Dominique foi um choque. Nenhum deles teve forças para ir atrás dela, até mesmo Fernando estava cansado e dolorido demais para fazer algo. Seu braço ainda se recuperava do tratamento fornecido a Nicolas e a cabeça não conseguia acompanhar tudo que transcorria. Depois da saída da idosa, ficaram em silêncio e evitaram olhar uns para os outros. Se não fosse por Bárbara se mexer, talvez tivessem passado mais de horas ali, parados, esperando por algo que não sabiam.

— Tenho que ir. Mesmo depois disso tudo ainda tenho trabalho amanhã.

— Merda, tem razão. — Fernando juntou o que restava das forças e se levantou. Não conseguiu evitar de olhar para as marcas de sangue em si e nas roupas. — Ah cara, vai ser uma mão voltar para casa assim.

— Não é só tomar um banho?

— Sim, mas eu estava na padaria antes. Até tenho roupas de reserva, mas… Eu não quero me lavar na pia.

— Vem pro meu apê. Não é grande coisa, mas tem um chuveiro.

Quase perguntou para Bárbara se tinha certeza daquele convite, mas resolveu não. O que mais faria? Deixaria vestígios de sangue na padaria? Iria para casa todo sangrento e arriscando ser visto por alguém? Seria o inferno se alguém o visse. Seria um inferno maior ainda se o alguém fosse Gabriel.

— Aceito.

Olhou para Nicolas, quieto todo esse tempo. Ele estava com um olhar distante e pensativo. Mesmo depois do que tinham passado, era como se houvesse uma barreira entre o líder e os demais, não parecia haver abertura nem mesmo para se despedir. Mesmo assim, arriscou:

— Até mais, eu hã… sinto muito por hoje. Não ajudei muito.

— Até.

Vendo que não arrancariam muitas palavras de Nicolas, Fernando se virou para Bárbara. A mulher pegou no seu pulso e fechou os olhos por um instante. O terreno ao redor deles mudou, ficou escuro e com um cheiro de umidade, a temperatura caiu de uma hora para outra e sentiu que estavam em um ambiente fechado.

— Porra! Viemos parar no banheiro.

Bárbara o soltou e andou um pouco para o lado, pisando no pé de Fernando. Não doeu, mas isso fez a mulher recuar com um pedido de desculpas e dar com as costas em algo, espalhando o som de batida em vidro pelo pequeno cômodo.

— Porcaria! Se eu quebro o box a dona vai ficar putaça.

Conseguiu sentir a presença de Bárbara se aproximando dele. Momentos depois a luz foi acesa. O banheiro era pequeno, contendo uma pia com pasta e escova de dentes largadas em cima dela. Um espelho mostrava os dois próximos um ao outro, ambos em estado lamentável. O box em que sua anfitriã deu com as costas tinha espaço para um banho sem muitos movimentos, talvez se abrisse demais os cotovelos ia bater nas paredes.

— Desculpa, nunca surgi no banheiro antes. — Bárbara esfregou as mãos por um instante. — Vou pegar uma toalha para ti. Aguenta aí.

Ela tirou as botas com o solado sujo e saiu do banheiro, entrando na sala de estar. Fernando não resistiu à curiosidade e deu uma olhada no resto do apartamento. Era desorganizado, mas não sujo ou malcuidado. Viu algumas roupas jogadas aqui e ali, umas caixas de papelão atiradas em um canto abandonado da sala, uma televisão e um sofá.

Bárbara voltou com uma toalha em mãos. Era bege e estava dobrada de forma que mostrasse as palavras da dona no tecido. Alcançou-a para Fernando, que quase pegou, mas resolveu perguntar antes.

— Não tem uma mais velha?

— Essa é a mais velha.

— É que tem o seu nome e tal, aí né, estarei me limpando de sangue. Não quero estragar.

— Tu vai se lavar antes, sem problema.

Ele deu de ombros e quase pegou a toalha, porém Bárbara afastou a mão no último segundo.

— Esquece, pego outra.

Ela voltou segundos depois, com uma toalha azul-escura em mãos. Desta vez Fernando pegou sem muitas perguntas e fechou a porta do banheiro. Tirou as roupas, entrou no box e girou o registro. A água saiu quente, bem mais quente do que ele queria. Antes que o lombo pelasse, ajustou a temperatura. Ficou fria demais. Lidar com o chuveiro alheio sempre era um desafio. Ajustou e acertou o ponto. Começou a se lavar.

— O que acha que vai acontecer com o grupo agora? — perguntou Bárbara.

— Não faço ideia.

— Será que Dominique vai voltar?

— Eu… não sei, mas espero que sim. Queria ter ido atrás dela.

— Também, mas talvez fosse melhor deixar ela esfriar a cabeça. Falo por mim, mas prefiro ficar sozinha nessas situações. — Pausa. — Eu deveria ter notado a ilusão mais cedo. Ela botou a culpa em Nicolas, mas eu me recuperava mais rápido, devia ter visto…

Outra pausa.

— Por que eu e Nicolas escapamos tão rápido das visões?

— Gostaria de entender isso também, eu… — As imagens vieram nítidas em sua mente. A briga que tivera com o pai quase um ano após reatarem. O celular tocando, trazendo notícias que já sabia, e sendo ignorado por minutos a fio. As mensagens da mãe perguntando se compareceria ao enterro, e sua resposta negativa. Balançou a cabeça. — Tem muita coisa que não conhecemos sobre os predadores e territórios.

— Acha que Nicolas está escondendo coisas da gente?

— Ele falaria se fosse importante. Nicolas é meio insensível, mas até agora tem sido sincero.

Apesar das palavras, não conseguiu deixar de se perguntar se era o caso. O líder ocultara informações sobre os vestígios, o que mais guardava para si?

O resto do banho transcorreu em silêncio. Quando terminou, se despediu de Bárbara e agradeceu por tudo. Voltou ao farol e viu o que restava da comida que saboreavam horas atrás, parecia até ter se passado em outra vida. Tampou os potes, desmontou a mesa e dobrou as cadeiras, empilhando tudo e levando de volta à padaria. Uma vez lá, deixou tudo em um canto, botou roupas limpas e tentou se preparar para o dia seguinte. Não foi fácil, mas os deveres da vida mundana nunca sumiam, por mais insignificantes que parecessem as vezes.

***

Não havia um único grama de vitória em suas mãos. Nem mesmo o conhecimento de que um território podia jogar as pessoas em ilusões era algo inédito. A única parte nova era a intensidade de tais visões. Mesmo cansado, Nicolas não conseguia parar de andar de um lado a outro na casa.

Passava pela cozinha quando se iniciou o pensamento de que era um fraco. Um pedaço inútil de bosta que não conseguia diferenciar sonhos de realidade. Deveria ser o líder daquele grupo, encabeçar qualquer desafio e surgir com uma solução, porém o que aconteceu lá? Hesitou em sua determinação, em seu objetivo. Bárbara foi mais rápida que ele, e ainda assim insuficiente.

Estava de volta no escritório quando a cena dos mortos invadiu sua mente. Escorou as costas na parede e levou as mãos ao rosto, arranhando a pele e sentindo algo duro na bochecha direita. Era uma sensação boa, mas forçou-se a afastar os dedos do rosto, não adiantaria nada ficar abrindo ferimentos. Focou no misterioso grupo que enfrentaram. Não se arrependia de tê-los matado, faria tudo de novo. Se lamentava mesmo de não ter ordenado a fuga quando percebeu que as ilusões eram fortes. E, para sua surpresa, foram jogados de uma direto em outra. Os predadores estavam evoluindo cada vez mais, ao passo que ele ficava para trás.

O abalo do dia levaria suas atividades a um hiato. Quanto tempo duraria? Quantos voltariam a atuar? Não tinha como dizer, mas esperava que fossem todos. Teria que pensar em uma forma de forçá-los se fosse necessário, não tinha tempo para se preocupar com sentimentos.

Moveu-se da parede e voltou a andar. Entrou no banheiro, abriu a torneira e lavou o rosto, tentando tirar alguma sujeira que estava incomodando-o. Foi um erro entrar em um território novo sem qualquer tipo de preparação. Começaria a explorar novos alvos sozinho antes de levar o restante do grupo, eles eram capazes, mas algumas coisas apenas poderiam ser feitas se estivesse sozinho. Sim, era um bom plano e que dependia somente de si. Levou os olhos ao espelho e viu o rosto pálido e molhado, as gotas escorrendo pela pele imberbe até caírem na pia, olheiras profundas revelando noites e mais noites mal dormidas, e os olhos tomados de determinação.

Fitou as mãos e notou a fonte do incômodo no rosto, uma pequeníssima placa orgânica, não maior que seu dígito. Era resistente, ficando inteira após um aperto dos dedos, tinha uma forma quadrada e arredondada nas pontas, além de possuir uma coloração cinza escuro. Não era simples sujeira, e sim algo que traria mais desconforto e o atrasaria por alguns dias. Seria melhor ir ao farol antes que a situação piorasse.

Precisava manter a calma. Não falharia, nunca mais.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 13

Desenho monocromático. O desenho é dividido em duas partes. A parte da direita mostra uma casa de madeira, com uma casinha de brinquedo no chão e parte de uma cama. Também há uma janela por onde se veem outras casas. Conforme se olha para o lado esquerdo, a casa desaparece e as paredes se tornam orgânicas, lembrando entranhas e o interior de um corpo animal. No centro da imagem há o número treze para indicar o capítulo.

Estava tudo ali, os brinquedos que se dividiam entre bonecas, caixas cheias até o topo com lego e até mesmo alguns quebra-cabeças. Havia sua cama também, o travesseiro com extremidades verdes e centro amarelo, a colcha estampada da Mulan e até mesmo o abajur na cabeceira.

Bárbara caminhou ao redor da cama, deixando a mão sentir a textura da colcha e a resistência do colchão. Um olhar para a direita revelou a janela do quarto. Saltitou até ela, subiu em um mocho para ganhar altura e olhou para o exterior. Dali tinha uma visão perfeita da rua, conseguia ver o chão de paralelepípedo, os vizinhos cujo filho tinha um cachorro peludão com quem adorava brincar, até mesmo Clara estava lá, em frente à casa de madeira. A idosa viu ela através do vidro e acenou. Bárbara, apesar de incomodada, retribuiu o gesto. Há quanto tempo não via dona Clara?

A mão parou. Exato, há quanto tempo não a via? Uma carranca formou-se em seu rosto. Dona Clara estava morta, um infarto mais de dez anos atrás. Ela tinha algumas opiniões fortes sobre as atitudes de Bárbara e, por ser amiga da família, achava normal expressá-las em quase toda ocasião. Recebendo as palavras ousadas da idosa e sem o apoio da própria mãe, Bárbara tornou a última conversa delas em uma discussão acalorada. Não houve conclusão, uma hora cansou de ouvir todo aquele desaforo e foi embora. Nem um dia depois e ficou sabendo da internação e morte da outra.

Olhou para trás, visualizando novamente o quarto. O local não era real, o verdadeiro nem existia mais. Não estava na casa onde passou a infância. A realização deste fato fez tudo parecer falso, o desenho de Mulan estava borrado e retorcido, seu rosto carecia de proporções corretas. Os brinquedos, na verdade, estavam quebrados e a tinta escorria pelo plástico.

— Não!

Um grito feminino ecoou pela casa inteira. Seus olhos percorreram o aposento até encontrarem a porta. Avançou até ela e abriu. A primeira coisa que enxergou foi a vermelhidão do lugar em que estavam. Era um corredor rubro, feito de um material que oscilava a cada respiração, com lâmpadas comuns que se veria em uma casa qualquer, mas cuja iluminação era fraca e deixava o ambiente à meia-luz.

— Voltou a si? — perguntou Nicolas.

Bárbara olhou para o restante do grupo. O líder estava como sempre, uma expressão neutra encarando-a. Fernando e Dominique se encontravam parados, os ombros encurvados e olhos arregalados. O queixo caído enquanto observavam o nada.

— O que aconteceu com eles? — perguntou ela.

— O mesmo que aconteceu com nós dois.

Bárbara chacoalhou Fernando, tirando-o de seu transe. Fez o mesmo com Dominique em seguida. Os dois pareciam tão perdidos quanto ela ao acordarem. Antes que pudessem fazer mais perguntas, o corredor se contraiu logo à frente deles, expandindo-se em seguida como se fosse um ser vivo respirando.

— Onde estamos? — perguntou Fernando.

Bárbara colocou a palma em uma das paredes. Sentiu o material ceder um pouco, mas ao forçá-lo não conseguiu empurrar mais. Tinha uma sensação quente ao toque, além de ter uma textura esponjosa. Afastou a mão, sentindo-a úmida. Estavam dentro de uma coisa viva.

— Ainda não sei, mas não descobriremos se ficarmos parados aqui. — Nicolas começou a caminhar. — Preparem as pílulas.

Seguiram pelo corredor, fazendo curvas, passando por bifurcações, subindo e descendo inclinações. Acabaram por chegar em uma parte que tinha janelas, do tipo normal que se veria em qualquer casa. Estavam no meio das paredes vivas e, ao chegar perto, vislumbraram o exterior escuro onde nada se via.

Enquanto observava o lado de fora, algo surgiu em sua visão. Era uma mulher alta, com cabelos cacheados castanhos e cara fechada. Usava uma jaqueta de couro com uma camiseta vermelha por baixo. Bárbara virou-se para Fernando, prestes a perguntar se o homem também estava vendo o próprio reflexo. Seus olhos não encontraram o colega, porém, enxergaram um cenário diferente.

— Tem certeza que quer isso? Vai ser bem longe.

Estava em uma sala de estar. Na sua frente via o sofá de três lugares coberto por uma manta branca tricotada. Logo ao lado do móvel estava o rádio que sua avó deixava ligado durante boa parte da tarde para trazer vida à casa enquanto cuidava das tarefas domésticas. Era um modelo usado, porém mais novo que o anterior, tocava tanto CD quanto fita cassete, apesar de que não usavam uma há anos.

Olhou para trás, deparando-se com o balcão onde ficava a televisão de tubo. A monstruosidade eletrônica ocupava metade da bancada, e de cada lado dela havia decorações variadas: alguns gatinhos de cerâmica comprados pela cidade, uma foto da avó com os dois filhos e três netos e uma estátua de Nossa Senhora Aparecida.

Poderia ficar capturando todos os detalhes do cômodo, lembrando-se de como já subira muito naquele balcão, de como uma vez tentara levantar a TV e achou que fosse morrer esmagada, ou de como estragou o rádio antigo por colocar massa de modelar em seu interior. Passou mais de uma década após cada um destes acontecimentos, mas as memórias estavam frescas.

— Oi? Está me ouvindo?

Virou a cabeça para frente, de volta à figura de sua mãe. Por algum motivo, ignorou-a até ali. Diziam que as duas se pareciam muito, mas Bárbara negava. O cabelo, apesar de cacheado, era mais claro na outra, os olhos castanhos na filha eram de um tom esverdeado na mãe. A altura, porém, era a principal diferença. Isabel era uma cabeça mais baixa.

— Estou ouvindo, só estava pensando — respondeu Bárbara. Ver a mãe ali, sentada e preocupada, lembrou-lhe do que estavam discutindo.

— Será que tu não consegue algo aqui? Mesmo que seja em outra área…

— Mesmo que eu consiga, ficar no interior não tem futuro. Ainda mais se eu pegar algo fora da minha formação.

— Mas…

— Não quero passar o resto da minha vida fazendo algo que não gosto. Ir para a capital é minha chance! E diferente de outras pessoas, não vou sem um emprego definido.

— E se te demitirem logo em seguida? E se quiserem se aproveitar de ti lá? Vai estar sozinha, sem família para te dar uma mão.

— Eu sei me virar! — disse Bárbara, o tom de voz mais alto. — E até parece que estar aqui vai me proteger de alguma coisa.

Não protegeu a mãe de ser abandonada pelo marido, tampouco ajudou quando começaram as brigas diárias com o namorado. Dois relacionamentos fracassados em que ninguém, familiar ou amigo, moveu um dedo para ajudar. Não era algo que jogaria na cara dela sem um bom motivo, mas odiava aquela preocupação toda. Pareciam querer contê-la a todo custo. Sempre foi assim.

Mas no fim Isabel até que tinha razão. Quando se mudou, seu único conhecido próximo passou a ser Igor. Espera? Como sua mãe poderia ter razão se nem se mudou ainda? Sentiu algo se movendo na visão periférica e observou o cômodo com o canto do olho. As paredes não eram de madeira e sim daquele material bizarro e vermelho. O chão não era firme, oscilava e era macio. Tivera aquela conversa antes, mas nada daquilo era real.

Trincou os dentes enquanto via o sofá e a mãe desaparecem diante de seus olhos, dando lugar a Fernando, mais uma vez com a expressão distante. Ao seu lado, Nicolas balançava a cabeça.

— De novo? — rosnou Bárbara.

— Sim — respondeu o homem. — Parece ser a forma que esse território funciona.

Balançaram os dois colegas, retirando-os da ilusão.

— Espero que isso não aconteça mais vezes — disse Fernando.

— Vai acontecer — falou Nicolas.

— Por quê? — perguntou Dominique. — Não é como se isso fizesse muito mal a nós, além de nos fazer perder alguns minutos.

— Bem, prefiro isso que o metrô. — Fernando olhou em volta. — Não tem nenhum monstro nos atacando pelo menos.

— É um originador novo, talvez seja só isso do que é capaz de fazer. — Nicolas coçou a têmpora. — Vamos continuar, talvez encontremos algo que nos ajude a eliminar o predador em uma próxima vinda.

O grupo voltou a prosseguir pelo corredor. Em alguns minutos de caminhada, apareceram diversas passagens à esquerda e à direita. Cada uma levava para uma espécie de cômodo.

— E aqui são as salas de reunião — disse a voz da mulher que os guiava. Ela trabalhava no RH da empresa e era a responsável por realizar a integração dos novos empregados, ou como gostavam de chamar, colaboradores. O grupo de Bárbara era pequeno, apenas cinco jovens tão nervosos quanto ela com o primeiro dia de trabalho.

A motoqueira cerrou os dentes, reconhecendo a cena como uma ilusão. Já tinha passado por duas, não seria afetada por uma terceira. Avançou no meio do grupo, empurrando seus novos colegas e ultrapassando a moça do RH. A ilusão se desfez, e Bárbara enxergou o verdadeiro propósito das enganações. À frente dela estavam cinco predadores.

O corpo inteiro era vermelho, lembrando uma ferida inchada, da cintura para baixo não haviam pernas, apenas uma massa disforme que se conectava ao chão como se fossem protuberâncias. O tronco tinha um formato mais humano e aparência muito magra, mas sem mostrar costela alguma. Os braços eram longos e estranhos, quase tentaculares. Mal conseguiu identificar o rosto deles, apenas notou que tudo parecia deslocado. Os olhos estavam espaçados demais, um próximo ao queixo e outro perto do topo da testa. A boca estava em algum lugar entre eles, e não se via o nariz ou as orelhas.

Estavam dispostos de forma estranha, mas antes de chegar em uma conclusão, Bárbara abandonou os pensamentos, notando que era a única desperta. Se virou, ficando na frente de Fernando e empurrando os outros dois para os lados. Era injusto que pudesse proteger só um, mas o padeiro era prioridade. Os predadores atacaram, esticando seus braços para frente e mirando nos humanos. Algo disparou de dentro dos membros, projéteis pequenos, porém, considerando a distância, poderosos. Mesmo com sua resistência, Bárbara não estava em posição para manter o equilíbrio, e quando sentiu o impacto em suas costas, foi jogada para frente junto da dor dispersa que invadiu suas paletas.

Fúria preencheu seu coração e foi bombeada por suas veias. A dor se tornou um estimulante perigoso enquanto ela se levantava em um pulo e virava-se na direção dos predadores. Os cinco concentraram os braços nela e lançaram outra saraivada. Desta vez estava preparada e manteve-se firme enquanto era atingida pelos inúmeros projéteis. Seu braço, tronco, barriga e pernas queimaram como se estivesse em uma pira. Ela gritou enquanto as rachaduras se espalhavam por todo o corpo.

Disparou na direção dos inimigos enquanto era alvo de uma terceira onda de ataques, mas não parou. Dois dos predadores pareciam de alguma forma agachados, ainda que não tivessem pernas ou joelhos, mas sua forma era mais baixa que os demais e esse foi o primeiro pensamento na cabeça de Bárbara. Os outros três estavam em pé logo atrás. Era uma formação estranhamente organizada para monstruosidades como aquelas.

Antes que pudessem atacar de novo, cordas surgiram do teto e enrolaram-se no corpo dos dois da frente, puxando-os para cima com violência. A quarta saraivada veio em seguida, atingindo os corpos recém-erguidos. Dominique passou pelo seu lado como um raio, dando a volta nos corpos suspensos e chutando um dos predadores na direção de Bárbara. Ele deu um encontrão nos outros predadores, derrubando parte de seu braço no caminho, e caiu perto da mulher raivosa. Bárbara chutou a cabeça da aberração com toda a força que tinha. Seu corpo reagiu ao ataque, o líquido vazou das rachaduras, passando pela roupa e bota, acumulando-se na ponta do calçado assim que se conectou com a estranha carne da criatura.

A explosão desta vez foi mais focada, com a fúria direcionada toda ao predador. Seu vestígio pareceu reconhecer o objetivo singular e nem ofereceu tudo que tinha. O tronco do inimigo rebentou em sangue, o chão logo à frente deformou-se, afundando um pouco. Bárbara olhou para a frente, tão cansada que poderia cair de joelhos ali mesmo. Dominique dera conta dos outros dois. Estavam seguros por enquanto. Baixou a cabeça, exausta e sentindo o cérebro ribombar no crânio.

Se deu conta de algo estranho no chão. Não era parte do braço que a criatura derrubou? Se aproximou do membro, notando que não era vermelho, e sim cinza. Dois canos longos juntando-se em uma empunhadura, um gatilho embaixo. Uma arma. O coração bateu mais rápido enquanto olhava para o predador que matara. Não havia como identificar nada do tronco, agora um monte de carne espalhada pelo corredor, mas agora haviam pernas, pernas bem humanas.

As entranhas se apertaram, tentando parar seja lá o que estivesse tomando conta de Bárbara. Olhou na direção dos outros predadores. Os enforcados foram baixados e agora estavam jogados no chão. Suas formas bem mais fáceis de identificar. O tronco era humano, coberto por uma espécie de bata branca com um símbolo no peito e suja de entranhas. E o rosto, não havia como confundir, eram pessoas. Não tinham mais feições deslocadas. Bárbara olhou para frente, encontrando o olhar perplexo de Dominique. De repente, sobreviver tornou-se secundário, nem sequer pensava em avançar no território.

Fernando passou por ela e se ajoelhou ao lado dos corpos. Ele abriu a mochila e tentou forçar o pão goela abaixo nos cadáveres enforcados.

— Bárbara! Me ajude aqui! — gritava o homem. — Temos que salvar eles, eu acho que consigo reviver. Droga!

Ela não se moveu. Viu Dominique passando pelos dois que matara, ambos com o crânio afundado por golpes poderosos. Notou os olhos sérios e focados, revelando o ardor da alma dela. Queria sentir o mesmo, mas não conseguia, seu coração ocupava-se com algo diferente. Virou-se para sua vítima, e era isso que eram, vítimas. Não inimigos, tampouco predadores. Não conseguiu tirar o olho do corpo, era impossível ignorar o peso do que fizera. Atrás de si, os choros e lamentos de Fernando pareciam vir de outro mundo, chegando até ela como um eco, uma transmissão de rádio.

— Isso é sua culpa! Você deveria ter notado!

Olhou na direção de Dominique e Nicolas. A idosa discutia com o líder deles, ignorando o fato de que o braço do homem estava pela metade, o antebraço perdido em algum lugar no chão, desprendido do corpo durante a leva de tiros.

— Você deveria ser o salvador dos humanos! Deveria ajudar todos, mas olhe… olhe o que você nos obrigou a fazer.

Nicolas apoiava-se na parede, de alguma forma conseguindo manter-se em pé e aguentar as palavras atiradas contra si. Ele pareceu notar o olhar de Bárbara e encarou-a. Um frêmito percorreu o peito dela enquanto notava a ausência de emoção naqueles olhos.

— O território está nos afetando — disse ele, passando por cima da raiva de Dominique. — Precisamos sair. Dê uma pílula a Fernando, eu me viro por aqui.

Uma ordem, uma direção. Claro! Aquele peso devia ser coisa do território, todos se sentiriam melhor quando voltassem para o farol. Saindo do torpor, Bárbara caminhou até Fernando. Ele balançava o corpo de um dos mortos, pedindo que acordasse, que levantasse. Lágrimas escorriam pela sua face.

— Precisamos sair — disse ela.

Fernando não a ouviu, apenas continuou lamentando. Bárbara segurou os pulsos do homem e puxou para si, forçando-o a encará-la. Que erro. Ele estava quebrado, soluçando a morte de pessoas que nem conhecia. Não deveria sentir o mesmo? Como conseguia ignorar o peso do que fizeram?

— Me solte! Você é um monstro! Todos nós somos! — O homem desvencilhou-se.

Respirando fundo, Bárbara soube o que precisaria fazer. Empurrou Fernando e, assim que ele caiu, subiu em sua cintura. Em meio a gritos e tentativas de escape, pegou a pílula e enfiou na boca dele, tapando-a com a mão. O homem não deixou barato e a acertou como pôde. Bárbara aguentou cada golpe, não sentia a queimação e raiva que vinham quando era atingida. Não sentia nada. Quando Fernando engoliu a pílula, ela pegou sua própria e fez o mesmo. Queria nada mais que sair dali e voltar para o farol.