Predadores: A Obsessão – Capítulo 12

Desenho monocromático. O desenho mostra o topo de um promontório com uma mesa de plástico com um pote com pães e sucos de caixinha em cima, ao redor dela há 3 cadeiras de praia. No horizonte vemos o mar refletindo a luz da lua cheia no céu. No centro da imagem há o número doze para indicar o capítulo.

Seria apenas uma noite comum se não fosse por uma repentina ligação de Fernando alguns dias antes. Quase que Dominique não atendeu, aquele número desconhecido só podia ser coisa de gente querendo dar golpe, mas no fim a curiosidade triunfou sobre a cautela e a ligação foi atendida.

A chamada foi curta, porém suficiente para deixá-la animada. Marcara um encontro com o grupo! Depois do último, apesar de serem vitoriosos, temeu que não fossem chamá-la. Ao que parecia, suas preocupações eram infundadas, botaram-na até em um chat com todos. Pedir para que seu filho lhe ensinasse a usar um celular moderno foi a melhor decisão que tomara em anos.

A vibração do alarme a tirou de seus pensamentos. Vinte e duas horas, o momento da reunião. Sentou-se na cama e olhou para a porta trancada. Não gostava de fazer isso, mas desde que acabou no hospital, passaram a cuidá-la mais de perto. Isso, claro, nos primeiros dias. Estavam mais relaxados, porém ainda havia um risco. E era mais fácil explicar uma porta trancada do que um desaparecimento temporário.

Já estava vestida com as roupas de exercício que Nicolas conseguiu após o último território. O líder do grupo sabia ser discreto e foi esforçado o suficiente para encontrar um conjunto igual ao antigo, descartado no fundo de uma lixeira muitos dias atrás. Esperava não sujar as vestimentas novas com sangue.

Fechou os olhos e imaginou o farol. Não tinha Nicolas para guiá-la desta vez, mas ele a instruíra como fazer e, durante algumas noites tediosas, foi sozinha até lá. Não encontrou nada demais, mas era melhor que ficar presa na casa, à mercê do tédio. Nunca superaria isso, porém sentia que não precisava. Deus agira sobre ela, ainda que de forma pouco convencional.

Um sorriso cruzou seus lábios enquanto sentia a viagem acontecendo, e logo estava de pé no interior do farol. Enxergou Fernando e Bárbara no exterior da construção, à beira do promontório, e desceu para encontrá-los. Só quando sentiu a resistência e os pequenos buracos da escada de metal nos pés notou que estava descalça. Pensou em voltar, mas era uma sensação agradável e há muito esquecida. Aguentaria ficar um tempo sem calçado, os jovens entenderiam.

Continuou seu caminho, passando do metal para a frieza da pedra no exterior. A maresia a atingiu de forma que não sentia há muitos anos, trazendo calafrios em suas pernas.

Encontrou com os dois companheiros sentados em cadeiras de praia, e havia uma vazia para ela. Estavam reunidos em volta de uma mesa de plástico, do tipo que se remove as pernas quando guarda, com dois potes brancos semitransparentes em cima. Não conseguiu ver o conteúdo, mas tudo bem, descobriria em breve. A noite sem nuvens e a lua cheia e cintilante davam conta de iluminar o ambiente mais que o necessário. Havia algo de especial naquele território.

— Boa noite, jovens! — disse, cumprimentando os dois com um beijo no rosto.

Após os cumprimentos, Bárbara baixou os olhos e levantou uma sobrancelha.

— Tu… esqueceu os tênis? — perguntou ela.

— Esqueci. — Fitou seus pés mais uma vez. — Agora é tarde, além do mais, é meio libertador andar descalça.

— Por essa lógica, andar sem roupas também é libertador — replicou a mulher mais nova.

— Tem razão, acho que vou fazer isso na próxima vez.

— Por favor, não — disse Fernando.

— “Por favor”? Estou tão mal assim?

— Não, não, claro que não! — respondeu ele, balançando as mãos espalmadas.

— Talvez até seja uma boa ideia — disse Bárbara. — Finalmente veremos Nicolas esboçar algo que não seja uma cara séria.

— Não diga isso do rapaz! — Dominique cruzou os braços. — Ele só não sabe se expressar direito.

— Conheço gente que não sabe se expressar, e não é o caso de Nicolas. Pensando melhor, talvez ele nem fosse dar bola. — Bárbara fechou a cara e imitou uma expressão séria, seguida de uma voz mais grossa e sem emoções. — Boa ideia Dominique, assim os predadores não têm como nos agarrar pelas roupas. Muito eficiente.

Fernando tentou segurar uma risada, mas ela logo escapou. Foi contagiante, infectando Dominique e Bárbara com a mesma intensidade. Como sentia falta disso! Dos momentos de diversão e alegria, tão gostosos e valiosos. Ainda se recuperando, a idosa se sentou na cadeira de praia restante. Era um arranjo único, nunca imaginaria que algum dia se reuniria com pessoas tão jovens no topo de um farol misterioso e mágico.

— Agora que Dominique chegou… — disse Bárbara, ainda com o resquício de um sorriso no rosto. — Dá para abrir?

— Esfomeado é foda. — Fernando fechou os olhos, prensou os lábios e balançou a cabeça, em um gesto decepcionado. Em seguida tirou a tampa dos potes e colocou embaixo dos mesmos. Dentro do primeiro havia cuecas viradas e no segundo pães compridos, fatiados e polvilhados com um pouco de farinha na parte de cima.

— Posso pegar? — perguntou Dominique, que foi respondida com um aceno positivo de Fernando.

Começou com uma cueca virada. Na primeira abocanhada, já sentiu a quantidade de açúcar da comida, na medida certa para ser deliciosa e fazer seu médico lhe xingar por comer essas besteiras. Ora, o doutor não sabia o que era ser velho! Queria ver ele se conter quando chegasse aos setenta.

— Está ótimo! — Esticou a mão para pegar mais uma das delícias açucaradas.

Bárbara atacava sua terceira cueca virada quando Dominique finalizou sua segunda e resolveu provar dos curiosos pães. Pegou um pedaço, era um pouco mais pesado do que esperava, mas uma leve apertada revelou sua fofura. Logo descobriu a origem do peso extra, o interior estava recheado com queijo e cubos de calabresa.

Enquanto se ocupavam com a comida, Fernando abriu a mochila de entregas, tirou três caixinhas pequenas com suco de uva e as pôs em cima da mesa.

— Para desembuchar.

Dominique ficou grata, tornou-se difícil de engolir tudo. Estava prestes a pegar um dos sucos quando Bárbara falou:

— Poxa, tu faz cueca virada e pão recheado, mas daí trouxe suco de uva de caixinha?! Quebrou todo o clima.

— Tá abusada, já. — Um pequeno sorriso surgiu no canto da boca de Fernando. — Queria que eu colhesse uvas no meio da cidade e pisoteasse elas para fazer suco?

Dominique já havia pegado o seu e agora observava os dois na discussão amigável.

— Devia ter ido até Bento comprar um dos bons.

Bárbara tentou pegar uma das caixinhas, mas Fernando se lançou sobre elas antes, pegando as restantes e mantendo fora do alcance da mulher.

— Reclamou, fica sem.

A moça bufou e olhou para Dominique.

— Senhora, vai dividir comigo, né? — pediu ela, em um tom que sugeria uma ordem.

Dominique olhou para seu suco. Tirou o canudo do plástico e com ele furou o fino alumínio da abertura. Levantou o olhar para Bárbara e respondeu:

— Não.

E então gargalhou. Uma sensação gostosa tomou conta de si, quase como se seu corpo tivesse esquecido o que era rir sem preocupações. Se conheciam há pouco, mas gostava daqueles jovens e sentia que gostavam dela. Há quanto tempo não fazia novos amigos? Há quanto tempo não conversava com pessoas novas?

Fernando devolveu o suco para Bárbara e terminaram o lanche com conversas amigáveis. Descobriu que os dois eram de Porto Alegre, moravam perto um do outro, inclusive. Coisa curiosa a vida, duas pessoas tão próximas que nunca se viram antes. Revelou aos dois que morava em Niterói, Rio de Janeiro.

— Odeio quebrar o clima — disse Fernando, fechando os potes agora vazios. — Mas preciso falar algo.

Dominique e Bárbara trocaram um breve olhar. A jovem não falou nada, mas expressou um pouco de desagrado com o que estava por vir.

— Estive esses dias com Nicolas e conversamos sobre alguns assuntos. — Ele entrelaçou os dedos, levantando e baixando cada um deles em sequência.

— Lá vem… — sussurrou Bárbara.

— Não é nada tão impactante! — Ele separou as mãos e abanou-as para a frente. — Apenas algo que deveriam todos saber. A questão é: se encontrarmos alguma pessoa como nós daqui para frente, é bom tomar cuidado. Nicolas me… disse após uma certa pressionada, que é possível roubar nossos poderes se pegarem o objeto que nos concede eles e nos matar.

— Como que isso não é impactante? — A jovem deu um soco no braço da cadeira de praia.

— Calma, Bárbara — disse Dominique. — Deixa ele terminar primeiro.

— Não tem muito mais, era basicamente isso. — Fernando esfregou as mãos no rosto. — É impactante sim, falei besteira. Nicolas disse que não falou disso antes para não gerar desconfiança.

— Não que funcione muito, né? — disse Bárbara, indignada. — Eu já estava desconfiada dele e agora estou mais. Isso não é coisa que se oculte!

— Mas faz sentido, não? — Dominique botou a mão no ombro da colega. — Se estivéssemos em alerta um contra o outro, nosso trabalho em equipe não seria tão bom.

— Eu estava lá para ser uma parede contra ataques e faria isso com ou sem segredos — resmungou Bárbara.

— E agora que todos nos conhecemos, Nicolas revelou isso. — Dominique sorriu. — Era só uma precaução temporária.

— E o que mais ele esconde? — Bárbara olhou com raiva para Fernando. — Sabe de alguma coisa?!

— Eu teria dito se soubesse.

— Será mesmo?

— Não dá para culpar o coitado — interveio Dominique.

Bárbara cruzou os braços, respirou fundo e esfregou os olhos com as palmas da mão.

— É, desculpa. Estourei de novo.

— Pelo menos não usou a jaqueta — disse Fernando, um leve sorriso se formando no rosto. — Seria bem pior para mim.

— Falando em jaqueta… — Bárbara olhou para Dominique. — Nicolas é a corda bizarra, Fernando é a mochila, eu a jaqueta, e tu?

— É até estranho dizer isso, mas eu não tenho um objeto que me dá poderes — respondeu Dominique. — É meu próprio corpo, pelo menos é isso que sinto.

— Então, em teoria, não podem roubar sua habilidade? — perguntou Fernando.

— Ou pode ser algum órgão dentro dela — disse Bárbara. — Só arrancar ele.

— Ah meu deus! Que coisa horrível. — Fernando fez uma careta de nojo. — Acho que está na hora de trocar de assunto.

O papo tornou-se mais ameno, como a novela das nove, que Fernando disse não ver, mas conhecia os pormenores como ninguém. Também ficaram sabendo de mais detalhes da profissão de Fernando, incluindo dos terríveis horários que ele atuava. Falaram um pouco de suas famílias, seus relacionamentos e de algumas besteiras engraçadas que fizeram durante a vida.

Dominique sentiu de repente um tremor e a conversa se interrompeu-se. Não foi físico, tudo na mesa estava no mesmo lugar, mas algo em seu ser ressoou, como um sino badalando diversas vezes.

— Sentiram, também? — perguntou Dominique, levando a mão ao peito. A sensação ainda estava lá.

— Sim. — Bárbara alternou o olhar entre os dois. — O que foi isso?

— Eu não sei — respondeu Fernando. — Vou sair e ligar para Nicolas…

Antes mesmo de tirar o celular do bolso, o homem que procuravam surgiu no farol. Estava com a respiração acelerada, porém mantinha a expressão de sempre.

— Que bom, todos estão aqui — disse ele. — Surgiu um território novo, temos que investigar.

— Eu não acho que estamos preparados — protestou Fernando.

— Só vamos investigar, não vamos atrás do originador.

— Temos que agir antes que o território faça vítimas — disse Dominique, se levantando. — É bom investigarmos agora mesmo.

— Da última vez foi o mesmo papo — disse Fernando.

— E não tínhamos um método de fuga. — Nicolas mexeu na corda em seu pescoço. — Agora temos.

— Estranho dizer isso, mas concordo. — Bárbara se levantou da cadeira. — Principalmente com Dominique.

— Se todos aceitam… — Fernando se levantou. — Acho bom entregar as pílulas, não?

— Entregarei.

O homem entregou duas cápsulas para Dominique, Bárbara e Fernando. Passando as instruções de engolirem e pensarem no farol em seguida, assim seriam retirados do território.

— Agora, sobre como chegar ao nosso destino — disse Nicolas. — Ele recém se formou e por sorte estamos dentro de um território para senti-lo. Concentrem-se no abalo que surgiu há pouco, sentirão junto uma força, uma espécie de sucção, querendo levá-los a outro lugar. Se deixem serem carregados.

Dominique obedeceu, fechando os olhos e focando-se no tremor que percorreu seu corpo. Não havia nenhuma força sugando-a, e sim fragmentos de conversas, palavras soltas ao ar sem contexto ou objetivo. Poderia seguir elas se quisesse.

— Estão todos sentindo? — perguntou Nicolas, e ao receber uma resposta afirmativa, continuou: — Vão para lá.

Sentiu os pés deixando o chão e ficou assustada por um momento, imaginando que os membros adormeciam. No entanto, foi apenas temporário, pois seguiu uma sensação de envolvimento por algo, ou alguém. As conversas que ouvia se intensificaram e seu conteúdo tornou-se mais claro. Eram lamúrias, monólogos intermináveis que questionavam certo e errado.

Sentiu um par de olhos em si. Eles observavam-na atrás da lente de óculos, eram inocentes e, ao mesmo tempo, manchados pelo conhecimento do pecado. Não pôde evitá-los, já estava a caminho do território e tudo que pode fazer era deixá-los examinarem-na.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 11

Desenho monocromático. O desenho mostra um homem sorridente, uma flor adorna seus cabelos volumosos e ondulados. Ele utiliza uma camiseta de manga curta com estampas floridas e está oferecendo um pequeno saco plástico com pílulas. O cenário ao redor mostra vários postes de luz e prédios cortorcidos em direção ao centro.
No topo direito da imagem há o número onde para indicar o capítulo.

Fernando acordou cedo no domingo. Talvez a maioria das pessoas considerasse se levantar às dez horas como tarde, mas para ele era quase como despertar antes do nascer do sol. Um leve aroma de café o capturou antes que botasse os pés no chão.

Foi para a cozinha. O cômodo, e a casa em si, não eram muito grandes, por isso tiveram que usar bem o pouco espaço que possuíam. Uma parede da cozinha era dedicada ao fogão e eletrodomésticos, logo depois havia uma linha de balcões com topo de madeira e metal para a pia. No lado oposto tinha uma mesa suspensa, e sentado em uma cadeira alta, estava Gabriel.

Se serviu do café enquanto refletia a semana que passou. Por algum motivo, esperava que a vida fosse mudar após vencerem o originador do metrô, porém ali estava ele, quase um mês depois, igual ou até pior. Era como se a realidade jogasse na sua cara que não fizera nada demais.

O cansaço com as entregas estava cobrando seu preço: acordou atrasado mais vezes do que de costume. Na quarta-feira sua demora foi de quase uma hora e arriscou-se mais do que o normal na ida até a padaria, além de fazer tudo às pressas neste dia. Não ajudava que o lucro com o estabelecimento diminuía e, por mais que chorasse pedindo descontos ao fornecedor, não conseguiu segurar a subida de preços. Os gastos minuciosamente calculados foram ralo abaixo.

Queria apenas ficar na cama e descansar, só se levantou cedo no domingo por conta de uma mensagem convocatória de Nicolas no meio da semana. Seja lá o que fossem fazer, esperava que não demorasse demais. Teria que ver uma forma de equilibrar as contas da casa mais tarde. Se continuasse nesse ritmo, talvez abandonasse o grupo. Não, não podia fazer isso. Quem cuidaria dos outros na sua ausência?

— Ô! Bom dia. — Gabriel balançou a mão perto do rosto de Fernando.

— Bom dia.

Voltou ao mundo real, trocando um olhar com o namorado, que por sua vez tomava um longo gole de café sem desviar os olhos. Fernando forçou um sorriso, não era assim que queria começar seu suposto dia de descanso.

— Desculpa, eu estava pensando no compromisso de hoje.

— Compromisso?

— Eu te disse.

Ou será que não? A bobeira da manhã ainda não passara, precisava daquele café. Sorveu um longo gole enquanto Gabriel falava:

— Não falou não.

— Talvez, provavelmente, possivelmente, eu tenha esquecido de te contar.

— É? Será? Ou será que contou pro amante e se confundiu?

Fernando estacou. Que papo era aquele de amante? Baixou a xícara de café. Um sorriso surgiu no rosto de Gabriel.

— Te peguei!

Fernando revirou os olhos em um movimento encenado.

— Um antigo colega do trabalho me convidou pra passar na casa dele. — Odiava mentir, mas seria complicado explicar a verdade. Além do mais, seu compromisso não era nenhum tipo de traição e nem faria nada errado.

— Ué? — Gabriel bebericou. — Pessoal da concessionária ainda mantém contato contigo?

— Não, também achei estranho. Mas vou ir mesmo assim, fazer algo diferente, sabe?

— Tá certo, vai ser bom para ti. Tu passa tempo demais na padaria, sei que é teu sonho, mas o ritmo está difícil… — Gabriel deixou a boca aberta por um momento, mas seja lá o que ia dizer, morreu em seus lábios.

Fernando encarou a xícara e tomou mais alguns goles. Sabia onde chegariam se deixasse o namorado continuar. Recorrer à família estava fora de questão, não conseguiria encará-los. Pensou em algo para trocar de assunto e, por sorte, ele acabara de passar por sua garganta mais uma vez.

— O café está diferente, comprou de outra marca?

— É o gosto de novos sabores. — Gabriel se levantou e foi até o armário, puxando um pacote de café fechado por um prendedor. — Comprei lá no mercado público.

— É bom, eu gostei. Foi muito caro?

O namorado encarou-o com uma expressão séria.

— Não me venha com seus papos de murrinha.

— Eu só perguntei…

— Tô sabendo. Só toma aí e fica quieto.

Fernando olhou de volta para a xícara. Apreciou o gesto de Gabriel, era raro que fizessem algo diferente. Mas não deixaria de pesquisar os preços da marca, por curiosidade, é claro.

Pouco mais de uma hora depois, estava na padaria. Havia deixado a mochila de entregas ali no dia anterior. Já dera tudo de si para inventar a mentira do ex-colega de trabalho, seria impossível criar uma justificativa para sair com a mochila junto.

Botou ela nas costas e fechou os olhos. Ir para o farol estava cada vez mais fácil e bastou um segundo para sentir a mudança no ambiente. Chegando lá, viu Nicolas ao seu lado, olhando pela janela.

— Só nós hoje? — perguntou Fernando.

— Sim. — O homem fitou o padeiro. — Eu iria sozinho, mas é bom que mais alguém no grupo saiba disso.

— O que vamos fazer?

— Encontrar uma pessoa, mas antes precisa me prometer sigilo completo da identidade dela. Até mesmo do restante do grupo.

— Espera aí! — Levantou as mãos. — Por que não vai contar para as duas?

— Porque essa pessoa gosta de manter a identidade em segredo.

— Até parece, se for um zé ruela como nós, mesmo com o nome ninguém vai saber quem… Espera! É alguém famoso né?

— Sim.

— Tipo o Brad Pitt?

— Ele aparece na televisão todo dia.

Certo, bem famoso, mas não ao nível de astro de cinema. Fernando assentiu devagar e disse:

— Tudo bem, prometo manter segredo.

— Então vamos.

Nicolas esticou a mão e segurou o pulso do colega. O cenário mudou e foram para o canteiro central de uma avenida. Para a esquerda e direita, apenas a linha de luzes denunciava a passagem de carros e motos nas quatro pistas em cada lado. Após a estrada, prédios tortos se erguiam, encostados uns contra os outros e inclinando-se na direção da avenida. Era como o território seguro em que ficavam, mas distinto também, como se algo faltasse.

O líder soltou Fernando e caminhou pelo canteiro com o chão repleto de grama alta, quase batendo nas canelas. O padeiro seguiu ao lado do companheiro a passos rápidos, quase ultrapassando-o.

— Aqui é como o farol?

— Sim, um território sem dono, sem predadores. Seguro e limitado.

— E por que eles existem? Achei que os predadores criassem o território.

— Essa é uma pergunta para a qual ainda não tenho resposta. — Nicolas ajeitou a gola. — Acredito que primeiro nasce um território, e em seguida ele é dominado por um originador.

— Então o farol pode virar um território de predador a qualquer momento?! E se ficarmos presos nele?

— Por isso estamos aqui, vamos arranjar uma forma de fugir quando quisermos.

— Entendi. — Fernando assentiu. — Até que tu pensa nas coisas.

— Sim.

Com a resposta seca, o padeiro seguiu em silêncio. Conseguia respeitar a atitude quietona de Nicolas, mas bem que ele podia tentar ser mais emotivo.

Caminharam por cerca de dez minutos no território. A todo momento tentou enxergar alguém mais adiante, uma silhueta que fosse, para indicar que estavam perto. Queria descobrir logo quem era a tal pessoa. Em dado momento, a avenida fazia uma curva acentuada para a esquerda e, no meio desta curva, Fernando viu alguém. A princípio parecia uma pessoa comum, mas conforme se aproximaram, a estranheza foi trocada por reconhecimento. Quando Nicolas falou em famoso, imaginou que fosse ser um jornalista, não um ator, mas ali estava Rafael. Um dos destaques da novela das nove.

Com o cabelo loiro volumoso e ondulado, junto a uma franja, uma camiseta branca de manga curta com estampas de flor, bermuda de tactel esverdeada e chinelos de dedo, Rafael parecia mais jovem que na novela. O próprio sorriso que ele deu ao ver os dois diminuía a idade. O único detalhe que parecia fora de lugar era uma flor branca e bonita, presa à orelha direita. Ele levantou os braços e abanou enquanto se aproximava. Nicolas parou de caminhar.

— Nicolas! — Rafael se aproximou. — Há quanto tempo? Não acreditava que estaria vivo. — Olhou para Fernando. — Até arranjou um companheiro. — Uma lágrima escorreu pelo olho direito, Rafael limpou na hora com o indicador. — Tão emocionante.

Além da estranha atitude do ator, estar na presença de alguém famoso fez com que o padeiro se reduzisse a um mero observador. Era incapaz de proferir uma palavra que fosse.

— Ele é Fernando, estamos juntos há pouco tempo, mas já eliminamos um território.

Rafael moveu o olhar para Nicolas.

— O metrô? Cara, aquele lugar era bizarro! Nunca gostei de metrô. — Seu foco se voltou ao outro. — Como você aguenta esse cara? — Apontou para Nicolas. — Eu não aguentei.

Fernando se obrigou a responder. Ora essa, não tinha mais dez anos para ficar todo tímido por aí!

— É só pensar nele como um robô, funciona bem.

— Há! Esse é dos meus. — Rafael alternou sua atenção entre os dois. — Aliás, o que você faz? Tem a ver com sua mochila?

— Rafael, objetividade. — Nicolas se intrometeu. — Conseguiu as pílulas?

— Objetividade. — Mimicou o ator, com uma voz mais fina. — Sempre com esse papinho.

Ele colocou a mão no bolso da bermuda, puxou um plástico com oito cápsulas brancas de dentro e estendeu aos dois. Nicolas fez menção de pegar as pílulas, mas Rafael se moveu rápido, segurou o pulso do outro e disse em um tom de voz baixo:

— Muitas fugas para dois. Têm quantos no grupo? Três? Não, a quantidade não bate. Quatro?

Os dois apenas se encararam por alguns segundos. Então o ator soltou Nicolas e jogou o plástico para ele.

— Lembre-se que, quanto mais gente, maior o risco. — Não havia mais sorriso no rosto do loiro.

— Você cuida das suas coisas que eu cuido das minhas — respondeu o engomadinho, guardando o plástico no bolso.

— E então? — Rafael voltou a sorrir, subindo e baixando as sobrancelhas.

— O território é um bosque. As árvores são todas iguais, é sempre noite e abafado por lá. Vai ver vários pássaros te observando, mas são inofensivos se não estiverem ativos. Não peça ajuda ou isso vai fazer os predadores te caçarem. E cuidado com o urubu.

— Parece bom. Vai servir.

Antes que uma despedida pudesse ocorrer, Nicolas segurou Fernando pelo pulso. Um momento depois estavam de volta ao farol. Foi uma interação estranha, e isso que a barra de normalidade vinha se alterando nos últimos tempos.

— O que foi isso? — perguntou Fernando.

Nicolas não respondeu, apenas o soltou, tirou as pílulas do bolso e as observou.

— Silêncio não vai funcionar comigo, tu sabe.

— É a negociação que fazemos. Rafael conhece o fornecedor e consegue as pílulas de fuga para mim. Só que ele exige a localização de um território em troca.

— Localização? Tu só disse como o lugar é.

— Há duas maneiras de descobrir um território, a primeira é senti-lo quando se forma ou quando alguém for raptado perto de você. A segunda é tendo detalhes sobre ele, facilita a visualização e transporte.

— Entendi… — Fernando coçou o queixo. — Espera, então ele é como nós? Tentando se livrar dos predadores?

— Não. — Nicolas balançou a cabeça em negativa. — Se nós caçamos para eliminar pragas, ele caça por esporte.

Fernando não pode deixar de franzir o cenho.

— Esporte? Mas…

— É a diversão dele.

— Caralho! Como que arriscar a vida numa merda dessas é a diversão de alguém?

— Pessoas podem se divertir com qualquer coisa.

— E aquilo que ele disse no final. Por que é arriscado com mais gente?

— Eu pretendia tocar neste assunto depois, mas tudo bem, está na hora. — Nicolas guardou o plástico no bolso do paletó. — Nosso poder normalmente é concedido por um objeto, nosso instrumento, ou vestígio como Rafael gosta de chamar. Minha corda, sua mochila, a jaqueta de Bárbara. Se um de nós morrer e o instrumento for tomado, o novo dono poderá usar os poderes do antigo.

Nicolas cessou a explicação. Um silêncio repentino tomou o farol enquanto Fernando aguardava uma continuação, mas esta não veio. Resolveu romper o silêncio.

— E por que não contou isso antes? — questionou, segurando os ombros de Nicolas com as duas mãos.

— Como confiar em alguém que possa ter motivações obscuras? Que pode se aproveitar de um momento de fraqueza para roubar seu vestígio? — Os olhos quase reptilianos de Nicolas o encararam. — Não posso ter um grupo desunido que se imploda na primeira dificuldade.

— E para isso tu mantém segredos que deveriam ser compartilhados? Como vamos confiar em ti assim?

— E o que faria com essa informação?

— Eu tomaria… — Fernando se interrompeu. Era exatamente o que Nicolas falara antes, tomaria cuidado com os outros. Uma semente de suspeita seria plantada em sua mente e a flor dela era capaz de impedir a colaboração entre os membros do grupo. — Está bem, eu entendi. — Passou a mão nos cabelos, se ele não gostou de ouvir isso, não queria nem imaginar a reação de Bárbara. — Quando vai contar para os outros?

— No próximo encontro.

— Deixa que eu faço isso.

— Por quê?

— Porque tu explicando é horrível. Temo até de pensar tu dando a notícia da morte de alguém.

Assim que voltou à padaria, Fernando pegou seu celular e pensou em que mensagens mandar, e em como criar um ambiente agradável o suficiente para contar o que precisava. Não precisou refletir muito, a solução estava bem na sua cara.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 10

Desenho monocromático. O desenho apresenta uma perspectiva de cima, mostrando Nicolas sentado na parte de baixo de uma escada dobrável. No topo direito da imagem há um vislumbre de uma corda.
No topo da imagem há o número dez para indicar o capítulo.

Alguns meses antes…

A luz que entrava através das cortinas do escritório diminuía cada vez mais. O dia estava perto do fim após uma tarde inteira em frente ao notebook, digitando frases apenas para interrompê-las por um novo fluxo de pensamentos, então as apagava e recomeçava.

O alarme do celular tocou sinalizando que eram duas e meia da tarde. Fechou o documento de texto sem salvar e desligou o computador. Enquanto se levantava, teve uma percepção que agora lhe parecia tardia: era inútil deixar algo escrito, quem leria?

Saiu pela porta do escritório, chegando na sala de estar, mantida na penumbra através de persianas blecaute bem fechadas e ausente de quaisquer móveis. Nunca foi de encher a residência com decorações, preferindo uma vida frugal. Mesmo assim, nem o sofá onde apagara algumas vezes enquanto assistia seriados e filmes sobreviveu ao impulso repentino que lhe acometeu semanas atrás. Vendeu tudo que não era necessário, ficando apenas com os pertences do escritório, cama e eletrodomésticos da cozinha.

Acendeu a luz da sala e olhou para a viga grossa que atravessava o teto de um lado a outro. Sim, serviria. Foi até um canto da sala onde sua mochila estava atirada e pegou a carteira, confirmou a existência de notas de cinquenta junto dos cartões de crédito e colocou-a no bolso. Saiu do apartamento.

Voltou um tempo depois, carregando uma escada dobrável, uma corda grossa e a furadeira mais potente que a ferragem oferecia. Abriu a escada embaixo da viga e ligou a furadeira na tomada. Lembrou-se do período de silêncio no prédio, com certeza receberia uma reclamação dos vizinhos e uma advertência do síndico, talvez uma multa se ele estivesse de mau humor. Deu de ombros e começou a trabalhar.

Não levou muito tempo para que se cansasse. Mesmo com a furadeira potente era necessário esforço para atravessar o concreto. O sedentarismo que existia desde o início da vida adulta fazia seu corpo exaurir-se mais rápido do que deveria e não ajudava que passou a viver de hambúrguer, cachorro-quente e pizza quando se demitiu. Depois de muitas pausas e goles de água, conseguiu, enfim, abrir um buraco de um lado a outro.

Passou a corda pela abertura e deu um nó na ponta. Nicolas bem sabia que não era o método menos indolor, no entanto era um dos poucos que estava disposto a fazer. Sentou-se no degrau da escada e ficou olhando para a porta de saída do apartamento. Sua mente era uma revoada de pensamentos, indo de recordações eventuais até conversas que nunca teve. Deixou-se levar e fechou os olhos.

O burburinho do início da noite chegou até ele. Motos acelerando, buzinas, um ônibus freando violentamente na rua. Podia apostar que dentro do veículo, muitos passageiros estariam cansados, sustentando um olhar quase catatônico em seu rosto na volta para o lar, alguns teriam encontrado um conhecido na viagem e estariam, com sorte, sentados lado a lado, deixando as conversas do dia a dia fluírem sem rumo e sem lógica, uma distração como qualquer outra. Se tivessem azar, um pequeno grupo decidiria que a viagem era o momento ideal para compartilhar seu gosto musical em volumes audíveis além das conversas inúteis e mentes isoladas. Conhecia bem a rotina e os padrões, agora abandonados e deixados de lado, insignificantes e desagradáveis.

Foi mais longe, chegando na fronteira entre sonho e realidade. Estava em um ônibus semileito, viajando para Nova Petrópolis. A cabeça apoiada na janela via a paisagem transcorrer. Árvores e casas na beira da estrada, vacas e ovelhas, postes de luz e placas de trânsito. Passavam cada vez mais rápido, acelerando até que fossem apenas borrões. Sol e lua subiam e desciam dos céus a cada segundo. Uma mão tocou em seu ombro e Nicolas tirou os olhos da rua. Ao seu lado, um rosto esquecido, borrado e morto lhe observava.

— Nos veremos em breve.

Seu celular bipou. Abriu os olhos e o checou. A tela dizia apenas que ele ganhou um cupom na compra do próximo jantar. Cinco reais de desconto. Levantou-se, não haveria nova refeição.

Subiu todos os degraus, passou a cabeça pela corda e empurrou a escada com o pé. O pescoço não quebrou. Nicolas resistiu por um centésimo de segundo que pareceu infinito, mas acabou levando as mãos até a corda, tentando se soltar. O último esforço de um corpo com mente derrotada. Não conseguiu, tinha pesquisado durante dias a melhor forma de fazer o nó. Nada de voltar atrás. No desespero, arranhou a corda e o pescoço. As unhas arrebentaram e sangraram, dificultando ainda mais a inútil tarefa de escape. Tentou puxar ar. Tentou viver.

Falhou.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 9

Desenho monocromático. O desenho mostra Nicolas, sentado em uma cadeira de escritório e com uma corda com nó de forca pendendo de seu pescoço. Ele está observando uma pequena pílula entre seus dedos. Ao seu lado, está uma escrivaninha com notebook em cima.
No topo da imagem há o número nove para indicar o capítulo.

Surgiram no interior do farol. Nicolas não perdeu tempo e deitou Dominique no chão, trocando um breve olhar com Fernando. O peito da idosa subia e descia com dificuldade, a respiração era entrecortada e o braço esquerdo estava mole e dobrado em um ângulo estranho. De tudo isso, foi a perna que mais chamou a atenção de Fernando. Na canela, próximo ao joelho, a pele se abria em uma vermelhidão de sangue e músculos, e no meio disso tudo despontava algo reto e quebrado com tons fracos de vermelho misturados ao branco. O padeiro tentou lembrar-se qual era o nome do osso na canela, mas logo chacoalhou a cabeça e abriu sua mochila de entregas. Não era médico ou cirurgião para decorar detalhes de anatomia, sua cura era diferente, e seria dolorosa para ele.

Pegou um dos alimentos e aproximou-se de Dominique, ainda desacordada. Deu tapinhas no rosto dela enquanto gritava por seu nome. Tinha uma técnica para fazer pessoas engolirem coisas enquanto inconscientes, não tinha? Por que nunca pensou em fazer algo tão básico quanto aprender primeiros socorros antes?!

— Temos que levar ela para um hospital! Vai se quebrar todo se curar isso! — disse Bárbara.

— Fernando é mais eficiente que qualquer tratamento.

— Eu vou quebrar teu braço para tu ver como dói. Quero ver recusar hospital depois disso. — Bárbara se aproximou de Nicolas, ficando com o rosto a centímetros dele.

— Fiquem quietos! — gritou Fernando. — Eu faço isso, vai dar certo.

Toda a gritaria e desespero serviu para acordar Dominique, que abriu os olhos devagar e emitiu um gemido. Fernando aproximou o pão de sua boca.

— Por favor, coma. Vai ficar tudo bem.

Ela obedeceu sem falar nada, a dor deixando de lado qualquer cerimônia ou hesitação enquanto mordia o alimento. Fernando temeu que não fosse funcionar, pois até a última mordida, nada acontecera. Foi só depois de alguns segundos que começou o processo de cura. A dor veio com um estalo, começou nas costelas já quebradas, e então se espalhou pelo restante do corpo. Ele sabia que ia ficar pior e sua consciência não resistiu a fratura no braço e o quebrar da perna.

Quando voltou ao mundo desperto, se é que podia chamar aquele lugar por esse nome, Dominique e Bárbara estavam ao redor dele. A idosa estava recuperada, com as pernas da calça manchadas de sangue, mas inteira. Bárbara não tinha nenhuma mancha de ferrugem no corpo e as rachaduras desapareceram. Fernando agradeceu por isso, não queria passar por outra sessão de dor tão cedo. Seu corpo já estava quase bom, tudo ainda doía, porém não parecia mais que fora atropelado por um ônibus da Soul.

Quase uma hora depois, sentiu que conseguiria se levantar e voltar para a padaria. As mulheres lhe fizeram companhia durante o processo, conversando sobre amenidades do dia a dia.

— Acho que devemos voltar — disse Fernando, levantando enquanto apoiava a mão na parede.

— É, deve estar tarde. — disse Bárbara. — Vou acordar podre amanhã.

— Eu vou acordar bem tranquila. — Dominique abriu um sorriso. — Nada como os benefícios da aposentadoria.

— Nem me fala! — Bárbara riu. — Já, já eu chego lá.

— Esse teu “já, já” vai levar muitos anos — provocou Fernando.

Bárbara olhou na direção de Nicolas. O líder do grupo estava do outro lado da sala, olhava para o horizonte há algum tempo. Ela suspirou, foi até ele e trocou algumas palavras de despedida. Em seguida voltou até Fernando e se preparou para dar um abraço.

— Não, não as costelas! — avisou Fernando.

— Verdade, desculpa. — Ela parou com os braços no ar, os levou até o lado do corpo e então lhe deu um beijo na bochecha. — Obrigada pelo apoio lá.

— Só fiz o que achei certo — respondeu Fernando.

— Nem todo mundo faz o certo. Enfim, até mais!

E com isso, Bárbara desapareceu.

— Você ajudou bastante. Até peço desculpas, se eu fosse mais cuidadosa não teria quebrado nada — disse Dominique, colocando levemente a mão sobre o ombro de Fernando.

— Que isso, estou aqui para cuidar de todo mundo. E tu também ajudou, todos ajudaram.

A idosa sorriu e lhe deu um beijo no rosto.

— Tchau.

Ela se aproximou de Nicolas, o abraçou e se despediu com um beijo no rosto, desaparecendo em seguida.

O líder olhou em sua direção e se avizinhou.

— Você deveria voltar e descansar — disse ele.

— Eu vou, só estava esperando para me recuperar. — Fernando moveu os ombros, a dor tinha aliviado um pouco mais. Deixou-se sorrir. — Fora daqui eu não conserto ossos quebrados.

— Entendo.

— E tu, não vai voltar? — perguntou Fernando.

— Vou.

— Tá… — Fernando olhou para baixo, então de volta para o rosto de Nicolas. — Eu sei que disse algumas coisas pesadas para ti, e saiba que não me arrependo! Mas vencemos um originador hoje e destruímos um território, as pessoas vão ficar mais seguras. Obrigado por isso.

— Eu que deveria agradecer por acreditarem em mim. Você, Bárbara e Dominique são ótimos. — Nicolas esticou a mão.

Fernando estranhou o gesto, mas a apertou. Se contentaria com aquele elogio vindo do homem que demonstrava tanta emoção quanto uma pedra.

— Iremos nos reunir de novo em breve? — perguntou Fernando.

— Vou procurar outro território, mas não se preocupe, te mantenho informado.

Pensou na sua padaria e nas tarefas que faria quando chegasse lá. Tinha que terminar os pães que ficaram descansando. Ia ser uma noite longa e dolorida, mas daria conta. Sentia-se com mais energia do que nunca. Fechou os olhos e quando os abriu, voltou ao trabalho.

***

Nicolas voltou para sua casa, em específico para o escritório. O cômodo estava bem cuidado como sempre, deixar lixos no local de trabalho era uma das inúmeras maneiras de criar um ambiente propício ao fracasso. Sentou-se em frente ao notebook e o ligou. Nos poucos segundos em que aguardava, tirou do bolso uma pílula branca e a apertou de leve entre polegar e indicador. Logo deixou a cápsula de lado e navegou pelas pastas sobre os predadores. Achou o diretório com o título de “Território do Metrô” e o abriu. Diversos documentos ali detalhavam o que viu no território, cenário, paisagem, habitantes e predadores.

Escreveu um relatório detalhando sobre a visita final ao lugar. Obtiveram sucesso em destruir o originador, mas o que realmente aprendeu? Não foi muita coisa, mas, pelo menos, descobriu mais sobre seus novos ajudantes. Eram capazes, ainda que pouco eficientes. Precisaram apenas de um empurrão com a segunda habilidade de seu vestígio para seguirem em frente, com exceção de Bárbara. Ela devia ter alguma imunidade a esse tipo de coisa. Só esperava não ter que usar isso sempre.

Anotou a nova descoberta sobre os territórios serem capazes de modificar-se para impedir a fuga deles e também para atacar. Foi uma boa estratégia reunir um grupo de habilidades variadas, ainda que tenha encontrado eles por sorte, caso contrário teriam morrido em alguma parte do metrô. Se comparado com o território da rua infinita, em que o terreno era mais aberto e a fuga mais fácil, este foi complicado. O originador, no entanto, acabou sendo parecido. No primeiro, precisou apenas encontrar a criança certa, a criança de verdade, para enforcar. No metrô, a situação foi a mesma, só passou por uma espécie de guardião antes. Talvez os originadores fossem limitados em suas capacidades. Ou talvez ainda estejam evoluindo, conforme aquela criatura mencionou.

O relógio no computador sinalizou oito horas da manhã. Suspirou e deu uma olhada nas notícias mais recentes. Encontrou apenas uma, em um site de notícias da capital, sobre pessoas consideradas desaparecidas ressurgindo. Certamente algum familiar do jornalista fora raptado, caso contrário só veria algo do tipo no meio do dia e olhe lá. Fechou o notebook e se preparou para dormir.

Procuraria novos territórios quando acordasse. E talvez trocasse uma ideia com um antigo parceiro para disponibilizar uma fuga mais confiável aos outros. Fernando não os deixaria se arriscar tanto se não houvesse uma forma fácil de fugir.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 8

Desenho monocromático. O desenho mostra um ser humanoide e grande, com pele branca e refletora e seu rosto é apenas um buraco. Ele está sentado de forma relaxada em um trono feito de pequenas pessoas e em sua mão direita está segurando uma dessas pessoas.
No topo esquerdo da imagem há o número oito para indicar o capítulo.

Fernando sentiu um frio que percorria o interior dos ossos se manifestando como músculos retesados. Estavam preparados? Realmente preparados? Nicolas não parecia preocupado, mas poderia confiar nele? Parte de si acreditava, o homem os protegera e os salvara, não os enganaria em um momento tão crucial. Então, mesmo sabendo disso, por que as mãos tremiam? E mesmo com suas mãos tremendo, por que aceitou continuar avançando?

Antes que pudesse chegar a uma resposta, Bárbara abriu a porta à frente do grupo. Quando deu por conta já estavam na sala seguinte. Seu olhar foi atraído para o predador sentado em uma espécie de cadeira no centro. Não, cadeira não, era um trono enferrujado. O monstro era enorme. Mesmo sentado como um rei preguiçoso, quase alcançava o teto. Apesar da forma humanoide, lhe faltavam muitas características humanas. A pele era branca e reflexiva, semelhante à porcelana, não possuía pelos ou roupas no corpo, seu rosto era apenas um buraco na cabeça, revelando um interior vazio.

Seu foco inteiro estava naquela face, naquele nada. Foi só quando Nicolas passou a mão em frente aos seus olhos que notou o quanto estava absorto. O fascínio foi trocado por nojo, repulsa pura manifestando-se em uma contorção no rosto. Procurando qualquer outra fonte de distração, olhou para o resto da sala onde estavam.

Era circular e possuía pé-direito de quase dez metros, suas paredes de metal eram limpas, sem engrenagens ou ferrugem. Um vidro que cobria a parte superior de uma parede mostrava o caminho à frente e os trilhos. Um painel cheio de botões, monitores e gráficos ficava logo abaixo da janela. Um homem magro e franzino, sem as manchas de ferrugem, observava o painel, apertava botões e corria de um lado a outro.

— Cuidado! — gritou Bárbara.

O grupo se separou e tudo que Fernando viu foi um borrão aproximando-se em alta velocidade, atingindo-o no tronco e lançando seu corpo para trás. A sala rodopiou e parou de lado. Ele tentou reunir ar para pedir ajuda, mas o ato de inspirar doeu-lhe o tórax. Conteve um berro a contragosto, deixando a dor escapar em forma de lágrimas. Levou a mão ao peito e sentiu uma nova pontada de dor. Um peso na perna o fez temer que ela estivesse em situação pior, mas encontrou apenas uma pessoa manchada jogada em seus pés. Apoiou as mãos no chão, instigando mais agulhadas nas costelas e chutou o enferrujado para longe, que não ofereceu resistência, ficou apenas ali, atirado no chão como um objeto descartado.

Olhou na direção do originador e viu que ele endireitara a postura, a mão direita segurando fortemente um dos braços do trono, como se tentasse arrancá-lo e então algo se soltou: outro indivíduo manchado. Não era um assento feito de metal enferrujado, e sim de pessoas comprimidas, dobradas, quebradas e deformadas. Tudo conforme a vontade de seu senhor para que lhe servissem como móvel.

O rosto do predador virou-se em sua direção. Fernando continuava sendo o alvo. Não podia deixar isso acontecer. Quem cuidaria dos ferimentos do grupo? Buscou se erguer, a dor no peito impedindo que fizesse movimentos bruscos demais. Uma sombra se pôs à sua frente e cordas se materializaram, tentando restringir os movimentos do homem de porcelana, mas arrebentaram tão logo ele continuou o lançamento. O projétil humanoide atingiu Bárbara como se batesse contra uma viga de metal. Chocou-se e girou para o lado, caindo a alguns metros dela. Nas costas da jaqueta da mulher, duas labaredas surgiram, pequenas e inofensivas.

O inimigo preparou-se para arrancar mais uma pessoa do trono. Dominique disparou rumo ao originador e deu um salto impossível na direção da criatura que tinha mais de cinco vezes o seu tamanho. Ela chegou perto da cabeça, mas o predador reagiu e, com o dorso da mão, em um tapa quase casual, acertou a senhora com força arrebatadora o suficiente para jogá-la na parede e fazer o corpo quicar contra o metal. Não houve movimento quando ela caiu no chão. Fernando venceu a dor e gritou seu nome. Sem resposta. Onde estava Nicolas quando precisavam?

Como se respondesse a seus pensamentos, o líder se aproximou pela lateral.

— Você está bem? — perguntou ele, com voz calma.

— Claro que não! Temos que sair daqui, não estamos preparados!

— Está vendo alguma saída?

Fernando correu a sala com os olhos, zero portas. Bárbara foi atingida mais uma vez e as labaredas cresceram.

— Use sua corda! Enforca ele!

Nicolas olhou na direção do originador. Fernando viu a corda se constringindo contra o pescoço do homem, e uma réplica surgiu no alvo, mas sem efeito algum.

— Já tentei. — Ele aliviou o aperto. — Não funciona.

— Tu… Nós estamos condenados.

— Não acabou ainda.

— O que vai…

Nicolas levou um dedo aos lábios. Seus olhos percorriam a sala como se fosse uma máquina. Foi um momento que se estendeu por eras. Bárbara foi atingida repetidas vezes, cada lançamento parecendo mais forte que o anterior. Entre um golpe e outro, ela fitou-os com olhos marejados e o rosto tomado pela ferrugem.

— Aguente mais um pouco, estamos quase lá! — Fernando mentiu a contragosto.

A mulher assentiu e voltou os olhos para frente. Os de Nicolas pararam de vasculhar a sala e focaram-se em Fernando.

— Tem um padrão, o metrô inteiro foi montado para ser sustentado pelas pessoas com manchas. O próprio originador as usa para nos atacar, é dependente dos outros — disse ele, a voz saindo mais rápido que o normal. — Precisamos acabar com esse vínculo.

Fernando olhou para o painel que vira antes, onde se meteu aquele homem? Uma parte dos controles estava oculta pelo originador. Apontou na direção do vidro.

— Tem outra pessoa nessa sala, deve ser uma espécie de maquinista.

— Eu vou até lá. — Nicolas assentiu.

— Tu não vai ficar bem se for atingido por uma daquelas coisas…

— Não serei. Apoie Bárbara, vai ficar mais difícil para ela.

Fernando viu a corda se apertando forte no pescoço de Nicolas e sua esclera tornou-se vermelha de sangue. O originador inclinou-se para frente no trono e arrancou pessoas com as duas mãos, lançando-as em Bárbara na sequência. Tirou mais duas e jogou novamente, e mais uma vez. Estava mais rápido, mais focado, mais obcecado. Nicolas aproveitou o momento para ir correndo na direção do painel.

— Mais um pouco! Nicolas descobriu como derrubar ele! — gritou Fernando.

Bárbara assentiu, as asas nas costas da jaqueta pulsando em um vermelho intenso. Os ataques do originador continuaram focados nela, que não se movia um passo e deixava as rachaduras espalharem-se pelo seu corpo como nunca. Fernando admirou a força de vontade da companheira.

O monstro estava prestes a fazer mais um lançamento quando pareceu congelar, o frio que tomava Fernando desde que entraram sumiu. A pele de porcelana encheu-se de rachaduras e pedaços caíram pouco a pouco em uma chuva de cacos. O originador passou de um rei no seu trono a um déspota em decadência. Atrás de tudo isso, Fernando viu o homem franzino sendo enforcado por Nicolas. Mesmo suspenso no ar, esticava suas mãos na direção do painel e gritava.

— Não! Não! O metrô não pode parar, tem que continuar! Ele pediu para continuar! Devo continuar!

Ele se debatia, arranhava o próprio pescoço, tentava tirar a corda. Nada do que fazia tinha efeito algum. Quando o homem parou de se mexer, uma pressão incômoda deixou o peito de Fernando, e soube que poderia fugir do território. Nicolas olhou na direção do grupo e gritou:

— O farol! Pensem no farol.

A sala inteira rachou-se em seguida e os olhos do padeiro buscaram a companheira caída.

— Dominique! — gritou ele.

Não houve resposta dela, mas Nicolas tomou ação e correu até a idosa, tomando-a nos braços. Um tremor percorreu a sala, desequilibrando Bárbara e trazendo uma sensação ruim para Fernando. Obedeceu a Nicolas e pensou no farol.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 7

Desenho em monocromático. O desenho mostra uma mão em frente a um painel de vidro transparente. Do outro lado estão dezenas de engrenagens dos mais diferentes tamanhos, algumas tão pequenas quanto uma mão e outras tão grandes quanto o tronco de uma pessoa. Ao lado do painel estão diversas engrenagens descartadas no chão.
No topo da imagem há o número sete para indicar o capítulo.

— Corram! — gritou Nicolas.

Obedeceram. Bárbara viu pelo canto do olho a ferrugem avançando junto com eles, espalhando-se pelo vagão como um vírus. Mantiveram-se à frente da infecção e das criaturas durante preciosos segundos, até acreditou que conseguiriam escapar, porém a ferrugem ganhou velocidade, preenchendo o local como a água de um tsunami.

Duas fendas abriram-se em paredes opostas à frente do grupo. Dominique acelerou e acertou a criatura que saía da fenda na esquerda com uma ombrada, dobrando o corpo dela em um ângulo que espinha alguma era capaz de suportar. No lado direito, uma corda surgiu e puxou o enferrujado para cima, limpando mais uma vez o caminho deles. Esse, porém, foi só o começo.

Conforme avançavam, mais e mais aberturas apareciam no vagão e, por mais rápida que fosse a reação de Dominique, eram muitas para uma só pessoa. Nicolas também tinha seu limite e a cada enforcado ele titubeava. Para piorar, as criaturas se enraiveceram, atacando ao mesmo tempo em que saíam das fendas. Apareceram criaturas cujo braço se deformava em um estranho chicote de carne, com ossos despontando como espinhos. Em outros, o antebraço era apenas um osso fino curvado, lembrando uma espécie de espada.

A situação se agravou quando as fissuras se abriram ao mesmo tempo à frente e ao lado do grupo. Na primeira vez que isso ocorreu, um enferrujado pegou Bárbara de surpresa e acertou seu rosto com unhas que pareciam garras. O golpe deslizou pela pele como se fosse feita de metal, mas a dor veio tão grande quanto poderia ser. Desacelerou por apenas um momento, mas foi o suficiente para que caíssem nela como abutres atrás de carniça.

Mãos agarraram seu tornozelo, chicotes se enrolaram em seus braços, enferrujados surgiram pelo lado para arranhar, tentando puxar seus membros até arrancá-los, e mais um bando deles caiu de uma fenda no teto. Ela tentou dar um passo em frente, mas o peso de tudo aquilo a fez desabar. Sentiu a infecção espalhando-se no corpo, queimando tanto quanto os ataques que recebia. Não conseguia nem ver Fernando e Nicolas, que já deviam estar longe, correndo por suas vidas. Rangeu os dentes e gritou como um animal encurralado que não desistiria de lutar. A visão tornou-se um borrão vermelho enquanto apoiava as mãos no chão metálico e forçava o corpo a se levantar. Mesmo com todo aquele peso e a agressão, ficou de joelhos e logo estava se erguendo. Sairia dali, não importava que estivesse sozinha lutando contra uma multidão, nunca se entregaria.

— Aguente mais um pouco — gritou Dominique.

O peso em si diminuiu e o caminho foi limpo aos poucos. A dor ainda estava lá, mas era apenas um eco do sofrimento que passou segundos atrás. A vermelhidão diminuiu e conseguiu visualizar os arredores. Um enxame de corpos jazia pendurado no teto, as pernas balançando em um ritmo lento, todos desaparecendo aos poucos. Encontrou Dominique à sua frente, oferecendo uma mão de apoio. Logo atrás dela estava Fernando mantendo Nicolas em pé. O insensível líder estava com os olhos injetados e aliviava o aperto no pescoço. Uma fenda se abriu ao lado de Dominique e uma corda imediatamente armou-se contra a criatura, arrastando-a para longe da idosa.

Nicolas levantou uma mão com três dedos erguidos, baixando um deles após um momento. Baixou o segundo e Bárbara se preparou para correr, notando que sua pele estava repleta de rachaduras vermelhas e manchas de ferrugem. Quando baixou o último, ela disparou junto com Dominique. Nicolas vacilou por um momento assim que Fernando o soltou, mas logo estava acompanhando o ritmo do restante deles. Precisavam achar uma saída logo.

Atravessaram três vagões na correria desesperada até desembocarem em um que continha as portas de desembarque. Bárbara não precisou de ordem alguma de Nicolas, fugiria por aquela saída nem que todos discordassem. Conforme o grupo avançava, um rangido metálico ecoou pelo metrô inteiro. O chão oscilou e a parede da esquerda, onde estava sua salvação, dobrou-se. Metal e vidro se contorceram enquanto o lado esquerdo do vagão era amassado por forças invisíveis. A rota de fuga desapareceu diante dos olhos de todos em menos de um segundo e tiveram que manter-se abaixados por conta da diferença de altura entre um lado e outro do carro.

— Temos que continuar! — gritou Nicolas.

O grupo se moveu, mas Bárbara parou na frente de onde estava a porta, agora inutilizável. Deveria ser a saída deles, a fuga para um lugar seguro. Por quantos vagões mais teriam que correr? Quando cairiam por um vacilo qualquer e seriam dizimados? Seu corpo moveu-se antes que o raciocínio se completasse e Bárbara acertou a parede distorcida com o ombro. Uma dor aguda percorreu o corpo conforme ela atingia o metal. Recuou três passos e uma mão segurou seu cotovelo.

— O que está fazendo? — disse Fernando.

Ela respirou fundo. Um dos enferrujados surgiu próximo deles e foi mandado longe por um chute de Dominique.

— Precisamos fugir! — disse Bárbara. — Essa é nossa saída.

Desvencilhou-se do homem e avançou novamente contra a lateral do vagão. Seu ombro ardeu e ela viu rachaduras surgindo próximas ao pescoço. Não queria nem saber como estava por baixo da jaqueta. Abriria aquela porcaria nem que destruísse seus ossos no processo.

Ela se atirou contra a parede de novo e de novo. Ninguém mais tentou pará-la, pois era isso ou lidar com as criaturas. A dor vinha em ondas cada vez mais intensas e a expressão dar murro em ponta de faca pareceu aplicar-se perfeitamente à situação. Nicolas e Dominique mantiveram o terreno livre apesar da quantidade cada vez maior de inimigos. Eventualmente Bárbara parou de se preocupar com eles, parou de sentir dor e parou de contar quantas vezes já tinha tentado. Ficou sem forças, seu corpo tão fragmentado que parecia capaz de desfazer-se a qualquer momento, e mesmo assim tentou uma última vez. Sentiu o coração bater mais forte, deu um berro e atirou-se contra o metal. Nicolas gritou algo. Bárbara sentiu como se pudesse destruir tudo à sua volta, reduzir tudo a menos que cinzas, liberar todos os sentimentos que rondavam seu coração. Se fizesse isso, no entanto, não sabia o que aconteceria a si. Se conteve apenas o suficiente para deixar vazar somente um pouco de tudo que habitava sua alma, o ombro atingiu a parede, sua raiva vazou e estourou.

Quando a visão voltou, e nem percebeu antes que a perdera, metade do vagão estava arruinado. Bárbara estava em uma ilha de metal no meio da completa escuridão que havia fora do metrô. As rachaduras na pele mudaram do carmesim para um vermelho esbranquiçado e seus braços e pernas tornaram-se pesados demais. Olhou para onde antes estavam a parede e porta, vendo somente o negrume do nada. Todo o esforço, toda a dor, todo o tempo foi em vão: a saída que criou não os levaria de volta para a segurança, pelo contrário, olhar para ela causava arrepios. Atrás de si a visão era a mesma, o vagão estava dividido em dois. As fendas pararam de surgir e as criaturas não ousavam chegar perto do buraco.

À sua esquerda, depois de muitos metros de nada, estava o restante do grupo. Nicolas e Dominique trocaram breves palavras, e então a senhora tomou distância, correu para o abismo e pulou. Não foi o mais gracioso ou elegante dos saltos, mas a permitiu aterrissar na ilha de metal junto com Bárbara. De perto era possível notar como a ferrugem tomava quase metade do corpo da idosa.

— Está tudo bem? Não está doendo? — perguntou Bárbara.

— Menina, você brilhou como uma fogueira e então explodiu. Essa pergunta é minha. — E, antes que Bárbara pudesse falar algo, continuou:

— Nicolas disse que precisamos nos apressar, sem muito tempo para descanso.

— Claro que disse — falou Bárbara, com um pouco de irritação.

— Não fique braba, ele está tentando nos manter vivos. — Dominique sorriu. — Agora se segure que vamos saltar.

A idosa tomou-a nos braços e a ergueu. Sem espaço para tomar impulso, flexionou os joelhos e pulou. Foi um momento no ar em que Bárbara agarrou-se ao pescoço de sua carregadora. Aterrissaram na borda do chão e Dominique quase perdeu o equilíbrio, mas Fernando reagiu rápido o suficiente para segurar as duas e puxá-las até a segurança.

— Desculpe, quase que nos fomos dessa vez — disse a idosa, colocando Bárbara no chão.

— Eu que me desculpo, perdemos tempo com minha teimosia. — Bárbara suspirou.

Fernando balançou negativamente a cabeça e disse:

— Não se preocupe com isso, o importante é que estamos vivos.

Dito isso, ele buscou mais pães na mochila e entregou para as duas. Fernando tentou disfarçar o incômodo enquanto comiam, mas era possível ver a agonia causada a cada mordida que davam, além de verem o corpo do rapaz ficando com as manchas laranjas e pequenas fendas pelo corpo.

— Talvez não tenha sido tempo perdido — falou Nicolas, aproximando-se dos três. — Eles pararam de nos atacar.

— Tem razão, por quê? — perguntou Fernando.

Nicolas coçou o queixo.

— Devem estar gastando a energia reparando o estrago. Manter a máquina operando é uma preocupação das criaturas, e acho que do predador original também. É melhor recuperar-se do que continuar atrás dos invasores.

— Não parece muito inteligente.

— Não mesmo, mas predadores são criaturas de instinto e emoção, não de raciocínio e lógica.

Bárbara respirou fundo, ainda estava cansada, mas queria sair logo dali. Trocou um olhar com os homens, então disse:

— E ficar aqui discutindo teoria dos predadores é menos inteligente ainda quando estamos de cara com o perigo. Que tal seguirmos?

Retomaram o avanço, desta vez diminuindo o ritmo para um trote. Ninguém aguentaria tanto tempo correndo. Passaram por quase vinte vagões, todos sem sinal algum de saída. Os primeiros tinham a mesma aparência, isso até chegarem em um diferente dos demais. Era mais largo, os móveis estavam ausentes, a própria estrutura de um metrô tinha se perdido. As superfícies de metal foram trocadas por um vidro transparente, por onde era possível ver diversas engrenagens girando. Algumas eram pequenas, não maior do que um dedo, enquanto outras alcançavam o tamanho de uma pessoa. Elas estavam por tudo, e as criaturas manchadas também.

Bárbara tensionou os músculos e parou, observando os inimigos. Estavam em grupos de quatro ou cinco, e ficavam próximos às paredes, fitando o maquinário. Próximo de cada conjunto de criaturas havia um amontoado de outras engrenagens empilhadas no chão.

— Vamos devagar e em silêncio — sussurrou Nicolas.

Avançaram a passos lentos. Os enferrujados nem olharam para eles. Durante o trajeto viram que o vidro da parede e do chão tinha puxadores e dobradiças. Quando uma das engrenagens saiu do lugar e o funcionamento do maquinário foi afetado, um grupo de criaturas abriu a seção de vidro e substituiu a engrenagem por outra de aparência mais nova e do mesmo tamanho. A engrenagem defeituosa foi para a pilha que ficava próxima ao grupo. No curto tempo que levaram para atravessar o vagão, viram mais peças serem trocadas seguindo o mesmo processo.

Depois de vinte ou trinta vagões, não se importava tanto a ponto de contar, chegaram em um carro curto, com poucos assentos, todos eles estofados e bonitos. No final, havia quatro mulheres em pé ao redor da porta, formando um corredor humano, vestidas com saltos altos, saias apertadas, cabelos lisos e rosto cheio de maquiagem. Depois delas havia uma porta que em nada combinava com a atmosfera. Era feita de madeira clara, com uma maçaneta cromada e uma placa de metal ao nível dos olhos.

— Continuemos — disse Nicolas.

Chegaram perto das mulheres, paradas como estátuas. Agora que estava mais perto, Bárbara notou que, apesar do cabelo e alturas diferentes, todas tinham o mesmo rosto. Deu um passo hesitante para o meio delas, esperando algo terrível, mas nada aconteceu. Deu mais outro e nada, o grupo seguiu com ela e chegaram até a porta. A placa continha algo escrito, mas fora riscado e apagado, tornando-a ilegível.

Sendo a linha de frente do grupo, Bárbara botou a mão na maçaneta e sentiu a garganta entalar e a força sumir. Seja lá o que tinha do outro lado, não deveria ver, não queria ver. Recuou e olhou para Nicolas.

— Não acho uma boa ideia — disse ela.

O rosto do homem estava impassivo e calmo quando respondeu:

— O predador original deve estar ali, não é uma boa ideia, mas é o precisamos fazer.

— Precisamos mesmo? — perguntou Fernando. — Não concordamos em fugir se ficasse perigoso demais?

— Se o deixarmos vivo, mais vítimas surgirão. — Foi Dominique quem respondeu. — É nosso dever.

— Além do mais — Nicolas olhou ao redor —, não vimos nenhuma outra saída até aqui.

O coração de Bárbara acelerou. Não queria abrir a porta, mas então o que fora fazer ali? Dar um passeio pelo metrô amaldiçoado é que não foi. Não sabia bem, queria apenas fugir da rotina, de seu tormento. Foi uma decisão idiota e tomada por impulso, igual a tantas outras que fez ao longo da vida. Mesmo assim, naquele momento, podia fazer algo diferente do que só aceitar as coisas calada, podia lutar contra algo terrível, talvez até vencer. Virou-se, girou a maçaneta e abriu a porta.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 6

Desenho em preto e branco. Ele mostra um ser humanoide agachado com duas mãos no chão e olhando para o espectador. Ele não possui roupa ou órgãos sexuais, é magro e a parte de sua cabeça acima do nariz não existe. Ao redor da criatura está um vagão de metrô vazio, enferrujado e desgastado pelo tempo.
No topo da imagem há o número seis para indicar o capítulo.

Menos de um dia antes, Fernando fora colocado em um grupo no Whats chamado Predadores, onde também estavam Nicolas e Bárbara. Uma conversa rápida aconteceu para marcarem um encontro e, conforme o combinado, o padeiro foi lá no horário apenas para encontrar o farol vazio. Minutos depois, Bárbara chegou.

Então lá estava ele, procurando uma distração ao observar os arredores enquanto aguardava a chegada de Nicolas. Alguns metros ao seu lado, Bárbara fazia o mesmo. Não falaram nada além da costumeira troca de cumprimentos, e isso o deixara nervoso. Ela parecia uma daquelas pessoas esquentadinhas, sempre de cara fechada e mal humor. Sabia muito bem que o certo a se fazer era deixá-las quietas.

Com o canto do olho, viu a mulher tirar o celular do bolso pela terceira vez no último minuto. Não a culpou, queria fazer o mesmo para se distrair, mas a falta de sinal o impedia. Nem ao menos conseguiam acompanhar os minutos passando, visto que entrar em um território era o suficiente para embaralhar as horas, jogando o relógio do aparelho para frente e para trás constantemente.

— Para alguém metido a certinho, ele tá atrasado — disse Bárbara, bufando um pouco em seguida. — Fiz questão de aparecer no horário marcado e nem sinal do cara. — Ela olhou para Fernando. — Há quanto tempo tu tá com ele? Isso sempre acontece?

— Normalmente Nicolas chega antes, e “estar com ele” é um termo forte. — Fernando se virou de costas para o vidro e olhou na direção da mulher. — Tenho algumas semanas a mais que tu nisso tudo, mas só fiz algo relativo aos predadores em uns dois ou três dias.

— Quer dizer que o único que sabe o que tá fazendo aqui é ele? — Bárbara levantou uma sobrancelha.

— Isso mesmo.

— Que nhaca, hein? — Ela checou o celular mais uma vez. — Só espero que ele não demore muito, tenho que trabalhar amanhã.

— Teve problema com o… dia fora?

Bárbara levantou os olhos para ele por um momento antes de baixá-los ao celular mais uma vez.

— Nem quero falar sobre isso.

Deixou a conversa morrer por ali, sabia muito bem quando falar e quando ficar quieto. Virou-se para a janela e voltou a encarar o horizonte. Ficou um tempo visualizando o nada enquanto pensava em como ajustar seus dias a essas idas aos territórios. Como Nicolas se organizava?

— Como foi contigo? — perguntou Bárbara com a voz mansa. — Como acabou em um território?

— Não sei explicar. — O homem botou a mão no peito, sentindo um desconforto na pele. — Sei que fui assaltado, levaram minha moto e tomei um tiro.

— Então tu meio que… morreu também. — A voz da mulher se reduziu a um sussurro. — E depois?

— Depois eu estava no metrô e encontrei Nicolas.

— Não isso, a sua moto. — Bárbara se aproximou um pouco. — Estava inteira também?

— Sim, na garagem como se nada tivesse acontecido. — Deu um sorriso azedo. — Não sei o que pensar disso.

Antes que a conversa continuasse, Fernando notou uma movimentação do lado de fora do farol. Nicolas se aproximava da entrada da construção. E acompanhado.

— Veio ele e mais alguém — disse Fernando.

Ela arqueou as sobrancelhas.

— Mais um fudido?

— Está querendo dizer que somos fudidos também?

— Claro, por qual outro motivo estaríamos aqui?

Ficou em silêncio, não porque pensava a mesma coisa, mas porque sabia que convencer alguém era complicado, ainda mais quando falavam com tanta convicção e não eram chegados. Conseguia entender o ponto de vista de Bárbara. Que tipo de pessoa arriscaria ir até um lugar onde a lógica era inexistente e o perigo constante apenas para ajudar pessoas que nem conhecia?

Não demorou muito para Nicolas subir até o topo do farol. Junto dele veio uma voz rouca e alegre.

— E é aqui que vocês sempre se encontram?

Logo em seguida apareceu a dona da voz. Ali, com os cabelos brancos e curtos, rosto cheio de linhas de expressão e pontinhos marrons pela bochecha, trajando roupas que pareciam mais adequadas a uma corrida no parque, estava uma senhora. Viu nas mãos dela manchas avermelhadas que lembraram Fernando de algumas semanas atrás, quando Nicolas ligou pedindo lhe curasse de alguma doença que contraiu em um território.

— Sério, cara? Tu trouxe uma velha pra cá?! — Bárbara disparou antes que Fernando pudesse fazê-lo, apesar de que teria escolhido palavras menos ofensivas à pobre senhora.

— Sim, eu trouxe — disse Nicolas. — Esta é Dominique. Ela estará conosco daqui em diante.

— Você deve ser a Bárbara. Nicolas me falou de ti. — Dominique se aproximou sem maldade alguma da esquentadinha. Mesmo com as palavras duras que recebera, esboçava um sorriso no rosto. — Entendo o que disse e eu também estou confusa. — Deu uma risada baixa. — Mas acho que posso ajudar vocês.

A expressão dura de Bárbara aliviou, e quando isso aconteceu, Dominique a cumprimentou com um beijo na bochecha. De forma hesitante, a motoqueira retribuiu.

— E você, nossa, que forte. — Dominique disse ao olhar para Fernando. — Deve fazer sucesso com as mulheres.

— Ééé… — Foi a única palavra que Fernando conseguiu emitir.

Os dois se cumprimentaram com beijos na bochecha. Mesmo no clima mais ameno, não pôde deixar de desconfiar de Dominique. Trocou uma olhadela com Nicolas, e logo foi respondido:

— Dominique é extremamente capaz e acho que será a adição perfeita ao grupo. Assim como eu, ela cuida da ofensiva, dessa forma Bárbara consegue focar em nos proteger.

Fernando arregalou os olhos para a idosa. Como uma pessoa tão carinhosa e de idade serviria para o ataque? Ele não queria vê-la se machucar e ir para o hospital.

— Vou ser bem direto aqui — disse Fernando. — Dominique, tu entendeu os riscos? Não estamos aqui pra fazer algo fácil, pode se machucar de verdade.

— Já sei disso. — O sorriso no rosto dela não sumiu. — Estamos aqui para salvar pessoas e matar monstros. Eu quero fazer isso.

— Tu pode morrer — reforçou Bárbara. — Me desculpe, senhora, não posso te aceitar aqui.

— Mas eu posso ajudar. E eu já vivi bastante, mais que o dobro de vocês, se eu morrer, que seja fazendo algo bom.

— Eu sei que estão hesitantes, porém confiem em mim. — Nicolas se aproximou e colocou a mão no ombro de Dominique. — Eu não arriscaria a vida de ninguém que eu não achasse capaz de contribuir conosco.

— Tu ouve o que está dizendo? — disse Fernando, balançando fervorosamente as mãos para frente e para trás ao lado da cabeça. — Vai mandar uma senhora lutar contra aquelas monstruosidades porque acha que ela é capaz de ajudar?! Não tem coração?

— Somos poucos, temos que aproveitar as oportunidades que aparecem.

Fernando começou a bufar.

— Estamos lidando com vidas aqui!

— Eu sei — disse Nicolas. Ele olhou para os outros e parou com os olhos em Fernando. — Por isso não fizemos nada perigoso de verdade até agora, não tínhamos um grupo capaz de lidar com diferentes situações. Agora temos.

— Que tal assim, nós vamos bem devagar hoje, e se sentirem que eu não sirvo, vou embora — disse Dominique, fitando Fernando sem sorrir. — Não quero atrapalhar.

— Vamos tentar explorar, apenas, ver como trabalhamos juntos e voltar quando der. — Nicolas pressionou.

Fernando alternou o alvo de sua carranca entre o pálido e a idosa. Respirou fundo e fechou os olhos. Se fosse só Nicolas insistindo, daria um jeito de manter Dominique longe dessa loucura.

— Tudo bem, mas quem vai decidir se paramos ou não sou eu. Entendido?

— Sim.

***

No território do metrô, se depararam com mudanças. O vagão parecia mais largo, as paredes e chão, antes limpas e brilhantes, estavam tomadas de ferrugem. A noite chegara e o lago estava escuro. Os prédios continuavam todos ali, mas os letreiros eram irregulares, as luzes piscantes falhavam vez ou outra. Nicolas foi até a janela que dava para o lago e observou em silêncio antes de se virar e falar:

— O território está mudando, crescendo, talvez. Não tinha visto isto antes.

— Quem sabe a gente volta — disse Fernando, olhando de relance para a ferrugem que tomava o teto.

— Cada dia que esse território existe, ele se fortalece e pessoas se tornam vítimas dele. — respondeu Nicolas. — Se não entendermos as mudanças, pode ser ainda mais difícil da próxima vez.

— Por que não avançamos um pouco? Se estiver muito difícil podemos voltar — sugeriu Dominique.

Concordaram e se organizaram na formação previamente estabelecida. Na frente, Bárbara e Dominique, no meio Nicolas e atrás Fernando. Avançaram para o vagão seguinte, desta vez encontrando algumas pessoas. Elas nem prestaram atenção ao grupo e, apesar de não se lembrar com muitos detalhes do território, Bárbara notou que elas tinham algo diferente da última vez. Ao longo da pele e da própria roupa, diversas manchas alaranjadas, semelhantes a ferrugem, permeavam os indivíduos. Em alguns, as manchas estavam focadas nos pés, em outros, nas mãos, mas todos tinham um pouco na cabeça. Pareciam não se importar, mantendo uma reação apática para tudo a sua volta. Onde a marca estava, cabelos faltavam e a própria carne se fazia ausente, criando uma aparência esquelética.

— São mais presentes nos mais velhos — disse Nicolas, perto de seu ouvido.

Bárbara se virou, pronta para empurrá-lo, mas ele já tinha recuado um passo.

— Não faça mais isso! — disse ela, apontando o dedo para Nicolas.

— Tomarei mais cuidado, mas olhem. — Ele levantou o queixo na direção das pessoas. — Quanto mais velhos, mais manchas. Mesmo assim, há exceções, alguns jovens carregam muitas.

— Isso significa algo? — perguntou Fernando, quebrando a formação e ficando ao lado de Nicolas.

Bárbara voltou a fitar os manchados, era a protetora do grupo e não queria deixá-los na mão, porém manteve o ouvido atento para a explicação de Nicolas.

— Territórios são armadilhas para humanos, uma forma dos predadores nos atraírem. Imagino que o local se modele de acordo com a mentalidade das pessoas que o predador visa.

— Mas isso não limita a comida do predador?

— Eles podem não querer todo tipo de refeição — respondeu Dominique. — Igual peixe, você usa a isca certa para a espécie que quer pegar.

— Podemos deixar a especulação pra mais tarde? — Bárbara se virou para os três. — Não dá para ficar a noite toda teorizando e eu tenho que trabalhar amanhã.

Fernando arregalou os olhos.

— Tem razão, vamos logo!

Continuaram avançando pelos vagões. A ferrugem se mostrava presente em cada vagão que entravam. Quanto mais ela permeava a estrutura, mais os passageiros de lá estavam tomados pelas marcas. Bárbara não via muitos detalhes pois manteve o foco à sua frente, não queria deixar nada passar, mas pôde ouvir Nicolas murmurando algumas coisas de vez em quando.

Chegaram em um carro que estava tomado pela ferrugem. Teto, paredes e chão pareciam pintados para ficar daquela forma. O primeiro passo de Bárbara revelou uma estrutura sensível e instável.

— Cuidado, gente — disse ela.

Como sempre, foi na frente, testando o chão antes de cada passo. Quando já tinham avançado um pouco no vagão, ouviu um barulho atrás de si e logo foi tomada por uma estranha sensação de nojo. Virou-se para trás e viu que todos estavam ali. Direcionou a visão mais para o fundo e viu lá uma criatura esparramada pelo chão, se levantando aos poucos.

Chegava quase a dois metros de altura e podia-se contar com facilidade suas costelas. A pele inteira estava tomada pela mancha alaranjada, não usava roupas e lhe faltavam órgãos sexuais. Porém o que mais chamou sua atenção foi a cabeça. Não tinha olhos ou cérebro, era como se uma lâmina fina e precisa a tivesse cortado logo acima do nariz.

Bárbara aprontou-se para trocar de posição quando ouviu outro barulho, desta vez na direção aonde estavam indo. Se virou mais rápido que da outra vez e viu, alguns metros à sua frente, outra criatura no chão. Estava mais perto que a outra, e os murmúrios que fazia chegavam ao ouvido da motoqueira.

— A máquina deve continuar operando.

— Não deixe parar.

— Se esforce.

Ele repetia estas frases de novo e de novo, até mesmo depois de se levantar.

Bárbara se sentia perdida. O que deveria fazer? Avançar? Ficar ali? Ir para trás? A criatura deu passos lentos em sua direção e a motoqueira estava prestes a recuar quando ouviu a voz de Nicolas.

— Fiquem onde estão!

Assim que terminou de falar, uma corda se materializou no ar, enrolada no pescoço da aberração, que logo foi puxada para cima com um solavanco e ficou suspensa, se debatendo. A resistência não durou muito e logo os movimentos cessaram. O mesmo aconteceu com a criatura de trás. O corpo delas escureceu, uma gosma fétido e roxo escorreu, logo em seguida tornaram-se nada mais que pó.

Bárbara soltou a respiração, só então notando que estava segurando-a. Olhou na direção de Nicolas, que ajeitava a corda em seu pescoço. Pensou que, por menos que gostasse de como falava e agia, o homem tinha suas qualidades. Seus olhos se encontraram e ele falou:

— Continue.

Ela olhou para frente, arrependida de seu último pensamento. O babaca insensível nem para falar algo que animasse servia. Deu um passo adiante e parou em seguida. O chão sob seus pés subia e descia em um movimento lento, oscilando como se fossem as entranhas de uma besta. Não tardou para uma fenda surgir alguns metros à sua frente na parede da esquerda. De dentro saiu uma mão esquelética e depois outra, se agarraram nas bordas da fenda e fizeram força para sair, revelando primeiro a cabeça incompleta da criatura, e então o resto de seu corpo esquálido. A coisa saiu da fenda, caindo desajeitada no chão e se levantando em seguida. Bárbara fechou a mão com força, e depois tremeu quando dezenas de outras fendas surgiram ao longo do vagão.

— Atrás também! — gritou Fernando. — O que fazemos?

— Avançamos!

Ouvindo a decisão de Nicolas, Bárbara avançou, abandonando a cautela que tinha antes em cada passo. Apesar de mais e mais criaturas aparecendo a cada segundo, sua lentidão tornava fácil evitá-las.

Enquanto dava um passo à esquerda para evitar uma criatura de braços estendidos, Bárbara sentiu o chão ceder sob seu peso. O repentino desequilíbrio a fez cair para frente, onde uma criatura emergia do chão e alçava as mãos em sua direção.

Um par de pés calçando tênis de corrida surgiram. Dominique chutou a criatura na cabeça, o tronco dela se curvou inteiro para trás e o queixo foi destroçado. Bárbara ainda estava surpresa com a força de sua companheira, pelo menos quarenta anos mais velha, quando Dominique lhe estendeu a mão.

— Vamos, vamos!

Aceitou a ajuda de bom grado e se levantou. Logo estavam de volta na formação e avançando pelo corredor. Dominique lidava com as criaturas que se aproximavam, desferindo socos e pontapés que nem mesmo Anderson Silva seria capaz de dar. Quando notou que as manchas estavam espalhando-se pelos punhos da idosa guerreira, resolveu ajudar também, se limitando a empurrar e chutar os obstáculos. As criaturas eram fracas e leves demais, quase não sentia impacto ao interagir com elas, mas o resíduo que deixavam em seu corpo causava ardência.

Logo chegaram no fim do vagão e atravessaram para o próximo. Não fosse por estar em território de um predador, teria pensado que estava em um transporte normal. As paredes e assentos estavam limpos, na verdade, nunca tinha visto tamanho zelo nas vezes que andara de metrô. Nicolas fechou com um estrondo a passagem entre as divisas.

Conseguiram ver através do vidro na porta a multidão avançando até eles. Nicolas recuou, deixando as mulheres ficarem mais próximas do perigo. As criaturas aproximaram-se da passagem, mas nada fizeram. Após alguns segundos, recuaram, voltando ao meio do vagão e desaparecendo pelas fendas.

— Fernando… — começou Nicolas.

— Já sei.

O líder assentiu e manteve o olhar no carro anterior. Fernando tirou a mochila de entrega das costas e a abriu. Tirou de dentro dois cacetinhos, fumegantes como se recém tivessem saído do forno.

— Isso deve ficar delicioso com uma manteiguinha — comentou Dominique, pegando o pão e abocanhando-o.

Bárbara pegou e comeu sem comentários, apreciava os efeitos da comida, mas achava bizarro botar na boca algo que vinha daquele lugar. Ao contrário do que esperava, o alimento não tinha gosto ou peso no seu estômago, era como se comesse ar.

A ardência que sentia enfraqueceu até o ponto de sentir nada, as manchas recuaram para a ponta dos dedos até desaparecerem. O mesmo ocorreu com Dominique, mas de forma mais lenta, já que as manchas dela chegavam ao cotovelo. Além disso, a vermelhidão que havia desde antes em suas mãos desapareceu.

Viu Fernando esfregando o braço direito enquanto fechava a mochila e notou diversas marcas na mão e antebraço dele. Segurou-o pelo pulso com firmeza, porém sem apertar.

— Passou para ti também. — Olhou para o rosto de Fernando, notando o quanto ele tentava disfarçar uma careta. — Vai ficar bem?

— Daqui a pouco passa. — Balançou de leve a cabeça na direção de Nicolas. — Testamos algumas vezes para ver como eu reagia com ferimentos.

— Testaram? — Bárbara soltou Fernando. — Não sei o que dizer sobre isso.

Ele abriu um sorriso amarelo.

— Nem eu, mas é a forma que tenho de ajudar.

— Não acha que deveria ficar no farol, então? Assim não se expõe tanto.

— Não dá. — Balançou o dedo indicador em negação. — Se fosse hoje, Dominique estaria cheia de manchas quando voltasse ao farol.

— Tu que sabe… — Levantou o olhar para Nicolas. — Ei, vamos continuar?

— Sim, vamos. — Ele se virou para Bárbara. — Parece que aquelas coisas se limitam ao vagão que estão, nem tentaram vir para cá.

— E no que isso importa?

— Como eu disse antes, o território é…

— Eu sei, entendi.

Antes que pudessem seguir adiante, um som estático soou pelo vagão. Em seguida veio uma voz abafada e grossa, falando tão rápido que foi difícil entender a mensagem:

— Atenção! Temos uma emergência em nossa máquina. Quatro estrangeiros querem nos ver destruídos. Contamos com a colaboração de todos para uma rápida eliminação da ameaça.

E então a divisa com o vagão enferrujado se abriu com violência.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 5

Desenho em preto e branco. O desenho é dividido em duas partes. Na parte da esquerda temos uma mulher de cabelos compridos envolvida por galhos grossos que apertam seu corpo, e no fundo se veem mais um conjunto de galhos. Na parte da direita, há três gralhas, uma atrás da outra, olhando na direção do espectador, no fundo há uma lua cheia no céu.
No topo da imagem há o número cinco para indicar o capítulo.

Para olhos cansados que viveram bastante, os dias se misturavam em indistinguíveis amálgamas de eventos. Sempre começavam com Dominique na sala, assistindo as primeiras notícias da manhã enquanto os membros da família saíam para seus afazeres. Uma apatia dominava a idosa, e nem mesmo a volta dos parentes trazia cores ao dia, pois não faziam muita diferença no eterno marasmo que era sua rotina.

Sempre desejava, sem falar para ninguém, é claro, que Deus pusesse um fim em sua vida. Não que a odiasse, apenas não via motivos para continuar no mundo. Abandonara qualquer objetivo ou sonho, não tinha mais com quem compartilhar conquistas ou alegrias, perdera tudo de uma vez só e se tornara prisioneira do pior cárcere que existe. Ansiava por uma liberdade impossível.

Por isso, não foi com estranheza que recebeu o peso estranho no peito. Decidira dormir mais cedo por conta de um cansaço anormal, e minutos depois de deitar veio a sensação incomum. Não ficou desacompanhada, logo o suor frio tomava conta do corpo enquanto as batidas do coração aceleravam. Não pediu ajuda, e mesmo que quisesse, se achava incapaz de reunir ar para gritar. Fechou os olhos e aceitou seu fim, esperando as dores passarem e a vinda da paz.

Não esperava que fosse dar de cara com um bosque composto unicamente de angicos-brancos e sem vegetação rasteira alguma, apenas terra úmida. Era uma noite de calor intenso e abafado, fazendo Dominique suar mesmo em sua camisola. O silêncio e os dois olhos prateados que a observavam da copa de uma árvore lhe inquietavam. De tudo isso, o que mais a surpreendeu foi o fato de estar em pé.

Antes que pudesse apreciar sua nova vida, ouviu um grito. Um pássaro saiu voando onde estavam os olhos brilhantes, deixando Dominique sozinha e dividida entre ir atrás de quem gritou ou ir na direção contrária. Quem sabe pudesse esperar ali até que a encontrassem? Que pensamento estúpido, faria as mesmas coisas de sempre, sem nunca tomar iniciativa?

Deu seu primeiro passo naquele mundo novo, indo em direção à voz. Pegou confiança e, vencidos alguns metros, acelerou. Todas as árvores pelas quais passava eram da mesma espécie e os pássaros de olhos prateados a observavam sem se mover. Não ouviu mais nenhum pedido de socorro e logo seguia a esmo, sem saber se já passara ou não pela outra pessoa.

Por pouco não trombou com uma mulher que vinha da direção oposta. Dominique evitou a colisão com um salto rápido e fitou a moça, que também parara. Ela tinha cabelos longos e bagunçados e, ao mirar Dominique, a idosa reconheceu o tremelique e os soluços de um choro intenso. Usava uma roupa branca com algum símbolo no peito impossível de identificar pela sujeira marrom de terra.

— Me ajude! Elas vão me pegar! — A mulher deu um passo em sua direção, estendendo as mãos.

A madeira, anteriormente cinza do tronco mais próximo, criou manchas marrons e claras. Em seguida, os galhos se moveram. Eram rápidos e flexíveis como se feitos de borracha, mas ainda havia os estalos característicos quando esticaram e enrolaram-se no tórax e pernas da jovem. O aperto acirrou e em seguida veio o estalo dos ossos quebrando. Viu quando a árvore ergueu a mulher em meio a gritos de desespero para o alto, os ramos enrodilhando a presa como se fossem serpentes, mas diferente dos répteis que matavam por asfixia, o angico-branco não hesitou em apertar o máximo possível, torcendo o corpo e silenciando sua vítima para sempre.

Estava no inferno, só podia ser isso, nada mais explicaria lhe darem um presente tão desejado para, em seguida, mostrarem aquela cena terrível. O corpo tornou-se um iceberg e Dominique temeu por um segundo que ficaria paralisada, mas bastou dar um passo para trás que seus instintos despertaram e a levaram para longe do terror.

No entanto, não importava o quanto corresse, não conseguia deixar para trás os angicos-brancos nem os pássaros, e quanto mais fugia, mais corpos destroçados pelas árvores ela encontrava e mais sentia vontade de parar e desistir. De que adiantava toda aquela correria para chegar a lugar algum?

Os pensamentos negativos cessaram junto com a movimentação quando se chocou com outra pessoa viva. Os dois se desequilibraram e quase caíram. Dominique arregalou os olhos para aquele homem de terno e corda no pescoço, tão deslocado quanto ela, mas transmitindo uma calma impossível. A idosa falou sem nem pensar:

— Por favor, me ajuda!

Sentiu algo passando por si, como um projétil rápido, e no momento seguinte o tronco mais próximo ganhou um tom marrom. Em uma repetição do que viu acontecer antes, os galhos moveram-se em sua direção. O corpo da idosa reagiu mais rápido que a última vítima, saltando vários metros para trás e escapando do agarrão mortal.

Dominique não teve tempo de entender aquele movimento anormalmente rápido e poderoso, pois tropeçou nos próprios pés assim que aterrissou e viu outra árvore prestes a lhe capturar. Fechou os olhos e quis que acabasse rápido, mas a dor não veio. Em vez disso, uma voz masculina:

— Abra seus olhos e corra.

Ao redor da idosa, o angico que a atacava estava restringido por uma dúzia de cordas que surgiam em pleno ar e sustentavam-se no nada. O homem aliviava o aperto da forca no próprio pescoço.

— Corra! — gritou ele.

Desta vez obedeceu, levantando-se e correndo para qualquer direção. Seu salvador logo a acompanhou na fuga, mantendo uma certa distância. Outras árvores nas proximidades mudavam de cor e atacavam Dominique sem dó. Mais preparada dessa vez, conseguia se esquivar dos galhos com movimentos rápidos e impulsionados por um instinto que não sabia possuir. Acima deles, as aves que antes se limitavam a ficar empoleiradas agora voavam e grasnavam, seguindo os dois fugitivos.

Dominique sobreviveu como pôde, seu corpo obedecendo-a com precisão para escapar dos ataques. Se agachou rápido quando os galhos de uma árvore vieram em direção ao seu tórax e cabeça, pulou por cima quando um angico tentou lhe chicotear as pernas. A dificuldade aumentava conforme as plantas tornavam-se mais rápidas e reativas. Os ramos cada vez mais chegavam perto de atingir a idosa atlética. Ou talvez fosse apenas o cansaço vencendo o desejo pela sobrevivência.

Antes que fosse tomada pela exaustão e cometesse um erro fatal, os pássaros silenciaram, as árvores cessaram os ataques e uma ave caiu na frente de Dominique. A visão do animal morto com o pescoço retorcido a fez parar e olhar ao redor. O chão estava repleto daqueles bichos, quando foi que tantos começaram a segui-los?

Mais atrás estava o homem, intacto e correndo para se aproximar. Coçava o pescoço enquanto afrouxava a corda. Era uma visão estranha, mas dadas as circunstâncias Dominique não reclamaria.

Logo os pássaros começaram a perder forma e cor, as penas azuis do corpo e as pretas da cabeça ganharam um tom arroxeado, em seguida transformaram-se em um visco que se espalhava pelo chão e desaparecia. Dominique desviou o olhar das aberrações.

— Os pássaros estavam comandando as árvores pelo que entendi — disse o homem, fazendo Dominique dar um pulo de medo. — Acho que estamos seguros por enquanto.

— Isso não faz sentido — replicou ela, virando-se para seu interlocutor.

— Não há senso comum aqui, o objetivo é apenas te matar.

— Eu? — Apontou para si mesma. — Por quê?

— Não sei, mas atacavam apenas você.

— Por… Não… Que lugar é esse? O inferno?

— É um território de caça, e aquelas aves são predadores. — Ele fitou uma árvore. — Suspeito que as árvores também sejam. E você não perguntou, mas me chamo Nicolas.

Antes que Dominique conseguisse sequer começar a entender toda a informação que recebeu em poucas frases, ouviu um farfalhar de asas acima deles, junto com os grasnados que acompanhavam um novo ataque. Arriscou olhar para o céu e viu uma revoada dando círculos em volta de onde estavam.

— O que fez antes? Pode fazer de novo? — disse a idosa em tom de súplica.

— Não com tantos, não tão longe. — Ele respirou fundo. — Corra, você é o alvo.

Foi exatamente o que fez, iniciando mais uma vez o exercício extenuante de sobreviver. Tão logo as aves pousaram em angicos próximos, o ataque recomeçou. Esperava que todas as árvores a atacassem, mas continuava sendo apenas uma por vez, porém com velocidade e precisão intensas.

Teve que abandonar questionamentos e dúvidas que tinha para Nicolas, fechando-se para tudo que não fosse a movimentação contínua que a mantinha viva e respirando. Era assustador saber que bastava um milésimo de atraso ou um passo em falso e teria um destino terrível. Em cada esquiva havia uma expectativa de ser o fim, mas havia algo mais, uma sensação única que fazia o coração bater mais forte e as pernas reagirem mais rápido. Sentia os galhos não somente como uma ameaça, eram um desafio também.

O transe encerrou com um grito de Nicolas:

— Não são os pássaros! É outra coisa movendo-se entre as árvores.

Dominique se lembrou do que sentiu na primeira vez que foi atacada. Algo passando rápido por si, como uma bala. Conseguiria interceptar?

Moveu-se para longe de uma árvore ofensora, desta vez prestando atenção no tronco em vez de simplesmente fugir. Enxergou o momento em que a mancha marrom, muito parecida com uma infecção, atenuou-se e algo pequeno saiu de lá, atravessando o ar até a planta mais próxima de Dominique.

Afastou-se dessa nova árvore controlada e correu até ficar próxima de outra. Percebeu o momento exato que a infecção diminuía no angico, e preparou os dois braços, então viu o objeto minúsculo indo em direção à árvore atrás de si. Moveu a mão como um gavião caçando sua presa e agarrou por pouco seja lá o que fosse.

Cerrou os punhos, sentiu algo sendo esmagado e um líquido pegajoso tocar a pele. Na sua palma, havia um verme branco e rechonchudo. Estava imóvel e deformado pelo aperto, com gosma vertendo por seu corpo. Tomada de nojo, Dominique esfregou a mão na árvore, livrando-se dos restos mortais do verme. Só então notou que não ouvia mais as aves. Olhar ao redor mostrou que havia alguns pássaros empoleirados ali perto, mas a revoada no céu desaparecera.

— Muito bom. — Nicolas se aproximou. — Com isso devemos ter um tempo até uma nova investida.

A satisfação pelo elogio recebido foi rapidamente substituída por preocupação.

— Não acabou?

— Enquanto estivermos aqui, nunca vai acabar. — Ele olhou para o céu.

Dominique fez o mesmo, mas não viu nada demais.

— E como saímos?

— Caminhei por um tempo e não encontrei a saída. — Ele apontou para uma árvore. — Consegue escalar? De cima deve ser possível encontrar.

— E o que eu procuro?

— Algo diferente do resto.

Fazia no mínimo cinquenta anos que Dominique não escalava uma árvore, e nunca o fizera de pijama. Demorou um pouco observando por onde começar, mas assim que iniciou, os movimentos foram fluidos, mãos e pés faziam seu trabalho sem dificuldade alguma. Estranhamente, todos os galhos eram firmes, até mesmo os finos, e logo estava com a cabeça acima da copa, pronta para encontrar o “algo diferente”.

Por mais que observasse, parecia tudo igual. O mesmo tipo de árvore em todo lugar, como uma maquete infinita cujo criador fora tomado por uma gigantesca falta de criatividade. A única variação eram algumas plantas com os corpos quebrados erguidos acima das folhagens. Começou a mirar outras direções, mas encontrou uma situação diferente das demais.

Empoleirado nos galhos de um angico-branco que erguia sua vítima, havia uma ave grande e de penas escuras. Dominique demorou a entender o que pássaro fazia, até que ele tirou o bico de dentro das entranhas do cadáver, exibindo sua cabeça vermelha. Como se soubesse que era observado, o urubu virou a cabeça na direção da idosa.

Até aquele momento, Dominique sentira perigo quando era atacada pelas árvores, sentira a adrenalina correndo pelo corpo, mas o olhar da criatura fez sua garganta secar e os ossos gelarem. Ficou paralisada, observando a ave abrir as longas asas e levantar voo, indo em sua direção.

Era mais rápida do que Dominique imaginava, mas não foi isso que a fez se mover, foram os angicos que o urubu deixava para trás. As folhas perdiam sua coloração verde e assumiam uma tonalidade preta.

Desceu da árvore o mais rápido que pôde, saltando da metade dela para o chão. Antes que explicasse para Nicolas o que vira, as árvores ao redor se encheram de fungos, as folhas murcharam e os galhos pareceram quebradiços pela primeira vez. O homem olhou para cima e disse:

— Originador. Precisamos fugir.

Os dois correram. Diferente da última vez, não havia o grasnar de aves ou a constante ameaça dos galhos, apenas silêncio e a certeza de que o originador, seja lá o que fosse isso, os observava do alto.

A tosse se incidiu aos poucos, ocorrendo esporadicamente conforme falhavam em ganhar distância do urubu. No início era seca, quase machucando, e logo cada tossida era acompanhada de algo subindo pela garganta. Em uma escarrada, Dominique se viu cuspindo muco misturado ao sangue. Ficou ciente da dificuldade em respirar que a acompanhava desde que a ave ganhara os céus, as pernas antes tão capazes bambolearam e a idosa se viu caindo no chão.

Nicolas se interrompeu alguns metros à frente dela. Também tinha a cara de quem estava lutando para continuar em pé, mas diferente de Dominique, não parecia que seu corpo desistiria tão cedo. Ele levou a mão direita ao bolso da calça e pareceu buscar algo lá, se interrompendo quando ouviram a aproximação do originador com um bater de asas. Desta vez Dominique viu a corda ao redor do pescoço de Nicolas apertar e machucar a pele. Em seguida, com um baque, a ave encontrou o chão ao lado direito da idosa, de pescoço e asas quebradas. Infelizmente, nenhum alívio acompanhou a morte do urubu.

— Posso ajudar, mas não posso te salvar. Ninguém pode — disse Nicolas, a voz saindo seca.

— Eu já morri! Não sei por que tô aqui, não sei que lugar é esse.

— E daí? Vai desistir por isso? — Um acesso de tosse o interrompeu por um momento, e Dominique viu a forca apertar seu pescoço. — Você sempre foi assim?

Nem sempre, mas um segundo, ou até mesmo um milésimo, podem destruir o acúmulo de desejos e sonhos de uma vida inteira. Ela deveria ser apenas uma casca vazia de quem fora, mas enquanto se movimentava rápido por aquele bosque e desviava de árvores assassinas, sentiu-se viva mais uma vez. Vida após a morte, não era esse seu desejo pelos últimos anos? Ir para onde poderia voltar a fazer o que desejava? Por que desperdiçava a chance que Deus lhe deu?

Cerrou os punhos com raiva de si, a queimação no peito se tornando combustível para impeli-la adiante, lembrar que ainda vivia, que não era uma mente quebrada.

— O que faremos? — perguntou ela.

— Se for igual a antes, teremos um tempo até o originador voltar, não sinto que o matei de verdade. Suba em uma árvore e procure de novo. E ignore a ave.

Dominique se pôs de pé e andou até o angico-branco mais perto. Escalou como da última vez, porém não sentia mais aquela empolgação quase inocente, era o desespero daqueles que querem sobreviver, impelindo a mão a agarrar o próximo galho e os pés a buscarem apoio. Quando chegou ao topo, viu de imediato o urubu se aproximando. Teria preciosos segundos para vasculhar o ambiente antes que ele chegasse perto demais e trouxesse a doença consigo.

Fitou o lado oposto ao originador e temeu não encontrar o que buscava, mas então enxergou. Era um local discreto, uma ausência de árvores que não veria se não estivesse buscando justamente por uma anormalidade. E lá estava. Infelizmente, era longe e demandaria um bom esforço.

Desceu rápido e abriu a boca para falar com Nicolas, mas um acesso de tosse a interrompeu. Contentou-se em apenas apontar com a mão, e o homem não precisou de mais que isso para começar sua corrida, com Dominique logo atrás.

Não tardou para outros males surgirem. Uma dor no peito ameaçava se alastrar pelo corpo, e erupções cutâneas começaram a surgir, primeiro apenas como manchas avermelhadas, mas logo acumulando uma secreção amarela no meio.

O originador não desceu mais, restando aos dois humanos impulsionar seus corpos além do que eram capazes. Cada passo sendo mais lento e bamboleante que o último. A passagem de tempo tornava-se confusa, os angicos-brancos todos iguais. Foi quase sem perceber que chegaram na clareira.

Não era natural, se é que essa palavra sequer poderia ser aplicada ao lugar. As árvores ao redor estavam chamuscadas, seus galhos mortos sem nenhuma folha. O chão era terra arrasada, afetado por tantas queimadas que estava seco e rachado. Uma cena que deveria causar revolta e indignação, mas que naquele momento causou a Dominique apenas alívio.

Nicolas não perdeu tempo, tirou um papel do bolso e entregou à idosa.

— Pense em sua casa, volte para lá. — A voz dele era entrecortada e rasgada, Dominique imaginou que a sua não estava diferente.

Fez o que homem pediu, faria independente dele ter dito ou não. Fechou os olhos e mentalizou seu quarto. Sentiu uma mudança no ar e logo estava de volta na sua cama. Ainda estava febril e com o corpo cheio de dores, as tosses não sumiram e nem as erupções na pele.

Guardou o papel que Nicolas lhe entregou em um gaveteiro ao lado da cama, então gritou por ajuda. Momentos depois, seu filho abriu a porta assustado. Dominique se permitiu apagar ali, esperando que não fizessem muitas perguntas depois.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 4

O desenho mostra Barbara, uma mulher de cabelos longos e cacheados, usando pijama. Ela está sentada na cama e olhando com uma expressão tensa para o celular. No fundo, à direita, há um armário de roupas, e na esquerda uma porta.
No topo da imagem há o número quatro para indicar o capítulo.

Acordou com os sons clássicos de uma discussão. Virou de lado e fechou os olhos com mais força, não aguentava mais as brigas da mãe e do padrasto. Parecia até um evento marcado que acontecia toda semana. Tentou ignorar as vozes por alguns minutos, porém notou que eram desconhecidas. Abriu os olhos e se sentou em um pulo.

Estava no interior de uma construção circular. A parede era feita de vidro e no meio havia uma enorme lente estranha: começava no centro com um círculo pequeno interior e ia se repetindo até chegar próximo do teto e do chão, tudo isso suportado em uma plataforma de metal. Mesmo com a lente no meio, a sala ainda era grande, comportaria mais pessoas, muito mais do que ela e os dois homens que discutiam.

Lembrou-se do acidente ao olhar o rosto de ambos. Na ocasião, andava muito mais rápido do que deveria na Freeway, uma forma de deixar a raiva para trás, e se distraiu por um momento. Em seguida, teve a breve visão de um triângulo de sinalização e então alçou voo. Depois veio o metrô, não conseguiu evitar de levar a mão até a garganta, sentindo resquícios de um aperto agonizante. E não só isso, tinham outros homens e mulheres a atacando, fosse com socos, chutes ou armas que não conseguia compreender ou processar.

Levantou-se devagar, tinha que achar uma saída dali. Seus planos foram frustrados na mesma hora, quando um dos homens, o mais alto e pálido, usando uma corda no pescoço e com uma manga faltando no terno, olhou em sua direção. Ele tentou se aproximar, mas o outro botou a mão em seu peito e interrompeu-o. O baixinho musculoso possuía cabelo preto bem curto e vestia uma camiseta de manga curta vermelha clara sem estampa e um pouco apertada nos braços, já o jeans cinza claro pareciam um pouco folgados demais.

— Tu já fez merda antes, deixa que eu falo com ela — disse o baixinho.

O pálido concordou e recuou, olhando para o chão atrás de si. Bárbara acompanhou o movimento e viu ali a sua chance de fugir, uma escadaria para baixo. Tinha certeza de que nocauteava o alto, mas o outro seria complicado. Não tinha escolha, precisaria deixá-los vulneráveis primeiro, fazê-los baixar a guarda.

O moreno deu um passo em sua direção, ainda mantendo uma certa distância.

— Fique tranquila, só vamos conversar — disse ele, pausadamente. — Eu entendo a confusão que está sentindo.

— Entende mesmo? — As palavras saíram antes mesmo que pudesse pensar em todas elas. — Por que me atacaram então? Acha que vou acreditar nisso?!

— Fizemos merda lá, mas foi pra te salvar. Eu juro. — Ele colocou as duas mãos no peito. — Não conseguiríamos te levar pra fora no estado em que estava.

— Do que está falando? Que estado?

— Tu estava toda… As fendas na pele? — Ele passou os dedos no próprio rosto, desenhando rastros. — Lembra?

Bárbara franziu o cenho, aquela era a pior tentativa de enganação que já presenciou. Fendas na pele? Olhou para as costas das mãos. Estavam limpas. Virou as palmas para cima e, como um lampejo, as recordações vieram à tona. Estava de volta no vagão, sendo ferida e agarrada. Lembrou-se do calor percorrendo seu corpo, como se quisesse escapar por qualquer lugar possível. Viu a pele rachando e se abrindo como asfalto, no interior da fenda havia apenas o vermelho de seu sangue, sua raiva.

Recuou até bater com as costas no vidro.

— O que fizeram comigo?

— Nós não fizemos nada. Somos iguais a você, de certa forma — respondeu o pálido.

Em seguida, ele tirou um canivete do bolso da calça, esticou o braço sem a manga e passou a lâmina na pele e carne, abrindo um corte profundo. Não vacilou em sua expressão séria por um momento sequer. A visão do sangue a paralisou tanto quanto a frieza da ação. Não estava lidando com pessoas normais, talvez o musculoso até fosse, mas o outro não. O baixo olhou para trás e viu o sangue escorrendo.

— Desgraçado! Podia dar o sinal antes!

Correu para trás da estrutura no centro da sala, saindo da vista de Bárbara. Logo voltou com uma mochila de entrega nas mãos, tirou um pão, uma bisnaguinha, de dentro dela e alcançou para o homem ferido, que guardou o canivete, pegou o alimento e o devorou em instantes. O corte começou a se fechar, primeiro pelo sangue que parou de escorrer, deixando a carne à mostra, e então, puxada por uma força invisível, a pele se fechou. Em segundos, nem uma cicatriz restava.

— Isso dói sabia? — disse o baixo, esfregando o braço esquerdo com uma expressão de dor no rosto.

— Vê agora como somos parecidos. — O maluco se aproximou dela. — Eu enforco, ele cura e você explode. Se quiséssemos te matar ou te ferir, não estaria em pé. Podemos conversar agora?

Bárbara assentiu. Ainda fugiria na primeira chance que dessem, mas queria, pelo menos, entender o que estava acontecendo.

Após ouvir uma apresentação seguida de explicações, sua vontade de fugir ainda estava lá, mas sufocada pelo que acabara de escutar.

— Então, tu… Nós, fomos escolhidos pra matar essas coisas? — perguntou ela, com a voz vacilante.

— Não — respondeu Nicolas. — Não somos obrigados a nada, mas nossas habilidades nos tornam os únicos qualificados.

— Mas por que nós? Não seria melhor escolherem pessoas realmente capacitadas? Policiais e militares, por exemplo.

— Quem disse que não somos capazes?

— Eu não me sinto capaz — disse Fernando, apontando para o próprio peito.

— Vocês conseguiam realizar seus trabalhos quando tinham dez anos? — perguntou Nicolas. — Ninguém nasceu pronto, isso não existe, mas dentro de nós há potencial.

Bárbara sentiu-se de volta nas palestras motivacionais que a empresa fornecia de vez em quando.

— Ta, nós temos o potencial e toda essa baboseira. Mas e daí? Agora saímos entrando em territórios e pronto? Acabamos com os predadores?

— Não, isso seria idiota. — Nicolas foi até o vidro e olhou para fora. — Fazendo isso estamos lidando com o sintoma, não com a causa.

— Não entendi. — Fernando franziu o cenho.

— De onde vêm os predadores? — Nicolas perguntou sem tirar os olhos do exterior. — Até respondermos isso, nossos esforços são paliativos. Por isso estou montando uma equipe que não só mate predadores, mas que me ajude na investigação.

Bárbara olhou para Fernando que, apesar de ter ajudado na explicação dos eventos recentes, possuía um olhar confuso. Fitou Nicolas.

— E só achou nós até agora? — disse ela, fitando Nicolas.

— Não. Alguns eu decidi que seriam nocivos ao meu objetivo e outros recusaram o convite. — Ele a encarou. — Essa é uma opção também, recusar.

— Claro que é — disse Bárbara. — Estou recusando agora mesmo.

— Por que não pensa em tudo primeiro? Vá para casa, descanse e me ligue depois com a resposta.

— Não precisa, estou dando ela agora.

— Reflita primeiro — insistiu Nicolas, sem vacilar.

Bárbara inspirou fundo e soltou tudo de uma vez. O que precisaria fazer para que o maldito entendesse que sua vida já era complicada da forma que estava? Não tinha tempo para mais uma tarefa na sua pilha de estresses que se acumulavam a cada dia.

— Vou mostrar para ela como voltar — disse Fernando. Olhou para Bárbara, chamou-a com um gesto de mão e caminhou em direção à saída.

Desceram uma escada vertical de dois metros e então seguiram por uma escadaria caracol. No meio da construção havia duas enormes correntes de metal que iam do topo até o chão e, assim que desceram tudo, Bárbara viu que havia um peso de metal no fim das correntes. Fernando abriu a porta de madeira velha e, pela força que o homem fez, pesada. Saíram para fora.

Olhara de relance para o exterior, mas nunca tinha parado e observado onde estava. A construção em que se encontravam, um farol, ficava em um promontório. Além dele só se via o mar, com suas águas escuras e infinitas. Do outro lado enxergava uma pequena descida rochosa e, ao fim desta, um campo cheio de grama.

— Onde estamos?

— No farol, não sei te dizer mais do que isso. — Fernando olhou para cima. — Nicolas disse que esse é um território sem dono e seguro.

— Tanto faz. — Cada resposta só a deixava confusa. Desistiu de tentar entender e apenas aceitou. — Como saio daqui?

— Bem fácil, feche seus olhos e pense em… Mora em casa ou apartamento?

Bárbara o fitou com olhos semicerrados.

— Apartamento.

— Pense nele, então, no lugar que tu mais gosta de ficar.

— O que mais?

— Só isso.

Fechou os olhos pensou na sua residência, no seu quarto, na sua cama. Só queria dormir um pouco.

Fernando começou:

— Pense no que…

Bárbara abriu os olhos para perguntar qual seria o resto da frase, mas não havia mais Fernando, não havia mais farol. Estava de volta ao seu quarto. Não quis nem saber o horário, se deitou e dormiu.

Estava em um saguão alto, de pé no teto e de cabeça para baixo. Pessoas, estas no chão, caminhavam de um lado a outro, trombavam umas nas outras e seguiam seu caminho sem pedir desculpas. Um arrepio percorreu seu corpo ao se ver parada lá embaixo, caminhando sem rumo, sem chegar a lugar algum. Um enorme relógio de pêndulo em uma das paredes do cômodo tiquetaqueava sem parar. Sentiu uma respiração na nuca e mãos em seus ombros. Seu corpo imobilizado nada podia fazer. Rápido como surgiu, o que estava atrás de si desapareceu.

Acordou pouco antes do amanhecer, com fracos raios de sol atravessando a persiana e trazendo luz e deveres ao apartamento. Acostumada a acordar com o despertador, Bárbara levantou num pulo e checou o celular, apenas para notar que estava sem bateria.

Com um olho fechado e outro tentando abrir, ligou a luz do quarto. Cerrou com força os dois olhos até se acostumar com a iluminação, então catou o carregador pelo cômodo. Encontrou-o no meio das roupas velhas que receberam a função de pijamas e botou o celular para carregar.

Aproveitou que estava cedo e começou sua rotina matinal com calma. Era impressionante como um banho bem tomado e uma torrada no capricho melhoravam a manhã de qualquer um.

Voltou até o celular e, vendo que já tinha um pouco de carga, o ligou. Segundos após conectar ao wi-fi que o vizinho compartilhava, foi bombardeada de notificações. Dezenas de mensagens no WhatsApp, e-mails oferecendo criptomoedas e cupons de desconto, além de chamadas perdidas de seu gerente e até mesmo de Igor, o mais próximo de um amigo que tinha na empresa.

Ao ver as ligações, lembrou-se do que a fez quase se matar. Uma crescente tensão no corpo surgiu junto com a vontade de voltar para baixo dos lençóis e esquecer tudo, esperar até que ninguém se lembrasse dela e então retomar a vida como se nada tivesse acontecido. Sabia, porém, como a realidade é implacável e não se pode aguardar os problemas se escafederem. Ignorou os grupos e viu as mensagens privadas que perdera.

Igor

Oi

Tudo bem por aí? Me disseram que tu sumiu ontem e não apareceu hoje

Até o gerente veio perguntar por ti, não sei o que deu, mas ele parecia furioso

Respirou fundo e visualizou as do gerente.

Maurício (Gerente)

Bárbara tudo bem?

Fiquei sabendo do que aconteceu hoje mais cedo… Podemos conversar sobre isso amanhã?

Bárbara tudo bem?

Sei dos problemas de ontem mas preciso de ti hoje aqui, temos muitas notas pra contabilizar e o time ta sobrecarregado.

Não gosto de fazer isso mas se não aparecer eu vou ter que acionar o RH

Enquanto pensava em respostas, releu as mensagens até cansar. O que escrever? A verdade era tão improvável que a mandariam direto pro hospício se contasse tudo. Mas, vendo o que o gerente escreveu, talvez lá não fosse tão ruim. Olhou para o relógio, estava cedo, faltando boas horas para iniciar o expediente, decidiu postergar a explicação e mandou a mesma mensagem aos dois: “Tive uns problemas, desculpe… estou voltando hoje”.

Largou o celular e caminhou pelo curto espaço do apartamento. Dezenas de conversas com Maurício passavam por sua cabeça. O que dizer? Como responder as perguntas que ele provavelmente faria? A hora seguinte foi tomada por esses diálogos imaginários e, quando o despertador soou, pegou suas coisas e saiu às pressas do apartamento. Passou na garagem para verificar se estava vazia, mas encontrou sua Kawasaki lá, intacta apesar dos acontecimentos. Por um momento ficou confusa, mas se aceitou que ia para outra dimensão com seres deformados, não questionaria muito o estado do veículo.

Pela primeira vez desde que passou do período de experiência, Bárbara foi a primeira do setor a chegar na empresa. A cabeça ainda estava cheia de preocupações, mas se distraiu com o trabalho, era difícil não ficar assim ao ver a montanha de e-mails e notas para lançar no sistema.

Às dez em ponto, sentiu uma mão no seu ombro. Os dedos paralisaram logo acima do teclado. Olhou para trás e viu Maurício, com uma expressão séria.

— Vamos conversar — disse ele, calmamente.

— Claro — respondeu Bárbara, quase sem pensar.

Bloqueou o computador e o seguiu até uma sala pequena e fechada. Viu pelo caminho os rostos de colegas se levantando, seus olhos caçando a nova fofoca do dia igual abutres procurando carniça. O local continha uma televisão grande na parede, uma mesa oval e uma dúzia de cadeiras executivas ao redor. Maurício fechou a porta e sentou-se. Bárbara escolheu um assento que ficasse de frente para o gerente. Sua cabeça trabalhava como nunca, milhares de perguntas e respostas se passavam por ela.

— Bem… — Maurício suspirou. — Pode me explicar o que aconteceu?

De repente, nada que tinha pensado até ali passou a servir. Continham erros e defeitos, eram mentiras óbvias. Decidiu se contentar com a verdade, pelo menos, uma parte dela. Respirou fundo e encarou Maurício.

— Eu estava na cozinha tomando meu café. O Eder apareceu lá e me convidou para sair, eu disse não e… — Por mais que soubesse que era o certo, continuar o resto da história se tornou difícil. — Ele… ele passou a mão em mim. Eu me irritei e bati nele.

Maurício apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos. Expirou pela boca e manteve o olhar impassível em Bárbara.

— Esse incidente, que tal deixarmos de lado? Eder cometeu um erro e tu também. Ambos precisam esquecer isso.

— O quê? — Não acreditou no que ouvia. — Que erro eu cometi?

— Tu deu um socou nele, Bárbara. Fez ele sair sangrando da sala, até registrou queixa no RH. Passou a tarde inteira com o rosto inchado.

— Claro que eu bati nele! — Bárbara se levantou, apoiando as mãos na mesa e se inclinando na direção do gerente. — Ele me assediou, queria que eu agradecesse?!

— Dois errados não fazem um certo.

— Ah sim, agora vai vir com esse papinho?

— Bárbara! — Maurício levantou o tom de voz um pouco. — Pode se sentar?

Ela largou o corpo contra a cadeira, fazendo as rodinhas deslizarem alguns centímetros no carpete.

— Vou te explicar a minha situação, está bem? — Sem dar tempo para ela lhe dizer que cagava para essa situação, continuou: — Tenho um funcionário antigo da casa e com bom histórico registrando uma queixa contra ti. Tenho tu, explicando que foi… assediada, sem provas. Não há câmeras na cozinha para provar nenhuma das histórias. Eu também tenho um mês cheio e está difícil achar profissionais qualificados na área. Tu é uma das melhores que temos. — Pena que o salário não refletia nem um pouco essa grandeza. — Vamos fazer o seguinte, te deixo com uma advertência e pronto. Pode ser?

Entendeu de cara a pergunta, não era um “Pode ser?” sincero, era um “Aceite ou será demitida”. Fosse alguns anos atrás, na escola ou faculdade, era capaz de deitar o chefe na porrada só para deixar de ser escroto. Mas precisava de trabalho, tinha as parcelas da moto e o aluguel para pagar, então enfiou a vozinha revoltada no fundo da alma e, com nojo de si mesma, respondeu:

— Pode ser.

— Muito bom — respondeu ele, como se estivesse educando uma criança. — Eu vou falar com o RH, pode voltar para tua mesa.

O dia foi um daqueles que parece infinito, não importava a quantidade de trabalho que Bárbara fizesse. Não quis nem olhar na cara de Eder, e o filho da puta teve a decência mínima e inesperada de ficar na dele o dia todo. Os dedos já estavam cansados e uma dor começava a lhe incomodar o pulso direito quando o expediente acabou e pôde voltar para casa. Não sentia raiva, nem sabia qual sentimento a assolava na verdade, era apenas um vazio.

No apartamento, logo foi para o sofá e ligou a televisão. Várias matérias passaram no jornal local sem deixar registro na mente de Bárbara. A única que deixou uma pequena lembrança foi uma notícia sobre o clima instável e pessoas desaparecidas. Desligou a televisão e se pôs a arrumar a casa.

Não faria uma faxina completa, só dobrar roupas jogadas por aí, limpar a pia e organizar a sala. Enquanto pegava roupas e avaliava o cheiro, além de verificar os bolsos a procura de notas de dinheiro ou algum cartão, sentiu um papel na calça do dia anterior. Tirou ele e viu um número ao lado de um nome. Quando foi que aquele papel de Nicolas parou no seu bolso?

Pensou na loucurada no farol. Antes, não pretendia aceitar a oferta daqueles dois. O perigo de morrer era real, mas se morresse, que diferença faria? O mundo não lhe dava nada de bom, nunca teria a vida com a qual sonhou.

Gravou o contato de Nicolas e mandou uma mensagem para ele pelo WhatsApp.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 3

O desenho mostra uma mochila de entregas aberta. Em seu interior estão quatro pães cervejinhas recém saídos do forno.
No topo da imagem há o número quatro para indicar o capítulo.

Passara as duas últimas semanas trocando mensagens com Nicolas, tentando assimilar tudo que tinha visto. Sabia que era real, mas isso só tornava a situação mais grave. Um lugar, uma dimensão melhor dizendo, onde seus residentes devoravam os humanos que apareciam. E para piorar, existiam pessoas, como ele próprio e Nicolas, capazes de entrar e sair dessa dimensão. Não queria nem pensar no fato de que possuíam poderes.

Viu uma mão passando em frente aos seus olhos, lhe tirando de seus pensamentos.

— Tudo bem aí? — perguntou Adair.

Sonhando acordado na frente dos clientes, que vergonha. Até parecia um amador, igual quando começou na carreira de vendedor muitos anos antes.

— Sim, sim, claro. — Olhou para o balcão. — Me desculpe, eu me distraí. O que tu pediu mesmo?

— Seis rosquinhas. De polvilho doce.

— Pra já.

Pegou uma sacola plástica transparente, botou as seis roscas dentro, entregou para o idoso e recebeu o pagamento. Em seguida olhou para o relógio na parede atrás de si. Mais algumas horas e sairia para fazer as entregas.

— Está bem mesmo?

Virou-se e viu Adair ainda ali, de sobrancelhas unidas e com um braço em cima do balcão.

— Estou bem sim, só cansado.

— Vai ter que contratar alguém para te ajudar guri, parece cada dia pior.

Fernando sorriu com o canto da boca e falou:

— Não vou te contratar, seu Adair.

— Esses jovens, cada dia mais exigentes. — Completou com uma risada.

— Obrigado pela preocupação, mas vou ficar bem.

— Eu sei que vai, tu é forte como um touro. — Olhou para o braço de Fernando. — Isso tudo é por causa dos pães?

— As máquinas fazem boa parte do trabalho, isso aqui é dos tempos de academia.

— Agora eu quero ir para a academia.

— Nunca é tarde para ficar monstro.

Adair sorriu, mas a expressão durou pouco.

— Fale o que quiser, sou metido mesmo, mas se tiver algum problema, pode contar comigo.

— Olha que eu vou cobrar, hein!

Se despediram e dessa vez o senhor saiu mesmo da loja. O resto do expediente na padaria foi tranquilo. O tempo se arrastava e Fernando se pegava sempre distraído. Confundiu alguns pedidos e por vezes até cobrou a mais. Estava piorando. Não conseguiria manter dois empregos com outros assuntos rondando sua cabeça.

O relógio cravou dez horas, e com isso o momento de fechar o estabelecimento. O celular emitiu um bipe de mensagem que foi ignorado. Conhecia o remetente e o assunto. Sempre, todo maldito dia, recebia o mesmo texto nesse horário.

Nicolas

Algo para reportar? Podemos nos encontrar hoje?

Fernando o enrolara durante um tempo, dizendo que não estava se sentindo bem, ou que tinha assuntos para cuidar, por fim falando que em breve estaria melhor. Nos dois primeiros dias Nicolas mandou a mensagem durante o turno na padaria, mas depois de uma reclamação de Fernando, passou a mandar após o expediente.

Terminou de fechar a loja, pegou o celular e começou a digitar sua resposta padrão, porém parou antes de concluí-la. Por quanto tempo mais adiaria esse compromisso? Nicolas não parecia ter a cabeça no lugar certo, mas só estava sendo tão insistente porque Fernando o contatou e prometeu que ajudaria. Se odiava por ter feito aquela promessa, não conseguia nem se ajudar, quanto mais aos outros.

Olhou para o relógio, em breve teria que começar as entregas. Mesmo sabendo que quase morrera uma vez, precisava continuar com elas. Como mais iria se manter? Pensou na alternativa de Gabriel e balançou a cabeça, não era o namorado a encarar sua própria família.

Apagou a resposta que escrevia e largou o celular em uma mesa. Caminhou devagar pela padaria. Poderia dizer que não queria mais nada com Nicolas, tinha certeza de que ele aceitaria e nunca mais o contataria. Eles não eram heróis ou detetives para sair investigando os predadores. Deviam deixar aquilo com a polícia ou jornalistas ou qualquer outra profissão investigativa, fariam um trabalho melhor com certeza. Claro que fazê-los levar a sério era outra história.

Sentou-se em uma cadeira próxima. Já era hora de sair, estava se atrasando. Olhou para o celular com o aplicativo de mensagens aberto na tela. Sentindo o arrependimento na ponta dos dedos, escreveu sua resposta.

Fernando

Como nos encontramos?

***

Houve uma época em que fora fascinado por histórias fantásticas. Filmes e quadrinhos envolvendo magia eram seus preferidos. Lembrava-se bem de várias situações em que, para lançar uma magia ou superpoder, o protagonista precisava primeiro visualizá-lo em sua mente. Fernando algumas vezes até ficou irritado com aquelas situações, afinal, era só imaginar, como poderia ser tão difícil? Quem diria que chegaria o dia de fazer algo semelhante.

Sentado no interior da padaria, vestindo roupas que podia se dar ao luxo de rasgar, com um pé da cabra nas mãos e usando a mochila de entregas, tentava visualizar um portal para a morada dos predadores. “Apenas visualize-se indo para outra dimensão, rasgando o tecido entre elas e atravessando”, essas foram as palavras de Nicolas, mas não faziam sentido algum. Tentou mais uma vez, mas nada se formou à sua frente. Pegou o celular e releu as mensagens, para ter certeza que não fazia nada errado. Tentou novamente e não obteve sucesso. Levantou-se e tomou um copo de água, passou no banheiro e notou como suava. Lavou o rosto e encarou o espelho.

— O que estou fazendo?

A figura no espelho mimicou seus movimentos. Ficou encarando o reflexo, lembrando como algumas histórias utilizavam deles como uma forma de transporte e sempre que isso acontecia, o espelho trocava sua imagem para o local de destino, ou para uma espécie de vórtice. Ótimo, estava usando ficção como guia.

Voltou até sua cadeira, se sentou e fechou os olhos. Talvez tivesse que ser mais preciso, queria ir para outra dimensão, mas para onde nela? Pensou no metrô, tinham combinado de se encontrar lá e depois ir para outro lugar.

De repente sentiu sua cabeça tremendo de leve, um balançar constante e ao mesmo tempo calmo, familiar. Abriu os olhos e se viu no interior de um vagão.

— Está atrasado — disse Nicolas ao seu lado, usando roupas formais como da última vez.

— Tuas instruções eram bem vagas. — Balançou a cabeça. Agora tinha um chefe pra ficar cobrando-o e nem lembrava de vê-lo assinando a carteira.

— Foi o que funcionou para mim.

Fernando olhou para as janelas. A paisagem era a mesma de duas semanas atrás, parecia que nada mudara. Levantou-se, segurando com firmeza o pé de cabra. Com uma arma para se proteger não ficaria mais refém da ajuda de Nicolas.

— Vamos só explorar mesmo? — perguntou.

— Correto. — Nicolas começou a caminhar até a divisa entre os vagões. — Temos que entender mais desse lugar, descobrir como funciona e se há outros predadores.

— Vem cá… — Fernando seguiu. — Como tu sabia a forma de voltar para cá? Não parece algo simples.

— Isso eu aprendi sozinho, mas outras coisas eu tive ajuda de uma pessoa.

— E quem é essa pessoa? Ela faz parte do seu grupo?

— Não faz parte do nosso grupo.

— Mas quem é?

Nicolas estava prestes a respondê-lo, porém um tremor percorreu o vagão. Os dois seguraram-se nas barras de apoio para não caírem. O silêncio pairou em seguida, os nós dos dedos de Fernando estavam brancos de tanta força que exerciam.

Após algum tempo sem mais nada acontecer, Nicolas soltou devagar a mão de uma das barras, logo depois soltou a outra. Fernando fez o mesmo.

— Isso não aconteceu da outra vez — comentou Fernando, olhando para frente e para trás no vagão.

Nicolas franziu o cenho.

— Ou o predador original está crescendo, ou é uma presença externa.

— Presença externa? — Por que sempre explicava de uma forma difícil de entender?

— Alguém como nós.

— Um aliado, então? Ufa, pensei que seria pior.

Nicolas não falou nada.

— Espera, não é um aliado?

— Pode ser, ou pode não ser. Já encontrei pessoas que tentaram me matar. Vamos ver. Estou otimista hoje.

Fernando não questionou por que seres humanos se atacariam ali, já sabia a resposta. Também não quis perguntar o que Nicolas fez com eles.

Seguiram em frente atravessando os vagões, vendo alguns com assentos quebrados, estruturas deformadas e janelas rachadas. Passaram até mesmo por portas de desembarque. Depois de vários minutos, chegaram em uma seção destruída. Havia rombos nas paredes, vidros quebrados e fendas no chão. Nicolas parou de caminhar e estendeu o braço para o lado, Fernando obedeceu o sinal e também parou, observando melhor o estrago. As “saídas” do metrô eram pura escuridão, não era possível ver os trilhos, tampouco o lago ou a cidade. Ajeitou as alças da mochila de entregas ao notar o transporte lentamente se reconstruindo. Pouco a pouco o metal se alongava para preencher o vazio, o vidro reunia seus cacos para consertar as janelas e os assentos se reformavam. Lembrou Fernando de sua própria habilidade. Será que havia, em algum lugar, uma aberração sofrendo pela cura do vagão?

Nicolas se aproximou de um buraco na parede e observou-o por diversos ângulos. Fernando não chegou perto, evitava até mesmo manter seu foco na escuridão, procurando qualquer outro ponto de interesse.

— Seja lá quem fez isso, é forte. — O engomado passou um dedo ao redor da seção destruída. — Causar danos ao terreno é quase impossível, é mais fácil matar o predador original e esperar o resto se desfazer.

— E o que isso quer dizer?

— Que precisaremos agir rápido se essa pessoa for um inimigo. No pior dos casos, morreremos antes que eu faça algo.

Fernando olhou para o caminho adiante e sentiu um aperto na garganta.

— E se não for um inimigo? Pode ser só alguém perdido, assim como eu na primeira vez.

— Sim, pode ser.

— Então temos que ajudá-lo!

Nicolas o encarou, examinando-o de cima a baixo. Por fim, mexeu na corda em seu pescoço, olhou para o próximo vagão e falou:

— Sim.

Seguiram adiante, tomando cuidado onde pisavam. Nenhum dos dois comentou sobre a escuridão. Não precisava, Fernando sabia que era ruim. Chegaram na divisória e abriram a porta, vendo um vagão vazio e inteiro. No meio dele, uma mulher praticamente se arrastava, seus pés mal saíam do chão, e a cada passo ela largava a mão de uma das barras e passava para a próxima, avançando até o carro seguinte. Seus longos cabelos cacheados estavam empapados de suor, usava uma jaqueta preta de couro com asas vermelhas nas costas, calça jeans e um par de botinas. Se ela os notou entrando, não demonstrou.

Fernando não se aguentou, era impossível alguém naquele estado ser um inimigo. Passou pelo lado de Nicolas e gritou:

— Viemos te ajudar!

A mulher virou o rosto na direção deles e Fernando parou. A face dela estava tomada por rachaduras vermelhas na pele, pulsando a cada segundo. A esclera era escura e a íris de um tom rubro.

— Não venham! — A voz saiu como um rosnado.

Fernando fitou o pé de cabra nas mãos, abaixou-se lentamente e o largou no chão, levantando-se em seguida.

— Não iremos te machucar. Eu só quero ajudar.

Os olhos da moribunda alternavam entre a ferramenta e Fernando. Ela recuou um passo, passando a segurar com a mão esquerda uma barra que estava um pouco acima dela. Apontou a mão direita na direção deles, os dedos tremendo, o braço oscilando para cima e para baixo em um óbvio esforço para manter-se erguido.

— Não! Vão embora! Mentirosos!

Fernando estava prestes a dar outro passo quando sentiu uma mão no ombro seguida de um sussurro.

— Deixe comigo.

— Ela está assustada, eu… — Fernando virou o rosto, encarando Nicolas. — Eu não acho que tu consiga.

— É só ir com calma.

— Se enforcá-la, eu juro que uso o pé de cabra em ti.

Ele não respondeu à ameaça, apenas seguiu na direção da mulher.

— Você está confusa e assustada, acontece com todos daqui — disse Nicolas, elevando o tom de voz.

Ela recuou mais um passo.

— Sai!

— Sem dúvida te atacaram e você apenas revidou. Está tudo bem, não vamos te ferir.

— Eu já disse para ficar longe.

— Nós queremos apenas ajudar, como meu amigo disse, não somos pessoas ruins.

Nicolas estava a poucos passos de distância da mulher. Ele parou de caminhar e estendeu a mão esquerda para ela.

— Venha.

— Eu disse para ficarem longe!

Ela pisou firme no chão metálico, e as fissuras alumiaram. Nicolas levou a mão direita até o colarinho e pareceu ajeitá-lo. Estava receoso? Não, no pouco tempo em que se conheciam, sabia que aquele cara não hesitava. Ao mesmo tempo em que chegou a essa conclusão, uma corda surgiu no ar e enrolou-se no pescoço da moça. Fernando deu um passo adiante, recuou, pegou o pé de cabra no chão e correu em frente. Mal deu dois passos e a vítima do enforcamento reuniu forças para liberar um grito rouco e gutural.

— Fora!

As rachaduras na pele se expandiram, e delas começou a vazar um líquido vermelho incandescente, denso e viscoso. Assim que o fluído entrou em contato com o ar exterior, explodiu como uma bomba. A onda de choque jogou Fernando para trás e tirou a arma de suas mãos. Quando seus sentidos se estabilizaram e o ouvido parou de zunir, levantou-se e olhou ao redor. A mulher estava caída no chão, as fendas na pele ainda pulsando, porém com uma cor mais opaca. Nicolas fora jogado adiante e agora estava sentado.

Fernando sentiu vontade de esmurrar o desgraçado até não poder mais, porém parou ao ver o estado em que ele se encontrava. Nunca foi de entrar em grupos que compartilhavam vídeos de assassinatos e ferimentos brutais, mas pensou que a cena diante de si poderia vir direto deles. O braço esquerdo de Nicolas estava destruído, com pedaços espalhados por perto. O coto era uma massa vermelha e sangrenta, com um pedaço de osso como uma protuberância estranha.

Engatinhou até o ferido, sentiu as mãos tocando o sangue no chão. Ao se aproximar, abriu a boca, mas nada saía. Ficou apenas ali, parado, a mente incapaz de raciocinar.

— Pegue a mulher, temos que carregá-la pra fora daqui — disse Nicolas.

— Ta doido? Olhe o seu… Olha… Seu braço!

Sentia vontade de desviar o olhar e ao mesmo tempo não conseguia. Na verdade, não sabia nem para onde olhar depois.

— Fernando, vou precisar da sua cura.

Sentindo como se levasse um tapa na cara, lembrou-se da mochila. Pegou pães cervejinhas milagrosos que estavam nela e os deu para Nicolas comer. Ele mastigou todos sem dificuldade. Fernando tentou antecipar a dor que viria em seguida, mas ela chegou antes de seu preparo. Começou como uma queimação no braço que só não o derrubou porque já estava ajoelhado. Se curvou, apertando o membro com força, aumentando a dor, mas não sabia o que fazer. Esquecera por um momento do preço a ser pago pela cura, como era burro! Não podia perder o braço, precisava dele! Como explicaria isso para Gabriel? Como trabalharia na padaria? Como faria as entregas?

A dor arrefeceu aos poucos, no entanto a visão do que acontecia serviu apenas para deixá-lo mais paranoico. Viu e sentiu os músculos do braço atrofiarem, a pele tornar-se flácida e em seguida ressecar. Ao final, mais parecia o membro de uma múmia do que o seu próprio.

Levantou a cabeça, mais para tentar ignorar o acontecido do que qualquer coisa. Viu que o braço de Nicolas voltara e parecia tão saudável quanto antes.

— Tu é um filho da puta — disse Fernando, entre longas pausas para reunir ar.

— E você me ajudou mesmo assim. Quer me bater? Faça isso quando estivermos seguros.

Nicolas se levantou e ofereceu a mão para Fernando. Não aceitaria aquela gentileza, não mesmo. Com o braço direito, apoiou-se em um assento e ergueu-se.

Por mais violenta que a explosão tenha sido, não afetou o vagão tanto quanto a eles. Foi fácil se aproximar da mulher, e com a ajuda de Nicolas, ergueram-na, passando os braços por baixo de suas axilas. Não era a forma mais gentil de carregar alguém, mas não estavam em condições de serem cuidadosos.

Passaram pelos vagões anteriormente danificados. Todos já tinham voltado ao normal, era como se o território lhes mandasse um lembrete de que era impossível destruí-lo por completo. Assim que chegaram em frente à porta de desembarque, Nicolas se adiantou e foi o primeiro a botar o pé fora do metrô.

O cenário mudou. O concreto do chão transformou-se em terra coberta de grama, a luz artificial de lâmpadas se tornou a iluminação de uma noite limpa e coberta de estrelas, e o ar enclausurado mudou para um vento forte com cheiro de maresia. Não muito longe de onde estavam, uma construção se erguia na noite. Um farol. E depois dele apenas o mar.