Predadores: A Obsessão – Capítulo 2

O desenho mostra no centro um homem com expressão séria e intimidadora olhando em direção ao observador. Ele possui cabelo curto, veste uma camiseta social e um crachá de empresa balança em seu peito. Seus braços são anormais, transformados em chicotes longos grossos por onde despontam partes de ossos em quantidade maior que um ser humano deveria possuir.

O cenário ao redor é o interior de um vagão de metrô, e além do homem do chicote, diversas outras pessoas olham com expressões de desconfiança e desgosto para o observador.

Avançou um pouco antes de ser pego. A multidão o agarrou e o parou de forma coordenada, cada um segurando partes diferentes do corpo. Desvencilhou-se de dois que prendiam seu braço, e com este livre, bateu em três que restringiam o outro. Era como acertar rochas e seu punho doeu mais com os socos desajeitados do que machucou os agressores.

Berrou e se debateu. Os malditos gritavam, repetindo as mesmas frases. Algo penetrou sua roupa e rasgou sua pele. Sentiu seus braços, ombros e peito sendo abertos com cortes superficiais, mas doloridos mesmo assim. Fechou os olhos.

As vozes pararam abruptamente e não havia mais ninguém lhe segurando ou ferindo. Caiu sentado ao ver os arredores. Seus atacantes estavam suspensos no ar por cordas que saíam do teto e os enforcavam. Encolheu-se no chão para enxergar apenas o metal, tapou a boca e tentou ignorar o cheiro fétido que impregnava o ar. Tremeu ao sentir uma mão em seu ombro.

— Tudo bem?

Virou o rosto devagar, com medo de ver os cadáveres, mas não havia nada, nem as cordas nem os passageiros, o cheiro terrível também desaparecera. Apenas o maluco de terno estava ali, agachado ao seu lado.

— O que… — Fernando tentou formular uma pergunta, mas não sabia como completá-la.

— Você foi atacado pelos predadores. — Nicolas aliviou o aperto da forca no pescoço. — Desculpe não te ajudar de imediato.

— Tu… Foi tu que matou eles?

— Sim.

Fernando se levantou em um pulo e recuou.

— Tu é um monstro! O que fez com eles?

— Os corpos de predadores desaparecem depois de mortos.

— Pare com essa história de predadores! Isso não existe.

— Supondo que não existam e eram apenas pessoas normais, teriam te linchado.

— Mentiroso!

— Olhe para si mesmo, sua roupa está em frangalhos.

Por mais que odiasse admitir, o homem tinha razão. Sua camiseta estava rasgada nos ombros e parte do peito, filetes de sangue escorriam por diversos arranhões na pele.

— Vou esperar você se acalmar. Só saiba que não temos tempo a perder, agora que matamos alguns, o resto virá atrás de nós. — Ele sentou-se em um assento próximo.

— Nós não matamos, tu fez isso sozinho.

— Estamos na mesma posição, você é como eu.

— Não sou!

Nicolas não respondeu, apenas fitou-o. Fernando tentou colocar os pensamentos em ordem: acabara de participar de assassinato, teria que denunciar isso à polícia. Talvez nem acreditassem nele, o que falaria, afinal? “Tentaram me matar e daí um maluco veio e enforcou todo mundo. As vítimas? O corpo delas desapareceu depois”, quase riu de si mesmo, era o verdadeiro insano nessa história. Se ficasse ali, será que alguém iria resgatá-lo? Quem? Não, não podia depender de ninguém. Um passo depois do outro. Primeiro sair do metrô, depois pensar no que fazer.

— Tudo bem, vou entrar no seu jogo. Estamos sendo atacados por predadores, como saímos daqui?

— Atravessando os vagões e procurando uma saída.

— E se formos atacados de novo?

— Deixe comigo, estou familiarizado com o funcionamento desses lugares.

— Tu vai na frente então.

— Claro.

Caminharam até o próximo segmento do metrô. Lá estava o enjoo mais uma vez, era como entrar em uma sala cheia de carniça e respirar fundo. Viram mais pessoas encarando-os, e desta vez havia um homem em pé no meio do caminho. Era alto e parrudo, usando roupas formais que pareciam apertadas e desconfortáveis. Um crachá ficava à mostra no peito e ostentava uma expressão séria e desaprovadora.

— Pare, fique bem para trás — disse Nicolas.

Não precisava pedir, Fernando já dera três passos e daria mais assim que algo ruim ocorresse.

— Vocês precisam ser corrigidos. Não se encaixam na nossa família — disse o homem no meio do vagão.

O braço dele começou a se alongar, a pele do antebraço rasgou, revelando a carne por baixo. Espinhos que mais pareciam pedaços de ossos surgiram do interior do membro. A mão perdeu a forma e tornou-se apenas mais um pedaço daquele chicote de espinhos feito de carne e osso. Fernando acreditava ter estômago forte, mas cada minuto no metrô fazia suas entranhas se revirarem e o cérebro chacoalhar.

Nicolas inclinou o corpo para trás e botou o braço direito à frente da cabeça. No instante seguinte, o chicote se moveu em velocidade assustadora e se enrolou no braço que servia de escudo. O outro membro do predador se transformou e envolveu a cintura e barriga do homem à sua frente. Contrariando intenções anteriores, Fernando pensou em ajudar, mas o que faria? Deu um passo em frente, qualquer coisa era melhor que ver alguém morrer.

Uma corda surgiu a partir do teto e se enroscou no pescoço do homem do chicote e de todos que os encaravam. Foram puxados para cima com um solavanco, não se debateram ou reagiram. Apesar da repulsa, Fernando se recusou a fechar os olhos. Concordara em participar, tinha que ver tudo, até mesmo o desagradável. O corpo dos mortos começou a escurecer a partir das extremidades, a pele rachou e uma gosma se espalhou para fora. Os restos mortais começaram a se tornar poeira e logo nada restava deles.

As cordas desapareceram em seguida. Nicolas baixou o braço direito e com o outro aliviou a forca no pescoço. Sangue embebia o terno onde fora atingido, mas ele não emitiu um gemido de dor sequer. Olhou para trás e falou:

— Vamos continuar.

Começou a caminhar para o próximo vagão, sangue escorrendo dos ferimentos a cada passo dado. Fernando não se aguentou.

— Não podemos continuar, tu não tá nada bem.

Nicolas parou, analisou o braço direito e a barriga.

— Estou bem, conseguiremos chegar na saída desse jeito.

— Eu não consigo. — Fernando segurou o ferido pelos ombros e o empurrou até um assento, forçando-o a se sentar.

— Precisamos pelo menos estancar isso. — Tirou a mochila de entregas das costas, colocando-a ao lado de si. — Tem alguma faca para cortarmos a roupa?

— Infelizmente não, você não tem nada nessa mochila?

Fernando revirou os olhos. Era uma mochila de entregas, não uma caixa de primeiros socorros. Mesmo assim, se agachou e a abriu, desejando ter algo que o ajudasse. Franziu o cenho com o que viu. Ali, no meio da mochila, solto como estivesse em um forno, estava um pão. Pegou ele com a mão direita, estava aquecido ainda, possuía formato achatado e comprido, a casca levemente crocante. Era igual a um dos ciabatta que fazia na padaria.

— Você entrega pães?

— Que pergunta é essa? — Olhou o pão por diversos ângulos, não fazia muito sentido ele estar ali. Na verdade, nada fazia sentido algum, então talvez não fazer sentido fazia sentido. Uma ideia surgiu em sua mente, como se fosse o correto a se fazer. — Coma.

— Por quê?

— Come!

O homem pegou o pão e o aproximou da boca, dando uma mordida delicada. As próximas foram ávidas e em poucos segundos nada restava. Fernando sentiu uma queimação no braço direito e na barriga, mas não lhes deu atenção pois seus olhos mesmerizaram-se com os acontecimentos à sua frente. As feridas de Nicolas fecharam-se, a carne foi reconstruída e logo depois coberta por uma camada de pele. O único resquício de um ferimento era o sangue empapando a roupa.

— Tu é humano? — perguntou Fernando, encarando o homem.

— Tanto quanto você.

— Duvido, não fui eu quem fechou feridas sérias.

— Foi você sim. Ou melhor, foi sua mochila.

— Ah sim, a mochila criou um pão mágico que cura todas as feridas. — Fernando riu. — Isso é ridículo.

— Mas é a realidade. — Nicolas passou a mão pelo braço curado. — Pegue seu telefone.

Sentindo-se idiota por não pensar nisso antes, moveu a mão para pegar o celular. Só então notou diversos ferimentos no seu braço direito, parecidos com aqueles do chicote, porém mais leves. A visão do sangue lhe trouxe a dor, não só no braço, como na barriga. Olhou para baixo e notou manchas de sangue na camiseta. Com os joelhos prestes a cederem, levantou a roupa e viu ferimentos no abdômen, idênticos ao do braço.

Sem aviso, Nicolas se avizinhou, mais perto do que Fernando gostaria, observando com atenção as feridas. Não tinha forças para afastá-lo. Precisava se acalmar, pensar com clareza. Sentou-se em um banco próximo e aguardou.

Minutos se passaram, mas não conseguiu sossegar. Fitou os machucados durante o intervalo, notando que cicatrizavam a uma velocidade espantosa — só não tanto quanto as de seu companheiro maluco — e logo estava curado. Deixara de ser humano sem notar? Nunca se recuperou assim. Inspecionou o corpo em busca dos arranhões de antes, sem sucesso em encontrá-los.

Ouviu um estalo de dedos na sua frente.

— Não podemos esperar mais.

Sem cabeça para questionar ou tentar entender, Fernando pegou seu celular e tentou, sem sucesso, fazer uma ligação para a polícia.

— Não é possível se comunicar com o lado de fora. Agora, anote esse número e salve o contato. — Nicolas ditou um número de telefone.

— É o seu? Para quê?

— Quero que me ligue assim que sair daqui.

— Nunca mais quero te ver.

Se ficou ofendido, não demonstrou, apenas replicou:

— Anote mesmo assim, é só não ligar.

Não querendo perder a única ajuda que encontrara, salvou o contato. Feito isso, olhou as horas, já passava das vinte, mas ali ainda parecia ser o final da tarde. Como isso estava acontecendo em Porto Alegre sem ninguém mais notar? Antes que chegasse a uma conclusão, o horário mudou para as quinze.

— Vamos continuar — disse Nicolas.

Chegaram no próximo vagão. Ele estava cheio de pessoas olhando o nada e, para o alívio de Fernando, havia uma porta de desembarque.

— Graças a Deus! — Correu até a saída. — Como saímos agora?

— Para onde você quer voltar?

— Para minha casa, é óbvio.

— Então vá.

A porta se abriu de repente, revelando uma estação. Havia pichações por toda a parte escrito “Volte”, “Fique aí” e “Aqui é sua família”. Fernando botou a cabeça para fora do metrô e olhou para os lados. Na direita havia uma escadaria terminando em uma passarela.

Não entendeu muito as palavras de Nicolas, mas não chegaria em casa se ficasse enrolando. Botou um pé fora do vagão e tudo se desfez no instante seguinte.

***

Estava em sua casa, na cama. Se despreguiçou, espantando a nebulosidade da mente. Lembrou-se então das entregas, do roubo, da morte e do metrô. Acendeu a luz e examinou seu corpo. Nada de ferimentos, nem mesmo uma cicatriz. Fora apenas uma fantasia?

A moto! Se fosse verdade, não estaria com ela.

Saiu do quarto, passando de fininho pela sala, onde Gabriel assistia televisão. Chegou na garagem e encontrou seu veículo. Observou-o por todos os ângulos possíveis. Estava em perfeito estado. Notou a mochila de entregas em um canto. Abriu-a e viu apenas o vazio, deixou escapar uma risada baixa.

— Fê, tudo bem aí? — Ouviu a voz de Gabriel vindo de trás.

— Sim. — Virou-se com um sorriso no rosto. — Só tive um pesadelo loucaço.

O namorado se aproximou, segurando e acariciando a mão de Fernando.

— Eu já disse: tu se puxa demais. Por que não pede ajuda para tua família?

Desvencilhou-se.

— Não posso, tu sabe disso.

— Pode sim.

— Hoje não…

Gabriel negou com a cabeça.

— Vamos para a sala, faz tempo que não vemos algo juntos.

— Eu tenho que dormir, preciso estar na padaria depois.

— No domingo?

Fernando ficou em silêncio. O próximo dia era domingo mesmo? Nem se lembrava de ver a semana passando. Agradeceu pelo presente inesperado.

— O que está passando de bom?

— As mesmas porcarias de sempre.

Ficaram algumas horas assistindo televisão no sofá. Viram um pouco do noticiário, com as matérias recorrentes: corrupção, instabilidade no clima e desmatamento. No entanto, uma notícia despertou sua curiosidade: uma série de desaparecimentos próximos ao metrô de Porto Alegre. A matéria relatava a vida das pessoas, todos adultos trabalhadores, que sumiram nos últimos quinze dias, um dos desaparecidos inclusive era parente de um funcionário do canal que assistiam. A polícia conseguiu rastrear os movimentos de todos os cinco desaparecidos até entrarem no transporte, e a partir daí era como se tivessem desaparecido. Ninguém mais os tinha visto. Olhou para Gabriel, que assistia à reportagem sem muito interesse. Será que teria a mesma reação se não fosse pelo sonho? Sentiu um incômodo no braço e na barriga.

Saíram da TV aberta e botaram um filme qualquer no streaming. Como era de praxe, seu namorado botou uma comédia romântica leve e de humor pastelão. Exatamente o que precisavam para relaxar no final do dia. Ao término do filme, foram os dois para a cama.

Ouviu o tique-taque de um relógio, portas abrindo e fechando. Sentiu mãos tocando seus braços e coxas, apalpando, agarrando, testando. Estavam puxando-o, mas pararam de repente. Desapareceram, deixando apenas a sensação de que poderiam voltar quando quisessem.

Fernando acordou de madrugada com o corpo suado e a respiração acelerada. Foi até a cozinha e se serviu de um copo de água. Enquanto o líquido gelado descia pela garganta, seu celular vibrou. Nem queria ver a notificação recebida, mas então lembrou-se do número salvo no sonho. Devia ser apenas um delírio causado pela exaustão. Mesmo assim, pegou o aparelho e visualizou os contatos. Seus dedos pararam quando encontrou o que não queria achar: Nicolas.

Em negação, procurou pela casa a camiseta que usava no sonho e encontrou-a no fundo da lixeira, embaixo de embalagens de plástico. Estava rasgada e possuía manchas vermelhas. Enfiou-a de volta no saco, o mais fundo que conseguiu.

Ligou para o número encontrado antes. Chamou durante alguns segundos e então alguém atendeu.

— Nicolas aqui, quem fala?

Fernando segurou a respiração. Estava pirando? Talvez devesse mostrar para Gabriel o contato e explicar tudo que viu. Não, o namorado já tinha muito com o que lidar.

Se identificou para Nicolas e conversou sobre o que viram e ouviram naquele lugar amaldiçoado.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 1

O desenho mostra um homem de costas. Ele usa uma mochila de entregador, camiseta de manga curta e possui pele morena. Na frente do homem há um passageiro sentado, com olhar ausente. Um pouco mais afastado, está um terceiro homem, este usando terno e, no lugar de uma gravata, está uma corda de forca. Na direita, uma janela mostra o por do sol no lago.

O alarme tocou às vinte e duas horas e foi desligado logo em seguida por mãos que memorizaram há muito o ponto exato que deveriam tocar na mesa de cabeceira. Levantou da cama e seguiu sua rotina: tomar banho, escovar os dentes, trocar de roupas e comer algo para forrar o estômago. Trinta minutos depois subiu na moto e disparou rua afora. A pouca movimentação agilizou seu percurso, que em condições normais demoraria cinco ou dez minutos a mais para ser feito, mas como nem tudo eram flores, o vazio da noite cobrava seu preço. A cada parada, a cada sinal vermelho, Fernando corria os olhos pelos arredores, relaxando só quando a moto estava em movimento novamente.

Chegou na padaria faltando quinze minutos para as vinte e três horas. Ali seu trabalho começou. Limpou toda o local primeiro e, em seguida, passou ao preparo dos produtos. Mesmo usando diferentes receitas, o passo a passo era parecido: preparar a massa, deixar na estufa, preparar o próximo pão e, por fim, assar os já fermentados. Eram movimentos braçais e cansativos, auxiliados pelas máquinas que conseguiu financiar, mas seu corpo se acostumara após tantos meses nessa rotina. Ainda assim, prestava atenção em cada etapa, nunca deixando a mente divagar no meio do trabalho. Nas poucas vezes que fazia isso, parava a atividade e descansava por meio minuto.

As horas passaram e o alarme das sete tocou, anunciando o momento de abrir a padaria. Distribuiu os pães na mesma organização de sempre, lavou o rosto, passou pano uma última vez nas mesas, alinhou as cadeiras e destrancou a porta da frente. Não demorou para seus clientes habituais aparecerem.

— Quando tu vai contratar alguém pra ficar no balcão? — perguntou Adair, um senhor em seus setenta anos. Preciso como um relógio suíço, aparecia todo dia às sete e meia.

Fernando coçou os olhos.

— Não quero ter que contratar alguém para demitir de novo tão rápido. De repente, quando a padaria voltar a ter um lucro bom eu procuro um funcionário. Aliás, seu Adair, o que acha de trabalhar aqui?

— Bah, nem fala isso. Eu consigo contar o dinheiro, mas essa maquininha sua eu não sei usar não.

— Eu te ensino, é bem fácil. — Fernando movimentou as mãos como se estivesse varrendo algo. — Mas tem que limpar o banheiro também.

— Não, nem pensar! Sou velho demais para isso.

Os dois se despediram e seguiram para seus dias. Logo chegou as dez horas e Fernando fechou a padaria. Contabilizou o que vendeu e o que sobrou. Trabalhando sozinho, sua produção diária diminuiu, mas ainda assim não conseguia vender tudo. O prejuízo era menor comparado com os meses anteriores. Sentia-se triste pelos funcionários que demitira, mas era isso ou a falência inevitável.

Botou alguns dos pães que sobraram no baú da moto e os demais ensacou e largou em um cesto vazio que tinha instalado na frente da padaria. Logo acima do recipiente, um papel ensacado dizia “Pegue quantos precisar”. Teria problemas se alguém denunciasse para a vigilância sanitária, porém acreditava que era melhor correr este risco do que jogar a comida fora.

Trancou tudo, subiu na moto e voltou para casa. Chegando lá, se permitiu alguns minutos de descanso antes de trocar de roupas, pegar a mochila de entregador e sair para seu segundo trabalho. Abriu o aplicativo às onze horas e as entregas começaram. Em cada trajeto, sua atenção se movia entre os carros, as ruas esburacadas e o tempo decorrido. A cada pedido finalizado, calculava o quanto ganhara e quanto faltava para atingir a meta do dia. Não precisava de muito, apenas do dinheiro suficiente para zerar o prejuízo com a padaria.

Pouco depois das quatorze horas, recebeu um pedido de dois almoços não muito longe de onde estava. Passou no restaurante e saiu em direção ao destino. Chegou em uma rua estreita, com casas próximas uma das outras. O chão, apesar de asfaltado, estava desregulado em muitos níveis e com buracos aqui e ali, nada que Fernando não estivesse acostumado.

Parou em frente ao local, uma casa toda fechada com uma grade pintada de azul e arame farpado na parte superior. Buzinou algumas vezes e saiu da moto. Passou um minuto e nem sinal do sujeito. Perfeito, era mais um daqueles babacas que pediam comida e nem se preocupavam em ver se estava chegando. Buzinou mais uma vez, bateu palmas e gritou. Nada.

Olhou para o celular, verificando se não estava no lugar errado, talvez o babaca fosse ele mesmo. Ouviu passos e se virou, apenas para dar de cara com dois homens. Não, garotos. Estavam próximos a ele, um apontando uma pistola, a mira oscilando tanto que poderiam diagnosticá-lo com Parkinson.

Não pensou duas vezes, apenas levantou os braços e pediu:

— Por favor, a moto não.

— Celular e carteira! — gritou o desarmado. Este parecia um pouco mais velho que o outro.

Fez como pediram, já fora assaltado outra vez e sabia que o melhor caminho era obedecer, mas não pôde se impedir de falar enquanto entregava os pertences.

— A moto não, eu preciso dela.

— Cala a boca!

Fernando se afastou, deixando os dois subirem no veículo. O ronco do motor fez o padeiro ir contra o senso comum e, antes que pudesse raciocinar, lançou-se na direção dos ladrões. O mais jovem, sentado atrás, notou a movimentação e gritou. Um estouro repentino abafou o berro.

— Merda! — berrou o atirador, olhando para a arma nas mãos.

— Fica quieto — gritou o mais velho, então acelerou e disparou para longe.

Fernando nem notou que estava caído no chão, só viu os dois indo embora, levando sua moto. Não teria dinheiro para comprar outra, tinha que abandonar a padaria. Tudo culpa dele. Era burro, ignorante, teimoso. Desculpou-se com o pai e não viu mais nada.

***

Despertou com as batidas do próprio coração. Sobressaltou-se, notando que estava sentado em um assento de plástico duro. Na sua frente havia mais uma fileira deles. Levantou o olhar e deparou-se com diversas janelas dispostas lado a lado ao longo de um vagão. Através delas via um lago enorme.

Inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nas coxas e observando o chão metálico e sujo. Estava apenas no metrô, o assalto fora um sonho. Contudo, o que fazia ali? Morava a quilômetros da estação mais próxima.

Viu no assento ao lado sua mochila de entregas e, ainda que estranhasse sua presença, a colocou sobre o colo. Notou luzes vindo de trás e virou-se. Ao longe, havia prédios altos e amontados que superavam quinze andares, a sua maioria com letreiros de neon cujas palavras não faziam sentido algum. Pela baixa iluminação, deveria ser o final da tarde, porém não foi capaz de identificar a posição do sol devido às sombras se espalharem em diferentes direções. Fitou novamente o lago, desta vez com mais atenção. Ali estava o sol, lançando uma luz alaranjada sobre a água em uma cena muito parecida com o que via no Gasômetro.

Se levantou, colocando a mochila nas costas, e bateu de leve com os nós dos dedos na janela mais próxima. Não parecia ser um televisor. Deu-se por vencido no enigma, queria apenas ir para casa.

Procurou algum indicativo de sua localização, um mapa da linha ou qualquer coisa que o ajudasse. Encontrou no final do vagão uma esperança: um homem sentado usando um uniforme azul com o logotipo de uma empresa. Ele não tirava o olho da janela na sua frente. Foi até lá, segurando-se nas barras de apoio.

— Ei, onde estamos? — Sem resposta. — Alô? Está vivo? Tô falando contigo. Cara, eu tô perdido, não pode falar nada mesmo? Por favor, senhor. Eu só preciso saber onde eu estou. Onde fica a próxima estação? Quero descer nela.

Balançou a mão em frente ao rosto do ouvinte. Nem piscou. Fernando suspirou e deu meia-volta bem a tempo de ver uma das portas entre os vagões se abrindo. Do outro lado estava o que definiu como um trabalhador estereotipado de escritório, com direito a terno e gravata, cabelos curtos penteados para o lado e fixados com gel. Era alto e um pouco fora de forma. Não duvidaria se ele de repente apresentasse uma carteirinha da OAB.

O homem entrou no vagão e se aproximou. A ilusão do estereótipo desapareceu quando Fernando notou que a gravata era, na verdade, uma corda enrolada no pescoço por um nó de forca. Em situações normais, teria obedecido a regra de não dar trela para maluco, mas como ele parecia mais responsivo que o outro passageiro, permitiu-se arriscar:

— Sabe onde estamos?

— Sei. Você sabe?

Fernando arqueou as sobrancelhas.

— Claro que não, por isso te perguntei. — Vendo que um silêncio estava prestes a se formar entre os dois, complementou: — Onde estamos?

— Você é novo então. Sente-se. — Ele indicou um assento perto dos dois. — Minhas respostas não vão fazer sentido, vai entender apenas depois de um tempo.

O homem estava certo, Fernando não compreendeu nada. Mesmo assim, acatou o pedido, o outro se sentou ao seu lado em seguida.

— Você não perguntou, mas acho bom nos apresentarmos antes. Meu nome é Nicolas, e estamos no que é chamado de território de caça.

Fernando tentou manter a expressão neutra, não queria o outro vendo o arrependimento estampado em sua cara.

— A qualquer momento, seres estranhos chamados predadores vão aparecer e nos caçar. Temos que sair antes que fiquem atiçados demais e chamem predadores maiores. — A seriedade e o tom monótono não combinavam com as palavras usadas. — Estou procurando mais respostas, por enquanto isso é tudo que eu consigo falar e que faz sentido. Alguma dúvida?

— Não, não. Acho que entendi.

— Não, não entendeu.

— Entendi sim. — Fernando se levantou. — Eu tenho que sair, sabe, está ficando tarde. Eu preciso ir para casa.

Se afastou do maluco e procurou a porta de desembarque, apenas para notar que não tinha uma em nenhum dos lados. Talvez estivesse em um dos outros vagões. Olhou a porta usada pelo fantasista. Ainda estava aberta.

— Está procurando a saída? — perguntou Nicolas.

— Como eu disse antes, sim.

— Então eu vou contigo.

— Eu acho que consigo caminhar sozinho, sou bem grandinho.

— Você até pode intimidar pessoas normais, mas não vai funcionar aqui. Insisto que devo ir contigo.

E claro que ele era do tipo grudento.

— Tudo bem, mas não fica cheirando meu cangote.

Com o maluco atrás de si, foi para o próximo carro. Encontrou-o lotado com homens e mulheres de todas as idades, usando o mesmo uniforme azul. Tentou conversar com eles, mas recebeu um tratamento tão frio quanto antes. Também não havia porta de desembarque ali.

Passaram por mais três vagões, enfrentando em todos o mesmo problema. No último, olhou em direção ao lago e notou que a paisagem não mudara, mesmo o metrô estando sempre em movimento. Fitou a direção oposta. Os prédios se mantinham, porém enxergava-os de outro ângulo. A ideia de perguntar sobre o fenômeno foi embora assim que pôs os olhos em Nicolas.

No carro seguinte, deparou-se com pessoas responsivas. O único, e grave, problema era que todos no vagão o encaravam. Um formigamento surgiu nos ombros, onde a alça da mochila ficava. Além do mais, sentia-se enjoado. Caminhou até a passageira mais próxima, lutando contra uma repulsa crescente em cada passo dado.

— Com licença, sabe me dizer em qual vagão fica a saída?

A passageira respondeu em tom robótico:

— Você não deveria estar aqui, este vagão é exclusivo.

— Eu… me desculpe. Só quero descobrir onde está a saída.

— Você não deveria estar aqui, este vagão é exclusivo.

— Certo, sem estresse. Vou sair.

Andou na direção do próximo carro. As pessoas por quem passava repetiam as mesmas frases.

— Você não deveria estar aqui.

— É nosso vagão, só nós o merecemos.

— Este vagão nos foi dado, saia.

— Você não se esforçou para estar aqui.

As vozes pararam ao chegar na metade do caminho. Algo mudou no olhar dos passageiros. Se antes o observavam como se fosse apenas um sovadinho em meio a tantos outros, passaram a enxergá-lo com um brilho nos olhos de alguém faminto que se depara com o último pão na prateleira. Deu um passo apressado e as pessoas lançaram-se sobre ele.

Apresentando Predadores: A Obsessão

Capa do livro "Predadores: A Obsessão". No centro da imagem, temos um prédio comercial inacabado e laranja. Enrodilhando-se nele há uma cobra gigante de escamas pretas, e com braços humanos saindo pelas laterais de seu corpo. Na cabeça da serpente há um único olho encarando o espectador. Como cenário temos diversos prédios na cor verde, dispostos de forma caótica, que se estendem até o horizonte. Ao fundo, o sol mostra o final da tarde. No topo da imagem está escrito "Predadores: A Obsessão", e na parte de baixo o nome do autor: Guilherme Lopes Lacerda

Sobre o livro

Acho que a melhor forma de começar a apresentação, é com a sinopse. Então vamos lá.

Fernando, um motoboy, perde a vida após ser baleado durante uma entrega suspeita. Bárbara encontra seu fim no asfalto após um acidente de alta velocidade na Freeway. A solidão é tudo que cerca Dominique em seus últimos suspiros na cama. Essas três pessoas, com nada em comum, recebem uma segunda chance e acabam indo parar em uma dimensão onde lógica e física são alteradas ao bel-prazer dos predadores, onde são salvos por Nicolas, um misterioso homem engravatado.

Utilizando habilidades recém-adquiridas, o grupo começa uma investigação para desvendar de onde surgiram os monstros, e também impedir que continuem abduzindo pessoas e as utilizando como alimento. Tudo isso enquanto continuam lidando com sua vida cotidiana, relacionamentos e trabalho.

Predadores me levou um bom tempo para finalizar, boa parte dele foi por conta da minha tentativa de aumentar meu ritmo de escrita. Com isso, os primeiros rascunhos ficaram terríveis, e meu trabalho de reescrita foi dobrado. Porém, depois de muitas mudanças, estou feliz com o texto.

Sobre o lançamento dos capítulos: ocorrerá todo sábado pela manhã. Se houver mudança no dia/hora, avisarei com antecedência.

Se quiser acompanhar a história, pode ser inscrever na Newsletter ou no Wattpad

Wattpad: https://www.wattpad.com/user/guilopeslacerda

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Recomendação – Príncipe Partido

Capa do livro escrito por Arthur Malvavisco. Um corvo de asas abertas é um elemento central à ilustração, bem como uma espada de guarda-mão estilizado. Ao fundo, há uma floresta noturna, e, cercando os elementos centrais há objetos simbólicos: uma coroa partida, uma taça quebrada, flores cortadas, uma chave enferrujada e uma garrafa quebrada.

Detalhes:

  • Título: Príncipe Partido
  • Autor: Arthur Malvavisco
  • Editora: Corvus
  • Link para compra: https://a.co/d/hBUZgg8

Sinopse:

A aguardada sequência de Lebre da Madrugada!

Após escapar por pouco à Vigília, Andras e Aeselir estão feridos e isolados às vésperas de um desastre mágico. Estariam também desarmados, não fosse por um detalhe: com o Umbral que corre nas veias de Andras após seu Despertar, eles se tornaram Andarilho e Feiticeiro, capazes de moldar o poder das sombras a seu favor.

Isso, porém, não torna a vida mais fácil. Sentimentos complicados afloram entre eles: desejo e vergonha, amor e culpa por crimes cometidos na década passada. Ainda caçados pela Vigília e ameaçados pelo Eclipse, médico solariano e guerreiro iluriano precisarão forjar alianças para sobreviver. Assombrados por inimigos antigos, terão de enfrentar também os esquemas de um nobre iluriano peçonhento e reatar laços com familiares perdidos há muito tempo.

Com a aproximação do Eclipse e sob ameaça de guerra, segredos sobre uma doença que acometeu seus dois mundos serão revelados com o auxílio de uma menina-águia, e Andarilho e Príncipe-Feiticeiro terão de lutar por amor, para restaurar coisas quebradas e para descobrir seu lugar num mundo que os odeia.

Comentários:

Enquanto o primeiro livro possui foco em Andras, neste segundo vemos mais de Aeselir Hrád (ou Lyr para os íntimos). Sendo um livro de fantasia sombria, eu já esperava um passado difícil, mas o escritor conseguiu me surpreender com tanta desgraça e tortura. Entendemos porque Aeselir era tão temido e odiado, e o quão graves seus crimes eram. Gostei bastante que, mesmo mostrando o passado de Hrád, não houve um momento em que ele passou a ser amigável ou redimido, o peso de tudo que fez ainda o acompanhava e eu como pessoa ainda quero distância dele.

O livro, apesar de grande, não é arrastado, sempre tem algo se desenvolvendo, sejam os novos passos no ótimo romance entre Andras e Lyr, ou o avanço da trama e dos eventos. Ajuda que Arthur é um excelente escritor e soube montar cada parágrafo de forma a serem gostosos de ler. A história se conclui neste segundo livro e o final é muito satisfatório.

Ideal para quem gosta de um romance inusitado entre alguém inocente e amigável e alguém muito muito violento, com pintadas de magia e um mundo terrível de se viver.

Recomendação – Senhor Tempo Bom

Capa do livro "Senhor Tempo Bom" escrito por Anna Martino. A capa possui tonalidade rosa, próximo ao topo está o nome da autora. Centralizado na capa está o nome do livro. Na lateral esquerda, escrito na vertical, está o texto "Coleção Ziguezague 3ª onda" e logo abaixo indica a editora "Plutão".

Detalhes:

Sinopse:

Quanto tempo o tempo tem?

Galileu tem medo de chuva. Não chega a ser um problema tão grande assim, a não ser por um detalhe: ele é meteorologista — e está prestes a enfrentar a maior tempestade de sua vida, mas ainda nem sabe disso. Inaugurando a terceira onda da coleção ZIGUEZAGUE, Senhor Tempo Bom é uma história inédita de Anna Martino.

Comentários:

Senhor tempo bom é uma história curta com uma trama simples, mas nem por isso deve ser menosprezado. O poder deste livro está nos personagens, que com apenas dois capítulos já sabemos como agem e falam. E sobre falar, os diálogos são muito característicos, com cada um deles tendo maneirismos diferentes e regionalismos quando necessário. Inclusive me senti muito representado pelo Estevão, o porto-alegrense, apesar de que ele conjuga corretamente os “Tu”s e eu não.

Por ser um livro pequeno, prefiro não fazer muitos comentários sobre a história. Vou só dizer que é ficção científica e envolve viagem no tempo. Além disso o final me deixou bem emocionado, de uma maneira que eu não esperava.

Ideal para quem tem saudade de sua avozinha e deseja muito vê-la novamente, nem que para isso tenha que voltar 30 anos no tempo e cair bem na ditadura militar.

Recomendação – A vida e as mortes de Severino Olho de Dendê

Capa do livro "A vida e as mortes de Severino Olho de Dendê" escrito por Ian Fraser.

Sinopse:

Numa galáxia muito, muito distante, mais especificamente no planeta Cabula XI, onde os dias duram noventa e seis horas e o ano é 2577, vive um humano de nome Severino Olho de Dendê. No passado, um encontro com a morte lhe tirou quase tudo e levou parte de seu coração. Agora, ao lado do melhor amigo, Bonfim, um alienígena malandro e falastrão, ele trabalha como investigador particular e se entrega à boemia nas horas vagas.

Só que Severino não é um investigador comum: no lugar do olho esquerdo, ele tem o Olho de Dendê, um artefato tecnológico extremamente avançado que lhe permite ver os últimos momentos de uma pessoa logo antes de morrer.

Quando a história começa, Severino e Bonfim são chamados para investigar um assassinato suspeito que parece esconder motivações escusas da Federação Setentrional, organização poderosa que governa a galáxia, e dos Carcarás Carmesins, inspetores a serviço da instituição.

Deixemos a dupla de investigadores e viajemos para o planeta Batoidea, onde a capivara geneticamente modificada Antonieta Capitolina Macabéa, uma dedicada Carcará, encontra na cena de um crime, escrito com sangue, um nome que conhece muito bem.

Enquanto a vida desfia seu fio, Severino e seus amigos lutam, riem, amam, choram e acertam contas com o passado. Unindo com maestria ficção científica, referências à cultura pop e elementos da vivência nordestina, A vida e as mortes de Severino Olho de Dendê é uma ópera espacial com gostinho de vatapá que celebra o poder da amizade, do amor, da música e da literatura. A edição conta com ilustração de capa e projeto gráfico inspirados em clássicos da ficção científica e pela estética do Movimento Armorial, idealizado pelo escritor e dramaturgo Ariano Suassuna.

Comentários:

Se apresentando como uma ópera espacial que leva o Nordeste para as estrelas, o livro apresenta uma história que combina ficção científica, mistério, muito bom humor e detalhes da vida nordestina. Apesar de compararem com Guardiões da Galáxia ou Star Wars, acho que o livro tem uma proposta um tanto diferente, o que lhe concede um charme único.

O livro é repleto de referências brasileiras, principalmente músicas. Além disso, a abertura de cada capítulo dialoga com o leitor e a história, gerando mais aproximação e envolvimento.

Ideal para quem busca uma história de ficção científica onde os protagonistas devem ir contra a empresa mais poderosa da galáxia.

Link para compra: https://a.co/d/hBUZgg8

Alys – Elemento Alpha

Conheci o livro na Odisseia Fantástica de 2021, no painel “Aventura, dragões e masmorras: uma jornada por reinos de fantasia” (inclusive recomendo ver a live quem puder). Lembro que achei interessante a conversa entre os participantes, e quando fizeram o clássico jabá de seus livros, fui atrás deles. Se não me engano, Alys – Elemento Alpha estava de graça, ou com um preço irrisório e peguei junto com os outros anunciados na live. Inclusive toma aqui o link para comprar: https://www.amazon.com.br/dp/B088RKW4CN

Demorou um tempo para eu pegar o livro e ler, já que eu estava com outros itens na lista infinita de leitura, e quando cheguei nele, já nem lembrava da sinopse (eu li quando comprei, mas a memória de peixe não ajuda). Eu sabia que tinha algo de metal e magia, então abri o livro com isso em mente e comecei a leitura.

Ah! Antes de começar a falar do livro, já adianto que isso aqui não é uma resenha, é um comentário com spoilers. Então não leve a sério demais o que eu escrever aqui, mas se quiser contestar algum ponto, sinta-se a vontade.

O livro de cara apresenta uma linguagem simples, o que não é um problema, e logo de cara somos apresentados a nossa protagonista Alys, uma adolescente que é mantida em casa pelo seu pai, só podendo sair em exceções. Como toda pessoa nessa idade, contê-la é difícil e não demora muito para vermos as brigas dela com o pai.

A exposição inicial do mundo me deu a entender que a história se passa em um planeta terra alternativo, onde começaram surgir metais que se fundiam aos seres vivos. Então animais e plantas foram modificados, incluindo os humanos que passaram e ter dois corações (Seria esse o início dos timelords?) e com a tecnologia deu um salto impressionante.

Não demora muito para que Alys acabe saindo de casa (saída autorizada neste caso) com seu amigo Kyer. E nessa saída ela começa a despertar poderes e a interagir com o mundo mágico “oculto”. Coloco este oculto entre aspas porque a maioria dos humanos não tem ciência da magia, mas, pelo que entendi, ela sempre esteve por lá. Inclusive, bem mais para frente, é explicado que antes a magia era conhecida por todo mundo, e devido a desastres, passou a ficar oculta. Então temos aí um mundo que iniciou banhado em magia, uma galera fez merda, a magia “diminuiu” e então os humanos com o passar do tempo ficaram ignorante desta magia, mas algumas famílias mantiveram esse conhecimento.

Essa ocultação da magia é interessante, mas me causa um certo desconforto, porque eu não consegui entender direito porque ela ficou escondida, sendo que um dia ela vai voltar e ficar aparente para todo mundo. De repente eu não peguei este detalhe no livro, ou talvez a autora explique nos próximos, mas não vi uma razão de manter a população ignorante da magia. Mas ok, é só um detalhe e não atrapalha a obra em quase nada.

Focando um pouco mais nesses detalhes de magia, agora indo para um lado mais estético. Minha visualização mental das descrições da autora são bem interessantes, um mundo em que o metal e o orgânico se misturam é bem atrativo, e dá um ar punk na coisa. Justamente por isso algumas habilidades que demonstram ao longo da narrativa tem um quê de magia com um quê de tecnologia.

Mudando de assunto e nos aproximando dos personagens, devo dizer que o diálogo é bem cativante e as interações entre personagens não deixam a desejar (a maioria delas). Toda cena casual é levada com bom humor e provocações, isso dá um tom bem leve ao livro (inclusive vi que o livro é classificado como Infantojuvenil no Skoob, o que faz todo o sentido).

As relações entre os personagens são bem construídas (com exceção do romance, mas toco nisso em breve). Kyer e Alys interagem demonstrando a amizade que cultivaram ao longo dos anos, e Evan consegue ser provocativo em praticamente cada frase que solta, tudo isso sem nos cansar durante a leitura.

Meu problema mesmo foi na hora do romance, que naturalmente tenho uma certa aversão. O primeiro relacionamento que se forma, Kyer com Tayla, começa aceitável, evoluiu rápido demais para o meu gosto, mas né, é a vida. Mas então acontece aquela cena durante o juramento à profecia, em que o Kyer discute com Tayla sobre ela ser meio bruxa ou coisa assim, e isso estragou o relacionamento dos dois ao meu ver. Ficou uma sensação de que o relacionamento se formou somente para passar ali uma mensagem de que não importa sangue ou raça. Não que um livro não deva passar essa mensagem, mas não teve o build-up necessário para ela ter o impacto que deveria. Eles só se conheciam há uma semana!

E também temos Alys e Evan, que não rola nada, mas qualquer um lendo o livro nota para onde a coisa está indo. Não que eu tenha algo contra esse relacionamento em específico, mas ficaria tão mais bonito se Evan tivesse entregado o coração dele (literalmente) para Alys por um motivo diferente, como uma lealdade com base na confiança e na missão que os dois possuem. E já que o Evan acaba em coma no final do livro, imagino que o segundo vai ser uma jornada para acordar ele, e que quando acordar a relação entre os dois vai aflorar.

Focando um pouco mais na história agora, a autora começa com o tropo do escolhido (o que não me agradou muito de cara), mas trabalha bem ele. Alys ainda tem os poderes diferenciados, mas precisa aprender a usar eles, e também há uma constante pressão para que ela cumpra a profecia. Porém, acho que o diferencial está no final da história, onde ela acaba falhando parcialmente. Seu pai acaba morto, Evan em coma, e o Helix leva consigo um pouco de magia (aquele negócio da esfera no final). Isso ajuda a dar uma quebrada naquela lógica de que o escolhido nunca falha (não muito, mas ajuda).

Os vilões, infelizmente, acabaram ficando meio caricatos. Os diálogos envolvendo eles sempre parecem que estou vendo um filme da Disney e no fim eles são malvados porque sim. Por sorte eles aparecem pouco, então só senti isso em partes específicas.

Se eu tivesse que definir mais um ponto negativo, seria a repetição de algumas coisas. Alys faz muitas perguntas, e eu, como leitor, sei disso porque leio todas as perguntas e os personagens reagem de forma crível a isso, então fica repetitivo quando ela, no parágrafo seguinte às perguntas, diz que faz muitas perguntas (eu sei que você faz muitas perguntas Alys, eu li todas as 27 na sua última fala). Ela também acaba se repetindo um pouco quanto as provocações de Evan, bastante até. Na verdade isso até me leva a crer que a personagem goste de se repetir, e se for este o caso, está (quase) tudo bem.

E é isso, no geral foi uma leitura que me agradou. Vou ler, eventualmente, os próximos livros. Só espero que eles mostrem Alys transformando o cajado em nunchaku e sentando o pau em alguém, porque se tem uma coisa que eu fiquei com vontade de ver, foi isso.