Predadores: A Obsessão – Capítulo 26

Desenho monocromático. O desenho mostra uma bancada de cozinha com uma térmica de água com um logo de um gaúcho montado em um cavalo, uma cuia com erva de chimarrão e uma bomba dentro e um cevador de chimarrão.
No canto superior esquerdo há o número vinte e seis para indicar o capítulo.

Voltar para casa foi difícil, por mais que tenha sido Dominique a consolar Bárbara, Fernando ainda estava preocupado. Apenas saiu do farol quando a motoqueira se despediu de ambos e desapareceu. Como seria arriscar sua vida para salvar alguém, acreditar que tinha conseguido e bem no final descobrir que falhou? O que faria na mesma situação? Não queria nem pensar nisso.

Em casa, na televisão, passava algum filme ou seriado enquanto Gabriel assistia deitado. Assim que Fernando ligou a luz da sala, o namorado desligou o aparelho e se levantou.

— Tu voltou! — Gabriel se aproximou e deu-lhe um abraço apertado.

Fernando nada disse, os últimos pensamentos vieram à tona. Podia ser Gabriel em vez de Igor, o que definia quem era pego ou não pelos predadores? Retribuiu o abraço do namorado com força. Ficaram um tempo assim, não queria soltá-lo, mas teve que fazer isso quando o outro quebrou o abraço e recuou um passo, observando-o de cima a baixo.

— Deu tudo certo? Conseguiram? — perguntou ele.

Fernando negou com a cabeça.

— Vencemos, mas não conseguimos salvar Igor. Chegamos tarde demais.

Gabriel baixou o olhar por um momento, o alívio deixando seu rosto e sendo substituído por tristeza.

— E Bárbara? Como ela…

— Ficou arrasada. Levamos um tempo acalmando a coitada.

De repente, os joelhos quase lhe falharam, os braços pareciam incapazes de se erguerem e até as pálpebras tornaram-se pesadas. O corpo terminou de entender tudo que viu e sentiu no território. Caminhou em direção ao sofá, porém, antes que pudesse desabar no móvel, Gabriel o interrompeu.

— Por que não toma um banho?

Sim, precisava de um. Rumou para o banheiro e fechou a porta. Deixou as roupas sujas em um canto em vez de largá-las no cesto junto as outras. Entrou no box e ligou o chuveiro em temperatura gelada.

Seu corpo entrou em estado de alerta. Não pôde evitar de retesar um pouco os músculos das costas, mas isso era bom, estava desperto. Levantou um pouco a cabeça, deixando a água percorrer seu rosto. O frio o incomodava, mas a frustração também. Arrependia-se de ter caído em um truque tão idiota e simples como o reaparecimento de seu pai. Pior ainda, temia cair de novo em ilusões desse tipo. Não podia evitar de querer alguém querido de volta na sua vida. Quem conseguiria? Alguém sem coração?

Seu transe foi cortado quando Gabriel abriu a porta. O namorado largou uma toalha e uma muda de roupas em cima do vaso, pegou as sujas do chão e saiu sem dizer nada. Não era somente Fernando quem sofria e se preocupava. Devia ser muito mais difícil para o namorado, incapaz de ir aos territórios para ajudar. Antes que se deixasse levar por mais pensamentos, decidiu encerrar o banho logo e evitar aumentos na conta de água.

Assim que saiu do box, notou que as roupas no vaso não eram pijamas, e sim suas vestes do dia a dia. Sorriu. O companheiro conhecia-o bem, sabia que, mesmo naquela exaustão, ainda precisava dar seguimento à sua rotina. Vestiu-se e saiu do banheiro, deparando-se com um Gabriel que também trocara de roupa.

— Ué, vai aonde? — perguntou Fernando.

— Vou contigo.

Preparou-se para discutir, mas recebeu em troca um olhar significativo, um olho mais aberto com a sobrancelha erguida. Reconhecia esse de discussões que tiveram cujo resultado era o namorado conseguindo o que queria, seja por estar certo, ou por insistir demais.

— Seu trabalho começa cedo, tem certeza?

— Um dia virado não vai me matar. — Deu de ombros. — Qualquer coisa meto café na veia e sobrevivo até chegar em casa.

Os dois foram até a garagem, subiram na moto e rumaram até a padaria. Chegando lá, foi imediatamente trabalhar nos pães enquanto o namorado lidava com a limpeza. Gabriel perguntou em detalhes o que aconteceu no território, e Fernando contou tudo, até mesmo de seu pai. Era estranho o fato de que apenas falar com alguém sobre os eventos ajudava a diminuir a tensão que carregava, como se manter a boca fechada fosse parte do fardo.

Fernando notou como foi certa a decisão de contar tudo ao namorado. De outra forma, estaria ali sozinho, nesse mesmo horário, inventando desculpas e ainda tendo que lidar com sua rotina.

Com a chegada da manhã, veio a despedida de Gabriel, que ainda nem começara seu expediente. O turno na padaria foi tranquilo, parado até. O ócio se tornou o pai de ideias, que por consequência impulsionaram ações. Quando deu por conta, estava observando as últimas mensagens que recebera de Gilson.

Há anos não se comunicava com o irmão, com a família como um todo na verdade. Não ajudava que na última conversa com Gilson, o irmão questionava a ausência de Fernando no enterro do pai. E, como não houve resposta, seguiram-se algumas mensagens contendo insultos e dizendo que Fernando estava abandonando a família quando mais precisavam dele.

Como se repara uma situação assim? Aliás, qual mensagem mandar primeiro? Poderia enviar apenas um “Oi”? Fingir que apagou o histórico e que não se lembrava daquela última conversa? Claro que não, eles não eram idiotas. Escreveu e apagou diversas variações da mensagem, nenhuma era ruim, mas também não eram boas. Decidiu não enviar nada, o irmão estava trabalhando, não queria incomodá-lo. Mandaria de noite, quando montasse uma abertura ideal e Gilson estivesse em casa.

Ao fim do expediente na padaria, voltou para a residência e se preparou para começar as entregas. Bastou olhar para a mochila que essa ideia foi descartada. Não conseguiria colocá-la no dia, não com tudo que aconteceu antes. Além do mais, estava exausto ao limite, era bem capaz que batesse e se arrebentasse, além dos prejuízos materiais que teria. Sem entregas, era melhor dormir. Encostou a cabeça no travesseiro e o corpo tomou as rédeas uma mente imbecil, mergulhando Fernando em um sono quase imediato.

Acordou com alguém se mexendo no quarto. Meio grogue, enxergou Gabriel pegando as roupas no armário. Sentou-se devagar e coçou os olhos.

— Tentei não te acordar, deve estar exausto — disse o companheiro.

— Até que não, acabei dormindo a tarde inteira.

Gabriel se virou para ele, ostentando o olhar de quem desejou ter dormido por esse tempo e muito mais.

— Como foi o trabalho? — perguntou Fernando.

— Ótimo, muito produtivo.

— Sério?

— Claro que não, né! Metade do tempo eu fiquei me imaginando tirando um cochilo delicioso no sofá, e a outra metade eu fiquei tentando lembrar o que eu estava fazendo antes. — Ele riu. — Me senti de volta aos tempos de faculdade.

— Imagino que vai só capotar então.

— Queria, mas… no que está pensando?

— Eu? Nada.

— Vou fingir que acredito, aí depois do banho tu me conta a verdade.

Enquanto Gabriel ia para o banheiro, Fernando levantou-se e se espreguiçou. Esperava que esse dia sem entregas não impactasse tanto nas finanças, mas era algo que lidaria depois. No momento, já que sua rotina tinha ido para o espaço, decidiu aproveitar ao menos o resto do dia.

Caminhou até a cozinha e fez algo que há muito tempo não fazia: preparou chimarrão. Nunca foi o mais empolgado com a bebida, mas gostava de tomar para lembrar do pai e dos tempos em que a família se reunia pela manhã para prosear. Enquanto esquentava a água na chaleira, esqueceu-se qual era o passo a passo correto. Se bem que, se perguntasse para três gaúchos diferentes, cada um diria um processo distinto, então seguiu sua memória o melhor que pôde e não se preocupou muito com exatidões.

Quando terminou o chimarrão, levou a térmica e a cuia para a sala, onde ligou a televisão e deixou passando o noticiário. Gabriel saiu do banho em seguida, parou na sala e observou Fernando por uns segundos, fez uma expressão de desconfiança e foi ao quarto. Voltou menos de cinco minutos depois com seu pijama e se sentou ao lado do namorado.

Tomaram o chimarrão ao longo de alguns minutos. Tudo isso enquanto a ideia de falar com Gilson abria espaço entre os lábios de Fernando e quase saía, apenas para ser levada de volta por um puxão de incerteza.

— O que tu tá remoendo? — perguntou Gabriel, de repente.

— É tão óbvio assim?

— Óbvio?! Tu não fez as entregas hoje, preparou chimarrão e está com uma cara de quem foi para o mato sem cachorro. Falta só uma placa na tua testa.

Fernando confessou:

— Estou pensando em falar com meu irmão.

— Não! — Gabriel arregalou os olhos. — Não acredito que depois de anos, finalmente tu aceitou minha ideia. — Ele ergueu as mãos para o alto enquanto segurava um riso. — Glória!

Apesar do constrangimento, Fernando não se conteve e acabou rindo.

— Depois vou ter que pagar umas promessas — disse Gabriel. — Continua, não vou mais te atrapalhar.

— Que promessas?

— Melhor não saber.

Fernando semicerrou os olhos, mas o namorado continuou impassivo diante do questionamento. Suspirou, abriu o Whatsapp na conversa com Gilson e disse:

— Eu não sei direito como começar. Que mensagem mandar? Eu envio só “Oi”?

— Eu acho melhor não mandar mensagem. Se eu fosse tu, ligaria.

Fernando não disse nada, nem tinha pensado nessa possibilidade. Era meio assustadora, bem horripilante na verdade.

— Estão há anos sem falar nada, capaz de ele ignorar se mandar algo no Whats, igual tu fez com ele tempos atrás — continuou Gabriel. — Se ligar, ele vai achar que é uma emergência e atender na hora.

— Mas e o que eu digo?

— Tu é o vendedor aqui, isso deveria ser fácil para ti.

Fernando balançou o dedo indicador em negação.

— São situações diferentes!

— Só pensar que está tentando vender um relacionamento novo.

— Isso é idiota.

— Se funcionar não é idiota.

Alguns segundos de silêncio se passaram. Fernando olhava de Gabriel para o celular.

— Pode funcionar, mas me assusta o quão manipulativa é essa tua ideia.

— Enquanto tu estava ocupado fazendo pães, eu estudei profundamente as relações familiares Fernandísticas. Sou o único especialista disso no mundo.

— Deu para ver. — Fernando riu, mas a seriedade logo voltou ao seu rosto. — Estava pensando em perguntar como ele está. Talvez pedir para visitar a família… Não, esquece, é muito cedo para isso.

— Muito tarde, isso sim — rebateu o companheiro.

— Está bem. Vou ligar.

Fernando se levantou, foi até o quarto e fechou a porta. Abriu o contato de Gilson e ficou alguns segundos encarando o número. Fez a ligação.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 25

Desenho monocromático. O desenho mostra um conjunto de pessoas com proporções infantis atrás de uma grade. Elas encaram o espectador com expressões de medo, dor e raiva. O rosto de cada uma delas possui costuras, e as feições costuradas são adultas.
No topo há o número vinte e cinco para indicar o capítulo.

Alguns meses antes…

Antes mesmo de abrir os olhos, escancarou a boca e puxou para seus pulmões todo o ar que lhe faltava. Enxergou o céu noturno e virou a cabeça para o lado. Estava na rua. Alguém o carregara? Por quê?

Sentou-se, notando um peso extra em seu pescoço. Levou a mão até ele e encontrou lá a corda que usara. Os dedos tatearam os sulcos na pele e carne, lançando uma fisgada de dor. Seguiu com eles pela corda, passando pelo nó e chegando a um fim abrupto. Alguém a cortara, alguém o salvara momentos antes de morrer. Se levantou trôpego e olhou os arredores. Estava no meio do asfalto, em uma rua que não era a sua, tampouco um lugar que conhecia.

Os postes de luz eram diferentes entre si. Alguns elevavam-se muitos metros e suas luzes quase não iluminavam o chão. Outros estavam com a lâmpada e seu suporte virados para cima, em uma tentativa inútil de clarear o céu noturno. E uma pequena quantidade estava torcida como massinhas de modelar, dando voltas e mais voltas, assemelhando-se a molas, mas no fim iluminavam o caminho melhor que os demais.

Caminhou até a calçada, feita de pedra e cheia de limo. Olhou adiante, mas não viu o fim da rua, nem ao menos uma interseção com outra. Enxergou apenas uma fileira de casas dispostas em cada lado. O mesmo telhado de brasilit, a mesma fachada branca, a mesma grade de metal preta em volta da casa. Também possuíam o mesmo número: 1147. Atrás de si o cenário era igual.

Nicolas esfregou os olhos com os indicadores. Tentou desesperadamente lembrar de alguma rua ou lugar que tivesse casas tão parecidas. No Brasil, para serem todas tão iguais, era em condomínios, mas então não teriam grades e nem o mesmo número. O que mais poderia ser? Um set de filmagem, talvez? Não, estava complexo demais para ser isso. Um sonho? Apenas a realidade? Já não mais sabia o que responder. Os punhos abriam e fechavam com as perguntas ressoando na cabeça.

Aproximou-se de uma casa. Queria evitar interações, mas sua única escolha era perguntar a um morador dali. Deteve-se ao ter uma visão melhor da grade, sentindo o coração palpitar mais forte e suor tomando suas mãos. Onde estava a entrada? Foi para a parte de trás da residência, apenas para notar que estava fechada também.

Além das moradias havia apenas um horizonte escuro, com pontos luminosos distantes. Uma cidade? Arriscou passos naquela direção, porém chocou-se com algo e recuou, massageando o nariz dolorido. Estendeu as mãos à frente e sentiu a textura familiar de pedra fria e porosa. O cenário desapareceu e Nicolas se deparou com um muro cinza de mais de dez metros, se estendendo para a esquerda e direita sem um final visível. Voltou dois passos.

O horizonte reapareceu e ocultou o muro. Não era possível, não havia nem razão para existir algo assim. Nicolas levou as mãos ao rosto, sendo tomado por uma súbita dor de cabeça. Desviou o olhar para o chão, não queria mais ver seja lá o que fosse aquilo. Olhou o volume na lateral da calça e lembrou de seu próprio celular. Pegou o aparelho com dedos trêmulos e ligou a tela. Estava funcional. O relógio mostrava 03h47 e a bateria estava quase cheia. O único problema era o sinal inexistente. Ligou uma vez para um ex-colega de trabalho e nem chegou a discar. Tentou outros contatos, arriscou o 190, todos com o mesmo resultado. Fechou as duas mãos sobre o celular e baixou a cabeça, encostando a testa no aparelho. O que fazer? Aonde ir?

Após algum tempo parado, começou a caminhar. Passou de casa em casa pedindo por ajuda, mas as luzes internas nunca se acendiam e ninguém lhe respondia. Acelerou o passo, começou a berrar. Quando a garganta secou, procurou por pedras para jogar nas janelas e não encontrou nenhuma. O gramado ao redor era parelho e limpo, sem uma brita sequer.

Se aproximou da grade de uma casa e colocou as mãos nas barras. Eram lisas e sem nenhum apoio para os pés. No alto, arames cortantes serviam para desencorajar invasões. Funcionou nele.

Ouviu um estampido, e depois outro, então mais outro. Tiros. Não enxergou nada na direção dos sons e deu alguns passos, talvez fosse capaz de encontrar ajuda. Parou. Desde quando ia na direção do perigo? Ninguém decente andava armado por aí! Enquanto decidia o que fazer, mais disparos soaram e Nicolas tremeu, optando por se esconder atrás de uma casa e aguardar. Nenhum som cruzou a noite e não sabia dizer se preferia os tiros ao silêncio total.

Passaram-se vários minutos até que viu uma figura caminhando pela calçada. Era um homem. Possuía cabelos loiros compridos amarrados em um rabo de cavalo, usava uma camisa polo e calças jeans pretas. No lado esquerdo da cintura havia um coldre de arma, mas Nicolas não conseguiu descobrir qual era de tão longe. O homem possuía uma expressão séria, porém seus passos eram relaxados, como alguém caminhando pela praça no sábado à tarde. Já tinha visto aquele rosto em algum lugar.

O desespero venceu o bom senso e logo decidiu pedir ajuda. Saiu de trás da casa levantando as duas mãos. O loiro foi rápido para sacar a arma e apontá-la na direção de Nicolas, que se forçou a falar algo, mas produziu apenas sons sem nexo. A expressão do atirador suavizou-se em um sorriso enquanto ele devolvia o revólver ao coldre.

— Cara! Você quase me matou de susto — disse o homem.

Não foi o contrário? Nicolas só sentia agora o quanto o coração pulsava, reverberando por seu corpo todo.

O sujeito avizinhou-se. Era um pouco mais baixo e devia ostentar vinte e poucos anos. Possuía, acima da orelha, uma pequena flor branca que em nada combinava com ele.

— Pode baixar os braços agora.

Acatou a sugestão.

— Onde estamos? — A voz saiu pouco mais alta que um sussurro.

— Em território de caça.

Ele voltou a caminhar para a mesma direção de antes. Nicolas o seguiu, cuidando para ficar uns metros atrás.

— O que é um território de caça? Caça de animais? — Dessa vez conseguiu elevar a voz até o tom normal. — E como saímos daqui? Aliás, como eu vim parar aqui? Onde é aqui?

O loiro passou a caminhar de costas enquanto encarava Nicolas. O sorriso não deixava seu rosto.

— Vamos com calma. Não precisa me metralhar de perguntas.

Olhou para baixo, repentinamente envergonhado. Em outros tempos, tentaria descobrir tudo sozinho, mas não tinha mais vontade para isso.

— Todo mundo fica confuso na primeira vez — continuou. — Vamos começar do básico. Sou Rafael, e você?

— Nicolas.

— Fácil, né? Agora para as perguntas! É um território de caça de predadores, do tipo que te estraçalha como se fosse aqueles brinquedos baratos de um e noventa e nove. É complicado achar a saída, estou procurando-a nesse exato momento. Não sei como você veio parar aqui e eu seria um oráculo se soubesse.

— Faltou a última…

— Onde você acha que é aqui?

Pensou em tudo o que viu. As casas e rua seguiam uma estrutura familiar, do tipo que poderia ser visto em qualquer lugar, mas ao examinar o todo, nada se encaixava. Ruminou sobre a pergunta mais um momento, até que balançou negativamente a cabeça.

— Difícil, né? Eu tenho pelo menos alguns meses a mais de experiência que você e o que eu sei… — Seu semblante se fechou, o sorriso sumiu do rosto e suas sobrancelhas se arquearam — é que nada sei. — Ele riu e se virou para a frente, deixando Nicolas com a boca meio aberta.

— Você não respondeu nada direito.

— Eu respondi da melhor forma que consigo. — Rafael parou de caminhar e estendeu a mão direita na direção de Nicolas em um claro sinal de “pare”. — Você vai ver por si mesmo agora.

O sujeito tirou o revólver do coldre e olhou em volta. Nicolas estava prestes a perguntar o que estava errado quando sentiu uma comichão no pescoço, a corda o incomodava pela primeira vez. Observou os arredores e viu o primeiro sinal de vida nas casas. Luzes começaram a acender, as portas abriram e pessoas saíram delas. Todas eram pequenas e não demorou a notar que eram crianças. O coração acelerou ao perceber que todas deixavam as casas ao mesmo tempo e, por algum motivo, sentiu uma queimação na garganta como se recém tivesse vomitado. Rafael correu sem dar explicações e, seguindo seus instintos, Nicolas foi em seu encalço enquanto tentava controlar o nojo de ver aquelas crianças.

Os infantes saíam aos montes das construções, indo até a grade, botando os bracinhos para fora e balançando-os. Alguns agarravam as barras e tentavam torcê-las ou pulá-las.

— O que são essas crianças? — perguntou Nicolas, quase sem ar. Nem tinham passado por cinco casas, mas o tempo de sedentarismo pesava no corpo.

— Se acha que são crianças, vai lá dar um abraço nelas. — Rafael balançou a cabeça na direção de uma residência próxima. — Só tenha certeza de verificar o que está fazendo.

Nicolas olhou pela primeira vez para elas, não para a silhueta, mas para o corpo todo, a começar pela cabeça. Ao redor do rosto havia finas linhas vermelhas, entrando e saindo da pele. Parecia apenas crueldade até ver que algumas tinham as costuras mal feitas, deixando a face meio solta como se fossem máscaras de couro. As feições não combinavam com o corpo, tinham traços mais adultos e, apesar de tudo, as expressões eram tão mutáveis e vivas quanto poderiam ser. Mesmo no silêncio em que estavam, era possível entender o que sentiam: medo, dor, raiva.

Nicolas parou de correr.

— O que é isso? São… são pessoas?

Rafael parou e se virou para ele. Não sorria mais.

— Eu já te disse, são predadores.

— Não fale merda, elas estão… O que fizeram com elas?

Emitiram o primeiro som: um grito inumano, estridente e alto, mais parecendo um animal selvagem. Espremeram-se entre as grades, quebrando os ossos do corpo, deformando a si mesmas. A primeira a atravessar a barreira amassou uma parte do crânio e parecia ter deslocado um braço, caindo no chão em seguida. Não demorou a se levantar, a cabeça lentamente voltando ao normal e seu braço tremelicando ao retomar sua posição. Sem aviso, correu na direção dos dois.

Rafael mirou o revólver e atirou. A criança caiu no chão com um buraco na testa, nenhum sangue saía. Os dedos escureceram e a cor espalhou-se pelo restante do corpo. Rachaduras formaram-se na pele, a carne vazou como uma lama roxa e fedida. Os ossos ficaram à mostra e então tudo começou a virar pó.

— Ainda acha que são humanos? Pode ficar aqui e morrer ou pode vir comigo e viver. O que quer?

Mais daquelas coisas saíram, recolocando os ossos no lugar e correndo na direção deles. Nicolas não teve dúvidas.

— Viver.

— Então vai na frente, com essa barriguinha, vai precisar de vantagem.

Rafael riu e tirou do bolso um espelho com bordas metálicas. No que aquilo ajudaria? Não ousou perguntar, optando por tomar o máximo de distância possível daquelas coisas. A curiosidade, no entanto, venceu-o depois de alguns segundos. Virou e notou Rafael já alcançando-o, e logo atrás duas crianças socavam, chutavam e agarravam em um esforço de impedir que as outras passassem.

— O que você fez? — perguntou ao loiro, entre um arquejo e outro.

— Confundi eles um pouco.

Correram por mais um minuto, Nicolas achava que seu peito explodiria em breve. Juntar ar estava cada vez mais difícil e a náusea crescente não ajudava. A rua não parecia ter fim e, para piorar, luzes se acendiam à frente deles. Mais monstruosidades surgiriam em breve.

— Onde… estamos indo?

— Temos que procurar uma inconsistência, algo nesse lugar que não pertença ao território.

Nicolas parou de correr e se apoiou nos joelhos. Mesmo com o coração pulsando cada vez mais forte e um latejar na cabeça, lembrou de algo que parecia se encaixar.

— O muro.

Rafael estacou.

— Que muro?

— Atrás das casas não tem horizonte, é um muro pintado.

— Vamos tentar lá.

Os dois tomaram uma rota para o paredão. Algumas crianças se aproximaram pela lateral e Rafael abateu-as com precisão e sem hesitar, mas não foi o suficiente, para cada uma derrubada, duas se aproximavam em seguida. O revólver logo ficou sem munição e uma criança se lançou nas pernas do atirador. Os dois foram ao chão e o homem deu coronhadas na cabeça da coisa até ela lhe soltar. Quando Nicolas o alcançou, já estava de pé e correndo. Chegaram e o loiro por pouco não repetiu o mesmo erro de Nicolas, parando antes graças a um aviso deste. Tocaram a estrutura fria e a pintura do horizonte desapareceu.

— É, deve ser aqui — disse Rafael.

— Deve?

— Não incomoda, temos que ser rápidos. Coloca as duas mãos e empurra com toda a força.

Mais esforço físico. Se fossem condições normais, seu corpo teria se rendido. Obedeceu às instruções, mas nada aconteceu. Rafael fez o mesmo.

— Não está funcionando! Não tá! — grunhiu Nicolas.

— Para onde quer ir?

— Para fora daqui, para casa!

— Então empurra essa merda!

Nicolas usou toda a força que tinha, mas nada aconteceu. Quando olhou para o lado, seu guia tinha desaparecido. Olhou para trás, a legião de crianças estava prestes a alcançá-lo. Gritou e empurrou, e mesmo com nenhuma memória querida ou agradável do seu passado, queria voltar logo para casa. Então suas mãos afundaram na pedra e ele atravessou o muro.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 24

Desenho monocromático. O desenho mostra Bárbara, uma mulher de cabelos longos e cacheados. Ela está vestindo uma jaqueta de couro com asas nas costas e calças. Está com a cabeça abaixada, os cabelos pendendo aos lados e à frente da face. Seu braço está levantado acima da cabeça e ela usa o antebraço para se apoiar em uma porta.
No canto superior esquerdo há o número vinte e quatro para indicar o capítulo.

Dominique, Fernando e Bárbara saíram do território com milésimos de segundo de diferença entre cada um. Apesar de ter dado a ordem, foi Nicolas quem ficou para trás. Fixou seus olhos no predador, ignorando o território que desabava à sua volta. Demorou quase um minuto para que o originador começasse a se desfazer naquela gosma roxa. Derrotaram-no sem matá-lo. Curioso. Intrigante.

O chão próximo aos pés desabou para o imenso nada que havia fora dos territórios e desconcentrou Nicolas. Seja lá o que fosse essa nova forma de vencer seus inimigos, pensaria melhor nela depois. Voltou ao farol.

Encontrou Dominique e Bárbara ao redor de Fernando, que respirava fundo por ter curado as rachaduras da motoqueira. De todos eles, Fernando tinha as habilidades menos tentadoras. Dava sim uma vantagem enorme ao grupo, mas aguentar a dor cada vez que a usavam era um problema. Poucos dariam sua carne a uma pessoa, ainda mais quando eram nada além de conhecidos.

Após minutos de silêncio, as feridas de Fernando estavam curadas e ele ergueu-se. Mirou Nicolas com olhos cansados.

— Demorou para voltar, achei que tu ia ficar por lá — disse o padeiro.

— Queria garantir que ele estava mesmo derrotado — respondeu Nicolas. — Foi uma resolução incomum.

— Foi?

— Que importa se foi incomum ou não? Não vimos Igor em lugar algum naquele maldito território! — interrompeu Bárbara. Ela se aproximou de Nicolas com a cara fechada. — Tu disse que ele estaria por lá!

— Disse que ele foi levado para lá — respondeu Nicolas, sustentando o olhar da outra.

— Que seja! Não achamos ele no andar de recuperação, nem na maldita lista dos mortos. — Ela cruzou os braços. — Onde caralhos ele tá?

— Calma. — Fernando colocou a mão no ombro de Bárbara e olhou para Nicolas. — As pessoas voltam para o local onde foram raptadas, certo?

— Sim.

— Se voltarmos agora, vou achar ele no apartamento? — perguntou Bárbara. — É isso?

Nicolas assentiu, e Dominique de repente arregalou os olhos. Ela deu um passo na direção de Bárbara, mas manteve-se quieta. Foi o melhor curso de ação, caso contrário passariam mais alguns momentos desnecessários ali.

— Ótimo, eu vou voltar — disse Bárbara.

— Vou junto, talvez precisemos carregar ele — falou Fernando.

A mulher assentiu em concordância e segurou no antebraço do padeiro. Antes que o homem pudesse se despedir, os dois já tinham desaparecido. Deixando apenas Nicolas e Dominique.

— O que acontece se a pessoa morrer no território? — perguntou a idosa.

— Não vai ter corpo nenhum.

— Então… tem a chance de ele não estar lá?

— Sim.

— Não era melhor ter dito algo?

— Talvez. Por que você não disse?

Ela olhou para baixo.

— Porque… eu não sei.

— Se não encontrarem Igor, certamente voltarão até aqui. Fique para ajudá-los, vão precisar.

— Você não vai ficar? — Dominique levantou o rosto.

— Não posso, há outras coisas que preciso fazer.

Ela não disse mais nada, apenas se despediram com um simples aceno de mãos. Nicolas voltou ao seu escritório. Ainda bem que deixou a tarefa de consolar Bárbara nas mãos de Dominique, ela lidaria melhor com a situação. Além do mais, cedo ou tarde teriam que se acostumar com a morte de pessoas próximas. Talvez o falecimento de Igor até servisse como um agradável combustível, catalisando em Bárbara uma determinação e obsessão que ele próprio não era capaz de forçar na mulher.

Foi para o escritório, sentou-se na cadeira e fechou os olhos. Aquele foi um território diferente, destruíram o local sem matar o originador. O que aprendeu sobre os predadores? Eram capazes de sentir raiva, de mudar seu comportamento conforme a situação, de desistirem de caçar. Não tinha visto nada disso nos territórios anteriores.

A charada tinha uma solução simples: estavam evoluindo rápido. Conseguiram lidar com esse novo, mas e os próximos? O quanto sua complexidade aumentaria? Que comportamento esperar?

Aumentar o tamanho da equipe poderia melhorar as chances de sobrevivência, mas precisaria achar pessoas capazes. Sabia bem qual era o resultado caso recrutasse qualquer um. Pensaria mais nisso depois, primeiro precisava escrever o relatório antes que os detalhes se perdessem. Abriu os olhos, ligou o notebook e começou a tarefa de relatar tudo nos mínimos detalhes.

Enquanto digitava os acontecimentos, sorriu ao lembrar de Bárbara e Dominique, as duas estavam avançando em um ritmo rápido, dominando suas habilidades e refinando-as. Fizera bem em escolhê-las. Fernando ainda não fora capaz de melhorar, mas isso não importava, cumpria com excelência seu papel na equipe.

Terminada a escrita, revisou seu registro e pensou nos próximos passos. Uma evolução rápida o afastava de seu objetivo, então talvez recorresse ao plano B? Arriscado, ainda mais que havia detalhes desconhecidos. Seria capaz de descobrir essas informações investigando aquele culto? Afinal, havia membros dele em um território. Seria simples coincidência?

E claro, havia também um outro assunto. Um problema antigo que teimava em ressurgir, precisaria tratá-lo em breve, mas não sozinho. E duvidava que conseguisse ajuda no dia seguinte, pois estariam todos cansados e dando seguimento em suas vidas. Seria tão mais fácil se simplesmente focassem nos predadores 24 horas por dia, mas cá estava, preso a uma agenda cujo foco era a vida mundana dos integrantes do grupo.

Levantou-se da cadeira e notou o celular piscar com notificações. Desbloqueou-o e notou que eram todas do grupo. Sabia muito bem do que se tratavam as mensagens, e por isso mesmo as ignorou.

***

As luzes estavam acesas no apartamento de Igor, exatamente como deixaram antes de caçar o predador. Bárbara correu até o quarto. Entrou no banheiro, na cozinha, espiou a área de serviço. Nada. Não havia ninguém lá. O fogo que alimentava seu corpo desvaneceu e ela voltou a passos pesados para a sala. Fernando aguardara enquanto ela vasculhava o apartamento.

— Nada. — Bárbara largou o corpo no sofá. — Será que ele foi parar em outro lugar?

Fernando sentou-se do lado dela.

— Ele foi raptado aqui.

— Nicolas pode ter errado, ele não sabe tudo — disse ela, levantando a cabeça de repente. — E se ele ficou no território? Temos que voltar e investigar!

— O lugar foi destruído, não deve ter mais nada lá. — Fernando respirou fundo e baixou o tom de voz. — Se não apareceu aqui e o território se foi, só resta uma possibilidade.

— Não! Não resta! — Bárbara se ergueu de súbito. — Fiz isso para nada, então?

— Não foi para nada, ajudamos outras pessoas.

— Fodam-se as outras pessoas. — Começou a caminhar de um lado a outro. — Eu queria salvar Igor!

Fernando ficou em silêncio. Na cabeça de Bárbara, os pensamentos circulavam em torno da possível morte do amigo. De uma hora para outra, o mundo se tornou injusto, cruel e sádico. Aliás, sempre fora, ela apenas esquecia isso às vezes. Ganhara poderes, derrotara monstruosidades, mas a única coisa que queria fazer mais do que tudo estava fora de seu alcance.

Sentiu o coração apertar no peito, suas entranhas se comprimiram com a possibilidade que se tornava um fato. As pernas endureceram ao mesmo tempo em que o joelho ameaçava falhar, cada inspiração arranhava sua garganta e cada expiração enrijecia seus dedos em um punho.

Quando notou, estava de frente para a porta de entrada do apartamento. Chutou a madeira com força, esperando que a dor física eliminasse as demais, mas tudo que sentiu foi uma dormência na perna. Chutou de novo e amaldiçoou sua demora em agir. Chutou de novo e amaldiçoou os predadores. Chutou de novo e odiou tudo. Chutou de novo e odiou principalmente a si mesma. Chutou mais e mais, entre berros e gritos. A madeira era grossa e forte, tremia, reverberando a cada pancada, mas não cedia. Como queria que tudo que sentia vazasse através da violência e destruísse os arredores, porém quanto mais batia, mais doía. Era uma dor inacabável, ameaçando assombrá-la em cada momento de sua vida.

Só parou quando Fernando a puxou por trás para longe da porta.

— Tem gente do outro lado! Já deu!

Ela piscou e se viu de volta no farol. Dominique parecia aguardá-la, como se já soubesse de tudo que encontrara no apartamento. Sem dizer uma palavra, a idosa abraçou-a. Sua visão se borrou com as lágrimas, a tensão nos ombros cedeu e Bárbara não quis chutar mais nada, queria apenas chorar.

E foi isso que fez enquanto estava agarrada a Dominique. Seu mundo inteiro se desfazendo em lágrimas e lamentos.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 23

Desenho monocromático. O desenho mostra um corredor hospitalar e, no meio dele, um enorme monstro peludo com braços de duas juntas, rosto humanóide com tentáculos saindo de onde seria o nariz e, logo abaixo do rosto, um segundo par de braços pálidos e menores, com apenas uma junta. Ele anda de forma curvada e o suas costas raspam no teto, criando um rastro de sangue.
No canto superior esquerdo há o número vinte e três para indicar o capítulo.

O olhar de todos caiu sobre ela. Nicolas mantinha sua expressão neutra, mas com um leve ar de curiosidade, Bárbara parecia considerar, já Fernando pressionava os lábios em uma fina linha, e por um momento os olhos dele foram mais para baixo.

— Eu não acho que deva ir, não sozinha — disse ele. — É muito…

— Perigoso! Eu sei — interrompeu Dominique, sua voz um tom mais alta que o normal. — Mas quem vai então?

— Deveríamos ir todos juntos — respondeu ele, gesticulando para o restante do grupo. — Precisou de todos para escaparmos da última vez!

— Dominique é capaz de escapar sozinha se não enfrentar o originador. — O olhar de Nicolas pairou na idosa. — Ela é nosso melhor recurso para isso.

Não conseguiu evitar que um sorriso preenchesse seu rosto. Era inegável o quanto Nicolas considerava toda a situação.

— Eu ainda acho…

— Dá um tempo, preocupadinho! — Bárbara deu um tapa nas costas de Fernando. — Confia na véia.

Fernando passou a mão pelo rosto e respirou fundo.

— Só não inventa de atacar aquele bicho, pode ser pior dessa vez.

— Sim, o objetivo é descobrir alguma pista da identidade do cadáver que precisamos encontrar — reforçou Nicolas. — Se não conseguir, apenas fuja.

— Sem problema! — Dominique levou a mão a testa, batendo continência. — Não vão se decepcionar.

***

Os primeiros passos no andar da Perdição foram dados cautelosamente. Não havia mais som no andar, as botas de Bárbara ficaram para trás e tudo que Dominique ouvia era a própria respiração.

Logo encontrou a entrada ao quarto. Por mais que Fernando dissesse ser apenas uma pista de um predador duplo, havia algo a mais. Era um lugar mantido limpo e intacto, sobrevivendo aos efeitos do tempo graças a cuidados frequentes de alguém que espera um dia reencontrar o hóspede do cômodo. Um santuário, uma forma de lembrança, uma forma de sentir dor e de evitá-la.

— Desculpe — sussurrou Dominique.

Entrou no quarto e o grito estridente soou pelos corredores escuros. Estava lutando contra o tempo, não havia como manter a delicadeza. Apressou-se até os cadernos e folhou-os o mais rápido que pôde, buscando por algum nome. Nada. Procurou no violão, algo escrito com caneta permanente para marcar seu dono. Nada. Procurou na mochila que havia ao lado da mesa e, apesar de encontrar mais alguns cadernos, todos estavam sem nome, vazios. Havia também um estojo com lápis, borracha, caneta e marcador. Mais uma vez, nada de nome. Olhou para o porta-retratos, arrancou-o da parede, quebrou o vidro com um soco e puxou a foto, rasgando a imagem no processo. Escrito na parte de trás, com letras delicadas e perfeitas, estava o nome: Alice da Silva Dutra.

Saiu do quarto e viu o originador chegando perto. Se afastou sem olhar para trás, mas quando os passos do predador cessaram, arriscou uma espiada. Os tentáculos estavam esticados cômodo adentro, Dominique não conseguia ver o que estavam fazendo. Pensou em correr e ganhar uma vantagem antes que a perseguição começasse, mas algo no gesto chamava sua atenção. Talvez fosse o cuidado e a calma com que o monstro agia, a ternura no movimento dos tentáculos.

Mas então ele gritou. Não foi o som estridente de antes, mas um forte e rouco, lembrando um berrante. Virou na direção da idosa e a perseguição teve início. No entanto, o monstro deixou de ser sua única preocupação. O chamado para a guerra trouxe ao andar os diversos predadores que ocupavam o território. Do teto, chão e paredes, as bestas humanoides emergiram, lançando-se na direção de Dominique. Em meio a pulos e esquivas, ela foi perdendo velocidade.

Não ousava olhar para trás, serviria apenas para atrasá-la. Além do mais, não queria ver o originador se aproximando. Faltava quanto? Alguns metros, ou seria uma questão centímetros? Não sairia com vida se fosse pega.

Teve a cara de pau de ficar toda confiante na frente do grupo, tudo para correr por sua vida no fim. Lembrou-se dos olhos de Fernando, os mesmos que muitos direcionavam para ela, exalando a certeza de que, por conta de uma característica que nem a afetava ali, ela fracassaria. Mostraria que estavam errados!

Precisava ser mais veloz! Mas, por Deus, como faria isso? Estava mais rápida que o Usain Bolt, isso não era o suficiente? Sentiu-se, mais uma vez, presa em um corpo incapaz de atender todos os seus pedidos. Então, de repente, as veias saltaram na perna, os músculos incharam, rasgando a pele e expondo a carne. Não sentiu dor, apenas um êxtase que lhe subia pela cintura e infectava todo o corpo. Finalmente entendeu o significado de seu presente, de sua benção. Não era um corpo forte e veloz. Era mais. Um corpo livre da prisão lógica, das amarras colocadas. Se ela precisava ser mais rápida, bastava ser. Um sorriso emoldurou o rosto enquanto sua velocidade dobrava.

A primeira curva expôs suas limitações. Não conseguiu diminuir a velocidade, o medo das monstruosidades atrás de si a impulsionava e, antes que pensasse em uma forma de dobrar, acabou batendo. Moveu o ombro esquerdo para a frente no último segundo, deixando-o absorver todo o impacto. Ouviu um estalo e um choque de dor percorreu o braço. Não, sem dor, sem parar, sem hesitar. Com o seu desejo, a dor sumiu, deixando o corpo com uma sensação vazia.

Virou-se, enxergando de soslaio seus perseguidores se aproximando, e voltou a correr. Não sentia mais o ar contra o rosto, era como se o corpo inteiro estivesse dormente, uma marionete cujos movimentos eram decididos pelo titereiro.

Quando uma segunda curva surgiu, suas pernas a levaram para perto da parede e os dedos da mão esquerda penetraram o reboco da estrutura. Por um momento perdeu velocidade, mas seu braço fez força para mudar a direção, e logo em seguida já tinha feito a curva sem maiores complicações. Usando essa estratégia, conseguiu dobrar mais vezes sem perder tempo e sem chocar-se contra as paredes. Chegou ao elevador, esperando-a de portas abertas. Pela primeira vez no que pareciam ser horas, reduziu o ritmo. Foi como se todos os seus músculos tivessem a chance de relaxar e Dominique sentiu-se mole ao adentrar a cabine e direcioná-la para o necrotério. Os pés da idosa deslizaram pelo chão enquanto as portas fechavam, sentiu a pontada de dor no ombro, os ferimentos nos dedos e mãos causados pelas curvas, a ardência nas pernas, que voltaram ao normal e estavam mais do que sobrecarregadas. Mesmo com as dores distribuídas pelo corpo, não deixou de sorrir. Foi um belo exercício para descobrir do que era capaz, e sentia que faltava muito ainda para explorar.

Sua euforia pós-fuga desvaneceu assim que o elevador tremeu. O coração retomou o ritmo de antes, bombeando adrenalina para as veias e expulsando qualquer resquício de dor. Mais um tremor. De repente o elevador abandonou sua descida uniforme para se jogar em queda livre. Dominique foi lançada ao teto como um boneco de pano, cima se tornou baixo e esquerda virou direita. Um pensamento ressoou no cérebro: ela morreria em meio ao metal assim que o elevador atingisse o solo.

Enxergou os botões na ponta oposta da cabine e reorientou-se. Segurou-se no teto e socou o mais forte que conseguiu, abrindo um buraco na estrutura e em seguida arregaçando o metal com as duas mãos. Sem pensar duas vezes, saiu do elevador e lançou-se em direção a um dos suportes da parede. Firmou-se no suporte e viu a cabine desaparecer na escuridão abaixo de si, levando diversos cabos rompidos consigo.

Ouviu um estrondo vindo de cima, e por pouco não foi atingida por nacos de tijolo. Levantou o olhar, mas enxergou apenas a escuridão. Temia já saber a origem daquilo tudo, suas ações no quarto não seriam perdoadas. O originador abandonara seu andar.

Metros abaixo de si, havia um suporte de metal na parede parecido com aquele na qual Dominique estava agarrada. Soltou os dedos, caiu um pouco e agarrou-se no alvo. Acima de si os sons continuavam. Repetiu o mesmo movimento de antes, descendo mais devagar do que gostaria, enquanto ouvia a ameaça se aproximando. O monstro também parecia sentir a aproximação, pois começou a urrar. Sua salvação surgiu quando enxergou uma porta de elevador. Não quis nem saber se era ou não o necrotério, foi até ela, forçou os dedos entre as divisas e abriu-a com um grito. Entrou correndo na sala e puxou Bárbara para longe do poço.

— O que houve? — perguntou a jovem.

— Ele está vindo! Procure por Alice da Silva Dutra!

Próximos ao totem estavam Nicolas e Fernando. Bastou Dominique gritar o nome para que o líder deles se pusesse a buscar na lista interminável do tablet. Não demoraria muito, mas tempo era algo que lhes faltava.

— Pão? — perguntou Fernando.

— Pão! — respondeu Dominique.

O colega passou seus dedos ágeis pelo fecho da mochila de entrega, abrindo-a em um segundo. Agarrou o conteúdo lá de dentro e atirou. A mira do padeiro falhou, mas os reflexos da idosa compensaram. Dominique pegou uma massinha doce pequena, e logo botou goela abaixo. Seus ferimentos desapareceram e um grunhido deixou a garganta de Fernando.

Sentiram um tremor no andar inteiro, seguido por um grito de raiva e da parede do elevador rachando e quebrando logo em seguida. O originador invadiu o necrotério diferente da última vez que o viram. A pelugem, antes negra, mudara para um tom vermelho pálido e doente, os tentáculos brancos tornaram-se mais agitados e ativos, como se perscrutassem qualquer partícula no ar que se movesse. A criatura investiu contra os alvos mais próximos: as duas mulheres.

— Deixa comigo! — Bárbara avançou.

Ela não deu mais do que cinco passos antes de se aproximar da criatura. O originador moveu a mão cheia de garras em um ataque lateral que deixaria dilacerado qualquer um, com exceção de sua atual oponente. Assim que Bárbara foi atingida, as rachaduras se espalharam e a jovem liberou a explosão que guardava dentro de si.

O efeito no predador foi mínimo, serviu apenas para jogá-lo alguns metros para trás. O golpe em Bárbara teve mais efeito, lançando-a contra os gavetões de necrotério, que ressoaram com a força do impacto, mas não foram amassados. Assim que a motoqueira caiu deitada no chão, Dominique agiu. Mais uma vez suas pernas responderam à altura e de um segundo a outro a idosa disparou como um projétil na direção da besta. Estava abaixo do predador e pronta para saltar e cortar fora os tentáculos quando Nicolas gritou:

— Pronto!

Dominique parou, o predador parou, talvez até o mundo. Os gavetões moveram-se como na outra vez, trazendo para perto deles o cadáver de Alice. O tempo retomou seu fluxo assim que uma gaveta próxima ao chão se abriu, revelando um corpo coberto.

O originador caminhou na direção do cadáver, e Dominique saiu de sua frente. Era a oportunidade perfeita para atacar, mas de alguma forma, sabia que o melhor a fazer era deixá-lo ir. Quando estava próximo do gavetão, os braços humanos emergiram da pelugem e descobriram Alice. O predador emitiu outro som, bem diferente da raiva e ódio que projetara até então. Ele chorou.

— Estrela… Apagada — disse ele, ou melhor, ela. Era definitivamente a voz de uma mulher. Estava embargada e difícil de compreender, mas Dominique reconheceria a tristeza de uma mãe em qualquer lugar.

Cobriu o corpo e empurrou-o para dentro da gaveta, fechando-a em seguida. O andar tremeu, o chão rachou e as gavetas começaram a sair de suas posições, caindo ao redor do grupo. O território estava se desfazendo, e junto disso veio a inconfundível sensação de que poderiam sair.

— Vamos voltar — disse Nicolas.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 22

Desenho monocromático. O desenho mostra um necrotério repleto de gavetas que sobem até desaparecer da visão. No centro do local há um totem com um tablet. Uma das gavetas próximas ao chão está aberta, e nela há uma maca com um corpo tapado. No canto superior esquerdo há o número vinte e dois para indicar o capítulo.

As mãos eram suficientes para cobrir o tronco e parte das pernas, e apertavam-na com força crescente. Por mais que tentasse, Dominique não conseguia sair, não conseguia mover nada além dos pés e do braço esquerdo, que estava livre do agarrão. Atrás de si, Nicolas estava com os olhos focados na criatura, mas imóvel. Fernando estava logo ao lado do líder, alternando entre o homem e a criatura. A única a se mover era Bárbara, mas o que ela faria? Seu poder funcionava melhor quando ela era o alvo dos monstros. Nenhuma ajuda viria. Não, não. Que pensamento derrotista era esse? Ela disse a Joaquim, não disse? Tinha um dever, uma missão dada a grupo seleto. Se era para morrer, faria isso dando o máximo de trabalho possível.

Olhou para o rosto do predador. Ele afastou-a um pouco de si quando agarrou, e agora movia os lábios rapidamente. Entre Bárbara gritando abaixo de si e as batidas de coração que pareciam tambores abafando o resto, conseguiu ouvir um sussurro:

— Minha estrela, minha pequena estrela, é você?

Sem tempo para fazer sentido de loucuras, Dominique reagiu, socou as mãos da criatura, deu cotoveladas. Nada tinha efeito, porcaria! Esticou o braço para puxar um dos tentáculos, mas estavam longe demais. Se ela tivesse uma arma, talvez um facão, alcançaria o predador e cortaria tudo.

Nesse momento, sentiu o antebraço livre perder a sensibilidade, a pele ficou pálida, a roupa desapareceu e os ossos mudaram de forma. A carne secou e o osso transformou-se em metal, moldando-se no formato de um facão longo. Não havia porquê entender o que aconteceu, sobrevivência era essencial. Balançou o braço-facão e cortou de uma vez só cinco tentáculos.

A criatura berrou e soltou a idosa, que se estabacou no chão. Antes que pudesse se erguer, um dos enormes braços do predador moveu-se para esmagá-la. Sua reação instintiva foi encolher-se e aguentar a dor, mas o impacto não veio. Viu Bárbara sobre si, o corpo tão cheio de rachaduras quanto um copo trincado. Ao fundo, o braço se erguia mais uma vez. Dominique ergueu-se, passou a mão na cintura de Bárbara e saltou para o lado com a companheira. O chão atrás delas foi atingido na sequência, rachando o piso e soltando cacos de porcelanato para todos os lados. Mal tinham se recomposto e o originador preparava outro ataque. Precisavam ser mais rápidas!

— Me proteja mais uma vez! Vou atacar em seguida! — gritou Dominique.

Teria apenas uma chance de cortar os tentáculos restantes. Se errasse, ficaria suspensa no ar e a experiência no território do metrô mostrou que era vulnerável demais assim. A mãozorra desceu e mais uma vez Bárbara aguentou o golpe, erguendo os dois antebraços. Seus joelhos flexionaram, as fendas no corpo multiplicaram e jaqueta irradiou ainda mais o vermelho das asas. Dominique aproveitou o momento para saltar com toda a força na direção da cabeça do monstro e, enquanto passava pela protuberância, usou o facão para cortá-la. Por pouco não foi atingida por um golpe do originador enquanto ele se debatia.

— Vamos, vamos! — disse a idosa ao aterrissar.

Ela e Bárbara se afastaram enquanto o predador enlouquecia. Berrando e se debatendo, as mãos socavam as paredes, as unhas arranhavam pedaços do chão como se fossem areia molhada, tudo isso enquanto ignorava a presença dos demais.

— Precisamos… sair — disse Nicolas, assim que reagruparam.

O grupo inteiro correu para longe, procurando por uma segunda saída. A loucura do originador diminuiu até cessar e logo não ouviam mais nada, silêncio total a não ser pelas próprias batidas dos calçados contra o piso.

Encontraram uma escada para baixo e, por falta de plano melhor, desceram-na. Com o andar inferior sendo idêntico, tomaram o caminho direto até o elevador. Não demorou muito para os tremores começarem, mas, graças a Deus, chegaram sem problemas. Ele estava com as portas abertas, como se estivesse apenas aguardando o grupo. Dominique apertou um botão sem nem pensar. Enquanto a porta fechava, viram o originador emergir ao derrubar uma parede próxima. A protuberância estava de volta junto com todos os tentáculos. Ele virou o corpo na direção deles, mas não fez menção de segui-los.

Chegando no térreo, correram até a rua e, com exceção de Dominique, largaram-se todos pelo chão. A idosa ouviu alguém lhe perguntando sobre ferimentos, mas ela estava distraída com seu braço esquerdo, que voltara ao normal.

— O que acontece agora? — perguntou Fernando, esfregando as mãos cobertas de rachaduras após ajudar Bárbara.

— Ele é capaz de se curar — disse Nicolas, recuperando a compostura. — A maioria do que Dominique fez não teve efeito, capaz de Bárbara não ter muita utilidade também.

— A pele dele é bem grossa, senti como se tivesse batendo em concreto puro. — Dominique olhou para a mão direita. — Se formos atacar, tem que ser na cabeça.

— Antes de qualquer coisa, como tu fez aquilo? — perguntou Bárbara, apontando para seu braço esquerdo.

— Eu não sei, pensei que queria uma forma de cortar os tentáculos, quando notei já estava com uma lâmina no braço. — Levantou a mão esquerda para o alto. — Devo ter entendido errado minha benção.

— Ainda assim, não podemos desistir! — Fernando alternava o olhar entre os demais. — Ferimos ele um pouco.

— Não é o suficiente, fomos apenas um incômodo — rebateu Nicolas.

— Menos que isso eu diria. — Bárbara cruzou os braços.

— Tem outra coisa… o originador falou algo enquanto me prendia — disse Dominique.

— Que palavras ele usou? — perguntou Nicolas, avizinhando-se.

— “Minha estrela, minha pequena estrela, é você?”. — Dominique suspirou. — Mas não vejo como isso vai ajudar muito, desculpe…

— Não se desculpe — disse o líder. — Temos que entender mais um pouco desse lugar.

— O que há mais para entender? — perguntou Fernando. — Não estivemos em todos os andares já?

Nicolas e Bárbara trocaram um olhar.

— O andar -1 — disse a mulher mais jovem. — É realmente um lugar ou só um defeito no elevador?

— Vamos descobrir.

Fernando se levantou, Dominique foi em seguida e ajudou Bárbara a ficar em pé. Mais um andar, com sorte seria um lugar pequeno e sem predadores. Pena que estavam sem sorte naquele dia.

Caminharam de volta ao elevador e entraram nele. Os botões dispostos na vertical não indicavam sinal algum de ter outro andar. Investigaram juntos o resto da cabine, procurando por alguma dica. Minutos se passaram até que saíssem de mãos vazias.

— Talvez dê para entrar só pelo poço. Abrimos a porta e eu pulo — sugeriu Dominique.

Um par de enfermeiros saiu de uma sala trazendo consigo uma maca, utilizaram o elevador e subiram para outro andar.

— Nem pensar, e se não tiver fundo? E se tu não voltar, o que fazemos? — questionou Fernando.

— É uma boa ideia. — Nicolas assentiu. — Mas só até a parte de abrir a porta.

Assim, com a ajuda de Dominique, forçaram a porta. O poço não acabava no térreo, ia mais para o fundo. Olhar aquele abismo trouxe um frio na ponta dos dedos da idosa, junto com a certeza que não gostaria de descer até lá.

— Não dá para fazer uma corda e descemos de rapel? — perguntou Bárbara. — Aí se tiver um perigo tu só puxa para cima.

— Não. — Nicolas nem olhou para ela ao responder. — Serve apenas para enforcamento e restrição. E também, meus alvos precisam estar ao meu redor, então se eu descer alguém, eventualmente não vou conseguir mais prender essa pessoa.

— Tentei. — A motoqueira deu de ombros.

Fecharam a porta e aguardaram o elevador descer, entrando nele mais uma vez em uma nova tentativa de descobrir como chegar ao andar oculto. Investigaram mais um pouco, porém não havia nenhuma dica.

— Talvez… — começou Bárbara. — A gente não deva ir lá? Tipo, lugar proibido e tal.

— Por essa lógica nem deveríamos estar aqui, ou estar vivos — disse Fernando.

— Não, faz sentido. Um andar que não deveria ser acessado, que precisa ser descoberto. Algo que o originador quis manter oculto de qualquer um, mas que se olharmos sob a superfície, será encontrado. — Nicolas olhou para os botões do elevador. — Talvez a solução precise de um pouco de violência. Dominique, arranque o painel.

Feliz em ajudar, a idosa se aproximou e forçou a mão contra o metal. Seus dedos atravessaram a proteção sem muita resistência, e ela puxou. O painel resistiu por um tempo, até que abriu com um estalo, girando para fora como uma porta.

O interior revelou ser um compartimento cheio de placas eletrônicas fixas na parede e fios coloridos, alguns levando para entradas na parede que Dominique não fazia ideia de onde iam dar. Na parte de trás do painel de botões, havia uma placa redonda para cada botão, todas ligadas por fios que se juntavam e, se tinha entendido corretamente aquele mundaréu de cabos, ligavam-se nas placas que estavam fixas à parede.

— Aí sim! Olha ali! — Bárbara apontou para a sequência de botões, onde uma das placas de seleção de andar estava suspensa, ligada aos fios, mas não estava conectada em nenhum dos botões.

— Como sabia? — perguntou Fernando.

— Não sabia, foi experimentação. — Nicolas passou os olhos por cada um deles. — Descemos então. Todos prontos?

O grupo se aninhou no meio do elevador. Nicolas substitui a placa do andar Recuperação por aquela que supostamente os levaria até o subterrâneo e apertou o botão. As portas do elevador fecharam e o frio na barriga que surgiu indicava que desciam.

Levou quase um minuto para as portas se abrirem. No painel de andares estava o -1 que viram antes. Bastou darem um passo para fora que sentiram o ar gelado que percorria o andar inteiro.

Era uma única sala comprida e alta, com paredes feitas de metal e fileiras e mais fileiras de gavetas que as preenchiam, subindo até o teto, por onde uma única lâmpada de luz branca e forte dava conta de iluminar tudo.

A alguns metros de distância do elevador, havia um totem com um tablet próximo do topo. Era discreto e cinza, do tipo que se encontra em muitas lojas Brasil afora. Não demorou para se aproximarem do dispositivo, que estava em um aplicativo de contatos. Diversos nomes cobriam a tela, separados por uma linha horizontal. Nicolas deu um passo à frente e tocou em um dos nomes. Uma nova janela abriu, contendo mais informações sobre a pessoa.

NOME: AMANDA PACHECO AMARAL

IDADE: 23 ANOS

ALTURA: 1,76 M

PESO: 68 KG

A lista de descrições físicas era enorme, e uma foto no canto superior direito mostrava o rosto da tal Amanda. Nicolas se demorou lendo tudo que tinha na tela e, ao final, precisou rolar para baixo. No fim de tudo, havia informações que chamaram mais atenção que as outras.

CAUSA DE MORTE: PERDA DE SANGUE

CAUSADOR DA MORTE: AMANDA PACHECO AMARAL

HORÁRIO DA MORTE: 00H23

Havia um botão azul também: “Mostrar Cadáver”. O dedo de Nicolas pairou por alguns segundos acima da tela, mas, por fim, acabou tocando no botão. Seguiu-se um som alto, como se mecanismos há muito tempo parados voltassem a funcionar. As gavetas do necrotério começaram a se reorganizar. Subiam, iam para o lado e desciam. Depois de poucos segundos, uma delas ficou ao nível do chão, se abriu e levou para fora a bandeja mortuária contendo uma pessoa. Estava coberta dos pés à cabeça por um plástico branco que não permitia a ninguém ver o que havia por baixo.

— Dê uma olhada no cadáver — ordenou Nicolas a Bárbara.

— Eu não, vai tu.

Então Nicolas foi. Levantou o plástico na área da cabeça, olhou por alguns segundos para o rosto, e fez o mesmo na área dos pulsos. Voltou ao totem.

— É a Amanda mesmo, pelo menos em aparência — disse ele.

O botão se tornou vermelho e anunciava a opção de “Ocultar Cadáver”. Nicolas o apertou e o corpo de Amanda voltou para a gaveta. Voltaram à lista de nomes. No topo dela havia um sino cuja cor anterior era cinza, e que mudara para vermelho. Ao tocar no símbolo, abriu-se uma pequena janela com os dizeres:

LAURA SCHMITT ADICIONADA À LISTA

HENRIQUE OLIVEIRA ADICIONADO À LISTA

EDUARDO MOURA ADICIONADO À LISTA

FRANCIANO GAIESKY ADICIONADO À LISTA

Nicolas fechou a janela de novas adições e seguiu conferindo outras pessoas. Todas tinham tantos detalhes quanto a primeira, e sempre mostravam a causa da morte. Assim que chegaram na letra “C”, Fernando disse:

— Deixa eu mexer aí.

— Quer procurar alguém? — perguntou Nicolas, sem se virar.

— Quero.

— Quem?

— Eu mesmo, acho.

O líder deu espaço ao padeiro, que rolou e rolou até achar um nome: Cleber Martines. Ele abriu as informações da pessoa e deparou-se com a foto do pai. Dominique sutilmente olhou para outra direção, dando um pouco de privacidade ao colega.

— Qual o nome completo do Igor? — perguntou Fernando.

— Igor… Machado — respondeu Bárbara.

Fernando buscou pelo nome na lista quase interminável do tablet, até que parou com o dedo.

— Eu… — Olhou para Bárbara. — Quer abrir?

A mulher ficou tensa. O corpo, mesmo sem as rachaduras, parecia prestes a se desfazer em pedaços. Ela assentiu, tomou o lugar de Fernando e abriu as informações de Igor.

NOME: IGOR MACHADO

IDADE: 13 ANOS

ALTURA: 1,52 M

PESO: 42 KG

Bárbara fechou os olhos, colocou as mãos no rosto e soltou o ar. Seus ombros caíram, mas ela logo olhou para Fernando e disse:

— Não é ele.

Dominique passou as mãos nas costas da companheira. Era uma sensação estranha estar aliviada com a morte de outra pessoa, ainda mais de uma criança.

— Ainda temos chance, então — disse Fernando, olhando para Nicolas. — Eu tenho uma teoria de como eliminar o predador, mas pode ser que não funcione.

— É melhor que ter ideia nenhuma — disse Bárbara. — Desembucha aí.

— No metrô havia aquele monstro grandão e um maquinista no mesmo lugar, acho que aqui pode ser parecido. Lembram daquela sala no andar da perdição? Deve ser uma pista! Uma dica de que o verdadeiro não é o monstro que enfrentamos, mas um desses cadáveres.

Nicolas assentiu enquanto mexia na corda em seu pescoço e ajeitava a gola da camisa.

— Só tem um problema: como vamos descobrir o nome da pessoa? — Bárbara passou um dos dedos pela tela, rolando a página. — Olha isso! A lista é enorme!

— Talvez a gente volte ao quarto dela e procure alguma identificação? — sugeriu Fernando.

— E se arriscar lá de novo? — Bárbara levantou uma sobrancelha. — Não acho que vamos ter tanta sorte dessa vez. Ainda mais que um vai ter que ficar procurando no quarto enquanto os outros seguram o monstro.

Pronto, ali estava sua chance. Uma forma de provar para eles que era capaz, que ia muito além de sua aparência. Antes que a discussão tomasse outro rumo, Dominique disse:

— Eu vou! Deixem isso comigo.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 21

Desenho monocromático. O desenho mostra um rosto humano glabro saindo de um corpo peludo e grande. No rosto, onde deveria ficar o nariz e os olhos, há um apêndice similar ao de uma toupeira-natiz-de-estrela, de onde despontam diversos tentáculos finos e compridos se espalhando em diferentes direções.
No canto inferior esquerdo há o número vinte e um para indicar o capítulo.

Deixou os dois jovens liderarem a busca durante algum tempo. Apesar das palavras, sua cabeça ainda estava no quarto, queria ficar mais um tempo lá. Sabia muito bem da verdade: Joaquim morrera no mesmo acidente que tirou suas pernas. Não fazia ideia de como, mas aquele ali era apenas uma cópia, uma sombra. Mas que sombra calorosa era essa!

Havia passado por uma dezena de quartos quando conseguiu se recompor e andar ao lado de Bárbara. Não ousou conversar, em vez disso, focou em entender aquele lugar. Predadores não eram seres que se alimentavam de pessoas? Por que então criar o hospital? Por que criar aquele lugar tão agradável e tentador? O que estavam falhando em ver?

Encontraram Fernando dentro de um quarto cujo nome do paciente era Cleber. Não era muito difícil imaginar o homem mais velho como o pai do companheiro, tinha por volta de cinquenta anos e dava para ver muitos traços de semelhança. Os mesmos braços largos, a pele morena, o queixo quadrado, mas as características mudavam a partir daí. Os olhos eram duros e ele parecia ser do mesmo tamanho de Nicolas.

— Vocês estão aqui também — disse Fernando ao vê-los, um sorriso de criança tomando seu rosto. — Entrem, venham ver meu pai.

Bárbara trocou um olhar com Dominique e, após um momento de hesitação, todos entraram.

— Não se acanhem, não tô tão mal assim pra quebrar igual vidro — disse o pai, gesticulando para que se aproximassem.

— Também não se faz de durão, acabou no hospital de qualquer forma — replicou o filho.

Dominique respirou fundo e se aproximou, a única a fazer isso. Sabia de luto melhor que os outros dois, era a mais adequada para lidar com a situação.

— Tu deve ser a tal Dominique — comentou Cleber. — Agradeço pela ajuda ao meu filho.

— Eu que devia agradecer. — Olhou para Fernando por um momento. — Seu filho é um homem incrível e gentil, estaríamos com muitos problemas se não fosse por ele.

Cleber inflou o peito ao ouvir isso e abriu um sorriso de orelha a orelha.

— Ele sempre foi assim, o orgulho da família.

Os dois trocaram mais algumas palavras. A aposentada sabia bem o que precisava dizer em seguida, mas não conseguia. Seu foco estava em falar com Cleber. Precisava usar alguma inconsistência ou fato estranho que o pai dissesse para provar que era apenas uma cópia. Sabia, no entanto, que não encontraria. Era a melhor das ilusões, perfeito e igual ao original em cada sentido.

— Incrível, né? — disse Fernando. — Depois de anos eu o encontro aqui.

O olhar da idosa rumou até o rosto iluminado do companheiro. Não queria formar as palavras necessárias, era quase crueldade. Os dizerem chegavam até a boca, torciam-lhe a língua, então eram engolidos de volta, arranhando a garganta. Olhou para Nicolas, esperando que o líder do grupo a ajudasse nem que fosse com a mais crua das frases, mas não foi dele que veio o auxílio.

— Seu pai está morto. — A expressão de Bárbara era fechada e o corpo inteiro estava retesado, como se estivesse prestes a levar um golpe.

Como espelho sendo quebrado, a expressão de Fernando mudou. Seu sorriso resplandecente desapareceu e uma escuridão de reconhecimento tomou conta.

— Do que está falando? — Fernando baixou o tom de voz. — Ele está ali.

— É uma imitação — disse Nicolas, em voz alta. — Ele está morto, igual todos os pacientes nesse hospital.

Fernando encarou Cleber e foi encarado de volta. Não trocaram uma palavra sequer, mas, de repente, a pele de seu pai ficou mais pálida, a íris passando para um tom esbranquiçado.

— Vocês estão errados — sussurrou Fernando. — Ele está aqui, vivo! Não entendem?!

— Eu falei com meu falecido marido há pouco — interveio Dominique. Seu tom de voz era calmo e baixo, quase como se estivesse lidando com um animal assustado. — É muito parecido e pode ser que até seja seu pai, mas ele se foi. Os vivos não podem ficar presos aos mortos, por mais doloroso que seja, devemos deixá-los irem e descansar.

O olhar de Fernando percorreu o rosto de Dominique, Bárbara e por fim Nicolas. Sua expressão e postura mudaram. Não era mais um animal assustado, parecia encurralado, capaz de usar unhas e dentes para sair vivo.

— Então eu posso curar feridas impossíveis. Com. Um. Pão! Uma velha é mais forte que halterofilistas, uma tem um corpo igual pedra e o outro cria cordas do nada, mas meu pai não pode voltar à vida?! — As palavras eram cuspidas. — Hipócritas! Vão à merda e continuem com essa aventurazinha idiota! Eu ficarei.

— Conseguem tirar ele daqui? — perguntou Nicolas.

Dominique ficou relutante, mas assentiu mesmo assim. Não podiam abandonar Fernando, mas nenhum deles era tão próximo a ponto de argumentarem e enfiarem a razão na cabeça do homem.

Foi um processo lento e cuidadoso na medida do possível. Bárbara e Dominique o seguraram e arrastaram, em meio aos gritos, choro e ameaças até o lado de fora do quarto. Socos e pontapés foram desferidos contra as duas, mas elas não revidaram. Quando o soltaram a alguns metros da porta do quarto, caiu de joelhos no chão, o olhar fixo em algum ponto na parede.

Nicolas saiu por último e fechou a porta. No segundo seguinte, o padeiro pulou no pescoço do engravatado, a fúria voltando aos seus olhos. Não fosse Dominique impedir, imaginou que os dois estariam se engalfinhando no chão. Foram necessários alguns segundos para que Fernando se acalmasse e desabasse novamente, desta vez com uma expressão de derrota. Ficou assim alguns minutos, até que começou a soluçar.

— Eu não acredito — disse Fernando, limpando as lágrimas com as mãos. — O que aconteceu comigo? Eu estava… Eu queria…

— Culpe o território, não a si mesmo — disse Nicolas.

— É cara, não é sua culpa. Esse lugar que é estranho — disse Bárbara, se agachando e afagando o ombro de Fernando.

— Melhor encontrarmos Igor e sair logo daqui — pediu Dominique, quanto mais cedo fugissem, melhor seria para todos.

— Não! — Fernando se levantou em um solavanco. — Esse predador morre hoje.

— Tem certeza? — perguntou Bárbara. — Tu não parece bem.

— Não estou bem, mas não vou aturar que esse monstro continue por aí.

— Decidimos isso depois de encontrar Igor — disse Nicolas. — Nossa prioridade aqui é o resgate.

Caminharam por mais uma hora, abrindo todas as portas que encontravam. Em determinado momento, avistaram uma escadaria para o andar inferior, mas a ignoraram. Passaram a encontrar identificações contendo nomes estrangeiros, chegando a ter até mesmo letras de outros alfabetos. Abrir essas portas sempre revelava um interior igual aos demais, porém os ocupantes eram de outra nacionalidade e conversavam em outro idioma. Quando enfim chegaram ao final do corredor, deparando-se com uma parede sem janelas, voltaram até a escada e foram ao andar inferior.

Não sabia quanto tempo perderam naquele andar, mas a cada porta, a cada minuto, Bárbara parecia mais apressada. Tinham dezenas, se não centenas, de quartos a verificar, mas e se Igor não estivesse em nenhum deles?

Revistaram todo o andar inferior e nem sinal do amigo de Bárbara, tudo que encontraram foi um elevador de portas fechadas, o painel sinalizando que estava no terceiro andar, e mais uma escadaria para baixo. Desceram e repetiram o longo e cansativo processo de busca, sem obter resultado algum. Havia outro elevador apenas, e nada de escada.

— Talvez ele esteja no primeiro andar? — sugeriu Bárbara. — Vamos voltar lá e investigar.

— Aqui não é o primeiro? — perguntou Fernando.

— Pela lógica, deveria ser — respondeu Dominique. — Só que não encontramos a recepção até agora.

— Lógica não é o forte dos territórios — disse Bárbara.

— É bom começar a pensar na possibilidade de que Igor não está mais vivo — disse Nicolas, de repente.

Em um piscar de olhos, Bárbara virou-se, agarrou a corda no pescoço do homem alto e puxou-o para perto.

— Ele não está morto! — gritou ela.

Dominique se moveu para segurar a jovem, mas Nicolas levantou a mão, pedindo para não interferirem. O líder sustentou o olha furioso de Bárbara enquanto falava:

— Ele está aqui a uma semana, se formos levar em consideração a história que você nos contou. O que acha que acontece com aqueles que ficam tempo demais aqui? Sem comer, sem beber. Parece um lugar confortável nesses quartos, mas lembre-se…

Bárbara não o deixou continuar, empurrou Nicolas para longe.

— Eu sei disso, porra! Mas não revistamos tudo. Enquanto eu não olhar cada pedaço desse lugar, Igor está vivo.

— Não sabemos como funciona a passagem de tempo aqui, uma semana por ser um dia ou algumas horas. — Fernando colocou-se entre os dois. — Vamos revirar esse lugar de cabeça para baixo antes de levantar a possibilidade de morte. Que tal?

Com um clima ainda mais pesado que antes, rumaram para o elevador, que ainda sinalizava o terceiro andar. Apertaram o botão, esperando que fossem levar alguns segundos para chegar, mas ele abriu instantaneamente.

— Botões estranhos — disse Dominique, após entrarem. — Vocês não comentaram disso.

— Era tanta coisa que até esqueci dos nomes bestas. — Bárbara balançou a cabeça.

— Se eu estiver correto, só o elevador é capaz de nos transportar entre diferentes andares, então tudo que caminhamos desde que saímos é o terceiro andar — disse Nicolas.

— Isso significa que tem muito para ver ainda — murmurou Bárbara.

O líder apertou o botão para o andar “Perdição”. As portas se fecharam e abriram logo em seguida, mostrando um corredor com as lâmpadas principais desligadas, dependendo apenas das luzes emergenciais para manter o mínimo de iluminação. Naquele andar coberto pela penumbra, as portas eram vistas pela metade e o espaço entre as lâmpadas era incerto.

Bárbara e Dominique saíram primeiro do elevador. As lâmpadas piscaram por um momento, como que para recebê-los, dar boas-vindas e prepará-los para o pior.

Repetiram o mesmo processo do andar Recuperação, abrindo todas as portas que encontravam. Ali, no entanto, sempre achavam quartos vazios. Sem pessoas, decoração ou móveis. Desocupados e abandonados.

Caminharam por corredores empoeirados durante algum tempo, até que, em uma parede à direita, encontraram um buraco. Era oval e imperfeito, grande o suficiente para passar um pequeno caminhão.

Dentro havia um quarto devidamente limpo e arrumado, até a poeira se recusava a entrar nele. No fundo do diminuto cômodo, no lado direito, uma cama de solteiro estava coberta por um lençol azul-claro e um travesseiro branco. De pé, encostado na parede ao lado da cama, estava um violão e no chão próximo ao instrumento haviam cadernos abertos, mostrando partituras. Ainda no fundo, mas no lado esquerdo, havia uma pequena mesa com um notebook aberto em um programa de áudio que emitia um som agradável, acústico e simples. Uma voz jovem cantava, acompanhando o toque do violão. Até mesmo para alguém sem muito senso musical como Dominique, aquele não era o melhor dos sons, e sim alguém tentando aprender.

No meio, entre violão e notebook, preso no alto, havia um porta-retrato. Nele, uma adolescente, talvez até jovem adulta, sorria. Seus cabelos loiros, quase dourados, destoavam com os olhos escuros. As sardas no rosto, próximas ao nariz pequeno e boca rosada pareciam deixá-la mais jovem do que era.

— Ficou ótimo! Perfeito! — A música cessou, dando lugar a uma voz de mulher adulta.

— Está ruim ainda, preciso treinar mais. — Outra voz, agora mais jovem, contrariou.

Então outra música começou a sair pelos alto-falantes do aparelho. Desta vez somente o canto, sem violão.

Dominique deu um passo adiante, entrando no quarto. Foi então que seu estômago se apertou, o chão balançou e um grito percorreu os corredores do hospital. Era um aviso, uma ameaça para instigar medos nos invasores.

— O originador está vindo, vamos recuar — disse Nicolas.

— Fugiremos dele? — perguntou Fernando, se colocando ao lado do engravatado.

— Não acho que será uma boa ideia lutar contra ele aqui, talvez se o levarmos até a rua tenhamos mais chances.

E com isso o grupo se reorganizou para voltar correndo até o elevador. Os tremores ocorreram mais vezes, sua frequência aumentou, inclusive a origem estava cada vez mais próxima. Quando o elevador estava em sua visão, a parede à frente do grupo se estraçalhou. Poeira, reboco e fragmentos de tijolo preencheram a visão de Dominique por um instante. Estes deram lugar a uma criatura de corpo largo, capaz de ocupar metade do corredor do hospital, e coberto por uma fina e curta pelugem negra, com um calombo nas costas que raspava no teto, criando uma zona esfolada e sangrenta. O tronco oval terminava em uma grande cabeça humana pálida, orelhas onde deveria estar o nariz e os olhos. Uma protuberância se alongava e terminava se conectando a diversos tentáculos rosados que, em sua origem, possuíam um formato estelar. Os apêndices eram finos e compridos, se espalhando ao redor da criatura. Os braços com quase o mesmo comprimento do corpanzil saíam da área logo atrás da cabeça, começavam cobertos por pelos e iam perdendo-os até chegar nas mãos, achatadas e compridas, com os dedos e unhas curtos. As duas juntas nos braços faziam eles se dobrarem de forma bizarra. Dominique era assomada por repulsa e náusea instintivas, e dessa vez também havia um estranho fascínio.

O grupo estacou durante um momento, a poeira terminou de baixar e a criatura saiu por completo da abertura na parede, revelando pernas curtas e musculosas, pés compridos com dedos e unhas longos. Os tentáculos se espalharam, tocando as paredes em volta e criando uma espécie de rede.

— Dominique, vá com cuidado — disse Nicolas, sua voz calma e baixa.

E como uma flecha, ela correu, atravessando a distância entre o grupo e o originador em um piscar de olhos. Os tentáculos vibraram e o inimigo moveu o braço direito para atacar. Uma corda se materializou a partir da parede e se enrolou no punho da criatura, impedindo o golpe. Antes que pudesse usar o membro livre, uma segunda corda o imobilizou. Dominique aproveitou para desferir um soco no corpo da criatura. Sabia de sua força, sabia que não era pouca em nenhum padrão que usasse. Porém, bater naquele originador era como socar o tronco da mais grossa das árvores: não teve efeito algum.

Dominique socou mais uma vez. Nada. O monstro urrou e forçou mais as cordas, arrebentando todas de uma vez só. Antes que suas mãos alcançassem Dominique, uma nova leva de amarras surgiu, parando os braços e pernas da criatura.

— A cabeça! Vai na cabeça! — gritou Bárbara.

Olhou para cima, vendo os tentáculos que saíam do rosto e esquadrinhavam os arredores. Não tocavam em nada, mas moviam-se de forma errática, como se estivessem cobrindo território. Se tinha algum ponto fraco, era aquele. Sentiu os músculos da perna retesando e saltou com altura suficiente para alcançar o rosto da coisa. Agarrou-se com a mão esquerda na protuberância e com a outra mão puxou um dos tentáculos, arrancando-o. Um líquido branco espirrou ao redor, sujando o rosto e corpo de Dominique. O predador guinchou, os demais tentáculos moveram-se ao mesmo tempo e sem coordenação alguma, esbarrando uns contra os outros. Estava funcionando! Largou o apêndice arrancado, mas antes que pudesse puxar um segundo, um par de braços humanoides emergiu dos pelos abaixo da cabeça do originador e agarram-na com força surpreendente.

Seu coração acelerou enquanto aquelas mãos geladas e esbranquiçadas tocavam seu corpo. Não queria pensar na derrota, mas tudo que veio em sua mente era a morte. Seu corpo seria esmagado, os ossos quebrariam, os órgãos seriam destruídos e restaria apenas uma carcaça deformada. Por um segundo, imaginou que era esse mesmo seu destino: morrer nas mãos de predadores.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 20

Desenho monocromático. O desenho mostra o interior de um elevador espaçoso com dois enfermeiros sem rosto, um homem e uma mulher, e no meio deles há uma maca coberta por um lençol manchado de sangue. O sangue pinga da maca e cai no chão do elevador.
No topo há o número vinte para indicar o capítulo.

Em um segundo estavam apenas os quatro, e no seguinte foram cercados por uma multidão de predadores, criaturas humanoides de braços grossos terminando em mãos achatadas de dedos curtos e grossos contendo garras. Não possuíam olhos e o formato da cabeça assemelhava-se a um focinho de animal, terminando em um nariz achatado na ponta do rosto, com cor mais rosada que o resto do corpo. Possuíam coordenação surpreendente, navegando habilmente entre si e encurralando o grupo. Bárbara tentou manter-se próxima aos outros, mas os inimigos eram muitos e quando deu por conta estava sozinha.

Cordas surgiram para erguer os predadores, e a motoqueira aproveitou o enforcamento de diversos inimigos próximos para olhar os arredores. Encontrou Dominique sendo abraçada por um homem desconhecido. Gritou para a idosa, mas sem efeito. Os dois afundavam no chão e, Bárbara foi bloqueada antes que pudesse se mover na direção da companheira. Deu um encontrão na criatura à sua frente e conseguiu linha de visão para Dominique mais uma vez, mas não havia sinal da mulher.

Procurou por Fernando e não o encontrou, teria sido raptado também? O único que restava era Nicolas, rodeado pelos monstros. Cordas surgiam a todo momento, mas onde antes havia um corpo, logo estava um novo inimigo. Bárbara disparou na direção do último companheiro, amaldiçoando a própria incapacidade de proteger os demais. Garras atingiam seu corpo a cada passo e, por mais que resistisse aos ferimentos, a dor marcava presença.

As cordas pararam de surgir e os predadores conseguiram chegar perto de Nicolas. Bárbara acelerou e deu um empurrão com o ombro em um predador já próximo do homem. Os dois trocaram um olhar breve e ela pôde ver manchas azuladas nos lábios de seu companheiro. Pela respiração entrecortada, parecia capaz de desabar a qualquer instante.

Nicolas apontou para uma parede, haviam poucos predadores no caminho, a maioria deles parecia concentrado em evitar que fugissem pelo corredor. Não sabia o que diabos fariam lá, mas acatou as ordens, não era como se ela tivesse um plano próprio. Seguiram até o local, com Bárbara protegendo Nicolas das mãos dos predadores.

— E agora? — gritou a mulher.

— Explode. Todo lado menos costas. — Cada palavra era emitida com visível esforço. — Depois recepção.

E como caralhos faria isso?! Não, sem tempo para hesitar. Os predadores cada vez mais próximos urgiam uma ação. Nas vezes que conseguira focar sua habilidade, foi de forma inconsciente. Encarou os inimigos, uma massa de predadores que agora lhe remetiam a toupeiras. Sentiu o calor de sua habilidade espalhando-se pelo corpo inteiro, como uma fornalha ardendo. As costas não, as costas não!

Obedecendo sua vontade, a queimação afastou-se das paletas, focando-se nas laterais e no peito, onde passou a ser magma, prestes a derreter seus ossos e escorrer pelo tronco. Sentiu a iminência da destruição que poderia causar, bastava deixar tudo fluir e a jaqueta faria o resto. Se conteve para não ferir Nicolas. Os predadores chegaram bem perto, e Bárbara liberou a explosão com um grito.

As criaturas foram erradicadas, o piso do chão arrancado, as paredes racharam e o prédio tremeu. Seus joelhos quase cederam e ela mal teve tempo de se recuperar antes de Nicolas segurar seu pulso e puxá-la em direção à saída.

— Espera — arfou ela. — E os outros?

Sua resposta foi uma balançar negativo da cabeça. Atravessaram o corredor e chegaram na recepção. Lá era como se nada tivesse acontecido, as mesmas funcionárias atendiam os recém-chegados e mais pessoas entravam no hospital para formar a fila em um ciclo infinito. Foram até as cadeiras, Nicolas se sentou e curvou-se para a frente, mantendo os olhos no corredor, talvez esperando a aparição dos predadores a qualquer momento. Bárbara deixou os joelhos cederem e escorou bem as costas no assento, olhando para cima.

— Nós não… — Baixou os olhos para o companheiro. — Não perdemos eles?

Sem tirar os olhos do corredor, Nicolas respondeu:

— Não.

— Como tem certeza? — A calma dele a indignava. — Viu aquelas coisas? Dominique talvez se salve, mas Fernando não é um lutador!

Alguns segundos de silêncio se passaram. Nicolas aliviou o aperto da corda no pescoço e respondeu:

— Esse lugar não opera só com agressão. Nenhum dos dois resistiu ao ser arrastado, e os predadores não pareciam inclinados a atacá-los. — Fez uma pausa para tomar ar. — Aqueles predadores não vão matá-los, não tão rápido.

— Então por que nós fomos atacados? Tu sobreviveu porque protegeu seus arredores, e eu porque sou resistente. Eles teriam nos trucidado se tivessem a chance!

— Acho que o hospital usa algum tipo de ilusão para impedir a oposição. Você e eu somos resistentes, e por isso fomos atacados.

— Porra! E no que isso ajuda a salvar os dois?

Nicolas se levantou e caminhou em direção à saída do hospital.

— Não está pensando em deixá-los, está? — perguntou Bárbara

— Estou indo pensar. — Ele parou. — Venha, preciso de você.

Saíram da construção e foram até o estacionamento, bem onde Nicolas estivera da outra vez. Sentia que ainda conseguiriam fugir se quisessem, mas não fariam isso. Não deixaria o homem nem pensar nisso. Ele apontou na direção do hospital e perguntou.

— Notou algo estranho? — perguntou Nicolas.

Ela semicerrou os olhos e disse:

— Menor do que eu esperava.

— Sim, bem menor, o corredor que fomos atacados era maior que a extensão da construção.

— E só fica pior.

Um homem de meia idade passou pelos dois. Bárbara não perdeu tempo e gritou:

— Ô! Tu aí!

O homem a ignorou e seguiu em frente. Ela bufou e avançou, alcançando-o e colocando-se em sua frente.

— Tô falando contigo.

Ele parou, porém seus olhos estavam desfocados, as pupilas dilatadas ao extremo. Ficou olhando para ela como se estivesse diante de uma parede.

— O que veio fazer aqui? Tá indo para onde?

— Visitar minha irmã — respondeu ele, em voz lenta e monótona. — No quarto andar.

Ele fechou a boca e ficou olhando na direção de Bárbara. Com um suspiro, ela saiu da frente e o homem continuou sua caminhada.

A motoqueira perguntou o mesmo para mais quatro transeuntes e, ao final, se aproximou de Nicolas, que continuava parado observando o hospital.

— No fim todo mundo está aqui para ver alguém e todos vão ao quarto andar. Poderíamos começar nossa busca por lá, só passar por três andares recheados de predadores antes.

— Ou pegamos a rota de entrada de ambulâncias.

Bárbara olhou na direção apontada por Nicolas e encontrou os veículos parados no lado esquerdo do hospital e, alguns metros à frente delas, uma entrada específica para emergência e a placa “Exclusivo para Ambulância” logo ao lado das enormes portas duplas.

Foram até o local e passaram pela porta. Próximo a eles havia um balcão de atendimento, uma fileira de cadeiras para espera e no lado esquerdo uma porta larga. O local não era grande, porém possuía espaço o suficiente para manobrar uma maca sem correr o perigo de acertar as paredes. Diferente da entrada comum, esta era desprovida de vida. Ninguém na sala de espera, ninguém para atender. O único som era um chiado incômodo vindo de uma televisão próxima ao teto, onde somente estática era mostrada em sua tela.

Seguiram pela esquerda e acabaram em um corredor com diversas portas em ambos os lados e, ao final dele, um elevador. Bárbara caminhou reto para o fim do caminho, mas parou ao ver que Nicolas não a seguia. Ele havia se aproximado de uma das portas.

— Não acha que estará vazio também? — perguntou a mulher.

— Melhor verificar pelo menos uma.

Ele abriu a porta. A visão das paredes repletas de manchas vermelho-escuro, a poça de sangue abaixo do leito hospitalar aumentando de tamanho a cada segundo e o cheiro pungente de carne podre misturado com álcool obrigaram Bárbara a desviar o olhar. Quando deu por conta, estava olhando a madeira da porta, tentando distrair-se com as unhas de Nicolas na maçaneta. As memórias do último território vieram com tudo, trazendo tontura e enjoo.

Arriscou outro olhar, desta vez notando uma pia em um canto da sala e, mais importante, o corpo que repousava no leito, coberto por lençóis brancos que se tingiam de rubro. Pensou em entrar, mas antes que pudesse dar o primeiro passo, Nicolas fechou a porta. Os dois trocaram um breve olhar, havia uma pergunta entalada na garganta de Bárbara, fazê-la poderia muito bem levar a uma descoberta infeliz.

— Vou ver se é um deles — disse Nicolas. — Fique de guarda.

Bárbara assentiu e virou de costas para a porta, mantendo os olhos no corredor e no caminho por onde entraram. Ouviu o homem entrando e alguns segundos depois, o som de água escorrendo. Ele saiu do quarto balançando mãos úmidas e limpas. Não esperou Bárbara perguntar.

— Não era nenhum dos dois. Vamos checar as demais.

As outras salas estavam vazias e limpas, nenhuma gota de sangue em lugar algum. Não havia sinal dos companheiros, mas era melhor isso do que vê-los naquele corredor.

Chegaram no elevador. Ao lado esquerdo das portas estavam os botões para chamá-lo, e acima delas havia um painel digital mostrando o andar em que ele se encontrava.

— Andar menos um? Isso está funcionando? — Bárbara apertou o botão para subir, que se acendeu com uma leve luz amarelada.

— Talvez seja o subsolo.

O painel alterou o andar de “-1” para “T”. Bastou as portas abrirem para que ouvissem algo vindo de trás. Ela se virou e viu duas pessoas entrando na primeira sala que investigaram.

— Merda, vamos rápido! — Entrou no elevador, prestes a acionar qualquer comando que os tirasse dali, mas parou no último momento ao ler os três botões no painel. Lidos de baixo para cima, eram: Avaliação, Perdição e Recuperação.

— Que porra é essa?!

As duas figuras saíram da sala, trazendo consigo o leito sangrento, e correram na direção do elevador.

— Vai qualquer coisa mesmo.

Bárbara aproximou o dedo do painel, mas Nicolas segurou seu pulso.

— Vamos aguardar.

— E ficar no elevador com eles?

— São só dois, esse número eu aguento.

— Só quero ver.

Esperaram e viram que a dupla era um enfermeiro e uma enfermeira, as faces nada mais que telas em branco. Entraram no elevador espaçoso o suficiente para a maca e os outros quatro ocupantes, e apertaram o botão “Recuperação”. As portas se fecharam, eles subiram e nem cinco segundos depois um “ding” soou no alto-falante, anunciando sua chegada ao terceiro andar. Os enfermeiros dispararam para fora, deixando Bárbara e Nicolas sozinhos, e o chão manchado do sangue que pingou da maca.

Saíram do elevador. Os olhos da mulher logo foram para a porta mais próxima, temendo que alguma ameaça saltasse para cima deles, mas tudo que viu foi uma placa com o nome “Raíssa” próxima ao topo. Olhou para a entrada do quarto seguinte, à direita: mesmo tom, mesmo material, nome diferente. As demais seguiam o mesmo padrão.

Enquanto olhava adiante, Bárbara quase não viu Nicolas se aproximando da porta “Raíssa” e colocando a mão na maçaneta. A motoqueira abriu a boca, mas o líder levou o dedo aos lábios antes que o som saísse. Mesmo assim, ele entendeu o pedido e deixou-a ir na frente. Murmúrios escapavam pelas frestas, chegando quase inaudíveis aos ouvidos de Bárbara. Seja lá o que estivesse do outro lado, sabia falar.

Sentiu os dedos suados contra o metal da maçaneta e o girou. O clique suave da lingueta se recolhendo não silenciou as vozes do outro lado. No quarto havia uma menina de no máximo quinze anos. Ela sentava-se em um leito com travesseiros servindo como apoio para suas costas. Ao lado dela, em uma cadeira, estava um jovem de idade semelhante. Ele segurava e apoiava a testa contra as costas da mão da enferma.

— Me desculpe, me desculpe, não servi para nada.

— Shhh — disse a garota, com um pequeno sorriso. — Estou aqui, estou bem. Está tudo bem agora.

Do outro lado da cama, tinha um armário entreaberto com algumas roupas dentro. No interior, também era possível ver alguns livros que, pela grossura e tamanho, deviam ser de estudos. Bárbara fechou a porta com tanto cuidado quanto abriu. Se virou para Nicolas e o empurrou de leve no peito. Os dois recuaram até o meio do corredor.

— Eu vi direito? Parecia só uma guria hospitalizada — disse Bárbara.

— E um rapaz acompanhando ela, eu vi. Mas não podemos acreditar nisso, aqui não é um hospital.

— Eu não vou atrapalhar os dois.

Nicolas a encarou e Bárbara sustentou seu olhar. Segundos depois, o homem direcionou seus olhos até o próximo quarto.

— Tem pessoas nesse andar, talvez encontremos os três por aqui.

Seguiram pelo corredor, abrindo incontáveis portas e checando o conteúdo delas. Quarto após quarto, encontravam sempre a mesma cena, um paciente e um familiar ou amigo. Apenas em uma ocasião encontraram mais de uma pessoa como acompanhante. De vez em quando mais enfermeiros passavam por eles, indo até um quarto, deixando o paciente e voltando.

Fizeram questão de memorizar quais eram os quartos com os novos pacientes e visitá-los. O primeiro surpreendeu. Esperavam entrar em um quarto com um cadáver dentro, mas encontraram um jovem relativamente saudável e inteiro, e uma mulher conversando com ele. Os demais seguiram este padrão: uma maca sangrenta passava e um paciente saudável era deixado no quarto, onde ninguém mais entrava, porém, ao checá-lo, sempre havia um acompanhante.

Depois de muito andar, abrindo portas e escutando trechos de conversas, chegaram a uma com a identificação de “Joaquim”. O processo estava tão automático que Bárbara abriu quase sem pensar. Seu coração bateu forte ao ver Dominique como acompanhante no interior do quarto. Na cama, um homem idoso conversava com ela. Mesmo com a idade, ele mantinha a boa forma, dava para ver pela grossura dos braços, possuía também uma voz rouca e forte. Os dois ocupantes conversavam amenidades, mas logo Dominique olhou na direção da porta. Um breve arrependimento abateu Bárbara por terem adentrado aquele santuário.

A idosa acariciou e beijou a mão do enfermo, sussurrando algo em seu ouvido na sequência. Os olhos dele encheram-se de lágrimas.

— Não pode ficar mais um pouco?

— Eu adoraria, queria ficar aqui para sempre, mas eu preciso ir. — Apontou na direção dos companheiros. — Estou ajudando eles agora, é importante. Um último dever para uma velha como eu.

— Eu… entendo. — Ele olhou para Bárbara e assentiu de leve, voltando a fitar Dominique em seguida. — Vou esperar.

A idosa se curvou sobre a cama e beijou os lábios do homem. Segurou suas mãos uma última vez e soltou, virando-se na direção da porta e caminhando para a saída. Bárbara e Nicolas abriram espaço e deixaram-na passar.

— Dominique… eu… — começou Bárbara.

— Não se preocupe comigo — respondeu a idosa, o olhar firme em frente, mas com a voz falhando na última palavra. — Joaquim está morto e eu sei disso. Deus me recompensou com mais alguns momentos ao lado hoje.

— Agora sabemos de uma coisa, Fernando está por aqui — disse Nicolas, olhando de canto para Bárbara. — E seu amigo também. Vamos encontrar os dois.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 19

Desenho monocromático. O desenho mostra Dominique, uma mulher idosa e magra, utilizando uma camiseta sem mangas e calças de abrigo, em uma fila com várias pessoas. A fila leva até o balcão de uma recepção.
No topo há o número dezenove para indicar o capítulo.

Um domingo em família assistindo a programação da televisão aberta. Em outros tempos, talvez Dominique até se animasse com a ideia. Ultimamente, porém, nada a divertia. Estava de volta ao seu humor carrancudo de antes, quando apenas aguardava a morte chegar. Seu único momento de alívio era logo antes de dormir, quando podia ir ao farol dar uma caminhada, e mesmo assim hesitava em fazê-lo na maioria dos dias com receio de encontrar alguém por lá. As visitas diminuíram ainda mais após a mensagem de Fernando sobre um possível predador no local.

Estava distraída com a televisão, deixando os pensamentos vagarem enquanto filho, nora e netos conversavam. Seu celular vibrou. Dominique, no entanto, nem olhou a mensagem, preferindo assistir a “matéria” sobre as fofocas do reality show que passava no canal. Mais notificações chegaram.

— Grupo tá bombando aí, vó? — disse Felipe, o mais velho dos netos.

— Deve ser alguma bobagem — respondeu Dominique.

Como que silenciava essas porcarias mesmo? Desbloqueou o aparelho e notou de qual grupo vinham os avisos. Segurou o celular com mais firmeza enquanto lia o conteúdo das mensagens. Nelas, Bárbara explicava que um amigo seu sumira de um dia para o outro e, quando foi ao seu apartamento procurar por ele, sentiu que fora levado por predadores. Fernando corroborou a história.

Releu o texto e notou que Nicolas digitava algo. Aguardou alguns segundos e veio a frase que fez seu coração palpitar, trazendo aos músculos uma eletricidade que não sentia há semanas.

Nicolas

Todos podem vir ao farol hoje?

Logo Bárbara e Fernando disseram que sim. Faltava ela. Pensou na forma que os deixara, imatura e burra. Coisa de adolescente. Será que a aturariam? Não, sem negatividade. Nicolas era metódico e se fosse algum empecilho ao grupo teria a expulsado antes. Sim, era bem-vinda, e era útil.

Dominique

Também posso

Combinaram um horário durante a noite e tudo que restou para Dominique foi aguardar. Não conseguia mais prestar atenção à televisão, preferiu se distrair com a conversa da família. Quando a hora chegou, já estava na cama.

Chegaram ao farol quase ao mesmo tempo, nem sequer tiveram a chance de se cumprimentarem antes que Nicolas falasse:

— Bárbara, você tem uma foto do seu amigo?

— Sim. — Mesmo diante da pergunta repentina, Bárbara não hesitou. Pegou o celular e mostrou uma foto de Igor aos demais.

— Nosso objetivo dessa vez será percorrer o território até encontrá-lo.

— E como vamos descobrir onde ele foi parar? — Bárbara guardou o aparelho. — Não existem vários territórios possíveis?

— Sim, mas vocês dois disseram sentir um predador, certo? — Nicolas olhou de Bárbara para Fernando, os dois confirmaram e ele continuou. — Se seguirmos a sensação, vamos achar o território correto. Seu amigo estará lá.

A jovem relaxou por um segundo, fechando os olhos. Quando os abriu, porém, havia certa tensão nos ombros. Ela perguntou:

— E se não o encontrarmos?

— Então pode estar inacessível. Territórios são coisas complicadas. — Nicolas cruzou os braços. — Nesse caso, nossa melhor chance é eliminar o originador. Isso vai libertar todas as vítimas.

— Isso… não pode ser perigoso demais? — perguntou Dominique. — O último território foi…

— Terrível, sim. — Nicolas não hesitou. — Temos que avaliar isso ao avançarmos.

— Espera aí! Vamos só fugir se for difícil demais? — perguntou Bárbara, os olhos fumegantes encarando o líder.

— Não, mas precisamos saber nosso limite.

— Acho que precisamos cuidar com ilusões e coisas do tipo — disse Fernando, dando tapinhas no ombro da motoqueira. — Fomos bem no território do metrô, afinal.

— Sim. Bárbara e eu seguiremos sozinhos se for o caso.

Fernando franziu o cenho.

— Isso parece pior do que fugir.

— A alternativa é abandonar Igor. — Nicolas encarou a jovem. — Ele é seu amigo, você decide.

Logo os outros seguiram o olhar do líder. A idosa sentiu a determinação da mulher mais jovem vacilar. Era uma situação difícil. Colocar a vida de todos em risco por uma pessoa, ou abandonar um amigo? Dominique nem quis saber qual seria a sua resposta para esse dilema. Por fim, Bárbara suspirou e disse:

— Decidimos lá, se a situação apertar. Pode ser?

— Perfeito. Vamos juntar as mãos, Bárbara vai nos transportar para o apartamento. — Um frio tomou conta das pernas da idosa ao ouvir essas palavras de Nicolas. Ele olhou-a de relance. — Fernando, segure Dominique quando chegarmos.

— Espera! Como assim transportar? E que negócio é esse de segurar Dominique?

— Estamos perdendo tempo aqui, explico depois. — Nicolas olhou para Bárbara, que assentiu em concordância.

Os quatro juntaram as mãos. Estava um tanto resignada de fazer isso, pois sabia bem qual seria o resultado. Já bastava Nicolas saber, e olha que ele era uma exceção, pois nunca a tratou diferente, nunca a olhou diferente.

No segundo seguinte, o farol foi trocado por um apartamento escuro. A força que os territórios davam às pernas de Dominique se foi, o tato da cintura para baixo se perdeu e não mais estava em pé sob dois membros funcionais. Começou a desabar, muito mais velha do que se sentia um segundo atrás, porém os braços de Fernando envolveram seu tronco e mantiveram-na erguida.

— Luz! — disse Fernando.

— Tô procurando, sei lá onde ficam as tomadas aqui — grunhiu Bárbara, um pouco distante deles.

Segundos depois, a sala se iluminou. Fernando aproveitou a oportunidade para sentar Dominique no sofá. O olhar dos dois jovens estava sobre ela, tentando entender e criando teorias que levariam a conclusões apressadas. Sabia bem o que viria com as conclusões.

— Bárbara, me mostre o quarto — ordenou Nicolas.

— Mas ela…

— Estou bem — disse Dominique, forçando o bom humor. — É melhor focar no seu amigo.

Bárbara assentiu devagar e caminhou na direção do quarto, ainda lançando um olhar para a sala. Restou somente Fernando e a própria Dominique. Nenhum deles era burro e já deviam ter entendido sua paralisia. Relutante, encarou o padeiro e quase se arrependeu. Seus olhos demonstravam o que ela mais odiava: pena. Faziam-na lembrar do quanto era dependente em algumas coisas, mas pior do que isso, julgavam-na como uma inútil, mesmo que soubessem que nos territórios ela era a mais forte do grupo.

Antes que Fernando pudesse levantar qualquer discussão, Nicolas retornou com Bárbara.

— Descobri para onde Igor foi.

Dominique agradeceu pela agilidade do líder e disse:

— Vamos logo.

Juntaram as mãos novamente. Dominique sentia que dessa vez Fernando a segurava com mais delicadeza. Ela rilhou os dentes e fechou os olhos, aguardando serem transportados. Não demorou a sentir a mudança no ambiente, e a força de volta às pernas.

Os quatro estavam em uma fila, haviam pessoas à frente e atrás deles. A sala, ou melhor, a recepção, possuía paredes brancas e um chão com piso bege. Na frente, no início da fila, havia um balcão de recepção com duas mulheres atendendo, usavam roupas brancas e mexiam em um computador enquanto o atendido aguardava por instruções. No canto superior direito da recepção, se encontrava um corredor largo, e adiante diversas portas com algum rótulo na madeira.

Uma pessoa foi liberada da fila e seguiu na direção do corredor, Dominique andou junto com os demais sem pestanejar.

O cheiro de desinfetante e álcool denunciava onde estavam. Um arrepio percorreu seu corpo, junto com um frio que entorpecia as pernas, lembrando-a de quantas vezes estivera nesse tipo de lugar. Olhou para trás e viu a saída do hospital, um paredão de vidro com duas portas automáticas.

Sentiu um toque no braço e quase se afastou antes de ver que era Fernando, saindo da fila junto com Bárbara e Nicolas.

— Tu está bem? — perguntou, a mão ainda estendida em sua direção.

— Sim, eu só… me distraí.

Fernando a encarou por um momento, sentiu como ele tentasse ler seus pensamentos, mas por fim olhou para os demais e segurou o pulso dela.

— Não se preocupe, acho que foi só um choque de chegada.

Da forma mais gentil possível, desprendeu-se de sua mão e acompanhou-o até as fileiras de cadeiras estofadas que estavam no lado esquerdo da recepção. Sentou-se em uma, deixando as pernas se recuperarem do ocorrido. Teve que lembrar que era só um território, não um hospital de verdade.

— Vamos primeiro checar o lado externo — disse Nicolas, tomando a atenção dela. — Depois disso, entramos e seguimos no corredor.

— Tem algo diferente, não? — questionou Fernando, olhando em volta. — Digo, olha isso. — Apontou para as pessoas na fila. — Tem muita gente aqui e não para de vir mais.

— Não vejo nada de errado, o metrô era igual. — Bárbara cruzou os braços e franziu o cenho.

— Tinham pessoas nele, mas elas passavam uma sensação diferente. — Fernando olhou para todos do grupo. — Ou eu tô ficando maluco?

— Não, você está certo. — Nicolas olhou para os indivíduos saindo da fila e aqueles entrando no hospital. — Não é que passam uma sensação diferente, eles têm presença. No metrô só estavam lá, como se fizessem parte do cenário. E quando tomavam alguma ação, era para nos atacar.

Dominique se levantou, não se deixaria levar por lembranças e expectativas negativas sobre si.

— Acho que descobriremos mais investigando. Vamos lá? — sugeriu ela.

Saíram da construção, deparando-se com enormes eucaliptos cercando a área do hospital. Eram dignos de filmes, passando dos vinte metros. Todos muito mais próximos entre si do que no território do urubu. Antes das árvores, acessível através de uma sequência de escadas ou uma rampa, estava o estacionamento. Impecável como nunca visto antes, o concreto era bem-feito, sem as quebras ocasionais e as linhas de demarcação de vagas pareciam recém pintadas.

Seguiram Nicolas até o meio do estacionamento, diversas pessoas passaram por eles, todas indo em direção ao hospital. Dominique soube então que se quisessem sair do território, era ali que deviam fazer isso.

Nicolas virou-se para o hospital e Dominique replicou o movimento. A construção tinha três andares, a julgar pelas janelas. Não era muito grande e, em outras condições, poderia considerá-lo como um hospital de cidade interiorana.

— Nada anormal até aqui — murmurou Nicolas. — Alguém sente algo estranho?

Todos negaram.

— Ótimo, esse aqui será nosso ponto de encontro caso nos separemos. Também não hesitem de usar as pílulas em situações de extremo perigo. — Ele olhou para o último andar. — Se esse território for parecido com os demais, o originador estará no topo. Por isso vamos vasculhar os andares inferiores primeiro.

— Se acharmos Igor, o que faremos? — perguntou Bárbara.

— Damos uma pílula a ele. Alguém vai ficar sem, mas já sabemos o local de fuga e temos mais chance de sobrevivência do que alguém que foi capturado.

Dominique assentiu. Passou a entender melhor a função de Nicolas, antes o tomava por uma espécie de salvador, enviado ali para dar a eles o melhor destino possível, porém, após o território das ilusões e do desastre que causaram, entendia que era apenas um humano. Ainda o culpava, em partes, pelo fracasso, mas sabia que tentava apenas desviar a responsabilidade de si. Essa era a função do líder, tomar as decisões e absorver a culpa para impedir que o resto do grupo implodisse com a pressão e a responsabilidade. Que outro seria capaz de reagir tão rápido a adversidades? Quem seguiria de cabeça erguida após fracassar? Ela não conseguiria, e apostaria que Bárbara também não. O mais próximo seria Fernando, mas a empatia do homem o impedia de fazer certas coisas. Sabia que, dependendo dele, ninguém do grupo se arriscaria, e por isso mesmo não fariam avanços tão rápidos.

Com um plano mais ou menos definido, percorreram o caminho de volta para o hospital, passando pela recepção e adentrando o corredor. Encontraram-no silencioso e solitário, não havia sinal das pessoas de antes. Ele se estendia por metros e mais metros com portas numeradas e fechadas ao longo de sua extensão. Ao final era possível enxergar uma escadaria para cima, sem elevadores.

Nicolas se aproximou da primeira porta no corredor, numerada com 101, e abriu. Dentro havia um quarto hospitalar com três leitos, uma porta para o banheiro e zero janelas. As camas estavam arrumadas e desocupadas, o cheiro de desinfetante inundava o ambiente.

Seguiu até a porta seguinte, de número 102. O grupo o acompanhou apenas para ver um quarto exatamente igual ao anterior.

— Não vamos abrir todas, vamos? — Bárbara olhou para Nicolas. — Isso vai demorar uma eternidade.

— Seria contraprodutivo. — Ele fechou a porta. — Fernando e eu ficaremos de olho nas portas, se virmos alguma anormalidade, abrimos. Você e Dominique mantenham a atenção no caminho.

Seguiram ao longo do corredor sem mais paradas. Estava tão silencioso que os saltos das botas de Bárbara ecoavam por ali. Tac, tac, tac. Quanto mais andava, mais se lembrava das vezes em que esteve em um hospital. Um símbolo de esperança e tristeza, para ela mais do último que do primeiro.

O silêncio e calmaria foram rompidos quando todas as portas ao redor do grupo se abriram. Dominique levantou os punhos e preparou o corpo para avançar na presença mais próxima, mas paralisou ao ver do que se tratava. Não acreditou no que via, naquele rosto calmo, com um sorriso sempre despontando nos lábios, nos olhos castanhos e profundos, onde podia se perder por uma quantidade de tempo indefinida.

Baixou os braços e a visão borrou pelas lágrimas que surgiam. Joaquim se aproximou dela e segurou em suas mãos. Os dois encostaram as testas e ela se deixou ser levada, arrastada para onde seu marido desejasse.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 18

Desenho monocromático. O desenho mostra uma visão parcial de uma sala de estar. No lado direito conseguimos ver uma parte de um rack com uma televisão em cima e dois bonecos, Alphonse de Full Metal Alchemist e Rei de Evangelion, ao lado da televisão. No centro da imagem há uma porta branca de hospital que não combina com o restante do cômodo. Ela possui um prontuário na frente e está fechada.
No lado superior direito há o número dezoito para indicar o capítulo.

O domingo foi repleto de ansiedade. Bárbara tinha muito a pensar e pouco a fazer. Seu corpo precisava estar em movimento, precisava de algo que a distraísse ou ficaria matutando sobre o culto até ter dores de cabeça. Não à toa botou o pé na estrada e viajou para longe da capital. Só o fato de ter que prestar atenção na rodovia afastava-a dos pensamentos. E quando sentia que estava tudo calmo demais, acelerava para muito além do limite de velocidade. Era perigoso, sabia disso mais que qualquer um, porém não cometeria o mesmo erro duas vezes. Quando voltou para casa, perto da madrugada, estava tão cansada que o simples fato de pensar em tirar a roupa e tomar banho já exauriu seus neurônios.

A semana começou com qualquer outra e, pela primeira vez em muito tempo, Bárbara agradeceu a carga de trabalho. Se jogou nas tarefas e focou sua mente nelas. Estava tão distraída e evitando qualquer assunto sobre o culto que foi só na quarta-feira que notou não ver Igor nos dias anteriores.

No fim do dia, mandou-lhe uma mensagem, que permaneceu sem ser visualizada, ou sequer entregue, até a manhã seguinte. Fez então o que ninguém mais gostava de fazer. A chamada para o amigo nem chegou a completar, estava desligado ou fora da área de cobertura. Uma paranoia ardeu, mas Bárbara a conteve. Tentou outras vezes ao longo da quinta, mas o resultado foi o mesmo.

Quando perguntou para alguém do setor administrativo se tinham visto Igor, responderam que não, inclusive fizeram a ela mesma pergunta. Não aparecia ou mandava justificativas desde segunda. A paranoia, antes contida, se alastrou pela mente de Bárbara, incendiando qualquer outro pensamento.

Fuçou nas redes sociais e encontrou o pai e a irmã do amigo. Mandou mensagem para os dois e aguardou por uma resposta. Foi o dia mais longo que tivera nos últimos tempos, e um dos mais tensos. Só obteve retorno de noite, mas nem isso serviu para acalmar-lhe os nervos. A irmã respondeu que estava preocupada, que tentou contato com Igor logo após visualizar a mensagem e também não conseguiu. Bárbara não esperou por mais tentativas dos familiares, foi até a delegacia e preencheu um boletim de ocorrência. Quando questionou sobre o início das investigações, recebeu um olhar cansado do brigadiano.

— Temos outros desaparecimentos na frente, mas vamos averiguar assim que possível.

O coração a mil fez a semana se alongar. Todo dia ligava para a delegacia recebia a mesma resposta: Estavam investigando. Todo dia também respondia a mesma coisa para a irmã de Igor, que estava a centenas de quilômetros de distância da capital, em uma cidade próxima da fronteira com o Uruguai. Dormir se tornou muito mais difícil e nem os passeios de moto serviam para lhe acalmar. A preocupação tomou conta enquanto passava seus dias checando o celular em busca de alguma mensagem, fosse de Igor, da irmã ou de algum policial. Nunca foi alguém capaz de ficar muito tempo sem fazer nada, e os sentimentos contidos estavam prestes a estourar. Antes que enlouquecesse mandou mensagem para Fernando:

Bárbara

Oi. Podemos conversar? Surgiu uma situação e preciso da ajuda de alguém

Desculpa vir do nada

Um amigo desapareceu

Mais uma vez, esperou. Próximo das dez da noite recebeu retorno:

Fernando

Passa aqui amanhã de noite para falarmos

O padeiro anexou na conversa a localização de sua casa. Bárbara suspirou de alívio, ainda que não soubesse no que pedir ajuda. Dormiu um pouco melhor, e no dia seguinte foi para o escritório com a moto. O expediente passou de arrasto, com cada minuto mais lento que o anterior. Maurício devia estar feliz com a produtividade dela, já que seu único método para finalizar o dia rápido era cair de cabeça no trabalho. Em outros tempos, reclamaria da falta de aumento, mas a situação mudara.

Um segundo antes de acabar o expediente, Bárbara já estava ao lado do relógio de ponto. Marcou a saída, foi até a Kawasaki no estacionamento e navegou pelo trânsito caótico do horário de pico com destreza e velocidade. Chegou na casa de Fernando antes do que o GPS previra.

Desceu da moto, bateu palmas e gritou pelo nome de Fernando. A casa dele era pequena, uma grade de metal com uma porta protegia o lado esquerdo da casa, já no direito se iniciava uma garagem fechada. Não muito tempo depois que chamou, o anfitrião abriu o portão de metal da garagem, revelando um cômodo bagunçado e com uma motocicleta um tanto surrada no meio. Fernando tinha o rosto meio inchado e as pálpebras semifechadas. Bocejou e disse:

— Tem campainha, sabia?

— Nem vi.

Bárbara entrou na garagem com sua moto, deixando-a próxima da saída. Ferramentas e caixas ocupavam boa parte do local, além de cacarecos que só quem é dono sabe para que servem.

— Tá tudo bem? — perguntou Fernando, mas não obteve resposta.

Saíram por uma porta e adentraram a sala de estar, onde havia um homem sentado. Seus cabelos pretos e lisos criavam uma franja que parecia tapar parte da visão por alguns centímetros. Por detrás dos fios, globos oculares de um azul bem claro a observavam e percorriam seu corpo, em uma similaridade bizarra com a forma que Nicolas olhava para qualquer um. No entanto, o efeito quebrou-se quando notou suas vestimentas, uma camiseta preta, velha e larga com estampa do Bart Simpson, uma bermuda verde-musgo com palmeiras e o chinelo de dedos.

A descrição que Fernando dera de seu namorado — amigável e bem-humorado — era diferente do que Bárbara presenciava. Apenas o reconheceu pela tatuagem de enguia na perna direita.

— Quer chá? — perguntou Fernando. E, quando Bárbara assentiu, continuou. — Vou lá fazer, fica ali na sala. Sinta-se em casa.

Bárbara não queria ficar na sala, tampouco se sentia em casa com o olhar de Gabriel, mas obedeceu. Cumprimentaram-se sem muita empolgação e aguardaram. Foram alguns minutos desconfortáveis, por sorte a televisão ligada trazia a desculpa perfeita para não precisar olhar em outra direção. Estar pela primeira na casa de alguém sempre era estranho.

Fernando voltou carregando habilmente três xícaras nas mãos, duas de chá, que entregou para os dois e uma de café. Ele desligou a televisão e ficou em pé na frente da tela, olhando para Bárbara enquanto sorvia um gole.

— O que aconteceu?

Ela não respondeu, em vez disso, fitou Gabriel.

— É mesmo, não falei né? Gabi já sabe.

Aquilo era surpreendente. Da forma que Fernando falava antes, parecia que nunca contaria para seu namorado sobre os predadores.

— Algum problema com isso? — perguntou Gabriel à Bárbara.

— Não né — respondeu ela, navegando entre surpresa e uma pitada de raiva. — Eu apenas não esperava.

— Gente, sem brigas — disse Fernando. — Eu queria dormir, mas estou aqui, acordado. Bárbara tem um problema e vamos ao que importa.

Resumiu a situação aos dois. Contou do culto estranho que encontrou e como as vestimentas de alguns eram muito parecidas com as dos homens que encontraram no último território. Isso quebrou a máscara de cansaço que estava sobre Fernando desde que chegara, e ele empalideceu. Bárbara continuou, dizendo que foram a um evento e, segundo Igor apenas, haviam pessoas com coletes balísticos e armas. Em seguida falou do desaparecimento, mencionou as diversas tentativas de entrar em contato, fosse de forma direta e indireta. Quando terminou de falar, toda a expressão de sono em Fernando sumira. Ele finalizou sua xícara de café com um último gole e perguntou:

— E tu não foi atrás dos cultistas?

— Eu não me arrisco com maluco religioso armado.

— Sensata — disse Gabriel. — Mas e Igor? Será que ele foi de novo?

— Não. — Bárbara baixou os olhos para sua xícara de chá, ainda cheia. — Ele estava com medo.

— Talvez tenha sido justamente isso que o fez ir atrás dos caras. — Fernando colocou a xícara no balcão da televisão.

— Inclusive, tem como ajudarmos com isso? — perguntou Gabriel. — O certo seria esperar alguma solução da polícia.

— Eu tentei. — Apertou a chávena e curvou seu corpo para frente. — Mas quantos desaparecimentos relatados são resolvidos? Eu não posso ficar sentada esperando, ainda mais que eu o arrastei para isso! Isso é culpa minha!

— Calma. Respira — disse Gabriel.

— Para mim ela está calma demais. — Fernando olhava para Gabriel. — Não sei o que faria se tu sumisse.

— Mas se exaltar aqui não vai adiantar de nada — respondeu Gabriel.

— Onde ele mora? — perguntou Fernando.

— Um condomínio. — Bárbara se esforçou para manter a voz nivelada. — Passei na frente dele essa semana.

— E por que não tentamos entrar lá?

— Porque seria um crime? — Gabriel arregalou os olhos. — Não dá para sair entrando na casa dos outros.

— Tem razão. — Fernando deu de ombros. — Mas não é invasão se deixarem a gente entrar. Podemos tentar falar com o síndico, ele vai nos ouvir.

Era um plano, um meio xoxo, mas era melhor que Bárbara dispunha no momento. Os três combinaram de se encontrar no domingo pela manhã em frente ao condomínio.

Os dias seguintes não se arrastaram, e sim rastejaram. A noite de sábado foi marcada por uma dificuldade enorme em deitar, dormir então estava fora de questão. Só pregou os olhos no alto da madrugada, quando todas as postagens de todos os perfis que Bárbara seguia em todas as redes sociais haviam sido lidas. Acordou menos grogue do que esperava, correu para se arrumar e saiu de casa.

Encontrou o casal esperando por ela na rua do condomínio, em frente ao bloco de número 1567. Começaram o trabalho, abordando da forma mais amigável possível as pessoas que saíam do local, pedindo pelo número do apartamento do síndico. Foi uma tarefa desgastante, a maioria das pessoas era desconfiada e desconversava, dizendo que em breve o síndico aparecia por ali ou então que não sabiam onde morava. A salvação deles foi um homem forte e alto saindo para passear com seu cachorro linguicinha rechonchudo. Era uma estranha dupla, mas o fortão foi amigável o suficiente para ouvi-los e ajudá-los.

Fernando conversou com o síndico no interfone e, após um falatório explicativo e algumas súplicas, convenceu-o a deixá-los entrar. Minutos depois o síndico abria o portão e acompanhava-os até o quinto andar, onde se depararam com uma folha A4 presa abaixo do olho mágico com os dizeres “Não entrar”. Ele destrancou as fechaduras auxiliares na parte de cima e de baixo da porta e a abriu.

— Podem dar uma olhada, mas tentem não mexer nas coisas, a polícia teve aqui e pediu para não mover os objetos.

O grupo entrou no apartamento, dando de cara com uma sala cheia de decorações. A televisão era rodeada por miniaturas de personagens de diversos desenhos e jogos, cinco quadros com pinturas de animais estavam pelas paredes e um relógio com pássaros ao lado das horas tiquetaqueava incessantemente.

Uma inquietação tomou conta de Bárbara ao pisar na sala. Algo não estava certo. Ela e Fernando moveram-se ao mesmo tempo pelo apartamento. Seu coração acelerou com uma possibilidade que estava mais do que óbvia, porém ignorada em todas as palavras que Bárbara proferira até o momento. Atravessaram um corredor curto e chegaram no quarto. Ela não prestou atenção em móveis, paredes, ou eletrônicos que estavam pelo local. Sentiu apenas uma sensação familiar, quase impossível de descrever para as demais pessoas, um nojo e repulsa repentinos, agonizantes agora que entravam em um contexto diferente. Estavam próximos de um predador.

Cerrou o maxilar com força, seus punhos doeram de tanto apertar. Estava prestes a socar algo e, só não o fez, porque sentiu a mão de Fernando em seu ombro. Ela virou-se para o homem, já levantando o punho para caso ele lhe pedisse calma. Seus olhos estavam foscos e até mesmo o aperto no ombro estava fraco. Tudo que ele disse foi:

— Vamos chamar os outros.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 17

Desenho monocromático. O desenho mostra um salão repleto de cadeiras ocupadas. A maioria das pessoas está prestando atenção em um homem discursando em frente a um púlpito. Ao lado deste homem há uma figura humana erguendo no seu braço direito uma balança romana. Apenas cinco pessoas não estão prestando atenção no discurso. Elas estão olhando para trás, em direção ao observador da imagem.
No lado superior esquerdo há o número dezessete para indicar o capítulo.

Quando ouviu o interfone tocar, soube que estava um pouco atrasada. Bem, um pouco não, bastante. Tudo culpa dos compilados de videologs de motoqueiros e entregadores no Youtube, uma boa forma de relaxar e passar o tempo, atividade que executou com primor e, neste caso, em excesso.

Atendeu o interfone e apertou o botão para que Igor entrasse no prédio e, pouco tempo depois, abriu a porta para o amigo. Ele cumprimentou-a e entrou no apartamento, as roupas formais do trabalho foram trocadas por algo mais casual e parecido com seu estilo antigo: calça jeans, um tênis meio surrado e uma camisa colorida com estampas que ninguém prestava atenção. O homem olhou a sala bagunçada, não havia muito o que fazer, a arrumação era só no dia seguinte, e então olhou para Bárbara.

— Tu vai no culto assim? — perguntou ele.

— Algum problema com meu estilo? — Seu tom de voz ganhou apenas uma nota de hostilidade.

— Não, claro que não. — Igor desviou o olhar dela por um momento. — É só que são roupas para outra… atividade, tipo dormir confortavelmente na cama.

Os dois abriram um leve sorriso.

— Claro que não vou assim, ô palhaço. — Ela fitou a sala. — Pode sentar onde quiser, por ali é a cozinha se quiser pegar uma água e lá é o banheiro. Espera aí que vou me trocar.

Dito isso, disparou para o quarto e fechou a porta. Tirou as roupas de pijama e trocou por seu kit básico, só não vestiu a jaqueta porque estava um dia quente e preferia não ficar suando no meio de um culto. Uma pena, adorava a peça, mas conforto e estilo não raramente andam lado a lado.

Saiu do quarto e encontrou Igor sentado na ponta do sofá, o mais afastado possível das roupas jogadas pelo móvel, e olhando algo no celular.

— Vamos logo, enrolão.

Ele virou o rosto para Bárbara.

— Enrolão? Eu? Quem se atrasou mesmo?

— Vamos!

Os dois saíram do apartamento e desceram os quatro andares com passos rápidos. Chegando na frente do prédio, Bárbara começou a rumar em direção à garagem, porém Igor ficou para trás.

— Aonde tu vai? — perguntou ele.

— Pegar minha moto ué.

— Melhor ir de Uber, vai que os malucos do culto anotam a placa e pesquisam tua vida a partir disso?

— Desse jeito parece que eles são os Illuminati.

— Ficaria surpresa com o quanto de informação se consegue com os contatos certos, não precisa nem fazer parte de organização secreta.

— Não exagera…

— Olha, já vi coisa pior. — Ele respirou fundo. — E foi tu quem me chamou, vai ignorar meus conselhos agora?

— Certo, vamos de Uber então.

Bárbara inseriu no aplicativo o endereço que Elisa lhe passara dias antes. Por sorte, a corrida não saiu muito cara e cinco minutos depois um Up! branco parou perto deles. Entraram no carro, cumprimentando o motorista, que parecia mais jovem que Bárbara, e seguiram viagem. Nem um minuto havia se passado quando o homem falou:

— Ontem mesmo peguei uma passageira aqui. Foi bem triste, o filho dela tinha desaparecido fazia uma semana e ela estava desesperada.

Bárbara olhou da janela para o motorista. Não lembrava de ter ouvido de ninguém desaparecer nas proximidades. Sabia muito bem que a culpa desses desaparecimentos era dos predadores, mas para as pessoas normais devia ser muito pior, não tinham ideia do que estava acontecendo e de quem poderia ajudá-los. Os sequestrados só ganhavam nome e rosto após muita comoção familiar ou da comunidade, recebendo alguns minutos de exposição em uma rádio, jornal ou televisão local, e mesmo assim perdiam suas identidades com o passar dos dias. De autoridades, seja policial ou governamental, não havia nenhuma ação proativa para encontrá-los, e Bárbara duvidava que, mesmo havendo, funcionasse.

— Ele desapareceu do nada? — perguntou Igor.

— Tipo isso. Parece que estava na sua rotina normal e um dia sumiu. — O motorista estalou a língua. — Senti pena dela.

— Já ouvi dizer que é uma organização criminal nova por aí, tentando impor ordem.

— Bah, e para isso eles atacam gente inocente no estado inteiro? Faz sentido nenhum.

— Talvez seja um culto então? Acho que faz mais sentido.

— É… faz mesmo, essa gente não tem deus no coração.

— Podemos não falar disso? — interrompeu Bárbara, ríspida.

O motorista se empertigou no assento, aumentou o volume do rádio e ficou em silêncio. O resto da viagem transcorreu sem nenhuma palavra. Bárbara agradeceu por isso, ouvir sobre o assunto apenas lembrava-a que havia uma forma de combater os desaparecimentos, porém, ninguém no grupo estava tomando iniciativa, Nicolas mesmo não mandara mensagem alguma. A última fora de Fernando alegando ter visto algo no farol, mas no dia seguinte mandou um pedido de desculpas dizendo que devia ter sido apenas um momento de estresse. No fim, cada um tinha seus próprios problemas para lidar.

Chegaram ao local do culto, um terreno aberto com um salão ocupando todo o lado direito, com o outro servindo de estacionamento. Pela quantidade de carros e motos, o evento estava lotado. Nenhum dos veículos parecia muito novo ou caro, eram modelos populares. O salão era quadrado e praticamente sem aberturas, com exceção de algumas janelas basculantes na parte superior. A entrada nele se dava por uma porta dupla de metal, onde havia um homem para receber os participantes, apesar de que ninguém mais estava chegando no momento.

Aproximaram-se e viram o interior do salão repleto de pessoas, todas sentadas em cadeiras de plástico e organizadas em fileiras. Não havia nenhum símbolo religioso no local, com exceção de um estandarte no fundo mostrando a balança e o homem. Bárbara viu o local onde Elisa estava sentada e notou duas cadeiras desocupadas ao lado. Cutucou Igor no ombro e seguiram até a mulher. Apenas uma minoria de pessoas utilizava as batas brancas, deviam ser apenas os mais fervorosos. O padre, ou o equivalente disso, falava enquanto iam até Elisa, mas Bárbara acabou não prestando atenção nas palavras dele. Ao se sentarem, a mulher abriu-lhes um sorriso receptivo. Bárbara começou a prestar atenção no discurso.

— … e cada vez mais as injustiças do mundo vêm à tona. Nossos noticiários e jornais pingam sangue e maldade. Amigos traindo uns aos outros por mesquinharias, familiares se matando por trocados de herança, governantes traindo seu povo pela simples sensação orgásmica que o poder lhes traz. — Seus olhos vagaram pela plateia. — Hoje mesmo eu vi uma matéria sobre escolas caindo aos pedaços enquanto o governador se banha em lazeres e privilégios.

“Isso não acontece por vontade divina ou ciclo cármico, justamente o contrário, foi por dependermos tanto destes escapismos místicos que chegamos nesse ponto. Não existe inferno para punir os tais pecadores, tampouco existe reencarnação para que passem pelo sofrimento que infringiram. Temos somente uma vida e é nela que precisamos fazer justiça, precisamos zelar por ela.

“Sei que vocês, a maioria, não são boas pessoas, ninguém é realmente uma boa pessoa, mas também não é minha função vir aqui para repreendê-los e puni-los. Os erros pertencem a vocês e apenas a reflexão os fará corrigi-los”.

O discurso se alongou um pouco mais. O homem manteve o assunto durante boa parte do tempo, citando como as pessoas deviam refletir sobre seus erros e evitá-los. Em dado momento, comentou sobre rostos novos e disse que ficou feliz de ver a comunidade crescendo. Por fim, se aproximou de alguém na ponta esquerda da primeira fileira e sussurrou algo. Esta pessoa fez o mesmo com aquele que estava a seu lado, e assim por diante até chegar em Elisa, que recebeu as palavras e as repassou.

— Faça justiça e tenha uma vida justa.

Bárbara olhou para Igor. Ele estava pálido e segurava o braço da cadeira com força. Quis perguntar se o amigo estava bem, mas achou melhor repassar as palavras para não causarem tumulto. Ele fez o mesmo sem esboçar qualquer reação.

— Tudo bem aí? — perguntou Bárbara.

— Não, não gosto nada daqui. — Ele cruzou os braços. — Será que termina logo?

As palavras passaram por todos os membros do culto e então, para o alívio de Bárbara, a reunião foi encerrada. Pessoas se levantaram e saíram sem pressa.

— Quer falar com o orador? — perguntou Elisa. — Ele gosta de conversar com novos membros.

Bárbara não lembrava de ter dito que se juntaria a eles, apenas que estava curiosa. Mesmo assim, aceitou o convite. Esperaram o salão quase esvaziar, e então Elisa a levou até o orador.

— Estes são Bárbara e Igor. Os dois estão interessados em se juntar a nós — disse ela.

— Que ótimo! — O homem sorriu. — Me traz alegria ver que nosso trabalho continua angariando novos integrantes.

— É, eu achei a cerimônia bem… diferente — disse Bárbara, desconfortável. — Quem teve a ideia de fundar o culto com esses ideais? Foi tu?

— Não, não. — Ele balançou a mão. — Nosso fundador nem está aqui hoje. A comunidade cresceu mais rápido do que Magno esperava e agora fica visitando as diferentes congregações.

— Mas ele nunca aparece?

— Uma vez por mês mais ou menos.

Igor deu um leve puxão na manga de Bárbara e, ao encarar o colega, viu que ele sinalizava para a saída com os olhos.

— Sinto muito, precisamos ir agora. — Ela se virou de lado. — O dia está meio corrido hoje, mas vou vir no próximo encontro na…

— Semana que vem — completou Elisa. — Sábado também.

— Isso. Até mais.

Virou-se e seguiu junto de um Igor apressado até a saída. No trajeto, viu um grupo de cinco homens conversando em um canto. Todos se encaixariam melhor como seguranças de boate do que ajudantes ou membros do culto. Um deles a encarou e, mesmo que quisesse devolver o olhar, foi impedida por um puxão no cotovelo dado pelo amigo. Saíram do local e afastaram-se umas duas quadras antes de Bárbara parar subitamente.

— Vai me dizer o que foi agora?

— Não gostei nada daquele lugar! — Igor se virou para ela.

— Qual é? Foi tão ruim assim?

— Claro que foi! — Igor olhou os arredores por um segundo. — Aquele discurso de justiça e sei lá o que não me engana! Esses caras são tudo menos justos.

— Calma! Me diz, o que teve de tão ruim?

— O padre, ou orador, ou sei lá o que. Algo nele não me agrada. O discurso parece moderado, mas eu tenho certeza de que isso é fachada para manter os curiosos como a gente por ali. Certo que ele tem uma pregação mais radical quando estão só os iniciados.

— Acho que tu viu conspiração onde não tem.

— Eu não vou voltar mais aqui, e recomendo que tu também não.

— Eu queria descobrir mais algumas coisas…

— Tu vai morrer antes de descobrir — disse ele, em tom de aviso.

— Como assim? — Bárbara franziu o cenho.

— Os caras no canto, aqueles que resolveu encarar. Notou algo estranho?

Pensou por um segundo. Lembrava que eles eram grandes e provavelmente musculosos. Tinha mais um detalhe só.

— Usavam várias camadas de roupa?

— Coletes à prova de bala.

— O quê? Não! Como sabe disso?

— Estou deduzindo, enquanto tu prestava atenção no orador eu olhei eles. E pelo menos dois estavam armados. — Igor respirou fundo e colocou as mãos no ombro de Bárbara. — Não se meta mais nisso. Eu sei que perdeu um amigo, mas não vale a pena. Vai ser pior para ti no fim.

— Como sabe disso?

— Eu… Olha, eu sei! Confia em mim?

— Confio.

E acreditava mesmo. Porém a curiosidade era grande, e cada vez mais aquele culto se tornava suspeito. Ficaria distante deles pelas próximas semanas, mas assim que soubesse que o tal Magno estaria em uma reunião, iria ver o cara. Não tinha como ser coincidência que membros de um culto novo fossem parar em um território, ainda mais com a suspeita de que havia envolvimento de armas. Talvez pudesse pedir ajuda dos outros, mas será que alguém responderia?

Como seria bom ter seus poderes no mundo real, poderia encarar qualquer perigo sem ter medo pela sua vida. Fazer o que nunca faria em outras situações.