Voltando agora a publicar os contos. Conforme prometido, vou tentar publicar um por mês. Tentei fazer algo mais emocional neste aqui. Como sempre, se quiser visualizar o conto em pdf, pode baixá-lo através deste link.
Conheci minha pequena estrela brilhante há muito tempo. Mesmo desejando-a, eu estava confusa, talvez até assustada. O que exatamente eu faria com aquela estrela? Seria eu a pessoa mais capaz para cuidar dela? Ela brilharia para todos verem?
Nunca fui capaz de responder tais perguntas, pois o mundo se move mais rápido do que as pessoas e precisei correr atrás dele para fazer o que pudesse ser feito. Quando a estrela chegou, foi como se minha vida finalmente saísse do breu diário. Tudo, apesar de novo, era claro, vivo e movimentado. Teve muita correria, vezes em que eu pensei ser incapaz, indigna daquilo que tinha em minhas mãos, apenas para me arrepender momentos depois e desejar nunca mais ter tais pensamentos.
Eu tenho tantas memórias, tão boas e alegres, tristes e frias, todas tão importantes e pequenas, detalhadas. A primeira vez que andou se destaca especialmente até hoje. Aqueles pés diminutos erguendo um corpo ainda instável, um para a frente e depois o outro, em rápida sucessão. Tão rápido como começou, ela caiu. Talvez nem tenha durado mais que dois segundos, mas até hoje essa memória sobrepõe tantas outras de momentos que duraram horas, mas que minha estrela não estava presente.
Minhas partidas sempre eram complicadas, um desequilíbrio preenchia meu ser, mas não foi nada comparado a quando ela partiu pela primeira vez. Depois de muita pesquisa, perguntas que me faziam parecer uma interrogadora da polícia, conversas com outros pais, finalmente fui capaz de escolher uma creche e deixar minha estrela lá. Aquilo sim foi nervosismo, um dia inteiro praticamente sem trabalhar, olhadas frequentes ao relógio, demandas ignoradas e ligações para a creche. E quando voltei para buscá-la, lá estava, como sempre esteve. O segundo dia não foi ausente de ansiedade, nenhum foi na verdade, mas aprendi a lidar com a ausência, a confiar na creche, naquelas pessoas estranhas que cuidavam da minha estrela enquanto eu não podia.
Ela cresceu, ficou esperta, até demais. Tinha uma mente igual um raio, uma hora aqui, outra hora ali. Perguntas e perguntas, precisei dar meu jeito de responder a maioria delas. Porém, mais uma vez eu era limitada em minhas capacidades e ficou ao cargo da escola ensinar muitos outros assuntos. Era estranhamente curioso e até engraçado como sua mente continuou afiada, mas parte da empolgação sumiu ao lidar com professores.
A tão grande questionadora de tudo se aquietou, mas seu brilho estava lá, pronto pra ser direcionado a assuntos que lhe interessavam. E eu a vi brilhar mais que tudo, mais que qualquer estrela no céu, quando começou a cantar. Eu nunca entendi de música, nem ao menos um pouco. Completamente sem ritmo, como dizia meu marido. Mas eu não precisava entender de música para sentir a voz da minha estrela, nunca precisei. Bastava fechar os olhos e se deixar levar. Não me importei muito se ela era boa ou ruim, eu estava apenas contente de ver sua luz alcançar níveis tão intensos.
Nem tudo são flores, porque estrelas tem seu lado obscuro também. As vezes esse lado aparecia por coisas simples, mas que desencadeavam alguns dias de mau humor, caretas e silêncio. Às vezes eram as notas, outras eram o comportamento. Até discutimos uma vez por conta do namorado. Tempos conturbados esses, mas todos foram superados e a luz de minha estrela sempre voltava.
E é por isso, por tudo isso que senti e passei, que vivi e imaginei, que sonhei. Por tudo isso, eu me pergunto, por que minha estrela teve que ser levada? Por que o mundo, a vida em si, consegue ser tão cruel? Onde está minha estrela?
É tudo tão cinza agora, tão silencioso e de alguma forma, barulhento. Por que não tentaram mais? Fui a única que ficou com ela até o fim. Nem doutores ou meu marido insistiram até o fim. “Não temos mais o que fazer”, “Por favor, descanse um pouco”. Todos eles! Malditos!
O que eles não sabem é que eu ainda não desisti. Não vou parar. Eles estão errados, pois ela não se foi para longe, apenas precisam saber onde olhar. Cegos diante de tamanha sabedoria científica que carregam. Cegos para o que realmente importa. Eu vou olhar em tudo, vou encontrá-la e trazê-la de volta, porque minha pequena estrela deve continuar brilhando.