Predadores: A Obsessão – Capítulo 3

O desenho mostra uma mochila de entregas aberta. Em seu interior estão quatro pães cervejinhas recém saídos do forno.
No topo da imagem há o número quatro para indicar o capítulo.

Passara as duas últimas semanas trocando mensagens com Nicolas, tentando assimilar tudo que tinha visto. Sabia que era real, mas isso só tornava a situação mais grave. Um lugar, uma dimensão melhor dizendo, onde seus residentes devoravam os humanos que apareciam. E para piorar, existiam pessoas, como ele próprio e Nicolas, capazes de entrar e sair dessa dimensão. Não queria nem pensar no fato de que possuíam poderes.

Viu uma mão passando em frente aos seus olhos, lhe tirando de seus pensamentos.

— Tudo bem aí? — perguntou Adair.

Sonhando acordado na frente dos clientes, que vergonha. Até parecia um amador, igual quando começou na carreira de vendedor muitos anos antes.

— Sim, sim, claro. — Olhou para o balcão. — Me desculpe, eu me distraí. O que tu pediu mesmo?

— Seis rosquinhas. De polvilho doce.

— Pra já.

Pegou uma sacola plástica transparente, botou as seis roscas dentro, entregou para o idoso e recebeu o pagamento. Em seguida olhou para o relógio na parede atrás de si. Mais algumas horas e sairia para fazer as entregas.

— Está bem mesmo?

Virou-se e viu Adair ainda ali, de sobrancelhas unidas e com um braço em cima do balcão.

— Estou bem sim, só cansado.

— Vai ter que contratar alguém para te ajudar guri, parece cada dia pior.

Fernando sorriu com o canto da boca e falou:

— Não vou te contratar, seu Adair.

— Esses jovens, cada dia mais exigentes. — Completou com uma risada.

— Obrigado pela preocupação, mas vou ficar bem.

— Eu sei que vai, tu é forte como um touro. — Olhou para o braço de Fernando. — Isso tudo é por causa dos pães?

— As máquinas fazem boa parte do trabalho, isso aqui é dos tempos de academia.

— Agora eu quero ir para a academia.

— Nunca é tarde para ficar monstro.

Adair sorriu, mas a expressão durou pouco.

— Fale o que quiser, sou metido mesmo, mas se tiver algum problema, pode contar comigo.

— Olha que eu vou cobrar, hein!

Se despediram e dessa vez o senhor saiu mesmo da loja. O resto do expediente na padaria foi tranquilo. O tempo se arrastava e Fernando se pegava sempre distraído. Confundiu alguns pedidos e por vezes até cobrou a mais. Estava piorando. Não conseguiria manter dois empregos com outros assuntos rondando sua cabeça.

O relógio cravou dez horas, e com isso o momento de fechar o estabelecimento. O celular emitiu um bipe de mensagem que foi ignorado. Conhecia o remetente e o assunto. Sempre, todo maldito dia, recebia o mesmo texto nesse horário.

Nicolas

Algo para reportar? Podemos nos encontrar hoje?

Fernando o enrolara durante um tempo, dizendo que não estava se sentindo bem, ou que tinha assuntos para cuidar, por fim falando que em breve estaria melhor. Nos dois primeiros dias Nicolas mandou a mensagem durante o turno na padaria, mas depois de uma reclamação de Fernando, passou a mandar após o expediente.

Terminou de fechar a loja, pegou o celular e começou a digitar sua resposta padrão, porém parou antes de concluí-la. Por quanto tempo mais adiaria esse compromisso? Nicolas não parecia ter a cabeça no lugar certo, mas só estava sendo tão insistente porque Fernando o contatou e prometeu que ajudaria. Se odiava por ter feito aquela promessa, não conseguia nem se ajudar, quanto mais aos outros.

Olhou para o relógio, em breve teria que começar as entregas. Mesmo sabendo que quase morrera uma vez, precisava continuar com elas. Como mais iria se manter? Pensou na alternativa de Gabriel e balançou a cabeça, não era o namorado a encarar sua própria família.

Apagou a resposta que escrevia e largou o celular em uma mesa. Caminhou devagar pela padaria. Poderia dizer que não queria mais nada com Nicolas, tinha certeza de que ele aceitaria e nunca mais o contataria. Eles não eram heróis ou detetives para sair investigando os predadores. Deviam deixar aquilo com a polícia ou jornalistas ou qualquer outra profissão investigativa, fariam um trabalho melhor com certeza. Claro que fazê-los levar a sério era outra história.

Sentou-se em uma cadeira próxima. Já era hora de sair, estava se atrasando. Olhou para o celular com o aplicativo de mensagens aberto na tela. Sentindo o arrependimento na ponta dos dedos, escreveu sua resposta.

Fernando

Como nos encontramos?

***

Houve uma época em que fora fascinado por histórias fantásticas. Filmes e quadrinhos envolvendo magia eram seus preferidos. Lembrava-se bem de várias situações em que, para lançar uma magia ou superpoder, o protagonista precisava primeiro visualizá-lo em sua mente. Fernando algumas vezes até ficou irritado com aquelas situações, afinal, era só imaginar, como poderia ser tão difícil? Quem diria que chegaria o dia de fazer algo semelhante.

Sentado no interior da padaria, vestindo roupas que podia se dar ao luxo de rasgar, com um pé da cabra nas mãos e usando a mochila de entregas, tentava visualizar um portal para a morada dos predadores. “Apenas visualize-se indo para outra dimensão, rasgando o tecido entre elas e atravessando”, essas foram as palavras de Nicolas, mas não faziam sentido algum. Tentou mais uma vez, mas nada se formou à sua frente. Pegou o celular e releu as mensagens, para ter certeza que não fazia nada errado. Tentou novamente e não obteve sucesso. Levantou-se e tomou um copo de água, passou no banheiro e notou como suava. Lavou o rosto e encarou o espelho.

— O que estou fazendo?

A figura no espelho mimicou seus movimentos. Ficou encarando o reflexo, lembrando como algumas histórias utilizavam deles como uma forma de transporte e sempre que isso acontecia, o espelho trocava sua imagem para o local de destino, ou para uma espécie de vórtice. Ótimo, estava usando ficção como guia.

Voltou até sua cadeira, se sentou e fechou os olhos. Talvez tivesse que ser mais preciso, queria ir para outra dimensão, mas para onde nela? Pensou no metrô, tinham combinado de se encontrar lá e depois ir para outro lugar.

De repente sentiu sua cabeça tremendo de leve, um balançar constante e ao mesmo tempo calmo, familiar. Abriu os olhos e se viu no interior de um vagão.

— Está atrasado — disse Nicolas ao seu lado, usando roupas formais como da última vez.

— Tuas instruções eram bem vagas. — Balançou a cabeça. Agora tinha um chefe pra ficar cobrando-o e nem lembrava de vê-lo assinando a carteira.

— Foi o que funcionou para mim.

Fernando olhou para as janelas. A paisagem era a mesma de duas semanas atrás, parecia que nada mudara. Levantou-se, segurando com firmeza o pé de cabra. Com uma arma para se proteger não ficaria mais refém da ajuda de Nicolas.

— Vamos só explorar mesmo? — perguntou.

— Correto. — Nicolas começou a caminhar até a divisa entre os vagões. — Temos que entender mais desse lugar, descobrir como funciona e se há outros predadores.

— Vem cá… — Fernando seguiu. — Como tu sabia a forma de voltar para cá? Não parece algo simples.

— Isso eu aprendi sozinho, mas outras coisas eu tive ajuda de uma pessoa.

— E quem é essa pessoa? Ela faz parte do seu grupo?

— Não faz parte do nosso grupo.

— Mas quem é?

Nicolas estava prestes a respondê-lo, porém um tremor percorreu o vagão. Os dois seguraram-se nas barras de apoio para não caírem. O silêncio pairou em seguida, os nós dos dedos de Fernando estavam brancos de tanta força que exerciam.

Após algum tempo sem mais nada acontecer, Nicolas soltou devagar a mão de uma das barras, logo depois soltou a outra. Fernando fez o mesmo.

— Isso não aconteceu da outra vez — comentou Fernando, olhando para frente e para trás no vagão.

Nicolas franziu o cenho.

— Ou o predador original está crescendo, ou é uma presença externa.

— Presença externa? — Por que sempre explicava de uma forma difícil de entender?

— Alguém como nós.

— Um aliado, então? Ufa, pensei que seria pior.

Nicolas não falou nada.

— Espera, não é um aliado?

— Pode ser, ou pode não ser. Já encontrei pessoas que tentaram me matar. Vamos ver. Estou otimista hoje.

Fernando não questionou por que seres humanos se atacariam ali, já sabia a resposta. Também não quis perguntar o que Nicolas fez com eles.

Seguiram em frente atravessando os vagões, vendo alguns com assentos quebrados, estruturas deformadas e janelas rachadas. Passaram até mesmo por portas de desembarque. Depois de vários minutos, chegaram em uma seção destruída. Havia rombos nas paredes, vidros quebrados e fendas no chão. Nicolas parou de caminhar e estendeu o braço para o lado, Fernando obedeceu o sinal e também parou, observando melhor o estrago. As “saídas” do metrô eram pura escuridão, não era possível ver os trilhos, tampouco o lago ou a cidade. Ajeitou as alças da mochila de entregas ao notar o transporte lentamente se reconstruindo. Pouco a pouco o metal se alongava para preencher o vazio, o vidro reunia seus cacos para consertar as janelas e os assentos se reformavam. Lembrou Fernando de sua própria habilidade. Será que havia, em algum lugar, uma aberração sofrendo pela cura do vagão?

Nicolas se aproximou de um buraco na parede e observou-o por diversos ângulos. Fernando não chegou perto, evitava até mesmo manter seu foco na escuridão, procurando qualquer outro ponto de interesse.

— Seja lá quem fez isso, é forte. — O engomado passou um dedo ao redor da seção destruída. — Causar danos ao terreno é quase impossível, é mais fácil matar o predador original e esperar o resto se desfazer.

— E o que isso quer dizer?

— Que precisaremos agir rápido se essa pessoa for um inimigo. No pior dos casos, morreremos antes que eu faça algo.

Fernando olhou para o caminho adiante e sentiu um aperto na garganta.

— E se não for um inimigo? Pode ser só alguém perdido, assim como eu na primeira vez.

— Sim, pode ser.

— Então temos que ajudá-lo!

Nicolas o encarou, examinando-o de cima a baixo. Por fim, mexeu na corda em seu pescoço, olhou para o próximo vagão e falou:

— Sim.

Seguiram adiante, tomando cuidado onde pisavam. Nenhum dos dois comentou sobre a escuridão. Não precisava, Fernando sabia que era ruim. Chegaram na divisória e abriram a porta, vendo um vagão vazio e inteiro. No meio dele, uma mulher praticamente se arrastava, seus pés mal saíam do chão, e a cada passo ela largava a mão de uma das barras e passava para a próxima, avançando até o carro seguinte. Seus longos cabelos cacheados estavam empapados de suor, usava uma jaqueta preta de couro com asas vermelhas nas costas, calça jeans e um par de botinas. Se ela os notou entrando, não demonstrou.

Fernando não se aguentou, era impossível alguém naquele estado ser um inimigo. Passou pelo lado de Nicolas e gritou:

— Viemos te ajudar!

A mulher virou o rosto na direção deles e Fernando parou. A face dela estava tomada por rachaduras vermelhas na pele, pulsando a cada segundo. A esclera era escura e a íris de um tom rubro.

— Não venham! — A voz saiu como um rosnado.

Fernando fitou o pé de cabra nas mãos, abaixou-se lentamente e o largou no chão, levantando-se em seguida.

— Não iremos te machucar. Eu só quero ajudar.

Os olhos da moribunda alternavam entre a ferramenta e Fernando. Ela recuou um passo, passando a segurar com a mão esquerda uma barra que estava um pouco acima dela. Apontou a mão direita na direção deles, os dedos tremendo, o braço oscilando para cima e para baixo em um óbvio esforço para manter-se erguido.

— Não! Vão embora! Mentirosos!

Fernando estava prestes a dar outro passo quando sentiu uma mão no ombro seguida de um sussurro.

— Deixe comigo.

— Ela está assustada, eu… — Fernando virou o rosto, encarando Nicolas. — Eu não acho que tu consiga.

— É só ir com calma.

— Se enforcá-la, eu juro que uso o pé de cabra em ti.

Ele não respondeu à ameaça, apenas seguiu na direção da mulher.

— Você está confusa e assustada, acontece com todos daqui — disse Nicolas, elevando o tom de voz.

Ela recuou mais um passo.

— Sai!

— Sem dúvida te atacaram e você apenas revidou. Está tudo bem, não vamos te ferir.

— Eu já disse para ficar longe.

— Nós queremos apenas ajudar, como meu amigo disse, não somos pessoas ruins.

Nicolas estava a poucos passos de distância da mulher. Ele parou de caminhar e estendeu a mão esquerda para ela.

— Venha.

— Eu disse para ficarem longe!

Ela pisou firme no chão metálico, e as fissuras alumiaram. Nicolas levou a mão direita até o colarinho e pareceu ajeitá-lo. Estava receoso? Não, no pouco tempo em que se conheciam, sabia que aquele cara não hesitava. Ao mesmo tempo em que chegou a essa conclusão, uma corda surgiu no ar e enrolou-se no pescoço da moça. Fernando deu um passo adiante, recuou, pegou o pé de cabra no chão e correu em frente. Mal deu dois passos e a vítima do enforcamento reuniu forças para liberar um grito rouco e gutural.

— Fora!

As rachaduras na pele se expandiram, e delas começou a vazar um líquido vermelho incandescente, denso e viscoso. Assim que o fluído entrou em contato com o ar exterior, explodiu como uma bomba. A onda de choque jogou Fernando para trás e tirou a arma de suas mãos. Quando seus sentidos se estabilizaram e o ouvido parou de zunir, levantou-se e olhou ao redor. A mulher estava caída no chão, as fendas na pele ainda pulsando, porém com uma cor mais opaca. Nicolas fora jogado adiante e agora estava sentado.

Fernando sentiu vontade de esmurrar o desgraçado até não poder mais, porém parou ao ver o estado em que ele se encontrava. Nunca foi de entrar em grupos que compartilhavam vídeos de assassinatos e ferimentos brutais, mas pensou que a cena diante de si poderia vir direto deles. O braço esquerdo de Nicolas estava destruído, com pedaços espalhados por perto. O coto era uma massa vermelha e sangrenta, com um pedaço de osso como uma protuberância estranha.

Engatinhou até o ferido, sentiu as mãos tocando o sangue no chão. Ao se aproximar, abriu a boca, mas nada saía. Ficou apenas ali, parado, a mente incapaz de raciocinar.

— Pegue a mulher, temos que carregá-la pra fora daqui — disse Nicolas.

— Ta doido? Olhe o seu… Olha… Seu braço!

Sentia vontade de desviar o olhar e ao mesmo tempo não conseguia. Na verdade, não sabia nem para onde olhar depois.

— Fernando, vou precisar da sua cura.

Sentindo como se levasse um tapa na cara, lembrou-se da mochila. Pegou pães cervejinhas milagrosos que estavam nela e os deu para Nicolas comer. Ele mastigou todos sem dificuldade. Fernando tentou antecipar a dor que viria em seguida, mas ela chegou antes de seu preparo. Começou como uma queimação no braço que só não o derrubou porque já estava ajoelhado. Se curvou, apertando o membro com força, aumentando a dor, mas não sabia o que fazer. Esquecera por um momento do preço a ser pago pela cura, como era burro! Não podia perder o braço, precisava dele! Como explicaria isso para Gabriel? Como trabalharia na padaria? Como faria as entregas?

A dor arrefeceu aos poucos, no entanto a visão do que acontecia serviu apenas para deixá-lo mais paranoico. Viu e sentiu os músculos do braço atrofiarem, a pele tornar-se flácida e em seguida ressecar. Ao final, mais parecia o membro de uma múmia do que o seu próprio.

Levantou a cabeça, mais para tentar ignorar o acontecido do que qualquer coisa. Viu que o braço de Nicolas voltara e parecia tão saudável quanto antes.

— Tu é um filho da puta — disse Fernando, entre longas pausas para reunir ar.

— E você me ajudou mesmo assim. Quer me bater? Faça isso quando estivermos seguros.

Nicolas se levantou e ofereceu a mão para Fernando. Não aceitaria aquela gentileza, não mesmo. Com o braço direito, apoiou-se em um assento e ergueu-se.

Por mais violenta que a explosão tenha sido, não afetou o vagão tanto quanto a eles. Foi fácil se aproximar da mulher, e com a ajuda de Nicolas, ergueram-na, passando os braços por baixo de suas axilas. Não era a forma mais gentil de carregar alguém, mas não estavam em condições de serem cuidadosos.

Passaram pelos vagões anteriormente danificados. Todos já tinham voltado ao normal, era como se o território lhes mandasse um lembrete de que era impossível destruí-lo por completo. Assim que chegaram em frente à porta de desembarque, Nicolas se adiantou e foi o primeiro a botar o pé fora do metrô.

O cenário mudou. O concreto do chão transformou-se em terra coberta de grama, a luz artificial de lâmpadas se tornou a iluminação de uma noite limpa e coberta de estrelas, e o ar enclausurado mudou para um vento forte com cheiro de maresia. Não muito longe de onde estavam, uma construção se erguia na noite. Um farol. E depois dele apenas o mar.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 2

O desenho mostra no centro um homem com expressão séria e intimidadora olhando em direção ao observador. Ele possui cabelo curto, veste uma camiseta social e um crachá de empresa balança em seu peito. Seus braços são anormais, transformados em chicotes longos grossos por onde despontam partes de ossos em quantidade maior que um ser humano deveria possuir.

O cenário ao redor é o interior de um vagão de metrô, e além do homem do chicote, diversas outras pessoas olham com expressões de desconfiança e desgosto para o observador.

Avançou um pouco antes de ser pego. A multidão o agarrou e o parou de forma coordenada, cada um segurando partes diferentes do corpo. Desvencilhou-se de dois que prendiam seu braço, e com este livre, bateu em três que restringiam o outro. Era como acertar rochas e seu punho doeu mais com os socos desajeitados do que machucou os agressores.

Berrou e se debateu. Os malditos gritavam, repetindo as mesmas frases. Algo penetrou sua roupa e rasgou sua pele. Sentiu seus braços, ombros e peito sendo abertos com cortes superficiais, mas doloridos mesmo assim. Fechou os olhos.

As vozes pararam abruptamente e não havia mais ninguém lhe segurando ou ferindo. Caiu sentado ao ver os arredores. Seus atacantes estavam suspensos no ar por cordas que saíam do teto e os enforcavam. Encolheu-se no chão para enxergar apenas o metal, tapou a boca e tentou ignorar o cheiro fétido que impregnava o ar. Tremeu ao sentir uma mão em seu ombro.

— Tudo bem?

Virou o rosto devagar, com medo de ver os cadáveres, mas não havia nada, nem as cordas nem os passageiros, o cheiro terrível também desaparecera. Apenas o maluco de terno estava ali, agachado ao seu lado.

— O que… — Fernando tentou formular uma pergunta, mas não sabia como completá-la.

— Você foi atacado pelos predadores. — Nicolas aliviou o aperto da forca no pescoço. — Desculpe não te ajudar de imediato.

— Tu… Foi tu que matou eles?

— Sim.

Fernando se levantou em um pulo e recuou.

— Tu é um monstro! O que fez com eles?

— Os corpos de predadores desaparecem depois de mortos.

— Pare com essa história de predadores! Isso não existe.

— Supondo que não existam e eram apenas pessoas normais, teriam te linchado.

— Mentiroso!

— Olhe para si mesmo, sua roupa está em frangalhos.

Por mais que odiasse admitir, o homem tinha razão. Sua camiseta estava rasgada nos ombros e parte do peito, filetes de sangue escorriam por diversos arranhões na pele.

— Vou esperar você se acalmar. Só saiba que não temos tempo a perder, agora que matamos alguns, o resto virá atrás de nós. — Ele sentou-se em um assento próximo.

— Nós não matamos, tu fez isso sozinho.

— Estamos na mesma posição, você é como eu.

— Não sou!

Nicolas não respondeu, apenas fitou-o. Fernando tentou colocar os pensamentos em ordem: acabara de participar de assassinato, teria que denunciar isso à polícia. Talvez nem acreditassem nele, o que falaria, afinal? “Tentaram me matar e daí um maluco veio e enforcou todo mundo. As vítimas? O corpo delas desapareceu depois”, quase riu de si mesmo, era o verdadeiro insano nessa história. Se ficasse ali, será que alguém iria resgatá-lo? Quem? Não, não podia depender de ninguém. Um passo depois do outro. Primeiro sair do metrô, depois pensar no que fazer.

— Tudo bem, vou entrar no seu jogo. Estamos sendo atacados por predadores, como saímos daqui?

— Atravessando os vagões e procurando uma saída.

— E se formos atacados de novo?

— Deixe comigo, estou familiarizado com o funcionamento desses lugares.

— Tu vai na frente então.

— Claro.

Caminharam até o próximo segmento do metrô. Lá estava o enjoo mais uma vez, era como entrar em uma sala cheia de carniça e respirar fundo. Viram mais pessoas encarando-os, e desta vez havia um homem em pé no meio do caminho. Era alto e parrudo, usando roupas formais que pareciam apertadas e desconfortáveis. Um crachá ficava à mostra no peito e ostentava uma expressão séria e desaprovadora.

— Pare, fique bem para trás — disse Nicolas.

Não precisava pedir, Fernando já dera três passos e daria mais assim que algo ruim ocorresse.

— Vocês precisam ser corrigidos. Não se encaixam na nossa família — disse o homem no meio do vagão.

O braço dele começou a se alongar, a pele do antebraço rasgou, revelando a carne por baixo. Espinhos que mais pareciam pedaços de ossos surgiram do interior do membro. A mão perdeu a forma e tornou-se apenas mais um pedaço daquele chicote de espinhos feito de carne e osso. Fernando acreditava ter estômago forte, mas cada minuto no metrô fazia suas entranhas se revirarem e o cérebro chacoalhar.

Nicolas inclinou o corpo para trás e botou o braço direito à frente da cabeça. No instante seguinte, o chicote se moveu em velocidade assustadora e se enrolou no braço que servia de escudo. O outro membro do predador se transformou e envolveu a cintura e barriga do homem à sua frente. Contrariando intenções anteriores, Fernando pensou em ajudar, mas o que faria? Deu um passo em frente, qualquer coisa era melhor que ver alguém morrer.

Uma corda surgiu a partir do teto e se enroscou no pescoço do homem do chicote e de todos que os encaravam. Foram puxados para cima com um solavanco, não se debateram ou reagiram. Apesar da repulsa, Fernando se recusou a fechar os olhos. Concordara em participar, tinha que ver tudo, até mesmo o desagradável. O corpo dos mortos começou a escurecer a partir das extremidades, a pele rachou e uma gosma se espalhou para fora. Os restos mortais começaram a se tornar poeira e logo nada restava deles.

As cordas desapareceram em seguida. Nicolas baixou o braço direito e com o outro aliviou a forca no pescoço. Sangue embebia o terno onde fora atingido, mas ele não emitiu um gemido de dor sequer. Olhou para trás e falou:

— Vamos continuar.

Começou a caminhar para o próximo vagão, sangue escorrendo dos ferimentos a cada passo dado. Fernando não se aguentou.

— Não podemos continuar, tu não tá nada bem.

Nicolas parou, analisou o braço direito e a barriga.

— Estou bem, conseguiremos chegar na saída desse jeito.

— Eu não consigo. — Fernando segurou o ferido pelos ombros e o empurrou até um assento, forçando-o a se sentar.

— Precisamos pelo menos estancar isso. — Tirou a mochila de entregas das costas, colocando-a ao lado de si. — Tem alguma faca para cortarmos a roupa?

— Infelizmente não, você não tem nada nessa mochila?

Fernando revirou os olhos. Era uma mochila de entregas, não uma caixa de primeiros socorros. Mesmo assim, se agachou e a abriu, desejando ter algo que o ajudasse. Franziu o cenho com o que viu. Ali, no meio da mochila, solto como estivesse em um forno, estava um pão. Pegou ele com a mão direita, estava aquecido ainda, possuía formato achatado e comprido, a casca levemente crocante. Era igual a um dos ciabatta que fazia na padaria.

— Você entrega pães?

— Que pergunta é essa? — Olhou o pão por diversos ângulos, não fazia muito sentido ele estar ali. Na verdade, nada fazia sentido algum, então talvez não fazer sentido fazia sentido. Uma ideia surgiu em sua mente, como se fosse o correto a se fazer. — Coma.

— Por quê?

— Come!

O homem pegou o pão e o aproximou da boca, dando uma mordida delicada. As próximas foram ávidas e em poucos segundos nada restava. Fernando sentiu uma queimação no braço direito e na barriga, mas não lhes deu atenção pois seus olhos mesmerizaram-se com os acontecimentos à sua frente. As feridas de Nicolas fecharam-se, a carne foi reconstruída e logo depois coberta por uma camada de pele. O único resquício de um ferimento era o sangue empapando a roupa.

— Tu é humano? — perguntou Fernando, encarando o homem.

— Tanto quanto você.

— Duvido, não fui eu quem fechou feridas sérias.

— Foi você sim. Ou melhor, foi sua mochila.

— Ah sim, a mochila criou um pão mágico que cura todas as feridas. — Fernando riu. — Isso é ridículo.

— Mas é a realidade. — Nicolas passou a mão pelo braço curado. — Pegue seu telefone.

Sentindo-se idiota por não pensar nisso antes, moveu a mão para pegar o celular. Só então notou diversos ferimentos no seu braço direito, parecidos com aqueles do chicote, porém mais leves. A visão do sangue lhe trouxe a dor, não só no braço, como na barriga. Olhou para baixo e notou manchas de sangue na camiseta. Com os joelhos prestes a cederem, levantou a roupa e viu ferimentos no abdômen, idênticos ao do braço.

Sem aviso, Nicolas se avizinhou, mais perto do que Fernando gostaria, observando com atenção as feridas. Não tinha forças para afastá-lo. Precisava se acalmar, pensar com clareza. Sentou-se em um banco próximo e aguardou.

Minutos se passaram, mas não conseguiu sossegar. Fitou os machucados durante o intervalo, notando que cicatrizavam a uma velocidade espantosa — só não tanto quanto as de seu companheiro maluco — e logo estava curado. Deixara de ser humano sem notar? Nunca se recuperou assim. Inspecionou o corpo em busca dos arranhões de antes, sem sucesso em encontrá-los.

Ouviu um estalo de dedos na sua frente.

— Não podemos esperar mais.

Sem cabeça para questionar ou tentar entender, Fernando pegou seu celular e tentou, sem sucesso, fazer uma ligação para a polícia.

— Não é possível se comunicar com o lado de fora. Agora, anote esse número e salve o contato. — Nicolas ditou um número de telefone.

— É o seu? Para quê?

— Quero que me ligue assim que sair daqui.

— Nunca mais quero te ver.

Se ficou ofendido, não demonstrou, apenas replicou:

— Anote mesmo assim, é só não ligar.

Não querendo perder a única ajuda que encontrara, salvou o contato. Feito isso, olhou as horas, já passava das vinte, mas ali ainda parecia ser o final da tarde. Como isso estava acontecendo em Porto Alegre sem ninguém mais notar? Antes que chegasse a uma conclusão, o horário mudou para as quinze.

— Vamos continuar — disse Nicolas.

Chegaram no próximo vagão. Ele estava cheio de pessoas olhando o nada e, para o alívio de Fernando, havia uma porta de desembarque.

— Graças a Deus! — Correu até a saída. — Como saímos agora?

— Para onde você quer voltar?

— Para minha casa, é óbvio.

— Então vá.

A porta se abriu de repente, revelando uma estação. Havia pichações por toda a parte escrito “Volte”, “Fique aí” e “Aqui é sua família”. Fernando botou a cabeça para fora do metrô e olhou para os lados. Na direita havia uma escadaria terminando em uma passarela.

Não entendeu muito as palavras de Nicolas, mas não chegaria em casa se ficasse enrolando. Botou um pé fora do vagão e tudo se desfez no instante seguinte.

***

Estava em sua casa, na cama. Se despreguiçou, espantando a nebulosidade da mente. Lembrou-se então das entregas, do roubo, da morte e do metrô. Acendeu a luz e examinou seu corpo. Nada de ferimentos, nem mesmo uma cicatriz. Fora apenas uma fantasia?

A moto! Se fosse verdade, não estaria com ela.

Saiu do quarto, passando de fininho pela sala, onde Gabriel assistia televisão. Chegou na garagem e encontrou seu veículo. Observou-o por todos os ângulos possíveis. Estava em perfeito estado. Notou a mochila de entregas em um canto. Abriu-a e viu apenas o vazio, deixou escapar uma risada baixa.

— Fê, tudo bem aí? — Ouviu a voz de Gabriel vindo de trás.

— Sim. — Virou-se com um sorriso no rosto. — Só tive um pesadelo loucaço.

O namorado se aproximou, segurando e acariciando a mão de Fernando.

— Eu já disse: tu se puxa demais. Por que não pede ajuda para tua família?

Desvencilhou-se.

— Não posso, tu sabe disso.

— Pode sim.

— Hoje não…

Gabriel negou com a cabeça.

— Vamos para a sala, faz tempo que não vemos algo juntos.

— Eu tenho que dormir, preciso estar na padaria depois.

— No domingo?

Fernando ficou em silêncio. O próximo dia era domingo mesmo? Nem se lembrava de ver a semana passando. Agradeceu pelo presente inesperado.

— O que está passando de bom?

— As mesmas porcarias de sempre.

Ficaram algumas horas assistindo televisão no sofá. Viram um pouco do noticiário, com as matérias recorrentes: corrupção, instabilidade no clima e desmatamento. No entanto, uma notícia despertou sua curiosidade: uma série de desaparecimentos próximos ao metrô de Porto Alegre. A matéria relatava a vida das pessoas, todos adultos trabalhadores, que sumiram nos últimos quinze dias, um dos desaparecidos inclusive era parente de um funcionário do canal que assistiam. A polícia conseguiu rastrear os movimentos de todos os cinco desaparecidos até entrarem no transporte, e a partir daí era como se tivessem desaparecido. Ninguém mais os tinha visto. Olhou para Gabriel, que assistia à reportagem sem muito interesse. Será que teria a mesma reação se não fosse pelo sonho? Sentiu um incômodo no braço e na barriga.

Saíram da TV aberta e botaram um filme qualquer no streaming. Como era de praxe, seu namorado botou uma comédia romântica leve e de humor pastelão. Exatamente o que precisavam para relaxar no final do dia. Ao término do filme, foram os dois para a cama.

Ouviu o tique-taque de um relógio, portas abrindo e fechando. Sentiu mãos tocando seus braços e coxas, apalpando, agarrando, testando. Estavam puxando-o, mas pararam de repente. Desapareceram, deixando apenas a sensação de que poderiam voltar quando quisessem.

Fernando acordou de madrugada com o corpo suado e a respiração acelerada. Foi até a cozinha e se serviu de um copo de água. Enquanto o líquido gelado descia pela garganta, seu celular vibrou. Nem queria ver a notificação recebida, mas então lembrou-se do número salvo no sonho. Devia ser apenas um delírio causado pela exaustão. Mesmo assim, pegou o aparelho e visualizou os contatos. Seus dedos pararam quando encontrou o que não queria achar: Nicolas.

Em negação, procurou pela casa a camiseta que usava no sonho e encontrou-a no fundo da lixeira, embaixo de embalagens de plástico. Estava rasgada e possuía manchas vermelhas. Enfiou-a de volta no saco, o mais fundo que conseguiu.

Ligou para o número encontrado antes. Chamou durante alguns segundos e então alguém atendeu.

— Nicolas aqui, quem fala?

Fernando segurou a respiração. Estava pirando? Talvez devesse mostrar para Gabriel o contato e explicar tudo que viu. Não, o namorado já tinha muito com o que lidar.

Se identificou para Nicolas e conversou sobre o que viram e ouviram naquele lugar amaldiçoado.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 1

O desenho mostra um homem de costas. Ele usa uma mochila de entregador, camiseta de manga curta e possui pele morena. Na frente do homem há um passageiro sentado, com olhar ausente. Um pouco mais afastado, está um terceiro homem, este usando terno e, no lugar de uma gravata, está uma corda de forca. Na direita, uma janela mostra o por do sol no lago.

O alarme tocou às vinte e duas horas e foi desligado logo em seguida por mãos que memorizaram há muito o ponto exato que deveriam tocar na mesa de cabeceira. Levantou da cama e seguiu sua rotina: tomar banho, escovar os dentes, trocar de roupas e comer algo para forrar o estômago. Trinta minutos depois subiu na moto e disparou rua afora. A pouca movimentação agilizou seu percurso, que em condições normais demoraria cinco ou dez minutos a mais para ser feito, mas como nem tudo eram flores, o vazio da noite cobrava seu preço. A cada parada, a cada sinal vermelho, Fernando corria os olhos pelos arredores, relaxando só quando a moto estava em movimento novamente.

Chegou na padaria faltando quinze minutos para as vinte e três horas. Ali seu trabalho começou. Limpou toda o local primeiro e, em seguida, passou ao preparo dos produtos. Mesmo usando diferentes receitas, o passo a passo era parecido: preparar a massa, deixar na estufa, preparar o próximo pão e, por fim, assar os já fermentados. Eram movimentos braçais e cansativos, auxiliados pelas máquinas que conseguiu financiar, mas seu corpo se acostumara após tantos meses nessa rotina. Ainda assim, prestava atenção em cada etapa, nunca deixando a mente divagar no meio do trabalho. Nas poucas vezes que fazia isso, parava a atividade e descansava por meio minuto.

As horas passaram e o alarme das sete tocou, anunciando o momento de abrir a padaria. Distribuiu os pães na mesma organização de sempre, lavou o rosto, passou pano uma última vez nas mesas, alinhou as cadeiras e destrancou a porta da frente. Não demorou para seus clientes habituais aparecerem.

— Quando tu vai contratar alguém pra ficar no balcão? — perguntou Adair, um senhor em seus setenta anos. Preciso como um relógio suíço, aparecia todo dia às sete e meia.

Fernando coçou os olhos.

— Não quero ter que contratar alguém para demitir de novo tão rápido. De repente, quando a padaria voltar a ter um lucro bom eu procuro um funcionário. Aliás, seu Adair, o que acha de trabalhar aqui?

— Bah, nem fala isso. Eu consigo contar o dinheiro, mas essa maquininha sua eu não sei usar não.

— Eu te ensino, é bem fácil. — Fernando movimentou as mãos como se estivesse varrendo algo. — Mas tem que limpar o banheiro também.

— Não, nem pensar! Sou velho demais para isso.

Os dois se despediram e seguiram para seus dias. Logo chegou as dez horas e Fernando fechou a padaria. Contabilizou o que vendeu e o que sobrou. Trabalhando sozinho, sua produção diária diminuiu, mas ainda assim não conseguia vender tudo. O prejuízo era menor comparado com os meses anteriores. Sentia-se triste pelos funcionários que demitira, mas era isso ou a falência inevitável.

Botou alguns dos pães que sobraram no baú da moto e os demais ensacou e largou em um cesto vazio que tinha instalado na frente da padaria. Logo acima do recipiente, um papel ensacado dizia “Pegue quantos precisar”. Teria problemas se alguém denunciasse para a vigilância sanitária, porém acreditava que era melhor correr este risco do que jogar a comida fora.

Trancou tudo, subiu na moto e voltou para casa. Chegando lá, se permitiu alguns minutos de descanso antes de trocar de roupas, pegar a mochila de entregador e sair para seu segundo trabalho. Abriu o aplicativo às onze horas e as entregas começaram. Em cada trajeto, sua atenção se movia entre os carros, as ruas esburacadas e o tempo decorrido. A cada pedido finalizado, calculava o quanto ganhara e quanto faltava para atingir a meta do dia. Não precisava de muito, apenas do dinheiro suficiente para zerar o prejuízo com a padaria.

Pouco depois das quatorze horas, recebeu um pedido de dois almoços não muito longe de onde estava. Passou no restaurante e saiu em direção ao destino. Chegou em uma rua estreita, com casas próximas uma das outras. O chão, apesar de asfaltado, estava desregulado em muitos níveis e com buracos aqui e ali, nada que Fernando não estivesse acostumado.

Parou em frente ao local, uma casa toda fechada com uma grade pintada de azul e arame farpado na parte superior. Buzinou algumas vezes e saiu da moto. Passou um minuto e nem sinal do sujeito. Perfeito, era mais um daqueles babacas que pediam comida e nem se preocupavam em ver se estava chegando. Buzinou mais uma vez, bateu palmas e gritou. Nada.

Olhou para o celular, verificando se não estava no lugar errado, talvez o babaca fosse ele mesmo. Ouviu passos e se virou, apenas para dar de cara com dois homens. Não, garotos. Estavam próximos a ele, um apontando uma pistola, a mira oscilando tanto que poderiam diagnosticá-lo com Parkinson.

Não pensou duas vezes, apenas levantou os braços e pediu:

— Por favor, a moto não.

— Celular e carteira! — gritou o desarmado. Este parecia um pouco mais velho que o outro.

Fez como pediram, já fora assaltado outra vez e sabia que o melhor caminho era obedecer, mas não pôde se impedir de falar enquanto entregava os pertences.

— A moto não, eu preciso dela.

— Cala a boca!

Fernando se afastou, deixando os dois subirem no veículo. O ronco do motor fez o padeiro ir contra o senso comum e, antes que pudesse raciocinar, lançou-se na direção dos ladrões. O mais jovem, sentado atrás, notou a movimentação e gritou. Um estouro repentino abafou o berro.

— Merda! — berrou o atirador, olhando para a arma nas mãos.

— Fica quieto — gritou o mais velho, então acelerou e disparou para longe.

Fernando nem notou que estava caído no chão, só viu os dois indo embora, levando sua moto. Não teria dinheiro para comprar outra, tinha que abandonar a padaria. Tudo culpa dele. Era burro, ignorante, teimoso. Desculpou-se com o pai e não viu mais nada.

***

Despertou com as batidas do próprio coração. Sobressaltou-se, notando que estava sentado em um assento de plástico duro. Na sua frente havia mais uma fileira deles. Levantou o olhar e deparou-se com diversas janelas dispostas lado a lado ao longo de um vagão. Através delas via um lago enorme.

Inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nas coxas e observando o chão metálico e sujo. Estava apenas no metrô, o assalto fora um sonho. Contudo, o que fazia ali? Morava a quilômetros da estação mais próxima.

Viu no assento ao lado sua mochila de entregas e, ainda que estranhasse sua presença, a colocou sobre o colo. Notou luzes vindo de trás e virou-se. Ao longe, havia prédios altos e amontados que superavam quinze andares, a sua maioria com letreiros de neon cujas palavras não faziam sentido algum. Pela baixa iluminação, deveria ser o final da tarde, porém não foi capaz de identificar a posição do sol devido às sombras se espalharem em diferentes direções. Fitou novamente o lago, desta vez com mais atenção. Ali estava o sol, lançando uma luz alaranjada sobre a água em uma cena muito parecida com o que via no Gasômetro.

Se levantou, colocando a mochila nas costas, e bateu de leve com os nós dos dedos na janela mais próxima. Não parecia ser um televisor. Deu-se por vencido no enigma, queria apenas ir para casa.

Procurou algum indicativo de sua localização, um mapa da linha ou qualquer coisa que o ajudasse. Encontrou no final do vagão uma esperança: um homem sentado usando um uniforme azul com o logotipo de uma empresa. Ele não tirava o olho da janela na sua frente. Foi até lá, segurando-se nas barras de apoio.

— Ei, onde estamos? — Sem resposta. — Alô? Está vivo? Tô falando contigo. Cara, eu tô perdido, não pode falar nada mesmo? Por favor, senhor. Eu só preciso saber onde eu estou. Onde fica a próxima estação? Quero descer nela.

Balançou a mão em frente ao rosto do ouvinte. Nem piscou. Fernando suspirou e deu meia-volta bem a tempo de ver uma das portas entre os vagões se abrindo. Do outro lado estava o que definiu como um trabalhador estereotipado de escritório, com direito a terno e gravata, cabelos curtos penteados para o lado e fixados com gel. Era alto e um pouco fora de forma. Não duvidaria se ele de repente apresentasse uma carteirinha da OAB.

O homem entrou no vagão e se aproximou. A ilusão do estereótipo desapareceu quando Fernando notou que a gravata era, na verdade, uma corda enrolada no pescoço por um nó de forca. Em situações normais, teria obedecido a regra de não dar trela para maluco, mas como ele parecia mais responsivo que o outro passageiro, permitiu-se arriscar:

— Sabe onde estamos?

— Sei. Você sabe?

Fernando arqueou as sobrancelhas.

— Claro que não, por isso te perguntei. — Vendo que um silêncio estava prestes a se formar entre os dois, complementou: — Onde estamos?

— Você é novo então. Sente-se. — Ele indicou um assento perto dos dois. — Minhas respostas não vão fazer sentido, vai entender apenas depois de um tempo.

O homem estava certo, Fernando não compreendeu nada. Mesmo assim, acatou o pedido, o outro se sentou ao seu lado em seguida.

— Você não perguntou, mas acho bom nos apresentarmos antes. Meu nome é Nicolas, e estamos no que é chamado de território de caça.

Fernando tentou manter a expressão neutra, não queria o outro vendo o arrependimento estampado em sua cara.

— A qualquer momento, seres estranhos chamados predadores vão aparecer e nos caçar. Temos que sair antes que fiquem atiçados demais e chamem predadores maiores. — A seriedade e o tom monótono não combinavam com as palavras usadas. — Estou procurando mais respostas, por enquanto isso é tudo que eu consigo falar e que faz sentido. Alguma dúvida?

— Não, não. Acho que entendi.

— Não, não entendeu.

— Entendi sim. — Fernando se levantou. — Eu tenho que sair, sabe, está ficando tarde. Eu preciso ir para casa.

Se afastou do maluco e procurou a porta de desembarque, apenas para notar que não tinha uma em nenhum dos lados. Talvez estivesse em um dos outros vagões. Olhou a porta usada pelo fantasista. Ainda estava aberta.

— Está procurando a saída? — perguntou Nicolas.

— Como eu disse antes, sim.

— Então eu vou contigo.

— Eu acho que consigo caminhar sozinho, sou bem grandinho.

— Você até pode intimidar pessoas normais, mas não vai funcionar aqui. Insisto que devo ir contigo.

E claro que ele era do tipo grudento.

— Tudo bem, mas não fica cheirando meu cangote.

Com o maluco atrás de si, foi para o próximo carro. Encontrou-o lotado com homens e mulheres de todas as idades, usando o mesmo uniforme azul. Tentou conversar com eles, mas recebeu um tratamento tão frio quanto antes. Também não havia porta de desembarque ali.

Passaram por mais três vagões, enfrentando em todos o mesmo problema. No último, olhou em direção ao lago e notou que a paisagem não mudara, mesmo o metrô estando sempre em movimento. Fitou a direção oposta. Os prédios se mantinham, porém enxergava-os de outro ângulo. A ideia de perguntar sobre o fenômeno foi embora assim que pôs os olhos em Nicolas.

No carro seguinte, deparou-se com pessoas responsivas. O único, e grave, problema era que todos no vagão o encaravam. Um formigamento surgiu nos ombros, onde a alça da mochila ficava. Além do mais, sentia-se enjoado. Caminhou até a passageira mais próxima, lutando contra uma repulsa crescente em cada passo dado.

— Com licença, sabe me dizer em qual vagão fica a saída?

A passageira respondeu em tom robótico:

— Você não deveria estar aqui, este vagão é exclusivo.

— Eu… me desculpe. Só quero descobrir onde está a saída.

— Você não deveria estar aqui, este vagão é exclusivo.

— Certo, sem estresse. Vou sair.

Andou na direção do próximo carro. As pessoas por quem passava repetiam as mesmas frases.

— Você não deveria estar aqui.

— É nosso vagão, só nós o merecemos.

— Este vagão nos foi dado, saia.

— Você não se esforçou para estar aqui.

As vozes pararam ao chegar na metade do caminho. Algo mudou no olhar dos passageiros. Se antes o observavam como se fosse apenas um sovadinho em meio a tantos outros, passaram a enxergá-lo com um brilho nos olhos de alguém faminto que se depara com o último pão na prateleira. Deu um passo apressado e as pessoas lançaram-se sobre ele.

Apresentando Predadores: A Obsessão

Capa do livro "Predadores: A Obsessão". No centro da imagem, temos um prédio comercial inacabado e laranja. Enrodilhando-se nele há uma cobra gigante de escamas pretas, e com braços humanos saindo pelas laterais de seu corpo. Na cabeça da serpente há um único olho encarando o espectador. Como cenário temos diversos prédios na cor verde, dispostos de forma caótica, que se estendem até o horizonte. Ao fundo, o sol mostra o final da tarde. No topo da imagem está escrito "Predadores: A Obsessão", e na parte de baixo o nome do autor: Guilherme Lopes Lacerda

Sobre o livro

Acho que a melhor forma de começar a apresentação, é com a sinopse. Então vamos lá.

Fernando, um motoboy, perde a vida após ser baleado durante uma entrega suspeita. Bárbara encontra seu fim no asfalto após um acidente de alta velocidade na Freeway. A solidão é tudo que cerca Dominique em seus últimos suspiros na cama. Essas três pessoas, com nada em comum, recebem uma segunda chance e acabam indo parar em uma dimensão onde lógica e física são alteradas ao bel-prazer dos predadores, onde são salvos por Nicolas, um misterioso homem engravatado.

Utilizando habilidades recém-adquiridas, o grupo começa uma investigação para desvendar de onde surgiram os monstros, e também impedir que continuem abduzindo pessoas e as utilizando como alimento. Tudo isso enquanto continuam lidando com sua vida cotidiana, relacionamentos e trabalho.

Predadores me levou um bom tempo para finalizar, boa parte dele foi por conta da minha tentativa de aumentar meu ritmo de escrita. Com isso, os primeiros rascunhos ficaram terríveis, e meu trabalho de reescrita foi dobrado. Porém, depois de muitas mudanças, estou feliz com o texto.

Sobre o lançamento dos capítulos: ocorrerá todo sábado pela manhã. Se houver mudança no dia/hora, avisarei com antecedência.

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