Predadores: A Obsessão – Capítulo 32

Desenho monocromático. O desenho mostra um homem sentado em uma cadeira, com os braços para trás e com o corpo amarrado por cordas. Ele está com um saco na cabeça, impossibilitando de ver seu rosto. Agachado ao lado dele com uma mão no ombro do sequestrado e de costas para a imagem está Nicolas, um homem vestindo terno, de cabelo curto e utilizando uma corda de forca ao redor do pescoço. Ele está com o rosto próximo do ouvido do homem sequestrado.
No canto superior direito há o número trinta e dois para indicar o capítulo.

Conforme o combinado com Nicolas, Bárbara passou a monitorar o local após o expediente. Era uma atividade entediante, porém muito melhor que ficar no apartamento, roendo as unhas, remoendo a si e incapaz de fazer nada. Tinha um objetivo, um alvo, e o mais importante, um culpado.

Antes, responsabilizava o originador do território hospitalar pela morte de Igor, mas com o extermínio do predador, não havia mais a quem culpar. Poderia voltar sua raiva aos predadores em geral, no entanto eram algo tão abstrato e incerto que não servia para lhe acalmar. Tudo mudava com o culto entrando na história. Não somente eram um alvo tangível e humano, também estavam do lado dos predadores. Inclusive, tinha certeza de que eles foram os responsáveis pelo rapto de Igor, suspeitaram que ele sabia de algo e fizeram uma queima de arquivo. Era a única explicação plausível.

No sábado, após dois dias observando um lugar que não exibia movimentação alguma, resolveu mandar mensagem para Elisa, perguntando se o encontro do dia ocorreria. Não recebeu resposta, tinha até certeza que teve seu contato bloqueado. Como descobriria para onde foram? Talvez devesse abordar outro cultista na rua e pedir informações. Não, não funcionaria se tivessem o mínimo de organização e uma lista de bloqueados. Rodar a cidade inteira de moto também era uma possibilidade, só teria que estar disposta a encontrar, em plena capital, uma construção onde um grupo suspeito se reuniria em um dia que ela não sabia qual em um horário que não fazia ideia. Ou seja, inviável.

O final de semana passou engatinhando, e a segunda-feira foi um verdadeiro arrasto. Tudo na sua cabeça era sobre o culto. Pesquisava no celular sobre eles, entrava em grupos de redes sociais, perguntava em locais estranhos da internet, mas nada ajudava. Sempre mencionavam para ela entrar em contato com um dos pregadores que suas dúvidas seriam tiradas. Chegou em casa nesse dia com vontade de agarrar um dos devotos na rua e tirar as respostas no soco.

Antes que chegasse às vias de fato, recebeu uma mensagem no celular.

Maurício (Gerente)

Boa noite, Bárbara… Notei que nos últimos dias tu não parece bem. Está tudo certo?

Bárbara

Boa noite. Tudo bem sim. Estou apenas em choque com o desaparecimento de Igor.

Maurício

Consigo te dar dois dias de folga se precisar.

Quase riu. Dois dias de folga seria o suficiente para fazê-la enlouquecer, estava em um beco sem saída. Não, não era sem saída, ainda tinha uma chance. Mandou uma mensagem agradecendo pela oferta e dizendo que pensaria no assunto. Refletiu sobre mandar uma mensagem para Fernando, talvez ele conseguisse contato com um cultista e, com isso, descobrisse mais informações. Na pressa, em vez de fechar a conversa, tocou no nome de Maurício e o aplicativo abriu seu perfil.

Não costumava trocar mensagens com o gerente, e por isso não tinha visto que trocara a foto. Antes, era uma todo elegante de terno em algum evento que Bárbara não se importava, e passou a ser de um grupo de pessoas. Havia algo estranhamente familiar no peito dele. Ampliou a foto e deu zoom no tronco do homem, reconhecendo o símbolo: uma balança romana.

Resistiu a todos os impulsos de jogar o celular na parede. O filho da puta era parte do culto! Apertou o aparelho com força enquanto mantinha os olhos na imagem. Não, calma. Nem todo mundo envolvido devia saber dos predadores, era bem capaz de Maurício ser um frequentador comum, deixado de fora de assuntos escusos. Mesmo assim, certo que possuía algumas informações importantes. Precisava tirar elas do gerente, e até tinha um plano para isso.

No dia seguinte, Bárbara foi de moto para o trabalho e pagou, a duras penas, as horas de estacionamento. Talvez pudesse mandar a nota à Nicolas e pedir reembolso? Tinha a impressão que dinheiro era a última preocupação do cara.

Focou no trabalho o máximo que podia para não levantar suspeitas, mas ainda assim não foi capaz de evitar olhares na direção de Maurício. O gerente tocava seu dia normalmente, fazendo seja lá o que gerentes fazem, nunca se interessou muito pelo cargo e até onde sabia o trabalho dele era conversar com outros o tempo todo, pedir favores e cobrar funcionários.

Teve que estender um pouco seu horário, e tomaria bronca por isso depois, mas era necessário para sair junto com Maurício. Assim que o gerente começou a ajeitar suas coisas, Bárbara bloqueou o computador e desceu apressadamente pelas escadas, bateu o ponto e foi até o estacionamento. Subiu na Kawasaki e saiu do local, esperando próxima ao estacionamento da empresa, que tinha vagas apenas para cargos gerenciais. A Santa Fé de Maurício saiu momentos depois, e Bárbara seguiu-o de longe.

Foi complicado. Um por ser horário de pico, e outro porque ela nunca, e ainda bem que era o caso, precisou perseguir alguém sem ser notada. Usou a vantagem da moto para manobrá-la para perto sempre que sentia estar afastada demais, e tentava ficar em outra via para evitar suspeitas. Ao entrarem em uma área residencial, tornou-se mais fácil manter o foco na SUV, porém mais difícil de se esconder. Por isso mesmo Bárbara aumentou mais a distância entre eles.

A região era repleta de casas de dois andares, em alguns casos até três. E quando tinha apenas um andar, o terreno era espaçoso o suficiente para acomodar, no mínimo, mais duas residências. Quase todas exibiam um pátio com flores e árvores, algumas até frutíferas. As casas eram protegidas por grades altas com cerca elétrica e até mesmo cercas concertinas. Além disso, muitas ainda tinham também um sistema de alarme.

Seguiu Maurício até que ele entrou em uma casa de andar único. Foi em direção à outra rua, deu a volta na quadra e, por fim, passou na frente da residência do gerente. Parou por um momento, apenas o suficiente para tirar algumas fotos da fachada e da garagem aberta. Mais fácil do que o esperado.

No dia seguinte, parte da rotina se repetiu, mas em vez de perseguir o chefe, ultrapassou-o e seguiu sozinha. Dirigiu rápido pelas ruas, cortando carros, ônibus e caminhões, tudo para chegar o mais cedo possível. Quando chegou, manteve-se afastada da residência de Maurício e passou a mexer no celular. Quase cinco minutos depois, a SUV apareceu na rua e entrou na garagem. Assim que o portão começou a fechar, ela disparou uma mensagem para Nicolas.

Não ficou para ver se deu certo ou errado, apenas voltou para casa. E de lá foi ao farol. Esperava que estivessem todos reunidos no topo do farol, mas encontrou-os do lado de fora, na grama. Desceu e viu Maurício amarrado por diversas cordas bem apertadas em uma cadeira de plástico, próximo a ele estavam Nicolas e Dominique. Se aproximou dos dois.

— O quê… Bárbara? — O gerente perguntou, assustado. — O que está acontecendo? Onde estamos? Quem são os dois?

— Cala a boca. — Ela chegou perto da cadeira, colocou as mãos nos braços de Maurício e fulminou-o com o olhar. — Eu sei que tu faz parte do Culto da Justiça. — Sem enrolação, era melhor ir direto ao ponto. — Eles fizeram Igor desaparecer, ouviu? É tudo culpa deles! E tu vai me dizer onde estão se encontrando.

Os olhos dele se arregalaram enquanto passavam dela para os companheiros.

— Não, ninguém lá faria algo assim. Nós só nos reunimos de vez em quando e conversamos. Não é nada perigoso.

— Tu não sabe disso, mas o culto é cheio de filhos da puta.

— Está errada! — A voz se elevou. — Eles são bons, estão melhorando as pessoas, fizeram isso comigo. Foi graças a muitas conversas com eles que demiti Eder.

— Como se isso significasse algo! — Apertou com força os braços do gerente, enterrando as unhas na sua carne. — Onde estão se encontrando?

— Não vou dizer. — Maurício mirou Nicolas e Dominique. — Vocês vão ferir os outros membros, não posso dizer.

Ela soltou o chefe e recuou alguns passos, ficando ao lado de Nicolas. Queria jogar toda a sua raiva contra Maurício, mas seria errado. Ele era um peão, apenas mais um fervoroso no meio de tantos. Precisava guardá-la para os verdadeiros culpados.

— Posso intervir? — perguntou Nicolas, a corda apertada no pescoço dificultava sua fala.

— Faça como quiser.

Ele aliviou o aperto no colarinho e aproximou-se de Maurício.

— Você se lembra como foi preso logo que chegou aqui? — perguntou Nicolas, recebendo em resposta apenas um aceno positivo do interrogado. — Minhas cordas podem fazer muito mais que isso.

Uma delas surgiu em pleno ar, era fina e parecia frágil. Enrolou-se no pescoço de Maurício, não parecia apertar, mas a cada volta, o homem ficava mais pálido, como se esperasse a morte a qualquer segundo. Bárbara engoliu em seco e estava prestes a puxar Nicolas para longe do gerente. Antes que fizesse isso, a corda desapareceu.

— Eu poderia te enforcar em um piscar de olhos. Seria inútil, claro, ficaríamos com um cadáver e nenhuma resposta. — Nicolas deu a volta na cadeira, ficando nas costas de Maurício, então olhou na direção de Bárbara e Dominique e levou o dedo indicador aos lábios. O que ele estava pensando? — Te raptar foi fácil, bastou uma foto de sua casa. É bem fácil de conseguir hoje em dia, basta achar alguém relacionado, buscar em algumas redes sociais e pronto, lá está.

Era uma mentira. Bárbara teve que levar Nicolas até a frente da casa de Maurício para que o transporte funcionasse depois.

— Poderíamos fazer o mesmo com Diego. É mais simples até, basta esperá-lo fora do colégio Anchieta e pronto.

Toda a cor deixou o rosto do gerente, a respiração se tornou audível e entrecortada, antes era medo apenas por sua vida que sentia, o puro instinto de sobrevivência. Colocar o filho no meio daquilo gerava algo diferente, um pavor único. Fosse outra pessoa, talvez o blefe soasse óbvio, mas a frieza na voz de Nicolas, a naturalidade com que tocava no assunto e o desconhecimento de Maurício sobre o que estava acontecendo adicionavam combustível para os pensamentos mais terríveis.

— Também tem sua esposa, Bianca. Ela está fazendo um MBA atualmente, não? Saídas de faculdade no período noturno sempre são perigosas. Lucas é outra possibilidade, um pouco mais difícil e imprevisível por ser guia turístico, mas precisamos apenas ser pacientes. Alberto é provavelmente o mais fácil, as pernas frágeis e velhas dele não o levam a muitos lugares, então basta entrar na casa a qualquer momento.

Mesmo sabendo que era um blefe, mesmo sabendo que impediria Nicolas caso ele sequer cogitasse fazer isso, Bárbara não conseguiu evitar o frio que gelou os ossos. Acreditou naquelas palavras, acreditou que, dada a oportunidade, ele usaria seus poderes na família inteira de Maurício. Não eram ameaças vazias, Nicolas pesquisou cada um. Eram informações simples de se obter, mas reuni-las em um dia e usar contra alguém significava que aquele homem trabalhava com essa possibilidade desde o início.

— É esse tipo de gente que você está ajudando, Bárbara? — gritou Maurício, a voz falhando no meio da frase. Ele se debateu na cadeira, mas não conseguiu nada. — Está mesmo ameaçando minha família?!

Ela desviou o olhar e buscou algum auxílio em Dominique. A idosa tinha os punhos cerrados e fitava o mar com o cenho franzido.

— Nicolas está fazendo o certo — sussurrou para a motoqueira. — É um blefe, e é pelo bem de todos os outros.

— Bárbara está comigo desde o começo — disse Nicolas, a voz ainda impassiva. — Já fizemos muito pior que isso. Alguns corpos a mais ou a menos não vão fazer diferença. — Ele deu a volta na cadeira, ficando de frente para Maurício e tapando a visão das duas atrás de si. — Você escolhe. Vai falar para nós agora, ou vai falar quando os cadáveres de sua família estiverem empilhados ao seu redor?

Predadores: A Obsessão – Capítulo 31

Desenho monocromático. O desenho mostra o busto de Nicolas, um homem vestindo terno e uma corda de forca no pescoço como se fosse uma gravata. Ele está mostrando um grande sorriso, porém o restante de sua expressão não condiz com o sentimento, fazendo parecer um sorriso forçado e nem um pouco natural
No canto superior esquerdo há o número trinta para indicar o capítulo.

Igor estava morto, e Bárbara estava trabalhando. Ela poderia dizer que não se sentia bem e ir para casa, mas o desconto viria na próxima folha, talvez até junto com sua demissão. Tentar um atestado lhe garantiria horas de descanso remuneradas, no entanto, os verdadeiros problemas surgiam no apartamento: a vontade de fazer nada, o ócio, os pensamentos que insistiam em lhe dizer para pegar seus pertences e sair dali, fugir da capital, escapar de tudo aquilo.

Por isso, em uma quarta-feira, mais de uma semana depois de confirmar a morte de Igor, Bárbara saiu do apartamento logo que pisou nele após o expediente. Pegou a Kawasaki e vagou pela cidade, passando pelos últimos minutos do horário de pico e entrando nas horas mais calmas da noite. Quando deu por conta, parou na frente do salão onde viu Igor pela última vez.

As luzes internas acesas, as duas vans no estacionamento e as portas fechadas indicavam se tratar de uma reunião mais privada. Talvez os organizadores estivessem discutindo o andamento do culto. Possivelmente até o tal Magno participava da conversa.

Largou a moto em um local mais afastado e se aproximou das grades fechadas do salão. Apesar dos indícios de ter pessoas lá dentro, Bárbara não ouvia nada. Imaginou todos no mais completo silêncio, apenas olhando um para o rosto do outro. Talvez pudesse ouvir algo se chegasse mais perto, porém isso era impossível com o acesso ao pátio trancado. Uma câmera no teto do salão que vigiava a entrada desencorajou métodos menos éticos.

Se afastou e observou os arredores. Não muito longe dali, e com uma boa vista da construção, estava uma lancheria chamada Bar do Ilineu. Bárbara aproximou-se, sentou-se em uma das mesas de plástico próximas da porta e pediu um podrão qualquer para comer enquanto matava o tempo. Minutos depois, um xis bacon oleoso, uma coca lata e um copo foram colocados na mesa.

Comeu, alternando o olhar entre o salão e a televisão. Ninguém prestou atenção nela, estavam todos assistindo ao jogo de futebol, bebendo um litrão e xingando os jogadores. Quase trinta minutos depois de acabar a partida, viu algum movimento dos cultistas. Cerca de dez pessoas saíram do salão e caminharam até as vans. Não houve despedidas amigáveis, tapinhas nas costas, nada disso, apenas entraram nos veículos e partiram.

Suspeito. Muito suspeito. Será que valeria a pena pular o portão e entrar à força? Quase riu com a ideia besta. Não fazia ideia de como arrombar uma porta, além do mais, com um portão alto daqueles todos veriam seu delito. Isso sem contar a câmera que poderia incriminá-la, mas isso era contornável colocando um capacete. O problema é que, para os observadores, alguém de capacete ali seria duplamente suspeito.

O que estava fazendo? Que besteiras estava pensando? Levantou-se, pagou pelo lanche e voltou para casa.

Jogou-se no sofá assim que entrou no apartamento. No fim das contas, só queria se distrair. Era perigoso, ainda por cima. Igor avisara das armas e dos coletes. Talvez aquele grupo também estivesse armado, e Bárbara não era resistente fora dos territórios. Por que membros de um culto andariam tão armados? Inclusive, ainda não descobrira a relação entre o culto e os territórios. Apenas uma coincidência infeliz?

Sentia-se usando antolhos, incapaz de visualizar qualquer outro assunto que não envolvesse Igor e o culto. Por que o último encontro com Igor teve que ser naquela situação estranha? Por que não um momento agradável, que poderia guardar com carinho no coração? Teve vontade de ver o apartamento do amigo mais uma vez. Descartou a ideia em seguida, era perigoso, ainda mais com o escândalo que fizera no outro dia. Mas havia uma forma discreta de entrar, não?

E se podia entrar no apartamento sem ser vista, por que não no salão? Pulou para fora do sofá, trocou de roupas e colocou o capacete. Partiu para o farol.

Viu, em um canto do interior da construção, algumas roupas e outra coisa dobrada que não conseguiu distinguir o que era. Ignorou esses detalhes, tinha outro objetivo no momento. Fechou os olhos e pensou no salão, lembrou-se do interior dele, das cadeiras, do púlpito. Quando os abriu, estava onde imaginara.

— Isso aí!

Arrependeu-se do grito na mesma hora. Estava se infiltrando, não passeando. Mais contida, olhou em volta. As luzes estavam apagadas, deixando entrar somente um pouco do luar através das janelas no alto, que servia apenas para deixar o salão em uma penumbra. Ligou a lanterna do celular, mirando nas fileiras de cadeiras e nas paredes. Como esperava, não havia ninguém sentado no escuro esperando por um invasor desconhecido.

Enxergou uma câmera em um canto do salão e ficou feliz por ter ido de capacete. Logo abaixo havia uma porta que, por sorte, estava destrancada, mas isso também significava que não teria nada de importante do outro lado. Entrou na sala adiante, pequena e vazia. Bastou dar dois passos em frente para ser avassalada pela sensação de perigo. Fechou os punhos e cerrou os dentes, olhando ao redor em busca de predadores, mas não havia nenhum. Quando entendeu, uma parte pequena de si desejou continuar ignorante. Era a mesma sensação do quarto de Igor, a mesma maldita sensação, multiplicada várias e várias vezes. Não foi apenas uma pessoa a ser raptada ali, foram dezenas. Sentiu um calor tomando as costas com os rastros do último predador. Eram frescos, de no máximo algumas horas.

Voltou para o farol e de lá para o apartamento. Pegou o celular e mandou uma mensagem para Nicolas.

Bárbara

Tem como forçar alguém a ser raptado por predadores?

Nicolas não respondeu, na verdade, nem marcou como entregue. O filho da puta respondia com precisão de um minuto cada mensagem e quando realmente precisava do infeliz, não estava disponível. Caminhou de um lado a outro, ligou a televisão e continuou caminhando. Até deixou o celular de lado para ver se conseguia acalmar-se. Não funcionou.

Quando a mensagem chegou, correu até o aparelho e leu a resposta.

Nicolas

Nunca ouvi falar disso. Descobriu alguma coisa?

Bárbara

Precisamos conversar

Pessoalmente

Nicolas

Vamos ao farol.

Quando chegou ao local, encontrou Nicolas e Dominique lhe esperando. Notou que as roupas dobradas no chão eram semelhantes às utilizadas pela idosa. Outra dúvida estranha para o dia, mas não importante o suficiente.

— Convidou Fernando também? — perguntou Bárbara.

— Não.

— Então como…

— Calhou de eu estar aqui nessa hora — interrompeu Dominique. — Nem sei do que se trata.

Se era assim, decidiu ir direto ao ponto.

— Eu acho que encontrei um local de sacrifício para os predadores — disse Bárbara. — Tem que ser isso.

— Calma, vamos do começo — disse Nicolas. — Como chegou nesse lugar?

Bárbara relatou sua investigação do culto, pulando apenas a parte que acabou indo lá por puro acaso e por não aguentar ficar em casa. Quando comentou que não conseguiu entrar e usou o farol como intermediário para invadir o salão, Dominique pareceu surpresa.

— Dá para fazer isso?

— Sim — respondeu Nicolas, com naturalidade.

— Tu já sabia?! — perguntou Bárbara. — Por que não disse nada antes?

— Achei que estava óbvio quando fomos ao apartamento do seu amigo. Além do mais, nunca imaginei que vocês fossem investigar esse tipo de coisa por conta própria, e não queria vê-los usando nossos poderes em atividades mundanas. Se alguém filmar ou bater fotos, seria um problema enorme.

— De novo escondendo coisas! Tem mais algo que sabe e não contou?

Dominique olhou para Nicolas, e por um momento, o olhar dos dois se encontrou.

— Tu também, Dominique? — A voz saiu como um rosnado. Afinal, estavam trabalhando juntos ou não?

— Eu abordarei o assunto neste sábado, é um trabalho em andamento. — Nicolas não parecia nem um pouco envergonhado. — Continue sua história.

— Vou mesmo! Mas depois é bom me contar tudo.

Bárbara continuou seu relato, não havia muito mais para contar e de repente se sentiu menos à vontade de falar com os dois. Ainda assim, eram uma equipe e precisavam se ajudar. Quando terminou, olhou para Nicolas e perguntou:

— Quais as condições para uma pessoa ser raptada?

— Não sei — disse ele, estalando a língua. — Tentei buscar relatos de pessoas que voltaram. Foi inútil. Eram histórias confusas demais e não se encaixavam. Não ajudou que todas estavam sempre sozinhas durante o ocorrido, então sem testemunhas.

— Bom, é uma condição para a lista.

— Uma tão abrangente que o mundo inteiro é vulnerável em algum momento do dia. — Nicolas balançou a cabeça. — Precisamos de algo mais sólido.

— Poderíamos ter algo mais sólido se as pessoas compartilhassem informações…

— Calma, calma — disse Dominique. — Estamos compartilhando agora, não?

— Eu estou compartilhando. — Bárbara suspirou, forçando a mente de volta ao assunto mais importante. — Acho que os cultistas descobriram isso e estão usando as pessoas como oferenda. Faz sentido, né?

— Não muito — respondeu Nicolas. — Chamar eles pode ser um erro se atacarem indiscriminadamente. Qualquer um estaria vulnerável, não só os sacrifícios.

— Por isso eu disse que eles sabem algo que não sabemos!

— Tudo bem, é uma possibilidade. — Estendeu a mão para Bárbara. — Me leve lá, vamos dar uma olhada.

Bárbara olhou para Dominique e recebeu uma negação em resposta. Segurou a mão de Nicolas e pensou na sala repleta de vítimas. Assim que chegaram, o homem tirou uma lanterna pequena do bolso e rumou até o centro da sala.

— Tem razão, são muitos. — Ele respirou fundo e demorou a soltar o ar. — Conheço alguns dos territórios, outros não.

— E o que tem isso?

Nicolas olhou na direção dela.

— Eles fazem isso há bastante tempo. Eu inclusive sinto o resquício do primeiro território que entrei. Conhecem sobre os predadores há mais tempo do que eu. — Sorriu. Bárbara não se lembrava de vê-lo sorrindo antes e não queria ver nunca mais. A visão da boca se alargando não combinava com o olhar gélido e morto. Era como se fosse o movimento de alguém que não sabia o que era felicidade.

— Então minha hipótese…

— Está correta. Eles sabem algo que não sabemos. — A expressão no rosto de Nicolas sumiu. — Se não me engano, o nome do fundador é Magno, correto?

— Sim, tu…

— Olhei no site deles quando você mencionou o culto. Fique de olho e me avise imediatamente quando ocorrer outro encontro parecido com o de hoje. — Ele coçou o queixo. — Se tiverem o mínimo de inteligência, mudarão o local. Terá que descobrir o novo também.

— O que vamos fazer quando tiver outro encontro?

— Extrair informações.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 30

Desenho monocromático. O desenho mostra o busto de várias pessoas sobrepostas umas as outras, cada uma com expressões e olhos diferentes. Como estão semi-transparentes, é difícil saber quem está na frente e quem está atrás.
No lado direito há o número trinta para indicar o capítulo.

Arriscou olhar para o predador. A tontura assomou-lhe mais uma vez, mas não era esse o motivo de sua preocupação. Ele, ou ela, ou aquilo — era impossível definir com cada sílaba sendo pronunciada em uníssono por diversas vozes — falou, não só isso como também sabia a identidade deles. Um arrepio percorreu as pernas, a impulsionando para que eliminasse o predador ali mesmo. E quase moveu-se para fazer isso, porém, não foi ela quem sugeriu para Nicolas a busca por uma alternativa à morte? Isso deveria valer para todos os predadores, ou só para aqueles de quem ela se apiedava?

Baixou o olhar, relaxou um pouco os punhos e disse:

— Nicolas está tentando descobrir como impedir o originador de reaparecer, não posso pará-lo. Não ainda.

— Você não entende. — O predador deu um passo à frente, aumentando a tensão em Dominique. — Ou ele para agora, ou vai morrer e se tornar um dos predadores mais terríveis que existem.

Arriscou um olhar para trás. Nicolas ainda estava envolvido pela luz espinhosa, quase toda sua pele tornara-se preta e branca, também estava maior, o corpo espichado e superando dois metros de altura.

— E por que você se importa? Não é um predador? — perguntou ela, voltando sua atenção à frente.

— Estou do lado dos humanos nessa luta — respondeu, dando mais um passo. Se aproximava devagar e ainda faltavam uns bons metros até chegar perto. — E como pode ver, Nicolas não está bem.

Um predador do lado dos humanos, difícil de acreditar nisso. Era como dizer que a onça estava do lado das capivaras. Seria no máximo uma aliança temporária, durando até o estômago do felino roncar. Porém, o predador tinha razão, Nicolas não estava indo em direção a um caminho bom. Dominique abriu a boca para falar, mas fechou-a imediatamente quando notou a proximidade da coisa. Não tinha corrido nem se movimentado rápido, e mesmo assim, sem que a idosa percebesse, se encontrava a um passo dela.

De perto, as mudanças em sua forma eram ainda mais perceptíveis e perturbadoras. As linhas do rosto se alteravam tanto, e a cor da pele nunca assumia um tom fixo, pintas e sardas apareciam e desapareciam, os olhos sempre mudavam. Em um movimento quase instintivo, Dominique socou e atingiu seu alvo. O predador foi lançado para trás, e a idosa caiu de joelhos no chão.

Naquela fração de segundo que o punho se conectou com a cabeça da ameaça, foi como estar em um turbilhão de vozes, pensamentos, vontades e aflições. Esqueceu de quem era, de quem fora e de quem queria ser. Sua consciência foi sugada pela amálgama de pessoas e retornou surrada. Precisou de tudo de si apenas para manter-se de joelhos, e achou que ultrapassara todos os limites ao levantar a cabeça.

Já o predador se levantava como se nada tivesse lhe ocorrido, como se não tivesse recebido um golpe capaz de matar uma pessoa na mesma hora. Deveriam ter trazido mais alguém, deveriam ter trazido Bárbara, ela sim aguentaria aquela coisa, aguentava tudo.

Conseguiu ficar de pé bem quando a criatura voltou a caminhar em sua direção. Talvez conseguisse impedi-lo ao jogar objetos no maldito, mas o lugar era livre de qualquer pedra que pudesse ser usada como projétil. Dominique olhou para o asfaltou ao seus pés, e considerou quebrá-lo.

No entanto, antes que agisse, um novo predador surgiu no território. Sentiu-o logo atrás de si, bem onde Nicolas estava. Queria olhar, queria checar, mas o outro à sua frente era perigoso. No entanto, era possível olhar para várias direções, não é mesmo? Se mudava seus membros para lâminas, ou aumentava a potência e densidade dos músculos, por que não conseguir olhar atrás de si? Projetou um olho próximo ao cotovelo e durante um momento ficou desorientada por ter um campo de visão tão amplo. Assim que se acostumou, viu os espinhos atacando Nicolas, a luz abrira cortes em seu corpo e entrava por eles, preenchendo o corpo do líder. A pele parecia diferente também, como se fossem escamas de réptil.

— Rápido! Tire ele daqui!

Sendo um aliado ou não, a coisa tinha razão. Nicolas estava a um passo de se tornar um predador. Isso ela não permitiria, não perderia seu líder, o guia, a esperança. Desfez o olho extra e girou na direção da luz, correu até o homem e envolveu sua cintura com os braços. Cada fibra do seu corpo dizia que estava diante de um predador, mas Dominique acreditou que ainda tinha chances. Usou toda a sua força e puxou-o para longe, afastando-o da luz, fazendo os espinhos saírem aos poucos de seu corpo, diminuindo cada vez mais a sensação de que ele era um inimigo. Quando ele estava liberto, a idosa não hesitou e transportou-se para o farol.

Ressurgiram em meio a grama próxima à construção. Dominique projetou diversos olhos em seu próprio corpo, cobrindo todos os pontos cegos de sua visão humana e causando-lhe náuseas até que se acostumasse. Esperava que o predador fosse atrás deles, porém nada aconteceu, nenhuma ameaça os seguiu. Removeu os olhos adicionais e deitou Nicolas no chão.

O corpo do líder voltara ao padrão humano, sem escamas para encobrir a pele, e os cortes abertos pela luz espinhosa desapareceram sem deixar nenhuma cicatriz ou rastro de sangue. Não fosse pelo suor que molhava sua roupa, seria como se nada tivesse acontecido. Dominique sentou-se ao lado dele, finalmente relaxando. De alguma forma, tudo deu certo. E por certo entendia-se os dois saírem com vida. Lembrou-se então das palavras do predador. Teria o homem à frente dela se tornado um dos predadores mais fortes se ficasse mais alguns segundos naquele processo? Será que a transformação afetou sua mente mais do que o corpo? O fardo que ele carregava era pesado, mais pesado que o resto do grupo, e ainda assim, seguia em frente sempre, sem hesitar. Aproximou a mão para tocar o rosto de Nicolas, mas seus olhos abriram na mesma hora e focaram-se na idosa. Dominique recuou do toque.

— Como você está? — perguntou ela.

— Bem. — Ele se sentou, cruzando as pernas e olhando para o horizonte. — O que aconteceu?

Dominique explicou em detalhes o ocorrido. O tempo todo, Nicolas não moveu os olhos uma vez sequer, mantendo-os fixos em um ponto distante no mar. Sua única reação foi um levantar de sobrancelha ao mencionar as escamas que cobriam seu corpo. Quando a história terminou, o silêncio tomou conta do local por alguns minutos.

— Lembra de algo quando você tocou naquela luz?

— Nada. — A resposta foi seca, mais do que Dominique esperava. — Eu lembro de ver o originador morrendo, igual você viu, mas o resto é um borrão.

— Você… pretende fazer de novo?

— Eu deveria, mas… — Olhou para a própria mão. — Não é uma boa ideia. Piora o fato de ter um predador de olho naquilo.

— Conseguimos nada, então. — Dominique suspirou.

— Não é bem assim. — Nicolas encarou Dominique, o olhar dos dois finalmente se encontrando. — Você fez bem em conversar com ele. Sabemos agora que existem predadores racionais, e se formos atrás dele podemos obter mais respostas.

Dominique sorriu de leve. Ele tinha razão, não foi uma incursão inútil, apenas o resultado fora diferente do esperado. Porém, uma coisa passou a incomodá-la.

— Todos os predadores possuem um território, certo? — perguntou ela.

— Sim, todos até agora.

— Então como aquele saiu de seu território e foi parar em outro? Isso é possível?

— Deve ter um detalhe que não estamos percebendo. — Nicolas quebrou o contato visual e levantou-se. — No fim, é mais um mistério em nossa lista. Um para pensarmos com bastante consideração.

— E imagino que fará isso agora mesmo.

— Sim. — Ele olhou o topo do farol. — Pretende mesmo ficar aqui de agora em diante?

Que mudança brusca de assunto.

— Pretendo, não acha uma boa ideia?

— Quem decide isso é você. Só não acho muito inteligente dormir direto no chão.

— Bem… — Dominique coçou a bochecha e passou a se apoiar na perna direita. — Não tive muita escolha, foi o que deu para pegar na hora.

— Deixe comigo, apenas espere um pouco.

E então Nicolas desapareceu, deixando Dominique com a boca meio aberta prestes a fazer uma pergunta. Ela suspirou. Bem que ele poderia se explicar mais antes de sair fazendo as coisas, e também dar um tchau ou até logo não seria ruim. Se bem que o “Espere um pouco” talvez seja o equivalente de “Já volto” para Nicolas.

Caminhou até o topo do farol, apoiou os braços na cintura e observou o “aposento”. Era cru e frio, sem uma pitada sequer de personalidade. Talvez, se ela pedisse para Nicolas, poderiam dar um pouco de cor e vida ao local. Um quadro ali, talvez uma santinha de Nossa Senhora Aparecida, uma mesa para refeições seria bom, também. Teria que pensar nos detalhes ao longo do tempo, e fazer o pedido de uma vez só. Odiaria ver Nicolas se tornando um entregador de encomendas, ainda mais que ele era tão ocupado. Por outro lado, talvez fosse engraçado ver isso acontecendo. Uma parte de sua mente imaginou um caminhão de entregas aparecendo do nada no farol, descarregando sofá, cama e televisão. Os trabalhadores, confusos, apenas deixavam tudo no chão enquanto questionavam como foram parar ali.

Quando Nicolas voltou, trouxe consigo um colchão inflável. Não levaram mais do que cinco minutos para posicionar e inflar ele utilizando uma bomba de ar. Não era confortável, e nem de longe tão bom quanto o colchão que tinha em casa, mas era melhor do que deitar no metal duro. Não pôde evitar um sorriso enquanto Nicolas lia as instruções de bom uso indicadas no manual.

— Obrigada.

— Não me agradeça. — Ele levantou os olhos da folha. — Estou apenas garantindo que esteja apta para continuarmos as atividades do grupo.

Dominique deu de ombros. Toda e qualquer ação daquele homem parecia ter uma lógica ou justificativa plausível por trás, mas não era bem assim que as coisas funcionavam, e ela sabia disso. Podia manter a fachada de frio o quanto quisesse, Dominique via nas pequenas ações o quanto ele se importava com o grupo para além da simples utilidade.

Com Nicolas liderando-os, mesmo que mais e mais mistérios surgissem ao redor dos predadores, seriam capazes de vencê-los.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 29

Desenho monocromático. O desenho mostra Nicolas, um homem com terno e sapatos pretos, usando uma corda de forca ao redor do pescoço. Na frente dele há uma esfera de luz por onde saem gavinhas escuras que se espalham pelos arredores e parecem fluir para Nicolas.
No lado direito há o número vinte e nove para indicar o capítulo.

Saiu do sono com o medo que somente os pesadelos sabem despertar. Coçou os olhos e sentou-se devagar, enxergando Nicolas poucos metros ao seu lado. O líder percebeu o olhar e perguntou:

— O que está fazendo?

Levou alguns segundos para raciocinar onde estavam, como foi parar lá e qual resposta dar.

— Decidi morar aqui.

Levantou-se e passou a dobrar a colcha e o lençol. Anos antes, este seria um movimento instintivo de tão fácil, mas via-se com um pouco de dificuldade. A memória muscular não estava mais presente. Engraçado o quanto alguns anos sem fazer nada faziam-na perder a prática de qualquer coisa. Mas, no fim, era como andar de bicicleta e, mesmo não sendo sua melhor dobra da vida, conseguiu ajeitar as roupas de cama.

— E você, o que está fazendo aqui? — perguntou Dominique, voltando seu olhar para Nicolas.

— Pensando — respondeu ele, observando o mar. — Este é um bom lugar para pensar.

— No que? — Aproximou-se do líder, tentando imaginar o que se passava na cabeça dele e falhando. Por mais que o admirasse, o homem era uma incógnita. Além disso, tirando o primeiro encontro deles quando Dominique fora levada até um território, não tiveram muito tempo sozinhos para que fosse capaz de penetrar a máscara dura que ele vestia com tanto afinco.

— Está satisfeita com o ritmo do grupo? — Nicolas olhou-a de soslaio.

— Acho que nunca parei para pensar nisso, mas diria que sim.

— E por quê?

— Eliminamos dois originadores, já. Você viu quanta gente tinha naquele hospital? Conseguimos salvar todas! — Dominique olhou para a própria mão, lembrando-se da empolgação na fuga. Quis mencionar isso também, mas era secundário frente ao verdadeiro objetivo do grupo. — Falhamos apenas com o amigo de Bárbara.

— Entendi. — Ele voltou a observar o mar. — Do meu ponto de vista, foram apenas dois originadores. Enquanto demoramos semanas para eliminar esses, os demais agem o tempo todo, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. São incansáveis. Haverá muito mais casos como o de Igor, mortos antes que os libertemos.

— Não tem como ser tanto assim… Digo, eles estão lá, mas será que realmente agem sempre?

— Sabe quantas pessoas desaparecem por dia?

Dominique parou para pensar. Mesmo tendo o costume de assistir aos noticiários, matérias sobre desaparecimentos misteriosos eram poucas. De certa forma, tudo pareceria normal no mundo se ela não soubesse dos predadores. Comunicou isso para Nicolas.

— Demorei um tempo para levantar esse número. Não está em jornais ou comunicados governamentais, precisei entrar em grupos de redes sociais e procurar postagens de gente comunicando desaparecimentos impossíveis. Enfim, são cerca de trezentas por dia no país.

— Isso…

— Não parece tanto? — interrompeu Nicolas, virando-se para ela. — Mas isso são as que consegui descobrir e que foram relatadas. Quantas pessoas não reportam? Quantos raptos acontecem mundo afora? E mesmo que fossem “somente” trezentas, em um mês são nove mil, em um ano passa dos cem mil.

Dominique processou aquela informação por alguns segundos. Tinha noção do perigo dos predadores, mas Nicolas foi capaz de quantificar a ameaça. Pensando nos números de forma isolada, não fariam muita diferença, mas se juntassem os desaparecidos no mesmo lugar equivaleria à população de uma cidade média, talvez até mais.

— É impossível que só a gente saiba disso! — disse Dominique, franzindo o cenho. — Alguém no governo deve ter notado, ou alguém na imprensa!

— Os raptados são esquecidos, jogados de lado, até. Quando há matérias, dificilmente mencionam nomes. E mensurar nossa efetividade em números parece inútil. Quantas pessoas aquele território sequestrava por dia? Impossível dizer. Por isso não estou satisfeito.

— E se aumentássemos o grupo? Tem mais gente como nós.

— Eu já conversei com Fernando sobre isso uma vez. Os confiáveis são vocês, os outros ou não querem se comprometer, ou tem medo demais, ou agem conforme querem.

— Mas… se a ameaça é grande demais, não deveríamos nos unir? Certamente todos vão ver que precisamos ajudar uns aos outros!

Nicolas negou com a cabeça.

— Duvido muito.

— Temos que tentar! Eu posso ajudar todos os dias agora. Podemos rastrear essas pessoas e negociar.

— Dominique, algumas pessoas não conseguem enfrentar o impossível e se manterem positivas.

Aquelas palavras acenderam um alerta na idosa.

— Tem algo que eu preciso mostrar para vocês todos. Já que você está aqui, será a primeira a ver. — Nicolas estendeu a mão para ela.

— Para onde vamos?

— Para o primeiro território que destruí.

Dominique segurou a mão do homem. Por algum motivo, isso trouxe o pesadelo de volta aos seus pensamentos. Nele, tocar em alguém era o suficiente para ser capaz de modificá-lo. Conseguia fazer mesmo aquilo? Queria fazer? Não! Sua benção era para ajudá-la a derrotar predadores, não para mudar outras pessoas.

Quando deu por si, os dois estavam em uma rua vazia. Não havia nada nela além de uma estrada de asfalto iluminada pelo luar e campos de grama amarelada nas laterais. Não fosse suas pernas estarem funcionando, imaginaria se tratar de um lugar normal. Faltava a sensação de pressão e de tensão que surgia ao entrar em um território. Era semelhante ao farol, mas também diferente, como se faltasse algo.

— O território não deveria desaparecer depois de perder o originador? — perguntou Dominique.

— Desapareceu. — Nicolas olhou em volta. — E agora voltou.

O alerta se transformou em uma comichão nas pernas, junto com uma palpitação no peito.

— Quando voltou? — Dominique seguiu o olhar de Nicolas, mas não encontrou nada que chamasse a atenção.

— Cerca de duas semanas atrás, depois de ser destruído três meses antes. — Ele começou a caminhar pela estrada de asfalto. — No entanto, é só o território, sem sinal algum de predadores.

— Foi o seu primeiro, certo? — Dominique seguiu-o, caminhando ao seu lado. — Talvez tenha feito algo errado.

— Duvido muito, tive ajuda.

A conversa morreu por alguns segundos. Dominique ponderava uma pergunta enquanto tentava já adivinhar a resposta. Não parecia haver nenhum olhar de tristeza em Nicolas, e ela também duvidava que houvesse caso algo ruim tivesse acontecido ao ajudante dele.

— E o que aconteceu a essa pessoa? — perguntou.

— Descobrimos ter objetivos diferentes e nos separamos. Ainda mantemos contato, ele é meu fornecedor das pílulas. — Nicolas apontou para a frente. — Consegue ver aquilo?

Dominique olhou adiante e enxergou uma estranha luz. Ela não era visível antes mesmo estando em terreno plano. Estava há mais ou menos um metro do chão e brilhava em um tom amarelo-claro.

Se aproximar não fez muita diferença na impressão que Dominique tinha. Continuava sendo uma fonte misteriosa de iluminação sem qualquer detalhe. A idosa estendeu a mão para o brilho, tocando a energia que fluía dele. Era isso mesmo? Energia? Aliás, era ao menos possível tocar em algo como a luz? Antes que pudesse fazer perguntas, sua mente foi arrastada para outro lugar, que também era o mesmo lugar, no passado.

Enxergou uma sala de estar repleta de correntes tensionadas, emaranhando-se umas nas outras sem lógica alguma, uma teia de aranha imprecisa e sem planejamento. As correntes iam de um lado a outro, do chão para o teto, estendendo na horizontal, vertical e diagonal, de forma que era impossível dar um passo sequer no cômodo sem esbarrar no metal. Alguns metros à sua frente, próximo a uma porta aberta que dava acesso ao exterior, estava Nicolas. Sua expressão demonstrava um pouco de medo e cansaço, o cabelo arrumado pelo gel estava desgrenhado e pela primeira vez Dominique o via sem terno, em vez disso usava uma calça gasta de moletom e uma camiseta toda rasgada. A idosa imaginou que ele olhava em sua direção, até que ouviu o retinir de metal à sua esquerda. A poucos centímetros de si, estava uma criança com o corpo inteiro restrito pelas correntes, dando voltas e voltas até que somente a cabeça estivesse visível. Dezenas de cadeados mantinham as correntes bem apertadas. Sentiu pena do menino e se agachou, vendo que ele não possuía um corpo humano. As correntes que pareciam prendê-lo na verdade eram sua carne, protuberando-se para fora da parte humana. Dominique deu um passo para trás e, com a velocidade que já estava acostumada a ver, uma corda surgiu, enrolando-se no pescoço do predador e enforcando-o.

Afastou a mão da luz e recuou um passo. Não tinha notado durante a visão, mas um zunido constante ressoava em sua cabeça, também suava e ouvia ainda o tilintar das correntes e a respiração entrecortada do predador. Nicolas a observava com a mesma expressão de sempre e não disse uma palavra até Dominique fazer sua pergunta.

— Você enforcou uma criança?

— Um predador parecendo uma criança, para ser mais exato — respondeu ele, com naturalidade.

— Ainda assim…

— Eles tomam diversas formas, crianças, adultos, idosos. O mal é o mal e eliminá-lo na aparência que se apresenta é o necessário. Além do mais, era um originador, e acabei de te falar do estrago que estão fazendo. Ao não agir, eu condenaria muitos outros.

Dominique não respondeu. Mesmo sabendo o dano causado por predadores, algo na cena a revoltava. Seria ela capaz de fazer o mesmo? E se fosse, conseguiria se justificar igual Nicolas?

— Não há outra solução? — perguntou ela. — Vencemos o predador do hospital sem matá-lo.

— Talvez tenha, mas quantas vidas vamos perder até encontrá-la? Estaria disposta a dizer para as vítimas esperarem enquanto você busca uma saída melhor? — Dominique não respondeu.

— Por que você não mataria alguém que se finge de criança?

— Porque é errado.

— Noções de certo e errado não valem aqui. Se hesitarmos demais, perdemos. — Nicolas direcionou o olhar para a luz. — Eu sinto que esse originador vai voltar.

A cabeça dela ainda estava no último assunto, e mencionar o retorno do originador fez tudo se embaralhar.

— Tem alguma forma de impedir?

— É isso que quero descobrir, e para isso que preciso de sua ajuda. A luz revela o passado do originador, mas ficar tempo demais é perigoso. Quero que me puxe caso note que não aguentarei.

Era um pedido estranho, não pelo fato de estarem em uma rua asfaltada sem nada por perto, olhando para uma luz que vinha de lugar nenhum e que tinha a capacidade de transmitir memórias de uma criatura morta há mais de três meses, nem pelo fato de Nicolas querer arrancar o máximo de memórias dessa criatura, Dominique já tinha aceitado essas coisas como um fato da realidade. Estranho mesmo eram os termos usados. Sempre que eram reunidos, era com o objetivo de ajudar a suceder em algo, nunca vira Nicolas cogitar precisar de ajuda em caso de fracasso. Era uma faceta nova dele, só ela conhecia, mais ninguém.

Assentiu com empolgação, e o líder aproximou as mãos da luz sem hesitar. O brilho oscilou e mudou de forma. Se antes era como uma esfera, espalhando a iluminação igualmente em todas as direções, passou a ser galhos espinhosos, cobrindo os arredores de Nicolas. A idosa pensou em puxá-lo dali, mas a mudança repentina não pareceu incomodá-lo, tampouco feri-lo.

Minutos se passaram e os sinais de problema surgiam um após o outro. Primeiro com o suor que escorria da testa de Nicolas e logo empapou a roupa nas costas e axilas. A pele da mão e do rosto descamava, revelando por baixo uma camada reluzente em preto e branco. Os espinhos o envolviam cada vez mais e, se deixasse aquilo continuar, talvez Dominique não fosse capaz de trazê-lo de volta.

Esticou a mão para puxá-lo, mas parou ao sentir alguém perto deles e virou-se rapidamente, erguendo os punhos em posição de combate. Deparou-se com um ser sem forma, ou melhor, sem forma fixa. Em um instante se parecia com uma mulher, em outro, com um homem, o cabelo mudava o tempo todo, a altura também, assim como cor de pele, olhos, rosto, roupas e tudo mais. Só manter o olhar naquela coisa exigia um certo esforço de Dominique. Sua cabeça rodopiava com as alterações. Decidiu fixar-se no chão próximo à criatura, mantê-la na visão periférica era bem mais fácil, mas dificultaria reações aos ataques do predador. Cerrou os punhos e flexionou os joelhos, pronta para qualquer coisa, menos para o que saiu da boca da criatura.

— Calma, Dominique. Vim aqui para impedir que Nicolas se mate com o que ele está fazendo.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 28

Desenho monocromático. O desenho mostra vários ângulos de uma criatura humanóide. Em destaque está uma visão da frente, onde mostra o ser com olhos que são quase metade do rosto e saltando para fora das órbitas. Lágrimas escorrem pelos olhos da criatura. Alguns fiapos de cabelo despontam do topo de sua cabeça.
Outro ângulo mostra a criatura de mostras, com ossos atravessando a pele da coluna e mantendo-a bem reta. O último mostra o ser de lado, com braços e dedos bem longos, capazes de chegar ao chão sem precisar se agachar.
No lado direito há o número vinte e oito para indicar o capítulo.

Voltar para casa desta vez lhe tirou mais do que o movimento das pernas, ficou também sem a euforia que sentiu ao fugir do originador. Nunca antes seu corpo respondeu tanto a seus anseios, o contraste com a imobilidade parcial lhe doía no peito. Queria voltar ao território mais um pouco, correr mais, sentir a adrenalina pulsando, ir até os limites do que conseguia fazer, e então ir além destes limites.

Porém, somente com o restante do grupo conseguiria explorar os territórios. Ela podia ir sozinha, mas sabia que não tinha como enfrentar os originadores. Seria uma exploração para sua própria satisfação, e isso não era correto. A benção lhe foi dada para que ajudasse os demais. Então, como sempre, Dominique apenas esperou.

Esperou na segunda, quando todos saíram para o trabalho ou estudos, e ela ficava sozinha em casa. Esperou na terça, quando seus netos foram ao cinema assistir a um novo filme de super-herói. Esperou na quarta, quando ouviu de sua cama a família vibrando com o jogo. Esperou na quinta, quando tudo que fizeram foi jantarem juntos e descansar. Esperou na sexta, quando o neto mais velho foi a uma festa de aniversário, o mais novo ficou em seu quarto jogando até altas horas na madrugada e seu filho e esposa assistiram algum filme na televisão da sala. Tentou esperar no sábado, mas quando o filho anunciou que iam aproveitar o dia bonito de primavera, Dominique sentiu que enlouqueceria com tanta espera.

— Posso ir junto? — perguntou. — Estou a fim de pegar um ar fresco.

Manuel, que estava prestes a continuar falando, se interrompeu e a olhou com surpresa.

— Claro que pode! — Ele sorriu. — Vou avisar Isabela.

A esposa e o filho prepararam sanduíches, frutas e garrafas de água enquanto os netos acordavam e se ajeitavam. Em seguida, ajudaram Dominique a entrar no carro, ou seja, praticamente colocaram ela lá, dobrando a cadeira de rodas no porta-malas, e partiram para o parque. Muitos anos antes, Manuel comentou de comprar um carro adaptado, mas Dominique recusou. Na época, não queria causar mais problemas, então continuaram usando o carro que tinham.

Logo chegaram ao Parque de São Bento, desceram do carro e percorreram o caminho sem pressa até chegarem na área dos brinquedos. Era um local com chão de terra, rodeado por grandes árvores que jogavam sombra no terreno, ao seu redor haviam algumas mesas de pedra com tabuleiros de xadrez ou dama em seu tampo, além de ocasionais quiosques vendendo sorvetes, picolés e bebidas.

Dominique e sua família se aproximaram de uma das mesas de pedra e, como não havia espaço vago nos bancos próximos a mesa, deixaram a cadeira de rodas na diagonal. Jogaram uma toalha sobre o tampo e puseram a sacola térmica com as bebidas e os sanduíches sobre ela.

O local já estava repleto de outras famílias, cada uma com seus filhos e animais de estimação. Se tivessem demorado mais alguns minutos, não haveria vagas.

— Mãe! Mãe! Podemos ir brincar lá? — perguntou Luiz, o neto mais novo, apontando para o parquinho contendo escorregadores, balanços, gangorras e outros brinquedos.

— Podem sim. — Isabela olhou para o Manuel. — Você vai lá com eles? Eu fico aqui com a vó.

— Podem ir os dois — disse Dominique. — Eu cuido das coisas.

Não que ela fosse um símbolo da proteção ou algo do tipo, mas esperava que, pelo menos no meio de um parque movimentado, ninguém fosse lá roubar os seus pertences. E caso existisse alguém tão ousado, esperava que outras pessoas no mínimo a ajudassem. Além do mais, os brinquedos estavam próximos, daria para observar os netos e o filho de onde estava.

Minutos se passaram e nenhum perpetrador apareceu para roubar os pertences da família. Dominique relaxou, e nem tinha notado que estava tensa antes. Por que ficar em alerta no parque? O que tinha demais ali? Prestou atenção aos seus arredores, tentando encontrar um motivo.

Alguns metros à sua esquerda, um homem e uma mulher jovens conversavam, na frente dos dois, uma criança de não mais que quatro anos brincava com bonecos. O olhar passou por diversos transeuntes e parou em duas mulheres sentadas à sua direita, as duas de mãos dadas, trocando sorrisos e palavras. Um pouco estranho, mas nada perigoso. Olhou para sua frente e viu, há poucos metros, um cachorro de médio porte caminhando, seus pelos curtos e amarronzados, orelhas altas e rabo longo a lembraram de Jen. Botou a mão no peito, sentindo uma estranha palpitação. Mais uma das perdas difíceis do acidente. Nunca nem pensou em ter outro cão depois da perda da companheira, ela própria imaginava que não duraria muito tempo. Mas viveu.

Viveu mesmo? Os últimos anos eram nebulosos, uma mistura indefinida de dias sem nada acontecer ou mudar. Desistiu de tomar decisões para deixar sua vida na mão dos outros. Na mão do filho, principalmente. Por muitos anos, desejara ter mais liberdade, mas, ao mesmo tempo, fugia disso. Por que? O que mais o acidente lhe tirou sem que percebesse?

Enquanto o cachorro passava, com sua dona alguns metros atrás, Dominique decidiu que, após uma década, precisava retomar o controle de sua vida. Se era autonomia que queria, primeiro precisava tomar as próprias decisões, escolher o próprio caminho. Caso contrário, sua liberdade seria apenas um tempo fora da cela, alguns minutos de intervalo em que podia ser ela mesma.

Passou o resto da manhã e um pouco da tarde no parque e, assim que chegou em casa, disse estar cansada. O filho a levou para o quarto e ajudou a colocá-la na cama. Quando ele saiu, fechando a porta e desejando um bom descanso, Dominique agiu.

Ligou a luminária na cabeceira da cama e pegou um livro que estava há anos juntando pó ali. Pensou em diversos recados e despedidas para dar, mas não sabia a melhor forma de colocá-los no papel. Optou por algo simples: “Preciso partir para ajudar o resto do mundo”. Era verdade, mas também mentira. Não era aquele o principal motivo. Arrancou a folha e deixou sob o livro.

Esticou-se para o lado esquerdo, onde ficava seu armário, e puxou mudas de roupa. Pegou a colcha que estava usando na cama e um travesseiro também. Ficou alguns segundos olhando para o quarto pouco iluminado. Respirou fundo, assentiu e foi ao farol.

Logo sentiu o vento forte da costa batendo em si e ameaçando levar as roupas para longe. Era revigorante! Não estava ali para ficar algumas horas, mas dias, meses, quanto tempo quisesse.

Por mais que desejasse sentir o vento e a maresia, seria estúpido largar suas coisas ali. Dominique subiu ao topo do farol e organizou seus poucos pertences. Apesar de não ser o lugar mais espaçoso do mundo, era o suficiente para que se sentisse confortável. Fez uma espécie de cama com a colcha, deixou o travesseiro por cima e olhou em volta. Ouvia o som do mar batendo no promontório, o vento passando pelos vidros, seus próprios pensamentos e seu corpo. Perfeito.

Ainda precisava pensar no que fazer em seguida, mas antes, um cochilo para organizar as ideias seria muito bem-vindo.

***

Estava no céu, bem acima das nuvens. Ao seu redor estendia-se uma casa sem paredes, cujo piso do chão espalhava-se por muitos quilômetros. A maioria dos cômodos ligavam-se uns aos outros por pontes de madeira que não tinham mais que um metro de extensão. Aqueles que não possuíam pontes estavam mais distantes, cerca de quinze metros, e era necessário pular para chegar até eles.

Dominique caminhava pela casa aérea com naturalidade. Nunca usava as pontes, preferindo sempre saltar a distância entre um espaço e outro. Era mais divertido, e conseguia sentir o ar resistindo contra seu impulso toda vez. Vagou sem destino, mas quando ouviu uma voz grave e melosa, seguiu até ela.

Encontrou um banheiro com um homem dentro. Ele estava apoiado na pia e se olhando no espelho. Não tinha mais que trinta anos, mas sofria de problemas na coluna e fazer qualquer tipo de exercício, até mesmo uma caminhada, o deixava com dores. Ele não queria mais aquelas dores.

Aproximou-se do sujeito e tocou em suas costas. Seu conhecimento de medicina era resumido a matérias de televisão, alguns documentários e uma ou outra coisa que leu em revistas. Sua benção, porém, era sua vontade e seu poder, com ela poderia modificá-lo assim como modificava a si mesma. Alterou a coluna do homem, deixando-a reta, reforçando-a, mexendo nos nervos para que sentisse menos dor. Ele se tornou capaz de caminhar de forma correta, sem passar por sofrimento algum.

Ao olhar o resultado de seu trabalho, notou que o homem parecia mais alto graças às alterações. As lâminas vertebrais se manifestavam como protuberâncias compridas que rasgavam a pele e se exibiam ao mundo com seu tom esbranquiçado. Infelizmente, o sujeito não conseguia mover a cabeça e nem dobrar o torso. Mais alterações se faziam necessárias.

Começou pela cabeça, trabalhando para aumentar seu campo de visão, assim não precisaria movê-la. Trocou a localização das órbitas para ficarem uma em cada lado da cabeça, precisou remover o cabelo para que não caísse no olho e atormentasse o pobre coitado. Depois aumentou o tamanho dos globos oculares, expandindo-os para ficarem tão grandes quanto a palma de sua mão. Satisfeita, passou aos braços. Estes eram mais simples, bastava aumentar o tamanho deles para que os dedos fossem capazes de tocar no chão, e então aumentar o número de articulações nos membros.

Deu um passo para trás e observou mais uma vez o resultado do trabalho. O homem não tinha mais defeitos graves, era capaz de usar os braços para alcançar qualquer objeto que estivesse ao seu redor, os olhos viam tudo, a coluna era praticamente inquebrável. As pernas só ficaram parecendo curtas se comparada aos membros superiores, mas era um problema estético, não funcional.

O olho direito do homem se moveu, fixando-se em Dominique. Lágrimas escorriam do enorme globo, estava tão feliz! Ele passou as mãos pelo seu corpo, caindo de joelhos em seguida e estendendo os braços compridos na direção de sua benfeitora, em um sinal de agradecimento.

— Por quê?

Uma cortina se abriu diante dos olhos de Dominique. O que fez? Por que fez? Fruto de seus poderes ou não, aquele homem estava longe do que poderia ser um humano e, mesmo que tivesse resolvido seu problema, que outros criou sem saber?

Notou algo movendo-se pela visão periférica e virou-se. Em um quarto de casal à sua direita, viu o que só conseguiu definir como um amontoado de carne arrastando-se pelo chão. No meio da vermelhidão, havia um coração batendo, os pulmões inspirando e expirando, o estômago trabalhando. Seus instintos lhe diziam se tratar de mais um de seus “pacientes”.

Segurou a respiração, pensou em fazer aquelas pessoas voltarem ao normal. O que era o normal delas? Dominique olhou para a aberração que criou há nem cinco minutos e não conseguiu lembrar como ele se parecia. Olhar para o amontoado de carne era pior ainda, não tinha uma referência sequer da pessoa que um dia fora. Era criança, adulto ou idoso? Homem ou mulher? Tinha alguma marca de nascença? Não sabia nada.

Correu para longe, mas desta vez, ao passar pelos cômodos, notava como a casa estava repleta de pessoas que ajudou. Algumas ainda lembravam um pouco a forma humana, mas o corpo estava tão distorcido que nada se encaixava direito. Outras se tornaram algo diferente demais, variando entre uma esfera de tecido nervoso, transmitindo e recebendo estímulos que deviam trabalhar em conjunto com o cérebro e outros órgãos que não mais existiam, até aqueles que nada tinham de carne, somente uma fumaça incapaz de tocar, sentir, ver ou emitir sons, apenas vagando pelos cômodos enquanto deixavam um rastro cinzento e gosmento atrás de si.

Tentar fugir só a fazia ver mais e mais daquele horror. A diferença entre eles era tão grande que acostumar-se era impossível. Não havia para onde fugir, a casa se estendia infinitamente para qualquer lado que corresse. Restava apenas uma saída.

Pulou no vão entre os cômodos, queria a segurança da terra, queria estar abaixo das nuvens mais uma vez. Caiu, atravessando a imensidão branca e aproximando-se do enorme azul abaixo de si. Era um lago, cristalino e calmo como em um dia sem brisa alguma. Conforme se aproximava, notou o seu reflexo na água. Das costas brotavam asas brancas enormes, como aquelas que se viam em pinturas de anjos. As mãos e braços estavam pálidos, mostrando as veias pulsando com intensidade e se remexendo como vermes dentro de um hospedeiro. Do tronco brotavam membros que deveriam ser outros braços, mas que acabavam em lâminas de metal afiado. As pernas eram um conjunto de músculos reforçados por um exoesqueleto vermelho, produzindo uma camada fina de um líquido pegajoso. A única parte humana era a face, com os olhos esbugalhados, as sobrancelhas erguidas e a boca levemente aberta enquanto encaravam o reflexo no lago.

Dominique não fez nada para impedir de cair na água e afundar.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 27

Desenho monocromático. O desenho mostra uma sala de estar com um sofá de três lugares, duas cadeiras de praia. À frente do sofá está uma estante com televisão e porta-retratos com múltiplas pessoas. Na parede ao lado do móvel há um porta medalhas cheio de medalhas.
No canto inferior direito há o número vinte e sete para indicar o capítulo.

Tuuut. Tuuut. Tuuut.

Estava chamando demais. Certo que Gilson não atenderia, afinal, Fernando ligou do nada. Quem é que faz isso com os outros? Talvez fosse uma ideia idiota mesmo. Capaz do irmão mandá-lo se foder assim que atendesse. Era melhor desligar logo.

Antes que afastasse o celular do rosto, Gilson atendeu a ligação.

— Oi… — disse Fernando.

— Oi. — A resposta foi seca, sem nenhum traço de emoção.

— Está tudo bem?

— Eu que te pergunto. — Era irritação? — Que bicho te mordeu para me ligar?

Talvez fosse melhor encerrar ali? Não, tinha ido longe, faltava pouco. Forçou as próximas palavras.

— Eu queria me encontrar contigo e o resto da família.

Silêncio. Fernando até checou para ver se a chamada caíra ou se Gilson desligara.

— Quer se encontrar para…?

— Queria pedir desculpas para todo mundo.

— Bom, é só ligar para cada um, não? — Parecia que estava perdendo o irmão aos poucos.

— É melhor falar com todos juntos, olhar olho no olho, sabe? Pelo celular é meio frio.

— Combinaria contigo. — Tudo bem, mereceu essa. — Seria mais fácil ligar para a mãe e pedir para ela organizar tudo, mas tu está com medo de falar com ela.

— Eu só não sei o que dizer ainda.

— Tu deveria saber isso faz tempo! — Gilson suspirou. — Olha, eu vou tentar, mas já adianto que o Henrique está puto contigo.

— E a mãe? — Se ela estivesse igual, uma reconciliação seria impossível.

— Tu conhece ela. Está mais triste que braba. — Antes que Fernando pudesse dizer mais algo, Gilson continuou. — Preciso desligar, vou dar uma saída agora.

— Na segunda? — perguntou, já sabendo muito bem o tipo de saída que o irmão festeiro dava.

— Fazer o quê? Me convidaram.

Após despedirem-se um do outro, Fernando sentou-se na cama e apoiou a testa nas mãos. Os dedos tremiam de leve, e ele pensava em diversos resultados negativos a partir dali. Se tudo desse errado, pelo menos seguiu em frente, fez algum progresso.

Para sua alegria e ansiedade, teve uma resposta de Gilson no dia seguinte. Por mensagem, o irmão disse que conseguiu reunir todos para o domingo. Não perguntou se Fernando conseguiria ir ou se tinha compromissos, mandou aparecer vivo ou morto.

Seguiu-se uma semana longa, muito mais do que tinha o direito de ser. E na noite de sábado foi impossível dormir, mesmo com o cansaço acumulado dos últimos dias. Não ajudou que seus sonhos eram pesadelos com o encontro, com resultados ridículos e impossivelmente péssimos, o pior sendo um em que Fernando tropeçava ao tentar cumprimentar Henrique, levando os dois ao chão e terminando com uma fratura nas costelas do irmão. Ele então era acusado de ter se reunido com a família apenas para destruí-los. Era um cenário sem noção, mas que o fez acordar no meio da madrugada.

Arrumou-se como um raio ao levantar-se no domingo, ficando pronto uma hora antes de terem que sair, antes mesmo até de Gabriel levantar-se da cama. Quando bateu o horário, os dois subiram na moto e foram até a casa de Gilson.

Fernando nunca tinha ido lá antes, não sabia se era comprada ou alugada, mas suspeitava da segunda opção, o irmão não gostava de ficar muito tempo no mesmo lugar. Havia um pequeno espaço com grama na frente da casa e na parte da esquerda uma garagem coberta sem carro, tudo protegido por uma grade de metal. Mandou uma mensagem assim que chegou e, alguns segundos depois, Gilson saiu da casa pela porta na frente, usando uma camiseta do Grêmio e uma cara de poucos amigos.

— Está tudo certo? — perguntou Fernando, assim o portão da garagem abriu.

— Sim, tudo, só ficou um climão quando falei para o Henrique da sua chegada. — Gilson estendeu a mão.

Fernando a apertou, sentindo a pele dura do irmão.

— Eu dei uma amaciada nele — continuou Gilson. — Então talvez te ouça.

— Sério? Obrigado.

— Não precisa agradecer. Eu acho que todo mundo passa por uma fase que tem merda na cabeça, a tua talvez tenha durado demais. — Ele semicerrou os olhos e franziu o cenho. — E pode não ter passado ainda, vou ficar de olho.

O cumprimento terminou de forma menos amigável do que começou. Gilson, porém, logo sorriu e estendeu a mão para Gabriel.

— Eu devia te dar um prêmio por aturar esse teimoso — disse o irmão.

Gabriel riu e o cumprimentou.

— Teimoso é pouco.

— Vamos entrando, senão daqui a pouco a mãe vai sair correndo pela porta.

Caminharam para o interior da casa e o medo de encontrar a família inteira veio à tona mais uma vez, cada passo era um esforço enorme, e apenas se manter no lugar exigia vencer a vontade de fugir. Não era um medo pela sobrevivência, igual sentia ao enfrentar os predadores, era um medo pelo futuro, pelo que poderia resultar de suas ações e palavras. Se a tentativa de reconciliação falhasse, viveria o resto da vida colhendo os frutos de péssimas decisões. Estava indo a um tribunal para ser julgado. Sua família atuaria como juiz e promotor, Fernando seria o réu e advogado.

Entrou na sala com o coração ora parando, ora acelerando tanto que quase explodia no peito. Ele divagava, imaginando diversos cenários para aquela entrada. Deveria acreditar nos piores cenários e não criar expectativas? Ou abraçar a esperança e olhar com confiança para o horizonte de sua vida? Antes que escolhesse, se deparou com uma nova tarefa monumental: dar oi para sua mãe.

Logo que o cumprimento estava saindo, Júlia o abraçou. Ela era da mesma altura que Fernando, o abraço foi apertado de um jeito familiar e carinhoso.

— Senti tanta saudade — disse ela.

Antes que pudesse raciocinar, retribuiu o abraço. Fernando também sentira, e sentia, muita saudade. Terminado o abraço, Júlia o olhou de cima a baixo, com a visão analítica que só os pais têm.

— Está mais magro, Fê.

— Não estou mais indo na academia — disse ele. — Mas tu está ótima.

— Quem me dera, ando com uma dor nas costas… Rique, não vai dar oi para seu irmão?

Olhou para o irmão mais velho, que estava alguns passos atrás da mãe. Henrique apenas acenou, e Fernando achou melhor fazer o mesmo. Não queria sair fingindo que estava tudo ótimo, ainda mais com a óbvia expressão de mal humor na cara do irmão.

Começou a absorver os arredores. A sala de estar tinha um sofá de três lugares, ao lado esquerdo do móvel haviam duas cadeiras de praia que Gilson ajeitara para ele e Gabriel. Na parede oposta ao sofá estava um rack com uma televisão em cima, o aparelho estava ligado e mostrava, no mudo, a programação de domingo. Fotos da família dividiam o espaço com o aparelho e, à esquerda do móvel, a parede era adornada por medalhas e troféus da época em que o irmão jogava pelo time da escola.

— Pode sentar nas cadeiras que elas não mordem — disse Gilson.

Obedeceu e pensou em como começar uma conversa. Nada do que planejara parecia ser o ideal. Alguém fez uma pergunta, e Fernando, absorto em pensamentos, não ouviu direito. Felizmente, Gabriel respondeu por ele:

— Estamos morando no Leopoldina agora.

Iniciou-se um vai e vêm de perguntas e respostas dos dois lados. Com Gabriel agindo quase como um porta-voz e lidando com as primeiras perguntas até Fernando se recompor e juntar-se oficialmente à conversa. Falaram sobre a mais nova ficante de Gilson, brincaram sobre o pintor com medo de altura que Júlia contratou para trabalhar na casa deles, e sobre as obras paradas da prefeitura. Estava gostoso, Fernando ficaria o dia inteiro nesse ritmo, sem tocar no assunto que precisava. O balde de água fria foi jogado por Henrique com uma pergunta que cortou a conversa de todos ao meio:

— Por que veio visitar?

Como se já estivesse esperando essa pergunta, Júlia rebateu:

— Fernando não precisa de motivos para vir visitar.

— Precisa, sim! — Henrique fitou a mãe e depois Fernando, os olhos dele dilaceravam a atmosfera agradável e penetravam fundo, escavando qualquer intenção que encontrassem. — Ninguém volta a falar com a família depois de três anos se escondendo.

— Eu andei sonhando com o pai — disse Fernando. Era uma mentira, mas muito mais crível que a realidade. — Achei melhor deixar algumas coisas de lado e ver vocês.

— Só isso? — Henrique ainda mantinha a cara fechada.

— Sim. — Não, não era só isso, mas o verdadeiro motivo não podia ser revelado. — Por isso… — Olhou para todos na sala — peço desculpas por tudo que fiz.

— Essas desculpas aí estão alguns anos atrasadas — disse Henrique, com indignação na voz.

— Para, Henrique! — interveio Gilson. — Depois que o Fê saiu de casa tu incomodava o pai todo dia para voltar a falar com o guri.

— Aquilo foi diferente — respondeu o mais velho.

— Como que foi diferente? O Fê queria ir para a faculdade, o pai queria que ele só herdasse a padaria e fez tanta birra com isso que praticamente mandou o filho embora da casa.

— Mas agora quem deveria ouvir essas desculpas é o pai! — disse Henrique, a voz não ficava mais alta, mas, de alguma maneira, tomava corpo e dominava a sala. Nesse sentido, era muito parecida com Cleber.

— Considerando que a morte dele é a causa de tudo, eu acho que não vai ter como ele ouvir desculpas.

— Chega! — Júlia se meteu na discussão. — Não importa quem começou ou quem tem que aceitar as desculpas. Fê veio até aqui e é errado enxotar ele. — A mãe olhou para o caçula. — Fico feliz que esteja aqui, para mim isso já basta.

A partir dali, o clima amenizou. Conversaram o resto da manhã, assistiram um pouco de televisão e depois comeram o suflê de chuchu que Júlia preparou. Tinha muito cara de velhos tempos, mas Cleber não estava lá para preencher o buraco na família.

Após o almoço e um rápido café para energizar, Fernando e Gabriel se despediram e voltaram para casa.

— Tu não falou da padaria — comentou Gabriel, logo que chegaram.

— Melhor não jogar essa bomba agora, ia só dificultar. — Fernando suspirou.

Gabriel sorriu e deu um tapinha amigável nas costas do namorado.

— Tudo bem, fico feliz de já termos feito algo diferente. E mais feliz ainda por tu ter feito isso.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 26

Desenho monocromático. O desenho mostra uma bancada de cozinha com uma térmica de água com um logo de um gaúcho montado em um cavalo, uma cuia com erva de chimarrão e uma bomba dentro e um cevador de chimarrão.
No canto superior esquerdo há o número vinte e seis para indicar o capítulo.

Voltar para casa foi difícil, por mais que tenha sido Dominique a consolar Bárbara, Fernando ainda estava preocupado. Apenas saiu do farol quando a motoqueira se despediu de ambos e desapareceu. Como seria arriscar sua vida para salvar alguém, acreditar que tinha conseguido e bem no final descobrir que falhou? O que faria na mesma situação? Não queria nem pensar nisso.

Em casa, na televisão, passava algum filme ou seriado enquanto Gabriel assistia deitado. Assim que Fernando ligou a luz da sala, o namorado desligou o aparelho e se levantou.

— Tu voltou! — Gabriel se aproximou e deu-lhe um abraço apertado.

Fernando nada disse, os últimos pensamentos vieram à tona. Podia ser Gabriel em vez de Igor, o que definia quem era pego ou não pelos predadores? Retribuiu o abraço do namorado com força. Ficaram um tempo assim, não queria soltá-lo, mas teve que fazer isso quando o outro quebrou o abraço e recuou um passo, observando-o de cima a baixo.

— Deu tudo certo? Conseguiram? — perguntou ele.

Fernando negou com a cabeça.

— Vencemos, mas não conseguimos salvar Igor. Chegamos tarde demais.

Gabriel baixou o olhar por um momento, o alívio deixando seu rosto e sendo substituído por tristeza.

— E Bárbara? Como ela…

— Ficou arrasada. Levamos um tempo acalmando a coitada.

De repente, os joelhos quase lhe falharam, os braços pareciam incapazes de se erguerem e até as pálpebras tornaram-se pesadas. O corpo terminou de entender tudo que viu e sentiu no território. Caminhou em direção ao sofá, porém, antes que pudesse desabar no móvel, Gabriel o interrompeu.

— Por que não toma um banho?

Sim, precisava de um. Rumou para o banheiro e fechou a porta. Deixou as roupas sujas em um canto em vez de largá-las no cesto junto as outras. Entrou no box e ligou o chuveiro em temperatura gelada.

Seu corpo entrou em estado de alerta. Não pôde evitar de retesar um pouco os músculos das costas, mas isso era bom, estava desperto. Levantou um pouco a cabeça, deixando a água percorrer seu rosto. O frio o incomodava, mas a frustração também. Arrependia-se de ter caído em um truque tão idiota e simples como o reaparecimento de seu pai. Pior ainda, temia cair de novo em ilusões desse tipo. Não podia evitar de querer alguém querido de volta na sua vida. Quem conseguiria? Alguém sem coração?

Seu transe foi cortado quando Gabriel abriu a porta. O namorado largou uma toalha e uma muda de roupas em cima do vaso, pegou as sujas do chão e saiu sem dizer nada. Não era somente Fernando quem sofria e se preocupava. Devia ser muito mais difícil para o namorado, incapaz de ir aos territórios para ajudar. Antes que se deixasse levar por mais pensamentos, decidiu encerrar o banho logo e evitar aumentos na conta de água.

Assim que saiu do box, notou que as roupas no vaso não eram pijamas, e sim suas vestes do dia a dia. Sorriu. O companheiro conhecia-o bem, sabia que, mesmo naquela exaustão, ainda precisava dar seguimento à sua rotina. Vestiu-se e saiu do banheiro, deparando-se com um Gabriel que também trocara de roupa.

— Ué, vai aonde? — perguntou Fernando.

— Vou contigo.

Preparou-se para discutir, mas recebeu em troca um olhar significativo, um olho mais aberto com a sobrancelha erguida. Reconhecia esse de discussões que tiveram cujo resultado era o namorado conseguindo o que queria, seja por estar certo, ou por insistir demais.

— Seu trabalho começa cedo, tem certeza?

— Um dia virado não vai me matar. — Deu de ombros. — Qualquer coisa meto café na veia e sobrevivo até chegar em casa.

Os dois foram até a garagem, subiram na moto e rumaram até a padaria. Chegando lá, foi imediatamente trabalhar nos pães enquanto o namorado lidava com a limpeza. Gabriel perguntou em detalhes o que aconteceu no território, e Fernando contou tudo, até mesmo de seu pai. Era estranho o fato de que apenas falar com alguém sobre os eventos ajudava a diminuir a tensão que carregava, como se manter a boca fechada fosse parte do fardo.

Fernando notou como foi certa a decisão de contar tudo ao namorado. De outra forma, estaria ali sozinho, nesse mesmo horário, inventando desculpas e ainda tendo que lidar com sua rotina.

Com a chegada da manhã, veio a despedida de Gabriel, que ainda nem começara seu expediente. O turno na padaria foi tranquilo, parado até. O ócio se tornou o pai de ideias, que por consequência impulsionaram ações. Quando deu por conta, estava observando as últimas mensagens que recebera de Gilson.

Há anos não se comunicava com o irmão, com a família como um todo na verdade. Não ajudava que na última conversa com Gilson, o irmão questionava a ausência de Fernando no enterro do pai. E, como não houve resposta, seguiram-se algumas mensagens contendo insultos e dizendo que Fernando estava abandonando a família quando mais precisavam dele.

Como se repara uma situação assim? Aliás, qual mensagem mandar primeiro? Poderia enviar apenas um “Oi”? Fingir que apagou o histórico e que não se lembrava daquela última conversa? Claro que não, eles não eram idiotas. Escreveu e apagou diversas variações da mensagem, nenhuma era ruim, mas também não eram boas. Decidiu não enviar nada, o irmão estava trabalhando, não queria incomodá-lo. Mandaria de noite, quando montasse uma abertura ideal e Gilson estivesse em casa.

Ao fim do expediente na padaria, voltou para a residência e se preparou para começar as entregas. Bastou olhar para a mochila que essa ideia foi descartada. Não conseguiria colocá-la no dia, não com tudo que aconteceu antes. Além do mais, estava exausto ao limite, era bem capaz que batesse e se arrebentasse, além dos prejuízos materiais que teria. Sem entregas, era melhor dormir. Encostou a cabeça no travesseiro e o corpo tomou as rédeas uma mente imbecil, mergulhando Fernando em um sono quase imediato.

Acordou com alguém se mexendo no quarto. Meio grogue, enxergou Gabriel pegando as roupas no armário. Sentou-se devagar e coçou os olhos.

— Tentei não te acordar, deve estar exausto — disse o companheiro.

— Até que não, acabei dormindo a tarde inteira.

Gabriel se virou para ele, ostentando o olhar de quem desejou ter dormido por esse tempo e muito mais.

— Como foi o trabalho? — perguntou Fernando.

— Ótimo, muito produtivo.

— Sério?

— Claro que não, né! Metade do tempo eu fiquei me imaginando tirando um cochilo delicioso no sofá, e a outra metade eu fiquei tentando lembrar o que eu estava fazendo antes. — Ele riu. — Me senti de volta aos tempos de faculdade.

— Imagino que vai só capotar então.

— Queria, mas… no que está pensando?

— Eu? Nada.

— Vou fingir que acredito, aí depois do banho tu me conta a verdade.

Enquanto Gabriel ia para o banheiro, Fernando levantou-se e se espreguiçou. Esperava que esse dia sem entregas não impactasse tanto nas finanças, mas era algo que lidaria depois. No momento, já que sua rotina tinha ido para o espaço, decidiu aproveitar ao menos o resto do dia.

Caminhou até a cozinha e fez algo que há muito tempo não fazia: preparou chimarrão. Nunca foi o mais empolgado com a bebida, mas gostava de tomar para lembrar do pai e dos tempos em que a família se reunia pela manhã para prosear. Enquanto esquentava a água na chaleira, esqueceu-se qual era o passo a passo correto. Se bem que, se perguntasse para três gaúchos diferentes, cada um diria um processo distinto, então seguiu sua memória o melhor que pôde e não se preocupou muito com exatidões.

Quando terminou o chimarrão, levou a térmica e a cuia para a sala, onde ligou a televisão e deixou passando o noticiário. Gabriel saiu do banho em seguida, parou na sala e observou Fernando por uns segundos, fez uma expressão de desconfiança e foi ao quarto. Voltou menos de cinco minutos depois com seu pijama e se sentou ao lado do namorado.

Tomaram o chimarrão ao longo de alguns minutos. Tudo isso enquanto a ideia de falar com Gilson abria espaço entre os lábios de Fernando e quase saía, apenas para ser levada de volta por um puxão de incerteza.

— O que tu tá remoendo? — perguntou Gabriel, de repente.

— É tão óbvio assim?

— Óbvio?! Tu não fez as entregas hoje, preparou chimarrão e está com uma cara de quem foi para o mato sem cachorro. Falta só uma placa na tua testa.

Fernando confessou:

— Estou pensando em falar com meu irmão.

— Não! — Gabriel arregalou os olhos. — Não acredito que depois de anos, finalmente tu aceitou minha ideia. — Ele ergueu as mãos para o alto enquanto segurava um riso. — Glória!

Apesar do constrangimento, Fernando não se conteve e acabou rindo.

— Depois vou ter que pagar umas promessas — disse Gabriel. — Continua, não vou mais te atrapalhar.

— Que promessas?

— Melhor não saber.

Fernando semicerrou os olhos, mas o namorado continuou impassivo diante do questionamento. Suspirou, abriu o Whatsapp na conversa com Gilson e disse:

— Eu não sei direito como começar. Que mensagem mandar? Eu envio só “Oi”?

— Eu acho melhor não mandar mensagem. Se eu fosse tu, ligaria.

Fernando não disse nada, nem tinha pensado nessa possibilidade. Era meio assustadora, bem horripilante na verdade.

— Estão há anos sem falar nada, capaz de ele ignorar se mandar algo no Whats, igual tu fez com ele tempos atrás — continuou Gabriel. — Se ligar, ele vai achar que é uma emergência e atender na hora.

— Mas e o que eu digo?

— Tu é o vendedor aqui, isso deveria ser fácil para ti.

Fernando balançou o dedo indicador em negação.

— São situações diferentes!

— Só pensar que está tentando vender um relacionamento novo.

— Isso é idiota.

— Se funcionar não é idiota.

Alguns segundos de silêncio se passaram. Fernando olhava de Gabriel para o celular.

— Pode funcionar, mas me assusta o quão manipulativa é essa tua ideia.

— Enquanto tu estava ocupado fazendo pães, eu estudei profundamente as relações familiares Fernandísticas. Sou o único especialista disso no mundo.

— Deu para ver. — Fernando riu, mas a seriedade logo voltou ao seu rosto. — Estava pensando em perguntar como ele está. Talvez pedir para visitar a família… Não, esquece, é muito cedo para isso.

— Muito tarde, isso sim — rebateu o companheiro.

— Está bem. Vou ligar.

Fernando se levantou, foi até o quarto e fechou a porta. Abriu o contato de Gilson e ficou alguns segundos encarando o número. Fez a ligação.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 25

Desenho monocromático. O desenho mostra um conjunto de pessoas com proporções infantis atrás de uma grade. Elas encaram o espectador com expressões de medo, dor e raiva. O rosto de cada uma delas possui costuras, e as feições costuradas são adultas.
No topo há o número vinte e cinco para indicar o capítulo.

Alguns meses antes…

Antes mesmo de abrir os olhos, escancarou a boca e puxou para seus pulmões todo o ar que lhe faltava. Enxergou o céu noturno e virou a cabeça para o lado. Estava na rua. Alguém o carregara? Por quê?

Sentou-se, notando um peso extra em seu pescoço. Levou a mão até ele e encontrou lá a corda que usara. Os dedos tatearam os sulcos na pele e carne, lançando uma fisgada de dor. Seguiu com eles pela corda, passando pelo nó e chegando a um fim abrupto. Alguém a cortara, alguém o salvara momentos antes de morrer. Se levantou trôpego e olhou os arredores. Estava no meio do asfalto, em uma rua que não era a sua, tampouco um lugar que conhecia.

Os postes de luz eram diferentes entre si. Alguns elevavam-se muitos metros e suas luzes quase não iluminavam o chão. Outros estavam com a lâmpada e seu suporte virados para cima, em uma tentativa inútil de clarear o céu noturno. E uma pequena quantidade estava torcida como massinhas de modelar, dando voltas e mais voltas, assemelhando-se a molas, mas no fim iluminavam o caminho melhor que os demais.

Caminhou até a calçada, feita de pedra e cheia de limo. Olhou adiante, mas não viu o fim da rua, nem ao menos uma interseção com outra. Enxergou apenas uma fileira de casas dispostas em cada lado. O mesmo telhado de brasilit, a mesma fachada branca, a mesma grade de metal preta em volta da casa. Também possuíam o mesmo número: 1147. Atrás de si o cenário era igual.

Nicolas esfregou os olhos com os indicadores. Tentou desesperadamente lembrar de alguma rua ou lugar que tivesse casas tão parecidas. No Brasil, para serem todas tão iguais, era em condomínios, mas então não teriam grades e nem o mesmo número. O que mais poderia ser? Um set de filmagem, talvez? Não, estava complexo demais para ser isso. Um sonho? Apenas a realidade? Já não mais sabia o que responder. Os punhos abriam e fechavam com as perguntas ressoando na cabeça.

Aproximou-se de uma casa. Queria evitar interações, mas sua única escolha era perguntar a um morador dali. Deteve-se ao ter uma visão melhor da grade, sentindo o coração palpitar mais forte e suor tomando suas mãos. Onde estava a entrada? Foi para a parte de trás da residência, apenas para notar que estava fechada também.

Além das moradias havia apenas um horizonte escuro, com pontos luminosos distantes. Uma cidade? Arriscou passos naquela direção, porém chocou-se com algo e recuou, massageando o nariz dolorido. Estendeu as mãos à frente e sentiu a textura familiar de pedra fria e porosa. O cenário desapareceu e Nicolas se deparou com um muro cinza de mais de dez metros, se estendendo para a esquerda e direita sem um final visível. Voltou dois passos.

O horizonte reapareceu e ocultou o muro. Não era possível, não havia nem razão para existir algo assim. Nicolas levou as mãos ao rosto, sendo tomado por uma súbita dor de cabeça. Desviou o olhar para o chão, não queria mais ver seja lá o que fosse aquilo. Olhou o volume na lateral da calça e lembrou de seu próprio celular. Pegou o aparelho com dedos trêmulos e ligou a tela. Estava funcional. O relógio mostrava 03h47 e a bateria estava quase cheia. O único problema era o sinal inexistente. Ligou uma vez para um ex-colega de trabalho e nem chegou a discar. Tentou outros contatos, arriscou o 190, todos com o mesmo resultado. Fechou as duas mãos sobre o celular e baixou a cabeça, encostando a testa no aparelho. O que fazer? Aonde ir?

Após algum tempo parado, começou a caminhar. Passou de casa em casa pedindo por ajuda, mas as luzes internas nunca se acendiam e ninguém lhe respondia. Acelerou o passo, começou a berrar. Quando a garganta secou, procurou por pedras para jogar nas janelas e não encontrou nenhuma. O gramado ao redor era parelho e limpo, sem uma brita sequer.

Se aproximou da grade de uma casa e colocou as mãos nas barras. Eram lisas e sem nenhum apoio para os pés. No alto, arames cortantes serviam para desencorajar invasões. Funcionou nele.

Ouviu um estampido, e depois outro, então mais outro. Tiros. Não enxergou nada na direção dos sons e deu alguns passos, talvez fosse capaz de encontrar ajuda. Parou. Desde quando ia na direção do perigo? Ninguém decente andava armado por aí! Enquanto decidia o que fazer, mais disparos soaram e Nicolas tremeu, optando por se esconder atrás de uma casa e aguardar. Nenhum som cruzou a noite e não sabia dizer se preferia os tiros ao silêncio total.

Passaram-se vários minutos até que viu uma figura caminhando pela calçada. Era um homem. Possuía cabelos loiros compridos amarrados em um rabo de cavalo, usava uma camisa polo e calças jeans pretas. No lado esquerdo da cintura havia um coldre de arma, mas Nicolas não conseguiu descobrir qual era de tão longe. O homem possuía uma expressão séria, porém seus passos eram relaxados, como alguém caminhando pela praça no sábado à tarde. Já tinha visto aquele rosto em algum lugar.

O desespero venceu o bom senso e logo decidiu pedir ajuda. Saiu de trás da casa levantando as duas mãos. O loiro foi rápido para sacar a arma e apontá-la na direção de Nicolas, que se forçou a falar algo, mas produziu apenas sons sem nexo. A expressão do atirador suavizou-se em um sorriso enquanto ele devolvia o revólver ao coldre.

— Cara! Você quase me matou de susto — disse o homem.

Não foi o contrário? Nicolas só sentia agora o quanto o coração pulsava, reverberando por seu corpo todo.

O sujeito avizinhou-se. Era um pouco mais baixo e devia ostentar vinte e poucos anos. Possuía, acima da orelha, uma pequena flor branca que em nada combinava com ele.

— Pode baixar os braços agora.

Acatou a sugestão.

— Onde estamos? — A voz saiu pouco mais alta que um sussurro.

— Em território de caça.

Ele voltou a caminhar para a mesma direção de antes. Nicolas o seguiu, cuidando para ficar uns metros atrás.

— O que é um território de caça? Caça de animais? — Dessa vez conseguiu elevar a voz até o tom normal. — E como saímos daqui? Aliás, como eu vim parar aqui? Onde é aqui?

O loiro passou a caminhar de costas enquanto encarava Nicolas. O sorriso não deixava seu rosto.

— Vamos com calma. Não precisa me metralhar de perguntas.

Olhou para baixo, repentinamente envergonhado. Em outros tempos, tentaria descobrir tudo sozinho, mas não tinha mais vontade para isso.

— Todo mundo fica confuso na primeira vez — continuou. — Vamos começar do básico. Sou Rafael, e você?

— Nicolas.

— Fácil, né? Agora para as perguntas! É um território de caça de predadores, do tipo que te estraçalha como se fosse aqueles brinquedos baratos de um e noventa e nove. É complicado achar a saída, estou procurando-a nesse exato momento. Não sei como você veio parar aqui e eu seria um oráculo se soubesse.

— Faltou a última…

— Onde você acha que é aqui?

Pensou em tudo o que viu. As casas e rua seguiam uma estrutura familiar, do tipo que poderia ser visto em qualquer lugar, mas ao examinar o todo, nada se encaixava. Ruminou sobre a pergunta mais um momento, até que balançou negativamente a cabeça.

— Difícil, né? Eu tenho pelo menos alguns meses a mais de experiência que você e o que eu sei… — Seu semblante se fechou, o sorriso sumiu do rosto e suas sobrancelhas se arquearam — é que nada sei. — Ele riu e se virou para a frente, deixando Nicolas com a boca meio aberta.

— Você não respondeu nada direito.

— Eu respondi da melhor forma que consigo. — Rafael parou de caminhar e estendeu a mão direita na direção de Nicolas em um claro sinal de “pare”. — Você vai ver por si mesmo agora.

O sujeito tirou o revólver do coldre e olhou em volta. Nicolas estava prestes a perguntar o que estava errado quando sentiu uma comichão no pescoço, a corda o incomodava pela primeira vez. Observou os arredores e viu o primeiro sinal de vida nas casas. Luzes começaram a acender, as portas abriram e pessoas saíram delas. Todas eram pequenas e não demorou a notar que eram crianças. O coração acelerou ao perceber que todas deixavam as casas ao mesmo tempo e, por algum motivo, sentiu uma queimação na garganta como se recém tivesse vomitado. Rafael correu sem dar explicações e, seguindo seus instintos, Nicolas foi em seu encalço enquanto tentava controlar o nojo de ver aquelas crianças.

Os infantes saíam aos montes das construções, indo até a grade, botando os bracinhos para fora e balançando-os. Alguns agarravam as barras e tentavam torcê-las ou pulá-las.

— O que são essas crianças? — perguntou Nicolas, quase sem ar. Nem tinham passado por cinco casas, mas o tempo de sedentarismo pesava no corpo.

— Se acha que são crianças, vai lá dar um abraço nelas. — Rafael balançou a cabeça na direção de uma residência próxima. — Só tenha certeza de verificar o que está fazendo.

Nicolas olhou pela primeira vez para elas, não para a silhueta, mas para o corpo todo, a começar pela cabeça. Ao redor do rosto havia finas linhas vermelhas, entrando e saindo da pele. Parecia apenas crueldade até ver que algumas tinham as costuras mal feitas, deixando a face meio solta como se fossem máscaras de couro. As feições não combinavam com o corpo, tinham traços mais adultos e, apesar de tudo, as expressões eram tão mutáveis e vivas quanto poderiam ser. Mesmo no silêncio em que estavam, era possível entender o que sentiam: medo, dor, raiva.

Nicolas parou de correr.

— O que é isso? São… são pessoas?

Rafael parou e se virou para ele. Não sorria mais.

— Eu já te disse, são predadores.

— Não fale merda, elas estão… O que fizeram com elas?

Emitiram o primeiro som: um grito inumano, estridente e alto, mais parecendo um animal selvagem. Espremeram-se entre as grades, quebrando os ossos do corpo, deformando a si mesmas. A primeira a atravessar a barreira amassou uma parte do crânio e parecia ter deslocado um braço, caindo no chão em seguida. Não demorou a se levantar, a cabeça lentamente voltando ao normal e seu braço tremelicando ao retomar sua posição. Sem aviso, correu na direção dos dois.

Rafael mirou o revólver e atirou. A criança caiu no chão com um buraco na testa, nenhum sangue saía. Os dedos escureceram e a cor espalhou-se pelo restante do corpo. Rachaduras formaram-se na pele, a carne vazou como uma lama roxa e fedida. Os ossos ficaram à mostra e então tudo começou a virar pó.

— Ainda acha que são humanos? Pode ficar aqui e morrer ou pode vir comigo e viver. O que quer?

Mais daquelas coisas saíram, recolocando os ossos no lugar e correndo na direção deles. Nicolas não teve dúvidas.

— Viver.

— Então vai na frente, com essa barriguinha, vai precisar de vantagem.

Rafael riu e tirou do bolso um espelho com bordas metálicas. No que aquilo ajudaria? Não ousou perguntar, optando por tomar o máximo de distância possível daquelas coisas. A curiosidade, no entanto, venceu-o depois de alguns segundos. Virou e notou Rafael já alcançando-o, e logo atrás duas crianças socavam, chutavam e agarravam em um esforço de impedir que as outras passassem.

— O que você fez? — perguntou ao loiro, entre um arquejo e outro.

— Confundi eles um pouco.

Correram por mais um minuto, Nicolas achava que seu peito explodiria em breve. Juntar ar estava cada vez mais difícil e a náusea crescente não ajudava. A rua não parecia ter fim e, para piorar, luzes se acendiam à frente deles. Mais monstruosidades surgiriam em breve.

— Onde… estamos indo?

— Temos que procurar uma inconsistência, algo nesse lugar que não pertença ao território.

Nicolas parou de correr e se apoiou nos joelhos. Mesmo com o coração pulsando cada vez mais forte e um latejar na cabeça, lembrou de algo que parecia se encaixar.

— O muro.

Rafael estacou.

— Que muro?

— Atrás das casas não tem horizonte, é um muro pintado.

— Vamos tentar lá.

Os dois tomaram uma rota para o paredão. Algumas crianças se aproximaram pela lateral e Rafael abateu-as com precisão e sem hesitar, mas não foi o suficiente, para cada uma derrubada, duas se aproximavam em seguida. O revólver logo ficou sem munição e uma criança se lançou nas pernas do atirador. Os dois foram ao chão e o homem deu coronhadas na cabeça da coisa até ela lhe soltar. Quando Nicolas o alcançou, já estava de pé e correndo. Chegaram e o loiro por pouco não repetiu o mesmo erro de Nicolas, parando antes graças a um aviso deste. Tocaram a estrutura fria e a pintura do horizonte desapareceu.

— É, deve ser aqui — disse Rafael.

— Deve?

— Não incomoda, temos que ser rápidos. Coloca as duas mãos e empurra com toda a força.

Mais esforço físico. Se fossem condições normais, seu corpo teria se rendido. Obedeceu às instruções, mas nada aconteceu. Rafael fez o mesmo.

— Não está funcionando! Não tá! — grunhiu Nicolas.

— Para onde quer ir?

— Para fora daqui, para casa!

— Então empurra essa merda!

Nicolas usou toda a força que tinha, mas nada aconteceu. Quando olhou para o lado, seu guia tinha desaparecido. Olhou para trás, a legião de crianças estava prestes a alcançá-lo. Gritou e empurrou, e mesmo com nenhuma memória querida ou agradável do seu passado, queria voltar logo para casa. Então suas mãos afundaram na pedra e ele atravessou o muro.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 24

Desenho monocromático. O desenho mostra Bárbara, uma mulher de cabelos longos e cacheados. Ela está vestindo uma jaqueta de couro com asas nas costas e calças. Está com a cabeça abaixada, os cabelos pendendo aos lados e à frente da face. Seu braço está levantado acima da cabeça e ela usa o antebraço para se apoiar em uma porta.
No canto superior esquerdo há o número vinte e quatro para indicar o capítulo.

Dominique, Fernando e Bárbara saíram do território com milésimos de segundo de diferença entre cada um. Apesar de ter dado a ordem, foi Nicolas quem ficou para trás. Fixou seus olhos no predador, ignorando o território que desabava à sua volta. Demorou quase um minuto para que o originador começasse a se desfazer naquela gosma roxa. Derrotaram-no sem matá-lo. Curioso. Intrigante.

O chão próximo aos pés desabou para o imenso nada que havia fora dos territórios e desconcentrou Nicolas. Seja lá o que fosse essa nova forma de vencer seus inimigos, pensaria melhor nela depois. Voltou ao farol.

Encontrou Dominique e Bárbara ao redor de Fernando, que respirava fundo por ter curado as rachaduras da motoqueira. De todos eles, Fernando tinha as habilidades menos tentadoras. Dava sim uma vantagem enorme ao grupo, mas aguentar a dor cada vez que a usavam era um problema. Poucos dariam sua carne a uma pessoa, ainda mais quando eram nada além de conhecidos.

Após minutos de silêncio, as feridas de Fernando estavam curadas e ele ergueu-se. Mirou Nicolas com olhos cansados.

— Demorou para voltar, achei que tu ia ficar por lá — disse o padeiro.

— Queria garantir que ele estava mesmo derrotado — respondeu Nicolas. — Foi uma resolução incomum.

— Foi?

— Que importa se foi incomum ou não? Não vimos Igor em lugar algum naquele maldito território! — interrompeu Bárbara. Ela se aproximou de Nicolas com a cara fechada. — Tu disse que ele estaria por lá!

— Disse que ele foi levado para lá — respondeu Nicolas, sustentando o olhar da outra.

— Que seja! Não achamos ele no andar de recuperação, nem na maldita lista dos mortos. — Ela cruzou os braços. — Onde caralhos ele tá?

— Calma. — Fernando colocou a mão no ombro de Bárbara e olhou para Nicolas. — As pessoas voltam para o local onde foram raptadas, certo?

— Sim.

— Se voltarmos agora, vou achar ele no apartamento? — perguntou Bárbara. — É isso?

Nicolas assentiu, e Dominique de repente arregalou os olhos. Ela deu um passo na direção de Bárbara, mas manteve-se quieta. Foi o melhor curso de ação, caso contrário passariam mais alguns momentos desnecessários ali.

— Ótimo, eu vou voltar — disse Bárbara.

— Vou junto, talvez precisemos carregar ele — falou Fernando.

A mulher assentiu em concordância e segurou no antebraço do padeiro. Antes que o homem pudesse se despedir, os dois já tinham desaparecido. Deixando apenas Nicolas e Dominique.

— O que acontece se a pessoa morrer no território? — perguntou a idosa.

— Não vai ter corpo nenhum.

— Então… tem a chance de ele não estar lá?

— Sim.

— Não era melhor ter dito algo?

— Talvez. Por que você não disse?

Ela olhou para baixo.

— Porque… eu não sei.

— Se não encontrarem Igor, certamente voltarão até aqui. Fique para ajudá-los, vão precisar.

— Você não vai ficar? — Dominique levantou o rosto.

— Não posso, há outras coisas que preciso fazer.

Ela não disse mais nada, apenas se despediram com um simples aceno de mãos. Nicolas voltou ao seu escritório. Ainda bem que deixou a tarefa de consolar Bárbara nas mãos de Dominique, ela lidaria melhor com a situação. Além do mais, cedo ou tarde teriam que se acostumar com a morte de pessoas próximas. Talvez o falecimento de Igor até servisse como um agradável combustível, catalisando em Bárbara uma determinação e obsessão que ele próprio não era capaz de forçar na mulher.

Foi para o escritório, sentou-se na cadeira e fechou os olhos. Aquele foi um território diferente, destruíram o local sem matar o originador. O que aprendeu sobre os predadores? Eram capazes de sentir raiva, de mudar seu comportamento conforme a situação, de desistirem de caçar. Não tinha visto nada disso nos territórios anteriores.

A charada tinha uma solução simples: estavam evoluindo rápido. Conseguiram lidar com esse novo, mas e os próximos? O quanto sua complexidade aumentaria? Que comportamento esperar?

Aumentar o tamanho da equipe poderia melhorar as chances de sobrevivência, mas precisaria achar pessoas capazes. Sabia bem qual era o resultado caso recrutasse qualquer um. Pensaria mais nisso depois, primeiro precisava escrever o relatório antes que os detalhes se perdessem. Abriu os olhos, ligou o notebook e começou a tarefa de relatar tudo nos mínimos detalhes.

Enquanto digitava os acontecimentos, sorriu ao lembrar de Bárbara e Dominique, as duas estavam avançando em um ritmo rápido, dominando suas habilidades e refinando-as. Fizera bem em escolhê-las. Fernando ainda não fora capaz de melhorar, mas isso não importava, cumpria com excelência seu papel na equipe.

Terminada a escrita, revisou seu registro e pensou nos próximos passos. Uma evolução rápida o afastava de seu objetivo, então talvez recorresse ao plano B? Arriscado, ainda mais que havia detalhes desconhecidos. Seria capaz de descobrir essas informações investigando aquele culto? Afinal, havia membros dele em um território. Seria simples coincidência?

E claro, havia também um outro assunto. Um problema antigo que teimava em ressurgir, precisaria tratá-lo em breve, mas não sozinho. E duvidava que conseguisse ajuda no dia seguinte, pois estariam todos cansados e dando seguimento em suas vidas. Seria tão mais fácil se simplesmente focassem nos predadores 24 horas por dia, mas cá estava, preso a uma agenda cujo foco era a vida mundana dos integrantes do grupo.

Levantou-se da cadeira e notou o celular piscar com notificações. Desbloqueou-o e notou que eram todas do grupo. Sabia muito bem do que se tratavam as mensagens, e por isso mesmo as ignorou.

***

As luzes estavam acesas no apartamento de Igor, exatamente como deixaram antes de caçar o predador. Bárbara correu até o quarto. Entrou no banheiro, na cozinha, espiou a área de serviço. Nada. Não havia ninguém lá. O fogo que alimentava seu corpo desvaneceu e ela voltou a passos pesados para a sala. Fernando aguardara enquanto ela vasculhava o apartamento.

— Nada. — Bárbara largou o corpo no sofá. — Será que ele foi parar em outro lugar?

Fernando sentou-se do lado dela.

— Ele foi raptado aqui.

— Nicolas pode ter errado, ele não sabe tudo — disse ela, levantando a cabeça de repente. — E se ele ficou no território? Temos que voltar e investigar!

— O lugar foi destruído, não deve ter mais nada lá. — Fernando respirou fundo e baixou o tom de voz. — Se não apareceu aqui e o território se foi, só resta uma possibilidade.

— Não! Não resta! — Bárbara se ergueu de súbito. — Fiz isso para nada, então?

— Não foi para nada, ajudamos outras pessoas.

— Fodam-se as outras pessoas. — Começou a caminhar de um lado a outro. — Eu queria salvar Igor!

Fernando ficou em silêncio. Na cabeça de Bárbara, os pensamentos circulavam em torno da possível morte do amigo. De uma hora para outra, o mundo se tornou injusto, cruel e sádico. Aliás, sempre fora, ela apenas esquecia isso às vezes. Ganhara poderes, derrotara monstruosidades, mas a única coisa que queria fazer mais do que tudo estava fora de seu alcance.

Sentiu o coração apertar no peito, suas entranhas se comprimiram com a possibilidade que se tornava um fato. As pernas endureceram ao mesmo tempo em que o joelho ameaçava falhar, cada inspiração arranhava sua garganta e cada expiração enrijecia seus dedos em um punho.

Quando notou, estava de frente para a porta de entrada do apartamento. Chutou a madeira com força, esperando que a dor física eliminasse as demais, mas tudo que sentiu foi uma dormência na perna. Chutou de novo e amaldiçoou sua demora em agir. Chutou de novo e amaldiçoou os predadores. Chutou de novo e odiou tudo. Chutou de novo e odiou principalmente a si mesma. Chutou mais e mais, entre berros e gritos. A madeira era grossa e forte, tremia, reverberando a cada pancada, mas não cedia. Como queria que tudo que sentia vazasse através da violência e destruísse os arredores, porém quanto mais batia, mais doía. Era uma dor inacabável, ameaçando assombrá-la em cada momento de sua vida.

Só parou quando Fernando a puxou por trás para longe da porta.

— Tem gente do outro lado! Já deu!

Ela piscou e se viu de volta no farol. Dominique parecia aguardá-la, como se já soubesse de tudo que encontrara no apartamento. Sem dizer uma palavra, a idosa abraçou-a. Sua visão se borrou com as lágrimas, a tensão nos ombros cedeu e Bárbara não quis chutar mais nada, queria apenas chorar.

E foi isso que fez enquanto estava agarrada a Dominique. Seu mundo inteiro se desfazendo em lágrimas e lamentos.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 23

Desenho monocromático. O desenho mostra um corredor hospitalar e, no meio dele, um enorme monstro peludo com braços de duas juntas, rosto humanóide com tentáculos saindo de onde seria o nariz e, logo abaixo do rosto, um segundo par de braços pálidos e menores, com apenas uma junta. Ele anda de forma curvada e o suas costas raspam no teto, criando um rastro de sangue.
No canto superior esquerdo há o número vinte e três para indicar o capítulo.

O olhar de todos caiu sobre ela. Nicolas mantinha sua expressão neutra, mas com um leve ar de curiosidade, Bárbara parecia considerar, já Fernando pressionava os lábios em uma fina linha, e por um momento os olhos dele foram mais para baixo.

— Eu não acho que deva ir, não sozinha — disse ele. — É muito…

— Perigoso! Eu sei — interrompeu Dominique, sua voz um tom mais alta que o normal. — Mas quem vai então?

— Deveríamos ir todos juntos — respondeu ele, gesticulando para o restante do grupo. — Precisou de todos para escaparmos da última vez!

— Dominique é capaz de escapar sozinha se não enfrentar o originador. — O olhar de Nicolas pairou na idosa. — Ela é nosso melhor recurso para isso.

Não conseguiu evitar que um sorriso preenchesse seu rosto. Era inegável o quanto Nicolas considerava toda a situação.

— Eu ainda acho…

— Dá um tempo, preocupadinho! — Bárbara deu um tapa nas costas de Fernando. — Confia na véia.

Fernando passou a mão pelo rosto e respirou fundo.

— Só não inventa de atacar aquele bicho, pode ser pior dessa vez.

— Sim, o objetivo é descobrir alguma pista da identidade do cadáver que precisamos encontrar — reforçou Nicolas. — Se não conseguir, apenas fuja.

— Sem problema! — Dominique levou a mão a testa, batendo continência. — Não vão se decepcionar.

***

Os primeiros passos no andar da Perdição foram dados cautelosamente. Não havia mais som no andar, as botas de Bárbara ficaram para trás e tudo que Dominique ouvia era a própria respiração.

Logo encontrou a entrada ao quarto. Por mais que Fernando dissesse ser apenas uma pista de um predador duplo, havia algo a mais. Era um lugar mantido limpo e intacto, sobrevivendo aos efeitos do tempo graças a cuidados frequentes de alguém que espera um dia reencontrar o hóspede do cômodo. Um santuário, uma forma de lembrança, uma forma de sentir dor e de evitá-la.

— Desculpe — sussurrou Dominique.

Entrou no quarto e o grito estridente soou pelos corredores escuros. Estava lutando contra o tempo, não havia como manter a delicadeza. Apressou-se até os cadernos e folhou-os o mais rápido que pôde, buscando por algum nome. Nada. Procurou no violão, algo escrito com caneta permanente para marcar seu dono. Nada. Procurou na mochila que havia ao lado da mesa e, apesar de encontrar mais alguns cadernos, todos estavam sem nome, vazios. Havia também um estojo com lápis, borracha, caneta e marcador. Mais uma vez, nada de nome. Olhou para o porta-retratos, arrancou-o da parede, quebrou o vidro com um soco e puxou a foto, rasgando a imagem no processo. Escrito na parte de trás, com letras delicadas e perfeitas, estava o nome: Alice da Silva Dutra.

Saiu do quarto e viu o originador chegando perto. Se afastou sem olhar para trás, mas quando os passos do predador cessaram, arriscou uma espiada. Os tentáculos estavam esticados cômodo adentro, Dominique não conseguia ver o que estavam fazendo. Pensou em correr e ganhar uma vantagem antes que a perseguição começasse, mas algo no gesto chamava sua atenção. Talvez fosse o cuidado e a calma com que o monstro agia, a ternura no movimento dos tentáculos.

Mas então ele gritou. Não foi o som estridente de antes, mas um forte e rouco, lembrando um berrante. Virou na direção da idosa e a perseguição teve início. No entanto, o monstro deixou de ser sua única preocupação. O chamado para a guerra trouxe ao andar os diversos predadores que ocupavam o território. Do teto, chão e paredes, as bestas humanoides emergiram, lançando-se na direção de Dominique. Em meio a pulos e esquivas, ela foi perdendo velocidade.

Não ousava olhar para trás, serviria apenas para atrasá-la. Além do mais, não queria ver o originador se aproximando. Faltava quanto? Alguns metros, ou seria uma questão centímetros? Não sairia com vida se fosse pega.

Teve a cara de pau de ficar toda confiante na frente do grupo, tudo para correr por sua vida no fim. Lembrou-se dos olhos de Fernando, os mesmos que muitos direcionavam para ela, exalando a certeza de que, por conta de uma característica que nem a afetava ali, ela fracassaria. Mostraria que estavam errados!

Precisava ser mais veloz! Mas, por Deus, como faria isso? Estava mais rápida que o Usain Bolt, isso não era o suficiente? Sentiu-se, mais uma vez, presa em um corpo incapaz de atender todos os seus pedidos. Então, de repente, as veias saltaram na perna, os músculos incharam, rasgando a pele e expondo a carne. Não sentiu dor, apenas um êxtase que lhe subia pela cintura e infectava todo o corpo. Finalmente entendeu o significado de seu presente, de sua benção. Não era um corpo forte e veloz. Era mais. Um corpo livre da prisão lógica, das amarras colocadas. Se ela precisava ser mais rápida, bastava ser. Um sorriso emoldurou o rosto enquanto sua velocidade dobrava.

A primeira curva expôs suas limitações. Não conseguiu diminuir a velocidade, o medo das monstruosidades atrás de si a impulsionava e, antes que pensasse em uma forma de dobrar, acabou batendo. Moveu o ombro esquerdo para a frente no último segundo, deixando-o absorver todo o impacto. Ouviu um estalo e um choque de dor percorreu o braço. Não, sem dor, sem parar, sem hesitar. Com o seu desejo, a dor sumiu, deixando o corpo com uma sensação vazia.

Virou-se, enxergando de soslaio seus perseguidores se aproximando, e voltou a correr. Não sentia mais o ar contra o rosto, era como se o corpo inteiro estivesse dormente, uma marionete cujos movimentos eram decididos pelo titereiro.

Quando uma segunda curva surgiu, suas pernas a levaram para perto da parede e os dedos da mão esquerda penetraram o reboco da estrutura. Por um momento perdeu velocidade, mas seu braço fez força para mudar a direção, e logo em seguida já tinha feito a curva sem maiores complicações. Usando essa estratégia, conseguiu dobrar mais vezes sem perder tempo e sem chocar-se contra as paredes. Chegou ao elevador, esperando-a de portas abertas. Pela primeira vez no que pareciam ser horas, reduziu o ritmo. Foi como se todos os seus músculos tivessem a chance de relaxar e Dominique sentiu-se mole ao adentrar a cabine e direcioná-la para o necrotério. Os pés da idosa deslizaram pelo chão enquanto as portas fechavam, sentiu a pontada de dor no ombro, os ferimentos nos dedos e mãos causados pelas curvas, a ardência nas pernas, que voltaram ao normal e estavam mais do que sobrecarregadas. Mesmo com as dores distribuídas pelo corpo, não deixou de sorrir. Foi um belo exercício para descobrir do que era capaz, e sentia que faltava muito ainda para explorar.

Sua euforia pós-fuga desvaneceu assim que o elevador tremeu. O coração retomou o ritmo de antes, bombeando adrenalina para as veias e expulsando qualquer resquício de dor. Mais um tremor. De repente o elevador abandonou sua descida uniforme para se jogar em queda livre. Dominique foi lançada ao teto como um boneco de pano, cima se tornou baixo e esquerda virou direita. Um pensamento ressoou no cérebro: ela morreria em meio ao metal assim que o elevador atingisse o solo.

Enxergou os botões na ponta oposta da cabine e reorientou-se. Segurou-se no teto e socou o mais forte que conseguiu, abrindo um buraco na estrutura e em seguida arregaçando o metal com as duas mãos. Sem pensar duas vezes, saiu do elevador e lançou-se em direção a um dos suportes da parede. Firmou-se no suporte e viu a cabine desaparecer na escuridão abaixo de si, levando diversos cabos rompidos consigo.

Ouviu um estrondo vindo de cima, e por pouco não foi atingida por nacos de tijolo. Levantou o olhar, mas enxergou apenas a escuridão. Temia já saber a origem daquilo tudo, suas ações no quarto não seriam perdoadas. O originador abandonara seu andar.

Metros abaixo de si, havia um suporte de metal na parede parecido com aquele na qual Dominique estava agarrada. Soltou os dedos, caiu um pouco e agarrou-se no alvo. Acima de si os sons continuavam. Repetiu o mesmo movimento de antes, descendo mais devagar do que gostaria, enquanto ouvia a ameaça se aproximando. O monstro também parecia sentir a aproximação, pois começou a urrar. Sua salvação surgiu quando enxergou uma porta de elevador. Não quis nem saber se era ou não o necrotério, foi até ela, forçou os dedos entre as divisas e abriu-a com um grito. Entrou correndo na sala e puxou Bárbara para longe do poço.

— O que houve? — perguntou a jovem.

— Ele está vindo! Procure por Alice da Silva Dutra!

Próximos ao totem estavam Nicolas e Fernando. Bastou Dominique gritar o nome para que o líder deles se pusesse a buscar na lista interminável do tablet. Não demoraria muito, mas tempo era algo que lhes faltava.

— Pão? — perguntou Fernando.

— Pão! — respondeu Dominique.

O colega passou seus dedos ágeis pelo fecho da mochila de entrega, abrindo-a em um segundo. Agarrou o conteúdo lá de dentro e atirou. A mira do padeiro falhou, mas os reflexos da idosa compensaram. Dominique pegou uma massinha doce pequena, e logo botou goela abaixo. Seus ferimentos desapareceram e um grunhido deixou a garganta de Fernando.

Sentiram um tremor no andar inteiro, seguido por um grito de raiva e da parede do elevador rachando e quebrando logo em seguida. O originador invadiu o necrotério diferente da última vez que o viram. A pelugem, antes negra, mudara para um tom vermelho pálido e doente, os tentáculos brancos tornaram-se mais agitados e ativos, como se perscrutassem qualquer partícula no ar que se movesse. A criatura investiu contra os alvos mais próximos: as duas mulheres.

— Deixa comigo! — Bárbara avançou.

Ela não deu mais do que cinco passos antes de se aproximar da criatura. O originador moveu a mão cheia de garras em um ataque lateral que deixaria dilacerado qualquer um, com exceção de sua atual oponente. Assim que Bárbara foi atingida, as rachaduras se espalharam e a jovem liberou a explosão que guardava dentro de si.

O efeito no predador foi mínimo, serviu apenas para jogá-lo alguns metros para trás. O golpe em Bárbara teve mais efeito, lançando-a contra os gavetões de necrotério, que ressoaram com a força do impacto, mas não foram amassados. Assim que a motoqueira caiu deitada no chão, Dominique agiu. Mais uma vez suas pernas responderam à altura e de um segundo a outro a idosa disparou como um projétil na direção da besta. Estava abaixo do predador e pronta para saltar e cortar fora os tentáculos quando Nicolas gritou:

— Pronto!

Dominique parou, o predador parou, talvez até o mundo. Os gavetões moveram-se como na outra vez, trazendo para perto deles o cadáver de Alice. O tempo retomou seu fluxo assim que uma gaveta próxima ao chão se abriu, revelando um corpo coberto.

O originador caminhou na direção do cadáver, e Dominique saiu de sua frente. Era a oportunidade perfeita para atacar, mas de alguma forma, sabia que o melhor a fazer era deixá-lo ir. Quando estava próximo do gavetão, os braços humanos emergiram da pelugem e descobriram Alice. O predador emitiu outro som, bem diferente da raiva e ódio que projetara até então. Ele chorou.

— Estrela… Apagada — disse ele, ou melhor, ela. Era definitivamente a voz de uma mulher. Estava embargada e difícil de compreender, mas Dominique reconheceria a tristeza de uma mãe em qualquer lugar.

Cobriu o corpo e empurrou-o para dentro da gaveta, fechando-a em seguida. O andar tremeu, o chão rachou e as gavetas começaram a sair de suas posições, caindo ao redor do grupo. O território estava se desfazendo, e junto disso veio a inconfundível sensação de que poderiam sair.

— Vamos voltar — disse Nicolas.