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Predadores: A Obsessão – Capítulo 29

Desenho monocromático. O desenho mostra Nicolas, um homem com terno e sapatos pretos, usando uma corda de forca ao redor do pescoço. Na frente dele há uma esfera de luz por onde saem gavinhas escuras que se espalham pelos arredores e parecem fluir para Nicolas.
No lado direito há o número vinte e nove para indicar o capítulo.

Saiu do sono com o medo que somente os pesadelos sabem despertar. Coçou os olhos e sentou-se devagar, enxergando Nicolas poucos metros ao seu lado. O líder percebeu o olhar e perguntou:

— O que está fazendo?

Levou alguns segundos para raciocinar onde estavam, como foi parar lá e qual resposta dar.

— Decidi morar aqui.

Levantou-se e passou a dobrar a colcha e o lençol. Anos antes, este seria um movimento instintivo de tão fácil, mas via-se com um pouco de dificuldade. A memória muscular não estava mais presente. Engraçado o quanto alguns anos sem fazer nada faziam-na perder a prática de qualquer coisa. Mas, no fim, era como andar de bicicleta e, mesmo não sendo sua melhor dobra da vida, conseguiu ajeitar as roupas de cama.

— E você, o que está fazendo aqui? — perguntou Dominique, voltando seu olhar para Nicolas.

— Pensando — respondeu ele, observando o mar. — Este é um bom lugar para pensar.

— No que? — Aproximou-se do líder, tentando imaginar o que se passava na cabeça dele e falhando. Por mais que o admirasse, o homem era uma incógnita. Além disso, tirando o primeiro encontro deles quando Dominique fora levada até um território, não tiveram muito tempo sozinhos para que fosse capaz de penetrar a máscara dura que ele vestia com tanto afinco.

— Está satisfeita com o ritmo do grupo? — Nicolas olhou-a de soslaio.

— Acho que nunca parei para pensar nisso, mas diria que sim.

— E por quê?

— Eliminamos dois originadores, já. Você viu quanta gente tinha naquele hospital? Conseguimos salvar todas! — Dominique olhou para a própria mão, lembrando-se da empolgação na fuga. Quis mencionar isso também, mas era secundário frente ao verdadeiro objetivo do grupo. — Falhamos apenas com o amigo de Bárbara.

— Entendi. — Ele voltou a observar o mar. — Do meu ponto de vista, foram apenas dois originadores. Enquanto demoramos semanas para eliminar esses, os demais agem o tempo todo, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. São incansáveis. Haverá muito mais casos como o de Igor, mortos antes que os libertemos.

— Não tem como ser tanto assim… Digo, eles estão lá, mas será que realmente agem sempre?

— Sabe quantas pessoas desaparecem por dia?

Dominique parou para pensar. Mesmo tendo o costume de assistir aos noticiários, matérias sobre desaparecimentos misteriosos eram poucas. De certa forma, tudo pareceria normal no mundo se ela não soubesse dos predadores. Comunicou isso para Nicolas.

— Demorei um tempo para levantar esse número. Não está em jornais ou comunicados governamentais, precisei entrar em grupos de redes sociais e procurar postagens de gente comunicando desaparecimentos impossíveis. Enfim, são cerca de trezentas por dia no país.

— Isso…

— Não parece tanto? — interrompeu Nicolas, virando-se para ela. — Mas isso são as que consegui descobrir e que foram relatadas. Quantas pessoas não reportam? Quantos raptos acontecem mundo afora? E mesmo que fossem “somente” trezentas, em um mês são nove mil, em um ano passa dos cem mil.

Dominique processou aquela informação por alguns segundos. Tinha noção do perigo dos predadores, mas Nicolas foi capaz de quantificar a ameaça. Pensando nos números de forma isolada, não fariam muita diferença, mas se juntassem os desaparecidos no mesmo lugar equivaleria à população de uma cidade média, talvez até mais.

— É impossível que só a gente saiba disso! — disse Dominique, franzindo o cenho. — Alguém no governo deve ter notado, ou alguém na imprensa!

— Os raptados são esquecidos, jogados de lado, até. Quando há matérias, dificilmente mencionam nomes. E mensurar nossa efetividade em números parece inútil. Quantas pessoas aquele território sequestrava por dia? Impossível dizer. Por isso não estou satisfeito.

— E se aumentássemos o grupo? Tem mais gente como nós.

— Eu já conversei com Fernando sobre isso uma vez. Os confiáveis são vocês, os outros ou não querem se comprometer, ou tem medo demais, ou agem conforme querem.

— Mas… se a ameaça é grande demais, não deveríamos nos unir? Certamente todos vão ver que precisamos ajudar uns aos outros!

Nicolas negou com a cabeça.

— Duvido muito.

— Temos que tentar! Eu posso ajudar todos os dias agora. Podemos rastrear essas pessoas e negociar.

— Dominique, algumas pessoas não conseguem enfrentar o impossível e se manterem positivas.

Aquelas palavras acenderam um alerta na idosa.

— Tem algo que eu preciso mostrar para vocês todos. Já que você está aqui, será a primeira a ver. — Nicolas estendeu a mão para ela.

— Para onde vamos?

— Para o primeiro território que destruí.

Dominique segurou a mão do homem. Por algum motivo, isso trouxe o pesadelo de volta aos seus pensamentos. Nele, tocar em alguém era o suficiente para ser capaz de modificá-lo. Conseguia fazer mesmo aquilo? Queria fazer? Não! Sua benção era para ajudá-la a derrotar predadores, não para mudar outras pessoas.

Quando deu por si, os dois estavam em uma rua vazia. Não havia nada nela além de uma estrada de asfalto iluminada pelo luar e campos de grama amarelada nas laterais. Não fosse suas pernas estarem funcionando, imaginaria se tratar de um lugar normal. Faltava a sensação de pressão e de tensão que surgia ao entrar em um território. Era semelhante ao farol, mas também diferente, como se faltasse algo.

— O território não deveria desaparecer depois de perder o originador? — perguntou Dominique.

— Desapareceu. — Nicolas olhou em volta. — E agora voltou.

O alerta se transformou em uma comichão nas pernas, junto com uma palpitação no peito.

— Quando voltou? — Dominique seguiu o olhar de Nicolas, mas não encontrou nada que chamasse a atenção.

— Cerca de duas semanas atrás, depois de ser destruído três meses antes. — Ele começou a caminhar pela estrada de asfalto. — No entanto, é só o território, sem sinal algum de predadores.

— Foi o seu primeiro, certo? — Dominique seguiu-o, caminhando ao seu lado. — Talvez tenha feito algo errado.

— Duvido muito, tive ajuda.

A conversa morreu por alguns segundos. Dominique ponderava uma pergunta enquanto tentava já adivinhar a resposta. Não parecia haver nenhum olhar de tristeza em Nicolas, e ela também duvidava que houvesse caso algo ruim tivesse acontecido ao ajudante dele.

— E o que aconteceu a essa pessoa? — perguntou.

— Descobrimos ter objetivos diferentes e nos separamos. Ainda mantemos contato, ele é meu fornecedor das pílulas. — Nicolas apontou para a frente. — Consegue ver aquilo?

Dominique olhou adiante e enxergou uma estranha luz. Ela não era visível antes mesmo estando em terreno plano. Estava há mais ou menos um metro do chão e brilhava em um tom amarelo-claro.

Se aproximar não fez muita diferença na impressão que Dominique tinha. Continuava sendo uma fonte misteriosa de iluminação sem qualquer detalhe. A idosa estendeu a mão para o brilho, tocando a energia que fluía dele. Era isso mesmo? Energia? Aliás, era ao menos possível tocar em algo como a luz? Antes que pudesse fazer perguntas, sua mente foi arrastada para outro lugar, que também era o mesmo lugar, no passado.

Enxergou uma sala de estar repleta de correntes tensionadas, emaranhando-se umas nas outras sem lógica alguma, uma teia de aranha imprecisa e sem planejamento. As correntes iam de um lado a outro, do chão para o teto, estendendo na horizontal, vertical e diagonal, de forma que era impossível dar um passo sequer no cômodo sem esbarrar no metal. Alguns metros à sua frente, próximo a uma porta aberta que dava acesso ao exterior, estava Nicolas. Sua expressão demonstrava um pouco de medo e cansaço, o cabelo arrumado pelo gel estava desgrenhado e pela primeira vez Dominique o via sem terno, em vez disso usava uma calça gasta de moletom e uma camiseta toda rasgada. A idosa imaginou que ele olhava em sua direção, até que ouviu o retinir de metal à sua esquerda. A poucos centímetros de si, estava uma criança com o corpo inteiro restrito pelas correntes, dando voltas e voltas até que somente a cabeça estivesse visível. Dezenas de cadeados mantinham as correntes bem apertadas. Sentiu pena do menino e se agachou, vendo que ele não possuía um corpo humano. As correntes que pareciam prendê-lo na verdade eram sua carne, protuberando-se para fora da parte humana. Dominique deu um passo para trás e, com a velocidade que já estava acostumada a ver, uma corda surgiu, enrolando-se no pescoço do predador e enforcando-o.

Afastou a mão da luz e recuou um passo. Não tinha notado durante a visão, mas um zunido constante ressoava em sua cabeça, também suava e ouvia ainda o tilintar das correntes e a respiração entrecortada do predador. Nicolas a observava com a mesma expressão de sempre e não disse uma palavra até Dominique fazer sua pergunta.

— Você enforcou uma criança?

— Um predador parecendo uma criança, para ser mais exato — respondeu ele, com naturalidade.

— Ainda assim…

— Eles tomam diversas formas, crianças, adultos, idosos. O mal é o mal e eliminá-lo na aparência que se apresenta é o necessário. Além do mais, era um originador, e acabei de te falar do estrago que estão fazendo. Ao não agir, eu condenaria muitos outros.

Dominique não respondeu. Mesmo sabendo o dano causado por predadores, algo na cena a revoltava. Seria ela capaz de fazer o mesmo? E se fosse, conseguiria se justificar igual Nicolas?

— Não há outra solução? — perguntou ela. — Vencemos o predador do hospital sem matá-lo.

— Talvez tenha, mas quantas vidas vamos perder até encontrá-la? Estaria disposta a dizer para as vítimas esperarem enquanto você busca uma saída melhor? — Dominique não respondeu.

— Por que você não mataria alguém que se finge de criança?

— Porque é errado.

— Noções de certo e errado não valem aqui. Se hesitarmos demais, perdemos. — Nicolas direcionou o olhar para a luz. — Eu sinto que esse originador vai voltar.

A cabeça dela ainda estava no último assunto, e mencionar o retorno do originador fez tudo se embaralhar.

— Tem alguma forma de impedir?

— É isso que quero descobrir, e para isso que preciso de sua ajuda. A luz revela o passado do originador, mas ficar tempo demais é perigoso. Quero que me puxe caso note que não aguentarei.

Era um pedido estranho, não pelo fato de estarem em uma rua asfaltada sem nada por perto, olhando para uma luz que vinha de lugar nenhum e que tinha a capacidade de transmitir memórias de uma criatura morta há mais de três meses, nem pelo fato de Nicolas querer arrancar o máximo de memórias dessa criatura, Dominique já tinha aceitado essas coisas como um fato da realidade. Estranho mesmo eram os termos usados. Sempre que eram reunidos, era com o objetivo de ajudar a suceder em algo, nunca vira Nicolas cogitar precisar de ajuda em caso de fracasso. Era uma faceta nova dele, só ela conhecia, mais ninguém.

Assentiu com empolgação, e o líder aproximou as mãos da luz sem hesitar. O brilho oscilou e mudou de forma. Se antes era como uma esfera, espalhando a iluminação igualmente em todas as direções, passou a ser galhos espinhosos, cobrindo os arredores de Nicolas. A idosa pensou em puxá-lo dali, mas a mudança repentina não pareceu incomodá-lo, tampouco feri-lo.

Minutos se passaram e os sinais de problema surgiam um após o outro. Primeiro com o suor que escorria da testa de Nicolas e logo empapou a roupa nas costas e axilas. A pele da mão e do rosto descamava, revelando por baixo uma camada reluzente em preto e branco. Os espinhos o envolviam cada vez mais e, se deixasse aquilo continuar, talvez Dominique não fosse capaz de trazê-lo de volta.

Esticou a mão para puxá-lo, mas parou ao sentir alguém perto deles e virou-se rapidamente, erguendo os punhos em posição de combate. Deparou-se com um ser sem forma, ou melhor, sem forma fixa. Em um instante se parecia com uma mulher, em outro, com um homem, o cabelo mudava o tempo todo, a altura também, assim como cor de pele, olhos, rosto, roupas e tudo mais. Só manter o olhar naquela coisa exigia um certo esforço de Dominique. Sua cabeça rodopiava com as alterações. Decidiu fixar-se no chão próximo à criatura, mantê-la na visão periférica era bem mais fácil, mas dificultaria reações aos ataques do predador. Cerrou os punhos e flexionou os joelhos, pronta para qualquer coisa, menos para o que saiu da boca da criatura.

— Calma, Dominique. Vim aqui para impedir que Nicolas se mate com o que ele está fazendo.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 28

Desenho monocromático. O desenho mostra vários ângulos de uma criatura humanóide. Em destaque está uma visão da frente, onde mostra o ser com olhos que são quase metade do rosto e saltando para fora das órbitas. Lágrimas escorrem pelos olhos da criatura. Alguns fiapos de cabelo despontam do topo de sua cabeça.
Outro ângulo mostra a criatura de mostras, com ossos atravessando a pele da coluna e mantendo-a bem reta. O último mostra o ser de lado, com braços e dedos bem longos, capazes de chegar ao chão sem precisar se agachar.
No lado direito há o número vinte e oito para indicar o capítulo.

Voltar para casa desta vez lhe tirou mais do que o movimento das pernas, ficou também sem a euforia que sentiu ao fugir do originador. Nunca antes seu corpo respondeu tanto a seus anseios, o contraste com a imobilidade parcial lhe doía no peito. Queria voltar ao território mais um pouco, correr mais, sentir a adrenalina pulsando, ir até os limites do que conseguia fazer, e então ir além destes limites.

Porém, somente com o restante do grupo conseguiria explorar os territórios. Ela podia ir sozinha, mas sabia que não tinha como enfrentar os originadores. Seria uma exploração para sua própria satisfação, e isso não era correto. A benção lhe foi dada para que ajudasse os demais. Então, como sempre, Dominique apenas esperou.

Esperou na segunda, quando todos saíram para o trabalho ou estudos, e ela ficava sozinha em casa. Esperou na terça, quando seus netos foram ao cinema assistir a um novo filme de super-herói. Esperou na quarta, quando ouviu de sua cama a família vibrando com o jogo. Esperou na quinta, quando tudo que fizeram foi jantarem juntos e descansar. Esperou na sexta, quando o neto mais velho foi a uma festa de aniversário, o mais novo ficou em seu quarto jogando até altas horas na madrugada e seu filho e esposa assistiram algum filme na televisão da sala. Tentou esperar no sábado, mas quando o filho anunciou que iam aproveitar o dia bonito de primavera, Dominique sentiu que enlouqueceria com tanta espera.

— Posso ir junto? — perguntou. — Estou a fim de pegar um ar fresco.

Manuel, que estava prestes a continuar falando, se interrompeu e a olhou com surpresa.

— Claro que pode! — Ele sorriu. — Vou avisar Isabela.

A esposa e o filho prepararam sanduíches, frutas e garrafas de água enquanto os netos acordavam e se ajeitavam. Em seguida, ajudaram Dominique a entrar no carro, ou seja, praticamente colocaram ela lá, dobrando a cadeira de rodas no porta-malas, e partiram para o parque. Muitos anos antes, Manuel comentou de comprar um carro adaptado, mas Dominique recusou. Na época, não queria causar mais problemas, então continuaram usando o carro que tinham.

Logo chegaram ao Parque de São Bento, desceram do carro e percorreram o caminho sem pressa até chegarem na área dos brinquedos. Era um local com chão de terra, rodeado por grandes árvores que jogavam sombra no terreno, ao seu redor haviam algumas mesas de pedra com tabuleiros de xadrez ou dama em seu tampo, além de ocasionais quiosques vendendo sorvetes, picolés e bebidas.

Dominique e sua família se aproximaram de uma das mesas de pedra e, como não havia espaço vago nos bancos próximos a mesa, deixaram a cadeira de rodas na diagonal. Jogaram uma toalha sobre o tampo e puseram a sacola térmica com as bebidas e os sanduíches sobre ela.

O local já estava repleto de outras famílias, cada uma com seus filhos e animais de estimação. Se tivessem demorado mais alguns minutos, não haveria vagas.

— Mãe! Mãe! Podemos ir brincar lá? — perguntou Luiz, o neto mais novo, apontando para o parquinho contendo escorregadores, balanços, gangorras e outros brinquedos.

— Podem sim. — Isabela olhou para o Manuel. — Você vai lá com eles? Eu fico aqui com a vó.

— Podem ir os dois — disse Dominique. — Eu cuido das coisas.

Não que ela fosse um símbolo da proteção ou algo do tipo, mas esperava que, pelo menos no meio de um parque movimentado, ninguém fosse lá roubar os seus pertences. E caso existisse alguém tão ousado, esperava que outras pessoas no mínimo a ajudassem. Além do mais, os brinquedos estavam próximos, daria para observar os netos e o filho de onde estava.

Minutos se passaram e nenhum perpetrador apareceu para roubar os pertences da família. Dominique relaxou, e nem tinha notado que estava tensa antes. Por que ficar em alerta no parque? O que tinha demais ali? Prestou atenção aos seus arredores, tentando encontrar um motivo.

Alguns metros à sua esquerda, um homem e uma mulher jovens conversavam, na frente dos dois, uma criança de não mais que quatro anos brincava com bonecos. O olhar passou por diversos transeuntes e parou em duas mulheres sentadas à sua direita, as duas de mãos dadas, trocando sorrisos e palavras. Um pouco estranho, mas nada perigoso. Olhou para sua frente e viu, há poucos metros, um cachorro de médio porte caminhando, seus pelos curtos e amarronzados, orelhas altas e rabo longo a lembraram de Jen. Botou a mão no peito, sentindo uma estranha palpitação. Mais uma das perdas difíceis do acidente. Nunca nem pensou em ter outro cão depois da perda da companheira, ela própria imaginava que não duraria muito tempo. Mas viveu.

Viveu mesmo? Os últimos anos eram nebulosos, uma mistura indefinida de dias sem nada acontecer ou mudar. Desistiu de tomar decisões para deixar sua vida na mão dos outros. Na mão do filho, principalmente. Por muitos anos, desejara ter mais liberdade, mas, ao mesmo tempo, fugia disso. Por que? O que mais o acidente lhe tirou sem que percebesse?

Enquanto o cachorro passava, com sua dona alguns metros atrás, Dominique decidiu que, após uma década, precisava retomar o controle de sua vida. Se era autonomia que queria, primeiro precisava tomar as próprias decisões, escolher o próprio caminho. Caso contrário, sua liberdade seria apenas um tempo fora da cela, alguns minutos de intervalo em que podia ser ela mesma.

Passou o resto da manhã e um pouco da tarde no parque e, assim que chegou em casa, disse estar cansada. O filho a levou para o quarto e ajudou a colocá-la na cama. Quando ele saiu, fechando a porta e desejando um bom descanso, Dominique agiu.

Ligou a luminária na cabeceira da cama e pegou um livro que estava há anos juntando pó ali. Pensou em diversos recados e despedidas para dar, mas não sabia a melhor forma de colocá-los no papel. Optou por algo simples: “Preciso partir para ajudar o resto do mundo”. Era verdade, mas também mentira. Não era aquele o principal motivo. Arrancou a folha e deixou sob o livro.

Esticou-se para o lado esquerdo, onde ficava seu armário, e puxou mudas de roupa. Pegou a colcha que estava usando na cama e um travesseiro também. Ficou alguns segundos olhando para o quarto pouco iluminado. Respirou fundo, assentiu e foi ao farol.

Logo sentiu o vento forte da costa batendo em si e ameaçando levar as roupas para longe. Era revigorante! Não estava ali para ficar algumas horas, mas dias, meses, quanto tempo quisesse.

Por mais que desejasse sentir o vento e a maresia, seria estúpido largar suas coisas ali. Dominique subiu ao topo do farol e organizou seus poucos pertences. Apesar de não ser o lugar mais espaçoso do mundo, era o suficiente para que se sentisse confortável. Fez uma espécie de cama com a colcha, deixou o travesseiro por cima e olhou em volta. Ouvia o som do mar batendo no promontório, o vento passando pelos vidros, seus próprios pensamentos e seu corpo. Perfeito.

Ainda precisava pensar no que fazer em seguida, mas antes, um cochilo para organizar as ideias seria muito bem-vindo.

***

Estava no céu, bem acima das nuvens. Ao seu redor estendia-se uma casa sem paredes, cujo piso do chão espalhava-se por muitos quilômetros. A maioria dos cômodos ligavam-se uns aos outros por pontes de madeira que não tinham mais que um metro de extensão. Aqueles que não possuíam pontes estavam mais distantes, cerca de quinze metros, e era necessário pular para chegar até eles.

Dominique caminhava pela casa aérea com naturalidade. Nunca usava as pontes, preferindo sempre saltar a distância entre um espaço e outro. Era mais divertido, e conseguia sentir o ar resistindo contra seu impulso toda vez. Vagou sem destino, mas quando ouviu uma voz grave e melosa, seguiu até ela.

Encontrou um banheiro com um homem dentro. Ele estava apoiado na pia e se olhando no espelho. Não tinha mais que trinta anos, mas sofria de problemas na coluna e fazer qualquer tipo de exercício, até mesmo uma caminhada, o deixava com dores. Ele não queria mais aquelas dores.

Aproximou-se do sujeito e tocou em suas costas. Seu conhecimento de medicina era resumido a matérias de televisão, alguns documentários e uma ou outra coisa que leu em revistas. Sua benção, porém, era sua vontade e seu poder, com ela poderia modificá-lo assim como modificava a si mesma. Alterou a coluna do homem, deixando-a reta, reforçando-a, mexendo nos nervos para que sentisse menos dor. Ele se tornou capaz de caminhar de forma correta, sem passar por sofrimento algum.

Ao olhar o resultado de seu trabalho, notou que o homem parecia mais alto graças às alterações. As lâminas vertebrais se manifestavam como protuberâncias compridas que rasgavam a pele e se exibiam ao mundo com seu tom esbranquiçado. Infelizmente, o sujeito não conseguia mover a cabeça e nem dobrar o torso. Mais alterações se faziam necessárias.

Começou pela cabeça, trabalhando para aumentar seu campo de visão, assim não precisaria movê-la. Trocou a localização das órbitas para ficarem uma em cada lado da cabeça, precisou remover o cabelo para que não caísse no olho e atormentasse o pobre coitado. Depois aumentou o tamanho dos globos oculares, expandindo-os para ficarem tão grandes quanto a palma de sua mão. Satisfeita, passou aos braços. Estes eram mais simples, bastava aumentar o tamanho deles para que os dedos fossem capazes de tocar no chão, e então aumentar o número de articulações nos membros.

Deu um passo para trás e observou mais uma vez o resultado do trabalho. O homem não tinha mais defeitos graves, era capaz de usar os braços para alcançar qualquer objeto que estivesse ao seu redor, os olhos viam tudo, a coluna era praticamente inquebrável. As pernas só ficaram parecendo curtas se comparada aos membros superiores, mas era um problema estético, não funcional.

O olho direito do homem se moveu, fixando-se em Dominique. Lágrimas escorriam do enorme globo, estava tão feliz! Ele passou as mãos pelo seu corpo, caindo de joelhos em seguida e estendendo os braços compridos na direção de sua benfeitora, em um sinal de agradecimento.

— Por quê?

Uma cortina se abriu diante dos olhos de Dominique. O que fez? Por que fez? Fruto de seus poderes ou não, aquele homem estava longe do que poderia ser um humano e, mesmo que tivesse resolvido seu problema, que outros criou sem saber?

Notou algo movendo-se pela visão periférica e virou-se. Em um quarto de casal à sua direita, viu o que só conseguiu definir como um amontoado de carne arrastando-se pelo chão. No meio da vermelhidão, havia um coração batendo, os pulmões inspirando e expirando, o estômago trabalhando. Seus instintos lhe diziam se tratar de mais um de seus “pacientes”.

Segurou a respiração, pensou em fazer aquelas pessoas voltarem ao normal. O que era o normal delas? Dominique olhou para a aberração que criou há nem cinco minutos e não conseguiu lembrar como ele se parecia. Olhar para o amontoado de carne era pior ainda, não tinha uma referência sequer da pessoa que um dia fora. Era criança, adulto ou idoso? Homem ou mulher? Tinha alguma marca de nascença? Não sabia nada.

Correu para longe, mas desta vez, ao passar pelos cômodos, notava como a casa estava repleta de pessoas que ajudou. Algumas ainda lembravam um pouco a forma humana, mas o corpo estava tão distorcido que nada se encaixava direito. Outras se tornaram algo diferente demais, variando entre uma esfera de tecido nervoso, transmitindo e recebendo estímulos que deviam trabalhar em conjunto com o cérebro e outros órgãos que não mais existiam, até aqueles que nada tinham de carne, somente uma fumaça incapaz de tocar, sentir, ver ou emitir sons, apenas vagando pelos cômodos enquanto deixavam um rastro cinzento e gosmento atrás de si.

Tentar fugir só a fazia ver mais e mais daquele horror. A diferença entre eles era tão grande que acostumar-se era impossível. Não havia para onde fugir, a casa se estendia infinitamente para qualquer lado que corresse. Restava apenas uma saída.

Pulou no vão entre os cômodos, queria a segurança da terra, queria estar abaixo das nuvens mais uma vez. Caiu, atravessando a imensidão branca e aproximando-se do enorme azul abaixo de si. Era um lago, cristalino e calmo como em um dia sem brisa alguma. Conforme se aproximava, notou o seu reflexo na água. Das costas brotavam asas brancas enormes, como aquelas que se viam em pinturas de anjos. As mãos e braços estavam pálidos, mostrando as veias pulsando com intensidade e se remexendo como vermes dentro de um hospedeiro. Do tronco brotavam membros que deveriam ser outros braços, mas que acabavam em lâminas de metal afiado. As pernas eram um conjunto de músculos reforçados por um exoesqueleto vermelho, produzindo uma camada fina de um líquido pegajoso. A única parte humana era a face, com os olhos esbugalhados, as sobrancelhas erguidas e a boca levemente aberta enquanto encaravam o reflexo no lago.

Dominique não fez nada para impedir de cair na água e afundar.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 27

Desenho monocromático. O desenho mostra uma sala de estar com um sofá de três lugares, duas cadeiras de praia. À frente do sofá está uma estante com televisão e porta-retratos com múltiplas pessoas. Na parede ao lado do móvel há um porta medalhas cheio de medalhas.
No canto inferior direito há o número vinte e sete para indicar o capítulo.

Tuuut. Tuuut. Tuuut.

Estava chamando demais. Certo que Gilson não atenderia, afinal, Fernando ligou do nada. Quem é que faz isso com os outros? Talvez fosse uma ideia idiota mesmo. Capaz do irmão mandá-lo se foder assim que atendesse. Era melhor desligar logo.

Antes que afastasse o celular do rosto, Gilson atendeu a ligação.

— Oi… — disse Fernando.

— Oi. — A resposta foi seca, sem nenhum traço de emoção.

— Está tudo bem?

— Eu que te pergunto. — Era irritação? — Que bicho te mordeu para me ligar?

Talvez fosse melhor encerrar ali? Não, tinha ido longe, faltava pouco. Forçou as próximas palavras.

— Eu queria me encontrar contigo e o resto da família.

Silêncio. Fernando até checou para ver se a chamada caíra ou se Gilson desligara.

— Quer se encontrar para…?

— Queria pedir desculpas para todo mundo.

— Bom, é só ligar para cada um, não? — Parecia que estava perdendo o irmão aos poucos.

— É melhor falar com todos juntos, olhar olho no olho, sabe? Pelo celular é meio frio.

— Combinaria contigo. — Tudo bem, mereceu essa. — Seria mais fácil ligar para a mãe e pedir para ela organizar tudo, mas tu está com medo de falar com ela.

— Eu só não sei o que dizer ainda.

— Tu deveria saber isso faz tempo! — Gilson suspirou. — Olha, eu vou tentar, mas já adianto que o Henrique está puto contigo.

— E a mãe? — Se ela estivesse igual, uma reconciliação seria impossível.

— Tu conhece ela. Está mais triste que braba. — Antes que Fernando pudesse dizer mais algo, Gilson continuou. — Preciso desligar, vou dar uma saída agora.

— Na segunda? — perguntou, já sabendo muito bem o tipo de saída que o irmão festeiro dava.

— Fazer o quê? Me convidaram.

Após despedirem-se um do outro, Fernando sentou-se na cama e apoiou a testa nas mãos. Os dedos tremiam de leve, e ele pensava em diversos resultados negativos a partir dali. Se tudo desse errado, pelo menos seguiu em frente, fez algum progresso.

Para sua alegria e ansiedade, teve uma resposta de Gilson no dia seguinte. Por mensagem, o irmão disse que conseguiu reunir todos para o domingo. Não perguntou se Fernando conseguiria ir ou se tinha compromissos, mandou aparecer vivo ou morto.

Seguiu-se uma semana longa, muito mais do que tinha o direito de ser. E na noite de sábado foi impossível dormir, mesmo com o cansaço acumulado dos últimos dias. Não ajudou que seus sonhos eram pesadelos com o encontro, com resultados ridículos e impossivelmente péssimos, o pior sendo um em que Fernando tropeçava ao tentar cumprimentar Henrique, levando os dois ao chão e terminando com uma fratura nas costelas do irmão. Ele então era acusado de ter se reunido com a família apenas para destruí-los. Era um cenário sem noção, mas que o fez acordar no meio da madrugada.

Arrumou-se como um raio ao levantar-se no domingo, ficando pronto uma hora antes de terem que sair, antes mesmo até de Gabriel levantar-se da cama. Quando bateu o horário, os dois subiram na moto e foram até a casa de Gilson.

Fernando nunca tinha ido lá antes, não sabia se era comprada ou alugada, mas suspeitava da segunda opção, o irmão não gostava de ficar muito tempo no mesmo lugar. Havia um pequeno espaço com grama na frente da casa e na parte da esquerda uma garagem coberta sem carro, tudo protegido por uma grade de metal. Mandou uma mensagem assim que chegou e, alguns segundos depois, Gilson saiu da casa pela porta na frente, usando uma camiseta do Grêmio e uma cara de poucos amigos.

— Está tudo certo? — perguntou Fernando, assim o portão da garagem abriu.

— Sim, tudo, só ficou um climão quando falei para o Henrique da sua chegada. — Gilson estendeu a mão.

Fernando a apertou, sentindo a pele dura do irmão.

— Eu dei uma amaciada nele — continuou Gilson. — Então talvez te ouça.

— Sério? Obrigado.

— Não precisa agradecer. Eu acho que todo mundo passa por uma fase que tem merda na cabeça, a tua talvez tenha durado demais. — Ele semicerrou os olhos e franziu o cenho. — E pode não ter passado ainda, vou ficar de olho.

O cumprimento terminou de forma menos amigável do que começou. Gilson, porém, logo sorriu e estendeu a mão para Gabriel.

— Eu devia te dar um prêmio por aturar esse teimoso — disse o irmão.

Gabriel riu e o cumprimentou.

— Teimoso é pouco.

— Vamos entrando, senão daqui a pouco a mãe vai sair correndo pela porta.

Caminharam para o interior da casa e o medo de encontrar a família inteira veio à tona mais uma vez, cada passo era um esforço enorme, e apenas se manter no lugar exigia vencer a vontade de fugir. Não era um medo pela sobrevivência, igual sentia ao enfrentar os predadores, era um medo pelo futuro, pelo que poderia resultar de suas ações e palavras. Se a tentativa de reconciliação falhasse, viveria o resto da vida colhendo os frutos de péssimas decisões. Estava indo a um tribunal para ser julgado. Sua família atuaria como juiz e promotor, Fernando seria o réu e advogado.

Entrou na sala com o coração ora parando, ora acelerando tanto que quase explodia no peito. Ele divagava, imaginando diversos cenários para aquela entrada. Deveria acreditar nos piores cenários e não criar expectativas? Ou abraçar a esperança e olhar com confiança para o horizonte de sua vida? Antes que escolhesse, se deparou com uma nova tarefa monumental: dar oi para sua mãe.

Logo que o cumprimento estava saindo, Júlia o abraçou. Ela era da mesma altura que Fernando, o abraço foi apertado de um jeito familiar e carinhoso.

— Senti tanta saudade — disse ela.

Antes que pudesse raciocinar, retribuiu o abraço. Fernando também sentira, e sentia, muita saudade. Terminado o abraço, Júlia o olhou de cima a baixo, com a visão analítica que só os pais têm.

— Está mais magro, Fê.

— Não estou mais indo na academia — disse ele. — Mas tu está ótima.

— Quem me dera, ando com uma dor nas costas… Rique, não vai dar oi para seu irmão?

Olhou para o irmão mais velho, que estava alguns passos atrás da mãe. Henrique apenas acenou, e Fernando achou melhor fazer o mesmo. Não queria sair fingindo que estava tudo ótimo, ainda mais com a óbvia expressão de mal humor na cara do irmão.

Começou a absorver os arredores. A sala de estar tinha um sofá de três lugares, ao lado esquerdo do móvel haviam duas cadeiras de praia que Gilson ajeitara para ele e Gabriel. Na parede oposta ao sofá estava um rack com uma televisão em cima, o aparelho estava ligado e mostrava, no mudo, a programação de domingo. Fotos da família dividiam o espaço com o aparelho e, à esquerda do móvel, a parede era adornada por medalhas e troféus da época em que o irmão jogava pelo time da escola.

— Pode sentar nas cadeiras que elas não mordem — disse Gilson.

Obedeceu e pensou em como começar uma conversa. Nada do que planejara parecia ser o ideal. Alguém fez uma pergunta, e Fernando, absorto em pensamentos, não ouviu direito. Felizmente, Gabriel respondeu por ele:

— Estamos morando no Leopoldina agora.

Iniciou-se um vai e vêm de perguntas e respostas dos dois lados. Com Gabriel agindo quase como um porta-voz e lidando com as primeiras perguntas até Fernando se recompor e juntar-se oficialmente à conversa. Falaram sobre a mais nova ficante de Gilson, brincaram sobre o pintor com medo de altura que Júlia contratou para trabalhar na casa deles, e sobre as obras paradas da prefeitura. Estava gostoso, Fernando ficaria o dia inteiro nesse ritmo, sem tocar no assunto que precisava. O balde de água fria foi jogado por Henrique com uma pergunta que cortou a conversa de todos ao meio:

— Por que veio visitar?

Como se já estivesse esperando essa pergunta, Júlia rebateu:

— Fernando não precisa de motivos para vir visitar.

— Precisa, sim! — Henrique fitou a mãe e depois Fernando, os olhos dele dilaceravam a atmosfera agradável e penetravam fundo, escavando qualquer intenção que encontrassem. — Ninguém volta a falar com a família depois de três anos se escondendo.

— Eu andei sonhando com o pai — disse Fernando. Era uma mentira, mas muito mais crível que a realidade. — Achei melhor deixar algumas coisas de lado e ver vocês.

— Só isso? — Henrique ainda mantinha a cara fechada.

— Sim. — Não, não era só isso, mas o verdadeiro motivo não podia ser revelado. — Por isso… — Olhou para todos na sala — peço desculpas por tudo que fiz.

— Essas desculpas aí estão alguns anos atrasadas — disse Henrique, com indignação na voz.

— Para, Henrique! — interveio Gilson. — Depois que o Fê saiu de casa tu incomodava o pai todo dia para voltar a falar com o guri.

— Aquilo foi diferente — respondeu o mais velho.

— Como que foi diferente? O Fê queria ir para a faculdade, o pai queria que ele só herdasse a padaria e fez tanta birra com isso que praticamente mandou o filho embora da casa.

— Mas agora quem deveria ouvir essas desculpas é o pai! — disse Henrique, a voz não ficava mais alta, mas, de alguma maneira, tomava corpo e dominava a sala. Nesse sentido, era muito parecida com Cleber.

— Considerando que a morte dele é a causa de tudo, eu acho que não vai ter como ele ouvir desculpas.

— Chega! — Júlia se meteu na discussão. — Não importa quem começou ou quem tem que aceitar as desculpas. Fê veio até aqui e é errado enxotar ele. — A mãe olhou para o caçula. — Fico feliz que esteja aqui, para mim isso já basta.

A partir dali, o clima amenizou. Conversaram o resto da manhã, assistiram um pouco de televisão e depois comeram o suflê de chuchu que Júlia preparou. Tinha muito cara de velhos tempos, mas Cleber não estava lá para preencher o buraco na família.

Após o almoço e um rápido café para energizar, Fernando e Gabriel se despediram e voltaram para casa.

— Tu não falou da padaria — comentou Gabriel, logo que chegaram.

— Melhor não jogar essa bomba agora, ia só dificultar. — Fernando suspirou.

Gabriel sorriu e deu um tapinha amigável nas costas do namorado.

— Tudo bem, fico feliz de já termos feito algo diferente. E mais feliz ainda por tu ter feito isso.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 26

Desenho monocromático. O desenho mostra uma bancada de cozinha com uma térmica de água com um logo de um gaúcho montado em um cavalo, uma cuia com erva de chimarrão e uma bomba dentro e um cevador de chimarrão.
No canto superior esquerdo há o número vinte e seis para indicar o capítulo.

Voltar para casa foi difícil, por mais que tenha sido Dominique a consolar Bárbara, Fernando ainda estava preocupado. Apenas saiu do farol quando a motoqueira se despediu de ambos e desapareceu. Como seria arriscar sua vida para salvar alguém, acreditar que tinha conseguido e bem no final descobrir que falhou? O que faria na mesma situação? Não queria nem pensar nisso.

Em casa, na televisão, passava algum filme ou seriado enquanto Gabriel assistia deitado. Assim que Fernando ligou a luz da sala, o namorado desligou o aparelho e se levantou.

— Tu voltou! — Gabriel se aproximou e deu-lhe um abraço apertado.

Fernando nada disse, os últimos pensamentos vieram à tona. Podia ser Gabriel em vez de Igor, o que definia quem era pego ou não pelos predadores? Retribuiu o abraço do namorado com força. Ficaram um tempo assim, não queria soltá-lo, mas teve que fazer isso quando o outro quebrou o abraço e recuou um passo, observando-o de cima a baixo.

— Deu tudo certo? Conseguiram? — perguntou ele.

Fernando negou com a cabeça.

— Vencemos, mas não conseguimos salvar Igor. Chegamos tarde demais.

Gabriel baixou o olhar por um momento, o alívio deixando seu rosto e sendo substituído por tristeza.

— E Bárbara? Como ela…

— Ficou arrasada. Levamos um tempo acalmando a coitada.

De repente, os joelhos quase lhe falharam, os braços pareciam incapazes de se erguerem e até as pálpebras tornaram-se pesadas. O corpo terminou de entender tudo que viu e sentiu no território. Caminhou em direção ao sofá, porém, antes que pudesse desabar no móvel, Gabriel o interrompeu.

— Por que não toma um banho?

Sim, precisava de um. Rumou para o banheiro e fechou a porta. Deixou as roupas sujas em um canto em vez de largá-las no cesto junto as outras. Entrou no box e ligou o chuveiro em temperatura gelada.

Seu corpo entrou em estado de alerta. Não pôde evitar de retesar um pouco os músculos das costas, mas isso era bom, estava desperto. Levantou um pouco a cabeça, deixando a água percorrer seu rosto. O frio o incomodava, mas a frustração também. Arrependia-se de ter caído em um truque tão idiota e simples como o reaparecimento de seu pai. Pior ainda, temia cair de novo em ilusões desse tipo. Não podia evitar de querer alguém querido de volta na sua vida. Quem conseguiria? Alguém sem coração?

Seu transe foi cortado quando Gabriel abriu a porta. O namorado largou uma toalha e uma muda de roupas em cima do vaso, pegou as sujas do chão e saiu sem dizer nada. Não era somente Fernando quem sofria e se preocupava. Devia ser muito mais difícil para o namorado, incapaz de ir aos territórios para ajudar. Antes que se deixasse levar por mais pensamentos, decidiu encerrar o banho logo e evitar aumentos na conta de água.

Assim que saiu do box, notou que as roupas no vaso não eram pijamas, e sim suas vestes do dia a dia. Sorriu. O companheiro conhecia-o bem, sabia que, mesmo naquela exaustão, ainda precisava dar seguimento à sua rotina. Vestiu-se e saiu do banheiro, deparando-se com um Gabriel que também trocara de roupa.

— Ué, vai aonde? — perguntou Fernando.

— Vou contigo.

Preparou-se para discutir, mas recebeu em troca um olhar significativo, um olho mais aberto com a sobrancelha erguida. Reconhecia esse de discussões que tiveram cujo resultado era o namorado conseguindo o que queria, seja por estar certo, ou por insistir demais.

— Seu trabalho começa cedo, tem certeza?

— Um dia virado não vai me matar. — Deu de ombros. — Qualquer coisa meto café na veia e sobrevivo até chegar em casa.

Os dois foram até a garagem, subiram na moto e rumaram até a padaria. Chegando lá, foi imediatamente trabalhar nos pães enquanto o namorado lidava com a limpeza. Gabriel perguntou em detalhes o que aconteceu no território, e Fernando contou tudo, até mesmo de seu pai. Era estranho o fato de que apenas falar com alguém sobre os eventos ajudava a diminuir a tensão que carregava, como se manter a boca fechada fosse parte do fardo.

Fernando notou como foi certa a decisão de contar tudo ao namorado. De outra forma, estaria ali sozinho, nesse mesmo horário, inventando desculpas e ainda tendo que lidar com sua rotina.

Com a chegada da manhã, veio a despedida de Gabriel, que ainda nem começara seu expediente. O turno na padaria foi tranquilo, parado até. O ócio se tornou o pai de ideias, que por consequência impulsionaram ações. Quando deu por conta, estava observando as últimas mensagens que recebera de Gilson.

Há anos não se comunicava com o irmão, com a família como um todo na verdade. Não ajudava que na última conversa com Gilson, o irmão questionava a ausência de Fernando no enterro do pai. E, como não houve resposta, seguiram-se algumas mensagens contendo insultos e dizendo que Fernando estava abandonando a família quando mais precisavam dele.

Como se repara uma situação assim? Aliás, qual mensagem mandar primeiro? Poderia enviar apenas um “Oi”? Fingir que apagou o histórico e que não se lembrava daquela última conversa? Claro que não, eles não eram idiotas. Escreveu e apagou diversas variações da mensagem, nenhuma era ruim, mas também não eram boas. Decidiu não enviar nada, o irmão estava trabalhando, não queria incomodá-lo. Mandaria de noite, quando montasse uma abertura ideal e Gilson estivesse em casa.

Ao fim do expediente na padaria, voltou para a residência e se preparou para começar as entregas. Bastou olhar para a mochila que essa ideia foi descartada. Não conseguiria colocá-la no dia, não com tudo que aconteceu antes. Além do mais, estava exausto ao limite, era bem capaz que batesse e se arrebentasse, além dos prejuízos materiais que teria. Sem entregas, era melhor dormir. Encostou a cabeça no travesseiro e o corpo tomou as rédeas uma mente imbecil, mergulhando Fernando em um sono quase imediato.

Acordou com alguém se mexendo no quarto. Meio grogue, enxergou Gabriel pegando as roupas no armário. Sentou-se devagar e coçou os olhos.

— Tentei não te acordar, deve estar exausto — disse o companheiro.

— Até que não, acabei dormindo a tarde inteira.

Gabriel se virou para ele, ostentando o olhar de quem desejou ter dormido por esse tempo e muito mais.

— Como foi o trabalho? — perguntou Fernando.

— Ótimo, muito produtivo.

— Sério?

— Claro que não, né! Metade do tempo eu fiquei me imaginando tirando um cochilo delicioso no sofá, e a outra metade eu fiquei tentando lembrar o que eu estava fazendo antes. — Ele riu. — Me senti de volta aos tempos de faculdade.

— Imagino que vai só capotar então.

— Queria, mas… no que está pensando?

— Eu? Nada.

— Vou fingir que acredito, aí depois do banho tu me conta a verdade.

Enquanto Gabriel ia para o banheiro, Fernando levantou-se e se espreguiçou. Esperava que esse dia sem entregas não impactasse tanto nas finanças, mas era algo que lidaria depois. No momento, já que sua rotina tinha ido para o espaço, decidiu aproveitar ao menos o resto do dia.

Caminhou até a cozinha e fez algo que há muito tempo não fazia: preparou chimarrão. Nunca foi o mais empolgado com a bebida, mas gostava de tomar para lembrar do pai e dos tempos em que a família se reunia pela manhã para prosear. Enquanto esquentava a água na chaleira, esqueceu-se qual era o passo a passo correto. Se bem que, se perguntasse para três gaúchos diferentes, cada um diria um processo distinto, então seguiu sua memória o melhor que pôde e não se preocupou muito com exatidões.

Quando terminou o chimarrão, levou a térmica e a cuia para a sala, onde ligou a televisão e deixou passando o noticiário. Gabriel saiu do banho em seguida, parou na sala e observou Fernando por uns segundos, fez uma expressão de desconfiança e foi ao quarto. Voltou menos de cinco minutos depois com seu pijama e se sentou ao lado do namorado.

Tomaram o chimarrão ao longo de alguns minutos. Tudo isso enquanto a ideia de falar com Gilson abria espaço entre os lábios de Fernando e quase saía, apenas para ser levada de volta por um puxão de incerteza.

— O que tu tá remoendo? — perguntou Gabriel, de repente.

— É tão óbvio assim?

— Óbvio?! Tu não fez as entregas hoje, preparou chimarrão e está com uma cara de quem foi para o mato sem cachorro. Falta só uma placa na tua testa.

Fernando confessou:

— Estou pensando em falar com meu irmão.

— Não! — Gabriel arregalou os olhos. — Não acredito que depois de anos, finalmente tu aceitou minha ideia. — Ele ergueu as mãos para o alto enquanto segurava um riso. — Glória!

Apesar do constrangimento, Fernando não se conteve e acabou rindo.

— Depois vou ter que pagar umas promessas — disse Gabriel. — Continua, não vou mais te atrapalhar.

— Que promessas?

— Melhor não saber.

Fernando semicerrou os olhos, mas o namorado continuou impassivo diante do questionamento. Suspirou, abriu o Whatsapp na conversa com Gilson e disse:

— Eu não sei direito como começar. Que mensagem mandar? Eu envio só “Oi”?

— Eu acho melhor não mandar mensagem. Se eu fosse tu, ligaria.

Fernando não disse nada, nem tinha pensado nessa possibilidade. Era meio assustadora, bem horripilante na verdade.

— Estão há anos sem falar nada, capaz de ele ignorar se mandar algo no Whats, igual tu fez com ele tempos atrás — continuou Gabriel. — Se ligar, ele vai achar que é uma emergência e atender na hora.

— Mas e o que eu digo?

— Tu é o vendedor aqui, isso deveria ser fácil para ti.

Fernando balançou o dedo indicador em negação.

— São situações diferentes!

— Só pensar que está tentando vender um relacionamento novo.

— Isso é idiota.

— Se funcionar não é idiota.

Alguns segundos de silêncio se passaram. Fernando olhava de Gabriel para o celular.

— Pode funcionar, mas me assusta o quão manipulativa é essa tua ideia.

— Enquanto tu estava ocupado fazendo pães, eu estudei profundamente as relações familiares Fernandísticas. Sou o único especialista disso no mundo.

— Deu para ver. — Fernando riu, mas a seriedade logo voltou ao seu rosto. — Estava pensando em perguntar como ele está. Talvez pedir para visitar a família… Não, esquece, é muito cedo para isso.

— Muito tarde, isso sim — rebateu o companheiro.

— Está bem. Vou ligar.

Fernando se levantou, foi até o quarto e fechou a porta. Abriu o contato de Gilson e ficou alguns segundos encarando o número. Fez a ligação.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 25

Desenho monocromático. O desenho mostra um conjunto de pessoas com proporções infantis atrás de uma grade. Elas encaram o espectador com expressões de medo, dor e raiva. O rosto de cada uma delas possui costuras, e as feições costuradas são adultas.
No topo há o número vinte e cinco para indicar o capítulo.

Alguns meses antes…

Antes mesmo de abrir os olhos, escancarou a boca e puxou para seus pulmões todo o ar que lhe faltava. Enxergou o céu noturno e virou a cabeça para o lado. Estava na rua. Alguém o carregara? Por quê?

Sentou-se, notando um peso extra em seu pescoço. Levou a mão até ele e encontrou lá a corda que usara. Os dedos tatearam os sulcos na pele e carne, lançando uma fisgada de dor. Seguiu com eles pela corda, passando pelo nó e chegando a um fim abrupto. Alguém a cortara, alguém o salvara momentos antes de morrer. Se levantou trôpego e olhou os arredores. Estava no meio do asfalto, em uma rua que não era a sua, tampouco um lugar que conhecia.

Os postes de luz eram diferentes entre si. Alguns elevavam-se muitos metros e suas luzes quase não iluminavam o chão. Outros estavam com a lâmpada e seu suporte virados para cima, em uma tentativa inútil de clarear o céu noturno. E uma pequena quantidade estava torcida como massinhas de modelar, dando voltas e mais voltas, assemelhando-se a molas, mas no fim iluminavam o caminho melhor que os demais.

Caminhou até a calçada, feita de pedra e cheia de limo. Olhou adiante, mas não viu o fim da rua, nem ao menos uma interseção com outra. Enxergou apenas uma fileira de casas dispostas em cada lado. O mesmo telhado de brasilit, a mesma fachada branca, a mesma grade de metal preta em volta da casa. Também possuíam o mesmo número: 1147. Atrás de si o cenário era igual.

Nicolas esfregou os olhos com os indicadores. Tentou desesperadamente lembrar de alguma rua ou lugar que tivesse casas tão parecidas. No Brasil, para serem todas tão iguais, era em condomínios, mas então não teriam grades e nem o mesmo número. O que mais poderia ser? Um set de filmagem, talvez? Não, estava complexo demais para ser isso. Um sonho? Apenas a realidade? Já não mais sabia o que responder. Os punhos abriam e fechavam com as perguntas ressoando na cabeça.

Aproximou-se de uma casa. Queria evitar interações, mas sua única escolha era perguntar a um morador dali. Deteve-se ao ter uma visão melhor da grade, sentindo o coração palpitar mais forte e suor tomando suas mãos. Onde estava a entrada? Foi para a parte de trás da residência, apenas para notar que estava fechada também.

Além das moradias havia apenas um horizonte escuro, com pontos luminosos distantes. Uma cidade? Arriscou passos naquela direção, porém chocou-se com algo e recuou, massageando o nariz dolorido. Estendeu as mãos à frente e sentiu a textura familiar de pedra fria e porosa. O cenário desapareceu e Nicolas se deparou com um muro cinza de mais de dez metros, se estendendo para a esquerda e direita sem um final visível. Voltou dois passos.

O horizonte reapareceu e ocultou o muro. Não era possível, não havia nem razão para existir algo assim. Nicolas levou as mãos ao rosto, sendo tomado por uma súbita dor de cabeça. Desviou o olhar para o chão, não queria mais ver seja lá o que fosse aquilo. Olhou o volume na lateral da calça e lembrou de seu próprio celular. Pegou o aparelho com dedos trêmulos e ligou a tela. Estava funcional. O relógio mostrava 03h47 e a bateria estava quase cheia. O único problema era o sinal inexistente. Ligou uma vez para um ex-colega de trabalho e nem chegou a discar. Tentou outros contatos, arriscou o 190, todos com o mesmo resultado. Fechou as duas mãos sobre o celular e baixou a cabeça, encostando a testa no aparelho. O que fazer? Aonde ir?

Após algum tempo parado, começou a caminhar. Passou de casa em casa pedindo por ajuda, mas as luzes internas nunca se acendiam e ninguém lhe respondia. Acelerou o passo, começou a berrar. Quando a garganta secou, procurou por pedras para jogar nas janelas e não encontrou nenhuma. O gramado ao redor era parelho e limpo, sem uma brita sequer.

Se aproximou da grade de uma casa e colocou as mãos nas barras. Eram lisas e sem nenhum apoio para os pés. No alto, arames cortantes serviam para desencorajar invasões. Funcionou nele.

Ouviu um estampido, e depois outro, então mais outro. Tiros. Não enxergou nada na direção dos sons e deu alguns passos, talvez fosse capaz de encontrar ajuda. Parou. Desde quando ia na direção do perigo? Ninguém decente andava armado por aí! Enquanto decidia o que fazer, mais disparos soaram e Nicolas tremeu, optando por se esconder atrás de uma casa e aguardar. Nenhum som cruzou a noite e não sabia dizer se preferia os tiros ao silêncio total.

Passaram-se vários minutos até que viu uma figura caminhando pela calçada. Era um homem. Possuía cabelos loiros compridos amarrados em um rabo de cavalo, usava uma camisa polo e calças jeans pretas. No lado esquerdo da cintura havia um coldre de arma, mas Nicolas não conseguiu descobrir qual era de tão longe. O homem possuía uma expressão séria, porém seus passos eram relaxados, como alguém caminhando pela praça no sábado à tarde. Já tinha visto aquele rosto em algum lugar.

O desespero venceu o bom senso e logo decidiu pedir ajuda. Saiu de trás da casa levantando as duas mãos. O loiro foi rápido para sacar a arma e apontá-la na direção de Nicolas, que se forçou a falar algo, mas produziu apenas sons sem nexo. A expressão do atirador suavizou-se em um sorriso enquanto ele devolvia o revólver ao coldre.

— Cara! Você quase me matou de susto — disse o homem.

Não foi o contrário? Nicolas só sentia agora o quanto o coração pulsava, reverberando por seu corpo todo.

O sujeito avizinhou-se. Era um pouco mais baixo e devia ostentar vinte e poucos anos. Possuía, acima da orelha, uma pequena flor branca que em nada combinava com ele.

— Pode baixar os braços agora.

Acatou a sugestão.

— Onde estamos? — A voz saiu pouco mais alta que um sussurro.

— Em território de caça.

Ele voltou a caminhar para a mesma direção de antes. Nicolas o seguiu, cuidando para ficar uns metros atrás.

— O que é um território de caça? Caça de animais? — Dessa vez conseguiu elevar a voz até o tom normal. — E como saímos daqui? Aliás, como eu vim parar aqui? Onde é aqui?

O loiro passou a caminhar de costas enquanto encarava Nicolas. O sorriso não deixava seu rosto.

— Vamos com calma. Não precisa me metralhar de perguntas.

Olhou para baixo, repentinamente envergonhado. Em outros tempos, tentaria descobrir tudo sozinho, mas não tinha mais vontade para isso.

— Todo mundo fica confuso na primeira vez — continuou. — Vamos começar do básico. Sou Rafael, e você?

— Nicolas.

— Fácil, né? Agora para as perguntas! É um território de caça de predadores, do tipo que te estraçalha como se fosse aqueles brinquedos baratos de um e noventa e nove. É complicado achar a saída, estou procurando-a nesse exato momento. Não sei como você veio parar aqui e eu seria um oráculo se soubesse.

— Faltou a última…

— Onde você acha que é aqui?

Pensou em tudo o que viu. As casas e rua seguiam uma estrutura familiar, do tipo que poderia ser visto em qualquer lugar, mas ao examinar o todo, nada se encaixava. Ruminou sobre a pergunta mais um momento, até que balançou negativamente a cabeça.

— Difícil, né? Eu tenho pelo menos alguns meses a mais de experiência que você e o que eu sei… — Seu semblante se fechou, o sorriso sumiu do rosto e suas sobrancelhas se arquearam — é que nada sei. — Ele riu e se virou para a frente, deixando Nicolas com a boca meio aberta.

— Você não respondeu nada direito.

— Eu respondi da melhor forma que consigo. — Rafael parou de caminhar e estendeu a mão direita na direção de Nicolas em um claro sinal de “pare”. — Você vai ver por si mesmo agora.

O sujeito tirou o revólver do coldre e olhou em volta. Nicolas estava prestes a perguntar o que estava errado quando sentiu uma comichão no pescoço, a corda o incomodava pela primeira vez. Observou os arredores e viu o primeiro sinal de vida nas casas. Luzes começaram a acender, as portas abriram e pessoas saíram delas. Todas eram pequenas e não demorou a notar que eram crianças. O coração acelerou ao perceber que todas deixavam as casas ao mesmo tempo e, por algum motivo, sentiu uma queimação na garganta como se recém tivesse vomitado. Rafael correu sem dar explicações e, seguindo seus instintos, Nicolas foi em seu encalço enquanto tentava controlar o nojo de ver aquelas crianças.

Os infantes saíam aos montes das construções, indo até a grade, botando os bracinhos para fora e balançando-os. Alguns agarravam as barras e tentavam torcê-las ou pulá-las.

— O que são essas crianças? — perguntou Nicolas, quase sem ar. Nem tinham passado por cinco casas, mas o tempo de sedentarismo pesava no corpo.

— Se acha que são crianças, vai lá dar um abraço nelas. — Rafael balançou a cabeça na direção de uma residência próxima. — Só tenha certeza de verificar o que está fazendo.

Nicolas olhou pela primeira vez para elas, não para a silhueta, mas para o corpo todo, a começar pela cabeça. Ao redor do rosto havia finas linhas vermelhas, entrando e saindo da pele. Parecia apenas crueldade até ver que algumas tinham as costuras mal feitas, deixando a face meio solta como se fossem máscaras de couro. As feições não combinavam com o corpo, tinham traços mais adultos e, apesar de tudo, as expressões eram tão mutáveis e vivas quanto poderiam ser. Mesmo no silêncio em que estavam, era possível entender o que sentiam: medo, dor, raiva.

Nicolas parou de correr.

— O que é isso? São… são pessoas?

Rafael parou e se virou para ele. Não sorria mais.

— Eu já te disse, são predadores.

— Não fale merda, elas estão… O que fizeram com elas?

Emitiram o primeiro som: um grito inumano, estridente e alto, mais parecendo um animal selvagem. Espremeram-se entre as grades, quebrando os ossos do corpo, deformando a si mesmas. A primeira a atravessar a barreira amassou uma parte do crânio e parecia ter deslocado um braço, caindo no chão em seguida. Não demorou a se levantar, a cabeça lentamente voltando ao normal e seu braço tremelicando ao retomar sua posição. Sem aviso, correu na direção dos dois.

Rafael mirou o revólver e atirou. A criança caiu no chão com um buraco na testa, nenhum sangue saía. Os dedos escureceram e a cor espalhou-se pelo restante do corpo. Rachaduras formaram-se na pele, a carne vazou como uma lama roxa e fedida. Os ossos ficaram à mostra e então tudo começou a virar pó.

— Ainda acha que são humanos? Pode ficar aqui e morrer ou pode vir comigo e viver. O que quer?

Mais daquelas coisas saíram, recolocando os ossos no lugar e correndo na direção deles. Nicolas não teve dúvidas.

— Viver.

— Então vai na frente, com essa barriguinha, vai precisar de vantagem.

Rafael riu e tirou do bolso um espelho com bordas metálicas. No que aquilo ajudaria? Não ousou perguntar, optando por tomar o máximo de distância possível daquelas coisas. A curiosidade, no entanto, venceu-o depois de alguns segundos. Virou e notou Rafael já alcançando-o, e logo atrás duas crianças socavam, chutavam e agarravam em um esforço de impedir que as outras passassem.

— O que você fez? — perguntou ao loiro, entre um arquejo e outro.

— Confundi eles um pouco.

Correram por mais um minuto, Nicolas achava que seu peito explodiria em breve. Juntar ar estava cada vez mais difícil e a náusea crescente não ajudava. A rua não parecia ter fim e, para piorar, luzes se acendiam à frente deles. Mais monstruosidades surgiriam em breve.

— Onde… estamos indo?

— Temos que procurar uma inconsistência, algo nesse lugar que não pertença ao território.

Nicolas parou de correr e se apoiou nos joelhos. Mesmo com o coração pulsando cada vez mais forte e um latejar na cabeça, lembrou de algo que parecia se encaixar.

— O muro.

Rafael estacou.

— Que muro?

— Atrás das casas não tem horizonte, é um muro pintado.

— Vamos tentar lá.

Os dois tomaram uma rota para o paredão. Algumas crianças se aproximaram pela lateral e Rafael abateu-as com precisão e sem hesitar, mas não foi o suficiente, para cada uma derrubada, duas se aproximavam em seguida. O revólver logo ficou sem munição e uma criança se lançou nas pernas do atirador. Os dois foram ao chão e o homem deu coronhadas na cabeça da coisa até ela lhe soltar. Quando Nicolas o alcançou, já estava de pé e correndo. Chegaram e o loiro por pouco não repetiu o mesmo erro de Nicolas, parando antes graças a um aviso deste. Tocaram a estrutura fria e a pintura do horizonte desapareceu.

— É, deve ser aqui — disse Rafael.

— Deve?

— Não incomoda, temos que ser rápidos. Coloca as duas mãos e empurra com toda a força.

Mais esforço físico. Se fossem condições normais, seu corpo teria se rendido. Obedeceu às instruções, mas nada aconteceu. Rafael fez o mesmo.

— Não está funcionando! Não tá! — grunhiu Nicolas.

— Para onde quer ir?

— Para fora daqui, para casa!

— Então empurra essa merda!

Nicolas usou toda a força que tinha, mas nada aconteceu. Quando olhou para o lado, seu guia tinha desaparecido. Olhou para trás, a legião de crianças estava prestes a alcançá-lo. Gritou e empurrou, e mesmo com nenhuma memória querida ou agradável do seu passado, queria voltar logo para casa. Então suas mãos afundaram na pedra e ele atravessou o muro.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 24

Desenho monocromático. O desenho mostra Bárbara, uma mulher de cabelos longos e cacheados. Ela está vestindo uma jaqueta de couro com asas nas costas e calças. Está com a cabeça abaixada, os cabelos pendendo aos lados e à frente da face. Seu braço está levantado acima da cabeça e ela usa o antebraço para se apoiar em uma porta.
No canto superior esquerdo há o número vinte e quatro para indicar o capítulo.

Dominique, Fernando e Bárbara saíram do território com milésimos de segundo de diferença entre cada um. Apesar de ter dado a ordem, foi Nicolas quem ficou para trás. Fixou seus olhos no predador, ignorando o território que desabava à sua volta. Demorou quase um minuto para que o originador começasse a se desfazer naquela gosma roxa. Derrotaram-no sem matá-lo. Curioso. Intrigante.

O chão próximo aos pés desabou para o imenso nada que havia fora dos territórios e desconcentrou Nicolas. Seja lá o que fosse essa nova forma de vencer seus inimigos, pensaria melhor nela depois. Voltou ao farol.

Encontrou Dominique e Bárbara ao redor de Fernando, que respirava fundo por ter curado as rachaduras da motoqueira. De todos eles, Fernando tinha as habilidades menos tentadoras. Dava sim uma vantagem enorme ao grupo, mas aguentar a dor cada vez que a usavam era um problema. Poucos dariam sua carne a uma pessoa, ainda mais quando eram nada além de conhecidos.

Após minutos de silêncio, as feridas de Fernando estavam curadas e ele ergueu-se. Mirou Nicolas com olhos cansados.

— Demorou para voltar, achei que tu ia ficar por lá — disse o padeiro.

— Queria garantir que ele estava mesmo derrotado — respondeu Nicolas. — Foi uma resolução incomum.

— Foi?

— Que importa se foi incomum ou não? Não vimos Igor em lugar algum naquele maldito território! — interrompeu Bárbara. Ela se aproximou de Nicolas com a cara fechada. — Tu disse que ele estaria por lá!

— Disse que ele foi levado para lá — respondeu Nicolas, sustentando o olhar da outra.

— Que seja! Não achamos ele no andar de recuperação, nem na maldita lista dos mortos. — Ela cruzou os braços. — Onde caralhos ele tá?

— Calma. — Fernando colocou a mão no ombro de Bárbara e olhou para Nicolas. — As pessoas voltam para o local onde foram raptadas, certo?

— Sim.

— Se voltarmos agora, vou achar ele no apartamento? — perguntou Bárbara. — É isso?

Nicolas assentiu, e Dominique de repente arregalou os olhos. Ela deu um passo na direção de Bárbara, mas manteve-se quieta. Foi o melhor curso de ação, caso contrário passariam mais alguns momentos desnecessários ali.

— Ótimo, eu vou voltar — disse Bárbara.

— Vou junto, talvez precisemos carregar ele — falou Fernando.

A mulher assentiu em concordância e segurou no antebraço do padeiro. Antes que o homem pudesse se despedir, os dois já tinham desaparecido. Deixando apenas Nicolas e Dominique.

— O que acontece se a pessoa morrer no território? — perguntou a idosa.

— Não vai ter corpo nenhum.

— Então… tem a chance de ele não estar lá?

— Sim.

— Não era melhor ter dito algo?

— Talvez. Por que você não disse?

Ela olhou para baixo.

— Porque… eu não sei.

— Se não encontrarem Igor, certamente voltarão até aqui. Fique para ajudá-los, vão precisar.

— Você não vai ficar? — Dominique levantou o rosto.

— Não posso, há outras coisas que preciso fazer.

Ela não disse mais nada, apenas se despediram com um simples aceno de mãos. Nicolas voltou ao seu escritório. Ainda bem que deixou a tarefa de consolar Bárbara nas mãos de Dominique, ela lidaria melhor com a situação. Além do mais, cedo ou tarde teriam que se acostumar com a morte de pessoas próximas. Talvez o falecimento de Igor até servisse como um agradável combustível, catalisando em Bárbara uma determinação e obsessão que ele próprio não era capaz de forçar na mulher.

Foi para o escritório, sentou-se na cadeira e fechou os olhos. Aquele foi um território diferente, destruíram o local sem matar o originador. O que aprendeu sobre os predadores? Eram capazes de sentir raiva, de mudar seu comportamento conforme a situação, de desistirem de caçar. Não tinha visto nada disso nos territórios anteriores.

A charada tinha uma solução simples: estavam evoluindo rápido. Conseguiram lidar com esse novo, mas e os próximos? O quanto sua complexidade aumentaria? Que comportamento esperar?

Aumentar o tamanho da equipe poderia melhorar as chances de sobrevivência, mas precisaria achar pessoas capazes. Sabia bem qual era o resultado caso recrutasse qualquer um. Pensaria mais nisso depois, primeiro precisava escrever o relatório antes que os detalhes se perdessem. Abriu os olhos, ligou o notebook e começou a tarefa de relatar tudo nos mínimos detalhes.

Enquanto digitava os acontecimentos, sorriu ao lembrar de Bárbara e Dominique, as duas estavam avançando em um ritmo rápido, dominando suas habilidades e refinando-as. Fizera bem em escolhê-las. Fernando ainda não fora capaz de melhorar, mas isso não importava, cumpria com excelência seu papel na equipe.

Terminada a escrita, revisou seu registro e pensou nos próximos passos. Uma evolução rápida o afastava de seu objetivo, então talvez recorresse ao plano B? Arriscado, ainda mais que havia detalhes desconhecidos. Seria capaz de descobrir essas informações investigando aquele culto? Afinal, havia membros dele em um território. Seria simples coincidência?

E claro, havia também um outro assunto. Um problema antigo que teimava em ressurgir, precisaria tratá-lo em breve, mas não sozinho. E duvidava que conseguisse ajuda no dia seguinte, pois estariam todos cansados e dando seguimento em suas vidas. Seria tão mais fácil se simplesmente focassem nos predadores 24 horas por dia, mas cá estava, preso a uma agenda cujo foco era a vida mundana dos integrantes do grupo.

Levantou-se da cadeira e notou o celular piscar com notificações. Desbloqueou-o e notou que eram todas do grupo. Sabia muito bem do que se tratavam as mensagens, e por isso mesmo as ignorou.

***

As luzes estavam acesas no apartamento de Igor, exatamente como deixaram antes de caçar o predador. Bárbara correu até o quarto. Entrou no banheiro, na cozinha, espiou a área de serviço. Nada. Não havia ninguém lá. O fogo que alimentava seu corpo desvaneceu e ela voltou a passos pesados para a sala. Fernando aguardara enquanto ela vasculhava o apartamento.

— Nada. — Bárbara largou o corpo no sofá. — Será que ele foi parar em outro lugar?

Fernando sentou-se do lado dela.

— Ele foi raptado aqui.

— Nicolas pode ter errado, ele não sabe tudo — disse ela, levantando a cabeça de repente. — E se ele ficou no território? Temos que voltar e investigar!

— O lugar foi destruído, não deve ter mais nada lá. — Fernando respirou fundo e baixou o tom de voz. — Se não apareceu aqui e o território se foi, só resta uma possibilidade.

— Não! Não resta! — Bárbara se ergueu de súbito. — Fiz isso para nada, então?

— Não foi para nada, ajudamos outras pessoas.

— Fodam-se as outras pessoas. — Começou a caminhar de um lado a outro. — Eu queria salvar Igor!

Fernando ficou em silêncio. Na cabeça de Bárbara, os pensamentos circulavam em torno da possível morte do amigo. De uma hora para outra, o mundo se tornou injusto, cruel e sádico. Aliás, sempre fora, ela apenas esquecia isso às vezes. Ganhara poderes, derrotara monstruosidades, mas a única coisa que queria fazer mais do que tudo estava fora de seu alcance.

Sentiu o coração apertar no peito, suas entranhas se comprimiram com a possibilidade que se tornava um fato. As pernas endureceram ao mesmo tempo em que o joelho ameaçava falhar, cada inspiração arranhava sua garganta e cada expiração enrijecia seus dedos em um punho.

Quando notou, estava de frente para a porta de entrada do apartamento. Chutou a madeira com força, esperando que a dor física eliminasse as demais, mas tudo que sentiu foi uma dormência na perna. Chutou de novo e amaldiçoou sua demora em agir. Chutou de novo e amaldiçoou os predadores. Chutou de novo e odiou tudo. Chutou de novo e odiou principalmente a si mesma. Chutou mais e mais, entre berros e gritos. A madeira era grossa e forte, tremia, reverberando a cada pancada, mas não cedia. Como queria que tudo que sentia vazasse através da violência e destruísse os arredores, porém quanto mais batia, mais doía. Era uma dor inacabável, ameaçando assombrá-la em cada momento de sua vida.

Só parou quando Fernando a puxou por trás para longe da porta.

— Tem gente do outro lado! Já deu!

Ela piscou e se viu de volta no farol. Dominique parecia aguardá-la, como se já soubesse de tudo que encontrara no apartamento. Sem dizer uma palavra, a idosa abraçou-a. Sua visão se borrou com as lágrimas, a tensão nos ombros cedeu e Bárbara não quis chutar mais nada, queria apenas chorar.

E foi isso que fez enquanto estava agarrada a Dominique. Seu mundo inteiro se desfazendo em lágrimas e lamentos.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 23

Desenho monocromático. O desenho mostra um corredor hospitalar e, no meio dele, um enorme monstro peludo com braços de duas juntas, rosto humanóide com tentáculos saindo de onde seria o nariz e, logo abaixo do rosto, um segundo par de braços pálidos e menores, com apenas uma junta. Ele anda de forma curvada e o suas costas raspam no teto, criando um rastro de sangue.
No canto superior esquerdo há o número vinte e três para indicar o capítulo.

O olhar de todos caiu sobre ela. Nicolas mantinha sua expressão neutra, mas com um leve ar de curiosidade, Bárbara parecia considerar, já Fernando pressionava os lábios em uma fina linha, e por um momento os olhos dele foram mais para baixo.

— Eu não acho que deva ir, não sozinha — disse ele. — É muito…

— Perigoso! Eu sei — interrompeu Dominique, sua voz um tom mais alta que o normal. — Mas quem vai então?

— Deveríamos ir todos juntos — respondeu ele, gesticulando para o restante do grupo. — Precisou de todos para escaparmos da última vez!

— Dominique é capaz de escapar sozinha se não enfrentar o originador. — O olhar de Nicolas pairou na idosa. — Ela é nosso melhor recurso para isso.

Não conseguiu evitar que um sorriso preenchesse seu rosto. Era inegável o quanto Nicolas considerava toda a situação.

— Eu ainda acho…

— Dá um tempo, preocupadinho! — Bárbara deu um tapa nas costas de Fernando. — Confia na véia.

Fernando passou a mão pelo rosto e respirou fundo.

— Só não inventa de atacar aquele bicho, pode ser pior dessa vez.

— Sim, o objetivo é descobrir alguma pista da identidade do cadáver que precisamos encontrar — reforçou Nicolas. — Se não conseguir, apenas fuja.

— Sem problema! — Dominique levou a mão a testa, batendo continência. — Não vão se decepcionar.

***

Os primeiros passos no andar da Perdição foram dados cautelosamente. Não havia mais som no andar, as botas de Bárbara ficaram para trás e tudo que Dominique ouvia era a própria respiração.

Logo encontrou a entrada ao quarto. Por mais que Fernando dissesse ser apenas uma pista de um predador duplo, havia algo a mais. Era um lugar mantido limpo e intacto, sobrevivendo aos efeitos do tempo graças a cuidados frequentes de alguém que espera um dia reencontrar o hóspede do cômodo. Um santuário, uma forma de lembrança, uma forma de sentir dor e de evitá-la.

— Desculpe — sussurrou Dominique.

Entrou no quarto e o grito estridente soou pelos corredores escuros. Estava lutando contra o tempo, não havia como manter a delicadeza. Apressou-se até os cadernos e folhou-os o mais rápido que pôde, buscando por algum nome. Nada. Procurou no violão, algo escrito com caneta permanente para marcar seu dono. Nada. Procurou na mochila que havia ao lado da mesa e, apesar de encontrar mais alguns cadernos, todos estavam sem nome, vazios. Havia também um estojo com lápis, borracha, caneta e marcador. Mais uma vez, nada de nome. Olhou para o porta-retratos, arrancou-o da parede, quebrou o vidro com um soco e puxou a foto, rasgando a imagem no processo. Escrito na parte de trás, com letras delicadas e perfeitas, estava o nome: Alice da Silva Dutra.

Saiu do quarto e viu o originador chegando perto. Se afastou sem olhar para trás, mas quando os passos do predador cessaram, arriscou uma espiada. Os tentáculos estavam esticados cômodo adentro, Dominique não conseguia ver o que estavam fazendo. Pensou em correr e ganhar uma vantagem antes que a perseguição começasse, mas algo no gesto chamava sua atenção. Talvez fosse o cuidado e a calma com que o monstro agia, a ternura no movimento dos tentáculos.

Mas então ele gritou. Não foi o som estridente de antes, mas um forte e rouco, lembrando um berrante. Virou na direção da idosa e a perseguição teve início. No entanto, o monstro deixou de ser sua única preocupação. O chamado para a guerra trouxe ao andar os diversos predadores que ocupavam o território. Do teto, chão e paredes, as bestas humanoides emergiram, lançando-se na direção de Dominique. Em meio a pulos e esquivas, ela foi perdendo velocidade.

Não ousava olhar para trás, serviria apenas para atrasá-la. Além do mais, não queria ver o originador se aproximando. Faltava quanto? Alguns metros, ou seria uma questão centímetros? Não sairia com vida se fosse pega.

Teve a cara de pau de ficar toda confiante na frente do grupo, tudo para correr por sua vida no fim. Lembrou-se dos olhos de Fernando, os mesmos que muitos direcionavam para ela, exalando a certeza de que, por conta de uma característica que nem a afetava ali, ela fracassaria. Mostraria que estavam errados!

Precisava ser mais veloz! Mas, por Deus, como faria isso? Estava mais rápida que o Usain Bolt, isso não era o suficiente? Sentiu-se, mais uma vez, presa em um corpo incapaz de atender todos os seus pedidos. Então, de repente, as veias saltaram na perna, os músculos incharam, rasgando a pele e expondo a carne. Não sentiu dor, apenas um êxtase que lhe subia pela cintura e infectava todo o corpo. Finalmente entendeu o significado de seu presente, de sua benção. Não era um corpo forte e veloz. Era mais. Um corpo livre da prisão lógica, das amarras colocadas. Se ela precisava ser mais rápida, bastava ser. Um sorriso emoldurou o rosto enquanto sua velocidade dobrava.

A primeira curva expôs suas limitações. Não conseguiu diminuir a velocidade, o medo das monstruosidades atrás de si a impulsionava e, antes que pensasse em uma forma de dobrar, acabou batendo. Moveu o ombro esquerdo para a frente no último segundo, deixando-o absorver todo o impacto. Ouviu um estalo e um choque de dor percorreu o braço. Não, sem dor, sem parar, sem hesitar. Com o seu desejo, a dor sumiu, deixando o corpo com uma sensação vazia.

Virou-se, enxergando de soslaio seus perseguidores se aproximando, e voltou a correr. Não sentia mais o ar contra o rosto, era como se o corpo inteiro estivesse dormente, uma marionete cujos movimentos eram decididos pelo titereiro.

Quando uma segunda curva surgiu, suas pernas a levaram para perto da parede e os dedos da mão esquerda penetraram o reboco da estrutura. Por um momento perdeu velocidade, mas seu braço fez força para mudar a direção, e logo em seguida já tinha feito a curva sem maiores complicações. Usando essa estratégia, conseguiu dobrar mais vezes sem perder tempo e sem chocar-se contra as paredes. Chegou ao elevador, esperando-a de portas abertas. Pela primeira vez no que pareciam ser horas, reduziu o ritmo. Foi como se todos os seus músculos tivessem a chance de relaxar e Dominique sentiu-se mole ao adentrar a cabine e direcioná-la para o necrotério. Os pés da idosa deslizaram pelo chão enquanto as portas fechavam, sentiu a pontada de dor no ombro, os ferimentos nos dedos e mãos causados pelas curvas, a ardência nas pernas, que voltaram ao normal e estavam mais do que sobrecarregadas. Mesmo com as dores distribuídas pelo corpo, não deixou de sorrir. Foi um belo exercício para descobrir do que era capaz, e sentia que faltava muito ainda para explorar.

Sua euforia pós-fuga desvaneceu assim que o elevador tremeu. O coração retomou o ritmo de antes, bombeando adrenalina para as veias e expulsando qualquer resquício de dor. Mais um tremor. De repente o elevador abandonou sua descida uniforme para se jogar em queda livre. Dominique foi lançada ao teto como um boneco de pano, cima se tornou baixo e esquerda virou direita. Um pensamento ressoou no cérebro: ela morreria em meio ao metal assim que o elevador atingisse o solo.

Enxergou os botões na ponta oposta da cabine e reorientou-se. Segurou-se no teto e socou o mais forte que conseguiu, abrindo um buraco na estrutura e em seguida arregaçando o metal com as duas mãos. Sem pensar duas vezes, saiu do elevador e lançou-se em direção a um dos suportes da parede. Firmou-se no suporte e viu a cabine desaparecer na escuridão abaixo de si, levando diversos cabos rompidos consigo.

Ouviu um estrondo vindo de cima, e por pouco não foi atingida por nacos de tijolo. Levantou o olhar, mas enxergou apenas a escuridão. Temia já saber a origem daquilo tudo, suas ações no quarto não seriam perdoadas. O originador abandonara seu andar.

Metros abaixo de si, havia um suporte de metal na parede parecido com aquele na qual Dominique estava agarrada. Soltou os dedos, caiu um pouco e agarrou-se no alvo. Acima de si os sons continuavam. Repetiu o mesmo movimento de antes, descendo mais devagar do que gostaria, enquanto ouvia a ameaça se aproximando. O monstro também parecia sentir a aproximação, pois começou a urrar. Sua salvação surgiu quando enxergou uma porta de elevador. Não quis nem saber se era ou não o necrotério, foi até ela, forçou os dedos entre as divisas e abriu-a com um grito. Entrou correndo na sala e puxou Bárbara para longe do poço.

— O que houve? — perguntou a jovem.

— Ele está vindo! Procure por Alice da Silva Dutra!

Próximos ao totem estavam Nicolas e Fernando. Bastou Dominique gritar o nome para que o líder deles se pusesse a buscar na lista interminável do tablet. Não demoraria muito, mas tempo era algo que lhes faltava.

— Pão? — perguntou Fernando.

— Pão! — respondeu Dominique.

O colega passou seus dedos ágeis pelo fecho da mochila de entrega, abrindo-a em um segundo. Agarrou o conteúdo lá de dentro e atirou. A mira do padeiro falhou, mas os reflexos da idosa compensaram. Dominique pegou uma massinha doce pequena, e logo botou goela abaixo. Seus ferimentos desapareceram e um grunhido deixou a garganta de Fernando.

Sentiram um tremor no andar inteiro, seguido por um grito de raiva e da parede do elevador rachando e quebrando logo em seguida. O originador invadiu o necrotério diferente da última vez que o viram. A pelugem, antes negra, mudara para um tom vermelho pálido e doente, os tentáculos brancos tornaram-se mais agitados e ativos, como se perscrutassem qualquer partícula no ar que se movesse. A criatura investiu contra os alvos mais próximos: as duas mulheres.

— Deixa comigo! — Bárbara avançou.

Ela não deu mais do que cinco passos antes de se aproximar da criatura. O originador moveu a mão cheia de garras em um ataque lateral que deixaria dilacerado qualquer um, com exceção de sua atual oponente. Assim que Bárbara foi atingida, as rachaduras se espalharam e a jovem liberou a explosão que guardava dentro de si.

O efeito no predador foi mínimo, serviu apenas para jogá-lo alguns metros para trás. O golpe em Bárbara teve mais efeito, lançando-a contra os gavetões de necrotério, que ressoaram com a força do impacto, mas não foram amassados. Assim que a motoqueira caiu deitada no chão, Dominique agiu. Mais uma vez suas pernas responderam à altura e de um segundo a outro a idosa disparou como um projétil na direção da besta. Estava abaixo do predador e pronta para saltar e cortar fora os tentáculos quando Nicolas gritou:

— Pronto!

Dominique parou, o predador parou, talvez até o mundo. Os gavetões moveram-se como na outra vez, trazendo para perto deles o cadáver de Alice. O tempo retomou seu fluxo assim que uma gaveta próxima ao chão se abriu, revelando um corpo coberto.

O originador caminhou na direção do cadáver, e Dominique saiu de sua frente. Era a oportunidade perfeita para atacar, mas de alguma forma, sabia que o melhor a fazer era deixá-lo ir. Quando estava próximo do gavetão, os braços humanos emergiram da pelugem e descobriram Alice. O predador emitiu outro som, bem diferente da raiva e ódio que projetara até então. Ele chorou.

— Estrela… Apagada — disse ele, ou melhor, ela. Era definitivamente a voz de uma mulher. Estava embargada e difícil de compreender, mas Dominique reconheceria a tristeza de uma mãe em qualquer lugar.

Cobriu o corpo e empurrou-o para dentro da gaveta, fechando-a em seguida. O andar tremeu, o chão rachou e as gavetas começaram a sair de suas posições, caindo ao redor do grupo. O território estava se desfazendo, e junto disso veio a inconfundível sensação de que poderiam sair.

— Vamos voltar — disse Nicolas.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 22

Desenho monocromático. O desenho mostra um necrotério repleto de gavetas que sobem até desaparecer da visão. No centro do local há um totem com um tablet. Uma das gavetas próximas ao chão está aberta, e nela há uma maca com um corpo tapado. No canto superior esquerdo há o número vinte e dois para indicar o capítulo.

As mãos eram suficientes para cobrir o tronco e parte das pernas, e apertavam-na com força crescente. Por mais que tentasse, Dominique não conseguia sair, não conseguia mover nada além dos pés e do braço esquerdo, que estava livre do agarrão. Atrás de si, Nicolas estava com os olhos focados na criatura, mas imóvel. Fernando estava logo ao lado do líder, alternando entre o homem e a criatura. A única a se mover era Bárbara, mas o que ela faria? Seu poder funcionava melhor quando ela era o alvo dos monstros. Nenhuma ajuda viria. Não, não. Que pensamento derrotista era esse? Ela disse a Joaquim, não disse? Tinha um dever, uma missão dada a grupo seleto. Se era para morrer, faria isso dando o máximo de trabalho possível.

Olhou para o rosto do predador. Ele afastou-a um pouco de si quando agarrou, e agora movia os lábios rapidamente. Entre Bárbara gritando abaixo de si e as batidas de coração que pareciam tambores abafando o resto, conseguiu ouvir um sussurro:

— Minha estrela, minha pequena estrela, é você?

Sem tempo para fazer sentido de loucuras, Dominique reagiu, socou as mãos da criatura, deu cotoveladas. Nada tinha efeito, porcaria! Esticou o braço para puxar um dos tentáculos, mas estavam longe demais. Se ela tivesse uma arma, talvez um facão, alcançaria o predador e cortaria tudo.

Nesse momento, sentiu o antebraço livre perder a sensibilidade, a pele ficou pálida, a roupa desapareceu e os ossos mudaram de forma. A carne secou e o osso transformou-se em metal, moldando-se no formato de um facão longo. Não havia porquê entender o que aconteceu, sobrevivência era essencial. Balançou o braço-facão e cortou de uma vez só cinco tentáculos.

A criatura berrou e soltou a idosa, que se estabacou no chão. Antes que pudesse se erguer, um dos enormes braços do predador moveu-se para esmagá-la. Sua reação instintiva foi encolher-se e aguentar a dor, mas o impacto não veio. Viu Bárbara sobre si, o corpo tão cheio de rachaduras quanto um copo trincado. Ao fundo, o braço se erguia mais uma vez. Dominique ergueu-se, passou a mão na cintura de Bárbara e saltou para o lado com a companheira. O chão atrás delas foi atingido na sequência, rachando o piso e soltando cacos de porcelanato para todos os lados. Mal tinham se recomposto e o originador preparava outro ataque. Precisavam ser mais rápidas!

— Me proteja mais uma vez! Vou atacar em seguida! — gritou Dominique.

Teria apenas uma chance de cortar os tentáculos restantes. Se errasse, ficaria suspensa no ar e a experiência no território do metrô mostrou que era vulnerável demais assim. A mãozorra desceu e mais uma vez Bárbara aguentou o golpe, erguendo os dois antebraços. Seus joelhos flexionaram, as fendas no corpo multiplicaram e jaqueta irradiou ainda mais o vermelho das asas. Dominique aproveitou o momento para saltar com toda a força na direção da cabeça do monstro e, enquanto passava pela protuberância, usou o facão para cortá-la. Por pouco não foi atingida por um golpe do originador enquanto ele se debatia.

— Vamos, vamos! — disse a idosa ao aterrissar.

Ela e Bárbara se afastaram enquanto o predador enlouquecia. Berrando e se debatendo, as mãos socavam as paredes, as unhas arranhavam pedaços do chão como se fossem areia molhada, tudo isso enquanto ignorava a presença dos demais.

— Precisamos… sair — disse Nicolas, assim que reagruparam.

O grupo inteiro correu para longe, procurando por uma segunda saída. A loucura do originador diminuiu até cessar e logo não ouviam mais nada, silêncio total a não ser pelas próprias batidas dos calçados contra o piso.

Encontraram uma escada para baixo e, por falta de plano melhor, desceram-na. Com o andar inferior sendo idêntico, tomaram o caminho direto até o elevador. Não demorou muito para os tremores começarem, mas, graças a Deus, chegaram sem problemas. Ele estava com as portas abertas, como se estivesse apenas aguardando o grupo. Dominique apertou um botão sem nem pensar. Enquanto a porta fechava, viram o originador emergir ao derrubar uma parede próxima. A protuberância estava de volta junto com todos os tentáculos. Ele virou o corpo na direção deles, mas não fez menção de segui-los.

Chegando no térreo, correram até a rua e, com exceção de Dominique, largaram-se todos pelo chão. A idosa ouviu alguém lhe perguntando sobre ferimentos, mas ela estava distraída com seu braço esquerdo, que voltara ao normal.

— O que acontece agora? — perguntou Fernando, esfregando as mãos cobertas de rachaduras após ajudar Bárbara.

— Ele é capaz de se curar — disse Nicolas, recuperando a compostura. — A maioria do que Dominique fez não teve efeito, capaz de Bárbara não ter muita utilidade também.

— A pele dele é bem grossa, senti como se tivesse batendo em concreto puro. — Dominique olhou para a mão direita. — Se formos atacar, tem que ser na cabeça.

— Antes de qualquer coisa, como tu fez aquilo? — perguntou Bárbara, apontando para seu braço esquerdo.

— Eu não sei, pensei que queria uma forma de cortar os tentáculos, quando notei já estava com uma lâmina no braço. — Levantou a mão esquerda para o alto. — Devo ter entendido errado minha benção.

— Ainda assim, não podemos desistir! — Fernando alternava o olhar entre os demais. — Ferimos ele um pouco.

— Não é o suficiente, fomos apenas um incômodo — rebateu Nicolas.

— Menos que isso eu diria. — Bárbara cruzou os braços.

— Tem outra coisa… o originador falou algo enquanto me prendia — disse Dominique.

— Que palavras ele usou? — perguntou Nicolas, avizinhando-se.

— “Minha estrela, minha pequena estrela, é você?”. — Dominique suspirou. — Mas não vejo como isso vai ajudar muito, desculpe…

— Não se desculpe — disse o líder. — Temos que entender mais um pouco desse lugar.

— O que há mais para entender? — perguntou Fernando. — Não estivemos em todos os andares já?

Nicolas e Bárbara trocaram um olhar.

— O andar -1 — disse a mulher mais jovem. — É realmente um lugar ou só um defeito no elevador?

— Vamos descobrir.

Fernando se levantou, Dominique foi em seguida e ajudou Bárbara a ficar em pé. Mais um andar, com sorte seria um lugar pequeno e sem predadores. Pena que estavam sem sorte naquele dia.

Caminharam de volta ao elevador e entraram nele. Os botões dispostos na vertical não indicavam sinal algum de ter outro andar. Investigaram juntos o resto da cabine, procurando por alguma dica. Minutos se passaram até que saíssem de mãos vazias.

— Talvez dê para entrar só pelo poço. Abrimos a porta e eu pulo — sugeriu Dominique.

Um par de enfermeiros saiu de uma sala trazendo consigo uma maca, utilizaram o elevador e subiram para outro andar.

— Nem pensar, e se não tiver fundo? E se tu não voltar, o que fazemos? — questionou Fernando.

— É uma boa ideia. — Nicolas assentiu. — Mas só até a parte de abrir a porta.

Assim, com a ajuda de Dominique, forçaram a porta. O poço não acabava no térreo, ia mais para o fundo. Olhar aquele abismo trouxe um frio na ponta dos dedos da idosa, junto com a certeza que não gostaria de descer até lá.

— Não dá para fazer uma corda e descemos de rapel? — perguntou Bárbara. — Aí se tiver um perigo tu só puxa para cima.

— Não. — Nicolas nem olhou para ela ao responder. — Serve apenas para enforcamento e restrição. E também, meus alvos precisam estar ao meu redor, então se eu descer alguém, eventualmente não vou conseguir mais prender essa pessoa.

— Tentei. — A motoqueira deu de ombros.

Fecharam a porta e aguardaram o elevador descer, entrando nele mais uma vez em uma nova tentativa de descobrir como chegar ao andar oculto. Investigaram mais um pouco, porém não havia nenhuma dica.

— Talvez… — começou Bárbara. — A gente não deva ir lá? Tipo, lugar proibido e tal.

— Por essa lógica nem deveríamos estar aqui, ou estar vivos — disse Fernando.

— Não, faz sentido. Um andar que não deveria ser acessado, que precisa ser descoberto. Algo que o originador quis manter oculto de qualquer um, mas que se olharmos sob a superfície, será encontrado. — Nicolas olhou para os botões do elevador. — Talvez a solução precise de um pouco de violência. Dominique, arranque o painel.

Feliz em ajudar, a idosa se aproximou e forçou a mão contra o metal. Seus dedos atravessaram a proteção sem muita resistência, e ela puxou. O painel resistiu por um tempo, até que abriu com um estalo, girando para fora como uma porta.

O interior revelou ser um compartimento cheio de placas eletrônicas fixas na parede e fios coloridos, alguns levando para entradas na parede que Dominique não fazia ideia de onde iam dar. Na parte de trás do painel de botões, havia uma placa redonda para cada botão, todas ligadas por fios que se juntavam e, se tinha entendido corretamente aquele mundaréu de cabos, ligavam-se nas placas que estavam fixas à parede.

— Aí sim! Olha ali! — Bárbara apontou para a sequência de botões, onde uma das placas de seleção de andar estava suspensa, ligada aos fios, mas não estava conectada em nenhum dos botões.

— Como sabia? — perguntou Fernando.

— Não sabia, foi experimentação. — Nicolas passou os olhos por cada um deles. — Descemos então. Todos prontos?

O grupo se aninhou no meio do elevador. Nicolas substitui a placa do andar Recuperação por aquela que supostamente os levaria até o subterrâneo e apertou o botão. As portas do elevador fecharam e o frio na barriga que surgiu indicava que desciam.

Levou quase um minuto para as portas se abrirem. No painel de andares estava o -1 que viram antes. Bastou darem um passo para fora que sentiram o ar gelado que percorria o andar inteiro.

Era uma única sala comprida e alta, com paredes feitas de metal e fileiras e mais fileiras de gavetas que as preenchiam, subindo até o teto, por onde uma única lâmpada de luz branca e forte dava conta de iluminar tudo.

A alguns metros de distância do elevador, havia um totem com um tablet próximo do topo. Era discreto e cinza, do tipo que se encontra em muitas lojas Brasil afora. Não demorou para se aproximarem do dispositivo, que estava em um aplicativo de contatos. Diversos nomes cobriam a tela, separados por uma linha horizontal. Nicolas deu um passo à frente e tocou em um dos nomes. Uma nova janela abriu, contendo mais informações sobre a pessoa.

NOME: AMANDA PACHECO AMARAL

IDADE: 23 ANOS

ALTURA: 1,76 M

PESO: 68 KG

A lista de descrições físicas era enorme, e uma foto no canto superior direito mostrava o rosto da tal Amanda. Nicolas se demorou lendo tudo que tinha na tela e, ao final, precisou rolar para baixo. No fim de tudo, havia informações que chamaram mais atenção que as outras.

CAUSA DE MORTE: PERDA DE SANGUE

CAUSADOR DA MORTE: AMANDA PACHECO AMARAL

HORÁRIO DA MORTE: 00H23

Havia um botão azul também: “Mostrar Cadáver”. O dedo de Nicolas pairou por alguns segundos acima da tela, mas, por fim, acabou tocando no botão. Seguiu-se um som alto, como se mecanismos há muito tempo parados voltassem a funcionar. As gavetas do necrotério começaram a se reorganizar. Subiam, iam para o lado e desciam. Depois de poucos segundos, uma delas ficou ao nível do chão, se abriu e levou para fora a bandeja mortuária contendo uma pessoa. Estava coberta dos pés à cabeça por um plástico branco que não permitia a ninguém ver o que havia por baixo.

— Dê uma olhada no cadáver — ordenou Nicolas a Bárbara.

— Eu não, vai tu.

Então Nicolas foi. Levantou o plástico na área da cabeça, olhou por alguns segundos para o rosto, e fez o mesmo na área dos pulsos. Voltou ao totem.

— É a Amanda mesmo, pelo menos em aparência — disse ele.

O botão se tornou vermelho e anunciava a opção de “Ocultar Cadáver”. Nicolas o apertou e o corpo de Amanda voltou para a gaveta. Voltaram à lista de nomes. No topo dela havia um sino cuja cor anterior era cinza, e que mudara para vermelho. Ao tocar no símbolo, abriu-se uma pequena janela com os dizeres:

LAURA SCHMITT ADICIONADA À LISTA

HENRIQUE OLIVEIRA ADICIONADO À LISTA

EDUARDO MOURA ADICIONADO À LISTA

FRANCIANO GAIESKY ADICIONADO À LISTA

Nicolas fechou a janela de novas adições e seguiu conferindo outras pessoas. Todas tinham tantos detalhes quanto a primeira, e sempre mostravam a causa da morte. Assim que chegaram na letra “C”, Fernando disse:

— Deixa eu mexer aí.

— Quer procurar alguém? — perguntou Nicolas, sem se virar.

— Quero.

— Quem?

— Eu mesmo, acho.

O líder deu espaço ao padeiro, que rolou e rolou até achar um nome: Cleber Martines. Ele abriu as informações da pessoa e deparou-se com a foto do pai. Dominique sutilmente olhou para outra direção, dando um pouco de privacidade ao colega.

— Qual o nome completo do Igor? — perguntou Fernando.

— Igor… Machado — respondeu Bárbara.

Fernando buscou pelo nome na lista quase interminável do tablet, até que parou com o dedo.

— Eu… — Olhou para Bárbara. — Quer abrir?

A mulher ficou tensa. O corpo, mesmo sem as rachaduras, parecia prestes a se desfazer em pedaços. Ela assentiu, tomou o lugar de Fernando e abriu as informações de Igor.

NOME: IGOR MACHADO

IDADE: 13 ANOS

ALTURA: 1,52 M

PESO: 42 KG

Bárbara fechou os olhos, colocou as mãos no rosto e soltou o ar. Seus ombros caíram, mas ela logo olhou para Fernando e disse:

— Não é ele.

Dominique passou as mãos nas costas da companheira. Era uma sensação estranha estar aliviada com a morte de outra pessoa, ainda mais de uma criança.

— Ainda temos chance, então — disse Fernando, olhando para Nicolas. — Eu tenho uma teoria de como eliminar o predador, mas pode ser que não funcione.

— É melhor que ter ideia nenhuma — disse Bárbara. — Desembucha aí.

— No metrô havia aquele monstro grandão e um maquinista no mesmo lugar, acho que aqui pode ser parecido. Lembram daquela sala no andar da perdição? Deve ser uma pista! Uma dica de que o verdadeiro não é o monstro que enfrentamos, mas um desses cadáveres.

Nicolas assentiu enquanto mexia na corda em seu pescoço e ajeitava a gola da camisa.

— Só tem um problema: como vamos descobrir o nome da pessoa? — Bárbara passou um dos dedos pela tela, rolando a página. — Olha isso! A lista é enorme!

— Talvez a gente volte ao quarto dela e procure alguma identificação? — sugeriu Fernando.

— E se arriscar lá de novo? — Bárbara levantou uma sobrancelha. — Não acho que vamos ter tanta sorte dessa vez. Ainda mais que um vai ter que ficar procurando no quarto enquanto os outros seguram o monstro.

Pronto, ali estava sua chance. Uma forma de provar para eles que era capaz, que ia muito além de sua aparência. Antes que a discussão tomasse outro rumo, Dominique disse:

— Eu vou! Deixem isso comigo.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 21

Desenho monocromático. O desenho mostra um rosto humano glabro saindo de um corpo peludo e grande. No rosto, onde deveria ficar o nariz e os olhos, há um apêndice similar ao de uma toupeira-natiz-de-estrela, de onde despontam diversos tentáculos finos e compridos se espalhando em diferentes direções.
No canto inferior esquerdo há o número vinte e um para indicar o capítulo.

Deixou os dois jovens liderarem a busca durante algum tempo. Apesar das palavras, sua cabeça ainda estava no quarto, queria ficar mais um tempo lá. Sabia muito bem da verdade: Joaquim morrera no mesmo acidente que tirou suas pernas. Não fazia ideia de como, mas aquele ali era apenas uma cópia, uma sombra. Mas que sombra calorosa era essa!

Havia passado por uma dezena de quartos quando conseguiu se recompor e andar ao lado de Bárbara. Não ousou conversar, em vez disso, focou em entender aquele lugar. Predadores não eram seres que se alimentavam de pessoas? Por que então criar o hospital? Por que criar aquele lugar tão agradável e tentador? O que estavam falhando em ver?

Encontraram Fernando dentro de um quarto cujo nome do paciente era Cleber. Não era muito difícil imaginar o homem mais velho como o pai do companheiro, tinha por volta de cinquenta anos e dava para ver muitos traços de semelhança. Os mesmos braços largos, a pele morena, o queixo quadrado, mas as características mudavam a partir daí. Os olhos eram duros e ele parecia ser do mesmo tamanho de Nicolas.

— Vocês estão aqui também — disse Fernando ao vê-los, um sorriso de criança tomando seu rosto. — Entrem, venham ver meu pai.

Bárbara trocou um olhar com Dominique e, após um momento de hesitação, todos entraram.

— Não se acanhem, não tô tão mal assim pra quebrar igual vidro — disse o pai, gesticulando para que se aproximassem.

— Também não se faz de durão, acabou no hospital de qualquer forma — replicou o filho.

Dominique respirou fundo e se aproximou, a única a fazer isso. Sabia de luto melhor que os outros dois, era a mais adequada para lidar com a situação.

— Tu deve ser a tal Dominique — comentou Cleber. — Agradeço pela ajuda ao meu filho.

— Eu que devia agradecer. — Olhou para Fernando por um momento. — Seu filho é um homem incrível e gentil, estaríamos com muitos problemas se não fosse por ele.

Cleber inflou o peito ao ouvir isso e abriu um sorriso de orelha a orelha.

— Ele sempre foi assim, o orgulho da família.

Os dois trocaram mais algumas palavras. A aposentada sabia bem o que precisava dizer em seguida, mas não conseguia. Seu foco estava em falar com Cleber. Precisava usar alguma inconsistência ou fato estranho que o pai dissesse para provar que era apenas uma cópia. Sabia, no entanto, que não encontraria. Era a melhor das ilusões, perfeito e igual ao original em cada sentido.

— Incrível, né? — disse Fernando. — Depois de anos eu o encontro aqui.

O olhar da idosa rumou até o rosto iluminado do companheiro. Não queria formar as palavras necessárias, era quase crueldade. Os dizerem chegavam até a boca, torciam-lhe a língua, então eram engolidos de volta, arranhando a garganta. Olhou para Nicolas, esperando que o líder do grupo a ajudasse nem que fosse com a mais crua das frases, mas não foi dele que veio o auxílio.

— Seu pai está morto. — A expressão de Bárbara era fechada e o corpo inteiro estava retesado, como se estivesse prestes a levar um golpe.

Como espelho sendo quebrado, a expressão de Fernando mudou. Seu sorriso resplandecente desapareceu e uma escuridão de reconhecimento tomou conta.

— Do que está falando? — Fernando baixou o tom de voz. — Ele está ali.

— É uma imitação — disse Nicolas, em voz alta. — Ele está morto, igual todos os pacientes nesse hospital.

Fernando encarou Cleber e foi encarado de volta. Não trocaram uma palavra sequer, mas, de repente, a pele de seu pai ficou mais pálida, a íris passando para um tom esbranquiçado.

— Vocês estão errados — sussurrou Fernando. — Ele está aqui, vivo! Não entendem?!

— Eu falei com meu falecido marido há pouco — interveio Dominique. Seu tom de voz era calmo e baixo, quase como se estivesse lidando com um animal assustado. — É muito parecido e pode ser que até seja seu pai, mas ele se foi. Os vivos não podem ficar presos aos mortos, por mais doloroso que seja, devemos deixá-los irem e descansar.

O olhar de Fernando percorreu o rosto de Dominique, Bárbara e por fim Nicolas. Sua expressão e postura mudaram. Não era mais um animal assustado, parecia encurralado, capaz de usar unhas e dentes para sair vivo.

— Então eu posso curar feridas impossíveis. Com. Um. Pão! Uma velha é mais forte que halterofilistas, uma tem um corpo igual pedra e o outro cria cordas do nada, mas meu pai não pode voltar à vida?! — As palavras eram cuspidas. — Hipócritas! Vão à merda e continuem com essa aventurazinha idiota! Eu ficarei.

— Conseguem tirar ele daqui? — perguntou Nicolas.

Dominique ficou relutante, mas assentiu mesmo assim. Não podiam abandonar Fernando, mas nenhum deles era tão próximo a ponto de argumentarem e enfiarem a razão na cabeça do homem.

Foi um processo lento e cuidadoso na medida do possível. Bárbara e Dominique o seguraram e arrastaram, em meio aos gritos, choro e ameaças até o lado de fora do quarto. Socos e pontapés foram desferidos contra as duas, mas elas não revidaram. Quando o soltaram a alguns metros da porta do quarto, caiu de joelhos no chão, o olhar fixo em algum ponto na parede.

Nicolas saiu por último e fechou a porta. No segundo seguinte, o padeiro pulou no pescoço do engravatado, a fúria voltando aos seus olhos. Não fosse Dominique impedir, imaginou que os dois estariam se engalfinhando no chão. Foram necessários alguns segundos para que Fernando se acalmasse e desabasse novamente, desta vez com uma expressão de derrota. Ficou assim alguns minutos, até que começou a soluçar.

— Eu não acredito — disse Fernando, limpando as lágrimas com as mãos. — O que aconteceu comigo? Eu estava… Eu queria…

— Culpe o território, não a si mesmo — disse Nicolas.

— É cara, não é sua culpa. Esse lugar que é estranho — disse Bárbara, se agachando e afagando o ombro de Fernando.

— Melhor encontrarmos Igor e sair logo daqui — pediu Dominique, quanto mais cedo fugissem, melhor seria para todos.

— Não! — Fernando se levantou em um solavanco. — Esse predador morre hoje.

— Tem certeza? — perguntou Bárbara. — Tu não parece bem.

— Não estou bem, mas não vou aturar que esse monstro continue por aí.

— Decidimos isso depois de encontrar Igor — disse Nicolas. — Nossa prioridade aqui é o resgate.

Caminharam por mais uma hora, abrindo todas as portas que encontravam. Em determinado momento, avistaram uma escadaria para o andar inferior, mas a ignoraram. Passaram a encontrar identificações contendo nomes estrangeiros, chegando a ter até mesmo letras de outros alfabetos. Abrir essas portas sempre revelava um interior igual aos demais, porém os ocupantes eram de outra nacionalidade e conversavam em outro idioma. Quando enfim chegaram ao final do corredor, deparando-se com uma parede sem janelas, voltaram até a escada e foram ao andar inferior.

Não sabia quanto tempo perderam naquele andar, mas a cada porta, a cada minuto, Bárbara parecia mais apressada. Tinham dezenas, se não centenas, de quartos a verificar, mas e se Igor não estivesse em nenhum deles?

Revistaram todo o andar inferior e nem sinal do amigo de Bárbara, tudo que encontraram foi um elevador de portas fechadas, o painel sinalizando que estava no terceiro andar, e mais uma escadaria para baixo. Desceram e repetiram o longo e cansativo processo de busca, sem obter resultado algum. Havia outro elevador apenas, e nada de escada.

— Talvez ele esteja no primeiro andar? — sugeriu Bárbara. — Vamos voltar lá e investigar.

— Aqui não é o primeiro? — perguntou Fernando.

— Pela lógica, deveria ser — respondeu Dominique. — Só que não encontramos a recepção até agora.

— Lógica não é o forte dos territórios — disse Bárbara.

— É bom começar a pensar na possibilidade de que Igor não está mais vivo — disse Nicolas, de repente.

Em um piscar de olhos, Bárbara virou-se, agarrou a corda no pescoço do homem alto e puxou-o para perto.

— Ele não está morto! — gritou ela.

Dominique se moveu para segurar a jovem, mas Nicolas levantou a mão, pedindo para não interferirem. O líder sustentou o olha furioso de Bárbara enquanto falava:

— Ele está aqui a uma semana, se formos levar em consideração a história que você nos contou. O que acha que acontece com aqueles que ficam tempo demais aqui? Sem comer, sem beber. Parece um lugar confortável nesses quartos, mas lembre-se…

Bárbara não o deixou continuar, empurrou Nicolas para longe.

— Eu sei disso, porra! Mas não revistamos tudo. Enquanto eu não olhar cada pedaço desse lugar, Igor está vivo.

— Não sabemos como funciona a passagem de tempo aqui, uma semana por ser um dia ou algumas horas. — Fernando colocou-se entre os dois. — Vamos revirar esse lugar de cabeça para baixo antes de levantar a possibilidade de morte. Que tal?

Com um clima ainda mais pesado que antes, rumaram para o elevador, que ainda sinalizava o terceiro andar. Apertaram o botão, esperando que fossem levar alguns segundos para chegar, mas ele abriu instantaneamente.

— Botões estranhos — disse Dominique, após entrarem. — Vocês não comentaram disso.

— Era tanta coisa que até esqueci dos nomes bestas. — Bárbara balançou a cabeça.

— Se eu estiver correto, só o elevador é capaz de nos transportar entre diferentes andares, então tudo que caminhamos desde que saímos é o terceiro andar — disse Nicolas.

— Isso significa que tem muito para ver ainda — murmurou Bárbara.

O líder apertou o botão para o andar “Perdição”. As portas se fecharam e abriram logo em seguida, mostrando um corredor com as lâmpadas principais desligadas, dependendo apenas das luzes emergenciais para manter o mínimo de iluminação. Naquele andar coberto pela penumbra, as portas eram vistas pela metade e o espaço entre as lâmpadas era incerto.

Bárbara e Dominique saíram primeiro do elevador. As lâmpadas piscaram por um momento, como que para recebê-los, dar boas-vindas e prepará-los para o pior.

Repetiram o mesmo processo do andar Recuperação, abrindo todas as portas que encontravam. Ali, no entanto, sempre achavam quartos vazios. Sem pessoas, decoração ou móveis. Desocupados e abandonados.

Caminharam por corredores empoeirados durante algum tempo, até que, em uma parede à direita, encontraram um buraco. Era oval e imperfeito, grande o suficiente para passar um pequeno caminhão.

Dentro havia um quarto devidamente limpo e arrumado, até a poeira se recusava a entrar nele. No fundo do diminuto cômodo, no lado direito, uma cama de solteiro estava coberta por um lençol azul-claro e um travesseiro branco. De pé, encostado na parede ao lado da cama, estava um violão e no chão próximo ao instrumento haviam cadernos abertos, mostrando partituras. Ainda no fundo, mas no lado esquerdo, havia uma pequena mesa com um notebook aberto em um programa de áudio que emitia um som agradável, acústico e simples. Uma voz jovem cantava, acompanhando o toque do violão. Até mesmo para alguém sem muito senso musical como Dominique, aquele não era o melhor dos sons, e sim alguém tentando aprender.

No meio, entre violão e notebook, preso no alto, havia um porta-retrato. Nele, uma adolescente, talvez até jovem adulta, sorria. Seus cabelos loiros, quase dourados, destoavam com os olhos escuros. As sardas no rosto, próximas ao nariz pequeno e boca rosada pareciam deixá-la mais jovem do que era.

— Ficou ótimo! Perfeito! — A música cessou, dando lugar a uma voz de mulher adulta.

— Está ruim ainda, preciso treinar mais. — Outra voz, agora mais jovem, contrariou.

Então outra música começou a sair pelos alto-falantes do aparelho. Desta vez somente o canto, sem violão.

Dominique deu um passo adiante, entrando no quarto. Foi então que seu estômago se apertou, o chão balançou e um grito percorreu os corredores do hospital. Era um aviso, uma ameaça para instigar medos nos invasores.

— O originador está vindo, vamos recuar — disse Nicolas.

— Fugiremos dele? — perguntou Fernando, se colocando ao lado do engravatado.

— Não acho que será uma boa ideia lutar contra ele aqui, talvez se o levarmos até a rua tenhamos mais chances.

E com isso o grupo se reorganizou para voltar correndo até o elevador. Os tremores ocorreram mais vezes, sua frequência aumentou, inclusive a origem estava cada vez mais próxima. Quando o elevador estava em sua visão, a parede à frente do grupo se estraçalhou. Poeira, reboco e fragmentos de tijolo preencheram a visão de Dominique por um instante. Estes deram lugar a uma criatura de corpo largo, capaz de ocupar metade do corredor do hospital, e coberto por uma fina e curta pelugem negra, com um calombo nas costas que raspava no teto, criando uma zona esfolada e sangrenta. O tronco oval terminava em uma grande cabeça humana pálida, orelhas onde deveria estar o nariz e os olhos. Uma protuberância se alongava e terminava se conectando a diversos tentáculos rosados que, em sua origem, possuíam um formato estelar. Os apêndices eram finos e compridos, se espalhando ao redor da criatura. Os braços com quase o mesmo comprimento do corpanzil saíam da área logo atrás da cabeça, começavam cobertos por pelos e iam perdendo-os até chegar nas mãos, achatadas e compridas, com os dedos e unhas curtos. As duas juntas nos braços faziam eles se dobrarem de forma bizarra. Dominique era assomada por repulsa e náusea instintivas, e dessa vez também havia um estranho fascínio.

O grupo estacou durante um momento, a poeira terminou de baixar e a criatura saiu por completo da abertura na parede, revelando pernas curtas e musculosas, pés compridos com dedos e unhas longos. Os tentáculos se espalharam, tocando as paredes em volta e criando uma espécie de rede.

— Dominique, vá com cuidado — disse Nicolas, sua voz calma e baixa.

E como uma flecha, ela correu, atravessando a distância entre o grupo e o originador em um piscar de olhos. Os tentáculos vibraram e o inimigo moveu o braço direito para atacar. Uma corda se materializou a partir da parede e se enrolou no punho da criatura, impedindo o golpe. Antes que pudesse usar o membro livre, uma segunda corda o imobilizou. Dominique aproveitou para desferir um soco no corpo da criatura. Sabia de sua força, sabia que não era pouca em nenhum padrão que usasse. Porém, bater naquele originador era como socar o tronco da mais grossa das árvores: não teve efeito algum.

Dominique socou mais uma vez. Nada. O monstro urrou e forçou mais as cordas, arrebentando todas de uma vez só. Antes que suas mãos alcançassem Dominique, uma nova leva de amarras surgiu, parando os braços e pernas da criatura.

— A cabeça! Vai na cabeça! — gritou Bárbara.

Olhou para cima, vendo os tentáculos que saíam do rosto e esquadrinhavam os arredores. Não tocavam em nada, mas moviam-se de forma errática, como se estivessem cobrindo território. Se tinha algum ponto fraco, era aquele. Sentiu os músculos da perna retesando e saltou com altura suficiente para alcançar o rosto da coisa. Agarrou-se com a mão esquerda na protuberância e com a outra mão puxou um dos tentáculos, arrancando-o. Um líquido branco espirrou ao redor, sujando o rosto e corpo de Dominique. O predador guinchou, os demais tentáculos moveram-se ao mesmo tempo e sem coordenação alguma, esbarrando uns contra os outros. Estava funcionando! Largou o apêndice arrancado, mas antes que pudesse puxar um segundo, um par de braços humanoides emergiu dos pelos abaixo da cabeça do originador e agarram-na com força surpreendente.

Seu coração acelerou enquanto aquelas mãos geladas e esbranquiçadas tocavam seu corpo. Não queria pensar na derrota, mas tudo que veio em sua mente era a morte. Seu corpo seria esmagado, os ossos quebrariam, os órgãos seriam destruídos e restaria apenas uma carcaça deformada. Por um segundo, imaginou que era esse mesmo seu destino: morrer nas mãos de predadores.

Predadores: A Obsessão – Capítulo 20

Desenho monocromático. O desenho mostra o interior de um elevador espaçoso com dois enfermeiros sem rosto, um homem e uma mulher, e no meio deles há uma maca coberta por um lençol manchado de sangue. O sangue pinga da maca e cai no chão do elevador.
No topo há o número vinte para indicar o capítulo.

Em um segundo estavam apenas os quatro, e no seguinte foram cercados por uma multidão de predadores, criaturas humanoides de braços grossos terminando em mãos achatadas de dedos curtos e grossos contendo garras. Não possuíam olhos e o formato da cabeça assemelhava-se a um focinho de animal, terminando em um nariz achatado na ponta do rosto, com cor mais rosada que o resto do corpo. Possuíam coordenação surpreendente, navegando habilmente entre si e encurralando o grupo. Bárbara tentou manter-se próxima aos outros, mas os inimigos eram muitos e quando deu por conta estava sozinha.

Cordas surgiram para erguer os predadores, e a motoqueira aproveitou o enforcamento de diversos inimigos próximos para olhar os arredores. Encontrou Dominique sendo abraçada por um homem desconhecido. Gritou para a idosa, mas sem efeito. Os dois afundavam no chão e, Bárbara foi bloqueada antes que pudesse se mover na direção da companheira. Deu um encontrão na criatura à sua frente e conseguiu linha de visão para Dominique mais uma vez, mas não havia sinal da mulher.

Procurou por Fernando e não o encontrou, teria sido raptado também? O único que restava era Nicolas, rodeado pelos monstros. Cordas surgiam a todo momento, mas onde antes havia um corpo, logo estava um novo inimigo. Bárbara disparou na direção do último companheiro, amaldiçoando a própria incapacidade de proteger os demais. Garras atingiam seu corpo a cada passo e, por mais que resistisse aos ferimentos, a dor marcava presença.

As cordas pararam de surgir e os predadores conseguiram chegar perto de Nicolas. Bárbara acelerou e deu um empurrão com o ombro em um predador já próximo do homem. Os dois trocaram um olhar breve e ela pôde ver manchas azuladas nos lábios de seu companheiro. Pela respiração entrecortada, parecia capaz de desabar a qualquer instante.

Nicolas apontou para uma parede, haviam poucos predadores no caminho, a maioria deles parecia concentrado em evitar que fugissem pelo corredor. Não sabia o que diabos fariam lá, mas acatou as ordens, não era como se ela tivesse um plano próprio. Seguiram até o local, com Bárbara protegendo Nicolas das mãos dos predadores.

— E agora? — gritou a mulher.

— Explode. Todo lado menos costas. — Cada palavra era emitida com visível esforço. — Depois recepção.

E como caralhos faria isso?! Não, sem tempo para hesitar. Os predadores cada vez mais próximos urgiam uma ação. Nas vezes que conseguira focar sua habilidade, foi de forma inconsciente. Encarou os inimigos, uma massa de predadores que agora lhe remetiam a toupeiras. Sentiu o calor de sua habilidade espalhando-se pelo corpo inteiro, como uma fornalha ardendo. As costas não, as costas não!

Obedecendo sua vontade, a queimação afastou-se das paletas, focando-se nas laterais e no peito, onde passou a ser magma, prestes a derreter seus ossos e escorrer pelo tronco. Sentiu a iminência da destruição que poderia causar, bastava deixar tudo fluir e a jaqueta faria o resto. Se conteve para não ferir Nicolas. Os predadores chegaram bem perto, e Bárbara liberou a explosão com um grito.

As criaturas foram erradicadas, o piso do chão arrancado, as paredes racharam e o prédio tremeu. Seus joelhos quase cederam e ela mal teve tempo de se recuperar antes de Nicolas segurar seu pulso e puxá-la em direção à saída.

— Espera — arfou ela. — E os outros?

Sua resposta foi uma balançar negativo da cabeça. Atravessaram o corredor e chegaram na recepção. Lá era como se nada tivesse acontecido, as mesmas funcionárias atendiam os recém-chegados e mais pessoas entravam no hospital para formar a fila em um ciclo infinito. Foram até as cadeiras, Nicolas se sentou e curvou-se para a frente, mantendo os olhos no corredor, talvez esperando a aparição dos predadores a qualquer momento. Bárbara deixou os joelhos cederem e escorou bem as costas no assento, olhando para cima.

— Nós não… — Baixou os olhos para o companheiro. — Não perdemos eles?

Sem tirar os olhos do corredor, Nicolas respondeu:

— Não.

— Como tem certeza? — A calma dele a indignava. — Viu aquelas coisas? Dominique talvez se salve, mas Fernando não é um lutador!

Alguns segundos de silêncio se passaram. Nicolas aliviou o aperto da corda no pescoço e respondeu:

— Esse lugar não opera só com agressão. Nenhum dos dois resistiu ao ser arrastado, e os predadores não pareciam inclinados a atacá-los. — Fez uma pausa para tomar ar. — Aqueles predadores não vão matá-los, não tão rápido.

— Então por que nós fomos atacados? Tu sobreviveu porque protegeu seus arredores, e eu porque sou resistente. Eles teriam nos trucidado se tivessem a chance!

— Acho que o hospital usa algum tipo de ilusão para impedir a oposição. Você e eu somos resistentes, e por isso fomos atacados.

— Porra! E no que isso ajuda a salvar os dois?

Nicolas se levantou e caminhou em direção à saída do hospital.

— Não está pensando em deixá-los, está? — perguntou Bárbara

— Estou indo pensar. — Ele parou. — Venha, preciso de você.

Saíram da construção e foram até o estacionamento, bem onde Nicolas estivera da outra vez. Sentia que ainda conseguiriam fugir se quisessem, mas não fariam isso. Não deixaria o homem nem pensar nisso. Ele apontou na direção do hospital e perguntou.

— Notou algo estranho? — perguntou Nicolas.

Ela semicerrou os olhos e disse:

— Menor do que eu esperava.

— Sim, bem menor, o corredor que fomos atacados era maior que a extensão da construção.

— E só fica pior.

Um homem de meia idade passou pelos dois. Bárbara não perdeu tempo e gritou:

— Ô! Tu aí!

O homem a ignorou e seguiu em frente. Ela bufou e avançou, alcançando-o e colocando-se em sua frente.

— Tô falando contigo.

Ele parou, porém seus olhos estavam desfocados, as pupilas dilatadas ao extremo. Ficou olhando para ela como se estivesse diante de uma parede.

— O que veio fazer aqui? Tá indo para onde?

— Visitar minha irmã — respondeu ele, em voz lenta e monótona. — No quarto andar.

Ele fechou a boca e ficou olhando na direção de Bárbara. Com um suspiro, ela saiu da frente e o homem continuou sua caminhada.

A motoqueira perguntou o mesmo para mais quatro transeuntes e, ao final, se aproximou de Nicolas, que continuava parado observando o hospital.

— No fim todo mundo está aqui para ver alguém e todos vão ao quarto andar. Poderíamos começar nossa busca por lá, só passar por três andares recheados de predadores antes.

— Ou pegamos a rota de entrada de ambulâncias.

Bárbara olhou na direção apontada por Nicolas e encontrou os veículos parados no lado esquerdo do hospital e, alguns metros à frente delas, uma entrada específica para emergência e a placa “Exclusivo para Ambulância” logo ao lado das enormes portas duplas.

Foram até o local e passaram pela porta. Próximo a eles havia um balcão de atendimento, uma fileira de cadeiras para espera e no lado esquerdo uma porta larga. O local não era grande, porém possuía espaço o suficiente para manobrar uma maca sem correr o perigo de acertar as paredes. Diferente da entrada comum, esta era desprovida de vida. Ninguém na sala de espera, ninguém para atender. O único som era um chiado incômodo vindo de uma televisão próxima ao teto, onde somente estática era mostrada em sua tela.

Seguiram pela esquerda e acabaram em um corredor com diversas portas em ambos os lados e, ao final dele, um elevador. Bárbara caminhou reto para o fim do caminho, mas parou ao ver que Nicolas não a seguia. Ele havia se aproximado de uma das portas.

— Não acha que estará vazio também? — perguntou a mulher.

— Melhor verificar pelo menos uma.

Ele abriu a porta. A visão das paredes repletas de manchas vermelho-escuro, a poça de sangue abaixo do leito hospitalar aumentando de tamanho a cada segundo e o cheiro pungente de carne podre misturado com álcool obrigaram Bárbara a desviar o olhar. Quando deu por conta, estava olhando a madeira da porta, tentando distrair-se com as unhas de Nicolas na maçaneta. As memórias do último território vieram com tudo, trazendo tontura e enjoo.

Arriscou outro olhar, desta vez notando uma pia em um canto da sala e, mais importante, o corpo que repousava no leito, coberto por lençóis brancos que se tingiam de rubro. Pensou em entrar, mas antes que pudesse dar o primeiro passo, Nicolas fechou a porta. Os dois trocaram um breve olhar, havia uma pergunta entalada na garganta de Bárbara, fazê-la poderia muito bem levar a uma descoberta infeliz.

— Vou ver se é um deles — disse Nicolas. — Fique de guarda.

Bárbara assentiu e virou de costas para a porta, mantendo os olhos no corredor e no caminho por onde entraram. Ouviu o homem entrando e alguns segundos depois, o som de água escorrendo. Ele saiu do quarto balançando mãos úmidas e limpas. Não esperou Bárbara perguntar.

— Não era nenhum dos dois. Vamos checar as demais.

As outras salas estavam vazias e limpas, nenhuma gota de sangue em lugar algum. Não havia sinal dos companheiros, mas era melhor isso do que vê-los naquele corredor.

Chegaram no elevador. Ao lado esquerdo das portas estavam os botões para chamá-lo, e acima delas havia um painel digital mostrando o andar em que ele se encontrava.

— Andar menos um? Isso está funcionando? — Bárbara apertou o botão para subir, que se acendeu com uma leve luz amarelada.

— Talvez seja o subsolo.

O painel alterou o andar de “-1” para “T”. Bastou as portas abrirem para que ouvissem algo vindo de trás. Ela se virou e viu duas pessoas entrando na primeira sala que investigaram.

— Merda, vamos rápido! — Entrou no elevador, prestes a acionar qualquer comando que os tirasse dali, mas parou no último momento ao ler os três botões no painel. Lidos de baixo para cima, eram: Avaliação, Perdição e Recuperação.

— Que porra é essa?!

As duas figuras saíram da sala, trazendo consigo o leito sangrento, e correram na direção do elevador.

— Vai qualquer coisa mesmo.

Bárbara aproximou o dedo do painel, mas Nicolas segurou seu pulso.

— Vamos aguardar.

— E ficar no elevador com eles?

— São só dois, esse número eu aguento.

— Só quero ver.

Esperaram e viram que a dupla era um enfermeiro e uma enfermeira, as faces nada mais que telas em branco. Entraram no elevador espaçoso o suficiente para a maca e os outros quatro ocupantes, e apertaram o botão “Recuperação”. As portas se fecharam, eles subiram e nem cinco segundos depois um “ding” soou no alto-falante, anunciando sua chegada ao terceiro andar. Os enfermeiros dispararam para fora, deixando Bárbara e Nicolas sozinhos, e o chão manchado do sangue que pingou da maca.

Saíram do elevador. Os olhos da mulher logo foram para a porta mais próxima, temendo que alguma ameaça saltasse para cima deles, mas tudo que viu foi uma placa com o nome “Raíssa” próxima ao topo. Olhou para a entrada do quarto seguinte, à direita: mesmo tom, mesmo material, nome diferente. As demais seguiam o mesmo padrão.

Enquanto olhava adiante, Bárbara quase não viu Nicolas se aproximando da porta “Raíssa” e colocando a mão na maçaneta. A motoqueira abriu a boca, mas o líder levou o dedo aos lábios antes que o som saísse. Mesmo assim, ele entendeu o pedido e deixou-a ir na frente. Murmúrios escapavam pelas frestas, chegando quase inaudíveis aos ouvidos de Bárbara. Seja lá o que estivesse do outro lado, sabia falar.

Sentiu os dedos suados contra o metal da maçaneta e o girou. O clique suave da lingueta se recolhendo não silenciou as vozes do outro lado. No quarto havia uma menina de no máximo quinze anos. Ela sentava-se em um leito com travesseiros servindo como apoio para suas costas. Ao lado dela, em uma cadeira, estava um jovem de idade semelhante. Ele segurava e apoiava a testa contra as costas da mão da enferma.

— Me desculpe, me desculpe, não servi para nada.

— Shhh — disse a garota, com um pequeno sorriso. — Estou aqui, estou bem. Está tudo bem agora.

Do outro lado da cama, tinha um armário entreaberto com algumas roupas dentro. No interior, também era possível ver alguns livros que, pela grossura e tamanho, deviam ser de estudos. Bárbara fechou a porta com tanto cuidado quanto abriu. Se virou para Nicolas e o empurrou de leve no peito. Os dois recuaram até o meio do corredor.

— Eu vi direito? Parecia só uma guria hospitalizada — disse Bárbara.

— E um rapaz acompanhando ela, eu vi. Mas não podemos acreditar nisso, aqui não é um hospital.

— Eu não vou atrapalhar os dois.

Nicolas a encarou e Bárbara sustentou seu olhar. Segundos depois, o homem direcionou seus olhos até o próximo quarto.

— Tem pessoas nesse andar, talvez encontremos os três por aqui.

Seguiram pelo corredor, abrindo incontáveis portas e checando o conteúdo delas. Quarto após quarto, encontravam sempre a mesma cena, um paciente e um familiar ou amigo. Apenas em uma ocasião encontraram mais de uma pessoa como acompanhante. De vez em quando mais enfermeiros passavam por eles, indo até um quarto, deixando o paciente e voltando.

Fizeram questão de memorizar quais eram os quartos com os novos pacientes e visitá-los. O primeiro surpreendeu. Esperavam entrar em um quarto com um cadáver dentro, mas encontraram um jovem relativamente saudável e inteiro, e uma mulher conversando com ele. Os demais seguiram este padrão: uma maca sangrenta passava e um paciente saudável era deixado no quarto, onde ninguém mais entrava, porém, ao checá-lo, sempre havia um acompanhante.

Depois de muito andar, abrindo portas e escutando trechos de conversas, chegaram a uma com a identificação de “Joaquim”. O processo estava tão automático que Bárbara abriu quase sem pensar. Seu coração bateu forte ao ver Dominique como acompanhante no interior do quarto. Na cama, um homem idoso conversava com ela. Mesmo com a idade, ele mantinha a boa forma, dava para ver pela grossura dos braços, possuía também uma voz rouca e forte. Os dois ocupantes conversavam amenidades, mas logo Dominique olhou na direção da porta. Um breve arrependimento abateu Bárbara por terem adentrado aquele santuário.

A idosa acariciou e beijou a mão do enfermo, sussurrando algo em seu ouvido na sequência. Os olhos dele encheram-se de lágrimas.

— Não pode ficar mais um pouco?

— Eu adoraria, queria ficar aqui para sempre, mas eu preciso ir. — Apontou na direção dos companheiros. — Estou ajudando eles agora, é importante. Um último dever para uma velha como eu.

— Eu… entendo. — Ele olhou para Bárbara e assentiu de leve, voltando a fitar Dominique em seguida. — Vou esperar.

A idosa se curvou sobre a cama e beijou os lábios do homem. Segurou suas mãos uma última vez e soltou, virando-se na direção da porta e caminhando para a saída. Bárbara e Nicolas abriram espaço e deixaram-na passar.

— Dominique… eu… — começou Bárbara.

— Não se preocupe comigo — respondeu a idosa, o olhar firme em frente, mas com a voz falhando na última palavra. — Joaquim está morto e eu sei disso. Deus me recompensou com mais alguns momentos ao lado hoje.

— Agora sabemos de uma coisa, Fernando está por aqui — disse Nicolas, olhando de canto para Bárbara. — E seu amigo também. Vamos encontrar os dois.