Exame

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Do topo de uma casa de dois andares, Urin observava o mercado de Estrinia, montado uma vez por semana para mostrar as mercadorias de comerciantes e produtores da região. As peles de animais caçados, vegetais e plantas eram organizadas em estandes de uma praça barrenta. Aqueles que tivessem azar exibiam suas mercadorias no chão, colocando-as por cima de algumas peles velhas. Ali os mercadores tentavam atrair os clientes de diversas formas, seja gritando sobre as qualidades de seu produto, ou sobre os defeitos do produto dos outros. Era pouco depois do meio-dia e a multidão de clientes tinha alcançado seu auge, ainda assim era incapaz de preencher toda a praça, que foi projetada para conter o dobro de pessoas.

Urin bocejou, coçou os olhos e olhou para as saídas do mercado. Foi então que viu um garoto, de no máximo dez anos, com roupas maltrapilhas e magro como um cão sem dono, sair correndo do mercado, passando por diversas pessoas e desviando de um cavalo. Atrás dele vinham dois homens, um deles era um velho com uma barriga saliente, o outro um homem com corpo musculoso e um porrete na mão. O olhar de Urin focou no garoto, ele estava subindo uma rua irregular e cheia de pedras soltas, se seguisse por ela, chegaria na periferia da cidade.

Pulando e correndo de construção em construção, Urin seguiu o garoto. Seus passos eram cuidadosos, evitando telhas quebradas ou cheias de limo, e apesar do cuidado, conseguia manter o ritmo do garoto. Olhou para trás por um momento, vendo que o homem truculento não estava mais lá, o garoto era perseguido somente pelo velho, que gritava a plenos pulmões:

— Alguém pegue ele! Ladrão!

A população demorava a reagir, notando o garoto só depois que já havia passado por eles, ou então nem reagia e seguia com seus afazeres. A rua começou a afinar, o garoto começou a pechar em algumas pessoas, escapou por pouco de ser pego por uma delas, e decidiu entrar em um beco.

Urin estalou a língua, o beco não tinha acesso por cima, somente pelos lados. Correu até onde seria a saída do garoto e aguardou, mas, passados alguns segundos, nada aconteceu. Urin suspirou, foi até uma ruela pouco movimentada e desceu dos telhados, correndo de volta para o beco. Ao chegar perto dele, notou no meio os dois homens e o garoto, se aproximou da entrada e ficou apenas observando.

O garoto estava encolhido no chão, de costas para a parede. O velho estava na outra ponta do beco, arfando, perto de alguns panos velhos e sujos. O truculento estava perto do garoto, chutou sua barriga algumas vezes e depois o levantou pelo colarinho da roupa, rasgando-a no processo. Desferiu um soco na face do garoto e o chacoalhou, estava prestes a dar um outro golpe.

— Chega — disse o velho, respirando fundo em seguida e se aproximando dos dois.

O truculento parou na mesma hora, a mão ainda no ar, em posição de ataque. O garoto, com um arroxeado tomando o lado esquerdo de sua face, próximo ao olho, virou a cabeça para o velho, mas nada falou.

— Devolve. — O velho estendeu a mão.

— Devolver o quê? — perguntou o garoto com voz fraca, olhando para a mão do velho.

— O que você roubou de mim, seu merdinha. — O velho se aproximou e se agachou na altura do garoto. — Acha que não vi?

— Não roubei nada.

As palavras do garoto foram seguidas de outro soco em sua face. O truculento largou ele no chão e o espancamento continuou. Quando o truculento sacou o porrete, Urin entrou no beco soltando assovio alto. Todos pararam e olharam para ele.

— Vai matar o garoto com isso — falou Urin, caminhando até ficar próximo dos homens. Tinha aproximadamente quinze anos e, com seu corpo magro, parecia muito pequeno em relação ao truculento.

— É pra ele aprender a não roubar — respondeu calmamente o velho, voltando a olhar para o garoto. O truculento estava prestes a continuar.

— O que ele roubou? — perguntou Urin, tateando uma bolsinha de couro na sua cintura que tilintou ao toque.

O velho voltou a olhar para ele, encarando-o por alguns segundos. Um sorriso tomou o canto de seu rosto, então falou:

— Dois salames e um pão novinho.

Urin franziu o cenho, então tirou a bolsa da cintura e começou a retirar moedas de dentro dela.

— Isso dá o quê? Trinta bronzes?

O velho assentiu. Urin tirou o equivalente a quarenta bronzes da bolsa, se aproximou do velho e lhe entregou o dinheiro. O velho contou tudo, então assentiu para o truculento. Os dois caminharam para fora do beco.

— Isso aí — o velho olhou para o garoto — não vale um salame.

Urin olhou para o garoto no chão, todo encolhido e com machucados pelo corpo, e o ajudou a se levantar. As pernas do garoto falharam e ele teve que se apoiar na parede, com cheiro de mijo, para se manter em pé.

— Tu quer morrer, garoto? — falou Urin, aumentando o tom de voz.

— Desculpe. — O garoto olhou para baixo.

— Então?

Ele olhou para os panos velhos no beco. Urin assentiu, foi até lá e puxou os panos, revelando um salame. Pegou, olhou dele para o garoto, então perguntou:

— Por que deixou aqui?

— Pra pegar depois.

Urin sorriu, se aproximou do garoto e o pegou no colo.

— O que tá fazendo? — Os olhos do garoto estavam arregalados.

— Você passou.

— Mas eu…

— Fez o que eu pedi. — Urin começou a caminhar para fora do beco. — Bem-vindo à gangue, Nils. Vou te mostrar como ser um ladrão de verdade.

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