Mal entendido

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Para tudo havia um limite, e para Gabriela a situação tinha ultrapassado, e muito, esse limite. Passara meses trocando mensagens e carícias com Rafael. E qual foi sua recompensa? Um pé na bunda quando a tal da Ana apareceu. Seus punhos cerravam e a pistola no bolso de sua jaqueta ganhava um novo peso só de lembrar dos dois.

Não foi difícil entrar no prédio do maldito, ela conhecia o porteiro e bastou uma desculpa esfarrapada para que ele abrisse o portão. Uma vez em frente ao apartamento dele, Gabriela tirou do bolso a chave da porta, roubada habilmente no dia em que foi dispensada, e destrancou a porta.

Abriu uma fresta da porta e olhou através dela. A luz da sala estava desligada, o apartamento estava silencioso, até demais. Seria até melhor que os dois estivessem fora, Gabriela simplesmente esperaria lá dentro e escolheria a melhor posição para ficar. Ensaiou este momento durante os dias anteriores, já sabia o que fazer e o que falar.

Foi até a sala e notou que a luz do quarto estava acesa, se aproximou um pouco do quarto e ouviu alguns grunhidos vindo de lá. Sentiu o coração batendo cada vez mais forte, uma força desconhecida parecia tomar conta dela. Apesar de tudo, essa era a situação ideal, o momento de amor dos dois acabaria em desastre, exatamente como ela queria. Caminhou com passos leves até o quarto e viu lá dentro, na parede, uma sombra, estava em pé e parecia ter algo na mão. Gabriela agora sabia onde atirar primeiro.

Gabriela pulou dentro do quarto e começou a atirar. O recuo da arma não existia para ela, sua mira foi precisa e mortal. Só parou quando a pistola ficou sem munição, o corpo de Ana estava no chão, espalhando sangue pelo piso. Gabriela sorriu e cuspiu em direção ao corpo, notando pela primeira vez que o objeto nas mãos de Ana era um chicote com espinhos cheios de sangue. Ela franziu o cenho e olhou em volta, finalmente vendo Rafael.

Ele estava na cama, nu e de olhos fechados. Por todo o seu corpo haviam ferimentos, alguns rasos, outros profundos o suficiente para expor pedaços da carne. Gabriela olhou de Rafael para Ana, levou um momento para entender o que se passava ali. Ela caminhou até a cama, se curvou até os ouvidos de seu antigo amante, e sussurrou: – Bem feito, deveria ter escolhido melhor seu filho da puta.

No fim, Rafael já estava recebendo o que merecia, mas como Ana já não estava ali para finalizar o trabalho, isso cabia à Gabriela agora. Ela foi até o chicote, pegou-o e caminhou até Rafael, imaginando qual seria a melhor forma de concluir a vingança.

Foi então que finalmente ouviu passos pesados vindo em sua direção, mal teve tempo de olhar na direção da porta quando um policial se atirou em sua direção, levando os dois ao chão. Ele a imobilizou com eficiência e em questão de segundos o quarto estava repleto de oficiais. Gabriela se debateu e gritou, tentando se libertar, mas isso não foi o suficiente.

Eles a levaram até a delegacia, e uma vez lá, passou um bom tempo isolada em uma cela. Ela sabia que sua vida estava acabada, não se importava muito com isso, mas queria ter matado Rafael antes. Suas últimas palavras para o homem custaram caro, ela poderia tê-lo enforcado naquele tempo.

Quando finalmente amanheceu, um policial foi até sua cela. Gabriela não tinha vontade de resistir ao seu destino, porém continuou sentada no chão.

– Você está livre – falou o policial enquanto abria a cela.

– O que?! – Gabriela se levantou. – Como assim?

– Conseguimos acordar a vítima e entender o que aconteceu. Ele disse que você o salvou, então está livre. – O policial semicerrou os olhos. – No entanto, continuaremos com a investigação, então não faça viagens por enquanto.

Sem palavras, Gabriela saiu da cela.

– Ficaremos com sua arma também, devolveremos ao final da investigação – completou o policial.

– Eu… acho que não preciso mais dela – falou Gabriela.

O policial apenas deu de ombros. Ela deixou o policial guia-lá, assinou alguns papéis e então saiu da delegacia. Uma vez lá fora, caminhou de volta para sua casa.

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